MARIALES (XANTES)

MARIALES (XANTES)

MARIALES Xantes, dominicano, nascido em Veneza, por volta de 1580, da família nobre dos Pinardi. Desde a época de sua formação teológica, na Espanha, onde o estudo das ciências sagradas estava então em plena efervescência, distinguiu-se pela vivacidade e pela acuidade de seu espírito. De volta à Itália, exerceu diversos encargos de ensino, em particular o de regente dos estudos em Pádua, até por volta de 1624, data em que publicou a primeira de suas volumosas obras, as Controversiæ, Veneza, 1624; o longo título descreve com muita precisão o caráter delas, assim como as tendências, seja em relação à escola escotista, seja em relação aos neoterici, os teólogos da Companhia de Jesus.

Controversiæ ad universam Summam Thomæ theologiæ S. Aquinatis Ecclesiæ doctoris, nec non ad IV libros Magistri sententiarum, in quibus primum doctoris utriusque sententia novis speculationibus illustratur, plurima eorum abdita sensa aperiuntur, innumeraque loca, quæ inter se pugnare videntur, ad concordiam revocantur. Objectis deinde quibuscunque, quæ ad hanc usque diem adversus aut D. Thomæ doctrinam aut Cajetani commentaria aut rationes quibus thomistica sententia adnititur, aut responsa antiquis impugnatoribus allata a quoquam evulgata sunt tum vero præcipue ab his qui novissime scripserunt, quibus adhuc a nemine responsum est, profunde, lucide, copiose, pleneque occurritur. Postremo scotistarum perillustris schola cum thomistica quoad fieri potest conciliatur : Scoti doctrina ubi ab Aquinate non dissidet, mira facilitate explicatur atque defenditur, vindicaturque a calumniis, quæ a minus affectis immerito ei inuruntur, etc. Cinco volumes estavam projetados: apenas um veio a lume.

Mas, prosseguindo seus trabalhos fora do ensino, Mariales produziu uma obra de não menor envergadura, que só viria a ser publicada de fato em 1630, apesar da data anterior inscrita em seu título: Bibliotheca interpretum ad universam Summam Thomæ theologiæ Div. Aquinatis Ecclesiæ Doctoris, hoc est solers examen universorum, quæ a scriptoribus quibuscunque tum antiquis, tum recentibus ad scholasticam theologiam hactenus evulgata sunt cum primis vero uberrime exagitantur nostrorum temporum curiositates, circa quas novitosa modernitas adversus sapientissimam antiquitatem tantopere discutiari videtur, Veneza, 1638. É, em quatro in-fólios, uma compilação de dissertações polêmicas, em torno do texto da Suma, da q. i à xxvi, nas quais são esclarecidas as dificuldades levantadas ao longo de quatro séculos contra a doutrina de São Tomás.

No começo do primeiro volume, publicava-se uma controvérsia preliminar contra os escritos do P. João Batista Poza, do P. Vazquez, S. J., e do P. de Padilla, S. J. Excessiva em todos os sentidos, tanto na veemência contra seus adversários quanto na exaltação da doutrina de São Tomás, infalível, pretende ele, por uma assistência especial do Espírito Santo, esse prefácio foi inscrito no catálogo do Índice em 20 de junho de 1662. As obras de Poza, aliás, haviam sido elas também condenadas, desde 1628 e 1632, pelos motivos que dá o manifesto do teólogo Fr. Roales, publicado por Mariales em sua controvérsia preliminar e no fim de seu quarto volume. Além disso, o P. l'Abbé, S. J., que atacara Mariales em sua Justa expostulatio de p. m. Xantes Mariales authore bibliotheca interpretum, publicada sob o pseudônimo de L. Carterius, em Vaucluse, foi também, s. d., posto por sua vez no Índice. Acrescentemos, para dar todo o dossiê dessa escaramuça teológica, que o P. Vicente Baron, O. P., veio defender a memória de seu irmão, em seus Libri quinque apologetici pro religione, utraque theologia, moribus ac juribus ordinis prædicatorum, adversus... expostulationes Carterii, etc., Pau, 1666.

Uma terceira obra da mesma amplitude foi empreendida em seguida por Mariales: um comentário, relativo às Questões, em suma, disputadas de São Tomás, das quais apenas dois volumes foram publicados, sobre as Quæstiones de potentia e o De malo. Amplissimum omnium : artium scientiarumque Amphitheatrum, hoc est de rebus universis celeberrimæ quæstiones disputatæ ab orbis oraculo D. Thoma Aquinate... ad hanc usque diem a nemine expositæ, etc., Bolonha, 1658. É o primeiro comentário que se fez sobre as Questões disputadas de São Tomás, e pode-se, depois de experiência, confirmar o testemunho que Mariales dá do interesse doutrinal dessa obra do Doutor angélico: Ego octuagenarius sum, et ab ineunte ætate in studiis consumptus, fateor sincere his tribus vel quatuor annis quos in edendis his commentariis consumpsi, me longe plus profecisse quam toto decursu prioris vitæ meæ.

Mariales é, enfim, o autor de uma série de libelos, publicados em língua italiana sob o nome de P. P. Torelli. Vêm tomar lugar na abundante literatura antigalicana do século XVII; seus títulos manifestam suficientemente seu contexto histórico: Quali presagimenti possono haversi delle presenti sconvolte dell'Austria e della Spagna, e da progressi de gl' Eretici e de' Francesi, Colônia, 1643, contra a obra intitulada Il Zimbello, overo l'Italia schernita, 1641; Stravaganze nuovamente seguite nel cristianissimo regno di Francia, overo, Eccessi del Politicismo... modernamente impugnate dall'asserto parlamento di Parigi, nel libro intitolato, Della sovrana giurisdizzione de' re sopra la politica della Chiesa, Colônia, 1646; enfim, sob o nome de Sigismundo Campeggi, Enormità inaudite nuovamente uscite in luce nel cristianissimo regno di Francia, contra il decoro della Sede apostolica romana in due libri intitolati, l'uno Dell'arrogante potestà de' papi in difesa della Chiesa Gallicana ; l'altro, diritto della regalia, che tiene il re cristianissimo jure coronæ independentemente da sommi pontefici..., Frankfurt, 1649.

A violência de tom dessas obras muito antifrancesas valeu ao autor ser exilado duas vezes pelo senado de Veneza. Refugiou-se em Ferrara, depois em Bolonha; perto do fim da vida, pôde contudo voltar a Veneza, onde morreu, em 1660, com a reputação de grande orador e de mestre teólogo. Quétif-Échard, Scriptores ordinis prædicatorum, II, Paris, 1721, 600-601; Nicéron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustres, Paris, 1734, t. XXIX, 290-295.

M.-D. Chenu.

Autor original: M. D. Chenu

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor