MESROP, chamado MACHTOTZ, célebre doutor da Igreja armênia.
I. Vida. Nasceu pelo fim do século IV na aldeia de Hatzik (var. Hatzegatz-Gegh), da província de Taron. Discípulo do patriarca Nersès Parthev (Nersès, o Grande), dotado de um gênio universal, profundamente versado nas literaturas grega, síria e persa, entrou logo, por recomendação do quiliarca Aravan, ao serviço do rei armênio Vram-Chapouh, na qualidade de chanceler do divã. Em 395, renunciando à corte real, abraça a carreira religiosa e se estabelece no distrito de Qoghten, recaído no mazdeísmo, a fim de reconduzi-lo ao cristianismo. Depois de ter assim se dedicado ao seu ministério de apóstolo evangelizador até o ano do reinado de Verham-Chapouh (an. CCCXCVII), irmão de Chosrow III, dirige-se ao católicos Sahak ou Isaac III, com quem, em 406, realiza a invenção do alfabeto armênio, ao mesmo tempo que lança, de comum acordo com esse ilustre patriarca, os fundamentos de um culto nacional e de uma liturgia hayeano-armênia. Desde então Mesrop-Machtotz aparece como o fiel ministro e adjunto plenipotenciário de seu grande patriarca, Isaac III, de quem apenas executa as ordens ou combinações, seja quando efetua, à frente de uma legação, uma viagem diplomática à corte de Bizâncio, junto ao imperador Teodósio II e ao patriarca Ático, com vistas a reatar os antigos laços com a Igreja grega, que haviam sido brutalmente cortados pelos suseranos sassânidas; seja quando, chefe de uma escola de letrados, dirige a tradução para o armênio das Escrituras bíblicas, litúrgicas e outras das Igrejas grega e síria, a «Escola ou Academia dos santos tradutores»; seja, enfim, quando, prosseguindo sua obra de evangelização, continua a percorrer, como missionário apostólico, as províncias limítrofes da Armênia, em parte recaídas no paganismo, a Siunia, a Albânia e a Ibéria, cujos alfabetos originais e rudimentares foram, segundo o testemunho de seus biógrafos, remodelados e adaptados ao tipo mesropo-hayeaniano pelo mesmo Mesrop, assim como o alfabeto dos albaneses e o tipo khoutzouri da escrita georgiana, com o objetivo manifesto de estreitar e reunir essas Igrejas ibero-albanesas à comunidade de jurisdição do católicos armênio.
Sobre o alfabeto dos albaneses, ver Karamiantz, em Zeitschr. der deutschen morgenl. Gesellschaft, t. xl, p. 313; Junker, Caucasica, t. iii, p. 120. Depois da morte de Isaac, o Grande, foi muito naturalmente Mesrop quem foi designado como administrador do patriarcado da Armênia, encargo que ainda ocupou por 6 meses, até seu falecimento, ocorrido em 441.
II. Obras. Os mesmos biógrafos, que nos forneceram este esboço da vida de são Mesrop-Machtotz, a saber, Qoriun, Vie de saint Mesrop, Veneza, 1833, ed. alemã por Welte, Tubinga, 1841, e Lázaro Pharbetzi, lhe atribuem grande número de obras, das quais as principais são: 1° Uma coletânea de orações, sermões e discursos teológicos, conservados de modo fragmentário na coleção chamada dos Sermões de são Gregório Iluminador, Constantinopla, 1737, Veneza, 1838. 2° Uma versão armênia do Novo Testamento. 3° Um Eucológio em armênio. 4° Uma série de hinos. Os hinários e principais livros litúrgicos da Igreja gregoriana, Charagans Machtotz, isto é, «ritual», denominação que corresponde ao sobrenome Machtotz do próprio Mesrop, remontam justamente, no que toca ao seu fundo e núcleo primitivo, ao grande par Mesrop-Sahak como autores ou promotores.
É sobretudo a título de organizador, de diretor de escola e de diplomata administrador que aparece grande e extraordinário o papel desempenhado por Mesrop sob a égide do grande Isaac III. Embora muito provavelmente ele não seja na realidade o tradutor da versão do Novo Testamento que a tradição lhe atribui, sua glória incontestável consistirá em ter estabelecido, como doutor e presidente, toda uma academia de tradutores de textos siro-gregos, e em ter, pela criação de um alfabeto indígena, fonte de uma literatura nacional, fundado as bases de uma liturgia e de um culto armeno-hayeanianos.
Sobre o alfabeto «mesropiano» e a liturgia hayeano-armênia, fundada por Mesrop, cabe ainda notar o seguinte: é, primeiramente, um fato importante a assinalar, por muito tempo desconhecido e só posto em luz pela armenologia dos tempos mais recentes (o sábio Hubschmann, Armenische Grammatik, p. 5 e 323, nota 1, ainda era de opinião contrária), o da existência de uma literatura e de uma escrita armênia anteriores à introdução do cristianismo na Armênia. Essa literatura proto-armênia, que servia ao uso diplomático, nacional e também religioso (culto dos Khourmes ou sacerdotes pagãos), só em pequena parte teria sido escrita em letras gregas ou siríacas. Pois, como fazem supor os testemunhos de Agatângelo, vers. arm., c. cviii, cxxvii, de Fausto de Bizâncio, Hist., t. iii, p. 13, t. iv, p. 4, de Lázaro Pharpetzi, c. ix-x, de Moisés de Corene, t. iii, p. 36, e de Qoriun (em Langlois, Collect. des historiens de l'Arménie, t. ii, p. 10, introd. p. 5), não pode haver dúvida de que existiu, muitos séculos antes de Mesrop, e mesmo muito antes da era cristã, um alfabeto armênio primitivo, como instrumento e receptáculo de uma literatura pagano-armênia bastante considerável.
Esse alfabeto figurava como intermediário e elo de ligação entre o aramaico-palmireno e a escrita pehlvi-arsácida [pahlavî-pártica], esta última derivada ela própria do tipo comum aramaico. Ora, quando, em seguida à recepção do cristianismo pela Armênia gregoriana pré-mesropiana (fim do século III), o grego e o siríaco se impuseram exclusivamente como línguas litúrgicas e cultuais tanto na Armênia Menor quanto na Grande Armênia, as quais doravante não formaram, por assim dizer, senão duas filiais dependentes, uma de Bizâncio, a outra da Síria, é de supor que, sob a influência predominante dessas línguas e dessas literaturas sagradas, a literatura indígena, fundada no alfabeto proto-armênio de caráter aramaico-pehlvioide, tenha caído pouco a pouco em desuso, tanto mais que essa scriptio de caráter avocálico se mostrava visivelmente inferior ao alfabeto grego.
Desse modo, esse antigo alfabeto pagano-armênio, por volta do século IV de nossa era, certamente já não era conhecido senão de alguns sábios, tais como o bispo e filósofo sírio Daniel, segundo o qual o alfabeto foi desde então chamado daniélico. Entrementes, o cenário político mudara por completo no tocante à situação da Igreja armênia. O antagonismo secular entre o Império Romano e o Império iraniano desembocara, depois da queda dos Arsácidas armênios (primeiro sob Mérujan, depois sob o domínio dos Marzbans), na proibição e na supressão da literatura helênica e do idioma grego no território armeno-sassânida. Moisés de Corene, t. iii, p. 50. Tendo sido o grego assim eliminado como língua do culto, e parecendo o siríaco, favorecido pelos Sassânidas, demasiado estrangeiro à nação armênia, o patriarca Sahak, secundado pelo príncipe Verham-Chapouh, inaugurou resolutamente uma reforma litúrgica, condicionada pela introdução de um novo alfabeto composto por Mesrop.
Este recorreu, para tal fim, ao antigo alfabeto proto-armênio, dito daniélico, variante da escrita aramaico-pehlvi, que lhe serviu de base para a sua inovação. Esta, segundo todos os indícios, limitou-se a transformar esse alfabeto avocálico segundo o modelo do tipo grego e do avéstico, dotando-o de sinais vocálicos, coordenando-o, conformando-o e adaptando-o à disposição dos alfabetos helênicos e asiano-hititas, nos quais provavelmente Mesrop terá buscado também certos sinais especiais destinados a exprimir certos sons específicos do idioma hayeaniano. Embora as fontes citem um calígrafo grego Rouphanos (em armênio Hrophanos) de Samósata como auxiliar e conselheiro técnico de Mesrop em seu trabalho alfabético, e embora essa obra mesropiana se revele antes como uma transformação genial do que como uma criação original, o efeito por ela produzido foi radical: a constituição do alfabeto mesropiano condicionou uma liturgia nacional armênia e, provocando uma florescente literatura hayeano-cristã, foi a principal salvaguarda do povo armênio, que, sem isso, estaria ameaçado de ser absorvido pelas nações limítrofes.
Mencionemos ainda o notável paralelismo entre a obra realizada por Mesrop na Armênia e a que ele levou a bom termo na Ibéria. Assim como o alfabeto mesropo-armênio saiu e foi aperfeiçoado a partir do alfabeto daniélico, isto é, de um tipo aramaico-pehlvi, assim também o alfabeto khoutzouri-ibérico (a escrita sagrada dos ibero-georgianos, constituída por Mesrop) se revela manifestamente como um produto de transformação de um tipo alfabético mais antigo, o qual, representado ainda hoje pela escrita civil, dita mekhédrouli, desse mesmo povo, se desvenda como uma derivação do mesmo tipo aramaico-pehlvi.
Qoriun, Agatângelo, Lázaro Pharpetzi, Moisés de Corene, obras citadas; Strygowsky, Baukunst der Armenier und Europa, 1918, t. i, p. 29-42; Das Etschmiadzin-Evangeliar, p. 8; Murad, Ararat el Masis, p. 73; Karakashian, Kritische Geschichte Armeniens (passim); Haruthjunian, Die Schrift der Armenier, 1892; Tiflis, Fr. Müller, Ueber den Ursprung der gruzinischen Schrift, Acad. de Vienne 1898; do mesmo, Ueber den Ursprung der Vokalzeichen der armenischen Schrift, em Wiener Zeitschrift für die Kunde des Morgenlandes t. viii, 2, p. 155 sq. e t. iv p. 234 sq. Teoria de uma fonte copta para a escrita mesropiana: Paul de Lagarde em Göttinger Gelehrte Anzeigen, 1883, p. 281; 1888, p. 80; Aghawarian, Der Ursprung der armenischen Schriftzeichen, Viena, 1895; Menewishian em Handes amsorya, 1896, p. 213 sq. (teoria de uma fonte helênica). Catergian-Dachian, Liturgie chez les Arméniens, passim; F. Nève, L'Arménie chrétienne et sa littérature, em Rev. xxx, 74-80; Zeitsch. der deutsch. morgenl. Gesells., t. p. Fr. Tournebize, Histoire polit. et religieuse de l'Arménie, Paris, 1900, p. 533 sq; Gardthausen, Ueber den Ursprung der armenischen Schrift, 1921; Jos. Marquart, Ueber den Ursprung des armenischen Alphabets in Verbindung mit der Biographie des heil. Mashtoc, Viena, 1917; Heinr. F. J. Junker, Das Avestaalphabet und der Ursprung der armenischen und georgischen Schrift, na revista Caucasica, de A. Dirr, fasc. 2, p. 1-92, fasc. 3, p. 62-139.
J. Karst.
Autor original: J. Karst.
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