MARIETTE Paulo Francisco de (1684-1767), nasceu em maio de 1684, em Orléans, e, simples leigo, entrou no Oratório e lançou-se nos negócios do jansenismo; depois tornou-se célebre pela ousadia de suas opiniões; foi apelante da bula Unigenitus, foi desautorizado pelos chefes, mas mostrou-se tão audacioso que teve de sair do Oratório e tornou-se um dos monges dos apelantes. Veio habitar em Paris, onde morreu em 15 de março de 1767.
Os primeiros escritos de Mariette apareceram por ocasião das polêmicas suscitadas pelo Traité de la confiance chrétienne, obra do abade de Fourquevaux. Petitpied havia atacado esse escrito e, a esse respeito, encontrou-se em oposição com muitos de seus confrades apelantes, em particular com d'Étemare, Legros, o abade Racine, que publicaram Mémoires, Lettres, Dissertations de que as Nouvelles ecclésiastiques falam longamente. Mariette interveio em 1734, primeiro com um Examen d'un écrit (de l'abbé d'Étemare) qui a pour titre : Éclaircissements sur la crainte servile et filiale, selon les principes de saint Augustin et de saint Thomas, in-12, Paris, 1734, depois com as Difficultés proposées aux théologiens, défenseurs de la doctrine du Traité de la confiance, in-8°, s. l., 1734. Nesses dois escritos, Mariette sustenta que só se pode esperar em Deus na proporção do que dele se recebeu, e declara que se deve medir a confiança em Deus pelo que já se obteve e, com isso, contradiz a Escritura e a tradição, que dizem que, para receber muito, é preciso esperar muito.
Os ataques continuaram sobre uma matéria da confiança, por ocasião das Nouvelles difficultés proposées aux théologiens e da crainte et de la confiance que foram dadas sobre essa matéria. Éclaircissements, in-8°, s. l., 1737; Mariette levantou aí doze dificuldades e prossegue suas críticas na Suite des nouvelles difficultés... e na Seconde et dernière suite des nouvelles difficultés, in-8°, s. l., 1738. A polêmica parece ter-se amortecido com a publicação de um escrito de L. Boursier, intitulado Lettre sur l'espérance et la confiance chrétienne, in-8°, Paris, 1739, que apareceu com as aprovações dos principais apelantes (Nouvelles ecclésiastiques de 30 de abril de 1739, p. 60-68). Contudo, Mariette continuou a escrever: Observations générales et préliminaires à l'occasion de la confiance chrétienne, in-4°, s. l., 1739 e Réflexions tirées des ouvrages d'Arnauld et de Nicole, pour servir à juger d'un écrit qui a pour titre Observations, 1739 (Nouv. ecclés. de 26 de dez. de 1739, p. 202-203, e 12 de set. de 1740, p. 145); Boursier replicou com uma Deuxième e uma Troisième lettre sur l'espérance (ibid. de 12 de set. de 1740, p. 145) e Mariette escreveu ainda algumas brochuras, muito curtas e pouco importantes, em 1741, 1742 e 1750; anteriormente, havia escrito às Nouvelles ecclésiastiques três Lettres, datadas de 3 de fevereiro, de 25 de abril e de 12 de agosto de 1738 (Nouv. ecclés. de 25 de março de 1738, p. 45, de 15 de jul., p. 111 e de 31 de dez., p. 212). A maior parte dos escritos suscitados por essa questão, levantada em 1728 pela obra (Traité de la confiance chrétienne) de Jean-Baptiste Pavie de Fourquevaux, acólito apelante (1693-1767), são assinalados pelas Nouv. Eccl. de 1731 a 1750 (ver Tables, t. I, p. 441-443, na palavra « espérance »).
Na Question importante, in-4°, s. l., 1754, Mariette fala dos bilhetes de confissão exigidos dos jansenistas; em 1759, levantou objeções a respeito do Jubileu e publicou a Lettre d'un curé à un de ses confrères, à propos du jubilé de 1759, e a Lettre d'un curé en réponse à son confrère, 30 de maio de 1759. Nesses dois escritos, dos quais o segundo é uma resposta à consulta feita pelo primeiro, Mariette afasta-se do ensinamento ordinário dos teólogos e das decisões do Concílio de Trento; retomou e defendeu as mesmas ideias num Discours d'un curé pour instruire ses paroissiens, e numa Histoire des jubilés depuis leur établissement, in-12, s. l., 1759. Esses três escritos foram refutados pelo abade Joubert, teólogo apelante de Montpellier (1689-1763), numa Lettre au P. de Saint-Genis, e por Massuau, o mais velho, de Orléans, em seus Entretiens d'Eudoxe et d'Érigène sur les indulgences.
Enfim, em 1763, Mariette abordou a questão do sacramento da penitência numa Exposition des principes qu'on doit tenir sur le ministère des clefs, suivant la doctrine du Concile de Trente; sustenta aí que a absolvição do sacerdote não remite os pecados diretamente; é somente a declaração de que o pecado é remitido exteriormente diante da sociedade eclesiástica. A obra foi apreendida na casa do impressor, antes de sua publicação, e, por uma decisão de 12 de janeiro de 1763, foi queimada e o impressor foi interditado por três meses e condenado a uma multa. Mariette recusou-se a retratar-se e foi, por esse fato, expulso do Oratório; deixou Orléans e retirou-se para Paris. Os pormenores desse caso foram narrados em 7 cartas, das quais a primeira é datada de 20 de janeiro de 1763, e que foram impressas sob este título: Lettres à un ami de province par J. François Maillard. Uma obra anônima intitulada Discussion théologique, in-12, ataca as teses de Mariette sobre o valor da absolvição dada pelo sacerdote; por seu lado, Mariette continuou a defender-se nas Lettres d'un laïque à un laïque, 4 de fevereiro de 1763, e na Défense des lois de la charité, 29 de março de 1763.
Michaud, Biographie universelle, t. XXVI, p. 650-651; Hœfer, Nouvelle biographie générale, t. XXXIII, col. 746-747; Quérard, La France littéraire, t. V, p. 536; Picot, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique pendant le XVIIIe siècle, t. IV, p. 455-456; Les hommes illustres de l'Orléanais, 2 vol. in-8°, Orléans, 1852, t. I, p. 43-44.
J. Carreyre.
Autor original: J. CARREYRE
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