MESSALIANOS, nome aramaico daqueles a quem em grego se chamava Euquitas; ver seu artigo, t. v, col. 1454-1465. Desde que esse artigo foi redigido, uma curiosa descoberta lançou uma luz nova sobre as doutrinas da seita. Ao mesmo tempo, achou-se resolvido, de maneira que parece definitiva, o problema da origem da literatura pseudo-macariana, que havíamos apenas aflorado no art. Macário do Egito, t. ix, col. 1452 sq. As doutrinas da seita messaliana não eram conhecidas, até estes últimos tempos, senão pelos testemunhos de escritores católicos, Epifânio, Teodoreto, Timóteo de Constantinopla, João Damasceno. Cf. t. v, col. 1455 sq. Parece bem que, doravante, se poderá julgá-las por uma série de obras procedentes, de modo mais ou menos direto, dos próprios meios messalianos.
Essa literatura não é outra senão a que circulou sob o nome de são Macário do Egito, com exceção, bem entendido, da «carta» Ad filios Dei, P. G., t. xxxiv, col. 405-410, cuja origem macariana permanece incontestada, e por outro lado da carta Lignum crucis, ibid., p. 441-444, que é uma compilação tardia (talvez do século VIII) de frases tomadas de obras ascéticas bem conhecidas. Ver sobre este último ponto A. Wilmart, em Revue d'ascétique et de mystique, 1922, t. iii, p. 411-413. Todo o resto da literatura pseudo-macariana se revelaria, ao contrário, como tendo afinidades muito estreitas com a doutrina messaliana. Trata-se em primeiro lugar das Homilias espirituais, Ὁμιλίαι πνευματικαί, P. G., t. xxxiv, col. 449-822, em número de cinquenta, às quais é preciso juntar outras sete homilias publicadas por G.-L. Marriott, em Harvard theological studies, fasc. 5, Cambridge (E.U.), 1918; em seguida da «longa carta grega», P. G., ibid., col. 409-442, cujas relações literárias com as Homilias foram postas em evidência por dom Villecourt, Revue de l'Orient chrétien, 1920-1921, t. xxii, p. 29-57; e enfim dos Opúsculos ascéticos, cujas relações com as homilias o mesmo autor precisou mais exatamente do que se fizera até aqui. Le Muséon, 1922, t. xxxv, p. 203-212.
Resta ainda muito a fazer para que esse conjunto de escritos, de idade e origem bastante diversas, seja completamente utilizável. Tal como é, entretanto, apresenta-se com traços comuns, que permitem ver nele a expressão de uma mesma doutrina. Ora, essa doutrina é estreitamente aparentada com o ensinamento místico que as fontes católicas atribuem aos messalianos. É a dom Villecourt que cabe o mérito de ter posto esse fato em boa luz, numa comunicação à Academia das Inscrições e Belas-Letras, de 6 de agosto de 1920; as conclusões desse autor foram retomadas e aperfeiçoadas por dom Wilmart, na Revue d'asc. et de myst., 1920, t. i, p. 361-377. Sabe-se que Timóteo de Constantinopla e João Damasceno fornecem, ambos, uma série de capitula que resumem a doutrina messaliana: De recept. haeretic., P. G., t. lxxxvi, col. 48-52; De haeres., 80, t. xciv, col. 729-730.
Ora, acontece que algumas dessas proposições condenáveis se encontram textualmente na literatura pseudo-macariana, ao passo que evidentes parentescos, na falta de coincidências textuais, se notam entre a doutrina geral desses tratados místicos e os capitula atribuídos pelos dois autores católicos aos messalianos. A coincidência é absoluta entre Homil., viii, 3, col. 529 AB, e João Damasceno, cap. 18, t. xciv, col. 732 (visões durante a oração); entre Homil., xxvii, 19, col. 708 A, e João Damasceno, cap. 2, col. 729; há pontos de contato muito estreitos entre Homil., i, 6; ii, 1-2; vi, 5; xv, 35; xvi, 1, col. 456, 464, 521, 600, 613, de um lado, e João Damasceno, cap. 1, 3, 16 (tomada de posse da alma pelo demônio). Comparar-se-á também Homil., iv, 11-12, col. 480-481, e Timóteo, cap. 2, t. lxxxvi, col. 49 (a natureza divina pode mudar, fazendo-se o que quer); Homil., vi, 5, e Timóteo, cap. 7 (impureza primeira do corpo de Cristo). Vê-se: seis ou sete proposições atribuídas aos messalianos se encontram quase textualmente nas homilias.
Mas o que talvez seja ainda mais inquietante é que a doutrina ascética profunda do homilista é bem a mesma de que as duas séries de capitula e as descrições mais detalhadas dos autores católicos nos dão uma ideia. Na verdade, os capitula a reduzem, como é regra, a fórmulas mais cortantes, ao passo que as homilias a expõem com uma unção que corre o risco de induzir em erro; mas no fundo é bem a mesma série de desenvolvimentos. O homilista, diz excelentemente dom Wilmart, reduz «aos três atos seguintes o drama da vida espiritual: primeiro, o domínio do diabo, verdadeira possessão que consiste numa união pessoal e sensível do espírito mau com a alma, e fazendo propriamente do pecado a alma da alma; depois, a luta, na alma, do espírito mau e do Espírito Santo, do pecado e da graça, das trevas e da luz, cada uma das duas forças em presença pretendendo o domínio; enfim, por meio soberano da oração perseverante, o triunfo do Espírito Santo em toda a plenitude, Pentecostes renovado, batismo de fogo, destruindo por fim, consumindo o pecado e produzindo a bem-aventurada impassibilidade (ἀπάθεια), enquanto o Espírito divino, senhor da alma celeste, torna-se por sua vez a alma da alma; então o homem é deificado e sua grande obra é orar sempre.» Que se queira comparar esse resumo da doutrina macariana com a doutrina messaliana tal como é exposta aqui, t. v, col. 1462, e não se poderá senão ficar impressionado com a semelhança.
De resto, um autor espiritual mais antigo que Timóteo e João de Damasco, e quase contemporâneo dos começos do movimento euquita, Diádoco, bispo de Fótice, por volta de 450, refuta em seus Κεφάλαια γνωστικά uma doutrina messaliana dos dois espíritos concorrentes de graça e de malícia, que se acha resumida no cap. 3 de João Damasceno. C. lxxx, edit. Weis-Liebersdorf (coleção Teubner), p. 102; cf. P. G., lxv, col. 1196. Ora, dom Wilmart o faz bem notar, «o argumento de Diádoco corresponde tão exatamente aos do homilista que com razão se pergunta se não é «Macário» mesmo que é visado». Ver Homil., vii, 2; xi, 13; xvi, 3-5; xvii, 5, col. 523, 553, 613 sq., 625.
Esse conjunto de coincidências não poderia ser efeito do acaso, e todo espírito não prevenido deve reconhecer o parentesco que existe entre os ensinamentos ascéticos do pseudo-Macário e as doutrinas messalianas. Pode-se ir mais longe e identificar o conjunto das homilias espirituais com aquele Ascético que foi denunciado aos Padres do Concílio de Éfeso, na sessão vii.ª, e foi anatematizado? Mansi, Concil., t. iv, col. 1447. Dom Villecourt parecia a princípio inclinado a pensá-lo; dom Wilmart mostrou-se muito mais reservado. Preocupado com o fato de que não se reencontra nas Homilias o equivalente de cada um dos 18 capitula de João Damasceno (por exemplo, 14 e 15), tenderia de bom grado a admitir que a coletânea das Homilias pertence à primeira época do movimento messaliano, ao passo que, numa época um pouco mais tardia, o Ascético precisou e acentuou as doutrinas. E depois, a própria coletânea está completa? Há, aqui e ali, traços incontestáveis de mutilação; várias questões em particular permanecem sem resposta; e a crítica textual reservará talvez muitas surpresas; ela mal começou.
Essas considerações permitem responder às objeções que o P. Stiglmayr, S. J., especialista nos escritos macarianos, julgou dever fazer à tese dos Padres Villecourt e Wilmart: Pseudo-Makarius und die Aftermystik der Messalianer, em Zeitschrift für katholische Theologie, t. xlix, p. 244-260. Pareceu-lhe impossível confundir a doutrina tão elevada e tão pura que transparece nas homilias com as aberrações místicas dos messalianos; pôs em viva oposição os ensinamentos de «Macário» sobre o trabalho, a esmola, a prática dos sacramentos e das virtudes, e mesmo a cristologia, com as divagações dos pseudomísticos. Tudo isso é exato; mas prova apenas que o quadro de conjunto que os autores católicos apresentam do movimento messaliano pôde ser escurecido. Será a primeira e a última vez que polemistas, desejosos de ter razão, fazem flecha de qualquer madeira e tiram dos princípios de seus adversários consequências nas quais estes não haviam pensado a princípio?
Assim, os argumentos de ordem geral desenvolvidos pelo P. Stiglmayr não nos parecem poder eliminar a prova de fato que constitui a presença, nas homilias pseudo-macarianas, de proposições atribuídas aos messalianos por escritores bem informados. No máximo confirmariam as opiniões emitidas por dom Wilmart, a saber, que o autor vivia num grupo fraterno de ascetas, ainda sem desavenças com a autoridade eclesiástica, quando o movimento mal se desenhava e os promotores ainda não haviam repudiado expressamente a ortodoxia católica. Desse primeiro estado ter-se-ia uma testemunha ainda mais antiga num tratado ascético anônimo em siríaco que o Sr. Kmosko acaba de publicar, sob o título de Liber Graduum. Patr. syriaca, t. iii, Paris, 1926. As relações entre esse tratado e a doutrina messaliana mitigada, tal como aparece no Pseudo-Macário, parecem-nos evidentes e mereceriam um estudo detalhado.
1° Contribuições novas ao estudo dos textos macarianos. G. L. Marriott, Macarii anecdota, seven unpublished homilies of Macarius, em Harvard theological studies, fasc. 5, Cambridge (E.U.), 1918; cf. Journal of theological studies, t. xxi, p. 177; e uma retificação, p. 266; dom L. Villecourt, Homélies spirituelles de Macaire en arabe sous le nom de Siméon Stylite, em Revue de l'Orient chrétien, 1918-1919, t. xxi, p. 337-344; do mesmo, La grande lettre de Macaire, ses formes textuelles et son milieu littéraire, ibid., 1920-1921, t. xxii, p. 29-57; do mesmo, Les opuscules ascétiques et leurs relations avec les homélies spirituelles, em Le Muséon, 1922, t. xxxv, p. 203-212; dom A. Wilmart, La lettre spirituelle de l'abbé Macaire, em Revue d'ascétique et de mystique, 1920, t. i, p. 58-83 (dá um texto crítico da única produção autêntica de Macário); do mesmo, La fausse lettre latine de Macaire (trata-se da carta Lignorum copia), ibid., 1922, t. iii, p. 411-419; A. Baumstark, Eine syrische Uebersetzung des Makariosbriefes Ad filios Dei, em Oriens christianus, Neue Serie, t. ix, 1920, p. 130-132.
2° Trabalhos. Dom L. Villecourt, La date et l'origine des Homélies spirituelles attribuées à Macaire, em Comptes rendus des séances de l'Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, 1920, p. 250-258; dom A. Wilmart, L'origine véritable des homélies pneumatiques, em Revue d'ascétique et de mystique, 1920, t. i, p. 361-377; J. Stiglmayr, Pseudo-Makarius und die Aftermystik der Messalianer, em Zeitschrift für katholische Theologie, 1925, t. xlix, p. 244-260; G. L. Marriott, The Messalians and the discovery of their Ascetic, em Harvard theological review, 1926, t. xix, p. 131-138; O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, t. IV, 1921, p. 188.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
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