MAI (ÂNGELO)

MAI (ÂNGELO)

MAI Ângelo, célebre filólogo italiano, cardeal e bibliotecário da Igreja romana (1782-1854). Nascido em Schilpario (província de Bérgamo), a 7 de março de 1782, teve como primeiro mestre o P. de'Capitani, antigo membro da Companhia de Jesus, por muito tempo professor em Milão, e retirado em Bérgamo, sua cidade natal, desde a supressão da Companhia; seguiu-o até Colorno, onde esse religioso tentava reconstituir um noviciado; enviado a Nápoles em 1804, onde a Companhia se reformava, ali fez as humanidades, começou a teologia em Roma, depois em Orvieto, onde recebeu o sacerdócio. Foi ali que dois jesuítas espanhóis, os PP. Montera e Menchaca, o iniciaram nos arcanos da paleografia. De volta a Roma em 1808, foi obrigado, após a ocupação francesa, a retornar ao reino da Itália, seu lugar de origem; por intermédio do P. Mozzi, obteve um emprego de scriptore para as línguas orientais na biblioteca ambrosiana de Milão, da qual se tornará prefeito em 1813. É em Milão que se delineia sua vocação; dedica-se ao estudo dos numerosos manuscritos inéditos do admirável depósito milanês. Sua atenção volta-se sobretudo para os palimpsestos, e ele tem a ventura de fazer, desde o início, algumas descobertas interessantes que atraem sobre ele a atenção do mundo erudito.

Fora chamado de volta a Roma em 1814, depois do restabelecimento da Companhia de Jesus; mas os cardeais Litta e Consalvi, julgando que ele prestaria mais serviços explorando a veia que acabava de abrir do que reingressando na Sociedade, propuseram a Pio VII que lhe devolvesse plena liberdade. Assim se fez, com o consentimento do R. P. Geral. Mai retornou, pois, à Ambrosiana até 1819. Nessa data, foi chamado a Roma como prefeito da Biblioteca Vaticana, que só deixará para tornar-se cardeal, em 12 de fevereiro de 1838; ainda será, em 1853, nomeado bibliotecário da Igreja romana. Como cardeal, foi prefeito da Congregação para a correção dos livros da Igreja oriental (1844), membro da Congregação do Concílio e da Propaganda. Morreu em Castel-Gandolfo, onde passava suas férias, na noite de 8 para 9 de setembro de 1854.

A atividade de Mai, que foi extremamente considerável, voltou-se quase exclusivamente para a publicação dos autores antigos, profanos ou sagrados, que o seu trabalho de bibliotecário lhe fazia encontrar. Durante quase quarenta anos, foi o infatigável editor que trouxe à luz grande número de textos desconhecidos, ou mal conhecidos, pertencentes ao domínio da antiguidade clássica ou eclesiástica, da Idade Média e dos primeiros séculos dos tempos modernos. Seu trabalho original consistiu em estudar, identificar, anotar, comentar, mas sempre sumariamente, os textos por ele descobertos. Só se pode lamentar que a pressa um pouco febril com que fez suas publicações não tenha permitido a esse afortunado pesquisador pôr um pouco de ordem nos volumes apresentados ao público. A obra considerável deixada por Mai dá a impressão de um formidável amontoado de materiais, dos quais nem sempre é fácil fazer o inventário.

Não nos estenderemos sobre as publicações de Mai relativas aos autores clássicos, embora sejam elas principalmente que o designaram desde logo à atenção dos filólogos de todos os países. A descoberta mais sensacional nesse domínio foi a dos seis livros Da República de Cícero, perdidos desde o século IV, e publicados em 1822. É, aliás, sobretudo durante a estada em Milão que se situam as descobertas e publicações relativas à antiguidade clássica. Todavia, já em 1816, Mai publica a Crônica de Eusébio (texto armênio traduzido em latim), vários tratados inéditos de Fílon; em 1817, o XIV dos Livros Sibilinos (reproduzido no t. II da Nova collectio scriptorum); em 1818, dois novos tratados de Fílon, e fragmentos inéditos de Ulfilas. A Vaticana, onde chega em 1819, lhe fornecerá abundantemente autores sagrados e autores profanos.

As primeiras publicações de Mai estão dispersas em certo número de pequenos opúsculos. A partir de 1825, ele faz aparecer suas descobertas em volumosas coleções cujos volumes se sucedem em intervalos muito breves. A primeira em data intitula-se Scriptorum veterum nova collectio, dez grossos in-4° que aparecem de 1825 a 1838. Devem ser assinaladas particularmente duas edições entre 1825 e 1831: t. I (tem duas edições bastante diferentes uma da outra), fragmentos de Eusébio de Cesareia, Quæstiones ad Amphilochium de Fócio; t. II, 1827, historiadores gregos, sobretudo profanos; t. III, 1828, Efrém o cronógrafo (século XII); fragmentos importantes de Mário Vitorino; os quatro últimos livros sibilinos, XI-XIV; t. IV e V, 1831, catálogos dos mss. orientais da Vaticana; coletânea de inscrições cristãs; no t. V b, p. 171-237, uma importante dissertação de J.-S. Assemani sobre as ordenações coptas e sua validade (em italiano); t. VI, 1832, Teodoro de Mopsuéstia, comentários sobre os profetas menores; Teórien (teólogo bizantino do século XII), discussões com Narsés, católicos dos armênios; escritores latinos da Idade Média, Atão de Vercelli, Remígio de Auxerre, Pedro Damião; t. VII, 1833, Patrum doctrina de Verbi incarnatione; Leôncio de Bizâncio, Anastácio o Sinaíta, Eustácio o Monge (século VI), Justiniano, Tractatus contra monophysitas, Nicetas de Aquileia; t. VIII, 1833, um dos mais importantes, do ponto de vista da antiga literatura cristã, contém a Crônica de Eusébio, vários opúsculos dogmáticos de são Cirilo de Alexandria; t. IX, 1837, continuação das Quæstiones ad Amphilochium de Fócio; tratados do alto Medievo (Sedúlio Escoto, Alcuíno), enfim Leôncio de Bizâncio; t. X, 1838, Ebed-Jesu, Collectio canonum synodicorum (siríaco e latim), Nomocanon da Igreja síria de Antioquia (na tradução latina de J.-A. Assemani).

Paralelamente a essa coleção, de conteúdo sobretudo eclesiástico, aparecia o conjunto intitulado Classicorum auctorum collectio, dez volumes in-8°, escalonados de 1828 a 1838. Como o título indica, essa coletânea destinava-se mais especialmente a reunir as descobertas de Mai no domínio da literatura profana. Os primeiros volumes correspondem muito exatamente a esse intuito; assinale-se, porém, no t. III um De origine idololatriae atribuído a são Martinho de Braga. Mas já no t. V, 1833, os escritores cristãos convivem com os pagãos, Carmina vetera christianorum (Paulino de Nola, Vitorino de Marselha, poemas carolíngios). O t. VI, 1834, é reservado a comentadores escriturísticos (Procópio de Gaza; escólios anônimos sobre são Mateus), que reaparecem no t. IX, 1837; enfim o t. X, 1838, publica os grandes comentários sobre são Lucas de Cirilo de Alexandria e de Severo de Antioquia.

A partir de 1839, começa uma nova série de dez volumes in-8° bastante compactos, que se sucederão até 1844; intitula-se Spicilegium romanum e são de fato respigas o que ela contém; é, portanto, muito mais difícil dar uma ideia dela do que das coleções precedentes. Desfilam ali, sucessivamente, autores da Idade Média, escritores do século XV, Padres da Igreja, gregos ou latinos; autores pagãos são ali muito raros. Assinalemos no t. II, 1839, o tratado do cardeal Sadoleto, De christiana Ecclesia; os comentários de Cosmas de Jerusalém (século VIII) sobre os poemas de Gregório de Nazianzo; no t. IV, 1840, numerosos fragmentos patrísticos de Serapião, João Crisóstomo, Sofrônio de Jerusalém, Nicetas Coniates, Teodoro de Mopsuéstia (o célebre comentário sobre a Epístola aos Romanos segundo as Cadeias); no t. V, 1841, além de alguns fragmentos de Cirilo de Alexandria, um longo comentário de Eustácio de Tessalônica (século XII) sobre um hino de João Damasceno; no t. VI, 1841, grande número de vidas de papas da Idade Média; no t. VII, 1842, o De hæresibus et synodis de Germano I de Constantinopla e sobretudo o Syntagma canonum de Fócio; no t. X, 1843, vários sermões de Eusébio de Alexandria (século V), fragmentos da época carolíngia, os Canones Priscilliani ad S. Pauli epistolas, no t. X, 1844, além de fragmentos de Severo de Antioquia, vários tratados importantes de Leôncio de Bizâncio.

A Nova Patrum bibliotheca, da qual um volume (o que hoje leva o n° 2) é impresso em 1844 e que alinhará até 1854 sete grossos volumes in-4°, é, como o nome indica, mais especialmente patrística; o t. I, 1852, fornece uma imponente série de sermões inéditos atribuídos a santo Agostinho e o Speculum do mesmo Padre (provavelmente inautêntico); algumas peças atribuídas a santo Hilário, a santo Fulgêncio e fragmentos de origem medieval; o t. II, 1844, fornece em sua primeira parte uma importante contribuição à história literária de são Cirilo de Alexandria, embora a autenticidade de todas as peças publicadas não esteja fora de contestação; outro tanto é preciso dizer do t. III, 1845, inteiramente consagrado à obra exegética do grande patriarca; o t. IV, 1847, dá importantes inéditos de Gregório de Nissa, Eusébio de Cesareia (sobretudo a Teofania); a segunda parte é reservada a Nicetas de Bizâncio (século IX), Confutatio falsi libri quem scripsit Mohamedes Arabs, tratado de polêmica contra o Islã; a terceira, às obras antimaniqueias de Pedro da Sicília, às quais se acrescentam fragmentos de Dídimo de Alexandria e de são João Crisóstomo; o t. V, 1849, fornece os tratados de Nicéforo de Constantinopla (séculos VIII-IX) contra a heresia iconoclasta e inicia a edição de Teodoro Estudita (séculos VIII-IX); o t. VI, 1853, publica uma versão siríaca das Cartas festais de santo Atanásio (com uma tradução latina), três importantes dissertações de Alácio relativas à história literária, continua a edição de Teodoro Estudita, e dá inéditos consideráveis de autores secundários; o t. VII, enfim, 1854, depois de reproduzir com uma versão latina os comentários de Teodoro de Mopsuéstia já publicados no t. VI dos Scriptorum veterum, fornece em sua segunda parte fragmentos mais ou menos consideráveis de Orígenes, Dídimo, Hipólito, Apolinário, Policrônio; uma terceira parte é reservada a autores medievais, Bonizão de Sutri, cardeal Deusdedit.

A Nova Patrum bibliotheca foi continuada após a morte de Mai; utilizando os papéis do douto cardeal, o monge basiliano J. Cozza fez aparecer em Roma, em 1871, pelo editor Spithoever, um t. VIII, contendo a continuação de Teodoro Estudita, os L. I e II da Historia dogmatica de Jorge o Metoquita, e sermões atribuídos a são Simeão Estilita; um Appendix ad opera edita ab A. Maio seguiu-se de perto, mais especialmente consagrado a autores da Idade Média. Esse empreendimento latino foi continuado um pouco mais tarde por José Cozza-Luzi, bibliotecário da Vaticana, que deu no mesmo formato dois volumes sob o título: Novae patrum bibliothecae ab A. I. card. Maio collectae, t. IX, 1888, e t. X, 1905, o primeiro prosseguindo a edição de Teodoro Estudita, o segundo completando essa mesma edição, e dando, por outro lado, ampla parte a textos litúrgicos. Mas esses últimos volumes têm apenas uma relação remota com a obra de Mai.

Fora dessas quatro grandes coleções, os bibliógrafos assinalam ainda um pequeno volume intitulado: Discorsi di argomento religioso, aparecido em Roma, em 1836, diversos discursos de circunstância e orações fúnebres publicados separadamente. Mas é preciso ao menos mencionar a contribuição que Mai quis fornecer à crítica textual da Bíblia. Quase imediatamente após sua chegada à Vaticana, pensou em dar uma edição crítica do célebre Vaticanus, glória de sua biblioteca. Depois de ter hesitado longamente sobre o plano da edição, decidiu-se, em 1828, a imprimir o mais exatamente possível o texto do ms., contentando-se em preencher, por empréstimo aos diversos códices da biblioteca, as lacunas do texto principal. Esse trabalho foi impresso lentamente, entre 1838 e 1843. Seja por julgá-lo demasiado imperfeito, seja por razões de ordem externa, Mai não publicou ele próprio esse texto. Foi somente em 1857 que o P. Vercellone fez aparecer os cinco grossos volumes in-4° (quatro para o Antigo Testamento, um para o Novo) que representam o trabalho de Mai. É preciso reconhecer que essa publicação, apesar de seus incontestáveis méritos, já não respondia às exigências da crítica textual. De fato, o texto editado está longe de ser a reprodução absolutamente exata do ms., e mais de uma vez o textus receptus da edição sixtina se insinuou no lugar do texto do Vaticanus. É o que reconhecem com toda a simplicidade os editores da reprodução em fac-símile do Codex Vaticanus, aparecida em 1881, mas preparada havia muito tempo pelo P. Vercellone e J. Cozza: Forma editi longe apparet remota, dizem eles, falando da edição Mai, ab ea codicis pressissima forma quam sequi A. Maium aliqui forte critici concupivissent (Edição citada, t. VI (prolegômenos e tabelas), p. XII). Foi dada à parte, em 1859, em Nova York e em Londres, uma reprodução mais manuseável do Novo Testamento tal como Mai o havia editado.

Sobre a pessoa de Mai, ver Mœller, Nouvelle biographie générale, XXXII, col. 857-861, e sobretudo Hergenröther, no t. I do Kirchenlexikon, t. VIII, col. 483-486. Encontrar-se-á uma lista detalhada de todas as publicações de Mai em A. de Backer, Bibliothèque des écrivains de la Compagnie de Jésus, t. VI, p. 290-316 (Sommervogel reproduziu apenas os trabalhos de Mai anteriores à sua saída da Companhia), e numa série de artigos publicados por C. Cozza-Luzi, I grandi lavori del card. A. Mai, no Bessarione, fasc. 80, p. 103-133; fasc. 82, p. 59-74; fasc. 87, p. 308-317; fasc. 89, p. 169-182 (anos 1904-1906). Não há tábuas alfabéticas gerais que compreendam toda a obra de Mai, o que torna difíceis as consultas; pode-se suprir parcialmente essa falta com um trabalho publicado por G. Bouvry, em art. nov. 1850, na Université catholique e reproduzido em separata: Table alphabétique, raisonnée et analytique de tous les auteurs sacrés et profanes qui ont été découverts et édités par le card. Mai. Paris, 1851.

Autor original: É. Amann

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