MELQUISEDEQUIANOS

MELQUISEDEQUIANOS

MELQUISEDEQUIANOS, seita de heréticos descrita por santo Epifânio, Hæres., lv, que lhes atribui toda sorte de opiniões estranhas sobre a pessoa de Melquisedeque.

I. OS MELQUISEDEQUIANOS SEGUNDO SANTO EPIFÂNIO. É a santo Epifânio que devemos o primeiro emprego do nome de melquisedequianos, atribuído a uma seita determinada, e o heresiólogo pretende que os heréticos em questão se designam a si mesmos dessa maneira, Hæres., lv, 1, 5, edit. Holl, t. II, p. 324, Leipzig, 1919. Ele lhes consagra uma notícia bastante longa e bastante embaraçada. Desde o começo, coloca-nos em presença de heréticos que se ligam a Teódoto, o Curtidor, e que consideram Melquisedeque uma grande potência; fazem-no viver em lugares inefáveis e declaram, segundo o Sl. CIX, que ele é superior ao Cristo. Acrescentam, conforme a Epístola aos Hebreus, que ele não tem pai, nem mãe, nem genealogia. Hæres., lv, 1. Epifânio acrescenta que conhece certos eruditos que sabem os nomes dos pais de Melquisedeque: seu pai se chamava Heraclas e sua mãe Astoriana, ibid., 2, p. 325. Esses eruditos devem ter tomado suas informações de tradições judaicas. O heresiólogo não nos diz se faziam parte da seita.

Depois de uma digressão bastante longa sobre Salém, a cidade de Melquisedeque, a notícia prossegue relembrando uma série de opiniões mais ou menos estranhas a respeito do personagem: Hieracas ensina que Melquisedeque é o Espírito Santo, ibid., 5, p. 330; os samaritanos pretendem que ele não é senão Sem, filho de Noé, ibid., 6, p. 331; judeus sustentam que era um homem justo e bom, cuja genealogia os Livros santos não dão porque era filho de uma prostituta, ibid., 7, p. 333; certos, na Igreja católica, pensam que Melquisedeque era por natureza o Filho de Deus, que apareceu a Abraão sob forma de homem, ibid., 7, 3, p. 333-334; outros, ao que ouviu dizer Epifânio, creem que ele não é senão o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, ibid., 9, 11, p. 336. Quanto à heresia acima referida, acrescenta o escritor, ibid., 8, 1-2, p. 334, ela apresenta as oferendas em nome de Melquisedeque e diz que ele é o introdutor, εἰσαγωγέα, junto de Deus, porque é príncipe da justiça e estabelecido para isso mesmo por Deus no céu, sendo espiritual e constituído para o sacerdócio de Deus, πνευματικός τις ὤν καὶ εἰς ἱερωσύνην Θεοῦ τεταγμένος (texto a ler assim com Holl; as antigas edições trazem καὶ υἱὸς Θεοῦ, o que parece um erro). Por isso, continuam os sectários, devemos apresentar-lhe nossas oferendas, a fim de que ele as apresente por sua vez por nós, e que por ele obtenhamos a vida.

Naturalmente os escritores posteriores a Epifânio reproduzem certo número de suas informações; tomam-lhe emprestado em particular o nome de melquisedequianos; assim fazem são João Crisóstomo, Hom. de Melchis., 3, P. G., t. LVI, col. 260; Teodoreto, Hæret. fab. comp., II, 6, P. G., t. LXXXIII, col. 392 D; santo Agostinho, De hæres., 34, P. L., t. XLII, col. 31; o Prædestinatus, hæres., I, 34, P. L., t. LIII, col. 598; santo Isidoro de Sevilha, De hæres., 17, P. L., t. LXXXII, col. 299; Honório de Autun, Hæres., 32, P. G., t. CLXXII, col. 237, etc.

II. Crítica do testemunho de Epifânio. Como se pôde ver pela análise precedente, a notícia de Epifânio é muito confusa e aproxima, numa unidade fictícia, elementos extremamente diversos. O heresiólogo ficou impressionado com a multidão das opiniões emitidas, tanto por heréticos quanto por católicos, a respeito de Melquisedeque, e, para relatar juntas todas essas opiniões, constituiu um quadro que não corresponde a nenhuma realidade histórica determinável. Na falta de melquisedequianos propriamente ditos, conhecemos ao menos a existência de heréticos que especularam longamente sobre o personagem de Melquisedeque.

1° O primeiro, ao que parece, que assim fez, é Teódoto, o Banqueiro, que vivia no início do século III e foi discípulo de Teódoto, o Curtidor. A mais antiga notícia que temos sobre ele é a de santo Hipólito, Philosoph., VII, 36, edit. Wendland, Leipzig, 1916, p. 222: « Tendo sido feitas diferentes pesquisas entre eles, alguém que também se chamava Teódoto e era banqueiro de ofício chegou a dizer que Melquisedeque era uma potência muito grande e que era maior do que o Cristo. Dizem que o Cristo é à sua imagem; e eles também, como os teodocianos acima mencionados, pretendem que Jesus é um homem e, da mesma maneira, que o Cristo desceu nele. » Antes de ter redigido os Philosophoumena, Hipólito já havia falado de Teódoto no Syntagma, de onde provêm as notícias do pseudo-Tertuliano, Adv. omn. hæres., 8, P. L., t. II, col. 72-74, de Filastro, Hæres., LI, edit. Marx, Viena e Leipzig, 1898, p. 27, e o início da de santo Epifânio. O pseudo-Tertuliano nos dá a conhecer os argumentos escriturísticos de Teódoto, que santo Epifânio também reproduz, a saber Sl., CIX, 4 e Hebr., VII, 1-6. Ficamos sabendo assim que Melquisedeque era, segundo o banqueiro, a grande potência de Deus e que intercedia pelos anjos e pelas virtudes celestes, tal como o Cristo intercedia pelos homens.

Não parece que a escola teodociana tenha sobrevivido muito tempo a seus fundadores. O tratado Contra Artemão, citado por Eusébio, H. E., V, 28, edit. Schwartz, Leipzig, 1903, p. 500 sq., assinala as divisões da seita e a conversão de seu bispo Natal, mas já Novaciano, no De Trinitate, não faz mais nenhuma alusão a Teódoto e a seus devaneios acerca de Melquisedeque.

2° No início do século IV, outros heréticos, sem nenhum laço com os teodocianos de Roma, pretendem que Melquisedeque é o Espírito Santo. Tal é o caso de Hieracas, que a notícia de santo Epifânio já nos deu a conhecer, Hæres., LV, 5, e sobre o qual o bispo de Salamina volta longamente, Hæres., LXVII. Para sustentar sua opinião, Hieracas apoiava-se principalmente em Hebr., VII, 3: desde o momento em que Melquisedeque é assimilado ao Filho de Deus, não pode ser confundido com ele; é preciso, pois, crer que é o Espírito Santo, Hæres., LXVII, 3, P. G., t. XLII, col. 76. Fazia também apelo à Ascensão de Isaías e a outros apócrifos. Não conhecemos nenhum discípulo de Hieracas, e não parece que suas opiniões estranhas tenham dado origem a uma seita.

O próprio santo Epifânio, quando assinala Hieracas entre os melquisedequianos, não chega a pretendê-lo.

III. Especulações posteriores a Epifânio. Se não é possível encontrar uma seita de melquisedequianos, é ao menos seguro que durante muito tempo se procurou saber que lugar convinha dar ao misterioso rei de Salém e que muitos o identificaram a uma pessoa divina.

1° Por volta de 375, alguns exegetas romanos tentavam provar que Melquisedeque não era outro senão o Espírito Santo. Tal é a tese longamente demonstrada pelo pseudo-Agostinho, na 109ª das Quæstiones Veteris et Novi Testamenti, edit. Souter, Viena e Leipzig, 1908, p. 257-268. Essa tese, quando foi conhecida por são Jerônimo, alguns anos mais tarde, foi de sua parte objeto de uma refutação vigorosa, Epist., LXXIII, Ad Evangelum, edit. Hilberg, t. II, p. 14-22. Foi igualmente refutada pelo autor desconhecido de um sermão conservado sob o nome de Orígenes, e que pode provir de um mosteiro palestinense do fim do século IV, edit. Baehrens, Ueberlieferung und Textgeschichte der lateinisch erhaltenen Homilien des Origenes, Leipzig, 1916, p. 243-252.

2° Por volta da mesma época e no início do século V, certo número de cristãos do Egito exprimiam opiniões estranhas sobre Melquisedeque. Vários o identificavam ao Espírito Santo, cf. Cirilo de Alexandria, Glaphyra in Gènes., II, P. G., t. LXIX, col. 84 sq.; outros, entre os monges, diziam que ele era o Filho de Deus, Apophtegm. Patr., De abbate Daniele, 8, P. G., t. LXV, col. 160. São Cirilo combateu uns e outros.

3° Um pouco mais tarde, ao que parece, por volta de 420, Marcos, o Eremita, conhecia na Galácia, e especialmente na região de Ancira, sectários que viam em Melquisedeque o Filho de Deus, e escreveu uma importante obra para refutá-los, De Melchisédech, P. G., t. lxv, col. 1117-1140. Pela primeira vez, ao que parece, encontramo-nos diante de um grupo de heréticos declarados, excomungados pelos bispos, e que fazem de Melquisedeque o centro de suas especulações. Não é impossível que esses heréticos se liguem por algum laço aos raciocinadores de que fala santo Epifânio, Hæres., lv, 7, edit. Holl., t. ii, p. 333; cf. J. Kunze, Marcus Eremita, Ein neuer Zeuge für das altkirchliche Taufbekenntnis, Leipzig, 1895, p. 82, 83, e acima, t. ix, col. 191.

4° Na segunda metade do século vii, existia, ao que parece, na Frígia, uma heresia que se reclamava de Melquisedeque. Ela nos é conhecida por uma notícia de Timóteo de Constantinopla, De recept. hæret., P. G., t. lxxxvi a, col. 33: « Há melquisedequianos, os que agora se chamam Atinganos. Glorificam-se de Melquisedeque, de quem tiraram seu nome. Habitam a Frígia; não são nem hebreus nem pagãos; pois parecem guardar o sábado, mas não circuncidar sua carne. Não permitem a nenhum homem que os toque... » Algumas informações complementares sobre esses heréticos são fornecidas por um texto anônimo, De Melchisedecianis et Theodotianis et Atthinganis, contido nos mss. Paris, græc. 364, fol. 43, e Coislin. 39, fol. 270, da Biblioteca nacional de Paris. Segundo esse texto, obra de um erudito que conhece os antigos heresiólogos, os heréticos em questão pretendem que Melquisedeque é uma grande potência superior ao Cristo; alguns deles o identificam mesmo a Deus Pai. Todos observam o sábado, praticam a adivinhação e a magia e invocam os demônios. Não temos infelizmente nenhum dado histórico que nos permita seguir as vicissitudes da seita. A notícia sobre os Atinganos é o último texto que fala de heréticos melquisedequianos.

Procuramos mostrar aqui quanto esse nome servia para cobrir especulações variadas e sem laço entre si. As especulações sobre Melquisedeque são aliás anteriores a Teódoto, e prosseguiram longamente depois do século vii. Não tínhamos de fazer aqui a sua história, mas somente de nos perguntar sobre sua influência na constituição de sistemas heréticos.

L. Borgesius, Historia critica Melchisédech, Berna, 1706; Dom Calmet, Dissertation sur Melchisédech, em Commentaire littéral de tous les livres de l'A. et du N. T., Paris, 1726, t. viii, p. 636-642; M. Friedländer, La secte de Melchisédech et l'Épitre aux Hébreux, em Revue des Études juives, 1882, t. v, p. 1-26, 188-198, 1883, t. vi, p. 187-199; A. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, t. I, 4ª edit., Leipzig, 1909, p. 713, 745; J. Tixeront, La théologie anténicéenne, 9ª edit., p. 351-352; G. Bardy, Melchisédech dans la tradition patristique, em Revue biblique, 1926, p. 496-509; 1927, p. 25-45.

G. Bardy.

Autor original: G. Bardy

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