LULLE (RAIMUNDO, BEM-AVENTURADO)

LULLE (RAIMUNDO, BEM-AVENTURADO)

LULLE Raimundo (O bem-aventurado), fecundo escritor, apelidado o Doutor iluminado (1235-1316). I. Vida. — II. Escritos (col. 1088). III. Doutrinas (col. 1112). IV. A lembrança de Raimundo Lulle (col. 1134).

I. Vida. — A vida de Raimundo Lulle é conhecida principalmente pela Vida coetânea, cujo texto catalão, conservado no British Museum, ms. add. 16 432, 25, foi editado pelo Sr. Salvador Bové no Boletin de la Real academia de buenas Letras de Barcelona, Barcelona, 1915, t. xv, p. 89-101, e reproduzido no Bolleti de la Societat Arqueologica Luliana (B.A.L.), Palma, 1915, t. xv, p. 349-357. O texto latino, ligeiramente divergente, e do qual falta uma edição crítica, encontra-se nos Acta Sanctorum, junho, t. v, Antuérpia, 1709, p. 660-668, sob o seguinte título: Vita ab anonymo cœvà scripta, ipso Beato adhuc superstite; encontra-se também no cod. Vat. lat. 10 275, f° 27, no ms. lat. 15 450 da Biblioteca Nacional de Paris e no cod. lat. 10 561, f° 1 da Biblioteca do Estado de Munique. Ives Salzinger reimprimiu essa Vida no primeiro volume de sua grande edição luliana, Raymundi Lulli opera, 8 vol. Mogúncia, 1721-1742. O documento se interrompe no ano de 1311, cerca de cinco anos antes da morte de Raimundo Lulle. Sua alta antiguidade, solidamente estabelecida pelo P. Custurer, S. J., numa carta ao P. Sollier, Acta Sanct., p. 640-643, foi geralmente aceita pelos críticos. Recentemente, porém, o P. Miguel Bihl, O. F. M., julgou dever afirmar « que não é permitido concluir que a Vida escrita pelo anônimo seja uma vida contemporânea do B. Lulle ». Le B. Raymond Lulle, Études bibliographiques, dans Études franciscaines, 1906, t. xv, p. 343; mas suas dúvidas foram definitivamente resolvidas pelo P. Keicher, O. F. M., Raymundus Lullus und seine Stellung zur arabischen Philosophie dans Beiträge zur Gesch. der Phil. des M.-A., t. vii, fasc. 4-5, Münster, 1909, p. 8-12. O texto latino da vida se encontra, com efeito, no ms. lat. 15 450 da Biblioteca Nacional de Paris, legado à Sorbonne em 1336 pelo célebre discípulo de Raimundo Lulle, Tomás le Myésier, cônego de Arras. O relato remonta muito provavelmente a 1311. J. Rubió y Balaguer, Ramon Lull, em Enciclopedia universal, Barcelona, 1924, t. xlix, p. 551. Vários escritores, J. Rubió, Custurer, crêem que o texto latino representa o documento primitivo; outros, ao contrário, entre os quais o P. Ant. Pasqual, O. C., em sua monumental obra, Vindiciæ Lullianæ, 4 vol., Avinhão, 1778, t. i, p. 4, consideram-no uma versão do original catalão. Este último parecer nos parece mais verossímil.

O relato da Vida é corroborado pelas miniaturas do ms. Saint-Pierre, 92, século XIV, da Biblioteca de Karlsruhe, assinalado primeiramente por W. Branbach, Des Raimundus Lullus Leben und Werke, in Bildern des XIV Jahrhunderts, Karlsruhe, 1893, depois estudado recentemente por J. Rubio, El Breviculum i les miniatures de la vida d'En Ramon Lull de la biblioteca de Karlsruhe dans Bulletí de la biblioteca de Catalunya, Barcelona, 1916, t. iii, p. 73-88. Dessas doze miniaturas, sete ilustram episódios da vida de Raimundo Lulle, tais como são narrados na Vida. Quase tanto quanto a Vida, os escritos de Raimundo Lulle encerram numerosos elementos biográficos. Seus explicit, sobretudo a partir de 1285, permitem traçar em parte seu itinerário; infelizmente as datas diferentes que trazem nos mss. deixam muitas vezes pairar graves incertezas. As obras puramente literárias e místicas, as poesias do célebre maiorquino contêm também grande número de dados que ilustram particularmente a fisionomia moral de Raimundo Lulle, pois Blanquerna e o Amigo, os dois grandes personagens que aparecem nesses escritos, não são senão personificações do próprio Raimundo. Rubió y Lluch, A. En Ramon Lull. Sumari d'unes lliçons en els Estudis Universitaris Catalans, extrait des Estudis Universitaris Catalans, Barcelona, 1911. O Sr. Llorenç Riber utilizou especialmente esta última espécie de informações em sua obra recente, Vida i actes del Revèrent mestre benaventurat màrtir Ramon Lull, Palma, 1916.

As fontes posteriores merecem apenas uma menção rápida, pois não são senão paráfrases, por vezes embelezadas, da Vida primitiva. A mais antiga é a Epistola in vitam Raimundi Lulli, eremitæ, de Carlos de Bouvelles, escrita em Amiens em 1511 e da qual uma reedição se encontra nos Acta Sanct., p. 668-673. Depois dela, cumpre igualmente mencionar o Encomium divi Raymundi Lulli, doctoris illuminati et martyris de um maiorquino, Nicolau de Pax, publicado primeiro em Alcalá em 1519. Ibid., p. 674-678. Com o auxílio desses documentos foram compostas várias biografias de valor muito desigual. Cf. Custurer, Disertaciones historicas del R. Raymundo Lulio, con un apendiz de su vida, Mallorca, 1700, A. Rubió, Ramon Lull, p. 564. As melhores são devidas a J. Sollier, S. J., Acta Sanct., p. 644-649, e a Pasqual, Vindiciæ Lullianæ, t. i, p. 1-439. Estas últimas inspiraram diretamente toda a literatura contemporânea. Pode-se ver a lista completa desses diversos trabalhos nos estudos modernos, que devem ser consultados de preferência nas questões biográficas e literárias relativas a Raimundo Lulle: Menéndez y Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles, Madrid, 1880, t. i, p. 513-539; Hauréau-Littré, Raymond Lulle, em Histoire littéraire de la France, xxix, Paris, 1885, p. 1-386 (somente a vida, p. 1-67, é de Hauréau; está escrita num espírito de denegrimento sistemático); P. Golubovich, O. F. M., B. Raimondo Lullo, dans Biblioteca Bio-Bibliografica della Terra Santa e dell'Oriente francescano, Quaracchi, 1906, t. i, p. 361-392; Keicher, op. cit.; J. H. Probst, Caractère et origine des idées du B. Raymond Lulle, Toulouse, 1912.

Raimundo Lulle nasceu em Palma (Baleares), segundo uns em 1232, em 25 de janeiro, segundo outros em 1235. Este último parecer parece mais fundado. Sollier, Acta Sanct., p. 644; S. Zwemer, Raymundus Lullus, der erste Mohammedanermissionar, Wiesbaden, s. d. (traduzido da edição inglesa, Londres, 1902), p. 14. É certo, com efeito, que Raimundo Lulle se converteu aos trinta anos completos, Liber Contemplationis, l. II, c. lxx, Obres originals del illuminat mestre Ramon Lull, 21 vol., Palma, 1906-1917, t. iii, p. 65, e que às vésperas do concílio de Viena, out.

1311, trabalhava havia quarenta e cinco anos na realização de seus projetos, como ele próprio declara em seu opúsculo, Disputatio clerici et Raymundi phantastici. Golubovich, op. cit., p. 388. Esses dados não seriam tão rigorosamente exatos se se aceitasse a primeira data. O nome primitivo de sua família não era Lull, mas Amat; o nome de Lulle é uma alcunha que aparece pela primeira vez na ata de casamento de Pedro Amat, nov. 1131, e se conservou no ramo da família de que nasceu o ilustre maiorquino. J. Miret y Sans, Boletin de la real Academia de buenas letras de Barcelona, 1916, t. xvi, p. 305-307. Seu pai, Ramon Lulle, pertencia à nobreza catalã, assim como sua mãe, Isabel de Erill, e tinha em Barcelona, na paróquia de Santa Maria del Mar, propriedades consideráveis. J. Miret y Sans, Ibid., t. v, p. 525-535. Seguira o rei de Aragão e do Languedoc, Jaime I o Conquistador, em sua expedição a Maiorca; depois que a cidade, chamada mais tarde Palma, foi tomada de assalto, em 31 de dez. de 1229, recebera como quinhão numerosos domínios nos arredores de Palma, de Pollensa e de Manacor. Foi aí que Raimundo Lulle nasceu.

Como resulta dos primeiros capítulos do Blanquerna e do Doctrina puéril, seu pai, « belo e nobre de coração, tão versado nas letras e nas ciências que compreendia suficientemente a Sagrada Escritura », sua mãe, « a santa, paciente e humilde senhora de Aloma », deram-lhe uma educação moral e física muito cuidada. Lulle, no entanto, não correspondeu inteiramente a esses cuidados, se se deve aceitar a humilde confissão que faz disso em seu Liber Contemplationis, chamado com razão por Pasqual seu livro das confissões: Obres, t. iv, p. 41. Por volta dos 14 anos, depois de ter estudado as artes liberais, entrou como pajem na corte do rei Jaime I e acompanhou o monarca em suas viagens por Aragão e pela Catalunha. As letras e a poesia dos trovadores eram honradas no palácio, mas o próprio soberano dava o exemplo de uma vida desregrada. R. Lulle foi logo seduzido pelos prazeres a que se deixava arrastar a juventude nobre. Como declara em seu poema o Descornort, R. d'Alòs, Ramon Llull, Poésies, Barcelona, 1925, p. 71, « esqueceu-se de Deus e seguiu os caminhos da carne ». Em 1256, tornou-se senescal do infante Jaime I, que seu pai, Jaime I o Conquistador, proclamara rei de Maiorca, Vida, ed. do B. A. L., p. 349.

No mesmo ano, em 16 de junho, Lulle está seguramente em Barcelona. Tendo morrido seu pai, cede a seu irmão, Arnaldo, bens e direitos que tinha na paróquia de Santa Maria del Mar. O ato oficial, portando a sigla autógrafa de Raimundo Lulle, foi reencontrado e publicado por Miret y Sans, Noves biogràfiques d'en R. Lull, Boletín de la Real Academia de Barcelona, t. xv. Na mesma data, desposou Dona Branca Picany, que, em 23 de set. de 1257, o constituía procurador de seus bens em Barcelona. G. Rosselló, Obras rimadas de R. Lull, Palma, 1859, p. 33. Teve dela dois filhos, Domingos e Madalena, que desposou Pedro de Sentmenat. Apesar dessa união e de suas altas funções na corte, R. Lulle, negligenciando seu dever, Lib. cont., c. cxiv, Obres, t. iv, p. 75, deixava-se sempre levar pelos arrastamentos de uma vida mundana. « Nada, diz ele próprio, Liber Cont., l. II, c. xxxvii, Opera, ed. Mogúncia, t. ix, p. 79; Obres, t. iv, p. 185, pôde induzir-me a ser um homem de bem, nem os socorros dos anjos, nem as Escrituras dos profetas, nem as exortações dos religiosos; ao contrário, apesar da ajuda dos anjos e das pregações dos religiosos, fui o pior dos homens e o maior pecador de toda a cidade e dos arredores. » Como os trovadores de então, cortejava as damas e lhes dedicava poesias de amor. Liber Cont., l. III, c. civ, Opera, t. ix, p. 231.

Os biógrafos posteriores, Carlos de Bouvelles, op. cit., p. 669, Nicolau de Pax, op. cit., p. 675, contam mesmo que ele teria perseguido uma genovesa, Leonor (segundo outros, Ambrósia) de Castello até dentro da igreja catedral de Santa Eulália, penetrando nela até a cavalo, e que a dama só teria podido afastá-lo descobrindo-lhe o seio devorado por um câncer. Esse relato é ainda hoje aceito por vários historiadores, Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 514, M. André, Le B. Raymond Lulle, Paris, 1900, p. 19-23. Mas a crítica moderna o rejeita com justiça como uma lenda cujo ponto de partida é uma anedota análoga contada por Raimundo Lulle em sua obra, Felix de les maravalles del mon, ed. Rosselló, Palma, 1903, t. ii, p. 120-121. M. Obrador, prefácio do Félix, ed. cit., p. xl; Probst, op. cit., p. 4, 21; M. A. Salcedo Ruiz, La literatura española, Madrid, 1915, t. i, p. 301, 329; R. d'Alòs, Poésies, p. 158.

Apesar desses desvios, a graça aguardava Raimundo Lulle. Certa noite, estando no leito, mas todo ocupado em compor uma canção de amor, o Cristo na cruz lhe apareceu de repente. Vida, p. 349. Lulle, contudo, ainda que aterrorizado, não fez caso da aparição, que se repetiu mais quatro vezes nas mesmas circunstâncias. Vida, p. 350. Na quinta vez, compreendeu que o Crucificado o convidava « a dar-se totalmente a seu serviço ». O episódio do crucifixo de São Damião, chamando Francisco de Assis, renovava-se na história espiritual do século XIII. R. Lulle guardou em traços de fogo a lembrança dessas altas manifestações. « Aprouve a Jesus Cristo, canta ele no Descornort, R. d'Alòs, Poésies, p. 74, em sua grandíssima piedade, apresentar-se a mim cinco vezes crucificado. » Cf. Liber Cont., l. II, c. lv, Opera, t. ix, p. 122. O fato deve ter ocorrido por volta de julho de 1265.

Assim decidido a seguir o Cristo, R. Lulle pôs-se a elaborar os projetos a cuja realização devia consagrar a vida. « Já todo abrasado de grande ardor de amor pela cruz, julgou que não podia praticar ato mais agradável do que levar os infiéis e os incrédulos à verdade da santa fé católica e, por esse motivo, expor a sua pessoa ao perigo de morte ». Para atingir esse ideal, propôs-se três coisas: procurar o martírio de Cristo, ou por amor redigir escritos nos quais a fé seria exposta aos infiéis, particularmente aos árabes; mandar construir colégios onde os missionários aprenderiam as línguas dos infiéis, sobretudo o árabe e o tártaro, e se exercitariam nos sofrimentos da vida apostólica e do martírio. Vida, p. 350.

Essas resoluções harmonizavam-se bem com as preocupações de então. Naquela época, com efeito, Jaime I o Conquistador fazia grandes esforços para converter os judeus de Valência e assistia ele próprio em Barcelona, em 1263 e 1265, a controvérsias públicas entre Fra Pau Cristià, O. P., e os rabinos Moseh ben Nahman e Rabi ben Astruch. Durante três meses, R. Lulle meditou esses projetos, conservando ao mesmo tempo suas funções de senescal; como é possível apreender pelas confidências apenas veladas do Liber Cont., l. V, c. ccclviii, Opera, t. ix, p. 550-554, aplicava-se a disciplinar as potências de seu ser e a inflamá-las em diálogos prolongados com Deus. Nisso, escreve a Vida, p. 350, « veio a festa daquele glorioso serafim, senhor santo Francisco, e o dito Reverendo Mestre, tendo ouvido o sermão de um bispo que contava como o glorioso senhor santo Francisco, depois de ter deixado todas as coisas deste mundo, se entregara inteiramente ao serviço da cruz, foi tocado até as entranhas e decidiu vender suas propriedades e seguir seu exemplo ». R. Lulle executou imediatamente, em parte ao menos, esse piedoso desígnio; no mesmo dia, recebeu das mãos do bispo o hábito de eremita, existente domina pro qua cantilenam facere volebat, acrescentam as anotações do ms. de Karlsruhe. J. Rubió, El breviculum, p. 84. Mais uma vez se afirmava o parentesco espiritual de Francisco de Assis e de R. Lulle. M. André, op. cit., p. 32, 35; P. André de Palma, O. M. C., El beat R. Lull, màrtir del Terç Ordre Francisca, dans Estudios Franciscanos, Barcelona, 1922, t. xxviii, p. 114-119.

Cumprido esse ato generoso, Lulle partiu em seguida como peregrino para Nossa Senhora de Montserrat (alguns, com o Sr. Riber, dizem Nossa Senhora de Rocamadour), Santiago de Compostela e as outras terras santificadas da Espanha. Depois dessa peregrinação (segundo as anotações da Vida ilustrada do ms. de Karlsruhe, ela teria ocorrido antes da festa de são Francisco e da conversão total de Lulle, cf. J. Rubió, El breviculum, p. 83), o eremita resolveu ir a Paris para estudar a gramática e as ciências, mas seus amigos, e sobretudo são Raimundo de Penafort, O. P., o dissuadiram. Vida, p. 350. Seguindo esse conselho, começou em casa o estudo do latim, de que já possuía os elementos, Vida, p. 350, e mais ainda o do árabe. Com efeito, embora a língua moura fosse falada pela maior parte da população maiorquina, R. Lulle a ignorava completamente. No parecer de Asín y Palacios, de Ribera e de Probst, op. cit., p. 23, o fato é inadmissível, mas a nosso ver as inverossimilhanças e as considerações gerais que invocam nada provam contra os documentos. A Vida, p. 350, a Vida ilustrada do ms. de Karlsruhe, J. Rubió, El breviculum, p. 83, as preces de R. Lulle, que em seu primeiro escrito pede a Deus a inteligência do árabe, Liber Cont., l. III, c. ccv, Op., t. ix, p. 268, tudo nos assegura que na época de sua conversão « não sabia a língua moura ». Para adquiri-la, pôs-se na escola de um escravo sarraceno, que por pouco não o assassinou, Vida, p. 351.

Quais foram então seus estudos filosóficos e teológicos, nada nos informa, e esse silêncio da Vida é enigmático. J. Rubió, R. Lull, p. 552. O que é possível assegurar é que leu então uma obra, até aqui não identificada, o Liber petitionum et quæstionum, mas que parece ser, segundo as indicações de Lulle e o exame do conteúdo, o Lib. quæst. veteris et novi Testamenti, P. L., t. xxxv, col. 2214, atribuído então a santo Agostinho; reconhece ter haurido nela as « verdadeiras provas, as significações profundas e as razões manifestas » que devia desenvolver mais tarde em seus livros apologéticos. Liber Cont., l. II, c. lxxvii, n. 3, Op., t. ix, p. 168, Obres, t. iii, p. 28. Entrou também em contato com santo Anselmo e Ricardo de São Vítor, aos quais se refere em uma de suas primeiras obras, o Liber mirandarum demonstrationum, l. I, c. xiv, Op., t. ii, p. 7, e com Aristóteles, cujos principais escritos cita e resume, Doctrina puéril, c. lxxv, p. 197-199. Analogias impressionantes permitem ainda crer que estudou o De divisione philosophiæ de Gundisalvi. A dialética do Liber de Gentili et tribus sapientibus, Op., t. ii, suas célebres exposições da teologia muçulmana, Golubovich, op. cit., p. 376, supõem também uma longa e penetrante iniciação nas grandes correntes do pensamento islâmico. Esses diversos trabalhos de preparação científica duraram nove anos.

Depois desse período, Lulle retirou-se para o monte Randa, situado perto de sua morada, para entregar-se mais completamente à contemplação. Vida, p. 351. « No oitavo dia de seu retiro (1274), veio-lhe uma certa iluminação divina que lhe mostrou, num único momento, o método que devia adotar em seus livros contra os infiéis. » Sobre a natureza dessa « grande iluminação », Vida, p. 351, de que R. Lulle fala muitas vezes, Pasqual, op. cit., t. i, p. 68, e que lhe valeu o título de Doctor illuminatus, os documentos contemporâneos não dão explicações, mas é provável, como entende Pasqual, op. cit., t. i, p. 61-72, t. iv, p. 286-306, que essa luz, completando o longo trabalho de preparação de R. Lulle, lhe tenha descoberto amplamente o que devia ser o princípio de seu sistema, a saber, a ideia da primazia absoluta dos atributos divinos ou dignidades e de suas relações entre si e com o mundo, de que são o exemplar infinito: Videtur datum lumen ipsi ut divinas perfectiones agnosceret quoad aliquas proprietates et habitudines quas habent ad invicem secundum omnes modos quibus ad invicem possint comparari... Eodem lumine, cognovit totum esse creaturæ nihil aliud esse quam imitationem Dei.

Depois desse favor, Lulle desceu do monte Randa e dirigiu-se ao convento cisterciense de Santa Maria de la Reyal; compôs ali imediatamente sua Ars magna, depois, terminada a obra, voltou a Randa e, no lugar onde recebera « a grande iluminação », mandou construir um eremitério, onde permaneceu quatro meses, Vida, p. 351, entregue à contemplação. Pasqual, op. cit., t. i, p. 95-113. Retomando em seguida o trabalho, R. Lulle redigiu, entre 1274 e 1276, várias obras consideráveis. Estava tão absorvido que se tornou necessário dar à sua esposa, Dona Branca Picany, um curador, Pedro Galceran, para administrar os bens que lhe restavam.

O ato foi lavrado em 13 de março de 1275. A. Rubió y Lluch, Documents per l'historia de la cultura catalana mig-eval, Barcelona, 1908, t. i, p. 3-4. É certo que Lulle, apegado então à esposa e ao filho, Liber Cont., l. II, c. xci, e l. III, c. cxxxviii, Op., t. ix, p. 200, 317, não permaneceu insensível na situação penosa em que o chamado divino o colocava. A atividade científica do convertido foi logo conhecida do rei de Maiorca, Jaime I, que mantinha frequentemente sua corte em Montpellier. O soberano mandou chamar R. Lulle e fez examinar suas obras, particularmente seu Liber contemplationis, por um frade menor, mestre em teologia. Vida, p. 351, deve ser Bertrand Béranger, lente no studium dessa cidade. Wadding, Annales Ord. Min., an. 1287, n. 11; Pasqual, op. cit., t. i, p. 113; Llorenç Riber, Ramon Lull i Montpeller i la Sorbona, dans La Revista Quincenal, Barcelona, 1917, t. i, p. 310-339. O exame foi favorável. Durante essa estada em Montpellier, Lulle compôs a Art demonstrativa e a leu publicamente. Esse fato sugere a ideia de que recebeu, em seguida a esse exame, o grau de mestre que todos os documentos lhe dão. S. Bové, R. Llull i la llengua llatina, dans Boletin de la Academia de Barcelona, t. xv, p. 70-72. Por essa ocasião, obteve do rei a fundação de um colégio de línguas em Miramar, onde, sob sua direção, treze frades menores se preparavam, sobretudo pelo estudo do árabe, para a evangelização dos infiéis. Vida, p. 352; André de Palma, El B. Ramon Lull, p. 120-129. O colégio da Santíssima Trindade de Miramar, de que Lulle sempre se proclamou o fundador, Blanquerna, c. lxvi, Obres, t. ix, p. 230, sobretudo no Cant de Ramon, R. d'Alòs, Poésies, p. 30, foi aprovado por uma bula de João XXI, dada em Viterbo, em 17 de outubro de 1276. A. Rubió, Documents, t. i, p. 4-5; Mons. Maura, bispo de Orihuela, Lo Beat R. Lull, fundador del primer colegi de llenguas orientales, dans Revista Luliana, Barcelona, 1902, t. ii, p. 260-266.

Depois dessa primeira viagem à França, Lulle voltou a Maiorca. O que fez em seguida não é fácil de determinar, pois para todo o período de 1276-1286 a Vida não fornece nenhuma informação. Na esteira de Pasqual, op. cit., t. i, p. 128-142, a maioria dos historiadores modernos, M. André, op. cit., p. 86-102, J. Avinyó, El terciari Francesca, B. Ramon Lull, ed. do B. A. L., Palma, 1906-1907, t. xi, p. 371-383, J. Borras, Espiritu del B. Ramon Lull, dans B.A.L., Palma, 1909, t. xii, p. 339-341, S. Galmès, no prefácio do Blanquerna, Obres, t. ix, p. xvi, apoiados em diversas passagens do Blanquerna e do Félix de les maravelles, creem que por volta dessa época, de 1277 a 1282, R. Lulle deu a volta ao mundo então conhecido, visitando sucessivamente Roma, a Alemanha, onde teria sido acolhido com benevolência por Rodolfo I de Habsburgo, a Europa setentrional, o Oriente até as Índias, o Egito, o Magrebe, de onde, segundo alguns autores, Avinyó, op. cit., p. 382, ter-se-ia embarcado para a Inglaterra. Outros escritores, ao contrário, passam em silêncio essa grande odisseia, Sollier, Acta Sanct., p. 645, Bihl, art. cit., p. 331; são de parecer que, durante esse período, R. Lulle permaneceu geralmente em Miramar, na direção de seu colégio de línguas orientais. Keicher, op. cit., p. 24, A. Rubió, Lliçons, p. 7, Rubió, Ramon Lull, p. 553.

É difícil resolver o problema, pois o Blanquerna, a que apela a opinião afirmativa, é um romance em que, ao lado de dados seguramente biográficos, se misturam os planos e os sonhos de R. Lulle, a exposição de suas ideias sociais, a descrição do mundo conhecido segundo as informações postas em circulação pelos viajantes e cruzados, e isso com o cintilar de uma imaginação oriental. Contudo, dois fatos parecem impor-se. Primeiro, a presença de Lulle em Roma em 1278, na época em que Nicolau III despachava ao grande khan dos tártaros uma embaixada de cinco frades menores sob a condução de Gerardo de Prato, Blanquerna, c. lxxx, Obres, t. ix, p. 302. Com efeito, os longos relatos do Blanquerna em que Raimundo o trovador, op. cit., c. lxxix, p. 290-292, interroga a corte romana sobre os dez problemas apologéticos e sociais que o maiorquino não cessou de agitar e sobre os quais pediu mais tarde o parecer da Universidade de Paris, Avinyó, op. cit., p. 372-374, as passagens em que o herói do romance defende diante dos cardeais o sistema de argumentações do Liber mirandarum demonstrationum, Blanquerna, c. lxxviii, p. 284, mal se entendem se não se vê neles a exposição dramatizada das negociações do « procurador dos infiéis », op. cit., c. lxxix, p. 352, para obter da Santa Sé um mandato.

Em segundo lugar, parece suficientemente estabelecido que por volta dessa época Lulle foi à Terra Santa e visitou uma parte do mundo muçulmano, o Egito entre outros. O Liber de fine, escrito em Montpellier em 1305, cf. A. Gottron, Ramon Lulls Kreuzzugsideen, Berlim, 1912, p. 76-77, atesta com efeito claramente que Lulle se ajoelhou no Santo Sepulcro: Ego pluries coram altari beati Petri fui Romæ, ipsum vidi valde ornatum, illuminatum, dominum papam hic pluries cum cardinalibus celebrantem et cum altis et multis vocibus laudantes, benedicentes nostrum dominum Jhesum Christum. Sed aliud altare est, quod est exemplar et dominus omnium aliorum et quando vidi, in ipso duæ lampades solæ erant, una tamen fracta est. Civitas depopulata est eo quod ibi quasi quinquaginta (?) homines non morantur, sed hic multi serpentes in cavernulis commorantur. Et illa civitas est excellentissima super omnes alias civitates, et hoc intelligo quoad Deum. Sed quoad nos quid est, et dedecus quale est in quo est, a quo venit et quantum est, videatis!

Et nonne sumus Christiani? Ora, o relato da viagem subitamente interrompida de R. Lulle a Chipre em 1301 exclui positivamente o fato de uma peregrinação a Jerusalém nessa época, o que os historiadores admitem comumente. Como não é possível atribuir outra data entre os anos de 1282 e 1305, em que o itinerário de Lulle é suficientemente conhecido, resta que essa viagem pertence ao primeiro período das peregrinações lulianas. Essa conclusão é confirmada pelo texto de uma obra escrita em Paris em 1287, o Félix de les maravelles, t. ii, p. 126, em que Lulle se reconhece sob os traços desse peregrino que ora no Santo Sepulcro, disputa com os sarracenos nas mesquitas, e, em seu retorno do Oriente, « vai aos prelados e aos príncipes da cristandade » para incitá-los à grande obra da evangelização dos infiéis, coisa que o maiorquino tentava precisamente então obter de Filipe o Belo e da Universidade de Paris. Além disso, Lulle, desde a sua conversão, ardia em desejo de ir à Terra Santa, Lib. Cont., l. III, c. cxxxi, Op., t. ix, p. 301. Sicut homo famelicus festinat quando comedit et facit magnas bucellas ratione magnæ famis quam sentit, ita servus tuus adeo magnum sentit desiderium moriendi ad dandum laudem de te, quod nocte et die festinet et conetur, quantum potest, dare perfectionem huic libro Contemplationis, ut postquam ipsum perfecerit, eat ad effundendum suum sanguinem et suas lacrymas pro amore tui in Sancta Terra in qua tu effudisti tuum pretiosum sanguinem, etc. Não se concebe que, com tais sentimentos, Lulle tenha esperado quase vinte e cinco anos para realizar o seu projeto, enquanto nesse lapso de tempo percorria duas ou três vezes a Europa ocidental para levantá-la em favor dos Lugares Santos e ia mesmo a Túnis. A historicidade dessa viagem está, portanto, adquirida. É provável que tenha então visitado Rodes, que assegura ter visto, Lib. de fine, ed. cit., p. 68, Damieta, e também o Magrebe, Blanquerna, c. lxxxviii, Obres, t. ix, p. 343 e 345.

Depois dessa viagem e até por volta de meados de 1287, R. Lulle percorre a Europa. Em 1282, está em Perpinhão, onde compõe um poema, Lo peccat de n'Adam. Dali passa a Montpellier, onde assiste em 1283 ao capítulo geral dos frades pregadores e empreende a redação de seu romance, o Blanquerna, c. xc, Obres, t. ix, p. 352. Em 1285, encontra-se em Bolonha e no ano seguinte em Paris, ao que parece, por ocasião da celebração dos capítulos gerais dominicanos. Em seu poema, o Descornort, Lulle assegura, com efeito, « que esteve com os pregadores em três capítulos gerais e com os menores em outros três capítulos ». R. d'Alòs, Poésies, p. 81, 160. Em 1287, está em Miramar, mas não foi por muito tempo. No mesmo ano, R. Lulle partiu para Roma, aonde chegou pouco depois da morte de Honório IV (3 de abril de 1287), e não de Martinho IV, como asseguram Pasqual, Rosselló e Avinyó. Keicher, op. cit., p. 24. Sua intenção era incitar o papa a fundar seminários de línguas estrangeiras à semelhança de Miramar. Honório IV talvez tivesse atendido seu pedido, pois, em 23 de janeiro de 1286, havia ordenado ao chanceler da Universidade de Paris que provesse ao sustento dos que ali estudavam o árabe e as outras línguas orientais. C. Jourdain, Un collège oriental à Paris au xiiie siècle, dans Excursions historiques et philosophiques à travers le Moyen Age, Paris, 1888, p. 219-229, Denifle-Chatelain, Chart. Univ. Paris., Paris, 1889, t. i, p. 638. Esse decreto motivou talvez a viagem de Lulle a Roma. Chegado infelizmente a Roma depois da morte do papa, o maiorquino nada pôde obter e tomou o caminho de Paris.

A Vida, p. 352, nos informa que durante sua estada na capital leu sua grande Arte com a permissão de Bertaut de Saint-Denys, chanceler da Universidade; ora, este último não exerceu essa função antes do mês de dezembro de 1288, como Denifle estabeleceu a partir do bulário de Nicolau IV. Chart., t. ii, p. 23. Lulle não permaneceu muito tempo em Paris; seu ensino encontrou pouco eco e partiu de novo para Montpellier, Vida, p. 352. Antes de sua partida, e não entre 1298 e 1300, como creem Martène, Denifle, Golubovich, R. Lulle dirigiu ao rei de França Filipe o Belo e à Universidade de Paris duas cartas pedindo a ereção em Paris de um colégio de línguas grega, árabe e tártara. Martène, Thes. nov. anecdot., Paris, 1717, t. i, p. 1315-1317. Em outra carta, rogava a um amigo que não nomeia, mas que parece bem ser um ministro geral de Ordem, que interviesse junto ao rei no mesmo sentido. Martène, op. cit., p. 1317. O que data seguramente esses documentos, como observou o Sr. Riber, é que o Félix de les Maravelles, t. ii, p. 210, escrito nessa época, conta em termos não velados a diligência de Lulle: « Meu filho, diz o eremita, um homem que havia trabalhado muito tempo pelo bem da Igreja romana veio a Paris e pediu ao rei de França e à Universidade de Paris que fundassem mosteiros onde se ensinassem as línguas dos infiéis e que ali fizessem traduzir nesses idiomas a Arte demonstrativa... Todas essas coisas e várias outras, o homem as pediu ao rei e à Universidade de Paris; quis também que tudo fosse submetido à aprovação e à confirmação do papa e que assim a obra fosse estável e permanente. » Essas petições não tiveram nenhum resultado.

De volta a Montpellier, Lulle compôs a Arte de achar a verdade, em que simplificava seu sistema e reduzia a 16 as 4 figuras de sua grande Arte, Vida, p. 352; seu semifracasso em Paris lhe inspirava essa condescendência para com a « fragilidade humana ». Na mesma época, redigiu seu delicioso Libre de Santa Maria e vários outros escritos. Depois desses trabalhos, Lulle partiu para a Itália. Em 26 de out. de 1290, Raimundo Gaufredi, ministro geral da Ordem franciscana, lhe dava uma carta de recomendação, ordenando aos superiores das províncias de Roma e da Apúlia que o recebessem com bondade. A. Rubió, Documents, t. i, p. 9. Ordenava mesmo que se pusesse um convento à disposição de Lulle, caso religiosos quisessem estudar sua Arte. No curso de sua viagem, Lulle deteve-se em Gênova, onde traduziu para o árabe a Arte de achar a verdade que compusera em Montpellier, depois dirigiu-se à corte de Nicolau IV. Segundo a tradição, Golubovich, op. cit., p. 367, apresentou ao papa o Livro da passagem, que se conhece pelo Descornort, R. d'Alòs, Poésies, p. 86, 161, e no qual expunha seus planos de cruzada. De novo, solicitou a ereção de colégios orientais, mas nada obteve e voltou então a Gênova (1292). Vida, p. 352.

1295 ao 1º de abril de 1296, escreveu, entre outras, sua vasta enciclopédia, a Arbre de Sciencia, depois sua obra De articulis fidei, que apresentou ao papa em 23 de junho de 1296, sem dúvida em Anagni, onde Bonifácio VIII se encontrava desde 2 de junho. Mas esses trabalhos pela « santa empresa » não interessaram ao papa; foi então que o insucesso e o desânimo lhe inspiraram seu mais belo poema, o Descornort. Nada mais se sabe sobre essa estada em Roma, a não ser que Lulle ali encontrou Bernardo Délicieux. M. de Dmitrewski, Fr. Bernard Délicieux, em Archivum franciscanum historicum, Quaracchi, 1925, t. xviii, p. 7.

Afastando-se mais uma vez da corte papal, Lulle dirigiu-se a Gênova. Segundo a Vida, p. 354, permaneceu ali tempo suficiente (1296-1297) para compor várias obras; depois, tendo visitado o rei de Maiorca, em Montpellier ao que parece, Golubovich, op. cit., p. 398, partiu para Paris. Desta vez, ia encontrar-se em luta com o grande adversário do pensamento católico no século xiii, o averroísmo árabe (dezembro de 1297 a julho de 1299). As veementes denúncias de São Boaventura em suas Collationes in Hexaëmeron, Opera omnia, Quaracchi, 1891, t. v, p. 329-454, e as condenações de 1277 proferidas pelo bispo de Paris, Etienne Tempier, não haviam detido a maré montante. Ao mesmo tempo que lia o grande Ali e prosseguia seus planos de cruzada, R. Lulle lançou-se na refrega, Keicher, op. cit., Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 502-508. A obra capital desta campanha foi a Declaratio Raymundi per modum dialogi (1298), que é um comentário desenvolvido das proposições censuradas por Etienne Tempier. Keicher, op. cit., 95-221.

Como a ciência não é o único meio de ganhar vitórias intelectuais, R. Lulle quis também tentar a via do amor, per manera d'amor, e compôs a Arbre de filosofia d'amor (out. de 1298). M. André, op. cit., p. 159-168. De Paris, enviou em dez. de 1298 uma carta de consolação a Veneza, vencida pelos genoveses sob o comando de Lamba Doria em Curzola, na Dalmácia, e, interpondo-se entre as duas repúblicas, rogava a um de seus amigos influentes de Gênova, Perceval Spinola, que interviesse para negociar em breve a paz. Golubovich, op. cit., 390-391; Paris, Bibl. nat., lat. 15 145, f° 206. Provavelmente também nessa época, ofereceu a Pierre Gradenigo, doge de Veneza (1289-1311), uma cópia de várias de suas obras, precedida de uma carta autógrafa ainda conservada. M. Obrador, R. Lull en Venecia, dans B. A. L., 1900, p. 301; Valentinelli, Bibliotheca mss. S. Marci, Venise, 1871, t. iv, p. 137-140. Naturalmente, R. Lulle retomou ainda suas negociações com Filipe, o Belo, a respeito das cruzadas e da evangelização do mundo oriental. Vida, p. 354, mas sem resultado aparente. Daí o famoso Cant de Ramon, R. d'Alòs, Poésies, p. 30-34, em que, uma vez mais, o heroico maiorquino cantava suas dores com um lirismo deslumbrante.

Essas tristezas de Roma e de Paris não eram sinais de desânimo. Precisamente nessa data, e embora Lulle já tivesse 60 anos, começa o período mais atormentado de sua carreira. Opúsculos, poesias, viagens pela Europa, Ásia, África, tudo se sucede com uma frenesi incrível, laissant Paris et les disciples qu'il s'était attachés, entre autres Thomas Le Myésier, chanoine d'Arras, J. Rubió, R. Lull, p. 553. Lulle partiu para a Espanha, passando por Roma, em 17 de outubro, como o atesta o explicit dos mss. do Liber Proverbiorum. R. d'Alòs, Los catalogos Lulianos, Barcelone, 1918, p. 70. À sua chegada, obteve do rei, em 30 de out. de 1299, a permissão de pregar nas sinagogas e mesquitas do reino, electis per eum quinque vel sex probis hominibus et sibi adhibitis. A. Rubió, Documents, t. i, p. 13. Foi sem dúvida para agradecer ao rei Jaime II que escreveu para ele o Dictat de Ramon (Barcelona, dez. de 1299) e, para a rainha, Dona Blanca, a joia ascética que é o Libre de Oracions. Munido desses poderes, Lulle entregou-se totalmente a esse ministério. Vida, p. 354. De julho a dezembro de 1300, encontra-se seguramente em Maiorca, onde sua pena multiplica os tratados apologéticos. Empreende mesmo a redação de uma suma filosófica em catalão, dita Començaments de Philosophia.

Nisso, chegou a notícia da vitória alcançada sobre os muçulmanos pelo khan dos tártaros, Casan, na batalha de Nedjamâa el Moroudy (23 de dez. de 1299). Esses sucessos haviam suscitado no Ocidente tal entusiasmo que, em 7 de abril de 1300, Bonifácio VIII anunciava à cristandade a próxima libertação do Santo Sepulcro e que o próprio Jaime II, em 18 de maio de 1300, escrevia ao chefe dos tártaros para solicitar sua aliança e lhe enviava, com esse fim, P. Solivera de Barcelona. Gottron, op. cit., p. 21, nota 4. R. Lulle não se conteve mais e, nos primeiros meses de 1301, partiu para Chipre, onde os catalães tinham ricos entrepostos. Chegado ao Oriente, verificou que as notícias eram inexatas: a contraofensiva muçulmana, sem efeito, já havia repelido os tártaros. Sem perder tempo em inúteis lamentações, pôs-se a disputar sobre a fé com os sarracenos, os jacobitas, os nestorianos e os gregos. Teria desejado que Henrique II, rei de Chipre, os convocasse por autoridade a controvérsias públicas, oferecendo-se depois para apresentar-se diante dos sultões do Egito e da Babilônia a fim de lhes pregar a fé. O rei desinteressou-se desses pedidos, Vida, p. 354; Lulle nem por isso deixou de continuar sua ação apologética. Em set. de 1301, conclui no convento de São João Crisóstomo, perto de Buffavento, sua Rhetorica nova; em dezembro, está em Famagusta; de lá, em janeiro de 1302, dirige-se a Ajas, porto da Armênia inferior. Nessa viagem contraiu uma grave doença, Vida, p. 355, a que faz alusão em seu Liber de fine, éd. Gottron, p. 80.

Para cúmulo de infortúnio, seus dois servidores, a pretexto de lhe dar remédios, tentaram envenená-lo para se apoderar de sua bagagem, mas Lulle percebeu a tempo e retirou-se para Famagusta, à casa dos templários, onde foi bem recebido, graças às ordens de Jacques de Molay. Restabelecido, partiu para Gênova, redigindo em alto-mar o seu livro Os mil provérbios. Dessa data até 1306, o itinerário do bem-aventurado é difícil de fixar. Com efeito, não é certo que tenha ido imediatamente a Maiorca, pois o Liber de Trinitate et Incarnatione, que teria sido escrito nessa cidade em setembro de 1302, segundo vários autores, Golubovich, op. cit., p. 380, é datado mais provavelmente de 1312. O que é certo é que, em maio de 1303, Lulle está em Gênova, onde traduz para o catalão sua Nova Logica. Ao contrário de seu compatriota Arnaldo de Villeneuve, permanece indiferente às querelas de Bonifácio VIII e de Filipe, o Belo, e prossegue nervosamente seus projetos. Gottron, op. cit., p. 22. Depois dessa estada em Gênova, Lulle teria ido a Paris e, segundo a Vida, p. 355, ali teria lido sua Arte e compilado diversas obras; teria mesmo permanecido ali até o momento de seu encontro com Clemente (set. de 1305).

O fato pareceu duvidoso a Sollier, visto que nessa data não há nenhum vestígio de ação luliana em Paris. Acta Sanct., p. 647. Na realidade, há aí um erro manifesto. Com efeito, os explicit de várias obras atestam todos que Lulle residiu então no sul da França. Desde o mês de outubro de 1303, encontra-se em Montpellier, como prova o explicit do Liber de disputatione fidei et intellectus. Ali permanece habitualmente, salvo em fevereiro de 1304, quando o explicit de dois escritos assinala a sua presença em Gênova. Foi aí que, em abril de 1305, concluiu seu célebre Liber de fine ou De expugnatione Terræ Sanctæ, o mais importante dos tratados análogos escritos nessa época por Jacques de Molay, Foulques de Villaret, Pierre Dubois e Mario Sanudo. Gottron, op. cit., p. 24-37.

Em 24 de junho de 1305, o rei Jaime II lhe concede uma pensão por um ato dado em Barcelona. A. Rubió, Documents, t. i, p. 39. Como mss. do De erroribus Judæorum são datados de Barcelona 1305 e, por outro lado, o ato real traz uma cláusula especial, ordenando dobrar os subsídios, quamdiu vos sequti fueritis curiam nostram, parece certo que Lulle foi então a Barcelona e acompanhou em seguida o rei à França por ocasião da coroação de Clemente V, ainda que a Vida, p. 355, o diga então em Paris. Em 17 de out. de 1305, assiste em Montpellier à entrevista do papa e de Jaime II, como ele mesmo diz em sua obra Disputatio Raymundi et Hamar sarraceni, Op., éd. Mayence, t. iv, p. 47. Mais tarde, em nov. de 1305, Lulle está em Lyon, onde teve lugar a coroação de Clemente V; ali começa sua Ars generalis et ultima. De novo, tenta interessar a corte pontifícia em seus projetos, mas «o santo padre e os cardeais mal lhes deram atenção». Vida, p. 355.

Decepcionado mais uma vez, R. Lulle partiu de um só fôlego para Maiorca, e de lá passou à África, a Bugia, onde reinava então Abu Zacarias. Mal desembarcado, na primavera de 1306, pôs-se a gritar nas praças públicas que a lei de Maomé era falsa: queria o martírio, «as vestes vermelhas do Amigo». Preso e arrastado diante do conselho da cidade, Lulle anunciou heroicamente a fé cristã. Iniciaram-se discussões apologéticas; entretanto, lançaram-no na prisão, com a corrente ao pescoço. Sofreu muito ali no início, mas a intervenção dos genoveses e dos catalães residentes em Bugia melhorou-lhe a sorte. Vida, p. 356. Começou mesmo a escrever em árabe a sua Disputatio Raymundi et Hamar sarraceni, que contém o eco de suas controvérsias religiosas. Após seis meses de prisão, Abu Zacarias, então em Constantina, deu ordem de expulsá-lo da África. À força, Lulle teve de embarcar num navio que fazia vela para Gênova. Como epílogo da odisseia, o navio naufragou perto de Pisa (nov. de 1306). Lulle pôde salvar-se, mas sua biblioteca, o livro que acabava de redigir em árabe, todos os seus haveres perderam-se sem retorno.

Chegado a Pisa, Lulle retomou a pena e recompôs em latim a sua obra perdida. Sua estada nessa cidade se prolongou, pois foi no convento dos dominicanos do lugar que concluiu, no mês de abril de 1308, sua Ars generalis et ultima. Keicher, op. cit., p. 44. Ao mesmo tempo que multiplicava seus tratados de propaganda, soube interessar a comuna de Pisa em seus projetos, e o conselho escreveu a Clemente V em favor da cruzada. Portador dessas cartas, o maiorquino partiu para Gênova, onde obteve cartas análogas e promessas de subsídio. Vida, p. 356. Vários autores, Keicher, op. cit., p. 29, Gottron, op. cit., p. 39, creem tratar-se efetivamente dele na carta que Perceval Spinola enviou, pela mesma época, a Jaime II sobre os negócios da cruzada. Finke. Acta aragonensia, Berlin, 1908, t. ii, p. 878. Segundo esse documento, Lulle teria ido a Marselha para encontrar Arnaldo de Villeneuve e concertar-se com ele antes de apresentar-se a Clemente V. Mas, como o texto da carta traz — per dominum fratrem Ramondum Lugin — e, além do fato de que Lulle nunca foi religioso, os nomes diferem, essa identificação me parece de todo improvável.

Em outubro de 1308, Lulle está de novo em Montpellier, como se pode deduzir do Liber de novis fallaciis. No início de 1309, escreve a Jaime II de Aragão e lhe envia o Nou libre de Proverbis, recomendando-lhe que o faça ler aos infantes. Expõe-lhe ao mesmo tempo a sua extrema penúria. A. Rubió, Documents, t. i, p. 41. A carta autógrafa — M. Ramon d'Alòs duvida disso, no entanto — ainda se conserva. M. Obrador, Un altra lletra autografa de R. Lull dans B. A. L., 1905, p. 98, 99. Em resposta, em 22 de maio de 1309, o rei pedia a Pedro, bispo de Tortosa, que lhe desse as rendas de um canonicato. Finke, op. cit., t. i, p. 880. De Montpellier, Lulle foi a Avinhão a fim de promover o negócio da cruzada. A entrevista com Clemente V só teve lugar depois de 21 de março de 1309, data em que o papa, errante pelo sul da França, se encontrava nessa cidade. É certo que ofereceu a Clemente V, como procurador dos infiéis, o Liber de acquisitione Terrae Sanctae que acabava de concluir (março de 1309), e em que pela primeira vez propunha a conquista de Constantinopla e a extinção do cisma grego «pela força da espada do venerável senhor Carlos», sem dúvida Carlos de Valois. Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, f° 545 r. Tudo foi inútil e R. Lulle partiu para Paris. Vida, p. 356.

Apesar da idade avançada e de seus fracassos, sua atividade permanecia inesgotável. Retomou sua campanha contra o averroísmo e, de novembro de 1309 a setembro de 1311, multiplicou os escritos de combate, Keicher, op. cit., p. 29-34, 52-61. Junto a Filipe, o Belo, continuou seus pleitos em favor da Terra Santa caída: essa insistência lhe inspirou o mais belo escrito de sua pena nessa matéria, o Liber de natali parvuli pueri Jesu que, pouco depois do Natal de 1310, apresentou ao rei da França. Gottron, op. cit., p. 41-43. Ao mesmo tempo dirigia a escola que se agrupara em torno dele. Nessa data, com efeito, seu discípulo Thomas Le Myésier resume a doutrina de 155 obras lulistas em seus três opúsculos: o Breviculum conservado no ms. Saint Pierre, parg. 82 de Karlsruhe, o Primum electorium que se encontra em Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, e o Electorium médium, ainda não reencontrado. J. Rubió, El Breviculum; R. d'Alòs, Addició a la nota sobre el Breviculum de Karlsruhe, dans Bullet. de la biblioteca de Catalunya, Barcelone, 1916, t. iii, p. 89.

Foi finalmente ao término dessa estada que Lulle obteve, segundo a tradição, três documentos acerca dos quais muito se disputou: uma declaração da oficialidade de Paris, de 10 de fevereiro de 1310, atestando que quarenta mestres e bacharéis, após terem ouvido as lições de Lulle sobre a Arte breve, depõem sob juramento que esse método lógico nada contém de oposto à lei, Denifle-Chatelain, Chart. Univ. Paris., t. ii, p. 110; uma carta de recomendação de Filipe, o Belo, dada em Yernoii a 2 de agosto de 1310, Denifle-Chatelain, ibid., p. lit.; uma carta do chanceler da Universidade, François Careccioli, de 9 de setembro de 1311, que, a pedido do un., atesta que certos escritos de Lulle são ortodoxos. Denifle-Chatelain, ibid., p. 1 IX. A autenticidade desses documentos foi geralmente aceita. Sollier, Acta Sanct., p. 655; recentemente, porém, !.. Delisle e (. Taris tint emitiram dúvidas a respeito deles; assim também Déni. Em minha opinião, S. Bové deu, em favor da autenticidade, várias razões excelentes, R. Lull y la llengua latina, p. 72-82, sobretudo se forem completadas pelas observações do P. Keicher, op. cit., p. 29-31.

A Vida, p. 356, com efeito, faz alusão ao primeiro documento: «Não somente estudantes, conta ela, vieram ouvir o mestre, mas ainda uma grande multidão de doutores, que afirmaram que a dita ciência e doutrina era corroborada por razões filosóficas e também por regras e princípios tomados da teologia.» Além disso, Pedro IV, o Cerimonioso, rei de Aragão, menciona explicitamente, ut per légitima documenta novimus, o primeiro e o terceiro documentos em dois atos de 10 de out. de 1369, pelos quais concede a Béranger de Fluvia a permissão de ler a Arte em seu reino. A. Rubiô, Documents, t. i, p. 232-234. O alcance doutrinal bastante restrito dessas três peças testemunha também no mesmo sentido. Filipe, o Belo, limita-se a recomendar a pessoa de R. Lulle; a aprovação dos mestres tem por único objeto a Arte breve, um dos mais minguados opúsculos da obra luliana; a declaração do chanceler não se estende muito além, inspectis quibusdam operibus; Caroccioli louva antes de tudo o zelo e as boas intenções daquele que o rei lhe apresenta, scribentis zelum fervidum et intentionis rectitudinem pro fidei christianae promotione notantes. Com S. Bové, é legítimo crer que, se essas peças fossem de data posterior, pouco distante dos primeiros estampidos da campanha de Eymeric, ver col. 1135, os discípulos de R. Lulle teriam posto a coberto escritos mais importantes de seu mestre, aqueles, entre outros, que o inquisidor dominicano denunciava, e teriam posto em circulação declarações oficiais mais salientes. Por essas razões, esses primeiros testemunhos em favor do «procurador dos infiéis» conservam todo o seu valor histórico.

A estada de Lulle em Paris não fora, pois, infrutífera, embora seus numerosos escritos antiaverroístas, dedicados a Filipe, o Belo, e à Universidade de Paris, não tivessem podido obter a proscrição oficial dos erros arabizantes. O anúncio do concílio de Viena (out. de 1311-maio de 1312) reavivou ainda mais as suas esperanças. Pela última vez, deixou Paris. No caminho, ele que já compusera mais «de 123 obras em honra da Santíssima Trindade», Vida, p. 357, escreveu seu poema Lo Consili e, em seguida, sua Disputatio clerici et Raimundi phantastici. Neste último escrito, resumia sua vida em termos enérgicos. Homo fui in matrimonio copulatus, prolem habui, competenter dives, lascivus et mundanus. Omnia, ut Dei honorem et bonum publicum possem procurare et sanctam fidem exaltare, libenter dimisi. Arabicum didici, pluries ad praedicandum Sarracenis exivi; propter fidem captus fui, incarceratus, verberatus; quadraginta quinque annis, ut Ecclesiœ rectores ad bonum publicum et christianos principes movere possem, laboravi. Nunc senex sum, nunc pauper sum; in eodem proposito sum, in eodem usque ad mortem mansurus, si Dominus ipse dabit. Golubovich, op. cit., p. 388.

Chegado a Viena, apresentou sua Petitio Raymundi in concilio generali. Pedia ali, entre outras coisas, a proibição de ensinar o averroísmo nas universidades, a retomada da cruzada, a fusão de todas as ordens militares e a criação de colégios de línguas orientais. Desta vez suas diligências não foram de todo vãs, pois, ao menos parcialmente sob a sua inspiração, Golubovich, op. cit., 371, R. d'Alôs, Poésies, p. 167, o concílio decretou a criação de várias cátedras de línguas árabe, grega, hebraica e caldaica em Paris, Oxford, Bolonha e Salamanca. Denifle-Chatelain, Chart. Univ. Paris., t. ii, p. 154. Depois do concílio, Lulle foi a Montpellier, onde compôs seu opúsculo De locutione angelorum (maio de 1312), e de lá partiu para Maiorca.

O «procurador dos infiéis» não voltara à sua pátria para tomar um legítimo repouso. Longe disso. De julho de 1312 a abril de 1313, achou com efeito meio de redigir diversos opúsculos, um manual de pregação, uma compilação de 150 sermões e três escritos apologéticos. O mais importante dessas obras tem por título De participatione christianorum et Sarracenorum. Desta vez, R. Lulle voltava-se para o rei da Sicília, Frederico II, com quem aliás mantinha relações desde 1296, pois nessa data, segundo o ms. Hisp. 52 de Munique, fazia-lhe chegar, por intermédio de Perceval Spinola, três de suas obras. R. d'Alôs, Los catalogos, p. 68. Rogava-lhe que se entendesse com o rei de Túnis para convocar uma grande conferência religiosa entre árabes e cristãos. Respeitosamente, dedicava-lhe seu livro e suplicava-lhe, assim como a Sancho I, rei de Maiorca, e ao bispo de Mallorca, G. de Villanova, que o apoiassem eficazmente. Depois de tantas peregrinações, R. Lulle sentia as forças traí-lo. Cf. Lib. de participatione, Paris, Bibl. Nat., lat. 15 450, f° 543 V. De fato, algum tempo depois, em 26 de abril de 1313, ditava seu testamento. Zeloso de sua herança literária, ordenava a seus herdeiros que fizessem transcrever os livros latinos e catalães que compusera desde o concílio de Viena e fizessem chegar uma cópia à cartuxa de Vauvert, perto de Paris, e a Perceval Spinola em Gênova; legava além disso um cofre de livros, então em casa de seu genro, Pierre de Sentmanat, ao convento cisterciense de Santa Maria de la Reyal.

De Bofarull y Sans, El testamento de Ramon Llull y la Escuela luliana en Barcelona, dans Memorias de la Real Academia de Barcelona, 1896, t. v, p. 437-478; M. André, op. cit., p. 206-208, Keicher, op. cit., p. 43-44. Concluídas essas disposições, Lulle, quase octogenário, tomou ainda o mar e dirigiu-se a Messina, junto ao rei da Sicília, Frederico II. Ali permaneceu um ano, de maio de 1313 a maio de 1314, e, ao mesmo tempo que se concertava com o rei sobre os meios de convocar a conferência projetada com os muçulmanos de Túnis, J. Rubió, R. Lull, p. 554, soube achar tempo para compor 35 opúsculos ou tratados teológicos. R. d'Alòs, El manoscritto ottoboniano lat. 405. Contribucion à la bibliografía luliana, dans Escuela espanola de arqueologia e historia en Roma, Madrid, 1914, t. ii, p. 97-127. Depois dessa estada, parece bem que voltou a Maiorca. Segundo um documento extraído dos arquivos reais e inserido no processo de canonização de 1615, foi realmente dessa cidade que R. Lulle partiu, em 14 de agosto de 1314, para a Berbéria. Sollier, Acta Sanct., p. 649, 673. Foi acompanhado até o porto pelos jurados da cidade, pela multidão de seus amigos e por dois franciscanos, fra Amador e fra Antoni Ferrer.

Um mês depois, notificava sua chegada a Jaime II. Em 4 de novembro de 1314, este o recomendava ao rei de Túnis, A. Rubió, Documents, t. i, p. 63, e rogava a seu intérprete, Jean Gil, que interviesse em seu favor. A. Rubió, Documents, t. i, p. 62. Em 5 de novembro, escrevia ao próprio R. Lulle para lhe dar parte dessas diligências oficiais. Assim apoiado, o heroico missionário foi a Túnis, onde concluía em julho de 1315 o seu Ars consilii. De lá, escreveu ainda a Jaime II. A seu pedido, o rei solicitou ao guardião dos franciscanos de Lleyda (5 de agosto de 1315) que enviasse a Túnis, sem demora, fra Simon de Puig Cerda, antigo aluno de Lulle, a fim de traduzir para o latim o texto catalão do Ars consilii. A. Rubió, Los Documents, t. i, p. 65. Em 29 de out. de 1315, Jaime II insistia ainda junto ao provincial de Aragão, fra Romeu Ortie, para obter as cartas de obediência para esse fim, A. Rubió, Documents, t. i, p. 66-67, tendo sabido que, desde a sua chegada a Túnis, Lulle redigira quinze opúsculos de controvérsia. Ignora-se o resultado dessas diligências. O que é certo é que, em dezembro de 1315, Lulle conclui em Túnis os dois últimos tratados que nos chegaram dele. R. d'Alòs, El manoscritto, p. 112.

De lá, deve ter ido a Bugia. Foi aí que, segundo as tradições da Igreja de Maiorca, consignadas no processo de canonização, encontrou um fim glorioso, o que os historiadores admitem comumente, salvo Gaston Paris e J. Rubió, R. Lull, p. 554, que emitiram dúvidas a esse respeito, e Probst, op. cit., p. 7, que prefere esperar novos documentos. Segundo essas lembranças litúrgicas e a iconografia antiga, Pasqual, op. cit., t. i, p. 323-338, Avinyo, op. cit., p. 490-492, Lulle foi agarrado pela populaça e gravemente ferido a pedradas, o que o exame médico dos restos, feito em 5 de dez. de 1611 com vistas ao processo de canonização, permitiu constatar. A. Buades, Reconeixement de les despulles des B. Ramon Lull, 1611, dans B. A. L., Palma 1919, p. 295-7. Deixado nesse estado na praça pública, foi recolhido por genoveses que faziam vela para a Europa, mas morreu à vista das costas de Maiorca. Seu corpo, acolhido com respeito, foi depositado na igreja dos franciscanos. A tradição fixou a data de sua morte em 29 de junho de 1315, mas, segundo as cartas de Jaime II e o explicit das obras lulistas escritas em Túnis em dezembro de 1315, é evidente, apesar das suposições de Avinyo, Una fecha luliana. dans B. A. L., Palma, 1910, p. 19-21, que essa data é inexata, J. Rubió, R. Lull, p. 554. R. d'Alòs, no Criterion, Barcelone 1925, t. i, p. 252. O fato deve ter ocorrido no ano seguinte. Assim terminava a carreira desse apóstolo da África, tão atormentada e tão patética que «poucos romances podem oferecer ao espírito mais episódios e mais peripécias». Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 513.

II. Escritos. O B. Lulle é, com o franciscano Gil de Zamora, o grande polígrafo espanhol da Idade Média. «A multidão de seus escritos, diz o Sr. Menéndez y Pelayo, La ciencia española, Madrid, 1889, t. iii, p. 20, não prova por si mesma nem mérito nem demérito; todavia, é um dos traços mais característicos da fisionomia de Lulle, tão espanhola em tudo, e tão semelhante à dos filhos privilegiados de sua raça, Tostat, Suarez, Lope de Vega. Na Espanha a força sempre se manifestou pela abundância: em vez de concentrar-se numa obra-mestra, difunde-se ao infinito... R. Lulle improvisava seus sistemas como Lope de Vega seus dramas.» Essa fecundidade, mais ainda o fato de numerosas traduções consideradas frequentemente como obras diferentes, as inúmeras confusões ocasionadas seja por títulos ligeiramente divergentes que recobrem obras idênticas, Keicher, op. cit., p. 37. R. d'Alôs, Los catalogos, p. 47, seja por erros de leitura, seja pela não identificação de numerosos extratos ou fragmentos, a atribuição a R. Lulle de escritos redigidos por seus discípulos ou fabricados por alquimistas de meados do século xiv, o conhecimento ainda imperfeito dos manuscritos lulianos conservados em grande número nas bibliotecas da Europa, excluem por muitos anos ainda a possibilidade de elaborar um catálogo completo dos escritos do publicista maiorquino.

Certamente os esforços tentados nestes últimos anos por Littré, o P. Keicher, os Srs. Obrador y Bennassar, A. Rubió y Lluch, J. Rubió y Balaguer, Ramon d'Alòs, permitem resolver com segurança vários problemas de bibliografia lulista; contudo, é preciso aguardar os resultados da vasta investigação empreendida, sobretudo desde 1914, pelo Institut d'Estudis Catalans, J. Rubió et R. d'Alòs, Memoria sobre la celebracio del VI e Centenari de la mort de R. Lull, dans Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans MCMXIII-XIV, Barcelone, t. v, p. xxx-xxxv, e os trabalhos da Comisio Editora de Palma dirigidos atualmente pelos Srs. Alcover e Galmès, antes de tentar com êxito um quadro definitivo da atividade literária de Raimundo Lulle. Apesar dessas incertezas, o número dos escritos lulistas, que a lenda elevou por vezes até três mil, R. d'Alôs, Los catalogos, p. 9, pode ser fixado aproximadamente, graças a documentos do início do século xiv. A Vida, p. 356, assegura com efeito que, desde antes do concílio de Viena, Lulle já havia composto ao menos 123 obras. Dois catálogos contemporâneos, o primeiro escrito em agosto de 1311, o segundo provavelmente em 1314, ambos provenientes seguramente de Thomas le Myésier, precisam mais. Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, f°. 88; Littré, op. cit., p. 71-74; d'Alôs, Los catalogos, p. 14-17. No primeiro, 124 escritos são enumerados; no segundo, outros 30. É segundo eles que Thomas le Myésier redigiu seu Breviculum. J. Rubió, El Breviculum, p. 75-77. Esses dados preciosos são, contudo, incompletos; escritos catalães são omitidos, bem como os opúsculos do último período da vida de Lulle, em Messina e em Túnis. A lista completa das obras lulistas ainda não está, pois, fixada, tampouco a cronologia definitiva. Os catálogos de 1311 e de 1314 negligenciaram, com efeito, determiná-la e, o que é mais, não contêm a esse respeito nenhuma indicação. Além disso, as tentativas feitas desde o século xv têm pouco valor: somente as diversas listas elaboradas por Pasqual, Vindiciæ, t. i, p. 369-383, Vida del B. R. Lulio, éd. du B. A. L., Palma, 1890-1981, t. ii, p. 331, apoiam-se num esforço crítico e numa documentação manuscrita considerável. R. d'Alôs, Los catalogos, p. 43-45.

O que dificulta uma fixação definitiva é o fato de que numerosos escritos de Lulle, de 1274 a 1285, não trazem nenhuma indicação cronológica nem topográfica. Depois dessa data, R. d'Alôs, Poésies, p. 149, já não é geralmente assim, mas em muitas ocasiões os dados não se harmonizam de modo algum. Dado o caráter provisório da cronologia lulista, é preferível, portanto, agrupar os escritos do bem-aventurado segundo o seu conteúdo, tendo o cuidado de ordená-los em série na medida do possível. Tal é o método seguido pelo erudito catalão A. Rubió y Lluch. En Ramon Lull. Sumari d'unes lliçons en els Estudis Universitaris Catalans, Barcelone, 1911. Algumas breves anotações indicarão a matéria, se houver ocasião de fazê-lo. Análises mais detalhadas encontram-se nas obras seguintes: Rubió, Lliçons (quando se citar apenas A. Rubió, remete-se a essa obra); Golubovich, op. cit., p. 373-392; Keicher, op. cit., p. 36-61, e sobretudo Littré, op. cit., p. 74-386.

Do mesmo modo, indicações mais completas sobre os mss. encontram-se em publicações recentes de grande valor: M. Obrador, R. Lull en Venecia. Reseña de los codices e impresos lullianos existentes en la bibl. Veneciana de San Marcos, dans B. A. L., 1900, p. 300; Viatge d'investigacio a les biblioteques de Munich y Milá, dans Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, 1908, p. 588-613; J. Masso Torrents, Bibliografia dels antics poetes catalans, dans Anuari 1913-1914, t. i, p. 49-55, 208-225, t. ii, p. 738-740; J. Rubió, Los codices lullianos de la bibl. de Innichen dans Revista de filologia española, Madrid, 1917, t. iv, p. 303-340; R. d'Alòs, El manoscritto Ottoboniano lat. 405, p. 101-112 et Poesies p. 15-18; J. Batista y Roca, Catalech de les obres lullianes d'Oxford dans Boletin de la Real Academia de buenas letras de Barcelone, Barcelone, 1915, t. xv, p. 204-228, t. xvi, p. 308-330; J. Marx, Verzeichniss der Handschriften-Sammlung des Hospitals zu Cues bei Bernkastel, Trêves, 1905. Quanto às edições lulistas, abundantes informações são fornecidas por A. Rubió, Lliçons, p. 10-12, Probst, op. cit., p. 8-11, e sobretudo pelos Srs. Rogent-Duran, Les edicions lulianes de la bibl. Universitaria di Barcelona, Barcelone, 1913.

I. ENCICLOPÉDIAS. 1° O Liber contemplationis (Maiorca, antes de 1277), Opera, éd. Mayence, t. ix et x, é «a obra capital da mística luliana e, por sua extensão, uma das obras em prosa mais consideráveis que possui a literatura românica no século xiii». J. Rubió, dans Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, 1913-1914, t. ii, p. 768. R. Lulle redigiu-o com a idade de quase quarenta anos, Lib. cont., l. III, c. cxxix, t. ix, p. 296, antes de ter deixado a família, c. cxxxviii, p. 317. Não foi sem grande sofrimento que pôde levar a obra a termo, l. V, c. ccclxvi, t. x, p. 597. Escrita primeiro em árabe, a obra foi traduzida por Lulle para o catalão. O texto original árabe está perdido; a versão catalã foi editada com cuidado, embora não definitivamente, pelos Srs. Obrador, Ferra, Galmès, Obres originals del illuminat Doctor Mestre Ramon Lull: Libre de contemplacio en Deu, 7 vol., Palma, 1906-1914. Seu texto mais puro está conservado nos mss. A. 286 Inf. e D. 549 Inf. (outrora reunidos) da Ambrosiana de Milão, transcritos diretamente do original em 1280 por Guillaume Pages, sacerdote de Maiorca, e em parte no ms. lat. 3348 a da Bibl. nat. de Paris, dado por R. Lulle em 1298 aos cartuxos de Vauvert. Obrador, Viatge, p. 605, Delisle, Cabinet des mss. de la Bibl. Nat. de Paris, t. ii, p. 252.

A obra é dividida em 5 livros e 40 distinções. Ao todo compreende 366 capítulos, dos quais um complementar para os anos bissextos, e oferece assim um tema de meditação para todos os dias do ano. Seu conteúdo é tão variado que quase resiste à análise, Littré, op. cit., p. 220-235. Com razão, o bispo de Vich, Dom Torras y Bagès, Tradicio catalana, Barcelone, 1902, p. 226, chamou ao Liber Cont. «uma admirável síntese literária abrangendo todos os conhecimentos da época e a filosofia do imenso círculo dos seres que dependem do Ser primeiro, fonte de vida e de toda existência, um quadro grandioso em que se pinta com brilho a maravilhosa harmonia das relações que ligam o Ser incriado e a criatura, a natureza infinita e o finito, os atributos divinos e as faculdades do homem, as hierarquias celestes e os estados da vida terrestre, a sociedade civil e a sociedade religiosa, a matéria e o espírito». Páginas teológicas fortemente pensadas abundam nessa obra; assinalemos particularmente os tratados sobre Deus, Lib. Cont., l. I et II, c. i-cii, t. ix, p. 3-224. A obra inteira é erguida por efusões de amor e de adoração, apelos ao martírio, soluços de dor à lembrança dos infiéis que se perdem, a tal ponto que, depois das Confissões de santo Agostinho, não há na literatura cristã obra tão patética e tão transbordante de lirismo. Cf. A. Rubió, p. 25: Avinyo, op. cit., p. 365-367; J. Rubió, Anuari, p. 768-769.

2" O Arbor Scientiæ (Roma, 1295), éd. Lyon, 1636, est um precioso resumo do pensamento lulista.

O simbolismo da árvore permite agrupá-lo e organizar assim uma hierarquia e uma classificação de todo o saber. O escrito está dividido em 16 partes: a árvore elementar, que é um compêndio de física; a árvore vegetal, tratado de botânica; a árvore sensual, que trata dos sentidos e de seu objeto; a árvore imaginária, que estuda as impressões; as lies e os sensíveis; a árvore humana; a árvore moral; a árvore imperial, que é um tratado interessante de política; a árvore apostólica, que trata da hierarquia eclesiástica e do primado pontifício; a árvore celeste, que é uma introdução à astronomia; a árvore angélica; a árvore «eviterna», que trata do céu e do inferno; a árvore maternal, tratado sucinto de mariologia; a árvore divina e humana, que tem por objeto Jesus Cristo, e a árvore divina. Segue-se a árvore exemplar, em que Lulle acumula os provérbios e as anedotas sobre cada um desses assuntos com vistas à pregação. «É, diz o Sr. S. Galmès, a flor da árvore geral, uma floração toda franciscana, ingênua, cálida, de colorações soberbas. A árvore-questionário» (4000 questões) vem em último lugar e é apenas uma espécie de metodologia relativa à obra. O texto catalão do escrito ainda não está editado completamente; dos 3 volumes da edição de Palma, apenas um apareceu, com erudito prefácio do Sr. S. Galmès, Obres, t. xi, Palma, 1917. Cf. Littré. n. 72; A. Rubió, p. 22; Probst, op. cit., p. 47-49; Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 518, M. André, op. cit., p. 65-67.

3° Commençaments de philosophia (Maiorca, 1300). Esta obra é conservada numa recensão latina, sob o título de Principia philosophiœ complexa, em Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, f° 304, e em Munique, lat. 10 562, 10 575, 10 586, 10 587 e 10 652. O texto catalão está em Munique, ms. Hisp 64, f° 67 e na Ambrosiana, cod. Y, 117, Sup., f° 1-125 r. Ximenès possuía também uma versão castelhana. Este escrito devia ter seis partes ou «círculos», mas Lulle só fez três, «sendo impedido pelo estudo do árabe», provavelmente por suas controvérsias com os mouros de Maiorca, de concluir a obra. O desígnio do autor é reunir numa síntese os primeiros princípios filosóficos e as conclusões que deles decorrem necessariamente, e depois assinalar as questões que se podem propor a respeito deles. «Quero proceder, diz Lulle, segundo os círculos da geometria.» Esse método, ele já o adotara, declara, em seus Commençaments de teulogia, escrito até aqui desconhecido. Os cem primeiros princípios têm por objeto o ser enquanto ser; os do segundo círculo, mais numerosos, dizem respeito aos seres particulares. Essa considerável coletânea de axiomas metafísicos e de deduções incisivas é um esboço de enciclopédia muito curioso. Littré, n. 130; A Rubió, 22.

II. OBRAS LITERÁRIAS. 1° O Blanquerna (Montpellier 1283-1285) é um dos primeiros escritos da Idade Média que realizam, embora de maneira «primitiva, as condições do romance filosófico». Menéndez y Pelayo, Origenes de la novela, Madrid, 1905, t. i, p. lxxii-lxxxviii. O objetivo do autor é expor um plano de organização perfeitamente cristão de todos os estados da sociedade, de modo que não haja mais no mundo «senão uma língua, uma crença e uma fé». Obres, Palma, 1914, t. ix, p. 361. O herói do romance, Blanquerna, primeiro jovem que se quer noivar, depois religioso, bispo, papa e, após sua abdicação, eremita, é levado logicamente por esse procedimento literário a sugerir uma reforma quase integral da vida secular e religiosa, do poder civil e da hierarquia eclesiástica. M. André, op. cit., p. 102-116, Probst, op. cit., p. 27-33. A obra tem grande valor biográfico; fornece também numerosas informações sobre as instituições religiosas e sociais da época. A data de sua composição é geralmente situada por volta de 1283-1285. Contudo, como parece difícil conceber que R. Lulle tenha podido introduzir o episódio da abdicação antes do exemplo dado por Celestino V, o Sr. Gottron propôs recentemente situar a redação do quinto livro por volta de 1295-1296. Neue Literatur zu R. Lull dans Franziskanische Studien, Munster, 1924, t. xi, p. 220. O escrito gozou de grande fortuna. No catálogo de Arias de Loyola figura mesmo uma versão hebraica. Littré, n. 76; A. Rubió, p. 19; S. Galmès et M. Ferra, em Introduction au t. ix des Obres; R. d'Alòs, dans Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, Barcelone, 1913-1914, t. ii, p. 769, 770.

2° O Félix de les maravelles del mon (Paris, 1288-1289), Obras de R. Lull, éd. Rosselló, Palma. 2 vol., pertence, como a obra precedente, ao romance filosófico. Menéndez y Pelayo, Origenes, t. i, p. lxxxiv. «A personagem principal busca ali seu aperfeiçoamento interior na contemplação das maravilhas do mundo», diante das quais se detém sucessivamente. J. Rubió, R. Lull, p. 555. Em razão desse objeto, a obra tem o caráter de uma enciclopédia popular; teologia, física, meteorologia, moral, tudo se mistura. A VIII parte, Do homem, Obras, t. ii, p. 1-335, é um tratado interessante de psicologia. O conjunto é exposto sob forma de diálogo e entremeado de inúmeras anedotas e fábulas. A sétima parte, originalmente distinta, é conhecida sob o título de Llibre de les Besties. No juízo de Menéndez y Pelayo e da maior parte dos críticos espanhóis, A. Rubió, p. 20, o romancista maiorquino inspira-se aqui num livro árabe, o Calila y Dimna, modificando embora notavelmente o quadro e o conteúdo de seus apólogos. Probst, op. cit., p. 253-255, ao contrário, não crê que essa dependência esteja solidamente provada; a seu ver, é provável que R. Lulle tenha escrito antes sob a influência do ciclo satírico do Romance de Renart. Littré, n. 257; M. André, op. cit.. p. 121-127; M. Obrador, R. Lulle, Llibre de les Besties, Barcelone, 1905. (Bibl. populaire — de l'Avenc.)

III. ESCRITOS FILOSÓFICOS. 1° Ars Magna ou Ars compendiosa inveniendi veritatem (Maiorca, antes de 1277), éd. Mayence, t. i. Este escrito, cujo texto catalão está em Munique, A. Rubió, p. 20, é uma das primeiras obras de R. Lulle. Oferece uma exposição completa de seu método, toda ordenada a reduzir os conhecimentos humanos a um pequeno número de princípios e a traduzir todas as relações de ideias por combinações figuradas. Assim como declara o bem-aventurado em seu Lib. de fine, éd. Gottron, p. 91, 92. vinte outras de suas «artes» não têm outro fim senão declarar-lhe os princípios e aplicá-los a matérias diversas «para a exaltação da inteligência». Porque esclarecem bem a unidade do pensamento luliano, citemos suas palavras. Distinctio ista in duas partes sit divisa. Prima est de arte generali aut compendiosa, sive inventiva vel demonstrativa, quae in idem sonant, quia per eadem principia sunt deductae. Secunda est de viginti artibus specialibus descendentibus ab arte generali, quae sunt haec : videlicet arbor scientiae, arbor philosophiae, arbor philosophiae amoris, liber gentilis, liber astronomiae, liber de intellectu, liber de voluntate, liber de memoria, liber de lumine, liber de significatione, liber de investigatione divinarum dignitatum, liber de praedestinatione, liber de nova logica, liber de nova rhetorica, liber de consilio, liber de jure, liber de medicina. liber de descensu et ascensu ipsius intellectus, liber de arte praedicandi, liber etiam de demonstratione facta per æquiparentiam. Littré, n. 1, Avinyo, op. cit., p. 360-367.

2° Lib. principiorum philosophiæ (Maiorca, antes de 1277), éd. Mayence, t. i. Littré, n. 4. 3° Lib. principiorum juris (Maiorca, antes de 1277), éd. Mayence, t. i. Littré, n. 5; Avinyo. op. cit., p. 507. 4° Ars Universalis seu lectura artis compendiosæ (Montpellier, 1277?), éd. Mayence, t. i. Resumo da Arte Magna. Littré, n. 2. 5° A Ars demonstrativa, éd. Mayence, t. i, é datada ordinariamente de Montpellier 1282. A. Rubió, p. 21. Contudo, a Vida, p. 351, parece fixar-lhe a data em 1277. O único texto catalão é conservado no ms. A. I. E. do seminário episcopal de Mogúncia. A. Gottron, L'edicio Maguntina di R. Lull. Barcelone, 1915, p. 82. Ms. em Veneza, São Marcos, 185. a. 250. I. 182, f° 1-68, oferecido por Lulle ao doge Gradenigo. Littré. n. 13.

6° Lib. chaos (Montpellier, 1277), éd. Mayence, t. i. Littré, n. 15. 7° Introductorium artis demonstrativæ, éd. Mayence, t. iii. Este escrito e os cinco seguintes podem ter sido redigidos em Miramar depois de 1277 ou em Montpellier em 1277 e em 1283. Littré, n. 12. 8° Lectura super figuras artis demonstrativæ, éd. Mayence, t. i. Ms. em Veneza, São Marcos, 194. a. 240. I. 168, f° 206. Littré n. 14. 9° Commentum seu compendium artis demonstrativæ, éd. Mayence, t. iii. R. Lulle descreve ali sobretudo o método analítico e dedutivo em uso entre os escolásticos e o chama, de modo bastante feliz, a ascensão e a descida da inteligência. A obra é provavelmente o Coment major dos antigos catálogos e, por conseguinte, deve ter sido escrita originalmente em catalão. A. Rubió, p. 21. Mss. na colegiada de Innichen, VIII B. 10, f° 1-92, VIII, C. 3, f°. 23 e em Veneza, São Marcos, 195. a. 189. I. 138. Littré. n. 16.

10° Ars inveniendi particularia in universalibus, éd. Mayence, t. iii. Ms. em Cortona, Bibl. Com. 215. Littré, n. 17. 11° Lib. propositionum secundum artem demonstrativam, éd. Mayence, t. iii. Mss. em Innichen, VIII. C. 8, f° 187, Munique, lat. 10525, Veneza, Saint-Marc, 189. a. 250. I. 182, f° 161. Littré, n. 18. 12° Lib. exponens figuram elementalem artis demonstrativæ ou Lib. de gradatione elementorum, éd. Mayence, t. iv. Ms. em Roma, Ottob. lat. 1405. Littré, n. 19. 13° Ars inventiva veritatis (Montpellier, 1289), éd. Mayence, t. v. Ms. em Bruxelas, Bibl. royale, lat. 2956. É nesse escrito que Lulle expõe da maneira mais completa a sua filosofia das «passagens transcendentes». A obra foi traduzida para o árabe em Gênova em 1290. R. d'Alós, Los catalogos, p. 71; Littré, n. 34. 14° Quæstiones per artem demonstrativam seu inventivam solubiles (Montpellier 1289?), éd. Mayence, t. iv. Mss. Ottob. lat. 1095, f° 7; Urbin. lat., 1394, f° 10; Bolonha, Bibl. univ., 20; Innichen, VIII. B. 10, f° 97 e VIII C. 3. f° 99. Nesse escrito, Lulle condena a alquimia. Littré, n. 21.

15° Tabula generalis (Tunis-Naples, 1292), éd. Mayence, t. v. Este escrito, cujo texto catalão está em Palma, A. Rubió, p. 21, completa a Ars inventiva e a Ars amativa. Littré, n. 35. 16° Lectura compendiosa tabulæ generalis (Naples 1292?). éd. Mayence, t. v. Littré, n. 37. 17° Lib. de affatu, hoc est de sexto sensu (Naples, Páscoa de 1294), éd. Mayence, t. v. A obra traz erradamente a data de 1304 no ms. 1/17 do colégio Saint-Isidore em Roma. O texto catalão em Munique, ms. Hisp. 60, f°. 93. R. d'Alós, Los catalogos, p. 72; Littré, n. 148. 18° Lectura super artem inventivam et tabulam generalem, éd. Mayence, t. v. A obra foi redigida sob o pontificado de Bonifácio VIII (1294-1303), provavelmente por volta de 1293-1295, segundo Avinyo: é um novo ensaio para tornar mais fácil a Ars inventiva, sobretudo em suas aplicações à teodiceia. O original catalão em Munique, ms. Hisp. 54. A. Rubió, p. 24; Littré, n. 38.

19° O Lib. de anima rationali (Rome, junho de 1296?), éd. Mayence t. vi, é um interessante tratado de psicologia. O texto catalão — extratos em Probst, op. cit., p. 332, 334, Munique, ms. Hisp. 52, f° 1-96 — traz a data de 1296. Existem duas redações latinas do tratado, uma conservada em Innichen. VIII. B. 8, f° 1-31 e datada de 1293, tal como o ms. 89, f° 180 do Merton College de Oxford, a outra representada por vários mss. Munique, lat. 10 513, 10 563, 10 573, 10 586; Innichen, VIII. D. 1, f° 75 e VIII. D. 4; Roma, Bibl. Angelica, cod. 744 (Q. 5. 20), portando a data de 1294. R. d'Alós, Los catalogos, p. 68; J. Rubió, Los codices, p. 314; A. Rubió, p. 22; Littré, n. 41. 20° O Lib. de quadratura et triangulatura circuli (Paris, 1299) é um livro de metafísica. Texto catalão em Munique, ms. Hisp. 58; recensão latina no mesmo lugar, lat. 10 510, 10 543. A. Rubió, p. 25; Littré, n. 160.

21° Brevis practica tabulæ generalis (Paris, janeiro de 1299). O opúsculo, inserido em grande parte na Ars generalis ultima, é conservado em Paris, lat. 6433 e em Oxford, Bodl., Arch. Seld. B. 25. R. d'Alós, Los catalogos, p. 62; Littré, n. 134. 22° Quæstiones atrebatenses (Paris, julho de 1299), éd. Palma, 1746. Coletânea de 50 questões diversas resolvidas por Lulle a pedido de Thomas le Myésier, cônego de Arras. O ms. lat. 15 450 da Bibl. nat. de Paris, onde o opúsculo é conservado, estava em posse deste último. Outros mss. em Innichen, VIII. D. 4, f° 101 e em Cortona, Bibl. Com., 213, f° 105. R. d'Alós, Los catalogos, p. 70; Littré. n. 71. 23° Lib. de homine (Maiorca, nov. de 1300), éd. Mayence, t. vi. O opúsculo estuda o homem, sua vida e sua morte corporal e espiritual; termina com uma longa série de orações. O texto latino se encontra em Innichen, VIII. B. 8, f° 46 e VIII. C. 3, f° 159; o original catalão em Munique, ms. Hisp. 55, f°, 40, e no British Museum, ms. add. 16 431, f° 1-99. A. Rubió, p. 22; Littré, n. 45. 24° Rhetorica nova., (concluída em Gênova, maio de 1303), éd. Strasbourg, 1598 et Paris, 1638. O opúsculo se encontra também frequentemente em ms.: Paris, lat. 6443 c; Vat. lat. 6295; Munique, lat. 10529 e 10544. Littré, n. 74. 25° Logica nova (Gênova, maio de 1303), éd. Valence 1512. Escrito primeiro em catalão, depois traduzido para o latim em Montpellier em julho de 1304, segundo um ms. de Halle, S. Bové, R. Lull y la llengua llatina, p. 87, o opúsculo teve grande voga. Ms. catalão em Munique, ms. Hisp. 56, f° 78; texto latino em Innichen VIII. C. 13, f° 1-37. A. Rubió, p. 23; Littré, n. 56. 26° O Lib. de modo applicandi novam logicam ad scientiam juris et medicinœ é o complemento da obra precedente. Mss. em Munique, lat. 10 538, 10 594, e em Veneza, São Marcos, 191. a. 230. I. 160, f° 30. Littré, n. 167.

27° Lib. de intellectu (Montpellier, janeiro de 1304). Ms. em Paris, lat. 16 116, 16 615, f° 7, e Cortona, Bibl. com., 213, f° 45. Littré, n. 140. 28° Lib. de voluntate (Montpellier, janeiro de 1304). Mss. em Paris, lat. 16 116, f° 10 e em Innichen, VIII. B. 14, f° 102. Littré, n. 141. 29° Lib. de memoria (Montpellier, início de fevereiro de 1304?). Mss. em Paris, lat. 16 116, f° 18 e em Innichen, VIII. B. 14, f° 90. Littré, n. 142. 30° Lectura artis quæ brevis practica tabulæ generalis intitulata est (Gênova, fevereiro de 1304), éd. Mayence, t. v. R. d'Alós, Los catalogos, p. 62, 71. Littré, n. 36. 31° Lib. de significatione (Montpellier, abril de 1304?). Esta obra, citada no Lib. de investigatione vestigiorum productionis divinæ, escrito, nessa data, na capital do Languedoc, se encontra em Cortona, Bibl. Com. 212, f°. 1-100. Littré, n. 228. 32° Ars juris naturalis (Montpellier. 1304). Mss. em Munique, lat. 10 514 e nos cod. 83 e 86 da bibl. do cardeal de Cuse. R. d'Alós, Los catalogos, p. 10, 65-66. 33° O Lib. de ascensu et descensu intellectus (Montpellier, março de 1305), éd. Valence, 1512, Palma, 1744, é um dos escritos mais importantes de R. Lulle. Mss. à Innichen, VIII. B. 10, f° 205, VIII. B. 12, f° 41, VIII. D. 4, f° 49, et à Venise, Saint-Marc, 193. a. 252. I. 177. J. Rubió, Los codices, p. 318; Littré, n. 62. 34° Ars brevis quæ est de inventione mediorum juris ou Ars brevis juris civilis (Montpellier, janvier 1308); l'opuscule, présenté à Clement V, R. d'Alós, Los catalogos, p. 72, est à Paris, lat. 14 713, lat. 17 826, et à Munich, lat. 10 535, 10 536, 10 576, 10 583, 10 654 et 10 658. Littré, n. 168.

35° Lib. de venatione substantiæ, accidentis et compositi (Montpellier, fevereiro de 1308). Obra em 10 capítulos sobre os predicamentos e a conversão das proposições. Mss. em Paris, lat. 14 713, Munique, lat. 10 562 e Innichen, VIII. D. I, VIII. C. 8. Littré, n. 139. 36° Lib. ad memoriam confirmandam (Pise, 1308). Opúsculo conservado em Paris, lat. 17 839, f° 437 e em Munique, lat. 10593. Littré, n. 143. 37° Ars generalis ultima, éd. Venise, 1480. O escrito, começado em Lyon em 1305, foi concluído em Pisa em 1308; é a síntese final da lógica e do método luliano. Probst, op. cit., p. 56-58. Excelentes mss. se encontram em Innichen, VIII. C. 11. f° 1-107 e VIII. C. 13, f° 175. Tradução francesa por De Vassy, Le grand et dernier art de M. R. Lulle, maistre ès arts libéraux, Paris, 1634. Littré, n. 51. 38° L'Ars brevis quæ est imago artis generalis (Pisa, janeiro de 1308), éd. Palma, 1744, teve grande difusão. O texto românico é conservado na Ambrosiana, cod. O. 87. Sup. e a tradução latina em Innichen, VIII. C. 11, f° 112, Bolonha, Bibl. univ., 522, f° 83, Roma, Urbin. lat. 1442, f° 102. A. Rubió, p. 23. Littré, n. 50.

39° Lib. de novis fallaciis (Montpellier, out. de 1308). Ensaio sobre os sofismas desconhecidos de Aristóteles. Mss. em Paris, lat. 15 096, 15 450, 16 116, 17 827, Munique, lat. 10563, Veneza, São Marcos, 191. a. 230. I. 160, f° 1-26, e Innichen, VIII. C. 8, f° 59. Littré, n. 150. 40° Tractatus de experientia realitatis artis generalis (Montpellier, novembro de 1308). Este tratado se encontra em Paris, lat. 15 095, f° 32, 15 450, f° 236, 16 116 e 17 827. Termina com uma carta em que Lulle enumera vários de seus escritos apologéticos e que se encontra à parte em Paris, lat. 15 450, f° 495. Segundo Avinyo, op. cit., p. 519, trata-se aí também de santo Tomás de Aquino e de Ricardo de Mediavilla. Littré, n. 135. 41° Lib. de perversione entis removenda (Paris, dezembro de 1309). Mss. em Paris, lat. 14 713, 16 111, 17 824, em Munique, lat. 10 567, 10 584 e em Innichen, VIII. B. 11, f° 145, VIII, C. 3, f° 93. Littré, n. 158. 42° Metaphysica nova (Paris, janeiro de 1310), éd. Paris, 1516. Ms. em Innichen, VIII. C. 13, f° 71. Littré, n. 61. 43° Lib. de ente reali et rationis (Viena, dezembro de 1311), éd. Palma, 1745. Ms. em Veneza, São Marcos, 192. a. 240. I. 173, f° 1-36. Littré, n. 69.

44° Lib. de quinque principiis quæ sunt in omni quod est (Maiorca, agosto de 1312). Ms. em Munique, lat. 10 495. Guillaume Pages, sacerdote e mestre regente da escola de gramática de Mallorca, fez dele uma tradução em 1316. R. d'Alós, Los catalogos, p. 80; Littré, n. 161. 45° Lib. de medio naturali (Messina, outubro de 1313). O opúsculo é conservado no Ottob. lat. 405, f° 32 e no Ottob. lat. 1405, no cod. VIII. B. 13, f° 96 de Innichen e no ms. lat. 10517 de Munique. 46° O Lib. de creatione (Messina, dezembro de 1313) se encontra no Ottob. lat. 1405, f° 106, em Munique, lat. 10517 e em Montpellier, cod. 165 da Escola de medicina. Littré. n. 222. 47° Lib. de quinque prædicabilibus et decem prædicamentis (Messina, dezembro de 1313), éd. Palma, 1740. Mss no Ottob. lat. 1405 e 1624 e em Paris, lat. 15 450, f° 549. Littré. n. 59. 48° Lib. de affirmatione et negatione (Messina, fevereiro de 1314). Mss. no Ottob. lat. 405, f° 145 e em Munique, lat. 10 517. Littré. n. 153. 49° Lib. de quæstionibus per quem modus artis demonstrativæ patefit. Este escrito, redigido em data desconhecida, assim como os três seguintes, é atribuído a Lulle no ms. lat. 16 114 da Bibl. nat. de Paris. Littré, n. 138, hesita, porém, em aceitar a legitimidade dessa atribuição.

50° Ars juris, éd. Palma, 1745. Mss. em Innichen, VIII. C. 8, f° 177 e em Saint- Isidore em Roma, cod. 1/ 108, f° 48. Littré, n. 73. 51° Lib. de convenientia subjecti et prædicati per medium, éd.

Strasbourg, 1617. Littré, n. 64. 52° Logica brevis et nova, ed. Strasbourg, 1598. Littré, n. 57. 53° Logica parva, ed. Alcalá, 1518. Littré, n. 58.

IV. OBRAS TEOLÓGICAS E APOLOGÉTICAS. 1° Lib. principiorum theologiæ (Maiorca, antes de 1277?), ed. Mogúncia, t. i. Neste escrito, R. Lúlio prova os princípios primeiros que estão na base de sua apologética e lhe permitirão estabelecer em seguida o conjunto das verdades reveladas. Pasqual, Vindiciæ, Diss. de methodo, t. i, p. 26; Littré. n. 3.

2° Lib. mirandarum demonstrationum (Maiorca, antes de 1277), ed. Mogúncia, t. ii, Littré, n. 10. Este escrito, o primeiro das obras apologéticas de R. Lúlio, está dividido em quatro livros, compreendendo cada um cinquenta capítulos. No primeiro, Lúlio estabelece que a razão humana não tem apenas a faculdade de aceitar passivamente os dogmas, mas também a de ter deles a inteligência em certa medida, attingens non comprehendens. Os outros livros têm por objeto a existência de Deus, o mistério da encarnação e o dogma da Trindade. A obra, redigida primeiro em catalão, A. Rubió, p. 23, é de uma beleza real. Pela primeira vez, Lúlio dá a si mesmo o título de procurador dos infiéis » numa passagem que é preciso citar : Domine, ego qui noviter sum factus procurator appetitus Infidelium, quibus gloriosa Incarnatio nostri Domini Jesu Christi ita naturaliter est appetibilis per recreationem, sicut supremum bonum est appetibile inferiori per creationem et conservationem, ego confidens in adjutorio et in benedictione Filii Dei vivi, conabor, quantum potero, ut per rationes necessarias possim demonstrare sanctum, mirabilem adventum Filii Dei, etc. Lib. IV, t. ii, p. 165.

3° Lib. de Sancto Spiritu (Maiorca, antes de 1277), ed. Mogúncia, t. ii. Obra consagrada a estabelecer a pro cessão do Espírito Santo ab utroque contra os gregos Golubovich, op. cit., p. 378. Littré, n. 8.

4° Lib de gentili et tribus sapientibus (Maiorca, antes de 1277), ed. Mogúncia, t. ii. A obra, escrita primeiro em árabe, foi traduzida em seguida para o catalão; ed. Rosselo, Obras, Palma, 1901, p. 3-305. Existem ainda dela recensões românica, latina e francesa. Em contrapartida, a tradução hebraica está perdida; assim também o texto original árabe, que se encontrava ainda na Escola Luliana de Barcelona em 1446. R. d'Alós, Los catalogos, p. 54. No quadro de um romance, três sábios, um judeu, um cristão e um sarraceno expõem amigavelmente seus credos religiosos em presença de um pagão. Assiste-se assim ao conflito das grandes religiões que então partilhavam o mundo. O livro tem alto valor histórico, pois, na opinião de sábios distintos, Golubovich, op. cit., p. 376, a exposição da teologia muçulmana que estas páginas contêm é de uma pena que conhece a fundo as correntes teológicas árabes. Seu mérito literário não é menos considerável. Menéndez y Pelayo, Origenes; t. i, p. lxxiii, coloca com efeito o Lib. de gentili nas origens do espanhol. Segundo esse crítico sábio, Lúlio ter-se-ia inspirado num tratado de Judas Levi, o Curzari; apesar das reservas de Probst, op. cit., p. 228, esse parecer parece solidamente fundado, visto que o próprio Lúlio reconhece essa dependência, no que concerne ao método, sequens modum libri arabici de gentili. Reminiscências do Liber de gentili. encontram-se frequentemente na literatura espanhola, notadamente no Livro dos Estados de Dom Juan Manuel, no Sommi de Bernat Metge e no De veritate fidei de Luís Vives. A. Rubió, p. 19; M. André, op. cit., p. 73-85; Golubovich, p. 375-378; Littré, n. 7.

5° Liber de angelis (Maiorca, antes de 1277). O texto catalão está em Munique, ms. Hisp. 55. Probst, op. cit., p. 329-332, publicou dele um fragmento. A tradução latina (1307) conserva-se no ms. lat. 10503 da mesma cidade. A. Rubió,p. 23; Littré, n. 240.

6° O Libre de definicions (Maiorca, antes de 1277?) só era conhecido por uma citação do Doctrina puéril. M. Obrador descobriu dele um ms. na Ambrosiana, cod. O. 87, Sup., f° 81-96. A. Rubió, p. 21.

7° Lib. de XIV articulis sacrosanctæ romanæ Ecclesiæ (depois de 1277), ed. Mogúncia, t. ii. Mss. em Innichen, VIII. B. 11, f° 1-108 e em Veneza, São Marcos, 189. a. 250. I. 182, f° 68. Littré, n. 11.

8° Lib. super psalmum « Quicumque vult » (Roma 1285, segundo Avinyo, op. cit., p. 512), ed. Mogúncia, t. iv. Opúsculo notável em que R. Lúlio refuta o naturalismo fatalista e astrológico dos tártaros e lhes expõe o símbolo pseudo-atanasiano. Mss. em Munique, lat. 10 525 e em Veneza, São Marcos, 115. a. 273. I. 190 e 189. a. 250. I. 182, f° 179. Golubovich, p. 378-380; Littré, n. 23.

9° Disputatio fidelis et infidelis (Paris, 1288-1289?), ed. Mogúncia, t. iv. Lúlio, em sua qualidade de procurador dos infiéis, dirige-se aqui aos mestres da Universidade parisiense, expõe-lhes sua maneira de apresentar a fé aos incrédulos e pede-lhes que a aprovem « a fim de que a luz da suprema ciência e da vida honesta, jorrando de Paris, ilumine o mundo inteiro e o conduza ao conhecimento e ao amor de Deus ». Golubovich, p. 380; Littré, n. 24.

10° Lib. contra Antichristum (Montpellier, 1289-1290, segundo Pasqual). O texto catalão desta obra está em Munique, lat. 10 593, f° 15, a tradução latina em Paris, lat. 15 450, f° 354, em Munique, lat. 10497, 10565, 10578 e na Ambrosiana, N. 250, sup., f° 47. A. Rubió, p. 24; Littré, n. 239.

11° Quæstiones quas fecit quidam frater minor (Montpellier, 1289-1 290?). Esta coletânea de 32 questões encontra-se em Paris, lat. 15 450, f° 410 e em Munique, lat. 10 563, 10 582 e 10 652. Golubovich, p. 366; Littré, n. 223.

12° O Fons divinalis paradisi (a caminho de Gênova, 1290, segundo Avinyo, op. cit., p. 513) é um ensaio sobre a pluralidade dos sentidos da Escritura. Mss. em Paris, lat. 3446 a, f°. 146, 15097, f° 144, 17 827, f° 361 e em Munique, lat. 10 552. Uma leve dúvida paira sobre sua autenticidade. R. d'Alòs, Los catalogos, p. 73; Littré, n. 237.

13° O Lib. de quinque sapientibus (Naples, 1295), ed. Mogúncia, t. ii, é a síntese mais compreensiva da apologética luliana. O autor discute sucessivamente com sábios grego, nestoriano. jacobita e maometano; estabelece o dogma da procesil são do Espírito Santo, da divindade de Cristo e de sua dualidade de natureza: ao contrário do Corão, prova a encarnação e a Trindade. Toda a argumentação procede secundum dignitates Dei. É neste escrito que R. Lúlio emite a previsão de que os árabes converterão os tártaros ao maometismo e submeterão o império grego de Constantinopla. Golubovich, p. 373. O texto catalão desta grande obra, longamente desconhecido, foi reencontrado por Obrador em Munique, ms. Hisp. 60, f 35. A. Rubió, p. 20. Littré, n. 9.

14° Lib. de articulis fidei sacrosanctœ et salutiferœ legis christianœ sive liber Apostrophe (Anagni, junho de 1296), ed. Mogúncia, t. iv. A recensão catalã desta obra está em Munique, ms. Hisp. 52, f° 99; o texto latino original difere do da edição de Salzinger e se encontra em Innichen, VIII. B. 9, f° 118, Friburgo, Bibl. des Conv., cod. 23. j. 60, f° 73, Veneza, São Marcos, 115. a. 273. I. 190. f° 73 e 190. a. 290. I, 212, f° 76 e em Roma. Vat. lat. 1054 e Urbin. lat. 1506. O escrito é precedido de uma dedicatória em vois latins a Bonifácio VIII. Exerceu influência notável sobre a Théologie naturelle de Raymond de Sabunde. A. Rubió, p. 21; J. Rubió, Los codices, p. 310, 317; Littré, n. 27.

1098 15° O De gradibus conscientiæ (Paris, dezembro de 1297 segundo Avinyo) está sob o nome de Lúlio em Paris, Bibl. nat., lat. 15 097 e Bibl. Mazarine, 1390 e 2155, em Innichen, VIII. B. 13, f° 13. Littré, n. 162, duvida no entanto de sua autenticidade.

16° Disputatio Eremitae et Raymundi super aliquibus dubiis quœstionibus sententiarum magistri Petri Lombardi (Paris, agosto de 1298), ed. Mogúncia. t. iv. Nessas questões sobre O livro das sentenças encontra-se afirmada, se não explicada de maneira perfeita, a Imaculada Conceição, provavelmente pela primeira vez em Paris. Mss. em Roma, Vat. lat. 1442 e Urbin. lat. 1394, f° 91 e 1442 e em Oxford, Merton College, cod. 89. Littré, n. 22.

17° O tratado Utrum illud quod est congruum in divinis ad necessariam probationem possit reduci, salvo mysterio fidei (Paris, 1299 segundo Avinyo) está em Munique, lat. 10497, f° 66. Littré, n. 227.

18° Lib. de est Dei (Maiorca, setembro de 1300). ed. Rossello, Obras, Palma, 1901, p. 439-480. Opúsculo sobre Deus e seu atributo primeiro, a aseidade. A tradução latina, ainda inédita, está em Paris, Bibl. nat., lat. 15 615, f° 54, 17 829 e em Munique, lat. 10 589. Não se sabe se R. Lúlio realizou seu projeto de traduzi-lo para o árabe. A. Rubió, p. 24. Littré, n. 174.

19° O Lib. de cognitione Dei (Maiorca, outubro de 1300), ed. Rossello, Obras, p. 375-435, é um novo ensaio de R. Lúlio para tornar aceitáveis aos judeus e aos sarracenos os mistérios da Trindade e da Encarnação. A versão latina se encontra em Paris, lat. 16 615, f° 44 e em Roma, Urbin. lat. 1506, f°. 64. A. Rubió, p. 25; Littré, n. 175.

20° Lib. de Deo et Jesu Christo (Maiorca, dezembro de 1300), ed. Mogúncia, t. viii. O texto catalão foi editado por Rossello, Obras, p. 271-371. Este tratado é um resumo claro e metódico de tudo o que a fé ensina sobre a Trindade e Jesus Cristo; termina com orações às cinco chagas que são uma pura joia da literatura mística do xiii século. A. Rubió, p. 25; Littré, n. 47 e 176.

21° O opúsculo Libre que deu hom creure de Deu (Armênia, 1301) é uma explicação catequética dos principais artigos de fé. Texto catalão em Munique. lat. 10 516, f° 91. A recensão latina parece perdida. A. Rubió, p. 25; Littré, n. 177.

22° Disputatio fidei et intellectus (Montpellier, outubro de 1303), ed. Mogúncia, t. iv. A obra que R. Lúlio se propõe submeter ao exame das Universidades de Paris, Toulouse, Nápoles, Montpellier, expõe sua concepção das relações da razão e da fé. Lembrando os russos e os valáquios, queixa-se uma vez mais de que não se tenham instituído seminários de línguas orientais. Golubovich, op. cit., p. 381. Excelentes mss. em Innichen, VIII. B. 34, VIII. B. 11, f° 158, VIII. C. 3, f° 185, e em Roma, Vat. lat., 9349, f° 121. Littré. n. 26.

23° Lib. ad probandum aliquos articulos fidei per syllogisticas rationes (Gênova, fevereiro de 1304). Mss. em Paris, lat. 6443 c, f°. 48. 15 385, f° 72, em Munique, lat. 10 497, 10 594, Roma, Vat. lat. 9344, f° 138 e em Innichen. VIII. C. 8, f° 87. O escrito é provavelmente o mesmo 8, que o Lib. de sex syllogismis, mencionado no testamento de Lúlio. R. d'Alòs, Los catalogos, p. 52; Littré, n. 218.

24° Lib. de Investigatione vestigiorum productionis personarum divinarum (Montpellier, abril de 1304), Mss. em Roma Ottob. 1095 e em Munique, lat. 10 810 e lat. 10595. Littré, n. 20

25° Ars magna prædicationis (Montpellier, dezembro de 1301). Mss. em Paris, lat. 15 385, em Munique, lat. 10 521 e em Innichen, VIII. B. 16, f° 61-231. A compilação tem 100 sermões. J. Rubió, Los codices, p. 329. e não 58, como o diz Littré, n. 246.

1099 26° Lib. de Trinitate et unitate permansive in essentia Dei (Montpellier, abril de 1305?). Littré, n. 208, data esta obra de abril de 1310; o ms. 1/110, f° 39 do colégio Santo Isidoro em Roma, se sua leitura difícil não me induz em erro. indica bem o ano de 1305. Ms. em Paris, lat. 3446 a, f° 122, Maz. 2155 e em Munique, lat. 10 597. Littré, n. 208.

27° Lib. de demonstratione per œquiparantiam (Montpellier, março de 1305), ed. Mogúncia, t. IV. Exposição da demonstração luliana pela igualdade e pela compenetração dos atributos divinos. Dentre os numerosos mss. em que esta obra se conserva, assinalemos apenas l'Ottob. Lat. 1095, f° 131, o ms. 1/110, f° 17 do colégio Santo Isidoro, o cod. VIII. B. 14 de Innichen. O ms. lat. 10507 de Munique traz esta nota interessante Januam domino Spinola : Iste liber mittitur Perseval ex parte mag. R. Lulli. R. D'Alòs, Los catalogos, p. 68; Littré, n. 30.

28° Lib. de prædestinatione et libero arbitrio (Montpellier, abril de 1305). Mss. em Paris, lat. 15450. f° 442, Veneza, São Marcos, 194. a. 240. I. 268, f° 276 e Innichen, VIII. C. 17 e VIII. C. 11, f° 144, Roma Bibl. Casanat., cod. 144. Littré, n. 224.

29° Disputatio Raymundi christiani et Hamar sarraceni (Pisa, 1308), ed. Mogúncia, t. iv. Esta obra, redigida primeiro em árabe em Bugia, depois em latim após o naufrágio de Pisa, 1306, contém o relato das controvérsias de Lúlio com um doutor sarraceno e, por conseguinte, não carece de interesse para a história comparada das religiões nessa época. A discussão versa sobretudo sobre a Trindade e a encarnação. Golubovich, p. 383-385. Lúlio apresentou este trabalho a Bonifácio VIII, mas sem resultado aparente. Littré, n. 25.

30° O Lib. clericorum (Pisa, maio de 1308), é um catecismo elementar para uso dos clérigos pouco instruídos. A edição crítica de Palma, Obres, t. i, p. 295, dá dele o texto latino assim como uma adaptação francesa.

Littré, n. 78.

31° O Lib. de centum signis Dei (Pisa, maio de 1308), dividido em 20 partes, enumera uma série de cem símbolos que nos revelam o ser íntimo de Deus. Mss. em Paris, Bibl. nat., lat. 14 713, 15 096, f° 130, Bibl. Mazarine, 2155 e em Munique, lat. 10 567 e 10 584. Littré. n. 180.

32° A Ars Dei ou Ars divina (Montpellier, fim de maio de 1308) é uma obra considerabilíssima em trinta distinções. Mss. em Paris, Bibl. nat., lat. 14 713, 15 095, f°. 154, Bibl. Maz., 2158, Arsenal, 725; e em Munique, lat. 10515, 10567, R. d'Alós, Los catalogos, p. 72. Littré, n. 181.

33° O opúsculo De æqualitate actuum potentiarum animæ in beatitudine (Montpellier, 1308 segundo Avinyo), citado na Ars mistiva (1309) está conservado no l'Ottob. lat. 1095, f° 123.

34° O Lib. de majori agentia Dei (Montpellier, março de 1309), desconhecido de Pasqual, Salzinger e Littré, está no l'Ottob. lat. 892. R. d'Alós, Los catalogos, p. 73.

35° O Lib. de convenientia fidei et intellectus (Montpellier, março de 1309), ed. Mogúncia, t. iv, expõe as concepções de R. Lúlio sobre as relações da razão e sobre a impossibilidade do sistema averroísta das duas verdades. Esta obra é datada de 1304 no ms. lat. 10 517 de Munique, e de 1308, estilo antigo, nos outros mss. Munique, lat. 10 497, 10 594, 10 538, Roma, Vat. lat. 9344, f° 118, Innichen, VIII. B. 13, f° 24. J. Rubió, Los codices, p. 323. Outras cópias se encontram no l'Ottob. lat. 1095, f° 127 e em Santo Isidoro, ms. 1/110, f° 24. Littré, n. 29.

36. O Lib. de propriis et communibus actibus divinarum rationum (Montpellier, abril de 1309) trata particularmente da Trindade e da processão das Pessoas divinas. Mss. em Paris, lat. 16 116, f° 100, 15450, f° 550 e em Munique, lat. 10 565, 10 583. Littré, n. 207.

37° A Supplicatio sacræ theologiæ professoribus ac baccalariis studii Parisiensis (Paris, 1310), ed. Mogúncia, t. iv, expõe quarenta argumentos em favor da Trindade e da Encarnação e pede aos mestres parisienses que os aprovem. Golubovich, p. 386; Littré, n. 28.

38° Lib. de ente infinito (Paris, fevereiro de 1310). Mss. em Munique, lat. 10567 e em Paris, lat. 14 713, 16 111, f° 196. Littré n. 199.

39°. Lib. de prædestinatione et præscientia (Paris, abril de 1310). Mss. em Paris, Bibl. nat., 15 450, f° 425, lat. 14 713, 15 097, 16 111, 2446 a, 16 615 e Bibl. Maz., 1390 e 2155. Littré, n. 225.

40° Lib. correlativorum innatorum (Paris, fevereiro de 1311), ed. Palma, 1744. Este ensaio sobre os atributos divinos e sua relação mútua está também em Innichen, VIII. B. 9, f° 137. Littré, n. 63.

41° O Lib. de divina unitate et pluralitate (Paris, março de 1311), dedicado a Filipe, o Belo, encontra-se em Munique, lat. 10 554, 10 588 e em Innichen, VIII. B. 11, f° 109 e VIII. C. 3, f° 73. Littré. n. 183.

42° Lib. facilis scientiæ (Paris, junho de 1311), ed. Mogúncia, t. iv. Ms. em Innichen, VIII. C. 8, f°. 164. Littré, n. 31.

43° Quæst. super librum facilis scientiæ (Paris, junho de 1311), ed. Mogúncia, t. iv, Littré. n. 32.

44° O tratado De ostensione per quam fides catholica est probabilis atque demonstrabilis, conservado em Munique, lat. 10 517, foi verossimilmente redigido em Paris entre 1309-1311. Littré, n. 216.

45° De ente simpliciter absoluto (Viena, março de 1312). Mss. em Innichen, VIII. B. 11, f° 154 e VIII. C. 3, f° 192, em Munique, lat. 10 592 e no Colégio Santo Isidoro, cod. 1/119, f° 1-18. Littré, n. 201.

46° De locutione angelorum (Montpellier, maio de 1312). Ms. em Munique, lat. 10 495, f° 223. Littré, n. 241.

47°. Lib. differentiæ correlativorum divinarum dignitatum (Maiorca, julho de 1312). Esta obra de controvérsia, dedicada a Frederico II, rei da Sicília, está em Paris, lat. 17 829, f°. 268, em Munique, lat. 10 425, f° 210, 10 594 e em Roma, Vat. lat. 9344, f° 116, Ottob. lat. 1095, f°. 129. Littré, n. 209.

48° O De secretis sacratissimæ Trinitatis et Incarnationis (Maiorca, setembro de 1312), escrito primeiro em árabe, foi traduzido em seguida para o catalão por R. Lúlio. Segundo Littré, n. 205, e Bofarull, teria sido redigido em 1302, mas o l'Ottob. lat. 409 o data de 1310 e o ms. lat. 10 596 de Munique de 1312. Na opinião de L. Delisle e de R. d'Alós, Los catalogos, p. 50, esta última data é muito provavelmente a verdadeira.

49° O Lib. de novo modo demonstrandi, éd. Mogúncia, t. iv, foi oferecido a Frederico II, rei da Sicília. Mais provavelmente foi composto em Maiorca, em setembro de 1312, embora outras indicações o situem em Montpellier, outubro, 1312. R. d'Alós, Los catalogos, p. 80. Ms. em Roma, Ottob. lat. 409. Littré, n. 33.

50° A Arte de confessio. Sob este título diversos escritos de valor desigual são atribuídos a Lúlio e grande confusão reina nos antigos catálogos. Parece agora assente que Raimundo escreveu em Maiorca, em 1312, um tratado sobre esse assunto, dito o Liber qui continet confessionem, conservado atualmente nos mss. 1 144 e 1 108, f°. 45 do colégio Santo Isidoro. Littré. n. 245, duvida sem razão de sua autenticidade. R. d'Alós, Los catalogos, p. 79. Em contrapartida, o Liber de confessione assinalado por Littré, n. 244, é duvidoso e mesmo seguramente apócrifo segundo M. d'Alós e M. Obrador, que deu a edição de sua versão catalã nas Obres, t. i, p. xxv, 389-410.

51° A Ars major prædicationis (Maiorca, janeiro de 1313) é uma compilação de 182 sermões. R. d'Alós, Los catalogos, p. 52, 79, 80, conseguiu reconstituir todas as suas partes. Compreende 1. o Lib. de vitiis et virtutibus cujo texto latino está em Munique, lat. 10 495, 10 587 e texto catalão na mesma cidade, lat. 10 497; o 2. o De septem sacramentis Ecclesiæ cujas cópias existem em Paris, lat. 15 450, f° 495 e em Munique, lat. 10 495, 10 564, 10 576. Littré, n. 231; 3. depois as seguintes coletâneas Sermones de decem præceptis, De septem donis Spiritus Sancti, Expositio super Pater noster. Expositio super Ave Maria, De operibus misericordiæ sermones, todos contidos no ms. lat. 10495 de Munique.

52° O Lib. per quem poterit cognosci quæ lex sit magis bona (Maiorca, fevereiro de 1313) é um manual de apologética popular, feito para os mercadores e os navegantes que vão aos sarracenos da A- frica. Mss. em Paris, lat. 15 450, 16 116, em Munique, lat. 10 495, 10 579, 10 594, 10 655 e em Roma, Vat. lat. 9344, f° 108, e em Santo Isidoro, cod. 1/ 108, f° 78. Littré, n. 219.

53° Ars brevis prædicationis (Maiorca, fevereiro de 1313). O texto catalão do opúsculo está em Munique, lat. 10497, f° 140. Existem dele duas traduções latinas diferentes, uma em Munique, lat.

10 495 e 10 591 sob o título de Ars prœdicabilis, a outra em Innichen VIII. C. 13, f° 52 e VIII. D. 4, f° 150. J. Rubió, Los codices, p. 335, 338. Outro ms. em Cortona, Bibl. communale, 214, f° 77.

54° Lib. de virtute veniali atque vitali et de peccatis venialibus et mortalibus (Maiorca, abril de 1313). Mss. em Munique, lat. 10 495 e 10 589. M. Bofarull vê erroneamente dois opúsculos nesta obra. R. d'Alòs, Los catalogos, p. 51. Littré, n. 250.

55° Lib. de compendiosa contemplatione (no mar, a caminho de — Messina, maio de 1313). Mss. no l'Ottob. lat. 405, f° 1-5 precioso códice — em parte autógrafo descoberto por R. d'Alòs, o Ottob. lat. 1405 e em Innichen VIII. B. 13. R. d'Alòs, El manoscritto ottoboniano lat. 405, p. 103.

56° Lib. de consolatione eremitani. O texto catalão do opúsculo datado de agosto de 1313 encontra-se no cod. II. 8. Inf. da Ambrosiana e nos mss. add. 16 432, f°. 18 e 16 431, f° 121, do British Museum. P. Barnils y Giol fez dele uma edição pouco crítica segundo um ms. tardio no Boletin de la Real Academia de Barcelona, 1914, t. vi. p. 184-195. O Ottob. lat. 405, f° 80, traz à margem Iste liber est translatus in arabo. A versão latina, datada de maio de 1314, foi editada por R. d'Alòs, El manoscritto, p. 114-127. A. Rubió, p. 30. Littré. n. 260.

57° De definitionibus Dei (Messina, setembro de 1313). Cópias no l'Ottob. lat. 405, f° 7, l'Ottob. lat. 1405 e em Innichen. VIII. B. 13, f°. 121.

58° Lib. de accidente et substantia per modum novum (Messina, outubro de 1313), ed. Valência 1510. Mss. em Roma, Ottob. lat. 405, f° 11, e em Santo Isidoro, cod. 1/110, f° 34, e 1/71, f° 46, em Innichen. VIII. C. 11, f° 152, Paris, lat. 15 450, f° 503. Segundo o l'Ottob. lat. 405, foi escrito primeiro em árabe. R. d'Alòs, El manoscritto, p. 103. Littré, n. 66. —

59° Diversos tratados escritos em Messina, 1313-1314. 1. De ente absoluto (outubro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 15, 1278 et 1405, em Paris, Bibl. nat., lat. 3446 a, f° 174, Bibl. Mazar, 2155, em Innichen, VIII. B. 13, f° 108. Littré, n. 202. 2. De actu majori (outubro de 1313). Ottob. lat., 405, f° 18 et 1405, Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, f° 33, Bibl. Mazar., 2155; Munique, lat., 10 564, 10 579. Littré, n. 238. 3. De divinis dignitatibus infinitis et benedictis (outubro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 22 et 1405. 4. Lib. propter bene intelligere, diligere et possificare (outubro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 26, et 1405; Innichen, VIII. B. 13, f° 1-4 (recensão diferente) e f° 102-108. J. Rubió, Los codices, p. 321, 335. 5. De scientia perfecta (novembro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 39 et 1405; Munique, lat. 10 517. Littré, n. 159. 6. De infinita et ordinata potestate (novembro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 43, 704, — 1405; Innichen, : VIII, B. 13, f° 112. Littré, n. 188. 7. Lib. de minori loco ad majorem (mesmo mês). Mss. Ottob. lat. 405, f° 57, Munique, : 1405; Paris, lat. 15 450, f°. 350; — lat. 10 517, 10 564, 10 582.

Littré, n. 156. 8. De infinito esse (nov. de 1313). Mss. Ottob. 204.— lat., 405, f° 61 e Munique, : De lat. 10 517. Littré, n. 9. trinitate trinitissima (novembro de 1313). Mss. Ottob. — lat. 405, f° 65 e Munique, : De lat. 10 517. Littré, n. 210. 10. sanctitate Dei (novembro de 1313). Mss. Ottob. lat. 405, f° 69-72 — e Munique, : 1405; lat. 10 517, f° 41. Littré, n. 187. 11. De divina unitate (novembro de 1313). Mss. Ottob. lat. 73 1405; desconhecido : Los 405, f° e — até R. d'Alós, catalogos, p. 84. 12. De inventione Dei. Mss. — Ottob. 77 : lat. 405, f° e Ottob. lat. 1405. Littré, n. 186. 13. De divina natura (dezembro de 1313). Mss. Ottob. — lat. 95 Munique, 10 : 405, f° e lat. 517. Littré, n. 190. 14. De essentia et esse Dei. Mss. Ottob. lat. 405, f° 99-105, — 1405; Munique, : 654, lat. 10 517. Littré, n. 189. 15. De concordantia et contrarietate. Ensaio para estabelecer o acordo do dogma da Trindade e da encarnação. Mss. Ottob. lat. 405, f° 110 e 1405; Paris, lat. 15 450; — : M. Munique, 10 517, 10 564, 10 576. Littré, n. 221. 16. De Deo majore et minore (janeiro de 1314). — Ms. em Munique, lat. 10 517, f° 651. Littré, n. 192. 17.

De potestate pura. Mss. Ottob. lat. 405, f° — 114-127 e 1405, Munique, : De lat. 10 517. Littré, n. 198. 18. intelligere Dei. Mss. Ottob. — lat. 405, f° 128-132, Munique, lat. : De 10 517. Littré, n. 191. 19. voluntate Dei infinita et ordinata (janeiro de 1314, e não 1312). Mss. Ottob. 15 Munique, : lat. 405, f° 133; Paris, lat. 450, f° 552; lat., 10 565, 10 580, 10 584 e 10 715. Littré, n. 193.— 20. De — justitia Dei. Mss. Ottob. lat. 405, f° 155. Littré, n. 194. 21. De fine et majoritate (fevereiro de 1314). Mss. : Ottob. lat. 405, f° 161 Paris, lat. 15 — 450, f° 517; Munique, 564,10 ; De lat. 10 517. Littré, n. 243. 22. vita divina. Mss. Ottob. lat. 405, -— f° 165; Munique, lat. 10 517, : f° 21. Littré, n. 178. 23. Lib. de perfecto esse (março de 1314). Ottob. lat. — 405, f° 168 e Munique, lat. 10 517, Littré, n. 203. 24. De objecto finito et infinito. Fragmento no l'Ottob. lat. 405, f° 175-181 texto completo no 10 de Munique. ; - o lat. 517, f° 30, Littré, n. 154. 25. De divina memoria. Mss. Ottob. lat. 405, — f° 182 e Munique, : lat. 10 517, f° 22. Littré, n. 195. 26. Lib. de multiplicatione quæ fit in essentia Dei per divinam Trinitatem (abril de 1314). — Mss. Ottob. lat. 405. f° 186 e Munique, De : lat. 10 517. — 27. perseitate Dei. Ottob. lat., 405, f° 190-193. 28. De civitate mundi (maio de 1314). Ottob. lat. 405, f° 194-211 e ms. 1/71 de Santo Isidoro. Graças a esses mss. pode-se estabelecer que o Lib. de consilio divinarum dignitatum, cuja perda era lamentada por Wadding e Pasqual, não é senão uma parte desta obra. O escrito, o último redigido por Lúlio na Europa, termina por estas melancólicas palavras : Voluit Justitia quod Raymundus iret ad curiam et etiam ad principes christianos et quod præsentaret librum istum et de consilio prælibato haberent notitiam et de justitia Dei timorem. Sed Raymundus excusavit se et dixit quod pluries fuit ad curiam et ad plures principes fuit locutus quod fides esset exaltata per universum mundum, et fecit libros in quibus ostenditur modus per quem totus mundus posset esse in bono statu; sed nihil potuit impetrare cum ipsis; et pluries fuit derisus et percussus et phantasticus vocatus, et sic Raymundus excusavit se et dixit quod iret apud Sarracenos et videret si posset ipsos Sarracenos ad fidem sanctam catholicam reducere.

60° Lib. de Deo et mundo (Túnis, dezembro de 1315). Única cópia em Munique, lat. 10 517, f° 74.

61° O Liber de majori fine intellectus, amoris et honoris (Túnis dezembro de 1315), dedicado ao alcaide de Túnis, é conhecido também apenas pelo mesmo ms., f° 72-74. A esta lista é preciso acrescentar os seguintes opúsculos, mencionados pelo P. Golubovich, op. cit., p. 398, mas que ainda não foram estudados 1. De fide catholica contra Sarracenos, Munique, lat. 10497, f° 53; 2. Quæstio quæ claruit palam Sarracenis in Bugia, Munique, lat. 10575, f° 43; 3. De lege Sarracenorum et Mahometi, Munique, lat. 10564, f° 79. Talvez se trate, no entanto, de simples extratos. R. d'Alòs, Los catalogos, p. 65, assinala também um Lib. de Deo et suis qualitatibus infinitis, conservado — no Ottob. lat. 816.

V. ESCRITOS MÍSTICOS. 1° Llibre de oracions y de contemplacions de l'enteniment en Deu. (Maiorca, antes de 1277, segundo Avinyo). Opúsculo conservado em Munique, ms. Hisp. 136 e na Ambrosiana, ms. H. 8. Inf., f° 79-123. Littré. n. 147.

2° O amigo e o amado. Este tratado, incluído no Blanquerna, Obres, t. ix, p. 379-433, é um breviário místico. Compõe-se de 365 metáforas morais em que intervêm alternadamente o homem e Deus. R. Lúlio declara que este livro foi « encontrado na Berbéria », Obres, t. ix, p. 378, isto é, que o compôs à maneira dos cânticos de amor redigidos por devotos muçulmanos. Probst, op. cit., p. 247-250. A data de sua composição é incerta. A opinião mais comum a remonta aos anos 1283-1285. S. Galmès, Obres, t. ix, p. xv-xvi, crê, no entanto, que o opúsculo foi redigido em Maiorca entre 1276-1278. Apesar das hesitações de G. Etchegoyen, Versets choisis du Livre de l'ami et de l'aimé, em Mélanges d'archéologie et d'histoire de l'École française de Rome, Paris, 1920, t. xxxviii, p. 197, esse parecer me parece mais provável. O opúsculo teve grande número de edições e de traduções. Assinalemos apenas M. André, L'Ami et l'Aimé, Paris, 1921. Foi também comentado por uma célebre mística, a Ven. Ana do Santíssimo Sacramento. P. André de Palma em Estudios Franciscanos, Barcelona, 1920, t. xxiv, p. 215, 216; A. Rubió, p. 19; Etchegoyen, Versets, p. 197-211.

3° Lib. de prima et secunda intentione (Montpellier, 1283?), ed. Mogúncia, t. iv; ed. catalã por Rosselló, Obras, Palma, 1901, p. 309-388. Obra fundamental da ética e da ascese lulianas. Com S. Galmès, Obres, t. x, p. ix, pode-se ver neste belo tratado « um esforço para elevar a moralidade das multidões e promover a devoção em todas as classes da sociedade ». Nombreux mss. catalães em Palma, Munique, Halle e Roma. A. Rubió, p. 21. Existem duas recensões latinas diferentes, uma em Innichen, VIII. B. 8, f°. 76 e VIII. C. 3, f° 179, a outra em Munique, lat. 10 519, 10 655. J. Rubió, Los codices, p. 315; Littré, n. 46.

4° A Arte de contemplacio (Montpellier, 1283), incluída e editada no Blanquerna, Obres, t. ix, p. 433-490, foi reeditada por Probst, La mystique de Ramon Lull et l'Art de contemplacio, em Beiträge zur Gesch. der Phil. des Mittelalters, t. xiii, fasc. 2-3, Münster 1914. A obra, dividida em doze capítulos, é um tratado didático sobre a arte e o método de contemplar. Por esse título ocupa um lugar muito honroso na história da espiritualidade cristã. J. de Guibert, S. J., em Revue d'ascétique et de mystique, Toulouse, 1921, p. 310.

5° Ars amativa boni (Montpellier, 1290), ed. Mogúncia, t. vi. O original catalão desta obra se encontra em Paris, Bibl. nat. ms. Hisp. 84 e em Munique, ms. Hisp. 65 e lat. 10 538, f° 188. Contém uma filosofia mística do amor do bem e de Deus, elaborada segundo as regras da grande Arte e um método totalmente silogístico. O bem-aventurado propunha-se traduzir este escrito para o árabe. A. Rubió, p. 26; Littré, n. 39 e 249.

6° Arbor philosophiœ desideratœ (Montpellier, 1290), ed. Mogúncia, t. vi. Este livro pretende dar um método rápido de lembrar-se constantemente de Deus e de amá-lo. Lúlio o dedica a seu filho. O texto catalão está em Paris, Bibl. nat., ms. Hisp. 84 e em Munique, ms. Hisp. 60, f° 1-34. O texto latino da ed. de Mogúncia, feito em data muito recente, difere da tradução antiga conservada em Paris, lat. 16 116, f° 84, em Innichen, VIII. B. 12, f° 1-33 e em Cortona, B. Com., 214, f° 1-77. A. Rubió, p. 27. Littré, n. 42.

7° Libre de Sancta Maria (Montpellier, 1290), ed. Paris 1499, texto catalão, em Obres, t. x, p. 3-228. A obra está dividida em 30 capítulos. Três personagens, Lausor, Oracio, Intencio, louvam em seus diálogos entrecortados de orações as virtudes da Virgem e sobretudo seu poder de intercessão. Julga-se ouvir falar são Bernardo na língua florida dos trovadores meridionais. S. Galmès, Prefácio em Obres, t. x, p. ix; A. Rubió, p. 27; Littré, n. 81.

8° Flores intelligentiae et amoris (Nápoles, 1294), ed. Mogúncia, t. vi. Este tratado místico, por sua mistura de silogismos, de metáforas e de alegorias, é um dos mais característicos da maneira de Lúlio. Foi oferecido a Celestino V. Assinala-se nele a influência do Romance da Rosa. O texto catalão inédito está em Munique, ms. Hisp 60, f° 79-92. A. Rubió, p. 26; Littré, n. 41.

9° Lib. de decem modis contemplandi Deum ou Contemplatio Raymundi (Paris, 1297?). Escrito ao mesmo tempo apologético e místico submetido por R. Lúlio ao exame dos doutores de Paris. Mss. em Innichen, VIII B. 13, f° 16, em Munique, lat. 10 565 e 10 590 e em Paris, lat. 15 450. Littré. n. 213.

10° Lib. quomodo contemplatio transeat in raptum (Paris, 1297?). O opúsculo é, segundo Pasqual, t. i, p. 233, o complemento do precedente; o único ms. conhecido está em Innichen VIII. B. 13, f° 23. J. Rubió, Los codices, p. 322.

11° Arbor philosophiœ amoris (Paris, outubro de 1298), ed. Mogúncia, t. vi. Texto catalão ed. por Rosselló, Obras, Palma, 1901, p. 3-179. Este escrito desenvolve a Ars amativa. R. Lúlio o dedicou a Filipe, o Belo, e à rainha Joana de Navarra « a fim de que o multipliquem na França em honra de Nossa Senhora a Virgem, que é a soberana Senhora do amor L'au- ». tor, diz M. André, op. cit., p. 166, « tal como aparece em nos cânticos , do Amigo e do Amado, este livro e os e é a flor suprema da literatura catalã-provençal. » A. Rubió, p. 26; Littré, n. 40.

12° Lib. de tredecim orationibus (Barcelona 1300), ed. Rosselló, Obras, t. i, p. 183-267, com prefácio de M. Costa y Llobera, p. xiii-xviii. Coletânea de orações dedicadas à rainha — Dona Blanca. A. Rubió, p. 27.

VI. POESIAS. » R. Lúlio, diz R. d'Alós, é o patriarca da poesia catalã.

Ele o é não só pelo sentimento que o inspira, por suas efusões líricas, sua originalidade, mas também em razão da língua em que escreve. » A forma e os metros de suas poesias, inspirados pela versificação dos trovadores, são dos mais variados. R. Otto, Bemerkungen über R. Lull em Zeitschrift für romanische Philologie, t. xii, p. 511-523. Esses poemas foram editados por Rosselló, Obras rimadas de R. Lull, Palma, 1859, mas com crítica insuficiente. Páginas escolhidas foram recentemente publicadas com cuidado por R. d'Alós, R. Lull, Poesies, Barcelona, 1925.

1° Logica en rims. Sendo a Lógica de Algazel muito popular nas escolas da Idade Média, R. Lull fez dela um resumo primeiro em árabe, depois em latim e por fim em versos catalães. Este poema de 1612 versos foi provavelmente feito em Montpellier em 1276. O texto latino está em Munique, lat. 10 538, f° 103. Quanto à versificação catalã, foi editada criticamente por J. Rubió, La logica del Gazzali posada en rims per en R. Lull, em Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, Barcelona, 1913-1914, t. v, p. 310-354.

2° Plant de Nostra Dona, Santa Maria. R. d'Alós, Poesies, p. 53-75, 153-155, Rosselló, Obras rimadas, p. 134. Poesia de 32 estrofes monorrimas no gênero do metro épico francês. A tradição situa a redação em Maiorca — por volta de 1275; contudo — é melhor remetê-la, assim como as Hores, aos arredores de 1283-1285, pois Lúlio designa-se como o autor desta poesia, ao passo que em seus primeiros escritos e até cerca de 1285 recusa-se absolutamente a inscrever seu nome em suas obras. A. Rubió, p. 16; Littré, n. 92.

3° Hores de Nostra Dona Santa Maria, ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 150-172. Poema dividido em sete partes segundo as horas canônicas e destinado a ser cantado na melodia dos hinos de igreja. R. d'Alòs, Poesies, p. 10. A. Rubió, p. 16; Littré, n. 94.

4° Lo peccat de N'Adam (Perpinhão, 1282), ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 179-184. Poesia teológica de 200 versos; Lúlio explica nela, a pedido do rei Jaime I de Maiorca, como Deus não pode ser tido por responsável pela queda de Adão e suas consequências. Mss. catalães no British Museum, add. 16 432, f° 16 e na Ambrosiana, H. 8, Inf., f° 73. A. Rubió, p. 16; Littré, n. 95.

5° Regulæ introductoriæ in practicam artis demonstrativæ (Montpellier, 1283?), ed. Mogúncia, t. iv, p. 1-6. Ms. catalão na Bibl. do seminário de Mogúncia, A. Gottron, L'edicio Maguntina, p. 81. Poesia de cinco estrofes monorrimas de vinte alexandrinos destinada a popularizar a Ars demonstrativa. A. Rubió, p. 16; Littré. n. 20.

6° A vos Dona Verge (Montpellier. 1283). Hino inserido no Blanquerna. R. d'Alòs, Poesies, p. 25-26.

7° Sényer, ver Deus, rei glorios. Outro hino inserido no Blanquerna e composto após a fundação do colégio de Miramar. R. d'Alòs, Poesies, p. 27-29.

8° Els cent noms de Deu (Roma. 1285), ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 265, extratos em R. d'Alòs, Poesies, p. 31-45. Poesia em tercetos monorrimos, dividida em cem capítulos e compreendendo 3 000 versos. R. Lull deseja que os cristãos a cantem à semelhança dos salmos, como os sarracenos cantam o Alcorão em suas « mesquitas De fato, no ms. 21. 4. 27 da Bibl. ». Univ. de Barcelona, o poema está distribuído como um livro de horas canônicas. A. Rubió, p. 17; R. d'Alòs Poesies, p. 147-150; Littré, n. 96.

9° O Descornot (Roma, 1295), ed. R. d'Alòs, Poesies, p. 73-112. Poema elegíaco de 69 estrofes monorrimas de 12 alexandrinos; é a obra-prima da poesia catalã. A. Rubió, p. 17; Littré, n. 97.

10° Lo cant de Ramon (Paris, 1299), ed. R. d'Alòs, Poesies, p. 30-33. Poema de 14 estrofes monorrimas de seis octossílabos. « É a poesia mais sentimental e mais comovente do Doutor Iluminado. » A. Rubió, p. 17; Littré, n. 98; ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 361-382.

11° Lo dictat de Ramon (Barcelona, dezembro de 1299), Poesia de feitio teológico, dividida em seis partes. R. Lúlio expõe nela os principais artigos da fé. Pede também ao rei Jaime II que convoque os judeus e os sarracenos para conferências públicas em Barcelona. A tradução latina deste poema, conhecida sob o título de Compendiosus tractatus Raymundi de articulis fidei está em Munique, lat. 10 604, f° 14 e no colégio Santo Isidoro, cod. 1/119, f° 32-52. Uma exposição • raríssima desta obra encontra-se no ms. Ripoll. 120 dos arquivos da coroa de Aragão e em Santo Isidoro, cod. 1195, f° 1-20. R. d'Alòs, Los catalogos, p. 53; A. Rubió, p. 17; Littré, n. 99.

12° Medicina de pecat (Maiorca, julho de 1300), ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 431-594, fragmentos em R. d'Alòs, Poesies, p. 42-52. Este poema moral de 6000 versos, destinado a ser aprendido de cor, trata sucessivamente da confissão, da contrição, da satisfação, da tentação e da oração. Na quarta parte está incluída uma poesia de 360 versos sobre a Trindade, por vezes copiada à parte, Munique, ms. Hisp. 99, f° 1-6. Do mesmo modo a V parte De oracio é muitas vezes catalogada como uma obra distinta. R. d'Alòs, Poesies, p. 153; A. Rubió, p. 17.

13° Aplicacio de l'Art general (Maiorca. 1301), ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 386-422. Poema de 1200 octossílabos, essencialmente técnico, destinado a popularizar a grande Arte. A. Rubió, p. 17; Littré, n. 100.

14° Lo concili (Viena. 1311). ed. Rosselló, Obras rimadas, p. 64. Extratos em R. d'Alòs, Poesies, p. 113-144. Poesia de 1200 versos, escrita pouco antes do concílio de Viena. Dirigindo-se ao papa, aos reis, a todos os fiéis, R. Lúlio os conjura a pensarem na salvação dos infiéis e a organizarem a conquista de Jerusalém. A. Rubió, p. 18.

15° Os Proverbis d'ensenyament (sem data) são uma coletânea de 174 dísticos octossilábicos, de caráter moral. Foram publicados por Morel-Fatio em Romania, Paris, 1882, t. xi, p. 188-202. A. Rubió, p. 16; Littré, n. 93. É preciso juntar a essa peça outros Proverbis, igualmente rimados, descobertos por M. Obrador, Viatge, p. 606, 607, na Ambrosiana, ms. O. 87. Sup., f° 83. —

VII. ESCRITOS ANTIAVERROÍSTAS. 1° Declaratio Raymundi per modum dialogi edita ou Lib. contra errores Boetii et Sigerii (Paris, 22 de fevereiro de 1298), ed. Keicher, p. 94-221. Comentário sobre as 219 proposições condenadas em 1277 por É. Tempier. Littré. n. 235.

2. A Ars mistiva theologiæ et philosophiæ (Paris, novembro de 1309) defende contra o averroísmo a Trindade; a terminologia é difícil. Mss. em Paris, lat. 16 110, f° 140; Munique lat. 10 512. f° 80, 10 530; Innichen VIII. B. 11, f° 116-144, VIII. C. 3, f° 76; Bolonha, Bibl. univ., 522, f° 98. Os mss. de Innichen datam o escrito de Montpellier 1308, os de Paris e de Munique de 1309, atestação mais provável. J. Rubió, Los codices, p. 319, 330; Keicher, op. cit., p. 59; Littré. n. 172.

3° De naturali modo intelligendi (Paris, maio de 1310). Esta obra interessante sobre o problema do conhecimento ataca os averroístas e estabelece o acordo da filosofia e da teologia na questão da criação do mundo. Mss. em Paris, lat. 14 713, 15 095, 16 450, 16 615, 17 827; B. Maz., 1517, em Munique, lat. 10 655; Keicher, op. cit., p. 59; Littré. n. 145.

4° O Lib. reprobationis aliquorum errorum Averrois (Paris, julho de 1310) refuta especialmente a tese da unidade do intelecto. Mss. em Paris, lat. 16 111, f° 25, 15 450, f° 416 e em Munique, lat. 10 497, 10 563 e 10 582. Keicher, op. cit., p. 53; Littré, n. 165.

5° Lib. de possibili et impossibili (Paris, outubro de 1310). Dedicado a Filipe, o Belo. Mss em Paris, lat. 16 111, f° 59, e em Munique, lat. 10 497, f° 105. Keicher, op. cit., p. 56; Littré, n. 157.

6° Lib. de fallaciis quas non credunt facere aliqui qui credunt esse philosophantes contra purissimum actum Dei. Este escrito, que não foi redigido antes de outubro de 1308, combate treze séries de sofismas averroístas. Mss. em Paris, lat. 17 827, Munique, lat. 10 568, 10 576, 10 588. Keicher, op. cit., p. 59-61; Littré, n. 150.

7° A Disputatio Raymundi et averroistæ (Paris, início de 1311?) está em Munique, lat. 10 588. f° 49. Littré. n. 166.

8° Lib. lamentationis philosophiæ (Paris, fevereiro de 1311), ed. Palma, 1745. Mss. em Bruxelas. Bibl. royale, lat. 2955, f° 6 e em Cortona. Bib. comm. 213, f° 1-44. Na presença de Filipe, o Belo, a filosofia lamenta que os averroístas a separem da teologia. Keicher, op. cit., p. 60; Littré, n. 55.. 55.

9° Lib. contradictionis ou Lib. de centum syllogismis. (Paris, fevereiro de 1311). Crítica de 44 proposições averroisantes. Mss. Munique, lat. 10 537, f° 62, 10 588, f° 134. Keicher, op. cit., p. 57. Littré. n. 70.

10° O Liber de syllogismis contradictionis (Paris, fevereiro de 1311) é a continuação do precedente. Mss. em Paris, lat. 7829 e Munique, lat. 10 588, f° 149.

11° Sermones contra averroistas (Paris, abril de 1311). No início, Lúlio suplica à Universidade de Paris e ao rei da França que extirpem o erro. Mss. em Paris, lat. 17 829, f° 445 e em Munique, lat. 10 588, f° 81. Keicher, op. cit., p. 54; Littré, n. 164.

12° O Lib. de efficiente et effectu (Paris, maio de 1310), ed. Palma, 1745, tenta estabelecer que Deus não é apenas a causa final mas também a causa eficiente do mundo. Ms. no British Museum, add. 16 431, f° 132. Littré, n. 67.

13° O Lib. de Deo ignoto et mundo ignoto (Paris, junho de 1311) está em Munique, lat. 10 588, f° 32. Keicher, op. cit., p. 56; Littré, n. 184.

14° O Lib. de forma Dei (Paris, julho de 1311) encontra-se em Munique, lat. 10 554, f° 44 e 10 588, f° 94. Littré, n. 182.

15° O Lib. de existentia et agentia Dei (Paris, agosto de 1311) encontra-se somente em Munique, lat. 10 537, f° 11. Keicher, op. cit., p. 56.

16° O Lib. de quæstione valde alta et profunda (Paris, agosto de 1311) ensina que os fiéis podem resolver todas as objeções feitas contra o dogma católico. É de grande interesse para a interpretação da apologética luliana contra o sistema das duas verdades. Mss. em Paris, lat. 15 440, f° 448, 16 116, f° 79, 17 829, f° 242, em Munique, lat. 10 537, f° 23, 10 564, 10 588, e em Innichen, VIII. B. 13, f° 43. Keicher, op. cit., p. 54, 55; Littré, n. 217.

17° O opúsculo Lib. in quo declaratur quod fides sancta catholica est magis probabilis quam improbabilis (Paris, agosto de 1311), ed. Paris 1578, encontra-se em Paris, lat. 16 111, f° 60. Littré, n. 79.

18° O Lib. de ente quod simpliciter per se est existens et agens (Paris setembro de 1311) encontra-se em Munique lat. 10 537, f° 36. Keicher, op. cit., p. 55; Littré, n. 200.

VIII. OBRAS CIENTÍFICAS. 1° Lib. principiorum medicinæ (Maiorca, antes de 1277),ed.Mogúncia,t.i. Mss. no colégio Santo Isidoro, cod. 1/108, f° 83, Innichen, VIII, B. 14, f° 41 e em Oxford, Corpus Christi College, cod. 247, f° 59. Littré, n. 6.

2° Ars compendiosa medicinæ ou Començaments de medicina (Montpellier, 1285?), ed. Maiorca, 1752. Mss. em Paris, lat. 15 095, no Vaticano, Urb. lat., 1394, em Santo Isidoro, cod. 1/108, f° 110 e em Innichen, VIII. B. 14, f° 67. Texto catalão na Ambrosiana, ms. Y. 117. Sup., f° 127. A. Rubió, p. 28; Littré, n. 84.

3° Lib. de levitate et ponderositate elementorum (Nápoles, 1295), ed. Maiorca, 1752. Mss. em Innichen VIII. B. 14, f° 75 e Santo Isidoro, cod. 1/108, f° 123. Escrito a pedido dos médicos de Nápoles. Littré, n. 86.

4° O Lib. de astronomia (Paris, dezembro de 1297) foi composto para afastar os reis e os ricos das crenças astrológicas. Vários mss. em Paris, Bibl. nat., lat. 7267a, 15098, 17 822, 17827, Mazarine 1930, em Munique, ms. Hisp. 69, f° 226, lat. 10 544, 10 569, 10 597. em Cortona, B. Com., cod. 291, em Santo Isidoro, cod. 1/108. Segundo A. Rubió, p. 27, o texto catalão está no British Museum.

5° Lib. de nova geometria (Paris, julho de 1299). Mss. lat. em Munique, lat. 10 544, f° 214 e 10 580; texto catalão em Palma. A. Rubió, p. 27; Littré, n. 170.

6° O Lib. de natura (Famagusta, dezembro de 1301), ed. Palma 1740, é um apanhado de física. Mss. em Bruxelas. Bibl. royale, lat. 2955, em Paris, lat. 3446 a e 17 823 e em Innichen, VIII, B. 9, f° 144. Littré. n. 68.

7° O Lib. de lumine (Montpellier, novembro de 1303), ed. Maiorca, 1754, estuda as propriedades físicas da luz e seu simbolismo. Mss. em Oxford, Merton College, cod. 89, f° 159, em Veneza, São Marcos, 194 a. 240. I. 168, f° 290 e em Innichen, VIII. B. 16, f° 47. Littré, n. 87.

8° Lib. de regionibus sanitatis et infirmitatis (Montpellier, dezembro de 1303), ed. Maiorca, 1752. Mss. em Oxford, Corpus Christi College, cod. 247, f° 96 e em Innichen, VIII. B. 14, f° 75. Littré. n. 85.

9°. Lib. novus physicorum (Paris, 1310), ed. Palma, 1740. Mss. a Veneza, São Marcos, 192. a. 240. I. 172. f°. 37 e em Innichen, VIII. C. 13, f° 64 e VIII. D. 1, f°. 143. Littré, n. 60. —

IX. ESCRITOS PEDAGÓGICOS. 1° O Libre del ordre de Cavayleria (Maiorca, por volta de 1276), ed. Palma, Obres, t. i, p. 203-247, é o manual do cavaleiro cristão, 1, Idade Média tal como o concebeu a Média. Está dividido em sete partes.

A primeira trata das origens da cavalaria, a segunda dos deveres do cavaleiro, a terceira das provas e do exame que deve sofrer o escudeiro que quer entrar nessa ordem militar, a quarta do cerimonial da recepção, a quinta do significado das armas do cavaleiro, a sexta dos costumes e usos do cavaleiro e a última da honra que lhe é devida. Este escrito exerceu profunda influência na Espanha. A. Rubió, p. 28. Uma versão francesa antiga foi editada em seguida ao original catalão em Obres, 1. p. 249-291. Menéndez y Pelayo Origines, 1. 1, 1, p. lxxxvi, M. André, op. cit., p. 74-76. Littré, n. 258.

2° O Doctrina puéril (Maiorca, por volta de 1275), ed. Palma, Obres, 1. p. 1-199, que Lúlio dedica a seu filho, 1, traça um plano geral de educação. Probst, op. cit., p. 174-192. A instrução religiosa comporta o conhecimento dos artigos do credo, dos mandamentos de Deus, dos sacramentos, dos dons e dos frutos do Espírito Santo, das alegrias da Virgem; a educação moral versa sobre as leis, os vícios e as virtudes. Um ciclo de conhecimentos naturais deve coroar essa formação religiosa e moral. R. Lúlio preconiza fortemente o uso da língua materna e o método experimental. Esta obra, muito popular, coloca o bem-aventurado na primeira fileira dos pedagogos cristãos. A. Rubió, p. 28; Don Rufino Blanco y Sanchez. Bibliografia pedagogica de obras escritas en castellano o traducidas a este idioma, Madri, 1910-1912, t. iv, p. lii, e 688-698. Littré, n. 215. p.

3° Liber proverbiorum (Roma. 1299), ed. Mogúncia, t. iv. Vasta coletânea de 6000 provérbios. O texto catalão está em Munique, ms. Hisp. 59, e o texto latino em Innichen VIII. B. 16, fo 1-44, Munique, lat. 10 546, e Veneza, São Marcos 115. a. 273. I. 190. Nesses mss., assim como nos cod. Canonic. 299 e 322 da Bodleiana de Oxford e no ms. 190. a. 290. I. 212 de São Marcos, a obra é datada de 1299. Segundo o parecer geral dos autores, J. Rubió, Los codices, p. 328, dever-se-ia ler 1296. Todavia, não me parece impossível que em outubro de 1299 R. Lull tenha passado rapidamente por Roma antes de ir a Maiorca. A. Rubió, p. 29; R. d'Alòs, Los catalogos, p. 70; Littré, n. 43.

4° Lib. de mils proverbis (no mar, volta de Chipre. 1302), ed. Rosselló, Obras, p. 383-489. A. Rubió, p. 29: Obrador, Viatge, p. 608; Littré, n. 259.

5° O Lib. de consilio (Montpellier, março de 1304). preceitos sobre a arte de governar. Mss. em Paris, lat. 14 713 e em Munique, lat. 10568. Littré, n. 220.

6° A Ars consilii (Túnis, julho de 1315), mesmo assunto que o precedente. Ms. Ottob. lat. 1250, f° 62 r-74v. O explicit traz esta indicação Istum librum fecit Raymundus primo in arabico et postmodum in romantium translavit et de romantio fecit in latino poni. —

X. ESCRITOS SOBRE A CRUZADA E AS MISSÕES. 1° Cartas ao rei da França, à Universidade de Paris e a outra personagem, escritas em Paris em 1289, editadas por Martène. Thés. nom. anecd., Paris, 1717, t. i, p. 1315- 1317.

2° Petitio Raymundi pro conversione infidelium ad Cœlestinum y (Nápoles. 1294). ed. Mogúncia, 1. 11. Golubovich. op. cit., p. 373-385; Littré, n. 9.

3° Petitio Raymundi pro conversione infidelium et recuperatione Terrae sanctae ad Bonifacium VIII (Roma, 1295-6). Texto infelizmente inédito e conservado em Paris, lat. 15 450, f° 543, 16 116, 17 827 e em Munique, lat. 10 565, 10 576. Littré, n. 253.

4° Lib. de fine (Montpellier, abril de 1305), ed. Palma, 1665, reedição parcial por A. Gottron, R. Lulls Kreuzzugsideen, p. 65-93; Littré, n. 242.

5° Lib. de acquisitione Terrœ sanctœ (Montpellier, março de 1309). Tratado conservado em Paris, lat. 15 450, f° 544, 17 827, f° 342 e em Munique, lat. 10 565. Golubovich, op. cit.. p. 385: Littré. n. 254.

6° Lib. natalis pueri parvuli Jésus Christi (Paris. dez. de 1310). O verdadeiro texto deste delicioso opúsculo está em Paris, 3323, o próprio exemplar oferecido por lat. R. Lúlio a Filipe, o Belo; difere muito da edição refundida de Paris. 1499. No quadro de uma visão, Raimundo põe em cena seis damas que personificam as virtudes mais elevadas; elas cantam por sua vez : diante dos méritos do Menino Jesus, depois apresentam-se ao rei da França e suplicam-lhe que realize três grandes projetos lulianos: a fundação de colégios orientais, a : fusão de todas as ordens militares numa única milícia a serviço da cruzada e a proscrição do averroísmo. A. Gottron, op. cit., p. 40-43. Golubovich. op. cit., p. 386-388: Littré, n. 53.

7° Disputatio Raymundi phantastici et clerici (a caminho de Viena, 1311), ed. Paris, 1499. Texto catalão em Palma. A. Rubió, p. 29-30. Diálogo sobre a fundação dos colégios de línguas, a reunião da Igreja grega, a ruína do averroísmo entre Lúlio e um clérigo egoísta que zomba de todos esses grandes projetos. R. Lúlio esboça nele uma fina crítica dos ricos prebendados que se regalam, enquanto os pobres de Cristo morrem de fome e a obra da propagação da fé periclita por falta de recursos. M. André, op. cit.. p. 199-201; Keicher, op. cit., p. 40-42; Littré, n. 54.

8° Petitio Raymundi in concilio generali ad acquirendam Terram sanctam (Viena, 1311). Lista de 10 reformas apresentada ao concílio ecumênico pelo grande agitador. Mss. em Paris, lat., 15 450, f° 543 e 17 827, fo 354 e em Munique, lat., 10 580. Golubovich, op. cit., p. 388: M. André, op. cit.,'p. 128, 129; Littré. n. 252.

9° Lib. de participatione Christianorum et Sarracenorum (Maiorca, julho de 1312). Mss. em Paris, lat. 17 829, f° 464, em Roma, Vat. lat. 9344, f° 111 e em Munique, lat. 10 495, f° 205. Littré, — n. 255.

XI. OBRAS PERDIDAS. 1° O Lib. de plasent Visio, Citado por R. Lúlio no Félix de les maravelles, Obras, t. ii, p. 52-54 devia ser uma enciclopédia ilustrada. » O livro era de prazer corporal e de prazer espiritual. De prazer corporal pelo fato de haver numerosas e diversas figuras que são nobremente feitas e que são de tantas maneiras quantas se podem pensar das criaturas e das obras das criaturas a saber: que neste livro está figurado o céu imperial, assim como a disposição da sagrada e soberana majestade e dos santos. Depois, há a figura do firmamento e do sol e da lua. Neste livro estão figurados os filósofos, as obras da natureza, tais como homens, animais, aves, peixes e plantas.

Há figuras de homens, de prelados, de príncipes, de clérigos, de cavaleiros, de mercadores e de todas as artes mecânicas. Neste livro, há histórias de batalhas, de cidades, de naus e de galeras reais e de todas as outras coisas do passado etc. M. André, op. cit., p. 127-128; A. Rubió, p. 30; Avinyo, op. cit., p. 512, 513. Entre os outros escritos perdidos, assinalemos apenas o De vitiis et virtutibus, citado no Blanquerna, Avinyo, op. cit., p. 508, o De doctrina de princeps, igualmente mencionado no Blanquerna e que provavelmente influiu na redação das Leges palatinœ da dinastia de Maiorca, P. Andreu de Palma em Estudis Franciscans, Barcelona, 1923, t. xxx, p. 137, 138, o Livro da passagem, obra sobre a cruzada mencionada no Descornort, R. d'Alòs, Poesies, p. 104, o Lib. de erroribus Judœorum, Littré, n. 256, o Nou libre de Proverbis (Montpellier, 1309), composto para a educação dos filhos de Jaime II, A. Rubió, p. 29; a Ars infusa (Maiorca, 1312), Littré, n. 173, os opúsculos redigidos em Túnis em 1315 de que fala Jaime II. A. Rubió, Documents, t. i, p. 66. Se R. Lulle escreveu o Libre del orde de clerecia, como promete no Libre del orde de cavayleria, Obres, t. i, p. 247, o texto não foi conservado. Outros escritos hoje perdidos são ainda assinalados por Littré, op. cit., p. 344, e A. Rubió, p. 30.

XII. ESCRITOS apócrifos.— Grande número de escritos, falsamente atribuídos a R. Lulle, circulam sob o seu nome. Assinalemos primeiro, rapidamente, aqueles que quase não têm significação doutrinal e histórica. 1° Ars generalis ad omnes scientias. — Littré, n. 49; R. d'Alòs, Los catalogos, p. 62. 2° Tract. de venatione medii inter subjectum et medium. Littré, n. 65. 3° In rhetoricam isagoge. Littré, n. 75. 4° Tractatus parvus de Deo, Littré, n. 197. — 5° Disput. Raymundi cum monacho, Littré, n. 236. 6° Ars memorativa, Littré, n. 144. 7° Introd. ad artem brevem. Littré, n. 136. 7° Acceptatio conclusionum. Littré, n. 251. 8°. Lib. medicinœ magnœ, Littré, n. 88. 9° Ars operativa medica, Littré, n. 89. 10° Lib.de conservatione vitœ, Littré, n. 91. 11° Hino: A vos, Deu gloriós, ed. por Rosselló, Obras rimadas, p. 174; R. d'Alòs, Poesies, p. 13. 12° A Conquista de Maiorca, poema editado por Rosselló, Obras rimadas, p. 647, e fabricado por de Bover e pelo próprio Rosselló. R. d'Alòs, Poesies, p. 13; Littré, n. 261. 13° Ars componendi sermones, em Innichen, VIII. C, 13. J. Rubió, Los codices, p. 335. 14° Lib. de prœceptis, articulis et sacramentis Ecclesiœ (Salamanca, 1314), em Innichen, VIII, B. 13. J. Rubió, Los codices p. 323; R. d'Alòs, Los catalogos, p. 66. 15° De peccato originali, em Innichen VIII. B. 13, f° 9. J. Rubió, Los codices, p. 321. 16°. De la doctrina dels infans, catecismo de data posterior estudado por P. Guarnerio, Contributo agli studi Lulliani, em Anuari de l'Institut d'Estudis catalans, 1908, p. 497-519. 17° Lib. Alkindi e Lib. Teliff, escritos frequentemente atribuídos a Lulle, Avinyo, op. cit., p. 508, mas erroneamente, pois se trata aqui das obras de Alkindi (870), um dos mais ásperos críticos do Alcorão, e de Ibn Thophail (1185), que os cristãos podem ler para se ajudarem na refutação do maometismo. A. Gottron, R. Lulls Kreuzzugsideen, p. 88; Golubovich, op. cit., 365, n. 4.

Em contraste com esses escritos inautênticos, outros apócrifos contribuíram enormemente para formar a falsa lenda de R. Lulle, uns atribuindo ao autor, na questão da Imaculada Conceição, um papel doutrinal que ele não tem nesse grau, outros relegando-o entre os alquimistas de baixa categoria. Eis os primeiros: 18° Lib. de « Benedicta tu in mulieribus ». A obra em que a Imaculada Conceição é bem defendida foi assinalada pela primeira vez por M. Obrador, Noticia y mostra del llibre Lulià De « Benedicta tu » etc. em Rivista Luliana, Barcelona, 1902, t. ii, p. 93-102, depois editada recentemente, Obres de R. Lull, Maiorca, 1915, t. x, p. 291-359. A inautenticidade foi solidamente provada por S. Galmès, Obres, t. x, p. xv-xvi. O ms. original traz, com efeito, que o tratado foi redigido em Valência em 1335, quase vinte anos após a morte de R. Lulle. Além disso, o estilo e a terminologia não são do Doutor iluminado. Essas conclusões são aceitas por R. d'Alòs. Los catalogos, p. 66, 78.

19° Lib. de conceptu virginali, ed. Sevilha, 1491; Rupert de Manresa, O. M. C., Libro de la concepcion virginal, Barcelona, 1906 (ed. da versão catalã de Alonso de Cepeda). Apesar das afirmações de Pasqual, op. cit., t. i, p. 431-434, de S. Bové e de M. Avinyo, op. cit., p. 446-449, é fato assente que este tratado foi escrito na segunda metade do século XIV, por volta da época em que João I, rei de Aragão, lançava (14 de março de 1393) uma pragmática célebre em favor da crença na Imaculada Conceição. O P. Rupert, op. cit., p. 35, 39, 110, 165, vê nele a obra de um franciscano aragonês redigida em Avignon em 1395; outros, ao contrário, seguindo o sentimento de P. Alva y Astorga, O. F. M., atribuem-no a Raimundo de Cortillis, cônego de Elne e adversário de Eymeric. P. Fita y Colomar, Panegirico sobre la Immacolada, Madri, 1909, p. 44; P. Jazulla, Los reyes de Aragon y la Purísima Conception de Maria santísima, Barcelona, 1905, p. 13-14; J. Borras, Maria santísima y el Romano Pontífice en las obras del B. R. Lull, Sôller, 1908, p. 5-9. Esta opinião parece definitivamente estabelecida. Para os críticos mais recentes, a inautenticidade é também um fato assente, R. d'Alòs, Los catalogos, p. 87, J. Rubió, Los codices, p. 305, n. 1, o que Littré, n. 80, já reconhecia.

Mais numerosas são as falsificações de todo gênero sobre as artes ocultas postas sob o nome de Lulle. Sollier, Acta sanctorum, p. 707-709, e sobretudo Littré, n. 103-129 e n. 261-313 elaboraram a lista delas. J.-M. Bastita y Roca, Catalech de les obres lulianes d'Oxford, p. 218-228, completou as indicações deles e forneceu preciosas informações sobre a influência extraordinária desses escritos de alquimia na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. Um capítulo não menos importante poderia ser acrescentado a essas pesquisas pelo exame dos numerosos mss. alquimistas da biblioteca da Universidade de Bolonha. A autenticidade dessas sessenta e tantas obras foi geralmente admitida, fora da Espanha, a partir do fim do século XV. Esse fato valeu a R. Lulle uma reputação da pior espécie. Giordano Bruno, Cornélio Agripa, Valère de Valeriis foram todos entusiastas admiradores da alquimia dita lulista. J. Rubió, Los codices, p. 305-307. O editor de Mogúncia, Salzinger, aceitou com entusiasmo esse legado literário, e também o próprio Pasqual, não sem graves reservas, contudo, Vindiciœ, t. i, p. 370, 437-439. No século XIX, Rosselló foi do mesmo parecer, R. d'Alòs, Los catalogos, p. 45, 46, e 9, chegou a editar uma poesia, a Art de l'alquimia, nas Obras rimadas, p. 305. Entre os modernos, M. Barber partilha ainda esse sentimento, R. Lull,'the illuminated doctor.

A study in medieval missions, Londres, 1903, p. 82-87. Está sozinho em sua opinião, pois é sem dúvida por inadvertência que P. Duhem se apoia num desses escritos, o mais manifestamente apócrifo, o Testamentum novissimum, ed. Basileia, 1572, para expor a filosofia lulliana da matéria-prima e assinalar sua influência sobre Nicolau de Cusa. Études sur Léonard de Vinci, Paris, 1909, 2 e série, p. 148, 426. A crítica, com efeito, guiada pela doutrina de R. Lulle, que condena por toda parte a alquimia, sobretudo no Félix de les maravelles, Obras, Palma, 1903, t. i, p. 163-166, acabou por pôr a nu todas as fraudes dessa literatura. Os PP. Custurer e Sollier, S. J., iniciaram o trabalho. A Gottron, L'Edicio maguntina, p. 18-32; R. de Luanco, R. Lulio considerado como alquimista, Barcelona, 1870, e depois dele Littré, op. cit., p. 271, o concluíram. Uma parte dessas falsificações foi restituída ao seu autor, Raimundo de Tarrega, judeu convertido, depois dominicano apóstata. Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 496, 497. Hoje o processo está julgado definitivamente e, por conseguinte, estão arruinadas as inúmeras calúnias de que Lulle foi vítima durante séculos. Probst, op. cit., 169-171; Bofarull y Sans, El testamento de Ramon Lull, p. 438; M. Obrador, Préface du Félix, Obras, t. i, p. xvi-xvii; R. d'Alòs, Los catalogos, p. 9; J. Rubió, R. Lull, p. 558, 559.

A essa lista acrescentemos por último o De auditu cabbalistico, ed. Paris, 1578. Stöckl, Geschichte der Philosophie des Mittelalters, Mogúncia. 1865, t. ii, p. 939, recorre a ele para incriminar R. Lull; do mesmo modo M. Asin y Palacios, para sustentar que o bem-aventurado depende do sufi murciano Mohy ed Din. Ora, ele é nitidamente apócrifo, segundo o julgamento dos melhores críticos, Littré, n. 77, Probst, op. cit., 243, Desdevises du Dézert, em Revue Hispanique, Paris, 1915, t. xxxiii, p. 294 e, na opinião de S. Bové, El sistema cientifico Lulliano, Barcelona, 1908, p. 385, nota A.

XIII. A LÍNGUA DOS ESCRITOS. — O objetivo apologético perseguido por R. Lulle o forçou a empregar de preferência a língua dos países onde queria exercer sua ação. Segundo A. Rubió, Lliçons, p. 11, 12, é certo que R. Lulle escreveu em catalão a maior parte de suas obras. Uma parte notável foi também, paralelamente, traduzida para o árabe ou composta nessa língua antes do texto catalão: assim o Lib. x. Contemplationis, o Lib. de gentili, a Ars amativa, a. Disputatio Raymundi et Hamar, um Lib. de Trinitate et Incarnatione, a Lógica de Algazel, A. Rubió, p. 12, o Lib. de accidente et substantia per modum novum e o Lib. de consolatione eremitani. R. d'Alòs, El manoscritto Ottoboniano 405, p. 402. É lamentável que esses textos ainda não tenham sido reencontrados. A produção latina de R. Lulle é mais reduzida, pois ele tinha tradutores a seu soldo, como resulta de seu Testamento, e os franciscanos lhe prestavam auxílio. Alguns asseguram mesmo que Raimundo não sabia latim a ponto de poder escrever pessoalmente nessa língua. Essa asserção, que provocou ardentes polêmicas, é certamente exagerada. Sem ser grande letrado em literatura latina, nec bene ordinavi, nec in bono dictamine, Keicher, op. cit., p. 224, Lulle tinha um conhecimento suficiente do latim popular: não poderia ler publicamente nas universidades de Paris, de Montpellier e de Nápoles, em outra língua; além disso, o texto latino de sua Declaratio Raymundi e de sua Disputatio Raymundi christiani et Hamar sarraceni não provém de seus tradutores, mas dele mesmo. A. Rubió, p. 13; J. Rubió, La logica del Gazzali, p. 317,318; S. Bové, R. Lull y la llengua llatina, p. 85-88.

III. Doutrinas. — « R. Lulle é o escolástico popular da Idade Média. R. d'Alòs, Poésies, p. 10. » Ele só buscou o saber universal e só abordou todos os gêneros literários em vista da ação religiosa: com esse fim, serviu-se, o primeiro na Europa, dos idiomas nacionais, catalão e árabe, para traduzir ideias teológicas e filosóficas. Esta observação preliminar é de grande importância. Se, com efeito, o publicista leigo que foi R. Lulle não tende à ciência por ela mesma, se é constrangido ora a dobrar-se aos métodos de pensamento e aos procedimentos de argumentação em uso entre os árabes, ora a verter suas ideias religiosas e sociais nos quadros flexíveis do romance e da poesia para atingir a alma das multidões através da imaginação e da sensibilidade, ele não poderia ser julgado em função da escolástica clássica. Por não terem visadas puramente especulativas, os escritos de R. Lulle não deixam de conter um conjunto notável de doutrinas em que, contudo, a unidade orgânica é mais impressionante e mais original do que as próprias ideias. Os elementos principais merecem ser destacados; farão conhecer ao menos o filósofo, o apologista, o teólogo e o místico que foi R. Lulle, tendo M. Probst. op. cit., p. 156- 192, já estudado suas concepções científicas e pedagógicas. M. Obrador, Doctrines sociologiques lulianes, Palma, 1905, e o P. André de Palma, O. M. C, Sistema juridic i idees juridiques del R. Llull, em Estudis Franciscans, Barcelona, 1923, t. xxx, p. 54- 65, 125-138, suas ideias — sociais e políticas.

1° Filosofia. — 1. Agostinismo. — No conjunto de sua filosofia, R. Lulle subscreve as teses fundamentais do agostinismo medieval e move-se na esteira de santo Anselmo, dos vitorinos e de são Boaventura. Probst, op. p. 258. Pode-se cit., dizer com E. Gilson, La philosophie de saint Bonaventure, Paris, 1924, p. 496, que « a obra inteira de R. Lulle é completamente ininteligível se se fizer abstração do simbolismo de são Boaventura e de sua doutrina das iluminações intelectuais e morais ».

Sem dúvida, ele aceitou várias ideias aristotélicas em metafísica, em psicologia e em física, Probst, op. cit., p. 216-220; não obstante, a direção geral de seu pensamento está bem no sentido indicado. É o que já nos asseguram as miniaturas simbólicas do ms. de Karlsruhe, J. Rubió, El breviculum, p. 85-87. Três carros de assalto sobem ao ataque da torre do erro onde a Verdade está cativa: primeiro o do próprio Aristóteles, depois o de Averróis, onde figuram em primeiro plano a Igreja e o papa; o de R. Lulle vem simbolizando por último; três arautos a cavalo, « as potências da alma que proclamam a unidade de Deus na Trindade », o precedem. Lulle, cercado desses guerreiros, figurações dos atributos ou dignidades de Deus, conduz o carro; em sua lança leem-se estas palavras: Intelligentem spiritualia oportet sensus et imaginationem transcendere et multotiens seipsum. Este documento situa nitidamente R. Lulle, fora da direção aristotélica e averroísta, no coração mesmo do agostinismo. É dessa corrente, com efeito, que ele recebe o simbolismo psicológico que condiciona a ascensão do espírito até Deus, assim como a arte de ultrapassar a inteligência e a metafísica pelo recurso à iluminação da fé e às claridades do êxtase. E. Gilson, Études de philosophie médiévale, Estrasburgo, 1921, p. 77-95. Quanto à teoria das dignidades divinas, fundamento de toda a obra lulliana, é inexato sustentar que R. Lulle a tomou emprestada da escola de Mohy ed Din, como acreditaram Asin y Palacios e Ribeira, ou dos Mutakallinums, como sugere J. Tusquets, Posicio de R. Lull en el problema del'eternitat del mon, em Criterion, Barcelona, 1925, t. i, p. 105-107.

É verdade que, na Disputatio Raymundi et Hamar Sarraceni. p. I, n. — 2, t. iv, p. 2, o filósofo sarraceno diz ele mesmo, e contrariamente a Probst, op. p. 255, — cit., não me é possível ver nisso um procedimento literário: Nos attribuimus Deo undecim qualitates quœ sunt hœc : videlicet, bonitas, magnitudo, potestas, etc. Cf. Keicher, op. cit., p. 76. Mas, segundo um texto de R. Lulle até aqui desconhecido, essa filosofia era tão rudimentar, mesmo no que dizia respeito à existência das dignidades divinas, que o dever do apologista era antes de tudo instruir os árabes a respeito delas. Lib. de acquisitione Terrœ sanctœ, Paris, lat. 15 450, f° 546 v° : Sarraceni sunt aliqui in philosophia bene litterati et sunt homines bene rationabiles, sed de essentia Dei et dignitatibus suis parum sciunt, idcirco catholicus in disputatione disponet ipsos ad intelligendum Deum et actus suarum dignitatum intrinsecos. Et istum modum disputationis tenebam ego cum ipsis dum eram in carcere Bugie. Declaratio Raymundi, ed. Keicher, p. 205. Além disso, a atividade imanente das dignidades era totalmente desconhecida dos sarracenos, L'Art, ed. Probst. p. 75. e o número delas fixado, ao que parece, em onze, ao passo que R. Lulle às vezes enumera dezesseis. L'Art, p. 59. Lulle portanto inspirou-se noutra parte. Santo Anselmo, cuja doutrina ele conhecia, lhe deu o conjunto de sua teoria, Monologium, c. xv, P. L., t. clviii, col. 165. Cf. Probst, op. cit., p. 274. De santo Agostinho, ele tem a ideia de pôr a humildade no número dessas dignidades e de elaborar uma parte de sua síntese à luz desse conceito, Lib. Cont., l. II, c. lxxxvii-xcii, t. ix, p. 189- 202, o que uma filosofia estranha ao cristianismo não lhe teria podido sugerir. Se se acrescenta a isso que Ricardo de São Vítor, igualmente citado por Lulle em seu primeiro escrito apologético, pôs a Bondade no primeiro lugar dos atributos divinos, De Trinitate, II, 1. c. xvi-xx, P. L., t. cxcvi, col. 909-912, e que inferiu com vigor a Trindade da « plenitude da glória divina », ibid., l. III, c. iv, v, xiii, col. 918, 925, cf. Th. de Régnon, — Études sur la sainte Trinité, t. ii, p. 315 sq., duas — ideias que penetram inteiramente o sistema lulista, é manifesto, mesmo que se admita um ponto de encontro definido entre o pensamento lulliano e a teologia muçulmana, que R. Lulle haurir sua teoria fundamental na direção agostiniana da escolástica, notadamente em santo Anselmo e Ricardo de São Vítor, cuja teodiceia dialética devia atraí-lo tão vivamente.

A análise do sistema lulista confirma as indicações do ms. de Karlsruhe. O método de Lulle, com efeito, sua concepção das relações da teologia e da filosofia são agostinianos. Segundo ele, « a filosofia considera as causas primeiras e reais e por elas desce aos seres reais particulares e os estuda com o auxílio das causas primeiras »; a teologia, ao contrário, « trata de Deus, isto é, de sua essência, de suas propriedades e dignidades, e das operações que ele tem em si mesmo e nas criaturas ». Arbor scientiœ, arb. hum., p. 118. Por esse título, a teologia sobrepuja consideravelmente a metafísica, Declaratio Raymundi, p. 193. Ela é tanto mais elevada quanto a razão, às voltas com os árduos problemas da metafísica, tem logo o sentimento de seus limites e deve recorrer a ela. Os filósofos antigos erraram precisamente porque — ignoravam os grandes princípios teológicos, a vida divina, a encarnação, — a criação e a ressurreição geral, que, fixando o destino do homem, o ajudam a interpretar _ tudo o que lhe é ordenado, Declaratio, p. 96; por esse motivo, Aristóteles e Platão não formaram uma justa noção de Deus, Doctrina puéril, 77, Obres, t. i, p. 135, Descornort, 37, ed. R. d'Alòs, Poésies, p. 94. Cf. Declaratio, p. 99, 193, 194. A verdade de Cristo, e não a filosofia pura, é portanto a via verdadeira, a salvação, Lib. cont., l. I, c. xxv, t. ix, p. 51-53, Arbor scientiœ, p. 193 Est credentia lumen intelligendi etc.

A inteligência a aceita pela fé e pela luz de Deus e, com isso, não só ultrapassa a ordem do conhecimento sensível, mas também se eleva acima de si mesma, o que constitui « a segunda passagem transcendental ». O meio de filosofar com verdadeira profundidade é, portanto, o ingressus in philosophiam cum habitu fidei. Declaratio, p. 100. Declaratio, p. 122, cf. c. xvi, p. 118-120. Nunca se deve perder de vista essa posição inicial de Lulle, se não se quer equivocar-se sobre seu pensamento. Mesmo que nada compreenderam disso, vários autores acusaram o bem-aventurado de puro racionalismo, do qual, no entanto, o método agostiniano e lulista é a negação radical. Do mesmo modo, o esforço de S. Bové para reconduzir o lulismo a um sistema intermediário entre o platonismo e o aristotelismo e, por vezes até, identificá-lo com a filosofia de santo Tomás. S. Tomas de Aquino y el descenso del entendimiento, em B. A. L., 1911, p. 339-342, é em parte sem fundamento, visto que ver no « segundo passo transcendental » apenas a arte de formar conceitos de uma aplicabilidade mais geral que os universais é desconhecer o caráter resolutamente agostiniano e boaventuriano do método de R. Lulle. Cf. E. Gilson, La philosophie de saint Bonaventure, p. 89-118. Tal como o método, as doutrinas lulianas refletem a mesma corrente. O elemento voluntarista e afetivo é posto em grande valor. Probst, op. cit., p. 259-261.

Com os agostinianos, Lulle sustenta que a matéria não é pura potência, Declaratio, p. 210, que Deus pode multiplicar os seres numa espécie sem o apoio dela e, por conseguinte, que os indivíduos não diferem sola positione materiœ. Declaratio, p. 173; Probst, op. cit., p. 76. Com eles, admite nos seres a gradação das formas inferiores e superiores e não a unicidade de forma, como asseguram Gonzalez e Hartmann, Arbor scientiœ, p. 07 Major (bonitas) est in formarum quam : formarum fine superiorum in fine inferiorum, quœ sunt materiœ ad formas quœ sunt supra, sicut, secundœ intentiones ad primas; formœ tamen inferiores semper remanent secundum eorum specialem bonitatem, etc. Cf. Quœst. per artem demonstr. solubiles, q. clii, t. iv, p. 150, Probst, op. cit., p. 80. Do mesmo modo, sustenta a composição hilemórfica das substâncias espirituais, teoria que se encontra em Avicebron, mas não provém necessariamente dele, visto que, antes dele e fora de sua influência, era clássica na teologia da alta Idade Média, que a aprendera de Agostinho. A. Spettmann, Die Psychologie des Johannes Pecham, em Beiträge zur Geschichte der Phil. des M. A., t. xx, fasc. 6, Münster, 1919, p. 12. « O anjo, diz R. Lulle, é composto de matéria e de forma; sem ela, nenhum ser angélico pode ser constituído nem trazido à existência. » Libre de angels, ed. Probst, op. cit., p. 331; In lib. Sent., l. II, c. lxv, t. iv, p. 40; Lib. Cont., l. IV, c. ccxxviii, n. 19, t. x, p. 7.

De acordo com os mestres franciscanos, ensina a teoria das razões seminais, Lib. chaos, t. iii, p. 4, cf. Probst, op. cit., 73-74, e expõe longamente a metafísica da luz em seu Lib. de lumine. Com eles igualmente, subscreve o consubstancialismo psicológico e não admite a distinção real entre a alma e suas faculdades. Quœst. per artem demonstr. solubiles, q. lx, t. iv, p. 80 : Unde patet quod potentiœ animœ sunt de essentia ipsius animœ ut non sint accidentia... ut ipsœ fruantur Deo. Na opinião contrária, o reflexo da Trindade na alma seria demasiado velado, Félix de les maravelles, l. I, c. iv, t. i, p. 28, 29, L'Art, p. 77, etc. Cf. Probst, op. cit., p. 262-264, Mons. Maura, Psicologia lulliana. El entendimiento agente y el entendimiento posibile em Rivista lulliana, t. iv, p. 162 sq. Se Lulle insiste muito nesse ponto, é que retoma, com suas implicações lógicas e místicas, o simbolismo universal de santo Agostinho, dos vitorinos e de são Boaventura. O nome de Deus está inscrito no ser das coisas. «Ó altíssima Trindade, diz R. Lulle, Libre de oracions, c. iii, Obres, t. i, p. 186-189, pusestes vossa semelhança em todas as criaturas a fim de que, por essa imagem, elas possam melhor lembrar-se de vós e honrar-vos e servir-vos. Perguntaram » « ao amigo: o que é o mundo? Ele respondeu: Para aqueles que sabem ler, é um livro no qual se aprende a conhecer meu Amado. O Amigo, trad. André, » n. 299, p. 92. Essa marca de Deus brilha sobretudo na alma, Quœst. per artem demonstr. solubiles, q. liii-lvi, t. iv, p. 75-78; o espírito é constituído por uma participação, a mais alta possível, nas dignidades divinas. Ibid., q. lviii, p. 78, 79.

No cume de todos esses símbolos encontra-se a eucaristia. « O Santíssimo Sacramento é o mais belo espelho que possa existir entre Deus e o homem. » Arbor scientiœ. arb. apost., p. 195. O homem pode nele contemplar todas as dignidades divinas, sobretudo sua bondade e sua humildade. « Entende, diz Blanquerna, L'Art, p. 94, que obra miraculosa é a Trindade em Deus e como a encarnação do Filho está acima da natureza. A fim de significar a transcendência dessa obra, Deus quer |i, estabelecer o santo sacrifício para que, todos os dias, nos seja lembrada a obra maravilhosa que as divinas virtudes operam sobrenaturalmente. Assim como, de maneira sensível e corporal, fazemos na cruz o sinal da figura de Jesus Cristo, do mesmo modo no sacrifício do altar é significada a obra maravilhosa, toda intelectual, que se faz pelas virtudes de Deus. » Cf. L'Art, p. 83. Se Deus imprimiu assim o reflexo de suas dignidades nas coisas, é para não cegar o homem com seu esplendor, como R. Lulle expõe no c. ccclii do Lib. contemplationis : Oculi intellectuales melius possunt videre quando vident potestatem, dignitatem, sapientiam, voluntatem Dei in creaturis quam quando illas vident tantum in ipso. Para chegar a ver Deus em sua obra, é preciso primeiro percebê-lo constantemente no interior de si: Desde que vi meu Amado em meus pen- « samentos, diz o Amigo, ele nunca esteve ausente de meus olhos corporais, pois todas as coisas visíveis me representam meu Amado. O Amigo, Quanto tudo n. 40, p. 15. esse simbolismo inspira R. Lulle, é fácil julgar por Estas palavras: « perguntaram ao Amigo: Qual é o teu mestre? As significações que as criaturas me dão de meu Amado. O Amigo, — » n. 57, p. 20.

2. Teoria das dignidades. — Em conformidade com esse simbolismo universal, Lulle coloca Deus e suas dignidades no cume de sua síntese como a causa e o arquétipo das perfeições criadas. O procedimento analógico e o argumento de santo Anselmo legitimam essa inferência. Se o ser e suas propriedades são realizados segundo uma ordem progressiva da qual o universo material constitui o « grau positivo », o anjo e a alma « o grau comparativo », cf. De divina existentia et agentia, Munique, lat. 10 537, f° il, Keicher, op. cit., p. 79, é necessário que o ser supremo ou « o grau superlativo » exista e reúna em si, numa identidade perfeita, todas as perfeições possíveis. Ars mistiva, Munique, lat. 10 530, f° 8 r, cf. Keicher, op. cit., p. 76. R. Lulle retoma invariavelmente a mesma demonstração, Compendium artis demonstrativœ, t. iii, p. 80 : Concludendum est de Deo id per quod creatura est magis similis ipsi Deo et per quod similitudines dignitatum sunt in creatura majores. Ratio autem hujus est ista quia remota inde omni imperfectione addita omnimoda : et perfectione est id in Deo quod est in creatura et per quod creatura principaliter est nobilior aliter non esset in esse id quod recta ratione melius, sed : quod pejus posset ab omnibus considerari, quod est impossibile.

Cf. Arbor scientiœ, p. 204-206. Essas dignidades são verdadeiras perfeições, Lib. de XIV articulis fidei catholicœ, d. I, p. 3, t. ii, p. 39-43, mas não são realmente distintas em Deus, Declaratio, p. 98 : Item quod quælibet illarum dignitatum sive rationum sit in uno et eodem numero cum alia, sicut bonitas et magnitudo quae insimul convertuntur, et hoc necessario ut in ipsis non cadat accidens, etc. O princípio deve ser aceito por todos, cum Deus sit purus actus. Declaratio, p. 168. Lulle insiste muito nessa identidade, que estabelece uma distinção absoluta entre Deus e o criado, L'Art, p. 68-72, Lib. de XIV articulis, d. I, p. 3. t. ii, p. 43-50, Arbor Scientiœ. p. 206- 208, etc. Por isso é inconcebível que as polêmicas de outrora tenham aqui incriminado seu pensamento. Em toda a sua obra, o bem-aventurado contempla as perfeições de Deus, como Platão as ideias. Lib. Cont.. 1. IV, c. ccxxxiv. n. 3, 18-23, t. x, p. 27-29; ccxxxv. XIV c. ii. 21-30, p. 32-34; Lib. de art., et. I. t. ii, p. 3-50: Arbor scientiœ, p. 202-204, 340-342. etc. Elas figuram aí como as grandes testemunhas dos dogmas, cujos « » depoimentos prevalecem sobre o testemunho dos sentidos. Lib. Cont., I. IV, c. ccliii, n. 18, t. x, p. 97.

Sensus intellectuales, Domine, affirmant hostiam esse carnem et vinum esse sanguinem, et suam affirmationem probant per testes intellectuales qui sunt tuæ benedictæ qualitates, quœ sunt testes veriores sensualibus. Tal como em Ricardo de São Vítor, a bondade, o amor, a glória e a bem-aventurança são as testemunhas do dogma trinitário, testes super Trinitatis assertione. De Trin., III, c. xi-xii, P. L., t. cxcvi, 1. col. 922-924; comparar em Lulle, Declaratio, p. 102, Arbor scientiœ, p. 210. As dignidades são o refúgio do apologista contra aqueles que negam os sacramentos. Lib. de acquisitione Terrœ sanctœ, f°546v°; do mesmo modo contra os muçulmanos, os jacobitas, ibid., f° 547 r°, os nestorianos, Lib. de quinque sapientibus, t. ii, p. 18- 24. São elas que a teologia estuda, Declaratio, p. 193, que a mística contempla, L'Art, p. 49; o próprio conhecimento se distingue conforme elas intervenham ou não no raciocínio: « O Amado opera no homem de duas maneiras, uma natural e outra artificial. A natural é quando faz que o homem veja com seus olhos, ouça com seus ouvidos, compreenda com seu entendimento e assim por diante para as outras potências naturais. A outra é quando faz que o homem veja, ouça e compreenda graças ao poder divino, à virtude, à ciência, à vontade e às outras divinas dignidades. » L'Ami, p. 149. Cf. Probst, op. cit., p. 264, Keicher, — op. cit., p. 75.

3. Grande Arte e lógica. — Há mais ainda. É em função, com efeito, da teoria das dignidades divinas e da analogia universal que R. Lulle elabora o sistema da grande Arte e um novo modo de argumentação. A grande Arte é uma construção maciça que tem por finalidade ensinar a maneira de encontrar os princípios primeiros e de reconduzir assim à unidade toda a ordem dos conhecimentos. Introd. artis demonstrativæ, prol., t. iii, p. 1-3. Cf. M. André, op. cit., p. 62-64. É preciso nela distinguir o mecanismo exterior e o próprio método. O mecanismo é feito de figuras e de círculos concêntricos destinados a fazer apreender pela imagem a correspondência e a harmonia perfeitas dos três ordens que abrangem a universalidade dos seres: Deus, o homem, o mundo. No centro desses círculos encontra-se Deus, designado pela primeira letra do alfabeto; em torno — dessa « ideia imperial », irradiam dezesseis princípios — nos escritos posteriores a 1289, somente nove — representados também por letras e signiflanl lis atributos divinos. Esses princípios servem para formar quatro figuras principais e podem combinar-se de cento e vinte maneiras, segundo procedimentos complicados, visto que cada mistura » parece implicar três silogismos. Probst, op. cit., p. 40-46. Essa espécie de álgebra lógica enche com seus diagramas vários escritos de R. Lulle e torna a leitura deles extremamente penosa. Apesar de seu desenvolvimento extraordinário, essa gráfica matemática não é contudo o elemento essencial da grande Arte, mas apenas sua representalião simbólica e popular. Probst. op. cit.. p, 12. R. Lulle teve o cuidado de dizer ele próprio, o que quase sempre se esqueceu, que não tinha outro fim senão facilitar a memória, Compendium artis demonstrativae, prol., t. iii. p. 2.

Vários sábios creem que Lulle tomou emprestada essa vasta imagística dos árabes. Contra essa hipótese, é preciso observar que a ideia de conceber Deus como um centro em torno do qual irradiam os seres é clássica na teologia e na mística do século XIII, graças sobretudo à influência do pseudo Trismegisto e às descrições dionisianas dos coros angélicos. Além disso, R. Lulle, poeta de raça, faz uso constante dos símbolos mais variados, Probst, op. cit., p. 16-54, a tal ponto que Menéndez y Pelayo o chamou « o poeta da metafísica ». Despojada desse simbolismo, a grande Arte é um método unitário e dedutivo destinado a fundar a ciência universal. Probst, op. cit., p. 56-78: Keicher, op. cit., p. 71-79 Pasqual, Vindiciœ, Dissert, de methodo, ; ne absolument t. i, p. 2-16, etc. Ela não se identifica nem com a lógica pura, nem com a metafísica, sobretudo porque a lógica considera somente o ser de razão e a metafísica o ser real, ao passo que a Arte « considera o ser indiferentemente segundo um e outro modo ». Introd. artis demonstrativæ, prol., m, t. p. 1,2. « A inteligência, com efeito, diz R. Lulle, pede e requer imperiosamente uma ciência geral, aplicável a todos os conhecimentos, com princípios muito gerais nos quais está implicado o princípio das ciências particulares, assim como o particular está contido no universal ». Ars magna, prol., 1. p. 1-3.

Os princípios deste método se dividem em absolutos e relativos. Os primeiros identificam-se com as dezesseis dignidades divinas, bondade, grandeza, etc. Os segundos chamam-se concordância, diferença, contrariedade, meio, princípio, fim, maioridade, igualdade e minoridade; servem para marcar as relações dos seres. Keicher, op. cit., p. 72. Dado que os princípios absolutos se identificam com as dignidades divinas e que estas só são conhecidas pelos vestígios que deixaram no ser criado, é claro que o ponto de partida da grande Arte é o dado sensível, Comp. artis dem., t. iii, p. 74-79 Debet artista ascendere de effectu ad summam : causam. O artista eleva-se progressivamente, Keicher, op. cit., p. 72-74, Probst, op. cit., p. 225. 226; ao termo da ascensão considera Deus e suas perfeições. Essa contemplação não é uma visão em Deus; Lulle rejeita, com efeito, o ontologismo, Declaratio. p. 137, e sustenta que, mesmo no grau mais « elevado da fruição contemplativa », Deus só é conhecido mediatamente, per similitudinem. Declaratio. p. 138, cf. Probst, op. cit., p. 284.

Uma vez conhecidas essas dignidades divinas, a inteligência desce rumo ao contingente. É por essas ideias imperiais que a ciência se elabora, Duodecim principia, prol., ed. Estrasburgo, 1651 duodecim : Intellectus causat scientiam cum imperatricibus quœ sunt hœc : divina bonitas, magnitudo, etc. Elas são, com efeito, uma irradiação de Deus no espírito e lhe comunicam uma força que ele não tinha até então. Comp. artis dem., t. iii, p. 74 : Quidquid virtutis habet intellectus ascendendo habet similiter descendendo, sed non e converso quia descendentia (principia) imprimunt in se in intellectu contemplativo (principia) in se primæ causæ lumen et virtutem de quibus in descensu illuminantur potentiae animae; de inferioribus judicantes. Princípios do ser, elas são também a lei do pensamento, visto que, a partir de então, « o efeito é conhecido na causa ». Keicher, op. cit.. p. 75. Lib. de forma Dei. Munique, lat. 10 588, f° 119 b Intellectus agens facit veriorem : quam scientiam propter formas divinas propter sensum et imaginationem. Essa dedução, descensus Intellectus, não se aplica aliás à ciência do individual, mas à metafísica geral, introd. artis dem.. c. xxxviii, t. iii, p. 31, Probst, op. cit.. p. 60. Também não se faz ao acaso, mas segundo regras práticas, juízos e axiomas sutis e numerosos, os quais, em última análise, como observou parcialmente S. Bové, não são senão os três princípios seguintes: a) ter por verdadeiro tudo o que afirma o máximo de harmonia e de simbolismo entre Deus e o ser criado, Declaratio, p. 99; b) atribuir a Deus o que é mais perfeito. Comp artis dem.. m. 80, o que t. p, é a grande proposição celebrada por Ricardo de São Vítor, De Trin., l. I. c. xx. col 900; c) aplicar à atividade de Deus ad extra o axioma de santo Agostinho, De libero arbitrio, l. III, c. v, P. L., t. xxxii, col 1277: Quidquid tibi vera ratione melius occurrerit, scias fecisse Deum, etc. Por conseguinte, o método da grande Arte não é essencialmente outra coisa senão o método analítico-sintético dos escolásticos, mas, contrariamente à opinião de S. Bové, no estilo puro e autêntico dos agostinianos do século XIII.

Se esta análise é exata, é fácil prever que R. Lulle era levado logicamente a propor um novo modo de argumentação. Decerto conhece bem a lógica aristotélica, como resulta da Ars generalis et ultima, em que expõe o ensino da escola sobre as categorias, os sofismas e o silogismo. Não obstante, segundo ele, entre a demonstração propter quid e a demonstração quia, cabe admitir « a demonstração por equiparência ou equivalência dos atos das dignidades divinas ». Lib. de demonstratione per æquiparantiam, prol., t. iv, p. 1, 2. Este último procedimento tem suas preferências; « é tão peculiar a R. Lulle que constitui a nota característica de sua dialética e mesmo de todo o seu sistema. » Mons. Maura, El optimismo del B. R. Lulio, Barcelona, 1904, p. 22. O princípio que o inspira é dos mais simples. As dignidades divinas identificam-se realmente em Deus; por conseguinte, como são ativas, todas concorrem igualmente para a atividade imanente e para a ação ad extra de Deus. Declaratio, p. 218. Desde então, se se quer provar a criação do universo no tempo, basta considerar que, na tese da eternidade do mundo, a potência de Deus se estenderia mais longe, plus posset, do que sua bondade e sua infinidade, uma e outra comunicáveis apenas de maneira finita, o que é impossível dada a igualdade perfeita que rege a atividade de todas as dignidades. Declaratio, p. 164. Cf. Keicher, op. cit., p. 83-85.

Lulle e a maioria dos historiadores insistiram na originalidade dessa demonstração, mas o bem-aventurado muitas vezes matizou e limitou suas declarações; somente, diz ele, os « filósofos antigos » não a conheceram. Declaratio, p. 218. De fato, se se remonta o pensamento cristão, é possível traçar suas origens. A respeito dos atributos divinos, Ricardo de São Vítor escreve, com efeito, De Trin., I, 1. c. xviii, col. 899 Quantum ad perfectionis culmen si : quod aliquid per intelligentiam attingere per efficaciam apprehendere non posset, jam se procul dubio magnificentius per sapientiam quam per potentiam extenderet esselque una eademque substantia et seipsa major et seipsa minor, etc. O princípio fundamental de R. Lulle não poderia ser formulado mais explicitamente. Declaratio, p. 164. O que não é menos impressionante é que o célebre vitorino estabelece primeiro a pluralidade em Deus, De Trin., III, c. ii-viii, col. 916-920, depois a Trindade 1. c. xi-xiii, col. 922-924, pelo testemunho concordante e mútuo, mutua attestatione, invicem sibi concurrunt, dos atributos que desempenham na síntese luliana o grande papel, a bondade, a bem-aventurança, a glória. Por conseguinte, não há mais dúvida possível: como R. Lulle conhecia Ricardo, bastou-lhe um pouco de reflexão para fazer brotar do De Trinitate toda a sua « nova lógica ».

2° Antiaverroísmo. — A crítica do averroísmo latino é um dos principais objetivos da atividade doutrinal de R. Lulle. S. Bové, La filosofia nacional de Catalunya, Barcelona, 1902, p. 94. Desde cedo, voltou-se contra os filósofos que negavam a ressurreição dos corpos, Lib. Cont., l. I, c. xvii, t. ix, p. 34, mas só mais tarde, em 1298, empreendeu libertar a escolástica parisiense dos abraços do peripatetismo árabe e justificar as censuras proferidas por Estêvão Tempier em 1277. Critica sobretudo os erros de Siger de Brabante e de Boécio da Dácia, mas, graças ao seu conhecimento do árabe, não ignora o averroísmo muçulmano propriamente dito; na questão da eternidade do mundo, parece até ter traduzido diretamente do árabe os argumentos de Algazel e de Maimônides. J. Tusquets, Posicio, p. 96-99, Declaratio, p. 163. Nessa luta, o ponto de apoio de R. Lulle é sua metafísica das dignidades divinas, Declaratio, p. 97-98, pois, segundo ele, os filósofos erraram porque a ignoraram e só argumentaram per sensum et imaginationem. Keicher, op. cit., p. 80, 82. Seu método é também o que segue alhures e que consiste em ultrapassar a razão pela fé, Declaratio, p. 99,100, 193,194, e em corrigi-la pela revelação, Declaratio, p. 96. Essa posição inicial dá a entender que R. Lulle, ao atacar em bloco o averroísmo, Probst, op. cit., p. 132-155, Keicher, op. cit., p. 62-95, devia voltar-se primeiro contra o erro averroísta que, separando radicalmente a filosofia e a teologia, desembocava na teoria das duas verdades. Keicher. op. cit., p. 62-71. Nada o espanta mais do que ver filósofos cristãos fazerem-se discípulos de Averróis a ponto de aceitar como verdadeiras em filosofia asserções que contradizem a fé. Reprobatio aliquorum errorum Averrois, Munique, lat. 10 497, f» 150 r. Essa falsa posição provém de um conceito inexato de Deus. De Deo ignoto, Munique, lat. 10 588, f» 32, cf. Keicher, op. cit., p. 56.

Contra esse erro, R. Lulle estabelece uma estrita harmonia entre a teologia e a filosofia. Segundo ele, o objeto da teologia é Deus, o da metafísica todo outro ser inteligível, Lib. de efficiente et effectu, Munique, lat. 10 580. f° 41 por conseguinte, as duas ciências não podem contra- ; quia objectum Deus dizer-se, intelligentis est veritas et est veritas, Ibid., mas têm entre si uma relação de causa a efeito, secundum illam concordantiam quae requiritur esse inter causam et suum effectum. Declaratio, p. 95. A metafísica está subordinada à teologia. quœ domina est philosophiœ et mater, Declaratio, p. 91 : cf. Keicher, op. cit., p. 71. Aliás, a fé e a teologia de modo algum deprimem a razão, mas a exaltam fixando-a em objetos que ela não pode alcançar, Ars generalis et ultima, ed. Zetzner, p. 454. É daí que vem a superioridade dos filósofos cristãos sobre os pensadores infiéis. Declaratio, p. 120. 206. De acordo com todos os escolásticos, R. Lulle critica também a tese do monopsiquismo averroísta. Declaratio, p. 133-135, 181-183; Quœst. per artem demonstr. solubiles, q. lxiv, t.iv, p. 82, 83; Reprobatio aliquorum errorum Averrois, Munique, lat. 10 582, f° 36. Entre outros argumentos, apela principalmente aqui, como muitas vezes alhures, ao testemunho da consciência: « Se o intelecto fosse um só em todos os homens, diz ele, o mesmo se daria com a vontade e a memória, o que é impossível e contra a experiência que tens, porque sabes que tens a liberdade de compreender uma coisa ou outra, como de amar e de repassar em tua memória isto ou aquilo. Segue-se, portanto, que tens um intelecto próprio, uma vontade própria e uma memória própria, que são as potências de tua alma, que é uma parte de ti mesmo, e que fazes delas o que te apraz; mas se fosse como dizes, isto é, que fosses o instrumento do intelecto, da vontade e da memória, teu intelecto seria como um artífice que se serve de seu instrumento a seu bel-prazer, e tu não compreenderias nem te lembrarias, nem amarias livremente isto ou aquilo, o que é falso e disso temos a experiência. » Declaratio, p. 134: cf. Probst, op. cit., p. 148, 149.

Antes de tudo, porém, R. Lulle empenha-se * em defender seu Amado contra aqueles que dizem que o mundo é eterno. L'Ami, n. 286, p. 87. Considerava esse erro como um dos mais perigosos: por isso exortava o papa e os cardeais a destruir a opinião que os sarracenos, os tártaros e vários cristãos cismáticos têm da eternidade do mundo ». Arbor Scientiœ, p. 217. Convencido desse perigo, R. Lulle não cessa de combatê-lo, Declaratio, p. 163-170, Arbor scientiœ, p. 215-218, Ars generalis ultima, Lyon, 1517, f° 17-20, 56, etc. O ataque mais maciço de sua obra no Lib. de XIV articulis é o fidei catholicœ, III, t. ii, p. 122-154. Com Boaventura 1. nas Collationes in Hexaémeron, coll. vi, Opera, t. v, p. 360, Lulle vê primeiramente a causa do erro aristotélico e averroísta no desconhecimento do exemplarismo e na rejeição das ideias divinas, Arbor scientiœ, arb. apost., p. 199; Antequam creaturas creaverit, fuerunt ideae in sua sapientia, quae quidem ideae aliud non erant nisi Deus... Ita Deus, antequam forent creaturae, cum sua sapientia, quae est forma divina essentialis et substantialis, creaturas venturas attingit et hoc actualiter et non habitualiter (= por modo de acidente). Et in hoc passu errant Aristoteles et ejus sequaces, qui affirmant mundum esse aeternum, ut creatio habitualiter in Deo non esset, et quod ejus operatio aeternaliter et actualiter esset in mundo. A segunda causa do erro, R. Lulle a assinala no fato de os filósofos não terem conhecido o mistério da vida divina, suas processões eternas ad intra. Lib. de gentili et tribus sapientibus, l. II, t. ii, p. 21b, 28, Félix de les maravelles, t. i, p. 31, 32. Por conseguinte, a lógica de seu princípio, proibindo-lhes deixar inativo o Ser primeiro, os conduziu a pôr no tempo um efeito eterno. « Os filósofos, escreve Lulle, L'Art, p. 75, dizem que o mundo é eterno, e isso com o fim de honrar vossa virtude infinita, à qual convém operar eternamente e infinitamente; mas, como ignoram a Trindade e sua vida eterna (obra eternal), atribuem a Deus como obra eterna e infinita o mundo e as coisas de que o mundo se compõe. » Cf. Declaratio, p. 165, 170.

Contra essa asserção, R. Lulle multiplica as razões. A passagem do não-ser ao ser implica um começo, Declaratio p. 166. A experiência, o que já alegara Ricardo de São Vítor, De Trin., I, c. vii-viii, col. 894, 1. estabelece o caráter finito e limitado dos seres criados, Arbor scientiœ, p. 217 Mundus est creatus ratione experientiœ quam habemus : de principiis, mediis et finibus particularibus, etc. A « disposição » ordenada da vontade divina exclui igualmente — a criação ab œterno. Declaratio, p. 168, 169, o que Alexandre de Hales também ensina, Summa theol., ed. Quaracchi, 1924, t. i, n. 64, p. 98. Além disso, Deus opera ad extra com todas as suas dignidades e na mais perfeita igualdade, Declaratio, p. 166 Modus productionis de non esse in esse est totus suspensus et sustentatus in divinis rationibus et in identitate numeri ipsarum; na hipótese da eternidade do mundo, a harmonia dos atributos é quebrada. Declaratio, p. 164. Sobretudo, a criatura não pode suportar o peso da eternidade, sendo finita em seu ser e em sua potência, Ibid., p. 170 Quia mundus non potest plus recipere per æternitatem quam per bonitatem, magnitudinem, etc. R. Lulle insiste particularmente nessa incapacidade radical. J. Tusquets, Posicio, p. 101-104. Põe em relevo que a tese da eternidade do mundo diminui o privilégio de Deus, quoniam privat singularitatem suæ æternitatis, quæ privatio est mala, Arbor scientiæ, p. 216, e coloca quase no mesmo pé a geração do Verbo e a produção do mundo, ita quod in œternitate sunt duœ productiones œquales, videlicet divina productio et productio mundi. Ibid., p. 217.

Segundo J. Tusquets, Posicio, p. 101-104, toda essa argumentação é errônea, • antropomorfista uma de . porque repousa sobre ignorância absoluta da analogia e sobre um grave erro filosófico », a consideração do tempo como uma perfeição transcendental ». Sem entrar em pormenores, baste observar que o sistema inteiro de Lulle, metafísica e ideologia, é elaborado em função de uma filosofia da analogia universal de um luxo tal que somente são Boaventura o ultrapassou, e que o « grave erro » de Lulle nada mais é que a argumentação dos Padres da Igreja; a apologética, com efeito, considerou tradicionalmente a eternidade como absolutamente incomunicável ao criado, e é por ela que os Padres gregos sobretudo provaram a divindade do Verbo. Petau, Dogmata theologica, De Deo, l. III, c. vi, Veneza, 1745, t. i, p. 145-148; L. Janssens, O. S. B., Summa theologica, De Deo, Friburgo, 1905, t. i, p. 191-200. Desde Ricardo de São Vítor, De Trin., l. II, c. xii, col. 908, a ideia era clássica. No século XIII, Alexandre de Hales recusava também admitir a eternidade do mundo porque temia igualar o mundo a Deus, Sum. theol., t. i, n. 64, p. 95, 96, t. ii, n. 67, p. 87 : Quod per multiplicationem in effectibus manifestatur divina bonitas, sed non in effectibus ab œterno : non enim creatura potuit esse œqualis creatori etc. Mais uma vez, portanto, R. Lulle se liga à tradição agostiniana e a continua não sem honra. Por esse título, não menos que por suas numerosas obras e suas diligências contra o averroísmo junto à Universidade de Paris e ao concílio de Viena, ele mereceu bem do pensamento católico.

3° Apologética. — No dia seguinte à sua conversão, R. Lulle jurou por três vezes « não mais se dar repouso nem consolação enquanto o mundo inteiro não fosse cristão, e enquanto todos não louvassem Deus trino e uno. » Lib. Cont., l. V, c. ccclviii, t. x, p. 554. Era uma rude empresa. Nas fronteiras da cristandade agitavam-se os árabes, os judeus, as hordas tártaras e as nações cismáticas do Oriente. Todo o esforço apologético e missionário do século XIII se havia quebrado contra esse bloco compacto, não menos que os anos da cruzada e a heroica aventura de Francisco de Assis em Damieta. Sozinho, R. Lulle empreendeu de novo essa obra imensa: reconduzir os dissidentes orientais à unidade da Igreja, refutar o naturalismo fatalista dos tártaros, estabelecer a divindade de Jesus Cristo contra as negações dos judeus, arruinar a teologia do Alcorão e a filosofia averroísta. Desdobrou nisso tal ardor que Sollier, Acta SS, p. 732, pôde escrever Nullam prope sectam intactam reliquit quam non acerrime aggressus fuerit : paganos, gentiles, Tartaros, Judœos, Saracenos, schismaticos, grœcos, nestorianos. jacobitas, Averroem ejusque sequaces, hœreticos denique et hœreses omnes ita verbis et scriptis insectatus est ut præcipuis fidei catholicæ athletis non immerito comparari possit. Não se podem enumerar as obras que redigiu com esse propósito; sob uma forma ou outra, seus escritos teológicos e antiaverroístas não são mais que um esforço para fazer os infiéis aceitarem o dogma revelado, sobretudo a Trindade, a encarnação e a presença real.

Ora, é justamente essa grande iniciativa de R. Lulle que foi objeto das mais vivas críticas. A Vida atesta suficientemente que o bem-aventurado não recebeu em vida a aprovação unânime dos doutores da Universidade de Paris: em minha opinião, a Supplicatio Raymundi venerabilibus et subtilibus theologiae professoribus ac baccalaureis studii Parisiensis é uma autodefesa mal velada. Desde Eymeric, O. P., sobretudo, é de uso clássico acusar o bem-aventurado de racionalismo. Em face do sistema averroísta que, separando a teologia e a filosofia, desembocava na teoria das duas verdades, em face dos infiéis que o argumento de autoridade fundado na Escritura ou na Igreja não podia ganhar para Cristo, mas somente o raciocínio, ele teria caído no erro oposto, a racionalização do dado revelado. Recentemente ainda, o P. S. Lozano, O. P., repetia essas pesadas acusações no congresso apologético de Vich (1910). S. Bové, Al margen de un discurso, Urge, 1912. Segundo M. De Wulf, Hist. de la philosophie médiévale, Lovaina, 1925, t. ii, p. 144» « B. Lulle desnatura o sistema escolástico das relações da teologia e da filosofia; além disso, confunde esta com a apologética. » Mais ainda, aquele mesmo que mais poderosamente contribuiu para a renascença luliana, Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 520, embora protestando contra essas acusações seculares, não pode deixar de criticar o método de R. Lulle. « Sua tentativa, diz ele, era arriscada, a dois passos do erro, e de um erro gravíssimo em mãos menos piedosas do que as de Lulle, ela teria acabado por racionalizar a teologia, isto é, destruí-la...

Repito, acrescenta ele, o erro de Lulle está em seu método, ele não quer dar uma explicação racional dos dogmas; o que ele fez foi converter em prova positiva a prova negativa que se pode dar deles. » M. André, op. cit., p. 176, A. Rubiô, Lliçons, p. 14; G. Goyau, Figurines franciscaines, Paris, 1921, p. 41-47, são da mesma opinião, salvo algumas nuances. Apesar da autoridade dessa quase-tradição, pode-se estabelecer que uma exposição objetiva do pensamento de R. Lulle, que leve em conta o princípio fundamental de sua apologética, seu método agostiniano, suas declarações tão numerosas quanto explícitas, o sentido que já seus discípulos autorizados e os anotadores do ms. de Karlsruhe lhe davam desde a primeira metade do século XIV, bem como o caráter popular da apologética lulliana, arruína sem apelação essas acusações. Somente rivalidades inúteis podem prolongar o debate, sem proveito algum, pois a Igreja não é menos honrada pela doutrina do que pelo martírio de seus apóstolos. A apologética de R. Lulle é sã que imagée : ela não é a tradução toda simples e do esforço dialético e racional de santo Anselmo, dos vitorinos, de todos os agostinianos do século XIII e seguintes, sobretudo são Boaventura e Roger Bacon. M. Baumgartner, Grundriss der Geschichte der Philosophie, Berlin, 1915, p. 535, e M. Probst, op. cit., p. 272-274 já o reconheceram. Depois de Pasqual, Vindiciœ, 1. p. 73- Mgr 1, 91, t. ii, p. 673-728, etc., e Maure y Gelabert, El optimismo del B. R. Lulio, Barcelona, 1904, p. 41-52, é fácil fazer a prova disso.

R. Lulle, com efeito, indica claramente o sulco doutrinal em que se move. Designa primeiro santo Anselmo e Ricardo de São Vítor, Lib. mirand. demonstr., l. I, c. xiv, t. ii, p. 4 Item, Anselmus et Richardus a : S. Victore et multi alii Sancti significant in suis sermonibus quod intellectus habeat possibilitatem intelligendi articulos (fidei). Cf. Lib. de disp. fidei et intellectus, prol. n. 1, 1. 16, t. iv, p. 1. No seu Lib. de conuenientia fidei et intellectus in objecta, part. I, n. 1-4, t. iv, p. 1-2, Lulle não é menos explícito e desta vez apela a santo Agostinho e a santo Tomás de Aquino. Eis as suas palavras : Aliqui dicunt quod non sit bonum quod fides possit probari... Unde ad hoc respondemus sic Iterum B. Augustinus librum ad probandam divinam : Trinitatem, supposito fecit merito fidei, contra quam fidem ipse non fuit, quia erat sanctus. Iterum Thomas de Aquino fecit unum librum contra gentiles qui requirunt rationes quia nolunt dimittere credere pro credere, sed credere pro intelligere; ipse autem in faciendo librum et rationes contra gentiles non intendebat destruere fidem, quia fuit vir sapiens et catholicus. Iterum doctores Sacræ Scripturæ conantur, quantum possunt, deducere rationes ad probandum divinam Trinitatem et Incarnationem, etc., habentes sanam mentem et intentionem ad exaltandam sanctam fidem. Et ideo ego qui sum verus catholicus, non intendo probare articulos contra fidem sed mediante fide, cum sine ipsa non possem probare nam articuli sunt per superius et meus intellectus est inferius et fides est habitus cum quo intellectus ascendit supra vires suas. Non autem dico quod probem articulos fidei per causas, quia Deus non habet causas supra se, sed per talem modum quod intellectus non potest rationabiliter negare illas rationes et possunt solvi omnes objectiones contra ipsam factæ et infideles non possunt destruere tales rationes vel positiones; talis est ista probatio, sive dicatur demonstratio, sive persuasio, vel quocumque alio modo possit dici, hoc non curo, quia propter nostrum affirmare vel negare nihil mutatur in re.

Esta longa declaração, em que R. Lulle, na esteira de santo Agostinho e de santo Tomás de Aquino, precisa tão claramente o sentido e os limites de sua apologética, lança sobre todo o seu pensamento uma luz decisiva e derruba a maior parte das acusações feitas contra ele, e isso sem réplica, como observa Mgr Mau- « », A ra, El optimismo, p. 46. a luz desses textos, a escola lulista não se enganou sobre a direção doutrinal de seu chefe em matéria apologética. Precisamente, em meados do século XIV, um lulista anônimo, tratando a seguinte questão Utrum fidei catholicæ sunt viam : veritates per rationis, inquirendœ, Innichen, VIII, B. 13, f° 13-15, apoia-se em santo Agostinho, são Bernardo, santo Anselmo, Ricardo de São Vítor e são Boaventura. J. Rubiô, Los codices, p. 322.

A análise da doutrina de R. Lulle estabelece também a retidão de seu pensamento. Ele insiste, com efeito, sobre a fraqueza e os limites da razão, Lib. Cont., l. III, c. clxviii, t. ix, p. 389-392, e supõe sempre a fé sobrenatural no limiar de sua investigação, Disputatio fidei et intellectus. p. I, n. 2, t. iv, p. 2, 3 Etiam Isaias dicit nisi credi- : : deritis non intelligetis, et sic patet quod lu, Fides, sis dispositio et præparatio. Nele, a transcendência do dado revelado é absoluta Fides est adeo res excellens et quod : nobilis transcendat terminos in quibus est ratio terminata et conclusa, quia de talibus rebus tractat fides quod ratio et intellectus hominis non possent ipsas intelligere. Lib. Cont., c. cliv, Keicher, op. cit., p. 65. Afirmar o contrário é pecar gravemente, Lib. de perseitate, cod. Ottob. lat. 405, f° 191 r° Adhuc dico quod divinam : si volo totam Trinitatem intelligere et comprehendere pecco mortaliter, quia finitum non potest comprehendere infinitum.

Todavia, o fiel pode, dentro de certos limites, apreender o conteúdo revelado e dar razão dele; deve mesmo fazê-lo diante dos infiéis, que a simples exposição da fé cristã repele infalivelmente, como R. Lulle gosta de repetir frequentemente a partir de sua longa experiência. Lib. de conuenientia fidei et intellectus. p. III. n. 1 2, t. iv, p. 4: Lib. de recuperatione Terrœ Sanctœ, Paris, Bibl. nat., lat. 15 450, f° 547 r. Keicher, op. cit., p. 63. Esse conhecimento é, contudo, relativo, parcial e depende da graça do Espírito Santo, Lib. de disput. fidei et intellectus, p. 1, n. 3, t.iv, p. 3: Secundum modum intelligendi, ratione infusionis gratiæ divinæ Trinitatis et suæ maximæ intelligibilitatis possum particulariter, secundum me aliquid attingere de suo lumine veritatis, quia non est aliquis qui possit eam contra hoc ligare... sicut digitus positus in uno parte igniti ferri sentit in parte caliditatem ejus sed non totam caliditatem, etc.

À objeção que recusa à inteligência mesmo esse conhecimento imperfeito, R. Lulle responde algumas linhas adiante Tua ratio valet secundum altitudinem divinæ Trinitatis et meum modum (intelligendi) cum est infirmus et humanus, sed non valet secundum instrumentum divinum, scilicet lumen gratiæ, et hoc jam superius dictum est, et nescis quod sit scriptum quod Spiritus Sanctus ubi vult spirat.

É a mesma doutrina que R. Lulle nos entrega sob outros termos quando aplica à apologética sua metafísica das « passagens transcendentes ». Segundo o seu método, com efeito, a inteligência se ultrapassa quando critica os dados da imaginação e da experiência sensível e não julga segundo as aparências. Declaratio Raymundi, edit. Keicher, p. 99. Ela se eleva ainda acima de si mesma quando, sob a ação da fé e da graça, admite a existência de verdades que não compreende. Declaratio Raymundi, p. 100 Est et alius modus punctorum transcendentium, videlicet cum intellectus, mediante gratia Dei, supra se ipsum transcendit et in se ipso veritatem primæ causæ et ejus operationem attingit, quam tamen in se ipso, videlicet in sua natura, attingere non potest. Somente então a razão entende de algum modo os mistérios da fé. Declaratio Raymundi, p. 119 Adhuc dico tibi quod fides est necessaria ad intelligendum veritates Dei quoniam in principio, in quo intellectus ipsas investigat, supponit per fidem quod ipsas attingere possit et invenire, non sicut comprehendens sed sicut apprehendens, etc. Essa apreensão é essencialmente negativa, como R. Lulle explica claramente. Disput. fidei et intellectus, part. I, n. 4, t. iv, p. 3 b Per te (fides) et per lumen (gratiæ), habeo quod possum aliquid extensive apprehendere de Trinitate et hoc est in tantum quoad me in quantum habeam sufficientiam ad confundendum omnes errores contra ipsam. Cf. Maura, El optimismo, p. 51.

Nada, portanto, mais claro. Por isso não surpreende que as miniaturas do ms. de Karlsruhe, representando sob a imagem de uma torre além da qual paira a Trindade a dupla ordem dos conhecimentos naturais e sobrenaturais comprometida pelos erros dos filósofos, concretizem todo o método luliano na figura de um homem arrebatado em direção à Trindade por uma corda estendida do alto, simbolizando a graça assim como as virtudes teologais e morais. J. Rubiô, El breviculum, p. 85-87. É verdade que R. Lulle falou muito frequentemente de « razões necessárias », de « provas manifestas » etc., sem se explicar a cada ocasião, o que precisamente ocasionou as graves acusações feitas contra sua apologética. Mas é preciso ver o sentido que ele lhes deu. Já Keicher, op. cit., p. 65 e J. Rubiô, R. Lull, p. 555, concordam em assegurar que « o fim de R. Lulle não é tornar evidentes à razão os dogmas da fé, mas sim dar deles provas de caráter negativo tais que os contraditores não possam razoavelmente rejeitá-las. » De fato, a doutrina do bem-aventurado não é outra. Ele não se prende, com efeito, à fórmula. Lib. de convenientia fidei et intellectus, part. I, n. 3, t. iv, p. 4; por isso chama frequentemente essas razões necessárias de argumentos prováveis, Lib. de recuper. Terræ Sanctæ, f° 547 v, ou de provas de altíssima conveniência, Lib. mirandarum demonstrationum, l. IV, c. xxiv, n. 3; c. xxviii, n. 2, t. ii, p. 207, 213, etc.

Declara em seguida que sua argumentação quer sempre respeitar a fé, Supplicatio profess. ac baccalaur. Paris., prol. n. 4, t. iv, p. 2 : Intendo taliter probare quod habitus fidei maneat integer et illæsus qui datus est a primo creante, sicut in aliis libris de hoc alias latius tractavimus, etc.; acrescenta que é impossível tornar manifesto à razão o conteúdo dos dogmas, Lib. quinque sapientium, t. ii, p. 4 : Nec tu credas quod de fide christianorum possit dari demonstratio propter quid nec demonstratio palpabilis sicut de rebus sensualibus. Desde então sua apologética se limita a fazer ver no cristianismo um caráter racional tal que, de um lado, o infiel bem disposto e que admita já a existência de Deus e de seus principais atributos não possa razoavelmente rejeitá-lo, nem aceitar como necessariamente verdadeira uma asserção contrária ao dogma, e, de outro lado, o fiel possa resolver com satisfação as objeções levantadas contra os dogmas e dar em favor de sua fé razões tais que os sofismas do erro sejam impotentes para destruí-las. Além i dos textos já citados, Lib. de conv. fidei et intell., part. I, n. 3, t. iv, p. 4; Lib. de disput. fid. et intell., t. iv, p. 3 b. vários outros fixam com segurança o pensamento de R. Lulle nesse sentido. Dada a gravidade do debate, citemos alguns: Serm. contra errores Averrois, Munich lat. 10 588, f° 81 r : Raymundus supplicat... quantum potest, excellentissimo domino Philippo... quod errores Averrois a civitate Parisiensi extirpentur, quos errores promitto improbare et solvere, tali modo quod intellectus humanus meas rationes non poterit rationabiliter negare. Lib. de unitate et pluralitate divina, Munich, lat. 10 588, f° 64 : Rationes ita apparentes et evidentes quod intellectus benevolus et fundatus non possit ipsas negare rationabiliter. Lib. de quæstione valde alta, Munich, lat. 10 588, f°22 v° Probavimus divinam Trinitatem tali modo quod intellectus humanus non potest rationabiliter intelligere oppositum esse verum, etc. Keicher, op. cit., p. 65.

Em tudo isso, pode ocorrer por vezes que a terminologia do apologista popular não tenha todo o rigor escolástico, mas em definitiva a história e a teologia não podem ver aí nem racionalismo, nem teosofismo gnóstico, nem exagero das forças da razão il que : não há aí outra coisa, com efeito, senão a apologética tradicional de todos os agostinianos da Idade Média, de santo Anselmo a Roger Bacon. Por conseguinte, R. Lulle ocupa na história da apologética um lugar diferente daquele que até aqui se lhe atribuía. O cardeal Gonzalez, O. P., Historia de la filosofia, 2 e édit., Madrid, 1886, t. ii, p. 349,350, já reconheceu notavelmente o seu mérito, louvando « a profundidade e a força lógica de seus raciocínios para estabelecer e provar a existência das três pessoas em Deus, sua divindade, sua igualdade, bem como as outras verdades relativas a esse mistério », e afirmando que « seu tratado De articulis fidei é um dos mais originais que foram escritos do ponto de vista escolástico ». De fato, bem poderia ser que a história futura ratifique plenamente o juízo do P. Sollier, S. J., e coloque R. Lulle « entre os principais atletas da fé católica ».

4° Teologia. A ideia principal da teodiceia luliana, Lib. cont., l. I, c. i-cii, t. ix, p. 3-224, Lib. de XIV articulis, d. I, t. ii, p. 3-50, Arbor scientiæ, p. 197-215, é a ideia de bondade. Por aí, R. Lulle se liga à especulação anterior de Ricardo de São Vítor e de Alexandre de Hales, Summa theol., t. i, p. xxxv-xxxix. Na enumeração das dignidades, ela figura sempre em primeiro lugar, Arbor scientiæ, p. 59; por isso Lulle chama ordinariamente a Deus o bem soberano. L'Art, p. 62. A bondade é o primeiro princípio, fontalitas, das processões divinas. L'Art, p. 74-77; Arbor scientiæ, p. 344. Que haja produção em Deus, Lulle o deduz do fato de que as dignidades divinas não podem ser inativas, tendendo o bem a difundir-se, Arbor scientiæ, p. 210. Ele insiste constantemente nesse ponto de vista. Declaratio, p. 102; Felix de les maravelles, t. i, p. 29-32. As razões que invoca para provar o número trino das Pessoas divinas também nada têm de original, Arbor scientiæ, p. 212-215; encontram-se em substância em Ricardo de São Vítor e Alexandre de Hales, Summa theol., t. i, n. 319, p. 468.

Em razão do erro averroísta, Lulle defende frequentemente a liberdade de Deus. Declaratio, p. 125-126, 145. Cf. Mgr Maura, El optimismo, p. 2-8. Ele não subscreve de modo algum um otimismo exagerado, como vários escritores o afirmam, Maura, El optimismo, p. 8-17, Probst, op. cit., 120-121 combate-o pelo contrário : diretamente, Quæst. per artem demonstrativam solubiles, q. xxxi, t. iv, p. 53 : Deus potuit plus creare quam creavit respectu hujus quod creavit et similiter respectu sui, sed hoc noluit, quod nolle est suum posse. Cf. Lib. de quinque sapientibus, p. IV, d. II, t. ii, p. 48. Nada se impõe à vontade de Deus, Declaratio, p. 166, 167, nem mesmo a encarnação do Verbo, Disputatio fidei et intellectus, part. III, n. 2 sq., t. iv, p. 13, cf. Maura, ibid., p. 17-40; contudo, convinha altamente, quoad bene esse, que o Verbo se fizesse carne, Disputatio Raymundi et Hamar sarraceni, p. II, c. i, t. iv, p. 13; De novo modo demonstrandi, l. III, t. iv, p. 7. É essa I. 1 1 1. t . alta consideração que a apologética de R. Lulle e suas célebres razões necessárias têm por fim de estabelecer; não se deve esquecê-lo se se quer interpretar 1127 objetivamente seu esforço, como observa com justiça Mgr Maura. Ibid., p. 21-23.

Em cristologia, R. Lulle defende sobretudo o fato da encarnação, a divindade de Jesus Cristo e a dualidade de suas naturezas. O Lib. mirand. demonstrationum, l. I, t. ii, p. 165-244, consagra a isso cinquenta capítulos. Cf. Lib. de XIV articulis, IV, t. ii, p. 154-190, Arbor scientiæ, arb. apost., p. 229-239, arb. christ., p. 297- 337, etc. A encarnação deduz-se, como todos os outros artigos de fé, das dignidades divinas; de outro modo elas não teriam encontrado ad extra o termo de seu repouso. Arbor scientiœ, p. 229. Por isso, a encarnação é a grande revelação dos atributos divinos. Lib. Cont., l. V, c. ccli, n. 28, t. x, p. 92, L'Art, p. 77- 81. O que R. Lulle afirma com insistência, Pasqual, Vindiciæ, t. ii, p. 235, 236, é que Cristo é a razão do universo e a primeira intenção de Deus em suas obras ad extra. A natureza de Jesus Cristo, « diz ele, no Libre de Sancta Maria, Obres, t. x, p. 63, é mais alta e mais nobre que todas as outras criaturas, pois é o fim, o complemento e o começo de todas as criaturas, já que tudo o que Deus criou, fê-lo para revestir-se dessa natureza humana que nasceu de Nossa Senhora. » Cf. ibid., c. viii, p. 72, c. xiii, p. 100; Felix de les maravelles, t. i, p. 53, 56.

Ele não quer que a reparação do pecado seja o motivo primeiro da encarnação; por conseguinte, em suas Quæstiones per artem demonstrativam solubiles, q. xxix, t. iv, p. 50, expõe longamente a seguinte tese : In incarnatione Dei principalior fuit divina ostensio et dilectio quam nostra redemptio. No mesmo sentido, escreve ele em outro lugar, Lib. de prima et secunda intentione, c. iv, n. 2, t. vi, p. 5 : Majus bonum quod possit creari est bonum creatum conjunctum Deo in unitate personae; ideo, fili, bonitas Dei concordat cum majori intentione cum qua potest concordare in creando, uniendo se ipsum creaturae ea intentione ut tam fortiter ametur et cognoscatur sicut illa creatura potest habere virtutem ad cognoscendum et amandum Deum. Em conformidade com essas ideias, R. Lulle fala bem da realeza de Jesus Cristo. Lib. Cont., l. II, c. lxviii, t. ix, p. 148-151. Sem ser absolutamente explícito, parece estender aos anjos a influência sobrenatural de Cristo. L'Art, p. 86 « Rainha, diz ele dirigindo-se : do à Virgem, tão grande é o esplendor sol que ele dá a luz à lua, às estrelas e ao ar; ora, como a misericórdia e a humildade são maiores em teu Filho do que o resplendor do sol, vem a nós e aos anjos uma maior influência de bênção do fruto de tuas entranhas do que o é o esplendor do sol e das outras criaturas. » Em toda essa questão, R. Lulle está, portanto, muito perto de Duns Scot. Maura, ibid., p. 29-41.

O resto da doutrina cristológica de Lulle não faz senão refletir o ensino católico. Não deixa de ter interesse notar de passagem que ele pressente a devoção ao Sagrado ' Coração. Lib. Cont., l. II, c. lx, n. 20, t. ix, p. 132; Lib. de Homine, d. III, n. 34, t. vi, p. 53, etc. Se exalta o nome de Jesus, Lib. Cont., l. IV, c. ccl, n. 28, Obres, t. vi, p. 226, l. V, c. cclxxxviii, t. ix, p. 219, se censura 1. nome os cristãos « porque não põem o de seu amado, Jesus Cristo, no começo de suas cartas e não lhe prestam a mesma honra que os sarracenos prestam a Maomé, o Amigo, n. 154, p. 48, », não há por que ver nisso, com M. Ribera e os arabistas espanhóis, uma influência árabe.

Poucos anos antes de Lulle, com efeito, Humberto de Romans, O. P., e Gilberto de Tournai, O. F. M., haviam escrito seus tratados De nomine Jesu e Gregório X, no concílio de Lyon (1274), havia incitado a cristandade à mesma devoção. E. Longpré, Gilb. de Tornaco tract. De Pace, Quaracchi, 1925, p. 32-36.

Muito mais rica é a doutrina mariana de R. Lulle; por isso é de espantar que a história da teologia e da piedade a ignore completamente. Cf. Lib. Cont., l. V, c. cclxxxv-cclxxxvii, t. x, p. 208-220; Arbor scientiœ, arb. maternalis, p. 287-296; L'Art, p. 84- 88 e sobretudo o Libre de Santa Maria, no t. x, das Obres. Tal como Cristo, foram as dignidades divinas que a decretaram, Arbor scientiœ, arb. exempl., p. 403, e isso não simplesmente por ocasião do pecado, ibid., p. 439. Em razão de sua eleição para a maternidade divina, a Trindade imprimiu nela a semelhança de suas dignidades a ponto de « o mundo dizer a Deus que estava saturado dela ». Ibid., p. 403. A beleza espiritual e corporal da Virgem supera a de todas as criaturas reunidas. Lib. Cont., l. V, c. cclxxxv, n. 25, p. 211. R. Lulle celebra essa plenitude de graça na língua dos grandes místicos. Ibid., n. 10, p. 209. Os trinta capítulos do Libre de Sancta Maria não são senão um hino às virtudes de Maria, à sua bondade, p. 15-24, à sua graça sem igual, p. 81-83, à sua pureza, p. 87-92. à sua beleza, p.107-113. Mas onde o bem-aventurado se sobressai é quando canta a maternidade espiritual da Virgem, cujo senhorio se estende por todos os lugares, p. 133- 138. Toda piedade para com os homens, p. 181-188, a Virgem é a esperança dos justos e dos pecadores, p. 155-157 e a misericórdia inesgotável, p. 99-102.

Nesse fervor em exaltar a pureza da Virgem, R. Lulle tem mesmo a intuição da Imaculada Conceição, o que explica por que a iconografia o representa muito frequentemente entre santo Anselmo e Duns Scot ou de joelhos diante da Imaculada. P. André de Palma, O. M. C., em Estudios Franciscanos, Barcelona, 1919, t. xxii, p. 362-368, 446-451. Contudo, na exposição de sua doutrina, é preciso proceder com mais crítica do que a maioria dos lulistas, Pasqual, Avinyo, Probst, op. cit., p. 126-128, S. Bové, etc., que todos se apoiam em medida maior ou menor em escritos que não pertencem a Lulle segundo as últimas pesquisas o Lib. de conceptu virginali (1394) e o : Libre de Benedicta tu, cuja autenticidade é rejeitada pelos editores de Palma, cf. P. Ivars, O. F. M., em l'Archivo Ibero-Americano, Madri, 1926, t. xxv, p. 130-132. Afastados esses textos, resta que Lulle exalta magnificamente a pureza da Virgem e afirma, ao menos em três ocasiões, a conceição sem mancha, mas a explica defeituosamente, na esteira dos teólogos do século XII. Cf. art. Imaculada conceição, t. vii, col. 1062-1064. Por conseguinte, é gravemente inexato concluir com Pasqual, Vindiciœ, t. i, p. 434, e MM. S. Bové e J. Avinyo, todos apoiados no Lib. de conceptu virginali, que Duns Scot tomou de Lulle quase toda a sua argumentação. No século XVII, o P. Samaniego, O. F. M., já criticou essas declarações excessivas em uma obra assinalada recentemente pelo P. Ivars, ibid., p. 130, Primacia del Doctor Subtil y V. P. Fray Juan. D. Escoto en la declaracion y defensa escolastica de el misterio de la Inmaculada Concepcion, etc., Saragoça, 1668. De fato, não há nenhuma relação doutrinal entre os dois mestres. O verdadeiro mérito de Lulle é ter conservado a tradição que remonta a Eadmer e a Alex. Neckam e tê-la afirmado em Paris em 1298.

Teólogo da Virgem, R. Lulle tem também sobre o sacrifício da missa várias páginas que mereceriam ser estudadas. Lib. Cont., l. II, c. xci, t. ix, p. 198- 200, l. IV, c. ccliii, n. 10, t. x, p. 97-99; Lib. mir. demonstrationum, l. IV, c. xx, t. ii, p. 201-203; In libr. sententiarum, l. IV, q. ccxxv-ccxxx, t. iv, p. 106- 110; In psalm. Quicumque, n. 1-8, t. iv, p. 25-27; Doctrina puéril, c. 25, Obres, t. i, p. 62,63; Arbor scientiœ, arb. apost., p. 192-195: L'Art, p. 94-96, etc. Dado o pouco desenvolvimento da teologia da missa no século XIII, o fato merece ser assinalado.

5° Mística. R. Lulle ocupa um lugar muito importante 1129 na história da espiritualidade medieval não somente em razão de suas numerosas obras místicas, da riqueza doutrinal de seu conteúdo, do « lirismo das divinas efusões do cântico do amigo e do amado », Menéndez y Pelayo, Origenes, t. i, p. 80, mas também porque a maciça construção do Llibre de Contemplacio é exatamente ordenada, como a síntese boaventuriana tão brilhantemente estudada por M. E. Gilson, à paz da contemplação mística. Lib. Cont., l. V, c. ccxv-ccclxvi, t. x, p. 337-600. Salvo talvez M. Asin y Palacios, El lulismo exagerado em La cultura española, 1906, p. 535, que vê em R. Lulle um místico mais ou menos inspirado pela espiritualidade árabe, os críticos mais autorizados reconhecem nele, com Probst, op. cit., p. 112, « o precursor franciscano dos João da Cruz e das santa Teresa, frutos originais também da terra ibérica ». A. Salcedo Ruiz, La literatura española, p. 304; Menéndez y Pelayo, La ciencia española, t. iii, p. 31-33, afirma-o muito especialmente com sua autoridade de grande crítico literário « R. Lulle, diz ele, é místico : de alma, todas as potências de seu il o é à maneira de são Boaventura e dos primeiros discípulos de são Francisco, cuja poesia ardente, cheia de candura e do sentimento da natureza, se imprime fortemente na alma... Ele abre a série de nossos grandes místicos e cede a palma somente a dois ou três dos maiores do século XVI, que o superam pela perfeição da forma artística, flor e fruto do Renascimento, mas de modo algum pela originalidade e pela vivacidade das concepções nem pela efusão inflamada e impetuosa dos sentimentos afetivos. » Sua doutrina tem tanto mais autoridade quanto R. Lulle conheceu experiências místicas tão elevadas que não pode exprimi-las.

L'Art de contemplation, édit. Probst, p. 104; L'ami et l'aimé, n. 69, trad. M. André, p. 24, e quanto L'Art de contemplation é o resumo de suas meditações, L'Art, p. 59. R. Lulle eleva-se rumo à paz da união mística pelo próprio procedimento que inspira o Itinerário de são Boaventura e que consiste, de um lado, na contemplação de toda a ordem das coisas, Deus, o homem e o mundo, — ligadas por um simbolismo universal, e, de outro, - na aplicação metódica das potências da alma e no exercício dos sentidos espirituais. Nele, quase tudo se torna matéria de meditação. L'Ami, n. 356, p. 109, como resulta do Llibre de Contemplacio. A Arte de contemplação reduz essa diversidade a doze assuntos principais « Virtudes divinas, essência, unidade, Trindade, : Ave Maria, mandamentos, encarnação, Pater noster, Miserere mei, sacramentos, virtudes e vícios. » L'Art, p. 59.

No primeiro grau, a meditação volta-se para o mundo Por sua imaginação, o Amigo pintava os : « traços de seu Amado e lhes dava uma forma nas coisas espirituais e com sua vontade os adorava em todas as criaturas.» L'Ami, n. 332, p. 102. Transposto esse grau, a contemplação fixa-se principalmente em Deus e seus atributos. « Algumas almas, diz o P. Faber, Bethléem ou le mystère de la sainte Enfance, Paris, 1862, t. ii, p. 9-12, por uma espécie de predileção ousada vivem entre os atributos de Deus, e esses atributos divinos, morada de sua devoção, são para elas o que são para outras o calvário, Belém ou o Tabernáculo. » R. Lulle foi desse número. A arte deste livro, escreve ele, consiste em contemplar primeiro as virtudes divinas umas nas outras e depois nas outras partes do livro, tendo a alma do contemplador por objeto as virtudes divinas em sua memória, seu entendimento, sua vontade, e em saber fazer concordar em sua alma as virtudes divinas e as outras partes do livro para o louvor e a honra das divinas virtudes, as quais são as seguintes bondade, grandeza, eternidade, poder, sabedoria, amor, : virtude, verdade, glória, perfeição, justiça, generosidade, misericórdia, humildade, majestade, paciência. Essas virtudes poderão ser contempladas de diversas maneiras. Pois uma maneira é contemplar uma virtude com a outra, ou uma com duas ou três ou mais. Outra maneira é quando se contemplam as virtudes na essência, ou na unidade, ou na Trindade ou na encarnação e assim das outras partes deste livro; outra maneira ainda, quando com as virtudes se contempla a essência ou a unidade, ou a Trindade ou a encarnação outra maneira, nas palavras do Pater noster, ou da ; Ave Maria. L'Art, de Guibert » p. 59, trad. de J. La méthode, 371.

Em definitiva, são sempre ; p. as dignidades divinas que o contemplativo adora, sobretudo na meditação da encarnação, L'Art, p. 77-81, e da eucaristia, L'Art, p. 93-98 por isso, a mística de R. Lulle é reconduzida a uma : poderosa unidade. A ascensão rumo a esse objeto transcendente opera-se na aplicação metódica e ordenada das potências da alma, sobretudo a memória, o entendimento e a vontade. Nenhum místico do século XIII insistiu mais nesse procedimento do que R. Lulle toda a Arte de con- : templação não faz senão descrevê-lo; graças ao caráter pitoresco e oriental da forma luliana, que faz mover as faculdades e as abstrações como personagens reais, ninguém tampouco o pintou mais vivamente « A vontade do Amigo quis subir muito alto para poder amar seu : Amado e ordenou ao entendimento que subisse com todo o seu poder; o entendimento deu a mesma ordem à memória e os três subiram para contemplar o Amado em suas virtudes. » L'Ami, — n. 220, p. 104. « Amigo, onde encontraste teu Amado? Pajem, encontrei meu Amado em minha memória, meu entendimento e meu amor. L'Ami, » p. 148. A imaginação traz também às vezes o seu concurso, L'Ami, n. 314, p. 96, Lib. Cont., lib. II, c. xlii, n. 23, t. ix, p. 90.

Mais ainda agem os sentidos espirituais, que estão enraizados na potência cognitiva. A alma, com efeito, é dotada de cinco sentidos interiores, que são o pensamento refletido, a percepção, a consciência, a sutileza e o fervor, Lib. Cont., II, c. xliii, n. 1-3, ix, p. 91 Sicut tu Domine voluisti ordinare t. : quod actio, quam sensitiva habet, eat per quinque sensus corporales, ita voluisti ordinare quod actio, quam potentia ratiocinativa habet, eat per quinque sensus spirituales; unde secundum istam ordinationem sequitur, Domine, quod in potentia ratiocinativa sint cogitatio, perceptio, conscientia, subtilitas et animositas, quœ sunt sensus spirituales. etc. Por eles o espírito apreende as coisas puramente intelectuais, Lib. Cont., II, c. lvi, n. 10, t. ix, 1. p. 123: o pecado os embota, ibid., l. I, c. v, n. 1 1, p. 11, bem como a suspensão dos atos da memória, da inteligência e da vontade. Ibid., l. III. c. ccv, n. 22-24, p. 514. Dá-se de outro modo quando as faculdades da Alma se aplicam a Deus. Ibid., l. III, c. ccv, n. 16-17, p. 511 Quando anima est ita plena tui in sua memoria : et intellectu et voluntate, sicut vas in fundo maris est plenum aqua, tunc complet omnes suos quinque sensus intellectuales de te. quia cognitio non cogitat nisi in te et perceptio non percipit nisi te et conscientia non curat nisi de te et subtilitas non se subtiliat nisi in te et animositas non habet fervorem nisi in te. etc.

O exercício dos sentidos espirituais está, portanto, no ponto culminante da ascensão mística é bem isso que R. Lulle expõe numa : ampla síntese, toda lírica, que é incomparável documento de misticismo franciscano. Lib. Cont., I. III. c. cxlix-ccxxv, t. ix. p. 342-578. Sobre esse jogo das potências espirituais brilha sempre a luz da fé, irradiada da bênção de Deus enflamma . L'Art, p. 78, i a divina luz que ilumina e o espírito i, L'Art, p. 81: daí vem a inserir-se a ciência infusa Como o fruto dos sete dons e do divino esplendor do Santo Espírito ». Doctrina puéril, c. \\\i\, 1 xxxiv, p. 82: Declaratio Raymundi, c. p. 136.

Se a contemplação se volta assim sobre a tripla ordem do mundo divino, humano e material e se exerce sobretudo pela aplicação das três faculdades da alma, é lógico que R. Lulle reconheça três « figuras » ou formas de oração a oração sensível, a oração intel- : que multiplica as boas obras lectual e « a oração » e pode ser dita habitual. A primeira define-se assim Prima oratio est sensualis quam facit homo loquendo : nominando orando et et tuas virtutes et tuas honorationes, petendo a te gratiam et indulgentiam. Lib. Cont., l. V, c. cccxv, n. 4, t. x, p. 338.

Ela compreende as orações vocais, o humilde pedido de perdão, e se traduz também nos ritos litúrgicos. Ibid., n. 5-7, t. x, p. 338. A segunda forma de oração, toda intelectual, é antes de tudo aquela « em que a alma se lembra de Deus devotamente, o entende, o ama, goza dele e o contempla em suas virtudes »; exerce-se também quando, à lembrança das dignidades divinas, vivos desejos de penitência se inflamam no coração e a alma aplica seus sentidos espirituais à apreensão de Deus. Ibid. n. 7-9, x, p. 338,339. O homem contempla, enfim, t. segundo a terceira maneira « quando faz boas obras e age virtuosamente ». Ibid., n. 10-13, p. 339. A oração perfeita une esses três modos, particularmente os dois primeiros. Ibid., n. 16, p. 339. Definido esse método de oração, R. Lulle o aplica à meditação da unidade de Deus, Ibid., c. ccxvi, p. 341- 345 e das outras dignidades divinas para fazer apreender o seu mecanismo até nos detalhes. Essa exposição, extraordinariamente desenvolvida e na qual muitos capítulos são verdadeiros poemas místicos, l. V, c. ccxv-ccclxvi, p. 337-600, não tem igual na literatura da Idade Média.

Segundo R. Lulle, a meditação deve sempre ser acompanhada das lágrimas da devoção sensível. L'Ami, n. 106, p. 34 e n. 172-175, p. 54, 55. Jesus Cristo, o modelo da oração, deu-lhe o exemplo. Lib. Cont., l. II, c. xcii, n. 20, t. ix, p. 201. « Os suspiros e as lágrimas são mensageiros entre o Amado e o Amigo para que haja entre eles consolação, companhia, amizade e benevolência. » L'Ami, n. 104, p. 34. É uma das condições do amor que R. Lulle descreve num capítulo de seu Arbor philosophiæ desideratæ e cuja tradução francesa se lê em M. André. L'Ami, p. 172-178. Sem elas, a meditação seria « coisa pouco conveniente ». L' Art, p. 87. Por isso R. Lulle pede a Deus, numa graciosa imagem, que as faça cair constantemente de seus olhos. Lib. Cont., II, c. lvii, t. ix, p. 125 Sicut per motum molæ gra- 1. num : atteritur et decurrit in minutam farinam, ita quoties ante meos oculos sit signum crucis, deberent mei oculi decurrere in minutas lacrymas ; et sicut molendinum, Domine, conterit frumentum eundo in circulo, precor te, ut facias ire meam mentem et meam memoriam circa tuam nobilitatem et tuam passionem ut mei oculi emittant ploratus et meum os suspiria.

Contudo, toda essa devoção sensível e esse ardor afetivo devem traduzir-se em ação, nas « grandes penas e perigos » enfrentados pelo Amado, L'Ami, n. 174, p. 54, e sobretudo na busca do martírio. L'Ami, n. 262, p. 80 e n. 323, p. 99. A contemplação cuja arte R. Lulle ensinou tão perfeitamente é, portanto, essencialmente prática, visto que tende a formar, sobretudo no interior dos claustros, apóstolos « abrasados de amor a ponto de irem ensinar a santa Fé Romana aos infiéis » e « fazer o sacrifício de sua vida pela via do martírio ». J. Borras, Espiritu del B. R. Lull, em B. A. L., 1909, 278-280. É também fortemente intelectualista; nunca, com efeito, como observou Menéndez y Pelayo, R. Lulle diminui o exercício e os direitos da razão. « O amigo, diz ele, estava em oração e rogava à ciência que lhe mostrasse a glória de seu Amado a fim de poder amar mais firmemente. » L'Ami, p. 140. Segundo ele, a inteligência eleva-se mesmo mais rapidamente para Deus do que o querer « O Amigo perguntou ao entendimento : e à vontade qual dos dois estava mais perto de seu Amado. Ambos correram e o entendimento chegou junto ao Amado antes que a vontade. » L'Ami, n. 19, p. 10. Contudo, a ideia de amor o inspira mais profundamente, pois « o amor é a corda e a corrente pelas quais o homem é arrastado até a glória do Paraíso ». Lib. Cont., II, c. lvii, t. ix, p. 125. O místico está condenado a uma morte de amor. L'Ami, p. 198-204.

R. Lulle o proclama em termos que se diriam caídos dos lábios de são Francisco. Perguntaram ao Amigo quem era seu mestre. — O amor, respondeu ele. — De que és feito? — De amor. — Quem te gerou? — O amor. — Onde nasceste? — No amor. — Quem te alimentou? — O amor. — De que vives? — De amor. — Qual é o teu nome? — Amor. — De onde vens? — Do amor. — Para onde vais? — Ao amor. L'Ami, n. 97, p. 32, etc. A alma não pode chegar a Deus sem passar pela dileção. L'Ami, n. 258-261, p. 79. É no amor que se consuma a união mística : « O amor iluminou a nuvem que estava entre o Amigo e o Amado e a tornou assim luminosa e resplandecente como a lua na noite, a aurora na manhã, o sol no dia e o entendimento na vontade. E nessa nuvem resplandecente, o Amigo e o Amado conversavam. » L'Ami, n. 123, p. 39. Sem dúvida alguma, essas declarações são de um grande místico. No dia em que, enfim, R. Lulle for conhecido e em que a imensa síntese do Llibre de contemplacio tiver sido estudada, a teologia mística e a crítica literária não hesitarão em colocá-lo ao lado do príncipe da teologia contemplativa, são Boaventura : R. Lulle tem pleno direito a esse posto de honra.

A teologia espiritual de R. Lulle só foi estudada até aqui de modo muito incompleto : G. Olzet, La mistica lulliana, em Rivista Lulliana, Barcelona, 1903, t. iii, p. 123-129 ; J. Bernhart, Die philosophische Mystik des Mittelalters, Munique, 1922, p. 157-162 ; W. Peers, The art of Contemplation, Londres, 1924 ; P. Pourrat, La spiritualité chrétienne, 2e édit., Paris, 1925, t. iii, p. 124-127 ; J. de Guibert, S. J., La méthode des trois puissances et l'« art de contemplation » de R. Lulle em Revue d'ascétique et de mystique, Toulouse, 1925, t. vi, p. 366-378. Somente M. Probst lhe consagrou estudos mais desenvolvidos, Caractère et origines, p. 91-112 ; l'Art, p. 1-56, mas nos quais várias asserções, inspiradas pela psicologia de Boutroux e de James, não podem ser aceitas.

6° Origens do pensamento lulista. Da exposição precedente resulta que a tese da origem árabe do sistema lulista, sustentada por Asin y Palacios e Ribera, e tão asperamente debatida na Espanha em nossa época, não está suficientemente fundada. Probst, op. cit., p. 240-258, J. Rubiô, La logica del Gazzali, p. 311-313. S. Bové, El sistema cientifico lulliano, Barcelona, 1908, p. 422 ; Sobre filosofia lulliana. Cartes a J. Ribera, etc., em Rivista Lulliana, t. II, p. 183-195, t. III, p. 318-338. Certamente, é provável que em astronomia, em química e em medicina, R. Lulle tomou elementos emprestados aos árabes : eles eram os mestres de então. Do mesmo modo, conhece a Lógica de Algazel, que traduz em versos catalães ; possui também um conhecimento exato do pensamento muçulmano. Golubovich, op. cit., p. 376 ; J. Tusquets, Posicio, p. 96-99. Se recomenda aos cristãos em busca de argumentos contra o Corão os escritos de Ibn Tophail e de Al Kindi, Lib. de fine, éd. Gottron, p. 88, é sem dúvida porque os tinha lido. Além disso, imitou em seu Lib. de gentili uma obra árabe análoga ; do mesmo modo R. Lulle reconhece ter tomado aos árabes os « termos próprios » da grande Arte num texto importante do Compendium artis demonstrativæ, t. iii, p. 160 : Venimus ad peroptatum finem, supplicantes puro corde studentibus in hoc opere, ut si forte de eis minus bene dicere videamur, non attendant circa ineptitudinem verborum non potentium fortassis ad plenum ipsa quæ intendimus denotare ; nec eis displiceat varietas loquendi, sed addiscant hunc ipsum modum loquendi arabicum, ut infidelium oppositionibus obsistere noscant declinare namque terminos figurarum, dicendo sub conditionibus : bonitatis bonificativum, bonificabile, bonificatum, et sic de magnitudine, et sub conditionibus ignis, ignitivum, ignibile et sic de quibuscumque aliis propriis terminis hujus Artis, non est multum apud Latinos sermo consuetus... Sed attendant diligenter ad quem finem tendat. Numquid ad cognitionem et... summi rationis, via ad ipsam dilectionem illius entis et propagationem fidei catholicæ ? etc.

Esse empréstimo deu precisamente ao estilo de Lulle, em seus escritos lógicos e apologéticos, esse aspecto atormentado que seus adversários lhe censuraram fortemente e que lhe valeu mais de uma zombaria até Hauréau. Mas que essas imitações de forma e o comércio com a literatura árabe tenham influenciado seriamente o pensamento de Lulle em filosofia, em teologia e em mística, as razões invocadas até aqui não o estabelecem de modo algum ; M. Probst, op. cit., p. 240-258, o provou solidamente. Talvez seja mesmo possível completar sua demonstração. Assim, nada de espantoso em que, sem recorrer a Mohy ed Din, Lulle assimile Deus e a luz, Probst, op. cit., p. 244 ; é uma das teses características do agostinismo desde santo Agostinho, Alexandre de Hales, Roberto Grosseteste. Cf. Summa theol., t. i, p. xxxiii. Além disso, ao atribuir aos nomes de Deus uma virtude superior, Los cent noms de Deu, prol., éd. R. d'Alos, Poésies, p. 36, não é seguro, como diz Probst, op. cit., p. 251, que Lulle « conserve a tradição dos Cem nomes eficazes de Deus, que ainda é viva na África em nossos dias ». Roger Bacon, com efeito, ensina substancialmente a mesma doutrina e por motivo bem outro que o de imitar os árabes, Opus majus, éd. Bridges, Londres, 1900, t. iii, p. 123-124 : Nam videmus quod verba sacramentorum habent infinitam virtutem, etc.

Por conseguinte, a síntese doutrinal de Lulle é de estilo moçárabe em algumas de suas partes — ele não teria podido alcançar os árabes de outro modo — mas o pensamento é essencialmente agostiniano. Imediatamente, ou por intermédio da escola franciscana, o bem-aventurado recebeu suas grandes ideias, filosóficas e teológicas, não menos que seu método, de santo Agostinho, de santo Anselmo e da escola de São Vítor. Cf. Probst, L'Art, p. 28.

Se fosse preciso apertar mais de perto o problema das origens e indicar uma fonte contemporânea, se não exclusiva, ao menos muito importante, não hesitaríamos em assinalar o Opus majus de Roger Bacon (1266). O fato já foi observado por Probst, op. cit., p. 280-282, e R. Carton, La synthèse doctrinale de Roger Bacon, Paris, 1924, p. 68-73. R. Bacon e R. Lulle perseguem, com efeito, a realização de um mesmo ideal : a extensão da cristandade até os confins do universo ; o imperialismo religioso do mestre inglês, Carton, ibid., p. 81-107, é o leitmotiv do convertido de Maiorca. Lib. Cont., l. V, c. cci, t. ix, p. 554. Cf. J. Borras, Espirit del B. Ramon Lull, em B. A. L., 1909, p. 278-281. Para um como para o outro, o meio é todo indicado : é pela controvérsia filosófica que se vai aos infiéis ; desse modo se edificará a cidade cristã no futuro. A guerra mata, mas não converte de bela maneira. R. Bacon, Opus majus, éd. Bridges, t. iii, p. 121. Por isso, quando uma nação recusa a fé, não se deve pensar somente nas armas, mas reunir os sábios para pregar primeiro. Ibid., p. 122. Lulle tem exatamente as mesmas visões, e sente que é preciso ganhar os infiéis não pela guerra corporal mas pela luta intelectual e pelas razões. Cf. J. Borras, Espirit, etc., em B. A. L., 1909, p. 244.

Em virtude desse ideal comum, um e outro propõem o mesmo método prático. R. Bacon não cessa de advogar para esse fim em favor do ensino das línguas orientais, Opus majus, t. i, p. 95, t. iii, p. 120-122 ; do mesmo modo, R. Lulle passa a vida a pedir ao papa que o senhor e o colégio reverendo fundassem três mosteiros, a saber um em Roma, outro em Paris e um terceiro em Toledo, nos quais estudariam homens sábios, devotos, em diversas línguas, e que em seguida iriam pregar o Evangelho. Lib. de acquisitione Terræ Sanctæ, cod. cit., f. 456 r°. O que é ainda mais notável é que R. Bacon, tal como Lulle, sustenta que a razão iluminada pelo Espírito Santo pode estabelecer os mistérios em certa medida e penetrá-los sem pretender a um conhecimento exaustivo. R. Carton, ibid., p. 69. Lulle crê ainda com Bacon na eficácia das palavras sagradas ; ensina um iluminismo de tal natureza que o Verbo aparece por vezes como o intelecto agente da alma. In libr. Sent., II, q. cxxxviii, t. iv, p. 116 ; Probst, op. cit., p. 298. Fala também das « luzes certificadoras », tão caras a Roger Bacon. Lib. Cont., l. I, c. v, n. 2, t. ix, p. 11 ; l. II, c. lvi, n. 21, p. 123 ; l. II, c. lxv, n. 24, p. 144 ; Doctrina puéril, c. xl, Obres, t. i, p. 101. Um e outro, enfim, perseguem a unidade do saber e, antes de R. Lulle, « Roger Bacon lança os fundamentos e define o método de um sistema único do saber humano ». E. Gilson, La philosophie de saint Bonaventure, p. 116. Essas diversas coincidências — e, em nossa opinião, um estudo exaustivo daria resultados surpreendentes — não se explicam se R. Lulle não conheceu o Opus majus de R. Bacon.

IV. A lembrança de Raimundo Lulle. O nome e a doutrina de R. Lulle não caíram no esquecimento depois dele.

1° Culto. A piedade católica inclinou-se primeiro diante de sua memória. Quaisquer que fossem, com efeito, os debates apaixonados que se levantaram em torno de sua doutrina, R. Lulle jamais deixou de ser objeto de um culto muito difundido, como estabeleceram solidamente Custurer, S. J., Disertaciones historicas del B. R. Lulio, Maiorca, 1700, e depois dele Sollier, Acta SS., p. 633-638. Sofreu, contudo, passageiramente no século XVIII, por ocasião do decreto (15 de janeiro de 1775) de Diaz de la Guerra, bispo de Maiorca. J. Avinyo, Catàlech de documents Lullians, em Boletin de la Real Academia de buenas Letras de Barcelona, 1912, t. vi, p. 395-420. No início do século XVII, Mgr F. Virgilio fez diligências para obter o reconhecimento do culto e a canonização de R. Lulle ; para esse fim, volumosos processos (1605, 1607, 1612) foram enviados a Roma, Acta SS., p. 679-691, relatando sobretudo os numerosos milagres atribuídos à sua intercessão. Os reis da Espanha, Filipe III e Filipe IV, apoiaram fortemente a iniciativa, mas sem resultado aparente. J. Pou y Marti, O. F. M., Sobre la doctrina lullista del B. R. Lulio, em Archivo Ibero-Americano, Madri, 1921, t. xvi, p. 1-23. Do mesmo modo, as novas tentativas de Galindo, bispo de Lérida (1747), não tiveram êxito, dada sobretudo a indiferença de Carlos III da Espanha, que em 13 de abril de 1762 mandava dizer a Clemente XIII que a decisão do assunto não lhe interessava de modo algum. Essas diligências, longamente interrompidas, foram retomadas em nossa época sob a direção de Mgr Campins de Palma e do cardeal Vives y Tuto. Embora um julgamento definitivo ainda não tenha sido proferido, o culto público de R. Lulle é, contudo, autorizado na diocese de Maiorca e na ordem franciscana. Desde o pontificado de..., os Frades Menores de Palma celebravam o seu ofício, cf. Sollier, Acta SS., p. 636. Um breve de Clemente XIII (19 de fevereiro de 17..), concedendo um ofício próprio para a diocese, confirmou o estado de coisas, e breves de Clemente XIII (18 de junho de 1768) e de Pio VI (10 de julho de 1775) o mantiveram nos mesmos limites. Sob Pio IX, em 11 de setembro de 1847, o culto e um novo ofício foram igualmente confirmados ; em 10 de junho de 1858, por instância do R. P. Bernardino de Montefranco, o privilégio foi estendido à ordem franciscana, onde a festa ainda se celebra em 3 de julho. S. Bové, Historia del culte sagrat y publich que's dona al B. Ramon Lull, em Rivista Lulliana, 1901, t. i, p. 32-38.

2° A escola lulista. Suas lutas. Se a grandeza moral de R. Lulle foi assim geralmente reconhecida, mesmo pela Igreja, não aconteceu o mesmo com o valor de suas doutrinas. Em torno delas levantou-se um longo e doloroso debate, que só se pode lembrar aqui brevemente ; a pena, aliás, recusa-se a transcrever os atrocissima stigmata de que fala Sollier, Acta SS., p. 716, e que lhe foram infligidos durante séculos. Sollier, Acta SS., p. 713-728 ; Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 526-539 ; J. Avinyo, Historia del Lulisme, Vilanova, 1925, sobre este livro cf. R. d'Alos, em Criterion, Barcelona, 1925, t. i, p. 250-258, e P.-A. Ivars, O. F. M., em Archivo Ibero-Americano, Madri, 1926, t. xxv, p. 129-135.

A crise começou na França e na Espanha na segunda metade do século XIV. Segundo o testemunho de Gerson, De examinatione doctrinarum, p. 2, édit. d'Anvers, 1706, t. ii, p. 13, a faculdade de teologia da Universidade de Paris censurou certas proposições e a terminologia da grande Arte. Na Espanha, a luta começou com Eymérich, O. P., † 1399, Quétif-Echard, Scriptores ordinis prædicatorum, Paris, 1721, t. i, p. 714-717 ; E. Grahit, El inquisidor Fray N. Eymérich, Girona, 1879. Foi extraordinariamente violenta e longa. F. Gazulla, Historia de la falsa bula a nombre del papa Gregorio XI, em B. A. L., 1909, p. 264-273, 289, 305, 371, 1910, p. 1, 22, 58, 68, 106 ; Avinyo, op. cit., c. 4-10 ; A. Ivars, O. F. M., Los jurados de Valencia y el inquisidor Fray N. Eymérich, em Archivo Ibero-Americano, Madri, 1916, t. vi, p. 68-159 e t. xv, p. 212-219. Causas políticas a fizeram eclodir. Pedro IV de Aragão estava descontente com Eymerich, cujo caráter era turbulento e violento, A. Ivars, em Archivo, 1916, t. xxv, p. 134 ; queixou-se dele ao mestre geral dos Frades Pregadores. Gazulla, Historia, 1909, p. 371. Por outro lado, o rei autorizava Berengário de Fluvia a ler a grande Arte em seu reino, em 10 de outubro de 1369. A. Rubiô, Documents, t. i, p. 222-224. Em 1371, as relações se tensionaram entre o rei e o inquisidor ; tendo este último querido proceder contra o chanceler real, Francisco Roma, Pedro IV o proibiu em 9 de outubro de 1371, A. Rubiô, Documents, t. i, p. 234 ; mas o inquisidor passou adiante, o que descontentou extremamente o rei, como resulta de uma carta de Pedro IV dirigida a Eymérich em 25 de outubro. Avinyo, Catàlech, p. 399.

A essas queixas, Eymérich respondeu levantando a questão lulista. Até então a doutrina de R. Lulle « permanecera plenamente alheia ao conflito », A. Ivars, Los Jurados, p. 70 ; ninguém tampouco a havia censurado, nem mesmo o carmelita Guido de Terrena, bispo de Maiorca (1321-1332) em seu Catálogo dos hereges ; ao contrário, segundo o próprio testemunho de Eymerich, R. Lulle era venerado na Catalunha como um bem-aventurado e seus escritos muito difundidos. A. Ivars em Archivo, 1926, t. xxv, p. 131, 132. Capelão de Gregório XI, sábio e enérgico, Eymérich podia obter tudo. Desde 5 de junho de 1372, Gregório XI, pela bula Nuper dilecto dada em Pont-de-Sorgues, dilecto filio Nicolao Eymérich nobis referente, ordenou ao arcebispo de Tarragona, Pedro Clasquerin, que examinasse os escritos de R. Lulle de comum acordo com Eymérich e uma comissão de doutores e os queimasse se neles encontrasse erros. A. Rubiô, Documents, t. i, p. 241. Em 29 de setembro de 1374, um rescrito de Gregório XI, Ad audientiam, mandava à oficialidade de Barcelona fazer chegar sem demora a Avinhão um livro catalão de R. Lulle, cujo título não é indicado. A. Rubiô, Documents, t. i, p. 259. Quais foram os resultados desses atos pontifícios, nada o estabelece positivamente. O certo é que Pedro IV, rei de Aragão, muito descontente, baniu, em 11 de março de 1375, Eymeric e Pedro Begueny, O. P., de todos os seus domínios. A. Rubiô, Documents, t. i, p. 261.

Não se passara um ano quando apareceu, em 25 de janeiro de 1376, a pretensa bula de Gregório XI, Conservationi puritatis, que condenava vinte obras de R. Lulle, tachava de heréticas 200 proposições delas extraídas e ordenava que as demais obras fossem submetidas a severo exame. Ivars, Los Jurados, p. 107-109, Sollier, Acta SS., p. 719, 720. Texto em Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum, t. i, p. 248. É essa peça que está no fundo da « eterna questão luliana ». Sua autenticidade, geralmente admitida pelos historiadores e teólogos da ordem de São Domingos e também por E. Grahit, op. cit., p. 51-55, e J. Rubiô, R. Lull, p. 556, mas negada pelos lulistas e pelos PP. Custurer e Sollier, S. J., que fizeram obra de crítica independente, jamais foi demonstrada. Seu caráter apócrifo está solidamente estabelecido.

1. Com efeito, um ano depois, em 7 de janeiro de 1377, Pedro IV de Aragão, que está interessado no debate em primeiro lugar, ainda a ignora. Numa carta a Gregório XI, A. Rubiô, Documents, t. i, p. 268, ele fala apenas de um rescrito que ordenava entregar aos bispos de seu reino as obras de R. Lulle; suplica em seguida ao papa que faça o exame de um livro catalão do bem-aventurado em Barcelona, pela razão óbvia de que os teólogos do país conhecem melhor a língua do que os clérigos de Avinhão. Trata-se evidentemente aqui da obra visada pela segunda bula de Gregório XI (set. de 1374) e que os debates subsequentes nos fazem conhecer, a saber, o Lib. de philosophia amoris. Sob a pena do rei, não há nenhum vestígio de um documento pontifício que condenasse vinte obras e duzentas proposições de R. Lulle e cujo estrondo não teria escapado a ninguém, e menos ainda à corte real e à família dos Lulle, que aparece com frequência no curso dessa dolorosa história. É também impossível explicar que Pedro IV peça que se examine em Barcelona o Lib. de philosophia amoris, se já por uma sentença pontifícia, anterior de um ano, ele é o primeiro das obras proscritas, como diz Eymérich. Sollier, Acta SS., p. 718, n. 70.

2. Em segundo lugar, os críticos assinalaram frequentemente a estranheza do parágrafo, Nos autem cupientes, da pretensa bula. A. Hicquey (= Dermicius Thadei), Nitela franciscanæ religionis, Lyon, 1627, p. 482; Gazulla, Historia, 1909, p. 305; A. Ivars, Los Jurados, p. 73. Condenar, com efeito, vinte obras e duzentas proposições sem designar nem o título dos livros nem nenhum dos erros censurados é absolutamente contrário ao estilo da cúria romana; a história das condenações pronunciadas no século XIV contra muitos autores, João de Pouilly, Eckart, João de Jandun, Denis Foullechat, etc., estabelece que a Santa Sé não procedia assim.

3. Além disso, a bula em questão não se encontra de modo algum nos registros de Gregório XI. A pedido de Antônio Riera, lulista de Valência perseguido como herege por Eymérich, o cardeal Leonardo de Giffon foi encarregado por Clemente VII de investigar a esse respeito; ora, depois de um exame oficial feito pelos notários e registradores da Câmara apostólica, um ato notarial de 10 de julho de 1395 declarava que a peça não se encontrava nos registros de Gregório XI. Hicquey, Nitela, p. 478-481; Sollier, Acta SS., p. 721-723; A. Ivars, Los Jurados, p. 97, 98. É verdade que hoje faltam dois registros de 1376, mas não era assim na data da investigação, como atesta o ato oficial. Hicquey, Nitela, p. 480; Sollier, Acta SS., p. 723, n. 89.

4. O testemunho de Eymerich, alegado em sentido contrário, carece de garantias suficientes. No fervor da luta, faltou-lhe medida. Atacou especialmente o Lib. de philosophiæ amoris; ora, em 19 de maio de 1386, em Barcelona, uma comissão de oito teólogos, tomados entre os dominicanos e os franciscanos, e à frente da qual se achava Bernardo Armengol, O. P., provincial de Aragão, declarou que três proposições denunciadas particularmente por Eymerich como heréticas não se encontravam de modo algum nessa obra. Sollier, Acta SS., p. 720, 721; A. Ivars, Los Jurados, p. 75, 76. Ele condenou igualmente como herege o reitor da igreja de Cilla, Pedro Caplana, mas seu julgamento foi cassado. Gazulla, Historia, 1909, p. 275. Do mesmo modo, descreveu como « hereges e fariseus impudentes » todos os defensores da Imaculada Conceição, contra quos nonnullos processi... et punivi. Strozzi, Controversia della Concezione della B. V. Maria, Palermo, 1703, p. 303-305. Uma vez que, sem recordar ainda suas acusações contra o lulista Antônio Riera, R. d'Alos, Sis documents per la historia de les doctrines lullianes, Barcelona, 1919, p. 8, é comprovado que Eymerich pôs tão liberalmente na conta de seus adversários heresias, processos, condenações, seu testemunho não tem nenhum valor.

5. Por fim, a autoridade da Santa Sé declarou-se contra a autenticidade do documento. Como as lutas continuavam sempre, Martinho V encarregou o cardeal Aleman de pronunciar sobre o caso uma sentença definitiva. Este último, legado em Aragão, designou para esse fim Bernardo, bispo de Città di Castello que, após investigação, declarou, em 24 de março de 1419, a pretensa bula apócrifa e sem valor. A. Ivars, Los Jurados, p. 99, 100; Sollier, Acta SS., p. 485-490. Essa sentença definitiva exonera completamente R. Lulle.

Depois dessa crise, a paz manteve-se por quase um século. Sob Sisto IV, a luta eclodiu de novo. O primeiro titular do Studium lulista de Palma foi denunciado em Roma pelos dominicanos, mas Pedro Dagui obteve ganho de causa diante de Sisto IV primeiro e de Inocêncio VIII depois. Vencido nesse ponto, o inquisidor de Maiorca, Guilherme de Caselles, O. P., ressarciu-se publicando em Barcelona o Directorium inquisitorum de Eymerich, com a pretensa bula de Gregório XI e um catálogo de cem erros ou heresias lulianas. Sollier, Acta SS., p. 726, 727. Apesar dos protestos dos lulistas, o conjunto passou para o Índice de Paulo IV. Diante disso, os discípulos de R. Lulle tentaram um esforço supremo no concílio de Trento; a memória apresentada por J. Vileta, cônego de Barcelona, e J. Arces de Ferrera obteve plena justiça e, em 1º de setembro de 1563, o concílio decretou que o nome e os escritos de R. Lulle não deviam de modo algum figurar no Índice, R. d'Alos, Sis documents, p. 21-24, decisão que foi observada na redação do Índice de São Pio V. Sollier, Acta SS., p. 727; R. d'Alos, Sis documents, p. 11.

Mas o infortúnio quis que, pouco depois, Mons. Pena reeditasse pura e simplesmente em Roma, em 1578, o Directorium de Eymerich, donde novos protestos dos lulistas e intervenção de Filipe II, rei da Espanha, que resultaram, em 3 e 1º de julho de 1594, em dois decretos da Congregação do Índice que confirmavam a decisão do concílio de Trento e ordenavam riscar definitivamente do Índice as obras de R. Lulle. J. Pou y Marti, Sobre la doctrina, p. 6-8. A última palavra ficava, pois, do ponto de vista canônico, com os discípulos de R. Lulle. Mas em meio a esses debates e aos ataques que logo se seguiram, no início do século XVIII, o bem-aventurado sofreu tanto com as acusações lançadas contra ele por vários historiadores e sobretudo por Bzovius, O. P., Sollier, Acta SS., p. 691, que a história ainda não lhe fez justiça. A atribuição de sessenta e tantos escritos de alquimia acabou por desacreditá-lo, valendo-lhe a admiração de um Giordano Bruno e de outros autores não menos suspeitos. J. Rubiô, Los codices, p. 305. O século XVIII mostrou-se igualmente severo contra ele e « a Espanha inteira deu razão ao P. Feijoo, O. S. B., um dos mais violentos adversários do lulismo. Menéndez y Pelayo, Historia, t. i, p. 513, t. iii, p. 71-84. Se se quer saber até onde foi a paixão no século XIX, basta ler B. Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, 2e partie, Paris, 1880, t. ii, p. 292-298; De la philosophie scolastique, Paris, 1850, t. ii, p. 235-238.

É verdade que também não faltaram a R. Lulle amigos dedicados. Eles lhe conferiram o título de doutor iluminado e arcangélico. S. Bové, Le doctor archangelich, em Rivista Lulliana, t. ii, p. 75-90. Os reis da dinastia catalã e castelhana, Pedro IV, João I, Martinho I, Afonso o Magnânimo, fizeram propagar sua doutrina e identificaram sua causa com a da nacionalidade catalã. Sollier, Acta SS., p. 728-730; P. Blanco, O. S. A., Estudios de bibliografia lulliana, Madri, 1916, p. 78-118; R. d'Alos, Sis documents, p. 1-8. No século XV, o movimento lulista é poderoso na Alemanha. As bibliotecas das catedrais e das abadias de Ratisbona, Augsburgo, Tegernsee e Brandemburgo enriquecem-se de numerosos manuscritos lulistas; o cardeal Nicolau de Cusa († 1464) sofre amplamente a influência do bem-aventurado. J. Rubiô, Los codices, p. 304-309. Com o advento dos reis católicos na Espanha, a doutrina lulista, até então ensinada sobretudo em Maiorca e em Barcelona, espalha-se pela península ibérica, particularmente em Valência e em Lérida. O fato deve-se em grande parte à proteção de Ximenes, que chamou o lulista Nicolau de Pax à Universidade de Alcalá. R. d'Alos, Los catalogos, p. 55-67. Depois dele « o cônego de Barcelona, Luís João Vileta, o campeão da ortodoxia luliana no concílio de Trento, e as outras grandes figuras espanholas do século XVI são os propagandistas e os vigorosos defensores da obra filosófica e teológica de R. Lulle ». R. d'Alos, Sis documents, p. 6.

No século XVII, a escola lulista está em seu apogeu. Em 17 de abril de 1673, com efeito, Clemente X, a pedido dos jurados de Maiorca (1663), erige em universidade o Studium geral da cidade, fundado em 1483 por Fernando o Católico, e confirma a ereção das cátedras de filosofia e de teologia lulistas. Seus titulares deviam ter precedência sobre os professores tomistas e escotistas; a Universidade era posta sob o patrocínio de R. Lulle, cuja festa celebrava com brilho em 25 de janeiro. Sollier, Acta SS., p. 730; Avinyo, Historia, c. 30; S. Bové, La universidad literaria del reino de Mallorca, em B. A. L., 1924, p. 113-116, 129-134, 150-162. Entre os Frades menores, o ministro geral, João Merinéro, prescrevia (7 de março de 1642) o ensino de R. Lulle na província franciscana de Maiorca; mais tarde, o capítulo geral de Roma, em 1688, estendeu essa decisão a todos os Studia gerais da Espanha. Sollier, Acta SS., p. 731; Holzapfel, Manuale historiæ ordinis fratrum minorum, Friburgo em B., 1909, p. 734. No século XVIII, forma-se em Mogúncia um centro de estudos em torno de Ives Salzinger, Gottron, L'edicio maguntina, p. 96-103. É nessa época que escrevem os melhores apologistas de R. Lulle, Custurer (1700), Sollier (1708) e Pasqual (1788). A Universidade de Maiorca tem também alguns titulares cujos nomes passaram com glória à história, como Junípero Serra, O. F. M., o apóstolo da Califórnia, e o bispo de Vich, Mons. Strauch, vítima dos revolucionários em 1823. P. Saura, O. F. M., Fray R. Strauch y Vidal, O. F. M., obispo de Vich, em Archivo Ibero-Americano, Madri, 1923, t. xx, p. 321-335. Não obstante, com toda a escolástica, o lulismo cai diante do filosofismo.

3° A Renascença luliana. — A ideia regionalista, tão poderosa no fim do século XIX na Europa, devia reconduzir os espíritos a R. Lulle e provocar uma renascença. Três nomes estão ligados a esse movimento: G. Rossellô, M. Menéndez y Pelayo, M. Obrador. J. Alcover, El lulismo en Mallorca desde mediados del siglo XIX, em B. A. L., 1915, p. 343-349. A obra foi auxiliada também por ocasião das festas do 6º centenário do colégio de Miramar (1877) e depois pela munificência de Luís Salvador, arquiduque da Áustria, † 1915. P. Bonet, El archiduque de Austria, L. Salvador, em B. A. L., 1916, p. 103-119. Bispos e sacerdotes brilham na primeira fila, com Mons. Maura, de Orihuela, Mons. Miralles y Sbert, de Lérida, e os Srs. Gelabert, Costa y Llobera e J. Avinyo. Salvador Bové, cônego de Urgel, empenhou-se sobretudo em propor R. Lulle como o filósofo nacional da Catalunha. Ao mesmo tempo, os membros da Comisio editora de Palma e do Institut d'Estudis Catalans, retomando a ideia de Wadding, assumiram a tarefa de editar criticamente as obras de R. Lulle e de fixar-lhes o catálogo, empreendimento que obteve até aqui excelentes resultados. Recentemente, o 6º centenário da morte do bem-aventurado deu ensejo (1915) a imponentes manifestações, A. Alcover, Cronica del VI centenari de la mort del B. R. Lull, em B. A. L., 1915, p. 378-388, e mais ainda a um número considerável de publicações de real mérito científico. R. d'Alos, em Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, 1915-1920, t. vi, p. 880-882, e A. de Palma, O. M. C., El lulismo en Cataluna, em Estudios franciscanos, Barcelona, 1919, t. xxiii, p. 20-25.

É com sentimentos de alta simpatia que convém saudar esse movimento de estudos críticos, doutrinais e literários, que devolverá a R. Lulle o lugar honroso que lhe é devido na história da apologética, da controvérsia, da poesia e da mística. Que haja, com efeito, em sua obra doutrinal uma parte de elementos caducos, de peças emprestadas, de expressões mais ou menos felizes, é a lei de todo sistema, sobretudo se visa à ação popular e não à teoria. Que hoje sobretudo as construções gráficas e silogísticas da grande Arte, se não os princípios metafísicos que as sustentam, estejam superadas e já mal suportem a leitura, ninguém, ao que parece, o contestará, uma vez reconhecida a generosa intenção de atingir assim os árabes, que inspirou sem contestação esse esforço. Mas admitidas essas deficiências, nem por isso deixa de destacar-se, num relevo impressionante, a personalidade científica e religiosa de R. Lulle.

O agostinismo medieval era uma construção metafísica e mística, elaborada nas universidades e nos claustros. R. Lulle, influenciado provavelmente por R. Bacon, organizou-o em sistema apologético. É aí, e não em outro lugar, que está sua principal significação doutrinal. Com esse instrumento de conquista apostólica e o conhecimento do árabe e das teologias orientais, o bem-aventurado, sem condenar o esforço dos exércitos cristãos, retomou essencialmente a ideia da cruzada pacífica « pela pregação e pelo único sangue dos bem-aventurados mártires », Disputatio Raymundi et Hamar sarraceni, t. iv, p. 12, inaugurada por Francisco de Assis em Damieta. Durante mais de quarenta anos, apresentou-se diante da consciência cristã como o procurador dos infiéis, atormentados pelo « apetite do Verbo Encarnado ». Involuntariamente, como observava R. Speer, Some great leaders in the world movement, (The Cole Lectures, 1911), extratos em Quaderns d'Estudis, Barcelona, 1910, t. ii, p. 201-214, seu esforço para fazer penetrar Cristo no mundo do Islã, suas viagens perpétuas, sua prisão em Bugia, sua última odisseia a Túnis aos oitenta anos, lembram, em medida notável, os dois grandes conquistadores espirituais da Igreja às portas da China: São Paulo diante do mundo greco-romano e São Francisco Xavier. Acrescente-se a isso que sua poesia religiosa e sua metafísica contemplativa disputam a palma com São Boaventura e estão na aurora da invasão mística que se completa na Espanha com Santa Teresa, que o Llibre de Sancta Maria não é indigno de São Bernardo, que o Llibre de Contemplacio é um dos três ou quatro monumentos da literatura católica no século XIII; eis títulos bastantes, entre vários outros, para que se faça a paz em torno de seu nome num trabalho fecundo, e para que a história, por muito tempo injusta e mal informada, reconheça no bem-aventurado R. Lulle uma das belas figuras da epopeia missionária, doutrinal e mística que fizeram desabrochar o agostinismo medieval e a influência de Francisco de Assis.

— 1° Fontes gerais. Wadding, Annales ord. Minorum ad an. 1275, n. 9-12; 1287, n. 2-3; 1312, n. 8; 1315, n. 2-20; Marcellin da Civezza, O. F. M., Storia universale delle missioni francescane, Roma, 1858, t. ii, p. 575-599; Hartmann, em Kirchenlexikon, t. x, 1897, p. 747-753; Ueberwegs-Baumgartner, Grundriss der Geschichte der Philosophie, Berlim, 1915, IIe partie, p. 528-536, e 185*-186*; R. Streit, O. M. I., Bibliotheca missionum, Münster, 1916, t. i, p. 255-259, 372-377; Zöckler, R. Lullus, em Protestantische Realencyklopädie, t. xi, 1902, p. 706-716; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du Moyen Age, Paris, 1907, t. ii, col. 3891-3893.

— 2° Vida e fisionomia. A. Blanch, Vida del B. R. Lull martir i doctor, Barcelona, 1907; S. Galmès, Vida compendiosa del B. R. Lull, Maiorca, 1915; M. Gelabert, Gustate et videte, em Rivista lulliana, t. iii, p. 217-222 (submissão à Igreja); Miralles y Sbert, Manilla de amor divino, ibid., t. iii, p. 353-357, t. iv, p. 8-12; G. Valls, L'ideale missionario del B. R. Lullo, em Studi Francescani, Florença, 1926, t. xii, col. 117-128.

— 3° Doutrina. Sobre as censuras de Eymerich, Fr. Villaronga y Ferrer, Las cien proposiciones atribuidas por Eymerich al B. Lull, em B. A. L., 1909-1910; Anônimo no convento franciscano de Pastrana, Memoriale collationis seu comprobationis centum articulorum lullianorum per N. Eymerich in suo olim Directorio compilatorum, facta cum archetypis libris R. Lullii, 1612, cf. Ivars, Los Jurados, p. 106. J. Köchling, Prodromus christiano-discretus et manuductivus ad ovile Christi unum, Mogúncia, 1725, 2e édit., Mannheim, 1738; P. Wolf, Theologia demonstrativa universa, plena, perfecta B. R. Lulli, Colônia, 1751; S. Kreczer, Cursus theologiæ scholasticæ per principia lulliana, Mogúncia, 1751-1752; A. Alcover, Tractatus de ineffabili divinæ incarnationis mysterio, B. R. Lullio prælucente, ms. no bispado de Vich, assim como as quatro obras seguintes: M. Pellisser, O. F. M., Tractatus de divina Verbi incarnatione juxta mentem B. R. Lullii elaboratus; Mons. R. Strauch y Vidal, O. F. M., † 1823, Tractatus de S. Scriptura juxta tutissimam illius doct.

R. Lullii mentem; De capite visibilis militantis Ecclesiæ, scilicet summo pontifice romano juxta mentem B. R. Lulli (1794-1797); Tractatus de sacramentis (out. 1798), incompleto; Fornès, O. F. M., Liber apologeticus, Salamanca, 1746; Pasqual, Examen de la crisis del P. Feijoo sobre el arte luliana, 2 vol., Madri, 1749-1750. Entre os trabalhos modernos assinalemos Prantl, Geschichte der Logik, Leipzig, 1867, t. iii, p. 145-177; Gonzalez, O. P., Historia de la filosofia, 2e édit., Madri, 1886, t. ii, p. 340-352; E. Gilson, La philosophie au Moyen Age, Paris, 1922, t. ii, p. 63-67; M. De Wulf, Hist. de la philosophie médiévale, 5e édit., Lovaina, 1925, t. ii, p. 143-146; M. Asin y Palacios, Mohidin, em Homenaje a Menéndez y Pelayo, Madri, 1899, t. ii, p. 217-256, Abenmasarra y su escuela, Madri, 1914, p. 123-126, 155-164; J. Ribera, Origenes de la filosofia de R. Lullio, em Homenaje, ibid., p. 191-217. Entre os autores da renascença luliana: S. Bové, La filosofia nacional de Catalunya, Barcelona, 1902; El sistema cientifico luliano, Barcelona, 1908; Al margen de un discurso, Urgel, 1912; S. Tomas de Aquino y el descenso del El arte magna, em Rivista Lulliana, t. I, p. 26-32, 49-56; Estudis sobre la filosofia del B. R. Lullio. Psicologia: naturaleza del alma humana, ibid., t. ii, p. 349-360; El entendimiento agente y el entendimiento posibile, ibid., t. III, p. 129-138, 161-171 El m, 225-237 El verbo ; verbo mental, ibid., t. p. ; sensibile y el sexto sentido, t. v, p. 1-8, 33-37, 49-77; La Rivista Lulliana, Barcelona, 1901-1905, dirigida por S. Bové, J. Avinyo, Maura y Gelabert e Miralles y Sbert, etc.; J. Carbo, Tomas de Aquino y el descenso del entendimiento, em B. A. L., 1915, p. 233-236; P. Martinez Vélez, O. S. Aug., La ciencia universal, Doctrina de S. Tomas y Lull, em B. A. L., 1908, p. 161-164, 177-186; J. Borras, Un sexto sentido, el affatus, ibid., 1914, p. 19-20; M. Frau y Bosch, Estudio sobre las relaciones y armonias entre la razon y la fe segun las doctrinas lullianas, ibid., 1907, p. 555-562; J. Casadesus, El arte magna de B. R. Lullio, Barcelona, 1917; Ferra, R. Lull, Valor universal, Mallorca, 1915; J. Borràs, Sistema cientifico luliano. Esposicion y critica a la vez, Palma, 1916; D. Ruiz, R. Lull maestro de definiciones, Barcelona, 1906; J. Borras, Maria y el Pontifice en las obras del B. R. Lull, Soller, 1908; A. Masriera, Lo libre de Sancta Maria de R. Lull, 1908. i und Anfänge

4° Poesia. A. Helfferich, R. Lull die der catalanischen Literatur, Berlim, 1858; O. Denk, Einführung in die Geschichte der altcatalanischen Literatur, Munique, 1893, p. 198 sq.; G. Groeber, Grundriss der romanischen Philologie, II part., t. ii, Estrasburgo, 1897, p. 105-107; A. Pages, Auzias March et ses prédécesseurs. Essai sur la philosophie amoureuse et philosophique en Catalogne au XIV' et au XV 1912; Bernard Durant, Lo B. siècles, Paris, J. y Lull poeta religios, em homénage al doctor arcangelic, lo B. R. Lull, Barcelona, — 1901, p. 84-86.

5° Ciência. Weyler y Lavina, R. Lullio, Juzgado por si mismo, Palma, 1886; Vancell, Del B. Llull de musica, J. i la em Rivista Lulliana, t. II, p. 86-90; J. Borràs, Lo que dice R. Lull de los Mongoles o Tartaros, em B. A. L., 1908, p. 7-10; Explicacion del terremoto segun el B. Lull, ibid., 1910, p. 61-64; S. Bové, Llull y el descubriment de les Amériques, em Rivista Lulliana, 105-114; Dr Serra de t. II, p. Martinez, La medicina lulliana, em Estudis franciscans, Barcelona, 1923, t. xxxi, p. 356-376; La Roncière, La découverte de l'Afrique — du nord au Moyen Age, t. i, Paris, 1824.

6° Ética. J. Hartmann, De individualismo ethico-christiano a philosopho nationis catalanæ B. R. Lullo concepto, em Rivista Lulliana, t. IV, p. 143-148; T. Carreras y Artau, Etica hispana. Apuntes sobre la conception etico-juridica de R. Lull, Barcelona, 191 /(. Lull, Programa del Espuna, 1 ; curso sobre — concepciones eticas en 1915.

7° Culto. A. du Moutier, O. F. M., Martyrologium franciscanum, 2e édit., Paris, 1653, p. 278-280; J. Pons y Marques, Documents relatius al culte del B. R. Lull, em B. A. L. —Sur . ... 1923, p. 261-21.1, 280-282,291-294,310-313. B. Lulle na arte, cf. P. André de Palma, O. M. C, Catalogo de la exposicion de iconografia y bibliografia del B. R. Lull, em Estudios Franciscanos, Barcelona, 1918-1920, t. xxi-xxv, sobretudo, t. xxii, p. 220, 271, :',:>7, 146-455; F. Guasp i Vincens. Xilografies antigues del B. R. Lull, Palma, 1915. O soberbo tríptico de P. Barceló na exposição missionária do Vaticano foi descrito por L. Huetter no Corriere d'Italia, 8 de maio de 1925.

E. LONGPRÉ.

Autor original: E. Longpré

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