LÉON (Luís de) (1528-1591), religioso da ordem dos eremitas de Santo Agostinho, poeta clássico espanhol, teólogo e um dos principais artífices do renascimento dos estudos escriturísticos. Estudar-se-ão sua vida, sua obra, sua influência.
I. Vida. Nasceu em Belmonte, província de Cuenca (Espanha), no mês de setembro de 1528. Aos catorze anos, foi a Salamanca como estudante e, alguns meses mais tarde, entrava no convento de Santo Agostinho, onde fez profissão em 29 de janeiro de 1544. Era a época das grandes vocações religiosas, e o convento em questão guardava o prestígio de ter hospedado recentemente sábios e santos como são João de Sahagún, chamado o apóstolo de Salamanca, são Tomás de Villanueva e o beato Afonso de Orozco. A inteligência precoce de Fr. Luís permitiu-lhe, durante seus estudos teológicos, aperfeiçoar-se nas línguas latina, grega, hebraica e caldaica, nas quais se tornou logo um mestre consumado. Obteve por concurso a cátedra de santo Tomás, que ocupou durante quatro anos, e depois a de Durando. Foi duas vezes vice-reitor da universidade, deputado e comissário do corpo dos doutores.
Vítima do ciúme e das querelas escolásticas, por denúncia do dominicano Fr. Bartolomeu de Medina, intérprete rigoroso do sentido literal da Vulgata, que considerava como uma autoridade intangível, e do helenista Leão de Castro, que, por sua vez, respeitava a versão dos Setenta como um artigo de fé, foi preso pelo tribunal da Inquisição e transferido de Salamanca para Valladolid, onde entrou na prisão em 27 de março de 1572. Aguardou com grande tranquilidade de alma as acusações feitas contra ele e que ignorava. Estas, formuladas em segredo segundo as palavras de alguns de seus discípulos e sustentadas com paixão por Medina e Castro, concretizaram-se em dezessete proposições que hoje podem reduzir-se a três asserções principais, que foram então consideradas por alguns como heréticas. 1º A tradução da Vulgata, admitida pela Igreja, contém muitos erros, embora fora dos pontos concernentes à fé e aos bons costumes. 2º Os intérpretes gregos chamados Setenta não compreenderam bem certas passagens do texto hebraico, que poderiam explicar-se melhor, como o fazem os rabinos. 3º O Cântico dos cânticos foi na origem um epitalâmio de Salomão e da filha do Faraó: pode-se lê-lo e comentá-lo em língua vulgar. Levando em conta o cânon recentíssimo do concílio de Trento sobre a Vulgata e o fato de que Fr. Luís de Léon havia traduzido ele mesmo diretamente do hebraico o Cântico dos cânticos (manuscrito que foi apreendido em sua cela com outros papéis), não nos admiraremos de que a discussão tenha girado em torno desses três pontos principais.
O processo durou perto de cinco anos, durante os quais Fr. Luís, sempre na prisão, discutia com os inquisidores; foi somente em 7 de dezembro de 1576 que foi declarado inocente do crime de heresia. Em 29 de dezembro, entrou triunfante em Salamanca, escoltado pelas autoridades da cidade, com grande reforço de trombetas, cavaleiros, doutores e mestres, como escreve uma testemunha ocular. No dia seguinte, diante do corpo universitário em peso, após leitura da sentença da Inquisição sobre a pureza de sua doutrina, renunciou à sua cátedra em favor daquele que a ocupava acidentalmente e que era o mestre Fr. Garcia del Castillo, abade de São Bento, e a seu direito de voto como doutor em favor de Fr. Bartolomeu de Medina, seus dois adversários durante o processo. Mas a universidade, para recompensar seus méritos, outorgou-lhe de imediato uma cátedra de Escritura Sagrada, e foi ao tomar posse desta que pronunciou a frase célebre: Decíamos ayer... Ontem dizíamos, etc. Essa frase, conservada primeiro por tradição oral até 1623, foi consignada por escrito por Crusénius em seu Monasticon augustinianum, p. 208. Lê-se no pedestal da estátua que foi erigida a Fr. Luís de Léon por subscrição nacional no ano de 1869 e exprime maravilhosamente o caráter do poeta perdoando a seus adversários.
Depois de sua grande provação, reencontra-se Fr. Luís intervindo em nome da universidade na correção do calendário gregoriano em 1582. Pela palavra e pela pluma, sustentou a reforma do Carmelo e pronunciou-se em favor da liberdade das religiosas na escolha de seus confessores. Com a aprovação do Conselho real e a das carmelitas, encarregou-se de publicar as obras de santa Teresa, com um prólogo notável em que põe em evidência o bom espírito da santa. Cf. Obras de la Madre Teresa de Jésus, Salamanca, 1589; por Guillermo Foquel. Tendo sido nomeado provincial no ano de 1591, morreu nove dias depois, em Madrigal, em 23 de agosto, após ter começado uma Vida da mesma santa Teresa dedicada à imperatriz da Áustria, da qual deixou apenas algumas folhas bem conhecidas dos historiadores. A cátedra do mestre Luís de Léon conserva-se ainda no estado em que a deixou, e seu corpo repousa na capela da universidade, privilégio que nenhum outro professor de Salamanca recebeu além dele.
II. Obras. Dividem-se em duas classes: espanholas e latinas. As primeiras enchem quatro volumes da última edição feita em Madri em 1885; as outras formam sete tomos in-4º, na edição de Salamanca de 1891-1895, que contém grande quantidade de opúsculos até então inéditos. 1º As obras espanholas são escritas em verso e em prosa, mas mesmo em seus versos nosso autor se mostra teólogo. 1. Poesias. Ele descreve a poesia como «uma coisa santa e uma participação do sopro celeste e divino destinado a elevar os homens até o céu de onde procede.» É sem dúvida por esse motivo que nosso autor é chamado «o cantor do céu», comparável quanto à forma a são João da Cruz, o qual, quanto ao fundo, é mais divino que humano. No curto prólogo que Fr. Luís escreveu para o livro de suas poesias, dedicado a seu amigo D. Pedro Portocarrero, mas que não foi publicado então, ele as divide em três partes: «Uma contém as que eu mesmo compus; as outras duas, as que traduzi de outras línguas, provenientes de autores profanos e sacros. Os profanos são Virgílio, Horácio, Píndaro, Tibulo, Petrarca e Bembo, etc.
Os autores sagrados são Moisés, Jó, Davi, Salomão e Habacuc, traduzidos, em regra geral, diretamente do hebraico. A maior parte dessas poesias foi escrita durante sua juventude, assim como nas prisões da Inquisição; tal é o salmo XXVI, e a célebre ode à Virgem, na qual ele lhe suplica que lhe devolva a liberdade. Ele dá o título de canciones sagradas àquelas em que «se esforçou, escreve ele, por imitar, segundo seu poder, a simplicidade do original e esse sabor de antiguidade, cheio de doçura e de majestade, que elas encerram em si». Deseja que esses versos ressoem frequentemente aos ouvidos das moças e dos artesãos, e que sejam encontrados na língua das crianças e dos anciãos, a fim de tomar o lugar das canções profanas, que muitas vezes são um veneno para as almas, «pois, acrescenta ele, nosso cristianismo desceu tão baixo que pomos em música os nossos próprios vícios e cantamos com voz alegre o que deveria ser a nossa confusão». T. IV, p. 531.
As estrofes pelas quais traduziu o Sl. XXI, Deus, Deus, respice in me, segundo o hebraico e a Vulgata, aplicadas aos sofrimentos de Jesus Cristo, estão acima de todo elogio. A língua espanhola não conhece nada melhor sob o aspecto da precisão teológica, da sobriedade, da elegância e da flexibilidade dos versos. O autor ficaria muito surpreso se lhe dissessem que seria muito mais estudado como poeta original do que como tradutor, pois dava-se perfeitamente conta de como é difícil «traduzir com elegância poesias de línguas estrangeiras, sem acrescentar nem retirar nada ao original, e conservando, na medida do possível, as figuras do original», t. IV, p. 293. Traduziu igualmente em «oitavas reais» o Cântico dos Cânticos, além de sua versão literal em prosa que, por ordem da Inquisição, teve de pôr em latim. Esta última poesia, que Fr. Luís traduziu do hebraico seguindo o sentido e a letra do epitalâmio original com grande riqueza de expressão, parece a mais mística de todas. Este pequeno poema teria bastado por si só para imortalizar seu autor.
Algumas dessas poesias foram impressas desde o início em diversas antologias, sem nome de autor. Em 1574, ao publicar as de Garcilaso de la Vega, o Brocense introduziu diversas traduções de Horácio, feitas por Luís de León, mas sem dar o nome dele, sem dúvida para não o comprometer, visto que estava então na prisão. Saído de sua prisão preventiva, este quis, como ele mesmo se exprime, «recolher o seu filho perdido e reconduzi-lo à casa paterna, a fim de afastá-lo das más companhias». Em 1583, preparou uma edição com prólogo dedicado a seu amigo Dom Pedro Portocarrero; mas ignora-se por que razão ela não chegou então a ser publicada. Foi somente em 1631 que Quevedo a deu a lume, servindo-se, porém, de um texto defeituoso e incorreto que acabava de ser publicado no mesmo ano em Milão por Filipe Golfi. Pellicer, por sua vez, havia preparado um texto melhor para imprimi-lo em Madri em 1631, mas foi suplantado por Quevedo. Um século mais tarde, em 1707, Mayans preparou a edição de Valência, reproduzida em 1785 e 1790 pela imprensa real. Em 1804-1816, o P. Mérino deu a edição completa das obras de Fr. Luís em seis tomos, atribuindo-lhe, porém, por sua vez, várias poesias tomadas de outros autores. Desde essa época até nossos dias, não se imprime nenhuma coletânea nem nenhuma história da literatura espanhola em que não se dê a Fr. Luís de León o primeiro lugar, a título de príncipe da poesia e modelo da língua espanhola.
2. Os principais livros de Fr. Luís em espanhol são: a) a tradução literal do Cântico dos Cânticos, a do Livro de Jó, segundo o texto original, seguidas de comentários apropriados; b) La perfecta casada e c) Los nombres de Cristo.
a) O Cântico dos Cânticos foi distribuído de mão em mão, dez anos antes do encarceramento do tradutor, em numerosas cópias, e chegou mesmo a ser impresso sem a permissão de Fr. Luís. Durante sua detenção, teve de explicar-se sobre a interpretação de algumas passagens que, em sua opinião, são Jerônimo não havia traduzido bem. (Cf. Obr. Esp., t. IV, p. 171.) O autor sustenta que, segundo a letra, o Cântico é um epitalâmio composto por ocasião do casamento de Salomão com a filha do Faraó, mas que o sentido místico diz respeito à união de Jesus Cristo com a Igreja, realizada durante as três idades do mundo, interpretadas à sua maneira.
b) La perfecta casada, ou a esposa perfeita, é o livro mais lido de todos os do autor. De 1583 até nossos dias, fizeram-se dele inúmeras edições, várias delas de grande luxo, com o fim de presenteá-lo às jovens casadas, às quais é costume na Espanha oferecer algum exemplar. Em 1903 este livro foi traduzido para o francês pela Sra. Dieulafoy. É um comentário do último capítulo dos Provérbios, no qual o autor, apoiando-se nos conselhos que lhe deu sua mãe, descreve a excelência da mulher forte, Mulierem fortem quis inveniet? Este pequeno livro, tão substancial quanto curto, dá um quadro da sociedade espanhola no tempo de Fr. Luís. Exalta as virtudes das mulheres sérias e flagela com mão vibrante os vícios e as paixões das depravadas. É talvez um dos primeiros livros do feminismo cristão; sua leitura é sempre atual. Possui bela erudição greco-latina, é recheado de anedotas e de exemplos vividos e escrito para todos os tempos. Querendo torná-lo ainda mais agradável, seu autor juntou-lhe, em tercetos espanhóis, a tradução do último capítulo dos Provérbios.
c) Los nombres de Cristo. Os «Nomes de Cristo» são a obra-prima de Luís de León, mais lida, contudo, pelos amantes da literatura do que pelos teólogos. O autor começou a escrevê-la na prisão, por assim dizer sem consultar livros. Ao contrário dos teólogos escolásticos de seu tempo, que desdenhavam escrever em espanhol para o povo sobre os mistérios da religião, na ideia de que estes não podiam ser tratados convenientemente em língua vulgar, Fr. Luís demonstrou teórica e praticamente que a língua espanhola podia competir com o grego e o latim e que até as superava, em ocasiões, pela riqueza de seu léxico, por causa das línguas indígenas que assimilou. A esse respeito, ele faz uma apologia do espanhol que se tornou célebre na literatura espanhola. Além disso, Fr.
Luís de León estava persuadido de que uma das causas das desgraças de seu tempo era o pouco gosto dos teólogos pela Sagrada Escritura, cujo estudo e cujos especialistas eram desdenhados. «Estes, escreve ele, falando dos teólogos, inchados pelo conhecimento superficial de certas questões, possuem o título de mestres em teologia, mas não possuem a teologia: os elementos desta última podem ser constituídos pelas questões de escola e pelas citações dos santos Padres, mas quanto à perfeição e à profundidade, só as Sagradas Letras podem fornecê-las. Segue-se que essa falta de livros sérios para o povo, escritos em sua língua, é uma das razões pelas quais ele se entregou sem freio à leitura de livros maus e perniciosos. Sob esse aspecto, sucedeu-nos o que sucede à terra não cultivada: quando não produz trigo, produz espinhos.»
Eis o argumento do livro. Três religiosos agostinianos, fugindo aos calores caniculares, pesados, de Salamanca, retiram-se para uma casa de campo que a comunidade possui na encantadora margem do Tormes e, tomando ocasião do nome imposto por Cristo a seu apóstolo, começam um diálogo, de forma muito platônica, sobre os diversos nomes que a Sagrada Escritura atribui a Jesus Cristo. Estes são numerosos, mas na primeira edição Fr. Luís os reduz a dez: Rebento, Espelho, Caminho, Montanha, Pai do século futuro, Pastor, Braço, Rei, Príncipe da paz e Esposo. É digno de nota que, sobre esses nomes e na ordem indicada, o autor desenvolve todo um plano teológico: Criação, Encarnação, Pecado original e Graça. Embora, para explicar o Braço de Deus, pareça esquecer esse plano, na realidade serve-se dele para traçar um eloquente capítulo sobre a filosofia da história: esta se estende, em primeiro lugar, de Moisés a Jesus Cristo e, em seguida, da pregação do Evangelho à descoberta da América. Daí retoma o fio do discurso para narrar as maravilhas que Deus operou por seu Braço, depois como Rei, Príncipe da paz e Esposo das almas; o que o leva a tratar, em seu terceiro livro, dos nomes de Filho de Deus, Amado, Cordeiro e Jesus, onde resplandece antes a divindade que a humanidade do Salvador! Ao contrário do sistema dionisiano no De divinis nominibus, Fr. Luís começa sua obra teológica pelo lado humano para chegar em seguida à contemplação do divino. Tudo isso constitui um harmonioso conjunto da união hipostática do Verbo, na qual vêm fundir-se as coisas visíveis e invisíveis de que fala são Paulo.
Nesta obra, sustenta, entre outras coisas, com são Bernardo, In cant., serm., XVII, n. 5, que a rebelião angélica foi causada pela recusa, da parte de Lúcifer, de reconhecer no Verbo que se faria homem a hegemonia ou principado de todas as coisas; que de qualquer modo o Verbo se teria encarnado, mesmo que Adão não tivesse pecado, mas que, neste último caso, em vez de aparecer como Redentor, teria vindo como glorificador da natureza humana unida ao Verbo. Opera latina, t. IV, p. 35 ss., t. VII, p. 185. O autor é igualmente de opinião que a reprovação do povo judeu foi causada originariamente pela adoração do bezerro de ouro ao pé do monte Sinai: Deus permitiu essa cegueira a fim de que o reino de Cristo passasse aos gentios até o fim do mundo, quando os judeus voltarão em massa para o verdadeiro Messias...
2° Obras latinas. Para formar uma ideia completa do pensamento teológico de Fr. Luís, muitas vezes esboçado de modo um tanto vago em suas obras espanholas, convém reportar-se às suas obras latinas e principalmente aos tratados De prœdestinatione, De creatione rerum, De incarnatione, De fide, que só foram editados em 1895. Fr. Luís de León foi sempre um grande amador dos estudos bíblicos, aos quais consagrou seu profundo conhecimento do hebraico, do caldeu, do grego e do latim. Suas ideias pessoais, antes e depois de seu processo inquisitorial, podem reduzir-se às seguintes: o texto hebraico nunca foi alterado pelos judeus, nem antes nem depois de Jesus Cristo; a versão dos Setenta não foi inspirada pelo Espírito Santo, e os intérpretes gregos nem sempre traduziram bem o hebraico; a Vulgata, fora dos pontos que dizem respeito à fé e aos bons costumes, pode e deve ser melhorada; o cânon do concílio de Trento sobre a autenticidade da Vulgata deve entender-se no sentido de que a Igreja dá a sua preferência a essa versão em vista da unidade nas citações e nos comentários dogmáticos, mas que deixa, não obstante, certa liberdade científica aos exegetas, que podem dar um melhor sentido a numerosas passagens secundárias; por numerosas que sejam as versões feitas sobre o original, restarão sempre bastantes palavras obscuras, submetidas a diversas interpretações, por causa do próprio caráter da língua hebraica. Cf. op. lat., t. V, p. 280-338; Doc. inedita, t. X, p. 97; t. XI, p. 55-120, P. Blanco, Vida de Fray Luis de Léon, c. VI, XVI.
Segundo esses mesmos princípios, expôs o cântico de Moisés Audite, cœli, quœ loquor, etc. Deut. XXXII, seguindo a versão caldaica, comparada com a grega, a latina e o original hebraico. Ensina aí que, nesse cântico, que Deus ordenou ao povo judeu escrever, aprender de cor e cantar, se anuncia claramente a reprovação deste último como raça perversa, infiel a Deus e negadora do Messias. E convém notar que o autor, entusiasta do texto hebraico, serve-se do testemunho deste para refutar os judeus com suas próprias armas, sem lhes deixar uma só escapatória. Cf. op. lat., t. I. No mesmo volume encontra-se a exposição de diferentes salmos, dedicada ao cardeal Quiroga, bem como o comentário do Eclesiastes, cuja edição se funda nas cópias, nem sempre fiéis, de alguns discípulos de Fr. Luís.
Seu comentário do profeta Abdias, que são Jerônimo reconhecia como tão difícil de interpretar, é mais interessante pela novidade do argumento. Trata-se aí do chamado à fé de um povo que se descreve sem o nomear e que habita uma região situada nos antípodas da Palestina. Fr. Luís aplica essa profecia à descoberta e à conversão da América. Supõe, com efeito, que um acontecimento dessa espécie, o maior depois da redenção do gênero humano, devia necessariamente ser anunciado de alguma maneira na Sagrada Escritura.
O profeta Abdias fala de uma emigração judia que viria habitar o litoral do Bósforo: Transmigratio Jerusalem quae est in Bosphoro, possidebit civitates Austri, Abd., 13. Comparando essa profecia com a de Isaías, c. LXVI, sobre a vocação dos gentios à fé, nosso autor deduz dela, com provas geográficas e históricas, que os descendentes dos judeus convertidos que vieram à Espanha no tempo do imperador Adriano são os que devem anunciar o Evangelho ao Novo Mundo. Em seguida, seguindo o contexto das mesmas profecias, Fr. Luís descreve os sofrimentos que devem suportar os apóstolos da América, até serem expulsos de seus próprios domínios: Abscindendi sunt, Op. lat., t. III, p. 5 ss.
III. Influência e renome póstumo. Seus cursos na universidade e os poucos livros que publicou durante a vida fizeram considerar Fr. Luís de León como o oráculo de Salamanca. Pedro de Aragão, Basílio Ponce, Antônio de Molina e o grande Suárez gloriam-se de o haver tido como professor; este último o chama sapientissimus magister meus. O bispo de Tarragona, Diego de Yepes, o nomeia: «luz e glória da Espanha»; Luís Muñoz diz «que em seu tempo foi igualado por ninguém, e que o futuro o olhará como um motivo de assombro»; Francisco Pacheco acrescenta «que foi o maior gênio de sua época para as ciências e as artes». Lope de Vega, Cervantes e Quevedo lhe dirigiram magníficos elogios, a ponto de tratá-lo de gênio divino. No estrangeiro foi conhecido sobretudo por sua exposição do Cântico dos Cânticos: o historiador J. A. de Thou o cita com elogio, Historia mei temporis, XCIX; assim também Ghisleri, Commentaria in Canticum, Paris, 1613, e Bossuet, Préface sur le Cantique, n. 4. Gabriel Daniel, o antagonista de Descartes e de Pascal, traduziu para o francês a obra de Fr. Luís De utriusque Agni typici et veri immolatione, sob este título: Traduction du système d'un docteur espagnol sur la dernière Pâque de N.-S. avec des réflexions sur ce système, Paris, 1695.
De qualquer modo, tem-se o direito de concluir que nosso autor, mais ainda que de poeta e de literato, merece o nome de eminente teólogo; é uma lacuna não possuirmos ainda um livro que o considere sob esse ponto de vista particular.
As edições antigas foram anuladas por duas publicações recentes: Obras castellanas de Fray Luis de Léon, 4 vol. in 4°, Madri, 1885; Opera latina Mag. Luysii, augustiniani, 7 vol. in 4°, Salamanca, 1891-1895; Fray Luis de Léon. Estudio biográfico, por el P. Francisco Blanco Garcia, Madri, 1904; Los Nombres de Cristo, edición esmerada con un Prólogo biográfico del P. Miguélez, Madri, 1907; Proceso inquisitorial de Fray Luis de Léon, em Colección de Documentos inéditos para la Historia de España, t. X e XI; Fray Luis de Léon y la filosofía española en el siglo XVI, por el P. Marcelino Gutiérrez, 2ª ed., Madri, 1891; Revista agustiniana y Ciudad de Dios, t. XXVI, XXX, XLI e outros que se podem ver na tabela especial; Aubrey G. Bell, Luis de Léon, a study of the Spanish Renaissance, Oxford, 1925.
P. Miguélez.
Autor original: P. MIGUÉLEZ
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