LUGO (JOÃO DE)

LUGO (JOÃO DE)

LUGO (João de), um dos mestres da teologia escolástica moderna, nascido em Madri, em 25 de novembro de 1583, entrou na Companhia de Jesus em 1603. Depois de ter ensinado durante dez anos filosofia e teologia em Valladolid, o brilho de seu talento fez que fosse chamado a Roma, onde durante vinte anos ocupou a cátedra de teologia no Colégio Romano, com tão grande celebridade que cópias de seu curso eram pedidas ao longe, como rara mercê, por sábios teólogos. O papa Urbano VIII, que gostava de consultar as obras do P. João de Lugo, tinha-o em tão alta estima que, sem ter deixado em nada pressentir suas intenções, o nomeou cardeal em 14 de dezembro de 1643. Foi preciso uma ordem formal para obrigá-lo a aceitar uma dignidade tão contrária às tendências mais profundas e mais caras de sua humildade.

Nada mudou em seu gênero de vida; a mesma simplicidade, a mesma afabilidade. De suas módicas rendas, retinha para si apenas o estritamente necessário; todo o resto era para os pobres, aos quais distribuía cada dia víveres, dinheiro, remédios, entre outros a quina, cujas propriedades medicinais acabavam de ser descobertas e que o povo chamou por muito tempo « pó de Lugo ». Seu mais vivo pesar foi renunciar então ao ensino da teologia. Continuou, contudo, a publicação de suas obras, que se estendem a todas as questões da moral e da dogmática, na ordem clássica das matérias. A primeira edição completa das obras do cardeal de Lugo: Opera omnia, Lyon, 1652, 7 vol., in-fol., é bastante defeituosa. Uma nova edição, muito correta e muito cuidada, apareceu em Veneza, em 1718, reproduzida em 1751, 7 vol., in-fol. Essa edição compreende: t. I e II, Disputationes de jure et justitia, obra notável entre todas; t. III, Disputationes scholasticæ morales et de virtute fidei divinæ; t. IV, Disputationes scholasticæ de incarnatione; t. V, Disputationes scholasticæ morales et de sacramentis in genere; de venerabili eucharistiæ sacramento et de sacrosancto missæ sacrificio; t. VI, Disputationes scholasticæ et morales de virtute sacramento et pœnitentiæ; item de suffragiis et indulgentiis; t. VII, Responsa moralia. A edição de Paris, 1868, segue, para as mesmas matérias, uma ordem diferente.

Foi preciso uma ordem expressa dos superiores para determinar esse sábio homem a publicar seus primeiros tratados, e foram as instâncias do cardeal Pallavicini, seu mais brilhante e mais caro discípulo, que sozinhas o decidiram a entregar à impressão seus Responsa moralia. Várias obras inéditas sobre a alma, a filosofia, a lógica, a Trindade, a visão intuitiva, encontram-se hoje dispersas nas bibliotecas de Madri, de Salamanca, de Karlsruhe, de Malines etc. Todas essas obras nada têm de uma compilação que repisa, em nova ordem, coisas já ditas; trazem a marca muito pessoal de um gênio independente e original, mas prudente e profundo. As opiniões dos diversos autores são sumariamente relatadas: Lugo se empenha sobretudo em extrair o fundo de seu pensamento, em apresentar o fruto de suas próprias meditações. Outra característica de seu ensino vivo e prático é a estreita união da teologia moral e da teologia dogmática, servindo esta de base àquela. Para uma como para outra, a mesma simplicidade genial no método, que vai direto aos princípios de onde sairão em seguida, como por si mesmas, as aplicações. É interessante ler a esse respeito as últimas linhas do prefácio de seu De justitia et jure.

A luminosa penetração de seu pensamento nem sempre está isenta de um excesso de finura e de sutileza. Espírito ousado em sua prudência, como todos os espíritos equilibrados e poderosos, não temeu enveredar, em terreno livre, por caminhos novos. Tem seu sistema próprio sobre o objeto formal da fé, sobre a união hipostática, sobre o mistério eucarístico, e essas teorias, sempre estudadas e discutidas, resistiram ao tempo. O fundo mesmo de sua doutrina não deixa de ser de uma solidez à toda prova; entre os teólogos dos séculos XVI e XVII, de Lugo ocupa um lugar sem par, ao lado, se não acima, de Suarez. « Depois de santo Tomás, escreveu santo Afonso de Ligório, nada há de exagerado em pô-lo na primeira fila entre todos os outros teólogos, tanto as razões pessoais e novas que apresenta para a solução das questões vão à raiz da dificuldade e não se deixam facilmente refutar. » Theol. moralis, l. III, n. 552. Esse grande teólogo morreu em Roma, em 20 de agosto de 1660, com setenta e sete anos de idade; pediu a graça de ser sepultado aos pés de santo Inácio.

Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, t. iv, col. 175-181; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. iii, col. 911-915; Andrade, Varones illustres, t. v, p. 221-244.

Bernard.

Autor original: P. Bernard

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