MOLINOS — Miguel, quietista (1628-1696).
I. Vida. — Miguel Molinos nasceu em Muniesa, grande aldeia ao sul de Saragoça, a 29 de junho de 1628. Seus pais parecem ter sido de condição modesta. Estudou primeiro em Muniesa, ou nas proximidades, depois em Valência (1646). Deve ter obtido ali o grau de doutor em teologia. Em 1663, a província de Valência — clero, exército, deputados — enviou-o a Roma para obter a beatificação do venerável Francisco Jerônimo Simon, morto meio século antes. Molinos não pôde atingir o objetivo de sua missão: Francisco Simon nunca foi beatificado. Em compensação, entrou numa confraria espanhola, a Escola de Cristo, da qual em breve se tornou o chefe, e adquiriu em Roma a fama de diretor incomparável: mulheres do mundo, religiosas, religiosos, prelados, cardeais puseram-se sob sua direção.
Em 1675, publicou em espanhol um pequeno tratado sobre a comunhão cotidiana, Breve tratado de la comunión cotidiana, e no mesmo ano sua obra principal, o Guia espiritual. Escreveu-o também em espanhol: Guía espiritual, e depois ele mesmo o traduziu para o italiano. Obteve com abundância todas as aprovações de uso. O tratado se difundiu muito rapidamente. Foi traduzido nas principais línguas da Europa. É um livro de duzentas páginas minúsculas, um pequeno livro, como a maioria daqueles que tiveram influência sobre a humanidade. O autor aí substituía a meditação pela contemplação, uma contemplação fácil, quietista (ver mais abaixo, Doutrina).
Bem cedo, o Guia provocou contradições. Em resposta, Molinos publicou ou fez publicar as Lettres écrites à un Espagnol désabusé pour l'amener à l'oraison mentale, et lui donner une méthode pour la pratiquer (1676). Pouco depois, escreveu a Défense de la contemplation; mas esta segunda resposta permaneceu manuscrita. As críticas continuaram. Vieram sobretudo da Companhia de Jesus; já em seu título, o livro por excelência dessa congregação, os Exercícios de santo Ignácio, fala contra a contemplação fácil de Molinos. Em 1678, o P. Gottardo Bell'huomo publicou contra ele Le prix et l'ordre des oraisons ordinaires et mystiques. Pouco depois, Molinos escreveu duas longas cartas ao geral dos jesuítas, o P. Oliva. Mostra-se nelas de uma obsequiosidade fácil, de maneiras insinuantes, mas, no fundo, de uma obstinação suave e invencível. Palavras melífluas, olhos no azul, uma doce teimosia: são bem essas as notas características de certos místicos. Oliva permaneceu bastante reservado.
Em 1680, Segneri, o jesuíta mais conhecido da Itália de então, publicava contra Molinos La concorde entre la fatigue et le repos dans l'oraison. Em sentido oposto, homens colocados em posição elevada na Igreja, escritores de talento, declaravam-se a seu favor: o arcebispo de Palermo, Jaime Palafox y Cardona; o cardeal Alderano Cybo, secretário de Estado, e sobretudo o oratoriano Pier Matteo Petrucci, bispo de Iesi. Por volta de 1680 a luta se tornou extremamente aguda. A 2 de novembro de 1681, as obras de Bell'huomo e de Segneri foram postas no Índice. Inocêncio XI inclina-se para os jansenistas; está na piorzinha com os jesuítas; Molinos está no apogeu do favor.
Em 1682, o vento começou a virar. A 30 de janeiro, Innico Caracciolo, arcebispo de Nápoles, denuncia ao papa os desmandos dos quietistas; foi ele quem empregou a palavra por primeira vez. O cardeal Albizzi, o oratoriano Francesco Marchese escrevem no mesmo sentido. Depois, durante três anos, de 1682 a 1685, faltam todos os documentos. Uma calmaria pesada pairava, precursora da tempestade. Molinos terá sido estreitamente vigiado; de repente, a 18 de julho de 1685, foi preso.
O principal representante de Luís XIV em Roma era então o cardeal César d'Estrées. Nessa prisão e em tudo o que se seguiu, qual terá sido o papel dele? Não se sabe bem; mas certos indícios poderiam levar a crer que esse papel foi considerável. Cf. acima, artigo Inocêncio XI, col. 2010-2011. Mabillon, então em Roma, escrevia em seu diário: «Sobre Molinos, as opiniões estão muito divididas. Por que foi ele preso? Não se crê que seja por causa da doutrina de sua obra impressa, mas por causa de cartas, ou ao menos por interpretações desfavoráveis que seus adeptos fizeram de seu pensamento. Não parece que sairá da prisão tão cedo.» J. Mabillon e M. Germain, Muséum italicum, t. I, Paris, 1687, p. 72 (1685-1686).
Nessas linhas, sente-se uma ponta de ironia amarga. Depois de dois séculos e meio, é ainda o julgamento mais plausível que se pode fazer sobre Molinos. Inocêncio XI prevê que não poderá salvar Molinos; quer ao menos poupar a prisão a Petrucci; a 2 de setembro de 1686, cria-o cardeal.
As incarcerações se multiplicam. O processo se arrasta. Por fim, na primavera de 1687, depois de quase dois anos de reclusão, Molinos se reconhece culpado; desautoriza sua doutrina, lamenta seus maus costumes e renuncia a apresentar sua defesa. De suas obras, de suas cartas, de suas confissões e das de seus discípulos, extraem-se 263 proposições; depois condensam-nas em 68. A abjuração teve lugar na igreja da Minerva, a 3 de setembro de 1687. A multidão era imensa. Quando Molinos chegou, puseram-se a gritar: Al fuoco! Se o vento tivesse soprado no sentido contrário, teriam dito igualmente: Evviva il Santo! A leitura da acusação e da sentença durou duas horas; quatro dominicanos se revezaram para levá-la a bom termo.
Molinos é condenado à prisão perpétua. Ele se levanta e lê sua retratação. Permaneceu constantemente calmo, «o rosto alegre», diz um relato contemporâneo. [G. Burnet], Trois lettres touchant l'état présent d'Italie... Colônia, 1688, p. 126. Sua atitude não traiu o menor transtorno. Todos os presentes ficaram impressionados com essa compostura tranquila, e sem aparência de encenação. Dudon, p. 205-208.
À noite, entre 8 e 9 horas, levaram-no à sua prisão. No percurso, bandos vociferavam: Al fiume! Al fuoco! Pela primeira vez, Molinos empalideceu. Mas logo se recompôs, e disse a seus guardas: «É preciso desculpá-los; para eles, hoje é dia de festa.» Chegado à porta de sua cela, teria dito ao frade que o acompanhava: «Adeus, meu Padre; nos reveremos no dia do juízo; então aparecerá de que lado está a verdade, do meu ou do vosso.» [G. Burnet], Trois lettres... 1688, p. 128; reproduzido com nuances de tradução em [Jean Carnaud de la Croze], Recueil de diverses pièces concernant le quiétisme et les quiétistes, 1688, p. 329, relato protestante, favorável a Molinos.
No dia 19 de novembro seguinte, Inocêncio XI publicou contra Molinos a bula Caelestis Pastor; nela se inseriram as 68 proposições já condenadas a 28 de agosto. Texto dessas proposições em Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 1221-1288.
Molinos viveu ainda mais de nove anos, sempre na prisão. Morreu ali a 28 de dezembro de 1696. Todos concordam em dizer que esses últimos anos e essa morte foram piedosos e exemplares. Aliás, nenhum eco nos revela o que, durante esses nove anos, nem tampouco nos dois anos de prisão preventiva, se passou nessa alma ardente e atormentada. Vinte anos durante os quais Roma adulara Molinos; desses anos, não temos dele nenhum canto de triunfo. Do dia da grande humilhação, do dia da abjuração, de seus onze anos de prisão, não temos nenhum grito de desespero, nenhum sobressalto de indignação. No entanto, Molinos era um pregador, com a necessidade de falar horas inteiras; e o Guia espiritual traía ardores violentos e subterrâneos. Nem por um instante esses ardores se abriram em cratera. Nesse homem, tudo é misterioso e angustiante. Chega-se quase a perguntar se a explicação desse silêncio aterrador não estaria nesta passagem do Guia: «Essas almas felizes e elevadas só se alegram com o desprezo, a solidão, o abandono e o esquecimento em que as deixam. Vivem tão desapegadas [de tudo] que, mesmo recebendo constantemente numerosas graças sobrenaturais, não se emocionam com isso; não se deleitam nelas mais do que se nunca as tivessem recebido. No fundo do coração, conservam sempre um vivo sentimento de suas baixezas e um grande desprezo de si mesmas, sempre humildemente voltadas para o abismo de sua indignidade e de sua vileza. Conservam essa quietude, serenidade e igualdade de alma nos tormentos mais rigorosos e mais acerbos, tanto quanto na glória e nos favores extraordinários. Nenhuma notícia feliz lhes traz alegria, nenhuma desgraça lhes causa tristeza. As tribulações não conseguem perturbá-las; Deus pode lhes enviar comunicações interiores e contínuas, e elas não tiram disso nenhuma vaidade, constantemente repletas que estão de um temor santo e filial, de uma paz, de uma constância e de uma serenidade maravilhosa.» Guia, l. III, c. I, n. 7, 8, Barcelona, Biblioteca orientalista, s. a. (1900-1910?) p. 133.
Na adversidade como na felicidade, Molinos parece ter vivido o seu Guia.
II. Doutrina e conduta moral. — A doutrina de Molinos ressalta de suas poucas obras, notadamente de seu Guia espiritual, e dela ressalta com precisão suficiente. Mas suas tendências morais e sobretudo sua conduta privada ressaltariam muito mais de suas cartas, que eram muito numerosas, de sua direção espiritual, dos depoimentos que, sobre sua direção e sobre sua conduta, se fizeram no curso do processo. Essa correspondência, outros papéis apreendidos por ocasião de sua prisão, os depoimentos do processo, tudo isso está enterrado nos arquivos do Santo Ofício. E esses papéis são inacessíveis. Ver, acima, artigo Inocêncio XI, col. 2010; P. Dudon, p. 84, 153, 191. Enquanto assim for, e talvez ainda depois, o julgamento sobre a conduta privada de Molinos permanecerá provisório.
Como o próprio Molinos diz em observações à frente de seu Guia, seu objetivo é ensinar nele uma maneira fácil de alcançar a contemplação, uma contemplação adquirida (Proemio: advertencia I). E essa contemplação será acompanhada de um abandono totalmente passivo nas mãos de Deus, ou no que se crerá serem as mãos de Deus. O tratado não tem um plano lógico, mas, o que é mais eficaz, tem a lógica do sentimento. E o sentimento aí retorna constantemente a estas duas tendências: tendência à passividade absoluta, tendência à contemplação de quietude. «Antes de tudo, os jesuítas insistem na luta contra si mesmo, na renúncia ativa às tendências terrestres, corporais e egoístas. Antes de tudo, pelo contrário, Molinos insiste na contemplação de pura fé, e no aniquilamento de si no bom prazer divino; transporta, como num primeiro salto, seus discípulos, além das etapas da via purgativa e iluminativa, para as regiões da união com Deus.» Dudon, p. 98.
Para Molinos, o verdadeiro estado do cristão é a contemplação. Essa contemplação separa os cristãos em duas categorias bem distintas: os cristãos imperfeitos, e os contemplativos. Os cristãos imperfeitos terão uma vida religiosa ativa. Os contemplativos não farão orações vocais; poderão omitir até as orações obrigatórias, como o breviário. Viverão na quietude: Deus está neles mesmos e os conduz. Eles se deixam levar, atendo-se a viver num recolhimento que nada perturba, com um perfeito abandono à vontade divina, sem esforços para praticar um ato de virtude, formar um desejo ou um pensamento, nem mesmo para repelir uma tentação. Os contemplativos se abandonarão à ação de Deus também para a comunhão; não terão de fazer nem preparação, nem ações de graças. Ou, pelo menos, bastar-lhes-á «permanecer na resignação passiva habitual; essa resignação compensa eminentemente todos os atos de virtude que poderiam ser praticados e são praticados na via ordinária.» Bula Caelestis Pastor, 32ª proposição condenada.
Molinos escreveu em seu Guia: «A melhor preparação para a comunhão é comungar com frequência; uma comunhão prepara para a outra. Todavia, quero ensinar-te duas espécies de preparação... A preparação das almas exteriores consiste em confessar-se, separar-se das criaturas antes da comunhão, manter-se em silêncio, considerando quem é aquele que se vai receber e quem é aquele que o recebe... A segunda preparação convém às almas interiores e espirituais; consiste em viver numa maior pureza, numa maior renúncia a si mesmo, num total desapego, na mortificação interior e num recolhimento contínuo. Os que caminham por essa via não precisam de uma preparação atual: sua vida é uma preparação contínua e perfeita.» Guia, l. II, c. II, p. 98-100, 119.
Nessa pretensa contemplação contínua, nesse repouso ininterrupto, quem nos invadirá? Deus, ou as forças físicas, as forças da subconsciência? Sem dúvida, aqueles que, ainda que uma só vez, gozaram da união mística, nos dizem que depois não se pode confundir essa união com outras invasões. Mas aqueles que nunca experimentaram essa união, como saberão se é Deus ou as mil forças da natureza física que sentem agir em si?
As ideias de Molinos sobre a contemplação partiam de uma falsa concepção da natureza humana. Esse erro tocava na teoria filosófica do ontologismo, muito em honra no século XVII, mas aventurosa e rejeitada pela Igreja. E a passividade completa que devia acompanhar essa contemplação tocava na teoria da corrupção total do homem pela queda original, teoria luterana e jansenista; mais ainda talvez do que o ontologismo, essa teoria estava muito difundida no século XVII, e ela também é malvista pela Igreja. Eis a origem remota do quietismo, as duas grandes influências que o produziram e que, talvez mais ainda, causaram seu sucesso.
A origem próxima do movimento encontra-se entre os Alumbrados ou Iluminados, que, de meados do século XVI até o fim do XVII, tiveram grande lugar na Espanha. Onde Molinos assimilou seus erros? Sem dúvida em Valência, onde pôde ler as obras de Jean Falconi (1596-1638); elas foram ali editadas em 1602. Mais tarde, em Roma, inspirou-se muito em Gregório Lopez (1542-1596). Falconi e Lopez eram personagens piedosos; todavia, tendiam a uma contemplação quietista.
Molinos teve também precursores na França e na Itália, notadamente na Itália do Norte. No Piemonte, na Lombardia, no Vêneto, homens, e sobretudo mulheres, em pequenos cenáculos, pregavam a oração de quietude, o abandono das orações vocais, e do culto exterior. Em 1660 e 1664, o Alphabet de Falconi foi traduzido para o italiano. Nesses anos, François Malaval, o leigo cego de Marselha (1627-1719) começava a ter influência. Em 1664, publicara sua Pratique facile pour élever l'âme à la contemplation; a partir de 1669, a obra saiu várias vezes em italiano. Por fim, a partir de 1673, o oratoriano Pierre Petrucci (1636-1701) fez publicar vários tratados quietistas: La Vergine assunta; Meditationi, etc.; em todos eles ensina a oração de pura fé, em que a inteligência age no lugar do raciocínio, em que se produz o aniquilamento das potências da alma.
Molinos resumiu todo esse movimento e tornou-se seu principal representante. Mas seus erros eram sutis e pouco aparentes. Assim, permitia comungar sem se confessar. Mas isso era bastante o uso da Igreja primitiva e, desde Pio X, a confissão voltou a ser de uso menos frequente. Do mesmo modo, muitos místicos ortodoxos falaram da contemplação adquirida em termos que se assemelhavam um pouco aos seus. Ver, por exemplo, G. Picard, S. J., La saisie immédiate de Dieu, na Revue d'ascétique et de mystique, abril de 1923, p. 161. Um dos principais méritos de são João da Cruz e de santa Teresa teria sido mesmo o de ter posto em evidência «a importância capital desse estado de oração para a condução das almas». R. P. Théodore-de-Saint-Joseph, Essai sur l'oraison selon l'école carmélitaine, Bruges, 1923, p. 74; ver também Revue d'ascétique et de mystique, abril de 1924, p. 185. E a ideia da corrupção integral do homem está geralmente no fundo da mística do século XVII. Explica-se, pois, melhor o favor prodigioso de que, durante vinte anos, Molinos pôde gozar, em toda a Igreja e notadamente na própria sede da doutrina. Assim, o desvio provinha de sua época tanto, e mais, do que dele mesmo.
Uma vez retratados esses erros intelectuais, admitir-se-ia, pois, dificilmente que eles tivessem bastado para acarretar os rigores de que Molinos e seus partidários continuaram a ser objeto. Queixas contra os costumes de Molinos e dos seus, e mais ainda, uma relação direta entre sua doutrina e uma conduta relaxada, eis, pois, o que deve ter sido a causa capital desses rigores.
No que respeita a Molinos, essas queixas eram fundadas? Já o vimos aqui: falta-nos a principal fonte de informações, os documentos do Santo Ofício. Além disso, certos detalhes deixam perplexo. Por ocasião de sua prisão, seu criado proclama que ele é digno dos altares. Dudon, p. 169. O cardeal d'Estrées, o grande adversário de Molinos, diz mesmo com mais força ainda: «Quando o quiseram levar à carruagem [para conduzi-lo à prisão], seus criados, depois de lhe calçarem os sapatos, lançaram-se por terra e lhe beijaram os pés.» E. Michaud, Louis XIV et Innocent XI, 1883, t. V, p. 457. Mais tarde, é verdade, uma criada depôs contra ele; parece mesmo que foi unicamente o testemunho dessa mulher que pesou contra a conduta pessoal do acusado. Dudon, p. 193, 290. Mas, em Roma, durante o processo, a sobre-excitação foi extrema; certos depoimentos parecem ter sido obtidos por tortura. E dessa mulher, o auto de acusação conservou depoimentos que nos parecem estranhos, este, por exemplo: Velle mulierem illam non raro mingentem aspicere. Dudon, p. 290. Na Itália, talvez ainda mais na Itália de então, era, pois, tão difícil obter espetáculos desse gênero? Entre essa mulher e o doutor, não parece ter havido relações íntimas. Com todas as outras liberdades que relata o auto de acusação, essa é uma reserva altamente inverossímil. Como explicá-la? «O detalhe das acusações convida a conjeturar
Autor original: J. Paquier
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