MELQUITA (IGREJA)

MELQUITA (IGREJA)

MELQUITA (Igreja). Os cristãos da Síria que permaneceram fiéis à doutrina de Calcedônia receberam, por escárnio, de seus compatriotas monofisitas, o apelido de malkânyia ou imperialistas (do siríaco malka, rei, imperador), porque aceitavam as definições dogmáticas em honra na corte de Constantinopla. Mais tarde, os autores árabes muçulmanos empregaram também a forma malkânyia, mas os cristãos adotaram a forma, mais árabe, de melkî, plural melkîn, de onde se tirou Melquita. Salvo uma fraca minoria de origem grega (comerciantes, colonos, soldados ou funcionários), os melquitas eram de raça síria, como os monofisitas e os maronitas. Os ortodoxos, isto é, aqueles dentre eles que não fizeram sua união com Roma, intitulam-se hoje Roûm ou Romanos, no sentido bizantino da palavra grega 'Ρωμαῖοι. Os católicos conservaram o nome de melquitas, que lhes é dado muitas vezes a título exclusivo, embora convenha igualmente aos ortodoxos. Cf. C. Charon, L'origine ethnographique des melkites, nos Échos d'Orient, 1908, t. xi, p. 82-91. Conformar-nos-emos à tradição comum falando apenas da Igreja melquita unida a Roma.

1° As origens. A heresia monofisita tornara-se no século vi a doutrina religiosa de quase toda a Síria, sobretudo após a organização da Igreja dissidente chamada jacobita, do nome de seu fundador Jacó Baradeu. Os católicos compreendiam apenas uma minoria grega ou fortemente helenizada que continuava a pedir suas diretrizes a Constantinopla. Enquanto durou o domínio dos imperadores bizantinos, sua situação permaneceu satisfatória, apesar da hostilidade dos heréticos. As invasões persas de 540, 576, 606, 613-615 haviam causado, no entanto, muitas devastações. A chegada dos árabes muçulmanos, em 635, tornou precária a posição dos melquitas, suspeitos para seus novos senhores de se fazerem agentes dos bizantinos, enquanto os jacobitas acolhiam os invasores com maior ou menor simpatia para se livrarem do domínio detestado de Constantinopla. Seguiu-se uma emigração grega considerável que diminuiu fortemente o número dos fiéis. C. Karalewskij, art. Antioche, no Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques, t. iii, col. 589-90.

Os primeiros tempos da ocupação árabe não viram, contudo, perseguições propriamente ditas. Se o Corão foi ensinado aos sírios e se os cristãos foram sujeitos a um imposto especial, os califas permitiram às diversas confissões organizar-se livremente em comunidades autônomas, sistema que os turcos imitaram mais tarde. A perseguição só começou por volta do fim do século vii. Houve por isso várias vacâncias da sé patriarcal de Antioquia, e algumas foram de longa duração, como a de 702 a 742. Os bizantinos conseguiram ocupar Antioquia durante mais de um século (969-1085) e restabeleceram a autoridade do patriarca na Síria do Norte.

— 2° O cisma. Os melquitas haviam sempre seguido, mesmo sob o domínio árabe, as diversas fases da política religiosa do império bizantino. Isso quer dizer que sua união com Roma dependia da corte de Constantinopla, pois era por ela que conservavam algumas relações com o Ocidente. Muitos de seus patriarcas e de seus bispos eram, aliás, gregos ou de formação bizantina. O cisma de Miguel Cerulário (1054) fez sentir seus funestos efeitos até na Síria. Se o patriarca Pedro III hesitou em seguir seu colega de Constantinopla, o mesmo não se deu com seu sucessor, Teodósio III Crisoberges, partidário declarado de Cerulário, nomeado para o trono de Antioquia provavelmente em 1057. L. Bréhier, Le schisme oriental du XIe siècle, Paris, 1899, p. 231-236. As relações com Roma tornavam-se, aliás, difíceis. Os patriarcas dessa época foram tomados exclusivamente do clero bizantino, de quem tinham naturalmente as prevenções antilatinas postas em honra por Fócio e Miguel Cerulário. O baixo clero, inteiramente indígena e muitas vezes ignorante, sofria a influência de seus chefes.

O regime instaurado pelos cruzados aumentou ainda a hostilidade dos melquitas contra Roma. Desde o estabelecimento de um patriarca latino em Antioquia, os titulares gregos residiam as mais das vezes em Constantinopla, de onde dirigiam o movimento antirromano. Um deles, Teodoro IV Villehardouin, da família desse nome e passado à ortodoxia grega, subscreveu, no entanto, a união proclamada no concílio de Lyon em 1274. De volta à Síria após a partida dos cruzados, os patriarcas gregos de Antioquia residiram em diversos lugares, sobretudo após a ruína da cidade. É provavelmente Pacômio I quem transportou a sé para Damasco, na segunda metade do século xiv.

— 3° Tentativas de união. Doroteu I (1434-35-1451) fez-se representar no concílio de Florença por Isidoro, metropolita de Kiev, adquirido à união. Parece que as decisões do concílio foram bem acolhidas na Síria. Infelizmente a viagem que o metropolita de Cesareia da Capadócia, Arsênio, fez a Jerusalém em 1443 destruiu em grande parte essa boa impressão, e a união foi efêmera. Allatius, De Ecclesiae orientalis et occidentalis perpetua consensione, Colônia, 1648, t. III, c. v, col. 938-942. O papa Calisto III, todo voltado à ideia de retomar Constantinopla aos turcos, procurou arranjar alianças na Síria e enviou para lá em missão Moisés Giblet, de origem francesa e provavelmente de rito bizantino. Moisés fez propostas de união ao patriarca Miguel II e ganhou para a causa de Roma Joaquim, bispo de Epifania (Hama), em 1456. Escreveu do Chipre a Marcos III, irmão e sucessor de Miguel III, uma longa carta sobre o mesmo assunto e enviou-lhe um discurso de Gregório Mamas, patriarca católico de Constantinopla.

Em fevereiro de 1457, foi ter com Marcos III e acabou por decidi-lo a fazer a união. Um sínodo local restabeleceu o nome do papa nos dípticos. Marcos III entrou em relações com Calisto III. Seu sucessor, Joaquim de Epifania, já era católico. Mal eleito, dirigiu-se à Palestina, onde teve uma longa conferência com os patriarcas Marcos de Alexandria e Joaquim de Jerusalém, que se pronunciaram ambos pelo reconhecimento do papa. Moisés Giblet, tornado mandatário dos três prelados, foi a Roma entregar a Pio II o seu ato de união (1459).

Esse passo coletivo não teve infelizmente resultado duradouro, sem dúvida por causa da falta de relações regulares entre o Oriente e o Ocidente. A conquista da Síria pelos otomanos, em 1516, não mudou a situação das Igrejas cristãs, salvo que o patriarca ecumênico de Constantinopla, tornado pela vontade dos sultões o chefe espiritual e temporal dos ortodoxos do império, fez todos os esforços para estabelecer na Síria uma hierarquia puramente grega. Se teve êxito bastante frequente quanto à sé patriarcal, nunca pôde fazer o mesmo quanto às sés episcopais, que permaneceram sempre, em número maior ou menor, nas mãos dos indígenas.

Novas relações criaram-se entre Roma e a Síria na segunda metade do século XVI. Gregório XIII havia enviado ao Oriente um sacerdote maltês, Leonardo Abel, para trabalhar pela união dos jacobitas, que acabavam de lhe fazer propostas, e para fazer aceitar a recente reforma do calendário (1583). Leonardo, criado bispo titular de Sidon, entrou em relações com o patriarca de Antioquia, Joaquim V, que adiou sua resposta sob pretexto de entender-se com seus colegas de Alexandria e de Constantinopla, depois com Miguel VII, que subscreveu a profissão de fé que lhe foi apresentada, ver Abel (Léonard), no Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques, t. I, col. 69, 70. O velho prelado morreu antes de ter podido trabalhar seriamente pela causa da união.

As tentativas de aproximação só recomeçaram com o século XVII. Melécio Karmi, tornado arcebispo de Alepo em 1612, preocupava-se em revisar as traduções árabes que suplantavam cada vez mais as siríacas. Para atingir esse resultado, entrou em relações com Roma, a fim de obter livros gregos e bons tradutores. A Propaganda, recentemente fundada, respondeu com benevolência, mas não julgou dever ainda conceder o que lhe era pedido. Os jesuítas e os capuchinhos estabeleceram-se em Alepo em 1625, os carmelitas em 1626, e trabalharam igualmente pela aproximação dos espíritos. O P. Queyrot, jesuíta, logo teve a confiança do arcebispo, cujo arquidiácono, Miguel Baja, ensinava árabe aos missionários latinos. A ideia da união fez por esses meios rápidos progressos, a tal ponto que em 1631 o patriarca Inácio III Atyyé, que se reconhecia culpado da morte de seu competidor Cirilo IV Dabbâs, pediu aos capuchinhos que interviessem em Roma para obter a absolvição de seu crime e também socorros pecuniários para sua Igreja. A 5 de julho de 1631, a Propaganda respondeu que era preciso primeiro aceitar a união.

Melécio Karmi tornou-se patriarca em 1634 sob o nome de Eutímio II, levou consigo a Damasco o P. Queyrot e deixou-lhe completa liberdade de pregar nas igrejas. Enviou em seguida a Roma o sacerdote Pacômio para pedir a união. Pacômio voltou com uma profissão de fé que lhe entregara a Propaganda, mas Eutímio II, não podendo pagar uma forte soma que lhe reclamava o paxá de Damasco, tivera de retirar-se para Alepo e apresentar sua demissão. Morreu, aliás, no início de 1635. Pacômio, encarregado pela Propaganda de negociar com Eutímio III, o Quiota, provavelmente não obteve nenhum resultado. Os esforços do P. Queyrot († 1653) haviam ganho para a causa da união vários milhares de melquitas.

O patriarca Macário III (1647-1672) interessou-se por esse movimento e enviou sua profissão de fé a Roma em 1664, mas sem ousar torná-la pública. Tinha relações boas demais com os chefes da ortodoxia e com a corte de Moscou para expor-se a perdê-las. Sua sucessão trouxe perturbações pela competição de vários prelados. Atanásio III, eleito em 1685, julgou fortalecer sua posição fazendo profissão de fé católica. Teve êxito, e a 16 de junho de 1687 a Propaganda confirmou sua eleição. Esse ato não pôs fim às suas desavenças com Cirilo V. Em outubro de 1694, retirou-se diante de seu competidor e obteve em troca a sé de Alepo. Inocêncio XII anulou a convenção feita entre os dois prelados e pediu a Atanásio que retomasse o trono patriarcal. Por outro lado, o arcebispo de Alepo, que seria preciso depor para dar sua sé a Atanásio, enviou sua profissão de fé a Roma, ao mesmo tempo que Macário de Trípoli, convertido pelos capuchinhos dessa cidade (1698).

A causa da união fazia rápidos progressos, particularmente em Damasco e em Alepo, que eram os dois centros principais de apostolado. Em 1701, ganhou Baalbek e Beirute, cujos bispos, Parthénios e Silvestre, fizeram sua profissão de fé. O sobrinho de Eutímio II Karmi, Eutímio Saïfi, que fora aluno do P. Queyrot, tinha aderido a Roma em 1684, um ano depois de se tornar arcebispo de Tiro. A maior parte das adesões episcopais permanecia secreta e nenhuma ruptura existia entre o patriarca e seus sufragâneos unionistas. Era o efeito do método adotado pelos jesuítas de obter o maior número possível de adesões secretas para criar um movimento sério no momento oportuno. Entretanto, Cirilo V via com maus olhos as tentativas de união e feria de suspensão os sacerdotes que faziam profissão de fé romana.

Foi somente no início do século XVIII que se fizeram tentativas para dar aos católicos uma organização particular. A 6 de dezembro de 1701, o arcebispo de Tiro, Eutímio Saïfi, obteve da Propaganda um rescrito que o nomeava administrador de todos os melquitas unidos da Síria que eram governados por prelados ortodoxos. Preocupou-se imediatamente em encontrar sacerdotes capazes de ampliar o movimento que levava as populações para Roma. Em 1697, nove religiosos do mosteiro de Balamand, perto de Trípoli, tinham fundado na aldeia de Chouéir, no Líbano, a Congregação basiliana choueirita. Eutímio Saïfi lançou, em 1708, os fundamentos do mosteiro de São Salvador, perto de Sidon, berço da Congregação desse nome. Por seu lado, Roma trabalhava para preparar sacerdotes instruídos em seu colégio grego da Propaganda. O mais célebre dos que ali estudaram nessa época foi Serafim Tânâs, sobrinho de Eutímio Saïfi, monge de São Salvador, que se fez apóstolo da união na diocese de Acre. Eutímio Saïfi desenvolvia o movimento em todas as regiões do patriarcado. O cônsul da França em Sidon, Poullard, aproveitou as boas relações que tinha com Cirilo V para levá-lo à união. Teve êxito em 1716. A via havia sido, aliás, preparada pela influência do P. Lorenzo Cozza, custódio da Terra Santa.

P. Livarrio Oliger, O. F. M., Vita e diarii del card. Lorenzo Cozza, Quaracchi, 1925, p. 56-57. Uma dificuldade séria quase comprometeu essa submissão. A Propaganda havia confirmado, em 1687, a eleição de Atanásio III, e este continuava vivo. Embora seu catolicismo fosse muito duvidoso, parecia difícil despojá-lo de seu título. Em 1717, a Propaganda pediu-lhe que renunciasse a ele, mas ele se guardou bem de fazê-lo. Decidiu-se, a 9 de maio de 1718, a reconhecer Cirilo V, que morreu a 16 de janeiro de 1720. A continuação da história da Igreja melquita foi dada no art. Antioche, t. i, col. 1417. Para mais detalhes ver o art. citado abaixo de C. Karalevskij.

A. d'Avril, Les Grecs Melkites, na Revue de l'Orient chrétien, t. iii, 1890, p. 1-10; C. Charon, L'Église grecque melkite catholique, nos Échos d'Orient, t. iv, 1900-1901, p. 208-275, 325-333; L'origine ethnographique des melkites, ibidem, t. xi, 1908, p. 82-91; A. Fortescue, The uniate eastern Churches, Londres, 1923, p. 183-194; C. Karalevskij, article Antioche, no Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques, t. iii, col. 585-646.

Autor original: R. Janin

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