(Bartolomeu de la) ou Bartolomeu de Carranza, dominicano espanhol (1503-1576). Assim chamado do nome do lugar de seu nascimento, La Miranda, na Navarra, ou do nome de um domínio nobiliárquico de seus pais, Carranza, Bartolomeu estudou primeiro em Alcalá, depois entrou na ordem dos frades pregadores, no convento de Benalac, com dezessete anos de idade. Seus sucessos escolares o indicaram a seus superiores para ensinar como mestre em artes, depois como professor de teologia no colégio então muito florescente de Valladolid. Em 1539, quando Carranza assistiu ao capítulo geral dos dominicanos que se realizava em Roma, já era célebre. Foi ele quem presidiu os exercícios solenes de escolástica, de maneira tão brilhante que foi nomeado no ato qualificador do Santo Ofício e mestre em teologia.
Em seguida, voltou a Valladolid, onde entrou em emulação e até em concorrência com outro teólogo famoso, Melchior Cano. Carranza recusou o bispado de Cuzco, no Peru, mas aceitou representar o imperador Carlos V no Concílio de Trento em 1515. Lá, empreendeu e sustentou, ao lado de Domingos Soto e contra outro dominicano, Ambrósio Catarino, uma defesa vigorosa da residência dos bispos em suas dioceses. Segundo ele, essa residência é de direito não só eclesiástico, mas divino.
Alguns anos mais tarde, encontramos Carranza como provincial dos dominicanos da Espanha, depois de ter recusado o bispado das ilhas Canárias. Quando o Concílio de Trento retomou suas sessões sob Júlio III, Carranza ali reapareceu, ao mesmo tempo como teólogo do imperador e como procurador do arcebispo de Toledo, primaz da Espanha. Examinador dos livros suspeitos de heresia, acompanhou depois Filipe II à Inglaterra e o secundou em sua tentativa de restabelecer a obediência romana nesse reino já conquistado pelo anglicanismo. Carranza tomou como centro de sua ação de contrarreforma a universidade de Oxford. Mostrou grandíssima firmeza, e conseguiu, ao que parece, operar um número bastante grande de conversões individuais sinceras.
Em 1557, passou aos Países Baixos espanhóis, onde prosseguia a obra de propaganda católica, quando Filipe o nomeou arcebispo de Toledo e primaz da Espanha. Ao rejuntar-se a sua diocese, recebeu, de passagem, o último suspiro de Carlos V, e abordava com entusiasmo sua tarefa de bispo quando, no decurso de uma visita pastoral, foi preso pelos homens da Inquisição. Fernando de Valdés, arcebispo de Sevilha e grande inquisidor, assegurava-se de sua pessoa com o consentimento do papa e do rei.
Quais poderiam ser os verdadeiros motivos dessa extraordinária prisão de Bartolomeu de Carranza, primaz da Espanha e uma das personagens mais universalmente respeitadas da Igreja de seu tempo? Alguns apresentaram as suspeitas que surgiram, à morte de Carlos V, sobre o catolicismo do velho imperador: a censura teria recaído sobre Carranza, que lhe trouxera o concurso de seu ministério. O próprio acusado, em arroubos de humor, parece ter insinuado a explicação dada por diversos autores dominicanos: os imensos rendimentos de sua diocese faziam invejosos e cobiçosos. Seja como for, o motivo alegado era o pretendido luteranismo de um catecismo, ou melhor, de um vasto comentário ao catecismo católico em língua espanhola que Carranza acabara de publicar.
Por instigação de Melchior Cano, havia-se notado nessa obra demasiada predileção pela leitura direta da sagrada Escritura e dos livros de teologia pelos simples fiéis, bem como demasiada confiança no papel santificante dos exercícios espirituais da vida interior. Temia-se então muito, na Espanha, os excessos dos alumbrados, místicos iluminados. E sobretudo, como observa sutilmente o P. Colunga, no momento em que a heresia de Lutero fazia seus estragos na Europa, a Inquisição espanhola tinha a ideia de que toda obra de teologia em língua vulgar arriscava suscitar mil perturbações na fé do povo. Em tais circunstâncias, podia de fato parecer perigoso deixar espíritos não preparados assimilarem, em espanhol, a imensa síntese teológica do arcebispo de Sevilha.
Um dos discípulos dominicanos de Carranza, Domingos de Rojas, acabara de ser preso como luterano. Foi queimado vivo num célebre auto de fé em Valladolid, e isso foi comprometedor para seu mestre. A Inquisição reuniu diversos depoimentos mostrando que, embora permanecendo católico, Carranza falava com bastante liberdade da fé viva, da pouca importância das obras humanas, do silêncio da Bíblia sobre a existência do purgatório, da intercessão dos santos. Conseguiu, no entanto, recusar seus juízes; e amigos conseguiram transferir a instrução do processo para a própria Roma.
Mas nem a amizade do papa dominicano São Pio V, nem uma declaração solene da ortodoxia de Carranza formulada pelo Concílio de Trento, nem a publicação, às expensas da Santa Sé, do catecismo incriminado, conseguiram pôr em liberdade o prisioneiro. Só foi liberado após uma detenção de quase dezessete anos. Durante dez anos lhe haviam proibido confessar-se. Carranza saía dessa trágica aventura praticamente absolvido, mas tinha setenta e três anos e só sobreviveria dezessete dias. Morreu, pois, em Roma, a 2 de maio de 1576, em meio a manifestações de uma opinião pública calorosamente simpática, e em grande reputação de santidade.
Carranza publicou: Summa omnium conciliorum, obra muitas vezes editada, a primeira em Veneza, 1546, in-8°; Controversiæ: I. Quanta sit auctoritas traditionum in Ecclesia; II. Quanta Sacræ Scripturæ; III. Quanta romani pontificis et sanctæ Sedis apostolicæ; IV. Demum quanta conciliorum, sit, Venise, 1546, 8° (observe-se que o De Locis theologicis de Melchior Cano é de 1563); Controversia de necessaria residentia personali episcoporum et aliorum inferiorum pastorum Tridenti explicata, Venise, 1547; Concio habita ad synodum Tridentinam prima dominica quadra-
Autor original: M.-M. Gorce
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