MABILLON João, beneditino da congregação de São Mauro (1632-1707). I. Vida e obra. II. A teologia de Mabillon.
I. Vida e obra. João Mabillon nasceu em 23 de novembro de 1632 na aldeia de Saint-Pierremont, nas Ardenas, de uma família pobre. João teve como primeiro professor um tio pároco; estudou em seguida no colégio da Universidade de Reims e, depois de uma curta permanência no seminário, onde recebeu a tonsura, entrou na abadia beneditina de Saint-Remy de Reims. Fez ali a profissão em 6 de setembro de 1654, com 22 anos de idade. Humilde, austero, zeloso das observâncias monásticas, edificava os noviços cuja direção lhe fora confiada, quando lhe sobrevieram dores de cabeça que o obrigaram a deixar Saint-Remy. Passou sucessivamente pelas abadias de Saint-Thierry, de Saint-Basle e de Saint-Pierre de Corbie. Em julho de 1658, dirigiu-se a Saint-Denis e foi ordenado sacerdote em Amiens, em 27 de março de 1660. Livre das dores de cabeça pela proteção de santo Adalardo, testemunhou o seu reconhecimento compondo hinos para o ofício do santo e para o ofício de santa Batilde, padroeira da abadia-casa. Foi este o seu modesto começo na vida literária. Ver J. Besse, Le premier ouvrage de Mabillon, dans Archives de la France monastique, t. v, Mélanges et Documents, p. 358-359.
Em julho de 1663, Mabillon passou a Saint-Germain-des-Prés. Nessas diversas estadas, esse monge modesto dera provas de grande aptidão para os trabalhos de erudição; por isso, desde 1661, foi-lhe dado como auxiliar dom Luc d'Achéry, bibliotecário da abadia de Saint-Germain-des-Prés. Convém apresentar uma rápida visão dos trabalhos de Mabillon, juntamente com toda a vida desse humilde monge, o grande representante da erudição na França naquela época. Alguns de seus escritos, a maior parte deles tratados em latim, foram redigidos num latim puro, elegante e correto, o que deu ocasião de dizer que Mabillon escrevia nessa língua como em francês.
Na sua chegada, foi encarregado de preparar a edição das obras de são Bernardo, iniciada em Saint-Denis por dom Claude Chantelou. Tendo este morrido, foi Mabillon quem deu, sob este título Sancti Bernardi opera omnia, duas edições, uma em 2 volumes in-fol., outra em 9 vol. in-8°, Paris 1667. Em 1690, Mabillon devia apresentar de novo a edição revista por seus cuidados e dedicada ao papa Alexandre VIII. A publicação compreendia prefácios, comentários e notas que, segundo Hauréau, Nouvelle biographie générale, t. xxxii, p. 446, fizeram colocar o jovem monge entre os sábios do século. Ao mesmo tempo, dom Luc d'Achéry encarregava o seu jovem auxiliar de coordenar e pôr em obra os documentos reunidos sobre os Santos da Ordem beneditina; desde 1668, sob o nome dos dois religiosos, aparecia o t. i dos Acta Sanctorum ordinis sancti Benedicti per sæculorum classes distributa, in-fol., Paris. Os prefácios, notas e comentários eram obra de dom Mabillon; veraz antes de tudo, restituía às suas respectivas ordens personagens que não haviam podido pertencer à família beneditina. Esse procedimento não foi compreendido; certos irmãos do jovem religioso, animados de falso zelo, acusaram-no quase de heresia.
Mabillon defendeu-se com doçura e serenidade contra as acusações dos PP. Mège e Bastide, e isso nos valeu uma longa Mémoire justificatif, onde se acham expostos com mão de mestre os princípios da crítica histórica que prevaleceram desde então. Ver a esse respeito L. Delisle, Dom Jean Mabillon et sa probité d'historien, dans Archives de la France monastique, t. v, p. 93 sq.; dom P. Denis, Dom Mabillon et sa méthode historique : Mémoire justificatif sur son édition des Acta Sanctorum O. S. B., in-8°, Paris, 1910, 111 p., extrait de la Revue Mabillon, t. VI, p. 1-64; A. Dantier, Correspondances bénédictines : Archives des missions scientifiques, t. vi, p. 358. Os demais volumes dos Acta Sanctorum O. S. B. se sucederão até 1701, de modo a formar 9 volumes in-fol., indo do século vi ao xii; em seus belos prefácios, Mabillon fará entrar de maneira natural e agradável os principais pontos da história desse período; tratará mesmo de tempos em tempos, com precisão e nitidez, os dogmas da religião e as matérias da disciplina, seja eclesiástica, seja monástica.
Por volta de 1671, aparecem os Petri abbatis Cellensis opera omnia, studio unius e Sancti Mauri congregatione monachi, in-4°, Paris. Admira-se, escreve Léopold Delisle, art. cité, p. 101, de não se encontrar neles nenhuma menção no catálogo das obras de Mabillon, quando dom Ruinart lhe atribui tanto a epístola dedicatória quanto os prefácios. Em 1674, na dissertação De azymo et fermentato, Mabillon sustenta, contra o P. Sirmond, que o pão ázimo e sem fermento esteve em uso na Igreja latina antes do cisma de Fócio. Como fruto de suas pesquisas, Mabillon recolhe ainda monumentos preciosos que manda imprimir separadamente em volumes que têm por título Vetera analecta, 4 vol. in-8°, Paris, 1675 et sq.; são atos de concílios, cartas ou letras de imperadores, de reis, de bispos etc., com observações e dissertações sobre pontos de história.
Mas a obra que tornou célebre sobretudo dom Mabillon é o seu tratado de Diplomática, que apareceu então sob este título De re diplomatica libri sex... in-fol., Paris, 1681. O bolandista Papebroch, S. J., havia atacado a autenticidade de cartas conservadas no mosteiro de Saint-Denis; Mabillon, tomando as coisas de mais alto, deu uma exposição da questão sobre os monumentos da história chamados Diplomas, sobre a forma em que foram conservados, e formulou de maneira clara e metódica as regras que permitem distinguir as antigas cartas, julgar sadiamente os antigos títulos, reconhecer as peças verdadeiras e autênticas e declarar as que são falsas ou falsificadas. A obra foi saudada por toda a Europa como uma obra-prima; no momento em que apareceu, os sábios a louvaram unanimemente (exceto uma voz discordante, a de Adrien de Valois). O P. Papebroch confessou-se vencido numa carta, modelo de candura e de boa graça, que faz honra ao cristão e ao sábio: « Confesso-vos, dizia ele, que já não tenho outra satisfação de ter escrito sobre esta matéria senão a de vos ter dado ocasião de compor uma obra tão acabada..
Não hesitais, todas as vezes que tiverdes ocasião, em dizer publicamente que sou inteiramente do vosso parecer. » A obra teve imensa repercussão: Mabillon passou a figurar entre os primeiros eruditos da França; Luís XIV quis vê-lo. Le Tellier, ao apresentá-lo, qualificou-o de « o homem mais sábio do reino », e Bossuet acrescentou: « ... o mais humilde ». Mabillon foi edificante em desinteresse; tendo Colbert querido conceder-lhe uma pensão de duas mil libras, o humilde religioso mandou responder: « Que se poderia pensar de mim se, sendo pobre e nascido de pais pobres, eu buscasse na religião o que não teria esperado no século? » Mais tarde, é verdade, quis-se contestar o valor do livro; no colégio Louis-le-Grand elaborou-se lentamente uma refutação que o R. P. Germon, S. J., fez aparecer sob este título: De veteribus regum Francorum diplomatibus et arte secernendi antiqua diplomata a falsis ad R. P. J. Mabillonium disceptatio, in-12, Paris, 1703. A única resposta de Mabillon foi a publicação de um suplemento: Librorum de re diplomatica supplementum in quo regulæ denuo confirmantur, novisque speciminibus et argumentis asseruntur, Paris, 1704; nele completava a sua doutrina com novas observações, publicava novos documentos e fazia a aplicação de seu método restituindo, com o auxílio dos diplomas, a cronologia, até então tão confusa, dos reis da França da primeira raça.
Uma nova edição do Tratado de diplomática, revista por Mabillon, corrigida e aumentada por ele, mas que a sua morte, ocorrida em 1707, não lhe deixou tempo de publicar, apareceu em Paris, em 1709; tinha além disso 16 folhas preliminares e 16 folhas de Índice numeradas pelos cuidados de dom T. Ruinart. O livro, embora não isento de erros, deu provas de si; pode-se repetir hoje o que diziam no século xviii os beneditinos continuadores de Mabillon: o seu sistema é o verdadeiro; quem quiser abrir caminhos contrários aos que ele traçou não pode deixar de se extraviar, quem quiser construir sobre outros fundamentos construirá sobre a areia. Eruditos eminentes do século passado prestaram homenagem à obra de Mabillon. Assim L. Delisle, Cabinet des manuscrits, 1874, t. ii, p. 63; Léon Gautier, Quelques mots sur l'étude de la paléographie et de la diplomatique, Paris, 1864. (Este não lhe encontra senão um único defeito, o de estar escrito em latim). Ver também E. Une querelle scientifique entre jésuites et bénédictins, dans Contemporain, 1er fév. 1878.
As pesquisas científicas de Mabillon vão obrigá-lo a sair do mosteiro, mas a sua atividade literária nem por isso será diminuída. Já em 1680, antes da publicação do Tratado de diplomática, estivera em Champagne e na Lorena; em 1672, percorrera a Flandres. Em 1682, Colbert enviou-o à Borgonha para examinar alguns antigos títulos; Mabillon trouxe de lá documentos que foram inseridos nos Vetera Analecta, e o relato das peregrinações de um erudito em busca do que o possa ajudar em seus trabalhos. Este último relato é o Itinerarium burgundicum que dom Thuillier editou nas Œuvres posthumes, t. II, p. 2. No tomo IV dos Vetera analecta encontra-se o Iter germanicum, relato de uma viagem feita à Alemanha e à Suíça no decurso do ano de 1683. Essa viagem foi marcada pela descoberta, na abadia de Luxeuil, de um antigo lecionário do rito galicano, escrito em belos caracteres merovíngios do século VII. Mabillon serviu-se dele para compor o tratado que tem por título Liturgiæ gallicanæ libri III, quibus : quæ apud in veteris missæ ante annos mille Gallos in usu erat forma ritusque eruuntur, accedit disquisitio de cursu gallicano..., in-4°, Paris, 1685; reimpresso em 1729; reproduzido em P. L., t. LXXII. É um estudo de conjunto considerável e verdadeiramente definitivo sobre a liturgia galicana.
Em 1685, dom Mabillon, acompanhado de dom Michel Germain, partiu para a Itália. Dezoito meses depois do regresso, efetuado em 1686, apareceu o Museum italicum, seu Collectio veterum scriptorum ex bibliothecis italicis; in primo tomo, præmittitur iter italicum litterarium, in secundo Commentarius in ordinem romanum, 2 vol. in-4°, Paris, 1687 e 1689. O Iter italicum é uma descrição exata da viagem, com pormenores sobre o que interessa aos letrados. A peça importante do t. I é um antigo sacramentário galicano do século VII, encontrado na abadia de Bobbio; no t. II encontram-se os Ordines romani, ou livros rituais da Igreja romana com comentários. Entrementes, assinalam-se duas memórias de Mabillon a respeito da precedência nos Estados: Réponse aux chanoines réguliers de Bourgogne; Réplique au second écrit des chanoines réguliers, nas Œuvres posthumes, t. II, p. 96-269.
Mais grave foi a querela travada entre Mabillon e o abade de Rancé a respeito dos Estudos monásticos. Seria longo demais dar aqui a história dessa contenda, que se encontra exposta no t. I das Œuvres posthumes. Digamos apenas que Mabillon publicou em 1691 o Traité des études monastiques, no qual esse erudito, cuja prosa francesa tem menos amplitude que a prosa latina, exprime ideias elevadas com uma simplicidade natural. Sem atacar de frente a tese do abade da Trapa, justificava o lugar dado ao estudo nos claustros beneditinos, esforçava-se por provar que toda a tradição dava razão aos que fazem entrar o estudo como um dos elementos próprios da vida religiosa, sem destruir em nada a sua perfeição. Juntava às suas considerações uma espécie de plano de biblioteca religiosa, de ampla simplicidade, querendo que, para se defender, se conhecessem os pontos fracos dos adversários.
O abade de Rancé replicou com um ataque direto, de uma veemência que os seus próprios admiradores reconheceram ter ultrapassado o alvo. Sobre este assunto, ver Bossuet, Œuvres, ed. Vivès, t. xxiv, p. 331; Leibnitz, Œuvres complètes: Lettre à Magliabecchi, t. v, p. 98. Mal acabara a impressão da resposta de Rancé (27 de fevereiro de 1692), e Mabillon dava no mês de junho seguinte as suas Réflexions sur la réponse de M. l'abbé de la Trappe au Traité des études monastiques; nelas repunha a questão em seu verdadeiro dia, provando que os estudos intelectuais, sem serem da essência da vida religiosa, não estavam nem em desacordo com o estado monástico, nem eram nocivos à perfeição, mas antes tão úteis aos religiosos quanto proveitosos à defesa da Igreja, à edificação comum. Terminava protestando que queria tudo sacrificar à paz e à caridade cristã.
Ele não pôde acomodar-se indefinidamente com seus amigos como adversários: deu-se uma aproximação entre os dois religiosos na Trapa; numa conversa, explicaram-se mutuamente, e os dois religiosos consentiram num esquecimento recíproco da questão que os separara por um momento. Tendo Rancé desejado uma nova edição das Considerações de são Bernardo, o papa agradeceu a Mabillon, e dom Mabillon foi encarregado desse cuidado: o papa enviava um breve elogioso para toda a Congregação de São Mauro.
Em Roma, dom Mabillon ficou impressionado, durante a sua estada, com a maneira rápida pela qual se enviavam às diversas igrejas corpos tirados das catacumbas, e perguntou-se se não se expunham assim os fiéis a venerar falsas relíquias. Explicou-se sobre esse assunto numa dissertação pseudônima publicada sob este título: Eusebii romani epistola ad Theophilum gallum, de cultu sanctorum ignotorum, in-4°, Paris, 1698. Cheia de fatos curiosos e de sábias críticas, essa carta destruía vários erros e diversas superstições que se haviam introduzido em favor de corpos que se chamam santos e que talvez nunca tenham existido (carta de Fléchier, bispo de Nîmes, a Mabillon). Traduzida em francês por diferentes autores, impressa em Paris, em Bruxelas, em Grenoble, essa carta teve imenso sucesso, mas desagradou a Roma. Foi denunciada ao Índice; por pouco não foi condenada, mas o papa Clemente XI, tendo sido informado, tomou o caso em mãos e pediu algumas correções, que Mabillon fez numa nova edição: Eadem Epistola Eusebii... emendata et aucta, in-12, Paris, 1705. Encontram-se essas modificações nas Œuvres posthumes, t. I, p. 209 et sq. A carta assim modificada obteve a aprovação de Roma.
Caluniado junto aos católicos ingleses, a quem se quisera fazer crer que passara ao protestantismo, Mabillon, numa carta indignada, deu uma nova prova de seu apego à fé católica, declarando querer nela perseverar até o fim de seus dias (carta aos católicos da Inglaterra, sobre o boato espalhado a respeito de ter ele mudado de religião). Enganado a respeito de um irmão, cuja causa defendeu com excessiva insistência, julgou dever humilhar-se por isso e pedir perdão por escrito: isso nos valeu as suas Réflexions sur les prisons des ordres religieux (Œuvres posthumes, t. II, p. 321). Entrementes, Mabillon publicava uma Lettre circulaire sur la mort de dom Ruinart (1694), dava uma nova tradução da Regra de são Bento, dirigia uma Lettre d'un bénédictin à M. l'évêque de Blois touchant le discernement des anciennes reliques, a propósito de uma Dissertação do Sr. Thiers contra a santa Lágrima de Vendôme, in-12, Paris, 1700. É erradamente que se quis ver uma contradição entre esse escrito e a Carta de Eusébio. Mabillon, ao tomar a defesa do tesouro de Vendôme, não pretende provar nem mesmo simplesmente afirmar a autenticidade da relíquia: apoia-se na existência secular de um culto, inspirado por perfeita fé e cuja supressão causaria escândalo.
Uma vez, contudo, a sagacidade de Mabillon foi encontrada em falta, juntamente com Baluze e Ruinart, na perícia destinada a estabelecer a filiação dos La Tour d'Auvergne. Ver C. Loriquet, Le cardinal de Bouillon, Baluze, Mabillon et Ruinart dans l'affaire de l'Histoire générale de la maison d'Auvergne, Reims, 1870; Depoin, Une expertise de Mabillon, dans Archives de la France monastique, t. V, p. 127-143. Mabillon contribuiu para a publicação da Edição das Obras de santo Agostinho, que suscitou as polêmicas mais vivas. Ver abaixo, col. 1434. Foi ele quem redigiu a Dedicatória ao rei e compôs o prefácio geral, várias vezes modificado e finalmente fixado, refeito com o auxílio das observações de Bossuet. Ninguém pôs em dúvida a perfeita boa-fé do sábio beneditino, nem o seu inviolável apego à unidade católica. Fez-se silêncio quando um decreto da S. Congregação do Índice de 7 de junho de 1700 condenou todos os escritos de polêmica feitos contra a Edição de santo Agostinho.
Eleito membro da Academia das Inscrições em 1701, dom Mabillon aceitou essa honra por obediência. No ano seguinte, em 1702, compunha um Traité de la mort chrétienne, dedicado à Rainha da Inglaterra. Desde o ano de 1693, Mabillon havia começado os Annales de l'ordre de saint Benoit, mas retardou por dez anos a impressão, a fim de ter vários volumes inteiramente prontos. O primeiro volume apareceu em 1703, os três seguintes foram editados em vida de Mabillon; os t. V e VI foram publicados pelos PP. Martène e Massuet: Annales ordinis sancti Benedicti, 6 vol. in-fol., Paris, 1703-1739.
Durante os primeiros dias de dezembro de 1707, Mabillon sentiu os avisos de seu fim próximo. Este foi marcado por cruéis sofrimentos, que suportou com paciência e resignação, nos sentimentos de uma doce confiança. Vinham-lhe à memória estas palavras que são Paulino atribui a santo Ambrósio: Nec timeo mori quoniam bonum Dominum habemus. Suas últimas palavras foram: Humildade, humildade, humildade. Expirou em sua abadia de Saint-Germain-des-Prés, em 27 de dezembro de 1707. A Europa inteira comoveu-se com a notícia dessa morte; grande número de autores, na França e no estrangeiro, fizeram o elogio do sábio. Limitemo-nos a notar aqui o respeito e a submissão de dom Mabillon para com a Igreja de Roma. O seguinte excerto do prefácio colocado no início do t. IV dos Annales de l'ordre de saint Benoît pode ser considerado o testamento do erudito: « Deus não permita que eu me afaste jamais em coisa alguma desta regra da verdade, quero dizer da Igreja nossa mãe, ao juízo e à censura da qual submeto de todo o coração tudo o que escrevi até hoje, tudo o que pudesse escrever em seguida, tendo sempre vivido em seu seio e na fé, e desejando ardentemente, com a graça de Nosso Senhor, nela terminar os meus dias. »
II. A teologia nos escritos de Mabillon. Estendemo-nos um pouco longamente sobre as obras de Mabillon ao dar a sua biografia, a fim de ter um ponto de referência na exposição que se segue. À parte algumas dissertações em que são tratadas questões especiais de teologia, à parte também apreciações de ordem moral, o que se encontra sobretudo nas obras do sábio beneditino em matéria teológica são indicações históricas concernentes a pontos de disciplina, exposições de opiniões. Em suma, Mabillon pertence muito mais à história e à liturgia do que à teologia.
Para pôr um pouco de ordem em nossa exposição, seguiremos a ordem dos tratados da teologia dogmática, aos quais juntaremos alguns pontos de moral.
1° Sobre a própria teologia, seu objeto e seu método de ensino, o Traité des études monastiques nos entrega o pensamento de Mabillon. Na segunda parte, onde trata dos estudos que convêm aos solitários e do método a seguir, aconselha fazer compilações, recomenda a Suma de santo Tomás como uma obra excelente, um pouco longa demais, contudo. Mas, desde esse grande doutor, acrescenta ele, a escolástica degenerou muito; não é preciso entreter-se com essas questões inúteis que não servem nem para apoiar a fé nem para regular os costumes. Quanto aos casuístas, subtilizaram a ponto de perder a razão; o seu estudo é perigoso para quem quer instruir-se na moral cristã, e haveria muito mais proveito em ler os Ofícios de Cícero. Os capítulos XVIII-XXI contêm um plano geral para a teologia. Traité des études monastiques, 2 vol. in-12, Paris 1692, t. I, p. 302-304; t. II, p. 315.
2° Sobre a autoridade da Igreja e suas decisões concernentes às fontes da tradição, Mabillon dá algumas observações sobre a aprovação dos livros pelo sumo pontífice (Acta Sanctorum O. S. B., t. IV, 2ª parte, prefácio). Encontrando-se em Roma no momento em que os escritos de Isaac Vossius eram denunciados ao Índice, quis-se ter a sua opinião antes de decidir. Sua resposta foi que não havia lugar para condená-los; o parecer de Vossius, tendente a restringir o dilúvio bíblico à terra habitada pelos homens, não sendo oposto nem à fé nem aos costumes, não havia nenhum perigo em tolerá-lo. Votum D. Joannis Mabillonii de quibusdam Isaaci Vossii opusculis, nas Œuvres posthumes, t. II, p. 59.
3° Culto das relíquias e das santas imagens. Mabillon observa que o culto das santas imagens não foi permitido sem reserva nos primeiros séculos da Igreja: queria-se poupar a delicadeza dos pagãos recém-convertidos. A heresia dos iconoclastas, quando apareceu, foi favorecida pelos imperadores de Constantinopla, Leão, o Isaurico, e Constantino Coprônimo. O concílio de Niceia, VII ecumênico, em 787, condenou-a; os bispos franceses não compreenderam de início a decisão desse concílio. Cf. Acta sanctorum O. S. B., t. IV. No que se refere à canonização dos Santos, Mabillon distingue três tempos diferentes ou três maneiras sucessivas de canonizar os santos na Igreja católica: 1. do nascimento da Igreja até o século X, o poder disso cabia ao consentimento do bispo e dos povos; 2. do século X até Alexandre III (1170), os bispos ainda canonizaram os santos, com o consentimento do papa; 3. desde Alexandre III, os papas reservaram para si o poder absoluto de colocar os servos de Deus no número dos santos. Acta Sanctorum O. S. B., t. V, préf.
Sobre o culto das Santas relíquias, possuímos de Mabillon duas memórias bastante consideráveis entre as quais se quis ver uma contradição. Depois de resumir cada uma dessas memórias, diremos que a contradição é apenas aparente.
1° A primeira memória é a carta que tem por título: Romani ad Theophilum gallum epistola de cultu sanctorum ignotorum, 1ª edit., in-4°, Paris, 1698; 2ª edit., in-12, Paris, 1705 (ver acima Vida, Roma, col. 1429). Encontrando-se em Roma, Mabillon estudara no local os princípios nos quais se fundava o reconhecimento das relíquias: um decreto da S. Congregação dos Ritos, emitido em 1668, dava como indícios do martírio a palma gravada na pedra do loculus onde estavam encerrados os ossos, e a ampola de sangue colocada ao lado. Em suas visitas às catacumbas, Mabillon notou que várias inscrições, mesmo com a palma e a ampola, não tinham nenhum caráter religioso, que outras tinham um caráter nitidamente pagão, como o Ditis manibus; dessas constatações decorriam as seguintes conseqüências: não convinha apressar-se em ver um vestígio de sangue humano em vasos de argila que talvez se destinassem a queimar incenso; a palma podia ser uma representação do cipreste, símbolo não do martírio mas da morte. Em suma, todos os ossos contidos nas catacumbas eram restos de cristãos; somente podiam ser considerados com certeza como ossos de mártires aqueles junto dos quais se encontrasse o atestado expresso dos suplícios suportados pela fé; à maior parte das ampolas, se não a todas, podia-se atribuir outro uso que o de conservar o sangue recolhido do corpo dos mártires.
Mabillon constatava, por outro lado, que de fato nenhum discernimento presidia à busca das relíquias dos mártires; daí podiam resultar abusos e escândalos no culto prestado a tais relíquias. Com todas as precauções que exigia matéria tão delicada, mas também com todo o zelo que lhe inspirava o seu amor à religião, expôs a sua opinião na carta latina publicada sob o pseudônimo de Eusébio. Foi ela favoravelmente acolhida na França, como mostra a carta de Fléchier, bispo de Nîmes, a Mabillon; o prelado escrevia, com efeito, em data de 2 de maio de 1689: « Era preciso também que um homem esclarecido e tão judicioso como vós sois nos ensinasse a discernir, na obscuridade dos sepulcros, as cinzas dos santos das dos pecadores, e a regular, segundo as provas evidentes ou duvidosas, as honras que às vezes se prestam indiferentemente a ossos incertos como às relíquias dos mártires. Havia muito tempo que eu desejava que se abolissem certas superstições que se introduzem em favor desses corpos que se chamam santos e que talvez nunca tenham sido batizados. Os povos são naturalmente crédulos. A corte de Roma é às vezes bem liberal com tais presentes. »
Não menos característica é esta passagem de uma carta que Fleury escrevia a dom Ruinart em 2 de fevereiro de 1698: « Li com grande prazer a carta do R. P. Mabillon que me fizestes a graça de enviar. Todas as pessoas sensatas e verdadeiramente piedosas veem com prazer refutar solidamente os erros que podem ser ocasião de superstição e desacreditar exteriormente as santas práticas da religião. » Cf. Valéry, Correspondance inédite de Mabillon et de Montfaucon avec l'Italie, 3 vol. in-8°, Paris, 1846, t. III, p. 7, 8.
Entretanto, houve comoção em Roma; vivos contraditores denunciaram a Carta de Eusébio ao tribunal do Santo Ofício. Ver a esse respeito uma carta de dom Estiennot a Mabillon, em Valéry, op. cit., t. III, p. 8-14. Mabillon dirigiu a dom Estiennot uma Commonitoria Epistola... super epistola de cultu sanctorum ignotorum, in-12, Paris, 1698, que foi comunicada em manuscrito aos cardeais e aos prelados tanto da Congregação do Santo Ofício como da do Índice. Valéry, op. cit., t. III, p. 39. Estes declararam que ficaram muito satisfeitos com ela. Julgava-se o caso terminado, quando, depois de vários anos, recomeçou-se o processo na Congregação do Índice. A condenação parecia iminente; cardeais representaram ao papa o que ela teria de desagradável para um homem da reputação de Mabillon. Clemente XI deteve o caso, fazendo ver que esse religioso, respeitosamente sincero em relação à Santa Sé, forneceria com prazer as explicações que se lhe pedissem sobre o seu livro. Fez-se uma segunda edição da Carta de Eusébio. Mabillon, no prefácio, declarava suavizar certas coisas que podiam parecer demasiado duras, explicar as que podiam parecer obscuras. As modificações mais importantes eram, de um lado, a supressão da carta do papa Gregório IV ao arcebispo de Mogúncia, de outro, a aprovação, sem reserva, da S. Congregação dos Ritos. Historicamente, Mabillon admitia que a mancha de sangue podia ser apresentada como indício irrecusável do martírio; contudo, a questão permanecia sempre de fato intacta, era preciso reconhecer previamente com certeza o vestígio do sangue. O papa, a quem o escrito era dedicado, ficou plenamente satisfeito.
Os historiadores notaram que, em toda essa discussão, Mabillon deu uma prova convincente de sua admirável submissão à Santa Sé, ao mesmo tempo que de sua firmeza em defender uma indicação legítima. Que Mabillon tenha conservado o seu sentimento a respeito da mancha de sangue, e se tenha mantido em reserva por respeito à Santa Sé e à S. Congregação, é o que resulta dos termos da carta que escreve em 12 de fevereiro de 1703 a Guilherme de la Barre: « Quanto aos excessos que se cometem alhures sobre o culto desse gênero de relíquias, eu nem mesmo falei deles; o que disse a esse respeito é uma verdadeira apologia do Decreto da S. Congregação dos Ritos que condena esses abusos. » Ver Œuvres posthumes, t. I, p. 3-15. Que tenha visto certo nesse caso, é o que resulta dos trabalhos publicados sobre o mesmo assunto no decurso do século XIX, e dos quais se pode ler um resumo no artigo Ampoules de sang do Dictionnaire d'Archéologie chrétienne et de Liturgie, t. I, col. 1747-1776.
2. A segunda memória de Mabillon a respeito das relíquias é a Lettre d'un Bénédictin à M. l'Évêque de Blois touchant le discernement des anciennes reliques, au sujet d'une Dissertation de M. Thiers contre la sainte Larme de Vendôme, in-12. Paris, 1700. A essa carta se acrescentam as memórias para servir de esclarecimento à história da santa Lágrima de Vendôme. Ver Œuvres posthumes, t. II, p. 361, 383. Os beneditinos de Vendôme apresentavam à veneração dos fiéis a santa Lágrima; esta, derramada pelo Salvador sobre o túmulo de Lázaro, teria sido recolhida por um anjo num glóbulo de cristal, trazida a esse lugar por santa Madalena, conservada em Aix até o tempo de Constantino, transportada a Constantinopla, e de lá trazida de volta à França no século XI pelo duque de Vendôme. Aqueles a quem incomodava a Carta de Eusébio viram aí uma excelente ocasião de tomar a ofensiva; J.-B. Thiers fez-se seu porta-voz, denunciou a lenda como falsa e pediu ao bispo de Blois que suprimisse essa piedosa fraude.
Nos escritos que acabamos de assinalar, Mabillon tomou a defesa do tesouro de Vendôme; seu intento não era provar, nem simplesmente afirmar a autenticidade da relíquia. Quis defender a boa-fé dos detentores dessa relíquia, estabelecer que haveria escândalo em suprimir um culto que existia havia longos séculos. Pretendeu-se, não sem aparência de razão, que Mabillon, em toda parte bom crítico, mostrou-se nessa circunstância demasiado crédulo e pouco judicioso (Dictionnaire historique de Feller), que abandonava o seu próprio sentimento devidamente motivado na Carta de Eusébio. Contudo, há uma diferença bastante sensível entre os dois casos: na Carta de Eusébio, Mabillon levantava-se contra a novidade de um culto abusivo, não apoiado em provas suficientes; na carta ao bispo de Blois, Mabillon não pretendeu de modo algum discutir a verdade ou a falsidade da relíquia, mas mostrar que as regras dadas por J.-B. Thiers para o discernimento das antigas relíquias eram falsas. Invocando a boa-fé dos religiosos de Vendôme na posse secular, dá prova de um temperamento sábio, que permite evitar tanto a superstição quanto a irreligião, conserva a paz e evita o escândalo que resultaria de mudanças indiscretas.
A propósito do tratado da Graça, no prefácio ao tomo IV dos Acta Sanctorum O. S. B., t. IV, 2ª part., Mabillon mostra-se pouco favorável a Gottschalk, cuja opinião sobre a predestinação não ousa condenar, embora censure um pouco duramente a sua conduta. Na edição beneditina das Obras de santo Agostinho, que foi objeto de numerosos ataques, Mabillon teve uma parte bastante considerável para que dela falemos aqui: foi ele quem redigiu a Epístola dedicatória ao rei, que Thuillier declara ser « uma verdadeira obra-prima em seu gênero ». Histoire de la nouvelle édition de saint Augustin donnée par les PP. Bénédictins de la Congrégation de Saint-Maur, in-12, 1730, p. 5. Ingold, Histoire de l'Édition bénédictine de saint Augustin, a dá in extenso no apêndice, p. 145-154. Compôs igualmente o prefácio geral e o fez « como bom discípulo do santo doutor », escreve dom Tassin. Contudo, os bispos a quem foi comunicado não permitiram que fosse assim impresso; foi revisto, corrigido, finalmente modificado por Bossuet, de quem é o eco fiel. Apresenta o agostinismo sob fórmulas suavizadas, para evitar o escolho do jansenismo e permanecer nos limites da ortodoxia. Ver a esse respeito Ingold, Bossuet et l'édition bénédictine de saint Augustin dans : Revue Bossuet, t. I, p. 159-177.
Quis-se guardar um justo meio entre os partidários de Arnauld e os partidários de Molina, esperando assim impor-se ao respeito de uns e de outros. Na realidade, só se fizeram descontentes; os molinistas não viram na moderação de Mabillon senão uma manobra pela qual não lhe ficaram agradecidos; os amigos de Port-Royal irritaram-se com as concessões feitas ao que lhes parecia o erro. « Ninguém hoje fará crime a Mabillon de não ter levado suas simpatias pela doutrina agostiniana até o jansenismo. Quanto à edição beneditina de santo Agostinho, reconhece-se desde há muito que é uma obra de alta probidade, que só é deslustrada por infelizes concessões feitas aos adversários do agostinismo. » J. Turmel, dans Revue du Clergé français, 1902, XXX, p. 631. Ver também dom P. Denis, numa nota da Revue Mabillon, t. V, p. 354.
5° Os sacramentos em geral. Sobre a administração da Extrema-Unção e do santo Viático, o prefácio dos Acta Sanctorum O. S. B., t. I, assinala uma evolução da disciplina eclesiástica. « Outrora, escreve Mabillon, dava-se a extrema-unção antes do santo viático, e mesmo várias vezes numa mesma doença. Somente no século XIII começou-se a mudar essa ordem e a dar a extrema-unção depois do viático; essa mudança veio de um erro popular: cria-se então que, a partir do momento em que se recebera o sacramento da extrema-unção, já não era permitido comer carne, e que as pessoas casadas eram obrigadas a guardar a continência pelo resto de seus dias; desde então vários doentes só quiseram receber a unção na última extremidade. » Concílios condenaram esse erro. A Igreja, ao reprová-lo, conservou contudo a prática de dar o santo viático antes da extrema-unção. Estatuiu também que não se devia reiterar esse sacramento no decurso de uma mesma doença, nisi diuturna sit.
Penitência. Mabillon assinala este ponto: que no século VIII a confissão era havia muito considerada necessária para o perdão dos pecados, mesmo secretos; frequentemente a confissão particular se fazia na presença de vários sacerdotes, que davam juntos a absolvição ao penitente. Dom Tassin, op. cit., p. 226, sobre o prefácio dos Acta Sanctorum O. S. B., t. III, 1ª parte.
6° Eucaristia. Presença real. A história da heresia de Berengário é apresentada por Mabillon com grande exatidão; assinala a sua condenação por diversos concílios, os diferentes autores que a refutaram e, por fim, a conversão sincera de Berengário em 1088. Dom Tassin, dom Le Cerf, op. cit., p. 234, 239, sobre os Acta Sanctorum O. S. B., t. VI, 2ª part., sobre os Annales O. S. B., t. IV, e sobre o t. IV dos Vetera Analecta. Mabillon, no t. IV, 2ª part. dos Acta Sanctorum O. S. B., expõe as disputas ocorridas entre Pascásio Radberto, abade de Corbie, e Bertrando ou Ratramno, um de seus religiosos. O livro de Pascásio Radberto, escrito em 831, não contém outra coisa senão a crença da Igreja católica de seu tempo, sobre a autoridade de santo Ambrósio, a saber, que o corpo de Jesus Cristo no adorável mistério da eucaristia é o mesmo que nasceu da Virgem Maria. Essa maneira de falar não agradava de modo algum a Hériger, abade de Lobbes. Mabillon, contudo, faz ver que tal era também o sentimento de santo Inácio, mártir, em sua epístola aos fiéis de Esmirna, de são Crisóstomo etc.; acrescenta numa carta de 11 de maio de 1689 a P. Thibault:
« Quanto à questão da eucaristia que tratei, não pretendo ter dito tudo, nem mesmo ter explicado as coisas de maneira que remova todas as dificuldades na contestação que havia entre Pascásio e seus adversários. Essas matérias são obscuras e, por conseguinte, é difícil esclarecê-las inteiramente. São delicadas, e por isso se é obrigado a tratá-las com muita moderação e reserva. Sempre foi meu pensamento que esses autores que combatiam Pascásio não admitiam a reprodução nem do corpo nem da alma de Jesus Cristo, e que não queriam admitir uma mesmidade individual entre o corpo eucarístico e o corpo natural de Jesus Cristo. Por que então, direis, não me expliquei sobre isso no escrito que dei ao público? É que não julguei conveniente fazê-lo de início... Sobre esse artigo, e sobre alguns outros, reservei-me tratar algum dia, se Deus me der tempo e vagar, e eu vir que isso possa ser útil à Igreja. Pois nosso desígnio não deve ser aumentar as dificuldades a respeito da eucaristia: já há dessas demais... O sentimento que sustenta a reprodução na eucaristia não é fácil de encontrar entre os antigos... Teria sido de desejar que nos tivéssemos atido à santa moderação dos antigos Padres, que diziam que era o verdadeiro corpo de Jesus Cristo e que o pão e o vinho eram mudados em sua substância. »
Essa carta está na Bibl. nat., ms. fr. 19659, p. 103. Foi publicada na Revue Mabillon, t. v, p. 75. Não se vê que Mabillon tenha dado seguimento ao projeto de que fala aqui. Alhures, em seu comentário sobre os Ordines romani, P. L., t. lxxviii, col. 899, Mabillon menciona a doutrina muito difundida na Idade Média segundo a qual a hóstia consagrada santificava e consagrava o vinho ao qual era misturada: « Quae verba (dit le texte d'un vieux missel de Reims) nullum sensum videntur habere si calix ex contactu in sanguinem conversus non credatur... », ao que Mabillon acrescenta: In monasteriis etiam gallicanis plerisque vigebat eadem sententia. Mas não se pronuncia sobre essa opinião que assinala como historiador; crê que Barônio exagera ao dar a entender que essa crença era universal. No mesmo comentário, col. 896-898, Mabillon assinala outra teoria que atribuía a consagração ao Pater.
O pão ázimo. Em sua dissertação De azymo et fermentato, in-12, Paris, 1674, Mabillon sustenta que o pão ázimo ou sem fermento estava em uso na Igreja latina antes do cisma de Fócio, não sendo sem réplica as provas do P. Sirmond para o uso do pão levedado. Por aí também se afasta do sentimento do cardeal Bona, que pretendia que os latinos tivessem empregado indiferentemente um e outro pão. Os argumentos de Mabillon são de ordem histórica; expõe-nos nos c. vii-ix; no cap. x, resolve as objeções que se lhe possam fazer.
O cap. xi, que dá as conclusões, termina com esta frase: fermenti usum apud Latinos asserendi (quod cum bona venia dictum velim) mihi sufficiens causa non videtur. Em apêndice, encontra-se exposto o parecer do P. Macedo, franciscano, em que a opinião do cardeal Bona é tratada de herética. Orator, diz a esse respeito Mabillon, mihi visus est vehementior quam causa postularet : intempestiva et personae parum conveniens est tam incondita declamatio. Geralmente, deu-se razão a Bona contra Mabillon (ver Dupin, Bibliothèque ecclésiastique du XVIIe siècle, t. v, p. 46).
Celebração da missa. Somos devedores a Mabillon de alguns pormenores concernentes à disciplina eclesiástica. No século VII, diz-se no prefácio do t. II dos Acta Sanctorum O. S. B., havia sacerdotes que diziam missa todos os dias e que às vezes diziam várias num mesmo dia; o papa são Leão II celebrava até sete vezes por dia. Os bispos e os sacerdotes contentavam-se às vezes em comungar. No século VIII, id., t. II, o espírito da Igreja era antigamente que os bispos e os sacerdotes celebrassem todos os dias os santos mistérios. No século XI, id., t. vi b, um concílio de Compostela ordena que todos os sacerdotes dirão a missa todos os dias.
Comunhão sob as duas espécies. Até o fim do século XII, a comunhão foi dada aos leigos sob as duas espécies; os homens, até o século IX, recebendo a hóstia com a mão para se comungarem. Igualmente no século XI, vê-se nos Acta Sanctorum O. S. B., t. III, que a comunhão em viático era dada sob as duas espécies; contudo, encontram-se também casos em que é dada sob uma só.
7° Alguns pontos de moral. 1. Sobre a mentira. Mabillon nos entregou todo o seu pensamento na maneira como se defendeu quando seus irmãos em religião o atacaram a respeito do t. I dos Acta Sanctorum O. S. B. « Não devemos ter mais apego à nossa ordem do que à fé católica. Ora, santo Agostinho faz ver excelentemente bem, e é a doutrina da Igreja, que não devemos cometer a menor falta contra a verdade e contra a sinceridade, ainda que se tratasse de converter por esse meio os infiéis e os hereges. Pois, como diz muito bem esse grande homem, além do ultraje que se faria à verdade, se viesse a descobrir-se a nossa má-fé, todo o bem que pensássemos ter estabelecido sobre esse falso princípio iria à ruína. Se isso não é permitido no discurso, o é ainda bem menos nos escritos que se dão ao público com premeditação e que devem permanecer na posteridade. » Mémoire justificatif, publicado na Revue Mabillon, t. vi, p. 12.
É a mesma doutrina que encontramos numa profissão de fé de Mabillon, pouco conhecida demais, diz Léop. Delisle, Dom Mabillon, sa probité d'historien, dans Archives de la France monastique. Mélanges et documents, t. v, p. 93, 94, e que é tomada da Vita Mabillonii, tradução latina de dom Ruinart, Pádua, 1714, p. 45 : Mentiri, si christianis omnibus, nullo magis religiosis in vitam professis nulla unquam ratione licet, longeque minus cum mendacium multis exitiale est ac perniciosum. Fieri vero non potest quin historici mendacia vertant in perniciem multorum qui verbis ejus fidem adhibentes decipiuntur dum errorem pro veritate amplectuntur : non levis proinde ejus culpa fuerit qui tot alios secum in errorem traxit. Debet ergo, si eam laudis sit, procul ab omni studio partium certa ut certa, falsa ut falsa, dubia ut dubia tradere. Ver ainda a carta de dom Mabillon a dom Ph. Bastide, em Œuvres posthumes, t. i, p. 433. Mabillon teve outra ocasião de exprimir-se no mesmo sentido, quando, acusado pelo abade de escrever contra a sua própria convicção, respondeu: « Posso cair no erro tão bem como todos os outros homens, posso ainda cair em contradições, mas que eu escreva contra a minha própria convicção, espero com a graça de Deus que isso nunca me aconteça. »
Sobre a abstinência de carnes. A propósito da disciplina no que concerne à caça aquática, preocupava-se, mesmo no clero regular, em saber se a caça era permitida nos dias de jejum. Cf. Carta do arcebispo de Rouen datada de Gaillon em 17 de março de 1695, Manuscrito da Bibl. de Amiens, 563, fol. 182. Mabillon, numa carta ao superior geral, manifesta seu temor de ver introduzir-se o relaxamento na congregação de São Mauro. Eis como se exprime a respeito de aves que se chamam judelles ou judelles, e pilets, espécie do gênero pato: « Isso vai longe demais, e far-se-á dificuldade em comer patos, galinhas (sic) e enfim toda sorte de aves; donde se passará logo a comer toda sorte de carnes, e por certo eu teria bem menos sensualidade em comer boi e carneiro do que dessas espécies de aves. Ainda que houvesse apenas a novidade, ela só deveria bastar para tornar-nos suspeito esse uso... Embora toda essa novidade seja muito perigosa, a que favorece a sensualidade o é ainda mais que todas as outras, nada sendo mais contrário ao espírito de penitência. » Bibl. de Tours, ms. 1490, fol. 193, publicado na Revue Mabillon, t. v, p. 83. Mabillon via certo quando temia, para um futuro bastante próximo, o relaxamento de sua congregação nesse ponto da abstinência. Em 1726, desejava-se o retorno ao regulamento do capítulo geral de 1696. Circulaire, Archiv. nat., L. 814, n. 98. Revue Mabillon, ibid.
Obras de Mabillon. Damo-las aqui na ordem de sua aparição, as obras latinas primeiro, as obras francesas depois. Hymni latini in laudem sancti Adalhardi et Sanctae Bathildis, et officia ecclesiae Corbeiensis propria, 1667 ; Sancti Bernardi opera omnia, 2 in-fol., 1667 ; édit. 2 in-fol., Paris, 1690. (Para as edições ulteriores, ver C. de Lama : Bibliothèque des Écrivains de Saint-Maur, n. 166). Acta Sanctorum O. S. B., in saeculorum classes distributa, 9 in-fol. (para as outras edições, id., n. 1). De azymo et fermentato, n. 71. Vetera Analecta, etc. Animadversiones in Vindiciae, Paris, 1677; in-16, Paris, 1712. De re diplomatica, Paris, 1681 (editio recognita, emendata, aucta); item in-fol., ad libros de re diplomatica, cum figuris, etc., in-fol., Paris, 1704; édition 2 in-fol., 1709. Varia opuscula, ut in appendicibus relatis, in-4°, 1738; Volumen quintum opus posthumum, 1713; 6 in-fol., édition de La Liturgia gallicana, etc., cum disquisitione de cursu gallicano, etc., in-4°, Paris, 1685 (ver de Lama). Museum italicum, op. cit., n. 1755, in t. I. Collectio veterum scriptorum ex bibliotheca italica, primo tomo praemittitur Iter italicum litterarium, in secundo commentarius in Ordinem romanum, 3 in-4°, Paris, 1687 e 1689; 2ª edição, 1724. Eusebii romani ad Theophilum gallum epistola de cultu sanctorum ignotorum, in-4°, Paris, 1698, 2ª edição, in-12, Paris, 1698 (foi traduzida para o francês por diversos autores e impressa em Paris, em Bruxelas, em Tours, em Grenoble, etc.). Commonitoria epistola ad Cl. Estiennot, in-4°, Paris, 1698; 2ª edição, Epistola de cultu SS. ignotorum, in-4°, Paris, 1705. Sancti Bernardi de consideratione libri V ad Eugenium III, jussu pontif. max., in-8°, Paris, 1701.
— Obras francesas. Réponse des religieux bénédictins de la province de Bourgogne à un écrit des chanoines réguliers de la même province touchant la préséance dans les États, in-4°, Paris, 1687 (foi traduzida para o latim por Hermann Schenk). Réplique des religieux de la province de Bourgogne au second écrit des chanoines réguliers de la même province, in-4°, Paris, 1687. Traité où l'on réfute la nouvelle explication que quelques auteurs donnent aux mots de MESSE et de COMMUNION qui se trouvent dans la règle de saint Benoît, in-12, Paris, 1689 (foi traduzido para o latim). Traité des études monastiques, divisé en trois parties, avec une liste des principales difficultés qui se rencontrent en chaque siècle dans la lecture des originaux et un catalogue des livres choisis pour composer une bibliothèque ecclésiastique, in-4°, Paris, 1692; 2 in-12, Paris, 1692, Camden, 1712 (este tratado foi traduzido para o latim por U. Staudig, 2 in-12, e por J. Porta, in-4°, Veneza, 1705; para o italiano por G. Ceppi, sob o título de Scuola Mabilloniana, 2 in-12, Roma, 1701). Réflexions sur la réponse de M. l'abbé de la Trappe au Traité des études monastiques, in-4°, Paris, 1692, 2 in-12, Paris, 1693 (igualmente traduzidas para o latim). Lettre circulaire sur la mort de la Mère Jacqueline Bouette de Blémur, in-4°, Paris, 1696. Traduction de la Règle de saint Benoît, avec les statuts d'Étienne Poncher, évêque de Paris, pour l'usage des religieuses de l'abbaye de Chelles, in-12, Paris, 1697. Lettre d'un bénédictin à M. l'évêque de Blois, touchant le discernement des anciennes reliques, au sujet d'une dissertation de M. Thiers contre la sainte Larme de Vendôme, in-12, Paris, 1700. La mort chrétienne sur le modèle de celle de N.-S. J.-C. et de plusieurs saints et grands personnages de l'antiquité, le tout extrait des originaux, in-12, Paris, 1702.
Cartas que Mabillon escreveu. Está longe de terem sido todas publicadas. Encontra-se certo número delas em M. Valéry, Correspondance inédite de Mabillon et de Montfaucon : également avec l'Italie, 3 in-8°, Paris, 1846; nas Œuvres posthumes publicadas por dom Thuillier, 3 in-4°, Paris, 1724, notadamente no t. III. Dom P. Denis publicou 45 cartas de dom J. Mabillon, provenientes de fundos diversos, na Revue Mabillon, t. V, p. 67-100, e algumas outras ainda na mesma Revue; H. Stein, Bibliographie chronologique des ouvrages relatifs à Mabillon, menciona cartas avulsas do sábio beneditino, ver Archives de la France monastique, Mélanges : documents, t. V, Ligugé, Paris, 1908.
As Œuvres posthumes de que acabamos de falar contêm algumas das obras que mencionamos e, além disso, os seguintes opúsculos, todos contidos no t. II : De quibusdam factis R. P. Dom Vincent Marsollii; Votum de quibusdam Isaaci Vossii opusculis; Dot des religieuses; Avis pour ceux qui travaillent aux histoires des Monastères; Réflexions sur les prisons des ordres religieux; Remarques sur les antiquités de Saint-Denis. Cumpre assinalar, por fim, uma memória de Mabillon, publicada por dom P. Denis sob este título Dom Mabillon et son mémoire justificatif sur l'édition des Acta Sanctorum O. S. B., na Revue Mabillon, t. VI, 1910, p. 1-64.
II. Trabalhos sobre Mabillon. 1° Sobre a sua vida. — S. Bäumer, Johannes Mabillon, ein Lebens und Literaturbild, in-8°, Augsburgo, 1892. U. Berlière, Mabillon et la Belgique, na Revue Mabillon, t. IV, 1908. Abade Bouillot, Biographie ardennaise, 2 in-8°, Paris, 1830 (sobre Mabillon, ver t. II, p. 150-164). E. de Broglie, Mabillon et la Société de l'abbaye de Saint-Germain-des-Prés à la fin du XVIIe siècle, 2 in-8°, Paris, 1888. F. Cabrol, Panégyrique de Mabillon, prononcé en l'église de Saint-Germain-des-Prés le 27 décembre 1907, nas Archives de la France monastique, t. V. Mélanges et Documents, Ligugé, Paris, 1908. E. Chauvin de Malan, Les gloires de France, na Histoire de Mabillon et de la Congrégation de Saint-Maur, in-12, Paris, 1843. A. du Bourg, Dom J. Mabillon, in-8°, Poitiers, 1908. L. Fischer, Le deuxième centenaire de Mabillon, na Revue d'Alsace, t. XXVII, 1908, p. 31-40. M. Gros de Boze, Éloge de dom Mabillon, prononcé le 17 avril 1708 dans l'Assemblée publique de l'Académie royale des Inscriptions, in-4°, Paris, 1708 (traduzido para o latim por dom Hervin). B. Hauréau, na Nouvelle biographie générale du Dr Hoefer, t. XXXII, p. 437-449 (uma notícia importante). A. M. P. Ingold, Mabillon in Alsace, in-8°, Colmar, 1901.
H. Jadart, dom Jean Mabillon : étude suivie de documents inédits sur sa vie, ses œuvres, sa mémoire, in-8°, Reims, 1879. Do mesmo, La maison natale de D. Mabillon et son monument commémorant dans l'église de Saint-Pierremont, in-8°, Caen, 1885. Do mesmo, Les relations de dom Jean Mabillon avec le pays Laonnois, in-8°, 1880. Do mesmo, dom Thierry Ruinart (1657-1709) notice... ses relations avec dom Mabillon, in-8°, Paris-Reims, 1886. Do mesmo, L'origine de Dom Mabillon à Saint-Pierremont (1632-1666), sa liaison avec dom Ruinart (1682-1707), nas Archives de la France mon., t. V, Mélanges et documents. J. Labouderie, Notice historique sur Mabillon, in-8°, Paris, 1825. F. Le Cerf de la Viéville, Bibliothèque historique et critique des auteurs de la Congrégation de Saint-Maur, in-12, A Haia, 1726. Dom Massuet, Abrégé de la vie de Mabillon, nos Annales O. S. Benedicti, t. V, in-fol., Paris, 1713. Picot, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique pendant le XVIIIe siècle, in-12, t. I, Paris, 1815 (no t. I, encontram-se alguns pormenores sobre as relações de Mabillon com o card. Colloredo). Dom T. Ruinart, Abrégé de la vie de dom J. Mabillon, prêtre et religieux bénédictin de la Congrégation de Saint-Maur, in-12, Paris, 1709 (traduzido para o latim por Cl. de Vie, ver Vie). Dom Tassin, Histoire littéraire de la Congrégation de Saint-Maur, in-4°, Bruxelas, Paris, 1770. Vie (Cl. de), Vita Joannis Mabillonii presb. et monachi O. S. B. Congregationis Sancti Mauri a Th. Ruinart ejus socio olim gallice scripta, nunc in latinum sermonem translata, in-8°, Pádua, 1714. A. Vidier, Un ami de Mabillon, dom Cl. Estiennot, nas Archives de la France mon., t. V, Mélanges et documents.
2° Sobre as Obras. E. Babelon, Une querelle scientifique entre jésuites et bénédictins : origine de la diplomatique, no Contemporain, 1878, t. I, p. 297-320. Bouillart, Catalogue des livres composés par les religieux de Saint-Germain-des-Prés et auteurs de la Congrégation de Saint-Maur, in-fol., Paris, 1721. J. Besse, Les études ecclésiastiques d'après la méthode de Mabillon, in-18, Paris, 1900. A. de Boislisle, dom Jean Mabillon et l'Académie des Inscriptions, nas Archives, etc., t. V, Mélanges et documents. Bossuet, Œuvres, edição Deforis, 44 in-8°, Versalhes, 1815-1819 (algumas cartas trocadas com Mabillon). F. Cabrol, Mabillon et les études liturgiques, nas Archives, t. V, Mélanges et documents. A. Dantier, Rapports sur la Correspondance inédite des bénédictins de Saint-Maur, in-8°, Paris, 1857. L. Delisle, Dom Jean Mabillon, sa probité d'historien, nas Archives, t. V, Mélanges et documents. J. Depoin, Une expertise de Mabillon : la filiation des La Tour d'Auvergne, nas Archives, t. V, Mélanges et documents. H. Didio, La querelle de Mabillon et de l'abbé de Rancé, in-8°, Lille, 1892. Do mesmo, Mabillon et l'opportunité d'une édition des œuvres de saint Augustin, na Revue des Sciences ecclésiastiques, 8ª série, t. VII, 1898, p. 5-32 e 192-212 (trabalho inacabado — e retomado um pouco mais tarde por Ingold, ver este nome). A. Giry, Manuel de diplomatique ; in-8°, Paris, 1894 (resumindo a história da diplomática — este autor insiste na erudição e nos trabalhos de Mabillon). A. M. P. Ingold, Bossuet et l'édition bénédictine de saint Augustin, na Revue Bossuet, t. I, 1900, p. 159-177 (estudo reimpresso na obra do mesmo autor Do mesmo, Histoire de l'édition bénédictine de saint Augustin — avec le Journal inédit de dom Ruinart, in-8°, Paris, 1902). Do mesmo, Un document inédit sur la querelle de Mabillon et de l'abbé de Rancé, nas Archives, t. V, Mélanges et documents.
H. Jadart, Dom Mabillon et la réforme des prisons, étude historique et morale, in-8°, Paris, 1885. J. Peeters, Studien zu Mabillons römischen Ordines, in-8°, Münster, 1905. R. Kukula, Die Maurinerausgabe des Augustinus, nos Sitzungsberichte der Wiener Akademie der Wissenschaften, cxxi, 5 e cxxii, 8, 1890. M. Lecomte, La publication des Annales O. S. Benedicti, nas Archives, t. V, Mélanges et documents. L. Levillain, Le De re diplomatica, Archives, ibid. C. Loriquet, Le cardinal de Bouillon, Baluze, Mabillon et Th. Ruinart, em Affaire de l'Histoire générale de la maison d'Auvergne, nos Travaux de l'Académie impériale de Reims, t. xlvii, p. 205-308. P. Nicéron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustres dans la république des Lettres, avec un catalogue raisonné de leurs ouvrages, in-12, Paris, 1724-1745 (no t. vii, p. 350-371). H. Omont, Mabillon et la Bibliothèque du roi à la fin du XVIIe siècle, nas Archives, t. V, Mélanges et documents. A. Poncelet, Mabillon et Papebroch, nas Archives, ibid. Pez, Bibliotheca Benedictino-Mauriana, in-8°, Augsburgo, 1710. O. Rottmanner, Der Augustinismus — eine dogmengeschichtliche Studie, in-8°, Munique, 1892. [V. Thuillier], Histoire de la nouvelle édition de saint Augustin donnée par les PP. Bénédictins de la Congrégation de Saint-Maur, in-4°, na França, 1736. J. Turmel, Quelques hommes illustres de l'Église de France : Mabillon, na Revue du Clergé français, t. xxx, 1902, p. 468-492 e 617-633. J.-B. Vanel, Les bénédictins de Saint-Germain-des-Prés et les savants lyonnais d'après leur correspondance inédite, in-8°, Paris-Lyon, 1894.
J. Baudot.
Autor original: J. Baudot
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