MISTÉRIO

MISTÉRIO

MISTÉRIO. Considera-se aqui o mistério unicamente do ponto de vista teológico. As questões relativas à comparação entre os mistérios cristãos e os mistérios religiosos estranhos ao cristianismo não serão tratadas aqui. Do mistério, teo-

MISTÉRIO 2586 considerado logicamente, estudaremos sucessivamente a noção, a existência (I e II, col. 2590) e III. A inteligência (col. 2594). O modo pelo qual o mistério é levado ao nosso conhecimento, a saber, a revelação, será exposto mais adiante. — Ver Revelação.

I. Noção. De modo geral, a palavra μυστήριον designa uma coisa secreta, toda realidade naturalmente oculta ao nosso conhecimento natural. É a noção profana do mistério. Transportada para o terreno religioso, essa expressão designava, entre os gregos, uma realidade de ordem religiosa, doutrina ou rito, cujo conhecimento devia ficar reservado a um pequeno número de iniciados. Assim havia, em Atenas, os mistérios de Elêusis, os pequenos mistérios em honra de Perséfone, e os grandes mistérios, em honra de Deméter; no mundo greco-romano, os mistérios de Átis e de Cibele, etc.

1° Na Escritura, encontra-se esse duplo sentido, profano e religioso. O sentido profano, coisa secreta, lê-se em Tobias, xxii, 7; Judite, ii, 2; Prov., xx, 19, Eccli., xxii, 27; xvii, 17, 24; II Mach., xiii, 21, e pode ainda ser, mas com um matiz religioso, Apoc., xvii, 5. O sentido religioso é mais frequente. Fala-se dos mistérios divinos, Dan., ii, 19-27; Sap., ii, 22; vi, 24, e é Deus quem os faz conhecer, Dan., ii, 28, 29, 47.

No evangelho, Cristo anuncia os «mistérios do Reino», Matth., xiii, 11; Marc., iv, 11; Luc., viii, 10. A palavra μυστήριον é empregada aqui indiferentemente no singular (Marc.) ou no plural (Matth., Luc.). Nas epístolas paulinas, a palavra se lê 21 vezes; está ordinariamente no singular e designa o mistério da revelação de Cristo ao mundo, que por ele deve ser salvo; cf. Rom., xvi, 25; Col., i, 26-27; iv, 3; Eph., i, 9; iii, 3-9; vi, 19; I Tim., iii, 9; sem que, no entanto, se deva necessária e exclusivamente ligar a essa significação uma perspectiva escatológica tomada de Daniel, como pretendeu Hans Von Soden, Μυστήριον und Sacramentum in den ersten drei Jahrhunderten der Kirche, em Zeitschrift für die N. T. Wissenschaft, xii, 1911, p. 188 sq.

Encontra-se também a palavra μυστήριον em São Paulo com um sentido menos preciso: o conjunto da fé, os mistérios ocultos em Deus, I Cor., ii, 8; iv, 1-2; cf. Col., ii, 2; os mistérios que o Espírito faz conhecer, I Cor., xiv, 2; a profecia relativa à cegueira de Israel e à sua conversão final, Rom., xi, 25. Em Apoc., x, 7, essa palavra designa toda a economia providencial.

2° Ensinamentos do Magistério. Foi no século xix que o magistério se pronunciou explicitamente sobre as relações entre os mistérios e a razão humana.

1. Ensinamento geral. Encontramo-lo disperso em diferentes atos de Gregório XVI e sobretudo de Pio IX. Proclama-se que os mistérios são absolutamente impenetráveis à inteligência humana, exsuperant omnem sensum, Gregório XVI, encícl. Mirari vos, Denz.-Bannw., n. 1616; longissime vires excedunt nostri intellectus, Pio IX, alocução Singulari quadam, id., 1642; Syllabus, prop. n. 1704. Mesmo supondo a revelação, a razão humana, em relação aos mistérios, não pode, por seus princípios naturais e suas próprias forças, chegar a adquirir deles uma ciência e uma certeza, Pio IX, encícl. Gravissimas inter, n. 1669; cf. 1671, e Leão XIII, prop. 25 de Rosmini, n. 1915.

Logo, nenhuma demonstração possível, nenhuma inteligência possível dos mistérios com os únicos recursos da razão humana, Pio IX, encícl. Tuas libenter, n. 1682; cf. Syllabus, prop. 9, n. 1709. Impenetráveis à razão humana, eles o são também à inteligência angélica, Pio IX, encícl. Gravissimas inter, n. 1673. Querer penetrá-los, isto é, compreendê-los, é, pois, com uma arrogância culpável, exagerar as forças da razão, Pio IX, aloc. Singulari quadam, n. 1642; cf. 1645. Entretanto, os mistérios não são produtos da imaginação e invenções humanas, Pio IX, encícl. Qui pluribus, n. 1634. Verdades reveladas por Deus, não se pode descobrir neles nenhuma contradição verdadeira com a razão, Id., n. 1635; cf. prop. 1, subscrita por Bonnetty, n. 1649, e prop. 6 do Syllabus, n. 1706. Pela analogia das coisas criadas e à luz da fé, é contudo possível ter deles uma certa inteligência, cheia de proveito para a alma, Concílio do Vaticano, sess. iii, c. iv, n. 1796.

2. Ensinamento do concílio do Vaticano. Para nos limitarmos estritamente à questão dogmática do mistério, devemos considerar, no c. iv De fide et ratione da terceira sessão do concílio do Vaticano, apenas os parágrafos 1 e 2, o primeiro referente à natureza e à existência do mistério na religião católica, o segundo definindo o conhecimento que a inteligência humana pode ter dele aqui na terra.

Hoc quoque perpetuus Ecclesiae catholicae consensus tenuit et tenet, duplicem esse ordinem cognitionis non solum principio, sed objecto etiam distinctum: principio quidem, quia altero naturali ratione et altero fide divina cognoscimus; objecto autem, quia praeter ea, ad quae naturalis ratio pertingere potest, credenda nobis proponuntur mysteria in Deo abscondita, quae, nisi revelata divinitus, innotescere non possunt. Quocirca Apostolus, qui a gentibus Deum per ea quae facta sunt (Rom., i, 20) cognitum esse testatur, disserens tamen de gratia et veritate, quae per Jesum Christum facta est (cf. Joa., i, 17) pronuntiat: Loquimur Dei sapientiam in mysterio quae abscondita est, quam praedestinavit Deus ante saecula in gloriam nostram, quam nemo principum hujus sæculi cognovit...

A Igreja católica sempre concordou em admitir, e sustenta, que há duas ordens de conhecimento distintas, não só pelo seu princípio, mas também pelo seu objeto: pelo princípio, porque conhecemos numa delas por meio da razão natural, e na outra por meio da fé divina; pelo objeto, porque, além das verdades a que a razão natural pode alcançar, a Igreja propõe à nossa fé mistérios ocultos em Deus, que só podem ser conhecidos pela revelação divina. É por isso que o Apóstolo, que dá testemunho do conhecimento que as nações tiveram de Deus por meio das coisas criadas, diz no entanto, falando da graça e da verdade dadas por Jesus Cristo: «Pregamos a sabedoria de Deus encerrada no mistério, aquela que está oculta, que Deus predestinou antes de todos os séculos para nossa glória, que nenhum dos príncipes deste século conheceu...

...para nossa glória, que nenhum dos príncipes deste século conheceu; mas a nós, Deus a revelou por seu Espírito; pois esse Espírito penetra tudo, até os segredos mais profundos de Deus. E o próprio Filho único presta glória a seu Pai por ter escondido estas coisas aos sábios e aos prudentes e as ter revelado aos pequenos.

Nobis autem revelavit Deus per Spiritum suum; Spiritus enim omnia scrutatur, etiam profunda Dei (I Cor., ii, 7, 8, 10). Et ipse Unigenitus confitetur Patri, quia abscondit hæc a sapientibus et prudentibus, et revelavit ea parvulis (cf. Matth., xi, 25).

Quando a razão, iluminada pela fé, busca com cuidado, piedade e moderação, ela adquire, é verdade, pelo dom de Deus, alguma inteligência muito frutuosa dos mistérios, tanto pela analogia das coisas que conhece naturalmente, quanto pela ligação dos mistérios entre si e com o fim último do homem; no entanto, nunca se torna capaz de penetrá-los como as verdades que constituem seu objeto próprio, pois, com efeito, por sua natureza, os mistérios divinos superam de tal modo o entendimento criado, que, mesmo depois de comunicados pela revelação e recebidos pela fé, permanecem ainda cobertos pelo véu da própria fé e envoltos como por uma espécie de nuvem, «enquanto permanecemos afastados de Deus por esta vida mortal; pois caminhamos pela via da fé, e não pela da visão».

At ratio quidem, fide illustrata, cum sedulo, pie et sobrie quaerit, aliquam Deo dante mysteriorum intelligentiam eamque fructuosissimam assequitur tum ex eorum, quae naturaliter cognoscit analogia, tum e mysteriorum ipsorum nexu inter se et cum fine hominis ultimo; Nunquam tamen Idonea ea perspicienda Instar veritatum, quae proprium ipsius objectum constituunt. Divina enim mysteria suapte natura intellectum creatum sic excedunt, ut etiam revelatione tradita et fide suscepta ipsius tamen fidei velamine contecta et quadam quasi caligine obvoluta maneant, quamdiu in hac mortali vita peregrinamur a Domino per fidem enim ambulamus et non per speciem (II Cor. v, 6 sq.).

Cânon 1. Anátema a quem dissesse que a revelação divina não encerra propriamente falando nenhum mistério verdadeiro, mas que uma razão convenientemente cultivada pode, por seus princípios naturais, compreender e demonstrar todos os dogmas da fé.

Canon 1. Si quis dixerit, in revelatione divina nulla vera et proprie dicta mysteria contineri, sed universa fidei dogmata posse per rationem rite excultam e naturalibus principiis intelligi aut demonstrari, anathema sit. Denz.-Bannw., n. 1795, 1796, 1816.

Dessas declarações e definições do concílio, resulta que três propriedades essenciais devem ser atribuídas aos mistérios: 1. São verdades ocultas em Deus, in Deo abscondita, isto é, pertencentes à incompreensibilidade divina, ou, de modo mais preciso, verdades proporcionadas à inteligência divina, infinitamente superior a toda inteligência criada, humana e até angélica. Porque os mistérios são também segredos de ordem divina, que não poderiam ser alcançados pelas luzes finitas de uma inteligência criada, dizem-se verdades sobrenaturais. Na carta Gravissimas inter, Pio IX observa que essas verdades estão acima da natureza e, por conseguinte, não poderiam ser alcançadas pela razão natural nem por princípios naturais: Cum haec dogmata supra naturam sint, idcirco naturali ratione ac naturalibus principiis attingi non possunt. Denz.-Bannw., n. 1671. Resumindo o ensinamento contido nessa carta, o concílio do Vaticano afirma que esses divinos mistérios superam toda inteligência criada.

2. São verdades cujo conhecimento não pode, portanto, chegar até nós senão pela via da revelação: nisi revelata divinitus, innotescere non possunt. Sendo os mistérios verdades proporcionadas somente à inteligência divina, não podem ser conhecidos pelas inteligências inferiores a não ser que Deus os manifeste a elas. É mesmo impossível que Deus crie alguma inteligência capaz de conhecê-los sem revelação; impossível também que desenvolva as luzes naturais de qualquer inteligência criada até fazê-la apreender por si mesma a verdade do mistério. O único meio de que Deus dispõe para manifestar às criaturas esses mistérios é a revelação de sua ciência infinita. Sobre a possibilidade e a realidade dessa revelação, ver este verbete.

3. São verdades que, mesmo conhecidas pela via da revelação divina, permanecem cobertas pelo véu sagrado da fé e envoltas por uma nuvem obscura, sacro ipsius fide velo lecta et obscura caligine obvoluta. Fora dos princípios evidentes para nós, com efeito, só temos uma clara inteligência das verdades que reconduzimos a esses princípios. Ora, os mistérios da fé não poderiam ser reconduzidos por uma criatura a princípios evidentes para ela. De outro modo, eles já não superariam as luzes naturais das criaturas, e deixariam de ser mistérios.

3° Ensinamento teológico: mistério propriamente dito ou absoluto, e mistério impropriamente dito ou relativo. Vê-se como, do ponto de vista estritamente dogmático, a noção de mistério se restringe a uma categoria bem determinada de verdades inacessíveis à razão humana. Para distinguir mais claramente essas verdades de outras verdades que também se podem dizer, sob certos aspectos, inacessíveis à razão humana, os teólogos estabelecem duas categorias de mistérios: os da ordem natural e os da ordem sobrenatural.

1. Os mistérios da ordem natural: mistérios relativos. São verdades atualmente ocultas à razão humana, mas que esta poderia descobrir por suas próprias luzes, pelo menos quanto à sua existência. Só se poderiam chamar mistérios num sentido muito amplo e relativo. Esses mistérios da natureza encerram duas categorias de verdades: a) Umas são ocultas à razão humana somente quanto à sua existência. Exemplos: na ordem física, os seres escondidos no fundo do mar ou no seio da terra; na ordem intelectual e moral, os segredos dos corações, de uma família, de uma sociedade. b) As outras são ocultas à razão não quanto à sua existência, pois são objeto de conhecimento experimental, mas quanto à sua natureza íntima, que nossa razão ainda não pôde alcançar. Exemplos: na ordem física, o que é a energia física, a essência da matéria, a atração universal, a eletricidade, etc.; na ordem biológica, a assimilação nutritiva, a desassimilação, a reprodução, o crescimento, etc.; na ordem psicológica, a sensação, etc.

Todas essas verdades naturais só são, no sentido que acabamos de expor, mistérios em relação à razão humana; é verossímil que a inteligência angélica, que alcança a essência das coisas de maneira intuitiva, conheça essas verdades naturais em sua razão essencial. Só escaparia, mesmo à inteligência angélica, o conhecimento da íntima conciliação que devem ter entre si os atributos divinos naturalmente conhecíveis. Com efeito, só é possível conceber esses atributos divinos pela analogia das coisas criadas, e sua conciliação em Deus (por exemplo, de um lado, a multiplicidade das perfeições, e de outro, a simplicidade divina) escapa forçosamente ao conhecimento natural de todo espírito criado, mesmo do espírito angélico.

2. Os mistérios da ordem sobrenatural ou teológica: mistérios absolutos. São as verdades que não podemos conhecer sem a revelação divina, ao menos quanto à sua existência. Dividem-se também em duas categorias. a) Os mistérios sobrenaturais em sentido amplo, ou preternaturais, e melhor, mistérios de segunda ordem, são verdades cuja existência somente é inacessível à inteligência criada; mas, uma vez conhecida essa existência pela via da revelação, a inteligência criada, por suas próprias luzes, pode facilmente compreendê-los.

Trata-se aqui de fatos cuja existência depende da vontade livre de Deus. Assim, a existência de espíritos puros, a criação do mundo no tempo, o juízo universal, a instituição do sábado como dia de repouso, a Igreja sociedade perfeita e infalível, sua existência na terra até o fim do mundo, o pontificado supremo ligado à Sé de Roma, etc. O concílio do Vaticano alude a esses mistérios de segunda ordem quando declara: Placuisse (Dei) sapientiae et bonitati alia eaque supernaturali via seipsum ac æternae voluntatis suae decreta humano generi revelare. Sess. III, c. 2, De revelatione, Denz.-Bannw., n. 1785.

b) Quanto aos mistérios sobrenaturais propriamente ditos, são precisamente aquelas verdades que superam absolutamente a inteligência criada, isto é, quanto à sua existência e quanto à sua natureza íntima. É só dessas verdades que tratam os documentos do magistério citados mais acima.

4° Definições do mistério sobrenatural propriamente dito. Ao definir o mistério sobrenatural propriamente dito, os autores insistem geralmente nestes dois pontos essenciais: a impossibilidade de a inteligência criada descobrir por suas próprias luzes a existência do mistério e, mesmo após a sua revelação, penetrar-lhe a natureza, veritas quam homo per se nec invenire nec acceptam intelligere unquam potest, diz Schouppe, numa fórmula que seria perfeita se ao termo homo se substituísse intellectus creatus. Elementa theologiae dogmaticae, Bruxelas, 1865, t. 1, n. 85.

É a fórmula que se encontra, com modificações de detalhe, na maioria dos manuais de teologia. De forma mais escolástica é esta outra definição que se encontra em Van Noort: Veritas rationem humanam absolute et per se excedens. De vera religione, n. 14. Absolute indica aqui que o mistério não deve ser confundido com as verdades ocultas de ordem natural, mistérios totalmente relativos; per se exclui aqui as verdades cujo conhecimento não nos pode chegar em razão de circunstâncias acidentais, distância, dificuldade de alcançá-las, etc. A definição de Van Noort abrange todos os mistérios de ordem sobrenatural, tanto os de segunda ordem (quoad existentiam) quanto os de primeira ordem (quoad essentiam). Por isso ela pede a ser posteriormente completada.

II. Existência dos mistérios propriamente ditos. 1° O ensinamento da Igreja. A existência de mistérios propriamente ditos é definida como dogma de fé pelo concílio do Vaticano, constituição Dei Filius, cân. 1 do c. iv. Ver col. 2588. O primeiro parágrafo apela, para demonstrar a existência de mistérios propriamente ditos, à Escritura e à Tradição.

1. Escritura. O primeiro texto invocado é I Cor., ii, 7-8, que prepara o v. 9, citado anteriormente pelo concílio, c. ii, § 2, Denz.-Bannw., n. 1786: «O olho do homem não viu, nem seu ouvido ouviu, nem seu coração compreendeu as coisas que Deus preparou para os que o amam.» Cf. Is., lxiv, 4. Essas «coisas» devem entender-se não só da felicidade do céu, mas ainda das verdades do Evangelho, objeto da predicação dos apóstolos e objeto de nossa fé.

Segundo os v. 7-8, invocados no c. iv, essas verdades são mistérios propriamente ditos. São Paulo prega a sabedoria, a sabedoria de Deus, a respeito da qual se exprime em termos que supõem que ele revela a seus ouvintes verdadeiros mistérios. «É a sabedoria do próprio Deus»; e, embora São Paulo se dirija aos perfeitos, inter perfectos, sua predicação a deixa no mistério, loquimur sapientiam Dei in mysterio. É a sabedoria oculta: não só ela o foi, como marca a Vulgata, quæ abscondita est, mas o será sempre, em razão de sua própria natureza, segundo o texto original que emprega o particípio com o artigo, τὴν ἀποκεκρυμμένην.

Alguns intérpretes consideraram in mysterio como regido por abscondita est; traduzem: a sabedoria escondida no mistério. Mas a maioria dos exegetas fazem de in mysterio e quae abscondita est duas aposições independentes. Cf. Cornely, In I Cor., p. 60. Traduzem: Pregamos a sabedoria de Deus que é o mistério, aquela que está escondida. Nossa constituição confirmou esta última leitura, separando in mysterio e quae abscondita est por uma vírgula.

É a sabedoria que Deus, desde toda a eternidade, destinou a fazer nossa glória, quam praedestinavit Deus ante sæcula in gloriam nostram. Assim se explica que, sendo oculta e secreta por sua natureza, ela nos seja, contudo, comunicada por Deus, que nos confia seus segredos, como a amigos.

É uma resolução que ele tomou desde toda a eternidade, ao decretar nosso chamado à glória do céu; pois é a visão intuitiva desses segredos da fé que fará nossa felicidade eterna. É uma sabedoria que nenhum príncipe deste século conheceu, e que, por conseguinte, está acima das luzes naturais da razão, quam nemo principum hujus sæculi cognovit: o que o Apóstolo demonstra pela ignorância daqueles que crucificaram o Senhor que nos faz partilhar dessa glória, e pelo testemunho de Isaías, transcrito no c. ii de nossa constituição: «O olho do homem não viu o que Deus preparou para os que o amam.»

Os príncipes deste século de que se fala aqui são aqueles que contribuíram para a crucificação do Salvador... Essa sabedoria, ignorada pelos príncipes do século, o próprio Deus a revelou aos apóstolos por seu Espírito, a quem se atribuem as obras de santificação, e que desceu visivelmente sobre os fundadores da Igreja, no dia de Pentecostes, nobis autem revelavit Deus per Spiritum suum.

Era necessário, com efeito, para essa revelação, alguém que penetrasse tudo, até os mais profundos segredos de Deus, não à maneira do ignorante que busca, mas à maneira do sábio que goza de sua ciência; ora, tal é o Espírito de Deus: Spiritus enim omnia scrutatur, etiam profunda Dei; πάντα ἐρευνᾷ, καὶ τὰ βάθη τοῦ Θεοῦ, v. 10.

O Apóstolo prossegue, fazendo notar que esse Espírito divino é o único a conhecer assim o que é de Deus, e que é esse Espírito, não o espírito natural do mundo, que foi dado aos Apóstolos, para que soubessem as graças que Deus fez às suas criaturas. De toda essa passagem, e particularmente das palavras citadas por nossa constituição, resulta que Deus confiou aos apóstolos, e que os apóstolos ensinaram à Igreja, mistérios que só Deus conhece naturalmente e que não podiam nos ser manifestados senão por uma revelação divina.» A. Vacant, Études théologiques sur les constitutions du concile du Vatican, t. ii, n. 747.

Outros textos são também apresentados. O concílio alude a Matth., xi, 25-27. «Eu vos rendo graças, meu Pai, disse o Salvador, por terdes escondido estas coisas aos sábios e aos prudentes, e por as terdes revelado aos pequenos»; e o divino Mestre mostra que se trata de mistérios conhecidos apenas pelas pessoas divinas e por aqueles a quem elas bem quiserem manifestá-los, ao acrescentar: «É assim, meu Pai, porque assim foi do vosso agrado. Meu Pai me entregou tudo, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, como ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho tiver querido revelá-lo.»

Em sua carta Gravissimas inter, contra os erros de Frohschammer, Pio IX havia invocado a autoridade de I Cor., ii, 7-10, mas silenciado a de Matth., xi, 25-27. Em contrapartida, recorre a outras palavras da Escritura: «As divinas Letras, escreve o pontífice, provam que esses dogmas, os mais secretos, foram manifestados só por Deus, quando ele quis dar a conhecer o mistério que estava oculto desde os séculos e as gerações (Col., i, 26), e de tal modo que, depois de outrora ter falado de várias maneiras a nossos pais pelos profetas, nos falou por fim em seu Filho, por quem também fez os séculos (Hebr., i, 1-2)... Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Joa., i, 18).»

2. Tradição. A tradição católica sempre considerou as verdades da fé como superando a inteligência humana. A expressão «mistério» (μυστήριον, sacramentum) encontra-se sob a pena dos antigos Padres para designar as verdades obscuras por si mesmas que são objeto de nossa crença: Irineu fala do «mistério» da Trindade, Cont. hær., II, xxviii, 6, P. G., t. vii, col. 808.

Para Eusébio de Cesareia essa verdade é inexprimível, inconcebível para nós, ἀρρήτως δὲ καὶ ἀνεπιλογίστως, Demonst. evang., IV, xii, P. G., t. xxii, col. 257; diante dela, só o silêncio nos convém, diz S. Efrém, Adversus scrutatores (al. sor.), serm. ii, ed. Assémani, t. iii, p. 194. Santo Hilário diz expressamente que esse dogma é extra significantiam sermonis, extra sensus intentionem, extra intelligentiae conceptionem. De Trinitate, II, 5, P. L., t. x, col. 54. São Gregório de Nazianzo o chama explicitamente de mistério, Orat., xxxi, 8, P. G., t. xxxvi, col. 141. No Discurso catequético, n. 3, São Gregório de Nisa insiste repetidas vezes sobre «a profundidade do mistério», P. G., t. xliii, col. 17.

«Não podemos compreendê-lo», declara Dídimo de Alexandria, De Trinitate, II, iv, P. G., t. xxxix, col. 481. Divinum admirandumque mysterium, diz Santo Ambrósio, De fide ad Gratianum, IV, viii, 91; cf. I, x, P. L., t. xvi, col. 634, 541-543. Encontra-se também o equivalente latino de mysterium, «sacramentum», com o mesmo significado de verdade inacessível à razão. Ver, em J. de Ghellinck, Pour l'histoire du mot «Sacramentum», Lovaina, 1924; para Tertuliano, p. 130-134; para S. Cipriano, p. 170-174; para Arnóbio, p. 234; para Lactâncio, p. 245-251. O estudo sobre Comodiano de Gaza fornecerá numerosos exemplos da significação da palavra mysterium ou sacramentum, designando verdades ocultas à nossa razão, assim como a tradução latina dos livros de Irineu contra as heresias, p. 277 sq.

Os hereges dos primeiros séculos que tentaram «humanizar» os dados da revelação nunca, porém, levaram seu «racionalismo» a ponto de negar os segredos impenetráveis contidos nas verdades reveladas. Por isso, os Padres da Igreja se contentaram em comentar brevemente os textos da Escritura relativos ao caráter misterioso da revelação, seja em suas homilias, seja em suas obras de controvérsia. Ver, em particular, S. João Crisóstomo, In I Cor., homil. vii, P. G., t. lxi, col. 53; De incomprehensibili, homil. i, n. 3, 6, P. G., t. xlviii, col. 704-712; S. Agostinho, De fide rerum quae non videntur, i, 1, P. L., t. xl, col. 171; S. Leão Magno, De nativitate Domini, serm. ix (xxix), P. L., t. liv, col. 220; S. Cirilo de Alexandria, In Joa., i, 9, P. G., t. lxxiii, col. 124; Contra Nestorium, l. III (init.), P. G., t. lxxvi, col. 111; S. João Damasceno, De fide orthod., I, 2, P. G., t. xciv, col. 794; In I Cor., c. ii, t. xcv, col. 582-590; S. Jerônimo, In Gal., iii, 2, P. L., t. xxvi, col. 348.

É à maioria desses autores, citados em nota com as referências acima indicadas, que se refere Pio IX quando escreve, na carta Gravissimas inter:

Hisce aliisque fere innumeris divinis eloquiis inhærentes SS. Patres in Ecclesiæ doctrina tradenda continenter distinguere curarunt rerum divinarum notionem, quæ naturalis intelligentiæ vi omnibus est communis, ab illarum rerum notitia, quæ per Spiritum Sanctum fide suscipitur, et constanter docuerunt, per hanc ea nobis in Christo revelari mysteria, quæ non solum humanam philosophiam, verum etiam angelicam naturalem intelligentiam transcendant, quæque etiamsi divina revelatione innotuerint et ipsa fide fuerint suscepta, tamen sacro adhuc ipsius fidei velo tecta et obscura caligine obvoluta permanent, quamdiu in hac mortali vita peregrinamur a Domino. Denz.-Bannw., n. 1073.

Mas a tradição se afirma ainda, já desde a Idade Média, em certos atos do magistério da Igreja relativos às primeiras tentativas de «racionalização» dos mistérios.

Em 1228, Gregório IX tivera de recordar aos teólogos da universidade de Paris que não se deve rebaixar a fé ao nível da razão; que ela encerra verdades que devem ser cridas pela inteligência, e que esta seria culpada de audácia e improbidade se tentasse penetrar onde a inteligência natural não pode alcançar. Denzinger-Bannw., n. 442.

No século seguinte, Raimundo Lúlio foi acusado de ter tido da fé uma concepção racionalista, acusação certamente, no mínimo, exagerada. Ver Lúlio, t. ix, col. 1122-1120.

Pretendeu-se mesmo que o papa Gregório XI, em 1376, teria reprovado, entre outras proposições condenáveis, as seguintes, que se referem ao nosso assunto.

Prop. 96. Omnes articuli fidei et Ecclesiae sacramenta ac potestas papae possunt probari, et probantur per rationes necessarias, demonstrativas, evidentes. — Todos os artigos de fé, os sacramentos da Igreja e o poder do papa podem ser provados e são provados por razões necessárias, demonstrativas, evidentes.

Prop. 97. Fides est necessaria hominibus rusticis, insciis, ministralibus et non habentibus intellectum elevatum, qui nesciunt cognoscere per rationem et diligunt cognoscere per fidem; sed homo subtilis facilius trahitur ad veritatem christianam per rationem quam per fidem. — A fé é necessária às pessoas rústicas, ignorantes, mercenárias, de baixa inteligência, que não sabem conhecer pela razão e gostam de conhecer pela fé. Mas um homem sutil é mais facilmente atraído à vida cristã pela razão do que pela fé. (Noël Alexandre, Historiæ ecclesiast., saec. xiii et xiv, art. 20).

Demonstrou-se, no mesmo artigo, col. 1135 sq., a inautenticidade desse documento, cujos vestígios foram, com razão, suprimidos do novo Denzinger-Bannwart. Figuravam no antigo Denzinger, no n. 474 sq.

No século xix, os sistemas semirracionalistas de Hermes, de Günther, de Frohschammer obrigaram a Santa Sé a intervir novamente. Os documentos publicados por essa ocasião por Gregório XVI e Pio IX prepararam a definição do concílio do Vaticano. Indicamos, no início deste artigo, as referências a esses atos pontifícios. Também não nos cabe expor aqui os erros visados por esses documentos, pois são objeto de artigos especiais.

2° O ensinamento dos teólogos. Do ponto de vista doutrinal, esse ensinamento nada acrescenta à doutrina da Igreja. Em regra geral, os teólogos seguem Santo Tomás, expondo, notadamente no preâmbulo do livro IV da Summa contra Gentiles, o tríplice modo de conhecimento das verdades religiosas concedido à inteligência humana: conhecimento pelas únicas forças da razão, no que concerne às verdades que nos são naturalmente acessíveis; conhecimento dos mistérios aqui na terra pela fé, no céu pela visão beatífica.

A especulação teológica se enriquece, no entanto, com um desenvolvimento acerca da possibilidade de demonstrar a priori a existência dos mistérios. Afirma-se geralmente: 1. que é impossível demonstrar a inexistência dos mistérios; 2. que, se se trata de mistérios entendidos em sentido amplo, sem precisão de mistérios sobrenaturais propriamente ditos, é evidente que existem mistérios, em razão mesmo da infinita perfeição da inteligência divina; cf. S. Tomás, Sum. cont. Gentes, I, c. iii; 3. que parece, no entanto, impossível demonstrar a priori, isto é, antes de toda revelação, a existência de mistérios sobrenaturais propriamente ditos, unicamente aliás porque não podemos ter deles, antes de sua revelação, ideia alguma, mesmo simplesmente analógica; enfim, 4. que, em toda hipótese, não é possível demonstrar a priori a inexistência dos mistérios, mesmo estritamente sobrenaturais. Cf. Chr. Pesch, Praelectiones dogmaticae, t. i, n. 164-165.

3° Precisões concretas relativas à existência dos mistérios. Determinou-se a natureza dos mistérios e sua existência. Procura-se agora quais são, concretamente, os dogmas de nossa fé que têm o caráter de mistérios.

Os princípios estabelecidos na constituição Dei Filius são aqui felizmente completados por diferentes documentos pontifícios. A carta Gravissimas inter assinala como tendo sobretudo e muito manifestamente o caráter de mistérios «os dogmas que dizem respeito à elevação sobrenatural do homem e ao seu trato sobrenatural com Deus»; ao condenar os erros de Frohschammer, indica que não se pode, com ele, fazer entrar no domínio da razão e da filosofia «as coisas que constituem sobretudo e propriamente a religião cristã e a fé, isto é, o próprio fim sobrenatural do homem, tudo o que a ele se refere e o santíssimo mistério da incarnação do Senhor.» Denz.-Bannw., n. 1671, 1669.

Em suma, deve-se incluir entre os mistérios propriamente ditos «todas as verdades que se incluem na ordem sobrenatural e dizem respeito ao fim sobrenatural ou aos meios de alcançá-lo, contanto que essas verdades não pertençam ao mesmo tempo à ordem natural que decorre da criação.» Vacant, Études théologiques sur les constitutions du concile du Vatican, n. 759. E a razão disso é que essa ordem sobrenatural depende da livre vontade de Deus, não só em sua execução, como a ordem natural, mas até mesmo em sua determinação.

Haver-se-á notado que a Trindade não é nominalmente indicada nos documentos acima citados como mistério propriamente dito. E, contudo, é o mistério dos mistérios. Essa verdade é, aliás, afirmada no concílio de Colônia de 1860, part. I, tit. ii, c. i (ix), Mansi-Petit, Concil., t. xlviii, col. 84; no projeto de constituição sobre a doutrina católica, elaborado pelos teólogos do concílio do Vaticano, ver Mansi-Petit, t. LIII, col. 230; e na condenação, por Leão XIII, da prop. 25 de Rosmini, Denz.-Bannw., n. 1915.

III. Inteligência dos mistérios. O papel da razão humana diante dos mistérios não se restringe à produção de um ato de fé nessas verdades, tal como se apresentam na revelação. Podemos «adquirir deles uma certa inteligência, por um estudo atento, piedoso e reservado». Esse estudo se faz por meio das analogias que os mistérios apresentam com a ordem natural, e que resultam das conexões que eles têm entre si e com o fim último do homem.

Enfim, a inteligência dos mistérios é um dom de Deus: Ratio quidem, fide illustrata, cum sedulo aliquam Deo dante mysteriorum quaerit, intelligentiam assequitur, tum ex eorum quæ naturaliter cognoscit analogia tum e mysteriorum ipsorum nexu inter se et cum fine hominis ultimo. Todavia, essa inteligência permanecerá sempre obscura e imperfeita: nunquam tamen ad perspicienda idonea redditur (ratio) ea instar veritatum, quae proprium ipsius objectum constituunt.

1° Uma certa inteligência dos mistérios é possível. Ela resulta: 1. Da analogia que os mistérios apresentam com a ordem natural. Os mistérios, por si mesmos, superam toda a ordem criada e mesmo criável. Não têm, pois, nada em comum com os seres criados naturais, mas podem ter com eles alguns pontos de semelhança, na medida em que são capazes de produzir efeitos análogos, ou têm relações com os mesmos objetos. Quanto mais raras e distantes forem as analogias, mais impenetrável à razão será o mistério.

Alguns exemplos ilustrarão essa verdade. A constituição da Igreja é um mistério, porque o princípio que une os fiéis na Igreja é sobrenatural, como a autoridade que os dirige. Contudo, pode-se, em certa medida, ter a inteligência do mistério da Igreja por analogia com a organização da sociedade civil. As virtudes sobrenaturais, que são uma participação na vida divina, são mistérios; mas, pela analogia de seus efeitos com o efeito das virtudes naturais, podemos apreender com bastante facilidade os seus dados.

A comparação do fim sobrenatural com o fim natural pode nos levar a apreender com certa exatidão a noção de nossa felicidade eterna. Mais dificilmente, talvez, se concebe a vida sobrenatural da graça em si mesma, precisamente porque é difícil dizer em que consiste exatamente a vida natural; mais dificilmente também a eficácia de certos sacramentos, como o batismo, porque é muito distante a analogia entre os efeitos físicos produzidos pela água que lava e esse sacramento que purifica a alma; mais dificilmente ainda a incarnação do Verbo, porque há mais diferenças que semelhanças entre esse mistério e os pontos de comparação fornecidos pela ordem natural; notar-se-á, contudo, a esse respeito, a comparação da união da alma e do corpo, formulada no símbolo de Santo Atanásio, ver Hipostática (União), t. vii, col. 539, mas que, no momento das lutas monofisitas, essa comparação revelada se mostrou deficiente e perigosa; mais dificilmente, por fim, o mistério da Trindade, pois muito fracas e muito obscuras são as semelhanças entre as pessoas finitas, que todas existem em si e separadamente das outras pessoas, e as pessoas divinas, que têm apenas uma única substância e uma única subsistência comum.

Quanto mais os teólogos investigarem essas analogias, e mesmo descobrirem novas analogias, mais a noção dos mistérios se tornará acessível à razão. Mas, para esse trabalho, o concílio do Vaticano fixa uma regra: deve-se buscar as analogias naturais dos mistérios sobrenaturais, sedulo, pie et sobrie. Essa regra nos convida a buscar as analogias apenas com cautela, referindo-nos sobretudo às analogias fornecidas pela revelação e pela tradição; a ver somente o que essas analogias realmente comportam, sem nada exagerar, e a não tirar delas conclusões falsas quanto à natureza do mistério, que, mesmo esclarecido por essas analogias, permanece mistério.

«As analogias tiradas das criaturas só poderiam servir à inteligência dos mistérios na medida em que nos tenham sido indicadas, ao menos equivalentemente, pela revelação. A revelação é aqui o único guia que é permitido seguir sem temeridade. As analogias que ela indica só podem, aliás, ser desenvolvidas dentro dos limites por ela traçados. Esses limites poderão, em geral, determinar-se comparando entre si as diversas analogias reveladas. É assim que as imagens em que a Igreja é comparada a uma rede que encerra peixes bons ou maus, aquelas em que é chamada a esposa sem mácula comprada pelo sangue do Salvador, e aquelas em que é apresentada como o edifício indestrutível edificado sobre os apóstolos e sobre São Pedro, deverão ser aproximadas umas das outras, para evitar o erro que só admite justos em seu seio, ou aquele que deixa sua organização à livre escolha dos fiéis. É assim ainda que a comparação dos textos que apresentam a segunda pessoa da Trindade como o Filho do Pai, seu Verbo, aquele que procede dele, aquele que é uma só coisa com ele, ajudará a bem compreender em que consiste sua geração eterna. Como a tradição da Igreja guarda fielmente as verdades reveladas, dever-se-á também levar em conta as analogias propostas pelos Padres, pelos concílios e pelos papas. Será preciso, sobretudo, evitar desenvolver qualquer analogia num sentido contrário ao ensinamento comum.

Mas, quando se segue fielmente esse ensinamento, pode-se buscar na natureza novas analogias que apresentem de modo mais feliz certos aspectos dos mistérios sobre os quais a atenção é chamada pelos ataques das heresias ou pelo desenvolvimento do dogma. Foi assim que o concílio de Niceia chamou o Verbo «luz da luz» para exprimir que ele possui toda a substância do Pai, que se lhe atribui.

Foi assim que se aplicou ao sumo pontífice, vigário visível de Jesus Cristo, o título de «cabeça» ou «chefe» da Igreja, dado por São Paulo ao próprio Salvador.» Vacant, op. cit., n. 771. Foi procedendo assim que Santo Agostinho e São Tomás, para citar apenas estes, esclareceram o dogma e aprofundaram melhor os mistérios, aplicando-lhes, de maneira analógica, o que as filosofias racionais ensinam na ordem natural.

2. Das analogias que resultam das conexões que os mistérios têm entre si e com o fim último do homem. O encadeamento dos mistérios existe na ciência infinita de Deus, onde tudo se coordena numa maravilhosa unidade. É, pois, necessário que esse encadeamento se manifeste na própria revelação que Deus fez dos mistérios e dos outros dogmas revelados.

Mais ainda, o encadeamento que a revelação não manifesta, ou não manifesta suficientemente, poderá ser posto em evidência pelo trabalho da teologia, que fará assim penetrar mais a fundo o espírito humano na inteligência das verdades reveladas ou das verdades que lhes são conexas. Por fim, com o objetivo de tornar o encadeamento dos mistérios mais acessível ao espírito humano, em geral pouco disposto para especulações áridas, Deus, na revelação, revestiu os mistérios de uma forma mais concreta, misturando-os a relatos históricos e a ensinamentos morais que acentuam ainda mais a analogia de seu encadeamento recíproco com o das leis da ordem natural.

Assim se apresentam, ligados uns aos outros: «a morte e o inferno, como consequência do pecado; a redenção por Jesus Cristo, o perdão de Deus, sua reparação sobrenatural; a vida da graça, a ressurreição da carne e a vida eterna, como efeitos da redenção; o batismo, a fé, a caridade, como os meios de chegar à vida e à salvação; o Salvador, como o Verbo eterno que se fez carne, como o filho do Pai que é uma mesma coisa com ele, que, em razão de sua dignidade infinita, foi atendido em sua oração por nós, e reparou o pecado sofrendo em nosso lugar a morte à qual estávamos condenados.» Vacant, op. cit., n. 773.

É a teologia, dissemos, que, pela busca de sua ordem e de seu encadeamento, conduz o espírito humano a uma mais perfeita inteligência dos mistérios. Essa obra importante «é realizada progressivamente por três fatores, que caminham a par e se sustentam constantemente: o primeiro é uma classificação dos dados sobrenaturais, em famílias, em gêneros e em espécies; o segundo é a determinação dos princípios sobrenaturais que se aplicam a cada espécie; o terceiro é a dedução das consequências que decorrem desses princípios». Vacant, op. cit., n. 776.

Em outros termos, a teologia distingue entre si e classifica os mistérios; estabelece com precisão seus caracteres sobrenaturais; deduz com certeza outras verdades inacessíveis à razão, até e inclusive as conclusões teológicas.

Sem dúvida, na ciência divina, o encadeamento dos mistérios tem por ponto de partida o mistério dos mistérios, a Trindade divina; e, na visão intuitiva, todos os mistérios nos aparecerão como essencialmente dependentes desse mistério supremo. Tudo, com efeito, procede de Deus para retornar a Deus. O Pai manifesta-se primeiro na criação e na elevação à ordem sobrenatural que nos faz seus filhos adotivos; em seguida, o Filho manifesta-se na encarnação, na redenção, na Igreja, nos sacramentos e sobretudo na eucaristia; por fim, manifesta-se o Espírito Santo na santificação progressiva das almas, prosseguindo até a vida de união com Deus na visão bem-aventurada. Cf. Garrigou-Lagrange, De revelatione, Paris, 1918, t. I, p. 183.

Mas, considerando as coisas em relação a nós, os mistérios nos aparecem sobretudo em conexão com o nosso fim último, e esse ponto de vista fornece as analogias mais numerosas, mais impressionantes e mais justas com a ordem natural, para explicar o sentido dos mistérios. «Toda a revelação tem por fim nos fazer atingir o fim sobrenatural ao qual Deus quis nos chamar... Deus... revelou os mistérios, porque todos eles têm por objeto seja o fim sobrenatural em si mesmo, seja os meios destinados a conduzir a ele toda a humanidade, seja os meios destinados a conduzir a ele cada filho de Adão..., seja os obstáculos à salvação...

Um estudo feito desse ponto de vista tem, aliás, a vantagem de conservar aos ensinamentos da revelação seu caráter salutar: se a ciência sagrada se desenvolvesse em outra direção, em breve deixaria de ser a ciência da salvação e da santificação.»

Além disso, é nas relações que os ligam ao fim último do homem que os mistérios revelados nos oferecem com a ordem natural as analogias mais numerosas, mais justas, mais simples e mais fáceis de apreender... É graças às harmonias estabelecidas pelo próprio Deus (com a ordem rumo ao fim natural) que, sem penetrar com nossa razão no segredo dos mistérios, formamos deles, não obstante, por analogia, concepções muito nitidamente desenhadas. Com as devidas reservas, aplicamos legitimamente ao fim sobrenatural o que uma sã filosofia ensina do fim último; à graça santificante e às virtudes sobrenaturais, o que ela estabelece de nossa vida, de nossas faculdades e de nossas virtudes naturais; à graça atual, o que ela demonstra do concurso divino: comparamos a maneira como os diversos sacramentos produzem e mantêm a graça em nossa alma, à maneira como nossos corpos recebem a vida, se fortificam e se alimentam.

A luz divina da revelação, que ilumina nosso caminho, é aproximada da luz do sol e da luz da razão. A Igreja é uma sociedade verdadeira, que tem sua finalidade, suas leis, sua organização, seus chefes, sua independência, como as sociedades civis. O pecado é a morte de nossa alma. Adão e Jesus Cristo foram, diante de Deus, os representantes da humanidade: esta foi entregue à escravidão do demônio pela culpa do primeiro; recobrou sua liberdade e seus direitos pela redenção do segundo.

«Essas imagens não são simples comparações escolhidas arbitrariamente por Deus para nos explicar os mistérios; são analogias que se impõem, quando se quer explicar a ordem da graça, porque a ordem da graça se sobrepõe à ordem da natureza.» Vacant, op. cit., n. 782-785.

2.º Essa inteligência dos mistérios é um dom de Deus. A inteligência dos mistérios supõe a fé nesses mistérios, propostos à nossa razão pela revelação. Pode-se, sem dúvida, sem ter a fé, ter deles uma inteligência toda material e quanto à letra. Dessa espécie de conhecimento não pode ser questão quando se fala da «inteligência» dos mistérios. Essa inteligência supõe, de fato, que os atingimos nas relações que apresentam entre si e sobretudo com o nosso fim último. Ora, tal inteligência só pode existir sob a influência da luz da fé.

«Deo dante», diz o concílio, fazendo eco às declarações do II concílio de Orange, cânon 7, referidas no capítulo: «Embora o assentimento da fé não seja de modo algum um movimento totalmente cego do espírito, ninguém pode aderir ao ensinamento do Evangelho como convém, para chegar à salvação, sem uma iluminação e uma inspiração do Espírito Santo, que dá a todos a suavidade da adesão e da crença na verdade. Por isso a própria fé é um dom de Deus...» Denz.-Bannw., n. 1791; cf. 180. Veja-se, a propósito dessa verdade, o comentário de São Tomás sobre I Cor., II, 14, e Sum. theol., II-II, q. VI, a. 3.

As analogias propostas pelos próprios teólogos só podem ser um meio de penetração dos mistérios na medida em que são iluminadas pela fé; pois só têm valor certo enquanto são explicações das analogias reveladas. A razão sozinha não pode descobrir as analogias que favorecem a inteligência do mistério como tal, visto que, deixada às suas próprias luzes, a razão só pode atingir Deus como autor da ordem natural.

3.º Mesmo depois da revelação que Deus fez dos mistérios, sua inteligência permanece obscura e imperfeita.

1. Doutrinas visadas por esta afirmação. Nossa afirmação supõe que a revelação dos mistérios foi feita; ela visa, portanto, os semirracionalistas que sustentam que, se a revelação é necessária para nos manifestar os mistérios, podemos, não obstante, pelas luzes da só razão, adquirir uma inteligência científica desses mistérios uma vez que foram manifestados pela revelação. É a tese de Frohschammer, condenada pela carta Gravissimas inter. Denz.-Bannw., n. 1669.

Visa também os autores que, sustentando com razão a trindade das pessoas como necessária em Deus, recusavam-se a colocar o dogma da Trindade entre os mistérios — erro condenado nos guntherianos por Pio IX, breve Eximiam tuam, 15 de junho de 1857, Denz.-Bannw., n. 1665, e em Rosmini, por Leão XIII, prop. 25, Denz.-Bannw., n. 1915. O Syllabus condena a seguinte proposição, que englobe todas as doutrinas reprovadas:

Prop. 9. Omnia indiscriminatim dogmata religionis christianæ sunt objectum naturalis scientiæ seu philosophiæ; et humana ratio historice tantum exculta, potest, ex suis naturalibus viribus et principiis, ad veram de omnibus etiam reconditioribus dogmatibus scientiam pervenire, modo hæc dogmata tanquam objectum proposita fuerunt. — Todos os dogmas da religião cristã, sem distinção, são objeto da ciência natural ou filosofia; e, com uma cultura puramente histórica, a razão humana pode, segundo seus princípios e suas forças naturais, chegar a um verdadeiro conhecimento de todos os dogmas, mesmo os mais ocultos, desde que esses dogmas tenham sido propostos à razão como objeto. Denz.-Bannw., n. 1709.

Ao retomar essas condenações no segundo parágrafo do c. VI de nossa constituição, o concílio do Vaticano pretende englobar na mesma reprovação todas as formas de erros que introduzem o racionalismo na inteligência dos mistérios depois de sua revelação, seja que se trate, sem nenhuma distinção, de toda sorte de mistérios, seja que se distinga entre mistérios que têm seu fundamento na livre vontade de Deus ou na necessidade da natureza divina. Cf. nota 12 sobre o esquema pré-sinodal da constituição De doctrina catholica, em Vacant, op. cit., t. I, p. 589.

2. Doutrina da Igreja. A nota 13 sobre o mesmo esquema, cf. Vacant, t. I, p. 590, lembra oportunamente que existe uma dupla ciência dos mistérios, fides quærens intellectum: uma pretendia chegar a demonstrar-lhes a existência e a compreender-lhes a essência intrínseca por princípios percebidos apenas à luz da razão, e assim os considerava como verdades que estão, não acima, mas ao alcance da razão. É essa ciência puramente filosófica que é condenada... Há uma outra ciência dos mistérios, que parte dos princípios revelados e cridos pela fé e se apoia nesses princípios. Essa inteligência está bem longe de ser condenada; pois constitui uma porção da teologia sagrada.»

A ciência puramente filosófica dos mistérios, condenada pela carta Gravissimas inter, pelo segundo parágrafo do c. IV da constituição De fide catholica, e pelo cânon 1 que lhe corresponde, implica, portanto, uma impossibilidade absoluta de reduzir os mistérios a princípios de certeza natural. A inteligência que dela se tiver nunca será semelhante à nossa inteligência das verdades naturais, que compreendemos reduzindo-as a dados de experiência ou a princípios evidentes para a razão.

A demonstração que dela se puder fazer não se assemelhará em nada à demonstração científica que procede por indução ou por dedução: será uma demonstração que sempre implica o argumento de autoridade, invocando a fé. A inteligência dos mistérios será, portanto, se assim se pode dizer, «uma inteligência de superfície». Ela explicará a sua ligação entre si e com os dados da razão, mas sem chegar a estabelecer a sua verdade em virtude dos princípios fornecidos por nossa experiência ou por nossa inteligência, e, por conseguinte, sem demonstrá-los por princípios naturais.

As especulações da teologia relativamente aos mistérios formam, portanto, como que um edifício que é construído, não sobre o solo da razão, mas sobre o navio da fé, de tal modo que não tem outro fundamento, ou melhor, outro apoio, senão o oceano da verdade divina.

Para empregar outra comparação que nossa constituição nos sugere, os mistérios permanecem sempre, aqui na terra, cobertos como que por uma nuvem e como que por um véu, que a razão não pode atravessar e que a impedem de demonstrar as afirmações da fé.» Vacant, op. cit., t. II, n. 791.

Essa impossibilidade de compreender e de demonstrar por princípios naturais a verdade intrínseca dos mistérios, mesmo depois de sua revelação, repousa, segundo o concílio, sobre a própria natureza dos mistérios, ver acima, col. 2587, e sobre o testemunho de São Paulo em II Cor., V, 7: Per fidem enim ambulamus et non per speciem.

Aqui na terra, é um conhecimento que só pode apoiar-se na fé; no céu, será a visão, não pelas luzes próprias de nossa inteligência, mas por uma luz toda sobrenatural que, destruindo a fé, lhe substituirá enfim a clara intuição da essência divina.

— Obras a consultar. Todos os tratados de teologia fundamental, tratado da revelação. Ver especialmente Garrigou-Lagrange, De revelatione per Ecclesiam catholicam proposita, Paris, 1918, t. I, c. V; Ottiger, Theologia fundamentalis, t. I, Friburgo-em-Brisgóvia, 1897, p. 69-80; A. Vacant, Études théologiques sur les constitutions du concile du Vatican, Paris, 1895, t. II, art. 120-127.

A. Michel.

Autor original: A. Michel

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