MELÉCIO DE ANTIOQUIA, assim chamado por causa da cidade da qual foi bispo de 361 a 381 (os textos antigos dão as duas grafias Μελέτιος e Μελίτιος; esta última parece ter a seu favor os testemunhos mais seguros). — O nome de Melécio recorda sobretudo ao historiador a situação turbulenta que se perpetuou durante toda a segunda metade do século IV na capital do Oriente, e que se convencionou chamar, aliás muito impropriamente, o cisma meleciano de Antioquia. Um breve resumo desse episódio foi dado no art. Antioche, t. i, col. 1403. Mas o cisma meleciano teve repercussões tão grandes no domínio teológico, foi explorado em sentidos tão diversos, que convém estudá-lo aqui com um pouco mais de pormenores. I. A situação em Antioquia em 360. II. A eleição de Melécio e a de Paulino. III. Os esforços para reduzir o cisma. IV. Flaviano e a extinção definitiva do cisma antioqueno.
I. A situação em Antioquia em 360. A Igreja de Antioquia fora a primeira perturbada pela reação antinicena, conduzida por Eusébio de Nicomédia e pelos amigos de Ário. Ver Arianisme, t. i, col. 1802 sq. Já em 330, o bispo santo Eustácio, vigoroso adversário do arianismo, havia sido deposto, sob diversos pretextos, e exilado na Trácia, onde não tardou a morrer (provavelmente antes de 337). Em seu lugar a camarilha eusebiana instalava sucessivamente prelados que podia julgar devotados às suas ideias, sem que, contudo, sua heterodoxia fosse sensivelmente mais acentuada que a de numerosos bispos da região. Os fiéis de Antioquia haviam-se dividido muito cedo sobre a questão da atitude a tomar em relação aos bispos que assim lhes foram impostos. Não falemos dos neutros ou dos mornos, prontos para todas as concessões. Mas os próprios ortodoxos não eram unânimes. A maior parte, apoiando-se, ao que parece, numa consigna dada por Eustácio, aceitou os pastores eusebianos, por suspeitos que fossem, mantendo contudo vigorosamente contra eles a ortodoxia nicena. Por outro lado, um pequeno grupo de fiéis separou-se, com certo estardalhaço, do conjunto da comunidade. Fiéis à memória de Eustácio, foram designados pelo nome de eustacianos e formaram desde então uma pequena Igreja, Igreja ainda incompleta, é verdade, pois era dirigida por um simples presbítero, Paulino. A intransigência mais absoluta logo ali se tornou a ordem do dia; afetava-se englobar sob o mesmo anátema todos aqueles que, quaisquer que fossem seus sentimentos íntimos, se colocavam sob o cajado dos pastores suspeitos.
Contudo, os católicos unidos (assim chamamos, com F. Cavallera, aqueles que reconheciam a hierarquia estabelecida) não deixavam de inquietar-se com a penetração em Antioquia das ideias antinicenas. O bispo Leôncio (344-358), sobretudo, manifestava para com o arianismo apenas disfarçado de seu discípulo Aécio, ver t. i, col. 516, uma complacência que se tornava cumplicidade. Ignoramos se o partido católico contava um certo número de dignitários eclesiásticos. Em todo caso, a direção efetiva era-lhe dada por dois leigos, que já de longa data faziam profissão de ascetismo, chamados ambos a altos destinos: Diodoro, que será um dia bispo de Tarso, e Flaviano, que subirá ao próprio trono de Antioquia. Por ora, nesses últimos anos do reinado de Constâncio, em que parecia que a fé de Niceia, no Oriente, levava a pior por toda parte, mantinham, tanto quanto era possível, no rebanho católico os próprios princípios da ortodoxia, e seus esforços contribuíram, com toda certeza, para preservar Antioquia de uma submersão total pela onda antinicena.
Tal era, portanto, a situação em Antioquia por volta de 360. Sob prelados hostis à fé de Niceia alinhavam-se tanto fiéis que partilhavam sua desconfiança a respeito do consubstancial quanto ortodoxos que haviam permanecido no concílio de 325. À sua esquerda, fiéis arianos exaltados, que não tardariam a conhecer, ou já haviam conhecido, os rigores imperiais. À sua direita, nicenos intransigentes, reunidos em torno de Paulino, opostos a toda conivência com quem não fosse do seu lado. Cumpre acrescentar que essa capela dissidente podia gabar-se de uma aparência de reconhecimento oficial por parte da Igreja. Quando, em 346, santo Atanásio, chamado de volta de seu segundo exílio, passara por Antioquia, fora entre os eustacianos que celebrara a sinaxe litúrgica, e foi para eles que pedira ao imperador, sem sucesso aliás, a concessão de um lugar de culto. Rufino, H. E., I, xix, P. L., t. xxi, col. 492, resumido por Teodoreto, II, ix, e completado por Sozômeno, III, xx. P. G., t. lxxxii, col. 1021; t. lxvii, col. 1001.
II. A ELEIÇÃO DE MELÉCIO E A DE PAULINO. Os anos de 360 a 363 iriam complicar ainda mais essa situação. Três Igrejas se constituiriam em Antioquia, tendo cada uma à sua frente um bispo. 1° Eleição de Melécio. Antioquia, como numerosas outras sés, sofrera o contragolpe das múltiplas reviravoltas que haviam dado sucessivamente o favor imperial aos anomeus, aos homeusianos e, finalmente, aos homeanos. Cf. Arianisme, t. i, col. 1821 sq. O bispo Eudóxio, um homeano que, em 358, conseguira fazer-se transferir de Germanícia para a sé de Antioquia, fora vítima da reação homeusiana desencadeada por Basílio de Ancira. Exilado na Armênia, deposto em Selêucia em 359, fora substituído por Aniano. Mas, pouco tempo depois, o homeísmo triunfava em Selêucia, onde Aniano, mal eleito, foi deposto, depois em Constantinopla, em 360. Enquanto os homeusianos eram dizimados, os homeanos instalavam-se no poder. A 27 de janeiro de 360, Eudóxio substituía na sé de Constantinopla Macedônio, exilado. Por esse motivo Antioquia permanecia sem bispo. Não estava só nesse caso, e o partido homeano viu-se obrigado a prover as numerosas sés vagas. Se fosse preciso tomar ao pé da letra o historiador Filostórgio, H. E., V, i, edição Bidez, p. 66, anomeu, ele teria procedido de tal modo que, quase por toda parte, aos homeusianos exilados teriam sucedido prelados defensores do consubstancial. Exagero de homem de partido.
O que se deveria dizer, antes, é que as escolhas desse ano de 360 foram influenciadas menos por questões de doutrina do que por considerações de pessoas; e acabou acontecendo, resultado bastante inesperado, que vários dos bispos promovidos pelos homeanos estavam mais próximos da ortodoxia nicena do que aqueles a quem sucediam. Foi o caso em Antioquia. Acácio de Cesareia, o grande chefe do terceiro partido, fez eleger um certo Melécio. Não se tem muita clareza sobre os antecedentes do personagem. Originário de Melitene, na Armênia Menor, quase não aparece na história antes de 358. Santo Epifânio o considera um homeano, a reboque de Acácio de Cesareia, Hæres., lxxiii, 23, P. G., t. xlii, col. 445 A, em oposição a homeusianos como Basílio de Ancira, Jorge de Laodiceia, Eustácio de Sebaste. Tendo este último sido deposto, talvez em Melitene, em 358, Melécio foi eleito como seu sucessor. R. Janin. As dificuldades que encontrou em Sebaste levaram-no a retirar-se para Bereia (Alepo). Teodoreto, H. E., II, xxvii, P. G., t. lxxxii, col. 1080 D. Figurou ele no concílio de Selêucia, e assinou a fórmula homeana? Epifânio insinua que o fez, Hæres., lxxiii, 23, comparar 445 A e 448 B; Sócrates e Filostórgio o indicam expressamente. H. E., II, xliv, P. G., t. lxvii, col. 356; H. E., V, i, edição Bidez, p. 67. Mas os testemunhos destes dois últimos estão viciados por graves erros cronológicos e, quanto ao autor do Panarion, coisa bem curiosa, não dá o nome de Melécio em sua lista dos signatários de Selêucia; ibid., n. 26, col. 452-453. A questão permanece, pois, ao menos duvidosa; pode ser que, por uma razão ou por outra, Melécio não tenha sido convocado ao concílio. Se já não exercia função de bispo em 360, compreende-se também que não tenha tido ocasião de assinar a fórmula elaborada em Niké e promulgada em Constantinopla. Dessa maneira explica-se que tenha sido considerado por Acácio como sendo do seu partido, sem que contudo tenha dado garantias precisas à camarilha homeana. Sobre essa questão dificílima, ver as apreciações divergentes de F. Loofs, art. Meletius, em Protest. Realenc., t. xii, p. 553, e de F. Cavallera, Le schisme d'Antioche, nota D, Antécédents de Mélèce, p. 94-97.
Parece-nos, de nossa parte, que a elevação de Melécio à sé de Antioquia deve ser atribuída ao grande desejo de paz religiosa que se tinha um pouco por toda parte, depois das revoluções sucessivas dos anos precedentes. Queriam-se ver à obra homens novos, menos comprometidos, menos nitidamente arregimentados nos partidos antigos. Melécio devia estar nesse caso. Alepo, onde se havia retirado, não fica longe de Antioquia, e na capital do Oriente o antigo bispo de Sebaste era conhecido como homem pacífico, moderado. Foi recebido com entusiasmo pela maioria da população cristã; somente os eustacianos lhe fizeram má cara e continuaram suas reuniões separadas.
2° Primeiro exílio de Melécio e formação do grupo meleciano. Mas era inevitável que descontentamentos explodissem um dia ou outro no rebanho um tanto heterogêneo que se colocava sob o cajado do novo bispo. Certas medidas administrativas, relacionadas de perto ou de longe com a questão religiosa, indispuseram a parte arianizante da comunidade; sobretudo um célebre discurso em que o novo bispo expôs, fazendo a exegese do texto de Prov., viii, 22, sua doutrina sobre a geração do Verbo, mostrou claramente que, por condescendente que Melécio tivesse sido outrora para com as altas personalidades homeanas, não deixava de professar uma fé na qual os nicenos podiam reconhecer-se. Esse discurso foi conservado por Epifânio, Hæres., lxxiii, 29-33, P. G., t. xlii, col. 457-465; discutiu-se muito o rótulo teológico que convém atribuir-lhe; F. Loofs, loc. cit., e E. Schwartz, Zur Gesch. des Athanasius, p. 361, n. 2, declaram, sem rodeios, o discurso homeano; F. Cavallera, op. cit., p. 84 sq., considera-o ortodoxo, e essas apreciações contraditórias não fazem senão refletir divergências bem mais antigas. Parece-nos que, dadas todas as circunstâncias de tempo e de lugar, o discurso é uma manifestação deliberada em favor da fé tradicional. Se não emprega nenhuma das fórmulas em torno das quais disputavam os teólogos, afirma tudo o que afirmava o Credo de Niceia, repudia todas as interpretações ambíguas que, de perto ou de longe, roçavam o arianismo. Aliás, o próprio F. Loofs vê-se bem forçado a reconhecer que a chegada de Melécio a Antioquia fora o ponto de partida de um movimento em favor da fé nicena. O discurso em questão harmoniza-se em todos os pontos com essa constatação.
O imperador Constâncio, que então residia em Antioquia, assistira a esse sermão. Compreende-se de sobra que tenha dado a entender que Melécio era doravante impossível. O bispo foi exilado em Melitene, sua pátria, e substituído logo em seguida por um ariano da primeira hora, Euzóio, outrora condenado por Alexandre de Alexandria juntamente com os primeiros adeptos de Ário. Desta vez os ortodoxos de Antioquia já não podiam hesitar; romperam definitivamente com os arianizantes de todos os matizes. Sob a condução de Diodoro e de Flaviano, formaram um grupo compacto, como o foram os fiéis de Melécio, os melecianos, passou-se a dizer. Parecia muito natural que esses ortodoxos se reunissem logo aos velhos eustacianos, que Paulino governava. Sua antipatia comum para com os arianos, sua comum adesão à mesma fé tradicional deveriam ter aproximado os dois grupos. Os melecianos, ao que parece, propuseram a fusão; suas propostas foram repelidas com altivez pelos eustacianos, que se julgavam os únicos ortodoxos, os únicos puros de toda comprometimento. Aconteceu, pois, que, durante longos anos, os católicos de Antioquia se acharam divididos em duas facções rivais, logo bastante exaltadas uma contra a outra. O cisma, tão impropriamente dito meleciano, havia começado.
3° Eleição de Paulino e consolidação do cisma. Esse cisma logo iria constituir-se de maneira definitiva. O advento de Juliano trouxera a revogação do exílio de todos os bispos banidos por Constâncio. Da longínqua Armênia, Melécio, na primavera de 362, punha-se a caminho para retomar a direção de seu rebanho.
Em Alexandria, Atanásio havia regressado muito mais depressa, e o concílio reunido por seus cuidados, em março de 362, tomava as medidas próprias para restabelecer a paz religiosa, precisando certos pontos de doutrina e regulando também as questões de pessoas. Reconhecia-se ali, entre outras coisas, que as duas fórmulas, aparentemente opostas, da hipóstase única (sendo hipóstase sinônimo de ousia) e das três hipóstases (sendo hipóstase sinônimo de pessoa) eram suscetíveis, uma e outra, de uma explicação ortodoxa, e que cada um era livre de conservar sua terminologia, atendo-se ao mesmo tempo às expressões nicenas. Isso tinha aplicação direta em Antioquia, onde os eustacianos se reclamavam da velha fórmula da hipóstase única, ao passo que os melecianos, para evitar toda suspeita de sabelianismo, preferiam usar a expressão três hipóstases. Não menos sensato fora em Alexandria o regulamento das questões pessoais. Em vez de excluir impiedosamente de sua comunhão todos os bispos que tivessem assinado alguma profissão duvidosa, os ortodoxos declaravam que todos os bispos de fé correta de quem se tivessem extorquido assinaturas poderiam, repudiando-as, ser mantidos em suas funções. Quanto a Antioquia, onde essa questão de assinatura não parecia colocar-se, o concílio insistia vivamente na necessidade de restabelecer a união entre eustacianos e melecianos. Sem pôr os dois grupos exatamente no mesmo pé (tratava-se antes, para os eustacianos, de receber os melecianos), exortavam-se os primeiros a não exigir para a união condições excessivas e desarrazoadas; mas não se considerava, com toda certeza, os melecianos como hereges que voltavam à razão.
Essas diversas estipulações estão conservadas na peça inexatamente denominada Tomus ad Antiochenos, entre as obras de Atanásio, P. G., t. xxv, col. 796-809; essa peça contém antes as instruções dadas aos dois delegados que o concílio enviava a Antioquia. No local, esses personagens, a saber Eusébio de Vercelli e Astério de Petra, tomariam todas as medidas convenientes para fazer a união dos católicos. Ora, quando chegaram a Antioquia, o irreparável estava consumado. O intransigente bispo de Cagliari, Lúcifer, ver aqui t. ix, col. 1032 sq., os havia precedido. Depois de alguns esforços para restabelecer a paz entre os dois grupos ortodoxos, julgara pôr termo às discussões consagrando bispo, em desprezo de todos os cânones, o presbítero Paulino, que dirigia a comunidade eustaciana; esta era, por esse fato, promovida à dignidade de Igreja. Sim, mas de Igreja dissidente, pois, mais do que nunca cerrados em torno de Melécio, que justamente nesse momento regressava do exílio, os melecianos declaravam não reconhecer outro chefe senão ele. Eusébio de Vercelli não pôde senão constatar a confusão, e partiu para o Ocidente, sem ter entrado em comunhão nem com um nem com outro dos partidos. Disse-se alhures o que sucedeu a Lúcifer.
III. Os esforços para reduzir o cisma. Essa situação anormal da capital do Oriente não podia deixar indiferentes os amigos da ortodoxia. Passada a rápida tormenta do reinado de Juliano, o Apóstata, vão ser feitos esforços, de diversos lados, para reunir num só corpo os católicos de Antioquia e opô-los aos arianos, cuja fortuna ainda iria durar até 378. Esboçaremos brevemente essas tentativas, que aliás não chegaram a bom termo. — 1° Atanásio e Melécio. O concílio de Antioquia de 363. O imperador Joviano, no regresso da expedição da Pérsia, onde havia substituído Juliano, convocara Atanásio a Antioquia, em setembro-outubro de 363. Ortodoxo ele próprio, testemunhava, além disso, grande reverência para com Melécio. A ocasião era boa para provocar uma aproximação entre os dois bispos. Atanásio fez saber a Melécio seu desejo de entrar em comunhão com ele. São Basílio, de quem diremos daqui a pouco a grande amizade por Melécio, não hesita em reconhecer que, na circunstância, o bispo de Antioquia, mal aconselhado, repeliu a mão que se estendia. S. Basílio, Epist., lxxxix, 2, P. G., t. xxxii, col. 472 A. Foi uma falta grave, pois Atanásio voltou-se para Paulino e o recebeu em sua comunhão mediante assinatura do Tomus ad Antiochenos. Doravante a Igreja de Alexandria fará causa comum com a comunidade cismática de Paulino. A influência de que Alexandria gozava no Ocidente e especialmente em Roma passará ao serviço dos adversários de Melécio. Se é verdade que Atanásio nunca manifestou uma animosidade especial para com o bispo de Antioquia, seu sucessor Pedro, eleito em 373, não deixará escapar nenhuma ocasião de apresentar ao papa Dâmaso Melécio e seus amigos como hereges. Ora, nada era mais inexato. Todo o esforço de Melécio, ao contrário, desde 363, tendia a reagrupar os ortodoxos, a juntar-lhes aqueles que, nos anos precedentes, haviam caído por fraqueza ou por preconceito, a formar, em definitivo, esse partido novo que, aceitando as decisões de Niceia, explicando-as por certas precisões tornadas necessárias, devia finalmente triunfar de todas as tendências arianizantes.
Essa obra começava num concílio reunido em Antioquia no outono de 363, no momento mesmo em que Atanásio, que infelizmente não pôde tomar parte nele, ainda estava na cidade. Viu-se figurar ali, ao lado de Melécio, Acácio e vários de seus amigos. Sócrates, III, xxv; Sozômeno, VI, iv. P. G., t. lxvii, col. 452 B; col. 1302 C. Melécio fez com que assinassem uma confissão de fé confirmando a de Niceia, aceitando o homoousios enquanto explicado pelo homoiousios, e fazendo das três hipóstases o complemento útil, até necessário, da fórmula nicena. Convém acrescentar que velhos ortodoxos acharam péssimas essas explicações; um panfleto anônimo não tardou a circular sob este título: Refutação da hipocrisia dos amigos de Melécio e de Eusébio de Samósata sobre o homoousios, ἔλεγχος τῆς ὑποκρίσεως τῶν περὶ Μελέτιον καὶ Εὐσέβιον τὸν Σαμοσατέα κατὰ τοῦ ὁμοουσίου; figura entre as obras de Atanásio, P. G., t. xxviii, col. 85-88. Sabe-se como esse reagrupamento das forças ortodoxas desembocou, em 366, na reconciliação com o papa Libério de boa parte do episcopado oriental. Ver art. Libère, t. ix, col. 636, embaixo.
É notável, porém, que o nome de Melécio não figure na lista dos bispos que haviam deputado a Roma Eustácio de Sebaste e seus dois colegas, e aos quais o papa concedeu a comunhão romana. Jaffé, Regesta, n. 228. F. Loofs, art. cit., tira daí a conclusão de que a desconfiança dos homeusianos (são pessoas desse matiz que fizeram em Roma a diligência em questão) persistia ainda a respeito de Melécio, sempre classificado por eles entre os homeanos. Não é impossível: essas questões de amizades e de agrupamentos desempenharam um grande papel em todos esses negócios. A ausência de Melécio em Tiana e na lista dos bispos com quem Libério entrou em comunhão pode, não obstante, explicar-se de outra maneira. F. Cavallera estima, op. cit., p. 135, que, se Melécio não estava em Tiana, é talvez porque ainda estivesse exilado: faz observar, além disso, que ali se achavam amigos seus, signatários do concílio de Antioquia de 363. Ver nota II. Les adhérents de la Mélèce, 209, 210. De fato, quando são Basílio, em 371, empreenderá fazer reconhecer Melécio por Atanásio, Roma tirará, da carta trazida por Silvano de Tarso, esta conclusão: que os ocidentais reconheceram o bom direito de Melécio. Epist., lxvii, últimas linhas, P. G., t. xxxii, col. 128 B. Confessemos, porém, que isso poderia ter sido mais explícito, e que não se pode afirmar que esse reconhecimento estivesse nas intenções de Roma.
2° Basílio e Melécio. As negociações com Roma. É tão verdade que, durante quase dez anos, as diligências se multiplicarão para fazer o papa admitir o bom direito de Melécio. Sem dúvida a substituição de Libério por Dâmaso (366-381) pôde mudar as disposições da Sé romana a respeito do bispo de Antioquia. O fato também de Dâmaso ter sido informado sobre os negócios do Oriente quase exclusivamente por adversários de Melécio explica a atitude mais que reservada do papa para com este. Tudo isso, contudo, não se compreenderia se, desde 366, se tivesse considerado em Roma Melécio como um firme representante da ortodoxia e como o único bispo legítimo da Igreja antioquena. Mas essa causa vai ser tomada em mãos pelo próprio são Basílio, ordenado bispo de Cesareia da Capadócia em 370. Diante do renovar da perseguição homeana que, depois de um primeiro ensaio em 365 (Melécio fora exilado de 365 a 367), retomava mais ativa do que nunca em 370 (Melécio é de novo exilado em 371), Basílio estima que é preciso, antes de tudo, fazer a união de todos os ortodoxos. Somente com essa condição a Igreja do Oriente poderá obter o apoio do Ocidente e a intervenção de Valentiniano junto a seu irmão Valente. E na capital do Oriente a união só pode fazer-se em torno de Melécio; nem por um só instante Basílio encara a possibilidade do reconhecimento de Paulino. E se se pensa nas susceptibilidades da ortodoxia de Basílio, é preciso concluir que ele reconheceu em Melécio, quaisquer que fossem seus antecedentes, um firme sustentáculo da fé nicena. Aliás, os exílios sucessivos do bispo de Antioquia, em 360, em 365, em 371, exílios a que foi condenado por Constâncio e por Valente, não eram uma garantia da pureza de sua ortodoxia? Se outrora fora amigo de Acácio, a comunidade dos sofrimentos aproximava-o agora dos neonicenos.
Essa confiança de Basílio nunca se desmentirá. Ela o empenha, desde 371, numa primeira negociação com Alexandria para o reconhecimento de Melécio. Epist., lxvi, lxvii, lxix, P. G., t. xxxii, col. 424 sq. Atanásio responde a essa diligência enviando um presbítero de sua Igreja para entender-se com Basílio. Este decide então despachar a Roma mesmo um diácono de Melécio, Doroteu. Suplicaria ao papa que enviasse ao local personagens que reconduzissem as Igrejas à unidade e « fizessem conhecer muito exatamente ao papa aqueles que eram a causa da perturbação, a fim de que soubesse com quem, no futuro, conviria entrar em comunhão ». Epist., lxx, col. 433-436. Esse pedido será incansavelmente repetido por Basílio no decurso dos anos seguintes: [que Roma] se informe mais exatamente sobre o estado das coisas no Oriente, e só conceda sua comunhão com pleno conhecimento de causa. Uma investigação feita no local por personagens qualificados só poderá demonstrar o bom direito de Melécio, os erros reais de Paulino, as graves suspeitas que pesam sobre a ortodoxia deste último, quando forem reveladas certas amizades suas. Todas essas ideias se encontram numa carta redigida por Melécio em 372, e que ele propôs, antes de enviá-la a Roma, à assinatura de grande número de seus colegas. Figura entre as cartas de são Basílio, Epist., xc, col. 477-484.
Está longe de ter Basílio obtido de início ganho de causa. Não podemos entrar aqui no pormenor das longas e difíceis tratativas que cansaram em várias ocasiões a paciência do bispo de Cesareia e lhe arrancaram, sobre a atitude do papa Dâmaso, apreciações mais que severas. Cf. sobretudo Epist., ccxv, col. 792. Em Roma, com efeito, não parecia haver noção exata da situação; cada vez mais se considerava Melécio e seu grupo como gente mais ou menos suspeita, que ficaria demasiado feliz em reunir-se à Igreja subscrevendo formulários e renunciando às suas pretensões. É o que transparece claramente em vários documentos romanos dos quais Ed. Schwartz nos parece ter dado a verdadeira exegese, loc. cit., p. 365 sq. O primeiro é uma sinódica de um concílio romano, provavelmente de 372, que responde à primeira diligência de Basílio e parece de fato opor-lhe uma recusa categórica. Carta Confidimus, em P. L., t. xiii, col. 347 sq. ver sobretudo a passagem Unde advertit, col. 349 B. O segundo parece responder à segunda embaixada de Basílio em 374. Fragmento Ea gratia, ibid., col. 350-352, cujo último parágrafo é, na estimativa de Ed. Schwartz, uma crítica mordaz das pretensões de Melécio. Os fragmentos que se seguem, Illud sane miramur, col. 352, e Non nobis quidquam, col. 353, e que parecem respostas a instâncias ulteriores de Basílio, feitas pelo concílio romano de 377, condenam, do ponto de vista dogmático, os erros de Apolinário e dos pneumatômacos.
Mas eles não são mais satisfatórios para Basílio e seus amigos do ponto de vista das questões pessoais: nem Eustácio de Sebaste, cuja condenação explícita ele instava, nem Apolinário, tornado tão comprometedor para Paulino, ali são nominalmente designados. Um pouco antes, em 375, uma diligência inteiramente significativa de Roma havia mostrado para quem iam suas preferências. Um presbítero de Melécio, Vital, deixara-se seduzir pelas doutrinas de Apolinário e assumira a direção de um grupo bastante importante que se reclamava do bispo de Laodiceia. Sozômeno, VI, xxv, P. G., t. lxvii, col. 1357 B. Diante das dificuldades que lhe fizeram de diversos lados, Vital partiu para Roma, submeteu seu ensino a Dâmaso, que, provisoriamente tranquilizado quanto à sua ortodoxia, lhe deu cartas de comunhão, mas reservando a decisão final a Paulino. Carta Per filium meum Vitalem, P. L., t. xiii, col. 556-557. O alcance dessa carta ultrapassava, aliás, singularmente o caso particular que se tratava de regular; constatava que unir-se a Paulino era entrar em comunhão com Roma, e com isso reconhecia oficialmente a este como bispo legítimo de Antioquia. Assim a questão de Melécio, longe de progredir, recuava antes, à medida que se multiplicavam as instâncias de Basílio e de seus amigos.
A atitude do papa em 378 se marcaria da melhor maneira, se se deve crer em Ed. Schwartz, num documento emanado de um concílio romano, realizado naquele ano e que condenou de modo preciso os erros finalmente desmascarados de Apolinário. Carta Post concilium Nicœnum, P. L., t. xiii, col. 358-361. Lê-se ali, col. 360-361, o seguinte desenvolvimento: Eos quoque qui de Ecclesiis ad Ecclesias migraverunt tamdiu a communione nostra habemus alienos, quamdiu ad eas civitates redierint in quibus primum sunt constituti. Quod si alius, alio transmigrante, in locum viventis est ordinatus, tamdiu vacet sacerdotis dignitate, qui suam deseruit civitatem, quamdiu successor ejus quiescat in pace. Schwartz entende (e Quesnel já o suspeitara) que essa fórmula geral visa o caso particular de Melécio: « Que este volte a Sebaste e aguarde ali pacientemente a morte do bispo atualmente vivo! » Nesse mesmo ano de 378, a causa de Paulino recrutava um precioso adepto. São Jerônimo, retirado havia alguns anos no deserto de Calcis, e que já escrevera duas vezes ao papa Dâmaso, de maneira bastante desfavorável aos melecianos (Epist., xv e xvi, P. L., t. xxii, col. 355), recebia em Antioquia, das mãos de Paulino, a ordenação sacerdotal. Lembrar-se-ia disso nos anos seguintes, quando exercesse em Roma, junto de Dâmaso, as funções de secretário.
3° A pacificação do Oriente. O concílio de Constantinopla. A derrota e a morte de Valente em Adrianópolis, a 9 de agosto de 378, marcam o fim da perseguição ariana. Graciano chamava imediatamente de volta os exilados e, já no fim desse ano, sem dúvida, Melécio regressava à sua cidade episcopal. A chegada de um general chamado Sapor, encarregado de fazer restituir aos católicos as igrejas e os outros bens usurpados pelos arianos, deu-lhe a ocasião de apresentar-se como chefe dos ortodoxos de Antioquia. Teodoreto, H. E., V, ii e iii, P. G., t. lxxxii, col. 1197-1201, coloca essa visita, ao que parece, em 379, e faz enviar Sapor ao Oriente, não por Teodósio, mas pelo próprio Graciano. Foi, pois, já em 379 que teria ocorrido, diante do enviado imperial, o debate entre as diversas confissões que se pretendiam todas católicas, apolinaristas de Vital, paulinianos e melecianos, e que reclamavam as igrejas deixadas livres pela expulsão dos arianos. Os apolinaristas foram afastados sem dificuldade; Melécio propôs muito simplesmente a Paulino fazer a união das duas partes do rebanho; ambos administrariam in solidum a Igreja, e, por morte do primeiro dentre eles, o sobrevivente seria o único bispo. Tendo Paulino rejeitado a proposta, as igrejas foram atribuídas a Melécio (essa data da chegada de Sapor é transferida por Cavallera para 381, op. cit., p. 211, n. 1, 215, n. 2. Cremos dever conservar o relato de Teodoreto).
Mas, para guardar a pacífica posse dos bens restituídos, era necessário que Melécio exprimisse sua adesão às doutrinas professadas pelo papa Dâmaso. Isso foi feito num sínodo que reuniu em Antioquia no outono de 379 e que agrupou cento e cinquenta bispos; Melécio redigiu uma carta à qual se refere o concílio de Constantinopla de 382, cf. Teodoreto, H. E., V, ix, P. G., t. lxxxii, col. 1216 D, e que devia conter uma profissão de fé conforme às decisões dos concílios romanos dos anos precedentes. Dela restam apenas as primeiras assinaturas, à frente a de Melécio. P. L., t. xiii, col. 353. Mas o excertador que as recolheu acrescenta Similiter et alii CXLVI orientales : quorum episcopi subscripserunt, subscriptio in authenticum hodie in archivis romanæ Ecclesiæ tenetur. O reconhecimento de Melécio pela autoridade civil era uma indicação para a Igreja romana. Ela inclinou-se diante do fato consumado. Um vestígio dessa aceitação conservou-se numa alusão posterior de um concílio italiano. Em santo Ambrósio, Epist., xiii, 2; ver abaixo. Nada, aliás, se opunha a essa diligência, que era a conclusão natural de todas as tratativas precedentes. Assim, a comunhão ficava restabelecida entre Dâmaso e Melécio. Este, de resto, iria desempenhar no Oriente um papel preponderante, como presidente do concílio reunido em Constantinopla, por cuidados de Teodósio, em 381. Não veria, aliás, o fim do concílio, tendo morrido de uma breve doença por volta de meados de maio. Teodósio, que lhe havia testemunhado a maior confiança, quis cercar seus funerais de honras extraordinárias. A trasladação do corpo de Melécio de Constantinopla a Antioquia foi literalmente um triunfo. Sozômeno, H. E., VII, x, P. G., t. lxvii, col. 1441 B.
IV. A eleição de Flaviano. A extinção do cisma. A morte de Melécio deveria ter sido o fim do cisma de Antioquia. A separação dos católicos em duas facções rivais perseverou, contudo, em seguida a uma manobra errada cujas consequências foram necessários vinte anos para destruir. — 1° A eleição de Flaviano como bispo de Antioquia. Parecia natural terminar de uma vez por todas as rivalidades antioquenas, evitando dar um sucessor a Melécio e reconhecendo Paulino como único bispo.
Os ocidentais (e sem dúvida Roma) haviam outrora recomendado essa solução de bom senso numa carta que já não possuímos, mas à qual alude a sinódica de um concílio italiano de que falávamos há pouco: Scripseramus dudum, quoniam : ut, Antiochena civitas duos haberet episcopos, Paulinum atque Meletium, quos fidei concinere putabamus, aut inter ipsos pax et concordia salvo ordine ecclesiastico conveniret ; aut certe, si quis eorum altero superstite decessisset, nulla subrogatio in defuncti locum superstite altero gigneretur. S. Ambrósio, Epist., xiii, 2. P. L. (edição de 1845), t. xvi, col. 950 B. Gregório de Nazianzo, tornado, pela morte de Melécio, presidente do concílio de Constantinopla, aderia plenamente a essa visão. Se fosse preciso crer em Sócrates, V, v, copiado por Sozômeno, VII, iii, P. G., t. lxvii, col. 569 e 1421, já teriam sido tomadas precauções em Antioquia para evitar que uma eleição episcopal tivesse lugar por morte de um dos dois concorrentes. Ver uma discussão dessas afirmações em Cavallera, op. cit., p. 232-243, que conclui, com razão, pela inexistência do pacto de que falam os dois historiadores.
Mas todos os esforços feitos por Gregório de Nazianzo para fazer triunfar essa solução pacífica esbarravam na paixão de grande número dos membros do concílio. Tantos agravos se haviam acumulado contra Paulino que a maioria conciliar não julgou nem digno, nem mesmo prudente ou possível, impor à grande massa da Igreja de Antioquia o reconhecimento do bispo cismático. Em vão Gregório ameaçou apresentar sua demissão, se se entrasse por esse caminho. Passou-se por cima de suas objurgações e deixou-se que se retirasse. Ver S. Gregório de Nazianzo, Carmen de vita, versos 1572-1870, P. G., t. xxxvii, col. 1158 sq. Tendo o concílio decidido proceder à eleição do sucessor de Melécio, os bispos da diocese do Oriente, logo que a assembleia se dissolveu (julho de 381), reuniram-se em Antioquia e ordenaram Flaviano, que outrora fora o sustentáculo da comunidade ortodoxa e que Melécio ordenara presbítero (sem dúvida por volta de 363). Assim a divisão se perpetuava. Paulino reclamando-se do apoio dos ocidentais, que de fato não lhe foi regateado, Flaviano forte da adesão dos orientais, que seria solenemente renovada no concílio de Constantinopla de 382. Cf. Teodoreto, V, ix, P. G., t. lxxxii, col. 1212. Graciano, depois Teodósio, tentaram em vão remediar essa absurda situação.
Poder-se-ia ter esperado que a morte de Paulino lhe pusesse um termo. Nada disso aconteceu. Antes de desaparecer, em 388, este impunha as mãos a Evágrio para que lhe sucedesse. Assim o cisma continuava. Desta vez os antigos amigos de Paulino irritaram-se. Nem Alexandria, nem Roma reconheceram o novo bispo. Ver S. Ambrósio, Epist., lvi, 2, P. L., t. xvi, col. 1170. Isso não queria significar, porém, que aceitassem Flaviano como o bispo incontestado, e várias tentativas foram feitas, aliás em vão, para levar este a submeter a um concílio a validade de sua eleição. Cf. S. Ambrósio, Epist., liv, lvi. O Ocidente continuou, desde então, durante algum tempo, a não reconhecer Flaviano.
2° A extinção definitiva do cisma. Entretanto, santo Ambrósio, que havia alguns anos se inquietava vivamente com esse negócio, pedira a Teófilo de Alexandria que se entendesse com Flaviano, após ter-se concertado aliás com o papa Sirício, Epist., lvi, 6, 7. Essas diligências desembocaram na convocação de um concílio em Cesareia da Palestina, onde Teófilo aliás se absteve de comparecer, mas que arranjou finalmente as coisas e declarou, « para conformar-se às vistas do papa Sirício », reconhecer um único bispo em Antioquia, o piedoso bispo Flaviano. Texto conservado por Severo de Antioquia, ver E. W. Brooks, The sixth book of the select letters of Severus, tradução inglesa, t. ii, 1903, p. 223. Nada de espantoso, pois, que se veja, pouco tempo depois, no outono de 394, Flaviano e Teófilo confraternizarem em concílio em Constantinopla. Quanto à reconciliação de Flaviano com Roma, deve ter ocorrido sensivelmente na mesma data. É verdade que Sozômeno, H. E., VIII, iii, P. G., t. lxvii, col. 1520, a remete para mais tarde e dela faz honra à caridosa intervenção de são João Crisóstomo, depois que este foi elevado, em 398, à sé de Constantinopla. Mas, como faz notar L. Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, t. ii, p. 610, n. 1, nem Teodoreto, H. E., V, xxiii, t. lxxxii, col. 1249, nem Sócrates, H. E., V, xv, t. lxviii, col. 604, relacionam essa reconciliação de Roma e Antioquia com a instalação de Crisóstomo na capital. É mais indicado situar esse acontecimento em 394, como sequência toda natural do concílio de Cesareia. Acácio de Bereia conduziu a Roma uma deputação do clero de Antioquia, à qual se juntou, enviado por Teófilo, um presbítero de Alexandria, Isidoro. Essa legação teve pleno êxito e Flaviano foi definitivamente reconhecido por Roma.
Na mesma época ou quase, Evágrio morria e Flaviano conseguia impedir que se lhe desse um sucessor. De fato, como de direito, permanecia assim único bispo de Antioquia. Restava reunir em torno dele a pequena Igreja agora sem pastor. Não foi coisa fácil, dada sobretudo a intransigência que Flaviano mostrava para com os clérigos de Paulino e de Evágrio que se tratava de reconduzir. Pretendia, com efeito, ter por nulas as ordenações recebidas por eles. Assim o cisma local demorou a ser reduzido; Flaviano († 404) não lhe viu o fim, e seu sucessor Porfírio ainda conheceu dificuldades mais graves. Foi somente sob Alexandre, em 413, que o acordo se realizou definitivamente. « Suas exortações persuasivas, diz Teodoreto, reuniram os eustacianos ao resto do corpo da Igreja, para grande alegria dos fiéis, para confusão dos judeus, dos arianos e dos poucos pagãos que ainda restavam em Antioquia. » H. E., V, xxxv, t. lxxxii, col. 1265. O cisma de Antioquia estava terminado, durara oitenta e cinco anos.
Conclusão. Esse episódio doloroso foi explorado de muitas maneiras. Procuraram-se nele argumentos em apoio da construção bem hipotética que quer ver nos neonicenos, agrupados em torno de Basílio, pensadores que deram às definições de Niceia uma interpretação nova, toda diferente da que haviam proposto seus primeiros defensores.
A aliança de Basílio, disse-se, com um homeano como Melécio, mal convertido ao homeusianismo, não é um sinal de que o pensamento do bispo de Cesareia evoluía num plano inteiramente diferente daquele em que se movia Atanásio? A oposição duradoura entre Alexandria (e o Ocidente), de um lado, e, de outro, Basílio e Melécio, não testemunha que se tinha nos dois campos uma consciência mais ou menos obscura das divergências que separavam os espíritos? Outros exploraram o cisma antioqueno contra o primado romano. Insistem com complacência no fato de que um personagem como Melécio, hoje qualificado de santo pelos latinos como pelos gregos, pôde viver tão longamente fora da comunhão de Roma, pôde presidir, sem ter sido reconhecido pelo papa, o concílio de Constantinopla. Mostram, com secreta satisfação, Flaviano carregando alegremente a exclusão do Ocidente e de Roma, esquivando-se a todas as intimações que lhe são feitas para que se explique, e só se unindo a Roma quando as primeiras aproximações lhe vieram do papa Sirício.
Não é este o lugar de discutir toda a questão do neonicenismo e das mudanças que a entrada em cena dos capadócios teria trazido à interpretação do homoousios niceno. No que concerne ao caso particular de Melécio, bastará fazer notar que são Basílio só faz aliança com ele, quaisquer que tenham sido seus antecedentes, depois de ter tido sinais evidentes da ortodoxia do novo bispo. O concílio de Alexandria em 362 reconhecia, por seu lado, a legitimidade das fórmulas de que se serviam, para exprimir o mistério da Trindade, os melecianos de Antioquia. Atanásio, em 363, estava inteiramente disposto a pôr sua mão na de Melécio e a trabalhar de comum acordo com ele na pacificação religiosa do Oriente. Somente questões de pessoa impediram essa aliança de realizar-se. Mas o simples fato de o bispo de Alexandria a ter julgado possível testemunha suficientemente que não percebia nenhuma oposição radical entre o pensamento de Melécio e o seu.
E quanto à questão das relações de Melécio com Roma, deve-se guardar de julgá-la relacionando-a com nossas concepções atuais da Igreja e da hierarquia dos poderes. A autonomia muito real de que gozavam nessa época as grandes sés episcopais não excluía, longe disso, o reconhecimento da supremacia romana. Todos os esforços de são Basílio para levar Roma a exprimir claramente que está em comunhão com Melécio não testemunham a importância que o Oriente atribuía a essa comunhão? Paralisado pelas múltiplas dificuldades interiores em que se debatia, retardado pelas informações incompletas ou mesmo inexatas que recebia, o papa Dâmaso não se apressava em fazer a diligência tão ardentemente pedida por Basílio. Mas tampouco exprimia que excluía Melécio de sua comunhão; finalmente, e antes do concílio de Constantinopla, o Ocidente e Roma davam a entender que aceitavam o fato consumado, a coexistência provisória dos dois bispos, na esperança de que essa situação anormal logo teria fim. Onde se vê que as questões de princípio estejam aqui em causa? e como não reconhecer aqui, muito simplesmente, um desses numerosos problemas cuja solução é preciso esperar do tempo e também da boa vontade e da flexibilidade dos homens?
Uma bibliografia completa do cisma meleciano seria enorme, tantas foram as ramificações dessa história. Encontrar-se-á um esboço dela em F. Cavallera, Le schisme d'Antioche (IV-V siècle), Paris, 1905, p. xiii-xix, e também p. 10-31, ensaio de classificação e de discussão das fontes. A completar por um breve estudo de Ed. Schwartz, Zur Geschichte des Athanasius, ii, publicado nas Nachrichten von der k. Gesells. der Wissensch. de Gœttingue, 1901, p. 356-391, ao qual cremos dever tomar emprestadas algumas sugestões. Posteriormente apareceram L'histoire ancienne de l'Église de L. Duchesne, Paris, 1907, t. ii, passim, e Le Siège apostolique, de P. Batifol, Paris, 1924; cf. p. 82-144; 267-281. Para a questão das relações com Roma, o ponto de vista anglicano é dado por F. W. Puller, The primitive Saints and the See of Rome, 1893, p. 163 sq.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
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