LYRE (Nicolau de), teólogo e comentador da Escritura (primeira metade do século XIV). I. Vida (col. 1411). II. Obras (col. 1411). III. As Postilas (col. 1413). IV. Influência (col. 1418).
I. Vida. — A maior parte dos escritores que se ocuparam de Nicolau de Lyre dizem-no de origem judaica. Rafael de Volterra, De institutione christiana, V, xxviii, Rome, 1518, f° 81 b, cita-o entre os judeus convertidos que escreveram contra os erros de seus antigos correligionários. Basnage, Histoire des juifs, VII, xviii, Rotterdam, 1707, t. v, p. 1810, 1820, coloca-o entre os judeus que se tornaram cristãos para escapar ao banimento decretado pelo edito de Filipe o Belo (1306). A única prova que dá disso é o conhecimento que Nicolau teve do hebraico e da literatura rabínica. Essa razão não vale nada. O judeu convertido Paulo de Burgos, que combateu Nicolau e lhe censurou ser favorável demais aos comentadores judeus da Bíblia, longe de dar a entender que tivesse sido judeu, supõe o contrário quando o diz insuficientemente instruído na língua hebraica: sed de illa videtur habuisse notitiam quasi ab aliis in aetate adulta mendicativo suffragio acquisitam. Prólogo de suas Additiones às Postillae, Nuremberg, 1497, f° 18 a; cf. f° 10 a, f° 20 b, 21 b. Trithème, De scriptoribus ecclesiasticis, Paris, 1512, f° 121 a, faz de Nicolau de Lyre um inglês. Outros, como Sisto de Siena, Bibl. sancta, l. IV, Lyon, 1592, p. 276, fazem-no inglês ou originário de Lyre em Brabante. Disseram-no igualmente batavo.
Até estes últimos tempos, essas opiniões haviam parecido atestadas por um texto que fixa o lugar de seu nascimento ao mesmo tempo que a data de sua morte. Cf. R. Simon (sob o pseudônimo de Sainjore), Bibliothèque critique, Amsterdam, 1710, t. iv, p. 251-254. Trata-se do epitáfio em versos de Nicolau de Lyre, no grande convento dos cordeliers de Paris. Lia-se ali que Nicolau nascera em Lyre, na Normandia (hoje no Eure), que tomara o hábito no convento vizinho de Verneuil e que morrera em 23 de outubro de 1340. Ver o texto em Wadding, Annal. minorum, t. iii, p. 469. Outro epitáfio, em prosa, feito somente em 1631 e colocado sobre o túmulo, enquanto o primeiro havia sido fixado na parede em data desconhecida, reproduzia essa data e a indicação relativa a Verneuil, chamando Nicolau provinciae Franciae alumnus; dava-lhe 48 anos de vida religiosa, o que punha em 1292 a sua entrada entre os frades menores. Nicolau era, pois, de Lyre na França (escrita também Lire). Há mais: como existem duas aldeias uma ao lado da outra, a Vieille-Lyre e a Neuve-Lyre, pretendeu-se que é a Neuve-Lyre que tem o direito de gloriar-se de Nicolau. Cf. P. Feret, La Faculté de théologie de Paris, Moyen Age, Paris, 1896, t. iii, p. 331.
Um documento, publicado por Viard, Bibliothèque de l'École des chartes, Paris, 1895, t. lvi, p. 142, não permite manter a data de 1340 que fornecem os dois epitáfios da França: informa-nos que, em 6 de julho de 1349, a rainha fez doação de um tonel de vinho a frei Nicolau de Lyre, da ordem dos frades menores, mestre em teologia. Por outro lado, dom Félibien, Histoire de la ville de Paris, Paris, 1725, t. i, p. 286, e, antes dele, os franciscanos Pedro Ridolfi (1586) e Willot (1598), citados por Wadding, t. iii, p. 169, haviam dado, mas sem referências, a data de 23 de outubro de 1349 como a da morte de Nicolau. Isso não é tudo. J. Viard, p. 143, pensa que só bastante tarde lhe foi atribuído como lugar de origem «Lyre perto de Évreux», e isso fundando-se no epitáfio em versos. Mas, se a data da morte inscrita no epitáfio é errônea, por que a menção do país de origem não o seria? Concordar-se-á de bom grado que a autoridade do epitáfio está doravante comprometida; mas não parece que seja preciso renunciar a crer Nicolau de Lyre de nacionalidade francesa.
A França lhe é cara ao coração. Vê na nuvem branca do Apoc., xiv, 14, o reino da França, candidatum prae ceteris moribus et fide. Por três vezes, In ps. xviii; Matt., xxiv, 14; Rom., x, 18, para mostrar que, em vida de são Pedro, a fé cristã foi pregada até as extremidades da terra, fala sobretudo de são Saviniano enviado, diz ele, por são Pedro a Sens, que era a metrópole da Gália, e da igreja de Saint-Pierre-le-Vif de Sens, in qua pluries ego fui, t. iv, f° 173 a. Tudo o que sabemos de sua vida o liga à França. Em 1325, era provincial da Borgonha quando a rainha Joana, viúva de Filipe o Longo, o nomeou um de seus executores testamentários. Em dezembro de 1333, esteve na assembléia convocada por Filipe VI para examinar a opinião de João XXII sobre o adiamento da visão beatífica; em 2 de janeiro de 1334, assinou o julgamento proferido pelos doutores em teologia parisienses. Ver Bento XII, t. II, col. 666. Em 1349, vimo-lo, a rainha o gratificava com um tonel de vinho. Mesmo que o epitáfio seja tardio, não há dúvida de que seu túmulo estava no convento dos frades menores de Paris.
Em resumo, Nicolau de Lyre, nascido quase certamente em Lyre na Normandia, morreu talvez em 1349, seguramente não antes de 1349. Se morreu em 1349 e se passou 48 anos na ordem de São Francisco, como diz o epitáfio em prosa, nela entrou em 1301. Paris foi o centro de sua atividade religiosa. Esse mestre em teologia, um dos que tiveram de pronunciar-se sobre uma opinião de João XXII, ensinou sem dúvida na Universidade de Paris. Deixou renome de virtude tanto quanto de ciência. Cf. os testemunhos citados por Wadding, Annales minorum, t. ii, p. 597.
II. Obras. — 1° Sobre a Escritura. — 1. Postilla, ou Postillae perpetuae in Vetus et Novum Testamentum. É o próprio título do autor, segundo Döring: hoc ipsum opus suum Postillam nuncupare decrevit, t. i, f° 21 a. Nicolau de Lyre assinala a data da composição de diversas partes. Comentou o Gênesis em 1322, In Gen., i, 27, t. i, f° 24 a (pontuação defeituosa na edição da Biblia sacra, Anvers, 1634, t. i, col. 34); os salmos e Isaías em 1326, In ps. xxxii, prol.; Is., prol., onde Nicolau diz escrever no ano de 1293 depois da morte de Cristo; portanto em 1326. A postila In Dan., ix, 3-27, foi ultimate correcta em 1328. A que redigiu sobre o Apoc., xiii, 18, é de 1329. Uma bela fórmula de ação de graças e de pedido de orações composta por Nicolau quando acabou os seus comentários é datada de 1330.
Em Baluze, Vitae paparum avenionensium, Paris, 1693, t. i, col. 808. Lemos ali que ele comentou primeiro os livros canônicos, do Gênesis ao Apocalipse, depois os livros deuterocanônicos, começando por Tobias e terminando pelo IIº livro de Esdras (nosso IIIº livro de Esdras, pois ele chama livro de Neemias o atual Iº livro de Esdras). Cf. In Tob., i, 1. Esses comentários deuterocanônicos, mais breves que os outros, são portanto dos anos de 1329 e 1330. Assim como retomara a postila sobre as 70 semanas de Daniel e lhe dera sua forma definitiva em 1328, completou, em 1332, a postila sobre Ezequiel, xl-xlviii. Cf. t. iii, f° 187 b, 188 a. Notemos, enfim, que Nicolau declara que não comentará os prólogos de São Jerônimo sobre os livros da Bíblia, mas que expôs os de alguns livros super quos scripsi antequam a libro Genesis inchoarem, t. i, f° 3 a. Ora, possuímos postilas suas sobre os prólogos hieronimianos de São Lucas, da carta aos Romanos, e mesmo dos outros três evangelistas, se a edição da Biblia sacra, t. v, col. 25, 29, 475, 1001, merece confiança no que diz respeito a São Marcos: ela é confirmada pelo dito de Paulo de Burgos e de Döring, col. 479, 480. Ele se ocupara, pois, desses escritos antes de 1322, ano em que abordou o Gênesis.
2. As Moralitates, ou Moralia, são um comentário místico, alegórico, tropológico e anagógico, da Escritura, mais curto que o precedente. Foi escrito depois de concluído o primeiro, em favor dos lectores Bibliorum ac praedicatores verbi Dei.
3. Tractatus de differentia nostrae translationis ab hebraica littera in Veteri Testamento. Nicolau diz, no prol., que a maior parte dessas observações se encontra nas Postilas, mas que, não tendo os estudantes quase meios de comprar essa obra considerável, compôs para eles este pequeno tratado, que terminou em outubro de 1333. Cf., sobre o valor deste escrito, R. Simon, Critique de la Bibliothèque des auteurs ecclésiastiques par E. Dupin, Paris, 1730, t. i, p. 353-357.
4. Quaestiones Veteris et Novi Testamenti.
2° Apologética antijudaica. — 5. O tratado Contra Judaeos, mencionado por Trithème, De script. eccles., f° 122 a, foi publicado sob títulos diversos. Ver Judeus (Controvérsias com os), t. viii, col. 1890. Nicolau de Lira parece tê-lo intitulado Quaestio de divinitate Christi. Cf. t. i, f° 2 b. Remete ainda a ele a propósito do Cristo profetizado, In Joan., v, 39. Escreveu-o em 1309. Em apêndice às Postillae, Nuremberg, 1497, t. iv, f° 350 b. A data de 1239, dada na edição que está em apêndice à Biblia sacra de Antuérpia, t. vi, col. 1711, é um erro de impressão: a data de 1309 é garantida pelo que precede, col. 1710, onde se diz que se passaram 1235 anos desde a destruição do templo, isto é, desde o ano 74. Cf. In Dan., ix, 23.
Sed postea, conta Nicolau, f° 346 b-347 a, ali onde conclui sua exposição do sentido da palavra Elohim no Gênesis, venit ad manus meas quidam libellus hebraice scriptus ubi praedicta ratio aliter solvitur. Acrescentou ao tratado uma refutação do libellus neste ponto, e diz que omitia ad praesens outras objeções do libellus, quia intendo libellum istum improbare per omnia discurrendo; entretanto, remetia, sobre outro ponto, ao seu comentário da carta aos Hebreus, bem posterior a 1309. Foi, pois, muito tempo depois de 1309 que retomou seu tratado. O escrito anunciado contra o libellus é sem dúvida o seguinte:
6. Tractatulus contra quemdam judaeum ex verbis Evangelii Christum et ejus doctrinam impugnantem. Escrito postquam scripseram super utrumque Testamentum, diz ele, em apêndice à Biblia sacra de Antuérpia, t. vi, col. 1716. Analisa e refuta um libellus de um judeu.
3° Obras inéditas. — 7. Quodlibeta theologica. Na parte da postila sobre Ezequiel que é de 1332, t. iii, f° 187 b-188 a, Nicolau remete à sua Quaestio de quolibet para a refutação dos judeus que dizem que o Cristo anunciado no Antigo Testamento não seria Deus e que ainda não veio.
8. Tractatulus de animae claustro.
9. Tractatus de visione beatifica (por ocasião sem dúvida do debate suscitado por João XXII).
10. Commentarii in quatuor libros Sententiarum.
4° Obras duvidosas. — 11. Contemplatio de vita et gestis sancti Francisci.
12. Praeceptorium, ou De decem praeceptis. É antes de Henrique de Friemar. Cf. Kirchenlexikon, 2ª edic., Friburgo em B., t. v, 1888, p. 13.
13. De idoneo ministrante et suscipiente sacramentum eucharistiae.
14. Praerogativae gloriosae Virginis Mariae.
15. De cura clericali.
16. De arte bene vivendi et bene moriendi.
17. Expositio in hymnos ecclesiasticos.
18. Vários inéditos: De tribus statibus ad perfectionem; Libellus de naturis rerum; Libellus de quibusdam nominibus per alphabetum distinctis; uma concordância dos Evangelhos; cartas, etc. Os Sermones de tempore, de sanctis, de que fala Trithème, De script. eccles., f° 122 a, confundem-se verossimilmente com as Postillae in evangelia et epistolas de tempore et sanctis, que foram extraídas da grande obra.
III. As Postilas. — 1° O cânon das Escrituras. Nicolau é dos que ainda não concedem a mesma autoridade aos livros deuterocanônicos e aos protocanônicos. Os livros canônicos são a palavra de Deus, portanto isentos de erro. In II Tim., iii, 6; II Pet., i, 22; Apoc., prol. Nicolau parece mesmo confundir a inspiração com a revelação, cf. prol. I, De commendatione Scripturae sacrae in generali, t. i, f° 1 a; In Tob., prol.
Os deuterocanônicos têm um valor menor; todavia foram recebidos pela Igreja ut ad morum reformationem in ea legantur. In Tob., prol. Em sua fórmula de ação de graças de 1330, nota que comentou primeiro os livros qui sunt de canone, depois aqueles qui non sunt de canone, afim de que por essa distinção appareat simplicibus qui libri sunt canonici et qui non, et qui majoris auctoritatis et qui minoris. Dos deuterocanônicos morais, a Sabedoria e o Eclesiástico, estima que a Sabedoria tem mais autoridade em razão do autor principal, que é Salomão, pois se a Sabedoria, pensa ele, foi escrita em grego por Fílon, é uma compilação das sentenças salomônicas; o Eclesiástico foi escrito apenas por Jesus, filho de Sirac, sub Deo tamen. In Sap., i, 1; Eccli., i, 1.
Quanto aos deuterocanônicos históricos, Tobias e Judite são «mais reputados que as histórias de Susana e de Bel», In Sap., i, 1; Jerem., xxix, 29; Dan., xiii, 1, xiv, 1, do que as partes deuterocanônicas de Ester, x, 16, que non sunt in hebraeo nec de Scriptura canonica sed magis videntur a Josepho et aliis scriptoribus conficta, In Est., x, 2, mais ainda do que o IIº livro de Esdras (nosso IIIº), que Nicolau junta aos deuterocanônicos, In II Esd., i, 1; Tob., i, 1, assim como a oração de Manassés, t. i, f° 121 a. Os dois livros dos Macabeus, recebidos pela Igreja ad legendum, têm por isso «mais autoridade que Josefo». In I Macch., i, 1. Sobre a questão de saber se há, no IIº dos Macabeus, erros e um verdadeiro desacordo com outras passagens da Escritura, o postilador não se pronuncia: istud tamen majorum judicio derelinquo. In II Macch., ii, 8. A ordem segundo a qual Nicolau de Lira dispõe os livros da Escritura é a de nossa Vulgata, salvo nos pontos seguintes: intercala a oração de Manassés entre Neemias (nosso IIº Esdr.) e nosso IIIº Esd., e nosso IIº Esdr. entre Neemias e Tobias; os Atos dos Apóstolos são colocados entre Hebr. e I Petr. Cf. seu preâmbulo sobre o Apoc., t. iv, f° 320 a.
2° O desígnio de Nicolau de Lira. Num 1º prólogo, De commendatione Scripturae sacrae in generali, Nicolau de Lira diz a sublimidade da Escritura, sua superioridade sobre os livros dos filósofos, e que a Escritura proprie theologia dicitur cum ipsa sola sit textus hujus scientiae. Um 2º prólogo, De intentione auctoris et modo procedendi, é mais pessoal e importante. O grande princípio é que toda exposição mística ou espiritual da Escritura deve apoiar-se sobre o literal. Omnes praesupponunt sensum litteralem tanquam fundamentum... sic expositio mystica discrepans a sensu litterali est reputanda indecens et inepta, vel saltem minus decens, ceteris paribus, et apta. Quem quer que deseje progredir no estudo da Escritura deve, portanto, começar por compreender o sentido literal; só ele, e não o sentido místico, pode fornecer um argumento ad probationem vel declarationem alicujus dubii. Ora, o sentido literal da Escritura foi muito obscurecido em nossos dias, diz ele, em parte pelo vício dos copistas, pela imperícia de certos corretores, em parte por seu desacordo com o original hebraico. Importa, na esteira de São Jerônimo, recorrer aos mss. hebraicos para o Antigo Testamento, ainda que seja preciso tomar cuidado com o fato de que passagens relativas ao Cristo foram alteradas pelos judeus.
Além disso, o sentido literal sofreu da parte dos intérpretes que comumente pouco se preocuparam com ele e o sufocaram, de certo modo, sob suas incontáveis exposições místicas. Querendo remediar esses abusos, Nicolau se propõe insistir no sentido literal; as explicações místicas serão breves e raras. Utilizará não somente os doutores católicos, mas ainda os hebreus, sobretudo o Rabi Salomão Isaki (†1105, comumente chamado Raschi), que, melhor que os outros, contribuiu para esclarecer o sentido literal; para que se saiba em que se tornou a cegueira dos judeus, citará algumas das absurdidades de seus escritores. Nicolau não esquece que pode enganar-se. Por isso declara nada adiantar em termos absolutos a não ser que a coisa tenha sido manifestamente decidida pela própria Escritura ou pela autoridade da Igreja; todo o resto, di-lo tanquam scholastice et per modum exercitii, submetendo-o à correção da Igreja e dos sábios. Seguem-se as sete regras ou «chaves» da interpretação da Escritura segundo Isidoro de Sevilha, Sentent., l. I, c. xix, P. L., t. lxxxiii, col. 581-586, com modificações. A propósito da Bíblia, concede para certas passagens um duplo sentido literal. Assim I Par., xvii, 13, aplica-se, no sentido literal, imperfeitamente a Salomão, perfeitamente ao Cristo; embora um e outro sentido sejam literais, o segundo, enquanto Salomão é a figura do Cristo, pode ser dito espiritual e místico.
3° As fontes. — 1. Os judeus. A escolha do R. Salomão Raschi foi um verdadeiro êxito, apesar do que disse Paulo de Burgos, que preferia R. Moisés o Egípcio (Maimônides), R. Moisés de Girona (Nahmânides), R. Abenhazra, etc., t. i, f° 18, cf. 20 b. Era Nicolau de Lira quem tinha razão. Raschi, «o primeiro e o mais útil comentador do Talmude, no juízo de L. Wogue, Histoire de la Bible et de l'exégèse biblique, Paris, 1881, p. 251, foi também o mais amado dos intérpretes da Escritura. Seu comentário sobre a Bíblia, e notadamente o do Pentateuco, é ainda hoje, quase por toda parte, a base dos estudos sagrados em Israel». Pretendeu-se que Nicolau conhecia medianamente o hebraico e a interpretação rabínica da Bíblia. Um juiz tão bom quanto Neumann, Revue des études juives, Paris, 1893, t. xxvi, p. 179, não receou dizer, ao contrário, que Nicolau «era não somente capaz de utilizar com independência o targum, o midrasch e as obras hebraicas posteriores, mas que estava familiarizado até certo ponto com a literatura midráschica». O postilador cita Maimônides, R. Moisés Hadarsan (Darschan), R. Joden, etc. Consulta os mss. hebraicos: para saber se o sl. xxxii, que não tem título, é distinto do sl. xxxi, interroga três Bíblias hebraicas e três livros hebraicos publicados sobre os salmos, t. ii, f° 130 b. Não se ocupa muito de gramática hebraica, dado o seu objetivo, que é explicar em latim a Bíblia para os que sabem latim; mas, na ocasião, apresenta observações gramaticais que lhe servem para melhorar o texto. Cf. Neumann, p. 171-176.
2. Os latinos. Nicolau de Lira cita frequentemente os autores latinos eclesiásticos, sobretudo os santos Jerônimo, Agostinho, Gregório. Jerônimo tem as suas preferências, In ps. i, 1. O alegorismo de Santo Agostinho pouco lhe agrada; lança resolutamente ao mar a interpretação idealista dos seis dias da criação, porque nimis longinqua a litterali sensu. In Gen., i, 1. Da alta Idade Média cita Santo Isidoro de Sevilha, Rabano Mauro, Haimão, a glosa de Valafrido, sem razão evidentemente, é através dela e de coletâneas conhecidas, como os Deflorationum, que conhece certos autores. Dos tempos mais próximos, utiliza Pedro Lombardo, Guilherme de Paris, Ricardo de São Vítor, Alberto Magno, Hugo de Saint-Cher e esse Hugo commentator, In S. Joa., proaem., que não é Hugo de Saint-Cher, como se poderia crer, mas Hugo de São Vítor, Comment. in Hierarch. coelest. S. Dyonisii, l. VI, P. L., t. clxxv, col. 1038, São Boaventura, Raimundo Martini, etc. Menciona escritores que permaneceram obscuros: tais como Girard de Prunio, In Ezech., xl, 1, e esse outro frade menor, seu contemporâneo, que expôs valde sufficienter, quod opus habetur communiter, os prólogos de São Jerônimo sobre os livros da Bíblia, IIº prol., t. i, f° 3 a; trata-se de um Guilherme (ou Guibert, se for o mesmo: do comentário de que é autor sobre o prólogo do Apocalipse, t. iv, f° 320 b) Brito (†1356), cujo comentário sobre os prólogos hieronimianos foi inserido em certas edições das Postilas, como a de Nuremberg (1497).
Nicolau de Lira deve muito a São Tomás de Aquino, sobretudo em seus comentários de Jó, de Isaías, de São João, de São Paulo. Paulo de Burgos censurou-o por combater erradamente São Tomás, às vezes expressamente, às vezes tacitamente. Interessante seria o estudo das críticas e dos empréstimos do postilador. Constatar-se-ia que, se nomeia pouco São Tomás conforme os costumes de seu tempo, em regra geral só se afasta dele para aproximar-se mais do sentido literal — que São Tomás, aliás, tinha em alta estima — e que o faz sem parti pris, com verdadeiro respeito pelo Doutor angélico; assim, In Job, proaem., onde diz que Tomás hunc librum exposuit eleganter, e propõe uma maneira de ver diferente da sua, mas salvo meliori judicio. Com os teólogos e os comentadores da Escritura, Nicolau cita os cronistas, sobretudo na postila sobre o Apocalipse: Guilherme o Bretão, Pedro Comestor, Hugo de Fleury, Sigeberto de Gembloux, Helinando, Vicente de Beauvais, Guilherme de Tiro, Tiago de Vitry, etc., e certo número de apócrifos. Ou ainda, invoca o testemunho oral de um companheiro de São Luís na cruzada e de um bispo franciscano que residiu vários anos entre os tártaros. In Matth., xxvii, 29; Ap., xiii, 18.
3. As fontes caldeias, árabes e gregas. Das fontes caldeias e árabes, Nicolau parece não ter outro conhecimento senão o que deve ao Pugio fidei de Raimundo Martini, que nomeia algumas vezes e que utiliza mais frequentemente sem o dizer. Inútil acrescentar que cita Averróis segundo a tradução latina. Não parece ter conhecido o grego. Non sum ita peritus in lingua hebraica vel latina quin in multis possim deficere, diz ele modestamente, t. i, f° 3 a; o silêncio que guarda sobre o grego equivale a uma confissão de ignorância dessa língua. O uso que faz e, mais ainda, o que não faz do texto grego do Novo Testamento confirmam esta conclusão. Grande número de suas etimologias gregas são defeituosas. Faz vir phylacteria de philare quod est servare e lota quod est lex, Matth., xxiii, 5; aporiamur de poros graece quod pauper enim est latine, II Cor., iv, 8; sobrii de bria, bria graece mensura dicitur latine, II Cor., v, 13; scenopegia de scenos quod est umbraculum e phagin quod est comedere, Joan., vii, 2, etc. Suas interpretações gregas, felizes ou inexatas, são empréstimos; essas duas últimas etimologias leem-se em São Tomás. Conhece por traduções os autores pagãos e os Padres gregos. Entre estes últimos, alega de bom grado São João Crisóstomo. Entre os pagãos, Aristóteles é «o filósofo» por excelência, In ps. xviii, 15; mas a admiração que lhe consagra não é sem reservas. In pluribus deviavit a veritate, sicut patet de mundi aeternitate, de intelligentiarum numero et earum felicitate, quorum prosecutionem causa brevitatis omitto, diz ele In Joan., i, 8, cf. In Tit., i, 1, eco das condenações de Aristóteles pela Universidade de Paris. Cf. Paulo de Burgos e Döring, t. iv, f° 116, 242 b.
4° A execução. «Pode-se dar-lhe este elogio: que, desde São Jerônimo, nenhum autor pode ser-lhe comparado no que toca ao sentido literal do Antigo Testamento; excetuo, contudo, certas passagens em que seguiu demais as falsas ideias de seu R. Salomão. Pode-se ainda dizer em seu louvor que aqueles que vieram depois dele o copiaram e que só falaram depois dele.» Assim se exprime R. Simon, Critique de... Dupin, t. i, p. 353; cf. sua Histoire critique du Vieux Testament, Roterdã, 1685, p. 415. Nicolau de Lira excele, com efeito, na determinação do sentido literal. Apega-se a ele; mal algumas rápidas exposições místicas, nenhuma ou poucas questões vãs e inconsistentes. Penetra-o, frequentemente ao menos. Ao mesmo tempo que literal, seu comentário é nítido e breve. Onde o sentido literal é claro, passa depressa, qualquer que seja a importância, dogmática ou moral, da matéria, por exemplo quando se trata do decálogo; por essa razão, detém-se menos do que nos outros nos escritos históricos. A crítica textual limita-se, onde o hebraico e o latim diferem, a esclarecer este por aquele. Quando o sentido literal é obscuro, contestável, quando os judeus o desnaturaram, o comentário é mais longo; é o caso dos textos que profetizam o Cristo: Gênesis, Isaías, salmos, etc. Sobre as 70 semanas de Daniel e os últimos capítulos de Ezequiel, desenvolve-se com amplitude excepcional.
Em que medida Nicolau é devedor dos rabinos judeus? «Raschi e os tosafistas fizeram Nicolau de Lira», diz Renan, Histoire littéraire de la France, Paris, 1877, t. xxvii, p. 434. E Grätz, Histoire des juifs, trad. Bloch, Paris, 1897, t. v, p. 14: «Se, nos escritos de Nicolau de Lira, o melhor comentador cristão da Bíblia, se subtraem os empréstimos feitos a Raschi, pode-se reduzir toda a sua obra pessoal a algumas páginas.» A exageração é gritante. Nicolau nada deve a Raschi quanto ao Novo Testamento. Quanto ao Antigo, não o segue às cegas. Discute-o, corrige-o, acrescenta-lhe, aproveitando os progressos realizados durante os dois séculos que dele o separam. É o que ressalta da comparação estabelecida por Neumann entre o comentário dos salmos de Raschi e o de Nicolau. «Nicolau de Lira, diz ele, dá provas de espírito crítico, e mostra que possui as qualidades necessárias para a sã interpretação de um texto.» Utiliza «com independência»
Raschi e a literatura rabínica posterior; «soube servir-se com inteligência e habilidade dos elementos agádicos fornecidos por essa literatura». Se está, «de certo modo, impregnado do espírito do comentador judeu, seu trabalho apresenta certas vantagens sobre o de Raschi: não tem sua completa falta de clareza, testemunha um senso histórico em grau mais elevado». Revue des études juives, Paris, 1893, t. xxvi, p. 176, 178; t. xxvii, p. 261, 262. Com isso, acontece-lhe confiar demais nos judeus e, embora esteja resolvido a suprimir o que eles misturam de frívolo às suas exposições, cf. In Gen., xviii, 1, toma-lhes emprestadas coisas inúteis ou inaceitáveis, por exemplo quando faz de Agar a filha do rei do Egito, Gen., xvi, 1, ou quando vê nos três viri stantes de Gen., xviii, 2, 4, os arcanjos Gabriel, Rafael e Miguel, este no meio daqueles porque superior a eles.
Seria fácil assinalar outras imperfeições nas Postilas. O autor não conseguiu deslindar a noção do sentido literal e do sentido espiritual ou típico. Quando comenta o Apocalipse, se escapa ao contágio da crença no fim próximo do mundo, descobre nos dezesseis primeiros capítulos toda a história da Igreja até as cruzadas; embora acabe por reconhecer, salvo meliori judicio, que a exposição segundo a qual os acontecimentos anunciados, c. xvii-xx, já estão cumpridos, impropria videtur in pluribus et extorta, não diz rejeitar essa exposição, e, admitindo-a, aplicaria o versículo sobre o anjo que desce do céu, xx, 1, ao papa Inocêncio III aprovando frades menores e frades pregadores, per quorum doctrinam et praedicationem Ecclesia est quodam modo renovata. «Filho de seu tempo», como o chama R. Schmid, Protest. Realenc., t. xii, p. 30, divide e subdivide em excesso, por vezes é bem sutil, propõe etimologias fantasiosas, não somente gregas mas ainda latinas. Seus conhecimentos de astronomia, de física, de geografia são os de seus contemporâneos; não deixa de colocar Jerusalém no centro da terra habitável. Ps. xviii; Matth., xxiv, 14; Rom., x, 18.
Sobre a história de alguns livros da Bíblia, tem clarividências e passável ignorância. Sustenta com justiça que nem todos os salmos são de Davi e sua discussão da origem paulina da Epístola aos Hebreus, t. iv, f° 246 b, é interessante, embora não irrepreensível: segundo ele, a diferença de estilo entre essa carta e as outras de São Paulo vem de que é a única que Paulo redigiu em hebraico, et ideo loquitur magis ornate.
5° A teologia. As Postilas não são uma obra de teologia bíblica. Mas a teologia só pode beneficiar-se dos progressos do sentido literal. Todos os detalhes do argumento teológico, tal como Nicolau de Lira o esboça um pouco por toda parte, não seriam aceitos pelo teólogo e pelo exegeta modernos; incontestavelmente ele o aperfeiçoou, nas Postilas ainda mais do que nos dois tratados antijudaicos. Conhecem-se os textos do Antigo Testamento empregados por uma multidão de teólogos e de controversistas para estabelecer o dogma da Trindade. O próprio Nicolau fez deles algum uso nos tratados contra os judeus; insistiu notadamente na palavra Elohim.
Nas Postilas, nenhuma alusão à Trindade quando encontra a palavra Elohim e esses outros textos tornados clássicos na matéria: Gen., i, 1, 2; xi, 7; xviii, 2; Num., xxxii, 6; Ps., ciii, 29-30; Eccli., iv, 13; mas retém, como designando a Trindade, Gen., i, 26; Is., vi, 1-9. As Postilas contêm úteis contribuições para a história dos dogmas. Sobre a eucaristia, o só comentário de Joan., vi, encerra o que segue: a presença real, non tantummodo sicut in signo ut dixerunt aliqui haeretici, sed realiter et figurative; a missa, seus efeitos para o celebrante, o comungante, todos os fiéis, o purgatório; a necessidade da comunhão, mas não para as crianças como pretendem os gregos; a condenação do utraquismo. No comentário de I Cor., xi, encontramos a transubstanciação, sem a palavra mas com as fórmulas: accidentibus remanentibus, non remanentibus speciebus; a afirmação de que esse sacramento é feito subito in fine prolationis verborum, in consecratione materiae non in usu ipsius; de que as consagrações do pão e do vinho não se esperam mutuamente, ut dixerunt aliqui, mas que desde a consagração do pão o Cristo está na hóstia; de que a consagração tem lugar solis verbis quibus utitur Ecclesia ex traditione apostolorum instructa e não, como disseram certos, por quaisquer palavras dadas na narrativa de São Paulo e dos evangelistas e inseridas no cânon; de que os pecadores, embora certos digam o contrário, não devem comungar; de que a comunhão frequente, melhor em si, deve ser recomendada se aumenta o fervor e a resistência ao mal, caso contrário não, etc.
Cumpre assinalar ainda, entre outros, diversos textos sobre a ciência experimental do Cristo, Luc, ii, 52; os irmãos do Senhor, Joa., ii, 12; o dia da ceia, Matth., xxvi, 17; Joa., xiii, 38; o suor de sangue, Luc, xxii, 44; a imaculada conceição de Maria, Luc, i, 35; sua assunção e, segundo certos autores, a de São João, Is., xxvi, 2; Joa., xiv, 3; xxi, 22; o super hanc petram entendido do Cristo, Matth., xvi, 18; a noção do pecado original, Rom., v, 21; a visão beatífica não retardada após o juízo final como disseram alguns «hereges», In Joa., xiv, 3, etc. A frase da postila sobre Eccli., xlii, 14, citada por T. Kolde, P. Denifle, seine Beschimpfung Luthers und der evangelischen Kirche, 1904, para provar a tese do desprezo da mulher na Idade Média, não tem o sentido que Kolde lhe empresta. Cf. H. Denifle, Luther et le luthéranisme, trad. J. Paquier, Paris, 1910, t. i, p. xlviii, xlix.
IV. Influência. — 1° A controvérsia Paulo de Burgos-Döring-Deza. Paulo de Santa Maria, anteriormente R. Salomão Levi ou Hallévi, nascido por volta de 1350 em Burgos, batizado em 1390 ou 1391, bispo de Cartagena (1403), depois de Burgos (1415), donde o nome de Burgensis pelo qual é designado, escreveu, para seu filho Afonso, deão de Compostela, Additiones ad Postillam magistri Nicolai de Lyra, que havia lido duas vezes e que julgava solemnissima et miranda copiositate scriptam, mas imperfeita como tudo o que é humano. Em seu parecer, o autor errava em abandonar por vezes as exposições dos santos, as de São Tomás em particular, e em substituí-las pelas suas ou pelas dos doutores judeus, notadamente de Raschi, preferido indevidamente a outros judeus mais autorizados. De resto, propunha suas observações com modéstia e submetia-as determinationi sacrosanctae matris Ecclesiae et cujusque melius sentientis, t. i, f° 16-18. Em resposta à carta de um frade menor que defendeu Nicolau de Lira, f° 19 a, Paulo manteve suas críticas; louvava Nicolau por seu estilo plane et suavi, sua intenção reta, seu vasto trabalho prosseguido pro majori parte recte, mas continuava a ver nele insuficiências inevitáveis, e declarava não segui-lo sempre mas seguir antes os antigos, f° 19, 20.
As Additiones foram publicadas ao menos em duas partes, a primeira em 1429, a segunda em 1431, t. i, f° 16 a; t. iv, f° 336 b. As Additiones são em número de cerca de 1100. Há poucas sobre certos livros: Esdras, Tobias, Ester, os livros sapienciais, etc.; muitas sobre outros: Gênesis, Salmos, etc., e por vezes muito longas. Paulo de Burgos apresenta certas observações úteis, dado o seu conhecimento da Escritura, do hebraico, dos livros rabínicos, embora nem sempre seja exato no que relata destes últimos. Apega-se aos antigos doutores, mas conhece também os recentes. Insere quase por inteiro, por exemplo sobre as Lamentações, o comentário do franciscano Pedro Auriol (Aureolus, †1322), In quaedam compendio sacrae Scripturae qui, diz ele, não era comum, t. iii, f° 127 b-129; é o Breviarium Bibliorum seu Epitome S. Scripturae juxta sensum litteralem. Mas, no conjunto, Paulo de Burgos fica atrás de Nicolau de Lira. Rabiniza em demasia. Apega-se a um literalismo verbal que se afasta do verdadeiro sentido literal; por exemplo, In Gen., iii, 14, quer que se guarde como literal a explicação segundo a qual antea cum pedibus altis incedebat sicut et alia animalia, et, post hujusmodi sententiam, pedes sunt ei amoti sicut nunc potest incedere nisi reptando. Mantém o mais das vezes opiniões justamente abandonadas por Nicolau: que Davi é o autor de todos os salmos, o que Nicolau prova, In ps. i; Gen., i, 1-2; a pluralidade das pessoas em Deus; que Zacarias era sumo sacerdote, Luc, i, 9, etc. Depois, dir-se-ia que Paulo não apreendeu o ponto de vista de Nicolau, que pretendia comentar a Escritura literalmente e brevemente. Onde Nicolau anunciava simplesmente postilas, ele lhe guarda rancor por não oferecer tratados teológicos, cum tamen propositum postillatoris, replica muito bem Döring, In Ex., xx, non fuerit summas neque tractatus scribere sed plane litteralem sensum inquirere.
Um frade menor, Matias Döring (†1469, seu nome é ainda escrito Dorinck, Döringk, Thoring e Dornic), ministro da província da Saxônia, opôs às Additiones de Paulo de Burgos, que chamava non additiones sed corruptiones, corruptorium, calumniae corruptoriae, Replicae, que qualificou de correctorium corruptorii, t. i, f° 21 a. As Replicae são em número de cerca de 400; Döring nem sempre responde às Additiones, porque as julga frequentemente fúteis ou fora da questão.
Toma a defesa de Nicolau de Lira em toda a linha, ordinariamente com razão, e tem razão em manter o verdadeiro sentido literal contra o rabinismo de Paulo de Burgos. Mas seus argumentos nem sempre são sólidos: muita teologia antitomista se mistura à sua polêmica escriturística, ignora o hebraico, cf. t. iii, f° 80 b, 85 a; t. iv, f° 199 a, etc.; entrega-se a violências de linguagem que contrastam desagradavelmente com o tom de Nicolau de Lira e de Paulo de Burgos: replica contra Burgensem vanum, fictorem, cavillantem, fabulosum, mendacem, rabulam, calumniatorem, judaizantem, hassitam, semihereticum, delirum, videtur Burgensis prae senecta delirare, etc., t. i, f° 38 b, 39 b, 43 a, 44 a, 47 b, 53 a, 62 a, 76 b, etc. O dominicano Diego Deza, arcebispo de Sevilha (†1523), escreveu o Defensorium doctoris angelici S. Thomae contra invectivas Matthiae Dorinck, Sevilha, 1491. Cf. Kirchenlexikon, 2ª edic., Friburgo em B., t. iii, 1884, col. 1660. Com ele, a controvérsia escriturística torna-se principalmente teológica.
2° O sucesso de Nicolau de Lira. Foi vivo. Paulo de Burgos já o constatava; previa o descontentamento que as Additiones suscitariam e assinalava a difusão das Postilas: haec enim Postilla, saltem in his partibus Hispaniae et, ut credo, Galliae, communior est ceteris citra glosam ordinariam, ad istam enim recurrunt non solum theologi sed etiam juristae et alii intellectum Sacrae Scripturae planum habere desiderantes. Addit. sup. utrumque prol., 1, f° 18 a. Os próprios infiéis, acrescenta, recorrem por vezes a essa Postila, et multoties non ut discant sed potius ut reprehendant. O grande número de mss. das Postilas e das edições que se sucederam desde os primeiros tempos da imprensa prova que a voga não diminuiu. Houve aqui e ali reservas além das que dissemos. O Index in omnia opera de Afonso Tostado (†1455), Veneza, 1595, t. ii, p. 95-100, destaca passagens das Obras em que o bispo de Ávila contradiz Nicolau de Lira. Dionísio o Cartuxo (†1471) utiliza frequentemente o postilador e, em geral, nomeia-o quando está de acordo com ele e designa-o pela palavra quidam quando o combate. Cita também Paulo de Burgos, a quem chama assaz bizarramente R. Paulus, e, se habitualmente está antes com Nicolau do que com Paulo, acontece-lhe contudo dar a preferência a Paulo. Ver as tábuas de seus comentários sobre a Escritura nas Opera omnia, Montreuil-sur-Mer, 1896-1906, t. i-xiii; as do Dialogion de fide catholica, t. xviii, etc.
As críticas foram excepcionais. Biblistas, teólogos, controversistas, sermonários, autores piedosos exaltaram à porfia aquele que N. Glassberger, Chron., prol., nos Analecta franciscana, Quaracchi, 1887, t. ii, p. 3, 146, chamava celeberrimus sacrae theologiae doctor e inscrevia entre os magni clerici da ordem franciscana. Trithème, De script. eccles., f° 121 a, censurava vigorosamente os que desprezavam a simplicidade de sua linguagem, e dizia de seus escritos sobre a Bíblia que ninguém o sabia melhor do que aqueles que se haviam exercitado em sua leitura, quam necessaria utiliaque sint omnibus Sacram Scripturam discere cupientibus. Eysengrein, Catalogus testium veritatis, Dillingen, 1565, f° 130 b, dizia: ita vixit ut nostra tempora vix parem habuerit, nedum superiorem, vel sanctitate vitae vel doctrina et scriptis. Reisch, Margarita philosophica, Estrasburgo, 1508, citava como corrente este proverbium inter theologos: Nisi Lyra non lyrasset nemo doctorum Bibliam saltasset, tornado em seguida: Si Lyra non lyrasset mundus totus delirasset, ou: Si Lyra non lyrasset Ecclesia Dei non saltasset, ou em alemão: Hätte Lyra nicht die Bibel geschrieben, wäre mancher Doctor ein Esel geblieben. Cf. P. Feret, La Faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres, Moyen Age, t. iii, p. 338; Hurter, Nomenclator, 3ª edic., t. iv, col. 457; H. Grisar, Luther, Friburgo em B., 1912, t. i, p. 454. Enfim, Nicolau de Lira recebia de seus admiradores, como se repete, não o título de doctor planus et utilis, mas os de doctor planus ou de doctor utilis: doctor planus alias utilis vocitatus, diz Villot, Athenæ orthodoxorum sodalitii franciscani, Liège, 1598, citado por Wadding, Annales minorum, t. ii, p. 597.
3° Nicolau de Lira e Lutero. Renan, cuja frase sobre Raschi e Nicolau de Lira reproduzimos, acrescenta, Histoire littéraire de la France, t. xxvii, p. 434: «Nicolau de Lira fez Lutero.» Alega-se frequentemente o dito: Si Lyra non lyrasset Lutherus non saltasset, para qualificar o postilador de ancestral de Lutero e de precursor do protestantismo. Ora, o dito Si Lyra non lyrasset Lutherus non saltasset, vindo depois de Nisi Lyra nemo doctorum in Bibliam lyrasset saltasset usual entre os teólogos, significava somente que Lutero, à semelhança de todos os doutos em Escritura, devia em boa parte a Nicolau de Lira seus conhecimentos escriturísticos. Entendido desse modo, o dito era exato. Cf. E. Nestlé, Protest. Realenc., 3ª edic., 1897, t. iii, p. 72. Mas é falso que Lutero, enquanto iniciador da Reforma, se inspire em Nicolau de Lira. Nenhuma doutrina especificamente luterana no autor das Postilas. A maneira de ver sobre os livros deuterocanônicos, pela qual se aproximam, era a de grande número de escritores da Idade Média. Nicolau de Lira é um puro escolástico. É estranho ao subjetivismo de Lutero na interpretação do texto sagrado; nada de sua doutrina da fé e da justificação, mas antes o contrário. Assim, quando Lutero, desde 1516, afirmava que «a falaciosa metafísica de Aristóteles e a filosofia segundo a tradição humana enganaram nossos teólogos», havia tido o cuidado de indicar previamente quais eram esses teólogos e dissera simplesmente: «Lira e os outros.» Visava com ele toda a escola escolástica. Cf. H. Denifle, Luther et le luthéranisme, trad. J. Paquier, Paris, 1912, t. i, p. 102, 103. Não, Lutero e Nicolau de Lira não são da mesma família. Se há um mestre das ciências bíblicas em quem Nicolau de Lira faz pensar, é Richard Simon; foi, tanto quanto se podia sê-lo em seu tempo, um Richard Simon, mas um Richard Simon teologicamente mais seguro que o outro.
I. Obras. Sobre as numerosas edições de Nicolau de Lira, ver J. Le Long, Bibliotheca sacra, edição A.-G. Masch, Halle, 1785, t. iii, p. 358-392; L. Hain, Repertorium bibliographicum, Stuttgart, 1826-1838, t. ii, n. 3163-3172, n. 10 363-10 108; Copinger, Supplement to Hain, Londres, 1895, t. i, n. 10 363-10 408, t. ii a, n. 3710-3727.
1° Trabalhos sobre a Escritura. — 1. Edições, sem texto da Bíblia, das Postillae somente e das Moralitates somente, s. n. d.; Colônia, 1478, etc.; das Postillae e das Moralitates reunidas, Roma, 1471-1472, 5 vol., in-fol., etc. 2. Edições, com texto latino da Bíblia: a) das Postillae, sem as Additiones e as Replicae, Veneza, 1482, etc.; b) com as Additiones e as Replicae, Nuremberg, 1481, 1485, 1487, 1493, 1497 (é a edição que citamos), etc.; c) com, além disso, a glosa ordinária, Veneza, 1485, 1489, Nuremberg, 1487, etc.; d) com, além disso, as Moralitates, Basileia, 1498, etc.; e) com, além disso, a glosa interlinear, Veneza, 1588, Paris, 1588, etc. A edição que Hoberg, Kirchenlexikon, t. ix, col. 327, diz ser a melhor é a dos teólogos de Douai (1617), revista e completada pelo beneditino Leandro de Saint-Martin, intitulada Biblia sacra cum glossa ordinaria... et Postilla Nicolai Lirani : necnon Additionibus Pauli Burgensis et Matthiae Thoringi Replicis, Antuérpia, 1634, 6 vol. in-fol. Contém também a glosa interlinear não mencionada no título. Há erros de impressão e supressões nessa edição: que a edição de Nuremberg, em que Nicolau, t. i, f° 3 a, diz que os prólogos de São Jerônimo foram comentados por um religioso de sua ordem, as injúrias de Döring dirigidas a Paulo de Burgos, etc.; f) das Additiones somente com as Replicae, Veneza, 1483; g) pode-se acrescentar P. Mollenbecke, Repertorium zum Nachschlagen in der Postille, Colônia, 1480; o Repertorium in Postillas Nicolai de Lyra super Vetus et Novum Testamentum, Nuremberg, 1494. 3. Edições parciais das Postillae: Antigo Testamento somente, Mogúncia, 1484; Novo Testamento somente, Mântua, 1477; os salmos, Lião, 1500; as epístolas e os evangelhos da quaresma, Veneza, 1494; as epístolas e os evangelhos do tempo e dos santos, s. l., 1481; São Paulo, Mântua, 1478; o Apocalipse, s. l. ii. d., etc. 4. Traduções das Postillae: a) em francês, da exposição do saltério, Paris, por volta de 1490; das epístolas e evangelhos do domingo e das festas solenes, Paris, 1490; das epístolas e dos evangelhos de todo o ano, Paris, 1511-1512, 5 vol. in-fol.; b) em alemão, dos salmos; Neumann, Revue des études juives, 1893, t. xxvi, p. 173, n. 1, assinala, entre outras, uma tradução de 1456; c) em italiano, do Apocalipse, Roma, por volta de 1468-1470, etc. 5. Tractatus de differentia, Ruão, s. d. (sob Sisto IV); das Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, Ruão, s. d.
2° Tratados de apologética antijudaica. Numerosas edições, sob títulos diversos, sobretudo do primeiro tratado, em apêndice às Postillae; por exemplo, o primeiro na edição de Nuremberg, 1497, t. iv, fol. 346-351, e na Biblia sacra de Antuérpia, 1634, t. vi, col. 1695-1716; o segundo, ibid., col. 1716-1730.
3° Obras duvidosas. A Contemplatio de vita et gestis S. Francisci, edição Wadding, Antuérpia, 1623; o Praeceptorium, Colônia, 1505, e na Biblia sacra, t. vi, col. 1737-1787; o De idoneo ministrante, s. l. ii. d.; Colônia, s. d., e, sob o título De corpore Christi, Paris, 1513; as Praerogativae gloriosae Virginis Mariae, Lião, 1500, em apêndice às Postillae super psalterium; o De cura clericali, Paris, 1513; o De arte bene vivendi, Paris, 1517; a Expositio in hymnos, Lião, 1520, em apêndice às Postillae super psalterium.
II. Trabalhos. Trithème, De scriptoribus ecclesiasticis, Paris, 1512, f° 121, 122; L. Wadding, Annales minorum, Lião, 1628-1636, t. ii, p. 596, 597; t. iii, p. 468, 469; Scriptores ordinis minorum, Roma, 1650, p. 265-267; J.-A. Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, Hamburgo, 1736, t. v, p. 348-362; J.-H. Sbaralea, Supplementum et castigatio ad Scriptores ord. S. Francisci a Waddingo aliisve descriptos, Roma, 1806, p. 557-559, 731; Nicolaus von Lyra und seine Stellung in der mittelalterlichen Schrifterklärung, em Der Katholik, Mogúncia, 1859, t. ii, p. 934-954; Siegfried, Raschi's Einfluss auf Nicolaus von Lyra und Luther, em Archiv für wissensch. Erforschung des A. T., 1870, t. i, p. 428-456, t. ii, p. 39-65; M. Fischer, Des Nicolaus de Lyra's Postillae perpetuae in V. et N. Test. in ihrem eigenthümlichen Unterschiede von der gleichzeitigen Schriftauslegung, em Zeitschrift für protestantische Theologie, 1881, t. xv, p. 432 sq.; Maschkowski, Raschi's Einfluss auf Nicolaus von Lyra in der Auslegung des Exodus, em Zeitschrift für alttestamentliche Wissenschaft, 1891, t. xi, p. 268-316; Neumann, Influence de Raschi et d'autres commentateurs juifs sur les Postillae perpetuae de Nicolas de Lyre, em Revue des études juives, Paris, 1893, t. xxvi, p. 172-182; t. xxvii, p. 250-262; R. Cornély, Introductio in utriusque Testamenti libros sacros, Paris, 1894, t. i, p. 684-686; Hoberg, em Kirchenlexikon, 2ª edic., Friburgo em B., t. i, 1895, col. 321-329; J. Viard, Date de la mort de Nicolas de Lyre, em Bibliothèque de l'École des chartes, Paris, 1895, t. lvi, p. 141-143; P. Feret, La Faculté de théologie de Paris, Moyen Age, Paris, 1896, t. iii, p. 331-338; R. Schmid, Protest. Realencyklopädie, 3ª edic., t. xii, 1903, p. 30-32.
F. Vernet.
Autor original: F. Vernet
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