LEÃO DE SÃO JOÃO, carmelita calçado da reforma da Touraine, literato, filósofo, teólogo, orador e escritor místico (1600-1671). Leão de São João (João Macé) nasceu em Rennes, a 9 de julho de 1600, de uma das famílias mais distintas da cidade. Aos dezesseis anos entrou no convento dos carmelitas calçados de sua cidade natal, e nele fez sua profissão em 25 de dezembro de 1617. Estudou filosofia e teologia sob a direção do P. Antônio de São Martinho e fez-se notar pela sagacidade de seu espírito, pela extensão de seu saber e por grandes talentos literários. Ainda não era sacerdote e já maravilhava o público com os discursos que pronunciava.
Religioso fervoroso e zeloso, assim como dotado de sabedoria e prudência no governo, passou sucessivamente por todos os cargos, exceto o de geral. Foi prior em Angers e em seguida em Paris, no convento dos Billettes, convento que adquirira em 1633. Nos capítulos provinciais de 1635 e 1644, foi eleito provincial da província da Touraine; foi honrado com o título de provincial da Terra Santa, igualmente em 1644, foi nomeado visitador apostólico da França e, em 1660, o capítulo geral de Roma o elegeu primeiro assistente do geral, ofício que ocupou durante seis anos. Pregador da corte sob Luís XIII e Luís XIV, tornou-se amigo e confidente do cardeal de Richelieu, que assistiu durante sua última enfermidade e na morte. O cardeal Mazarino e muitos outros personagens ilustres, assim como os sábios da França e de Roma, honraram-no com sua amizade e sua confiança. Morreu em Paris, no convento dos Billettes, a 30 de dezembro de 1671.
Profundamente penetrado da doutrina mística do venerável Irmão João de São Sansão, de quem foi um dos melhores discípulos, era, depois do P. Filipe Thibault, uma das mais sólidas colunas da jovem reforma dos carmelitas de Rennes, dita também da Touraine, reforma caracterizada por sua vida interior intensíssima. Não somente inculcava essa admirável doutrina a seus confrades, mas a difundia também no grande mundo e na massa dos fiéis por meio de seus numerosos escritos e de sua eloquência "verdadeiramente genial"; esta foi, contudo, maculada "por um gosto muitas vezes deplorável". Entre seus sermões, citam-se sobretudo, do ponto de vista místico: La France convertie..., Octave à l'honneur du B. S. Denis l'Aréopagite, Paris, 1661.
Segundo o testemunho de Henri Bremond, o P. Leão era um dos mais excelentes entre os devotos, de bela inteligência, original e poderosa, [trecho truncado pelo OCR] tanto encyclopedista, filósofo, teólogo, orador, escritor [trecho truncado pelo OCR] e místico, o P. Leão foi mais erudito que profundo, "mais especulativo talvez do que convém a um contemplativo"; contudo mereceria que o estudassem.
Ao lado dos 14 livros referentes à ordem do Carmelo, o autor editou 12 que tratam de teologia, 10 de ascética e de mística, 8 de história, 6 de pedagogia, de eloquência, das ciências preparatórias e de filosofia; enfim, há 12 volumes de sermões, de panegíricos e de orações fúnebres, entre os quais devemos fazer notar o panegírico do rei são Luís e as orações fúnebres do cardeal de Richelieu, do cardeal Mazarino e do venerável P. Antônio Yvan, fundador das religiosas de Nossa Senhora da Misericórdia.
Contentemo-nos em enumerar aqui suas principais obras enciclopédicas, teológicas, ascéticas e místicas, segundo a ordem cronológica de sua primeira edição e conforme a lista elaborada pelo próprio autor (encontrar-se-á essa lista completa em Cosme de Villiers).
1.º Les sept colonnes de la Sagesse incarnée, qui soutiennent le temple des sept principales vertus de la divine eucharistie — contre les hérétiques, Poitiers, 1629, in-8.º. 2.º La réponse de celui qui est attendu, ou Apologie contre l'Anti-Léon de Daniel Couppé ministre, ibid., 1630, in-8.º. 3.º L'entrée du Ciel trois fois ouverte à saint Paul dans lequel on propose des maximes générales de la vie morale, spirituelle et mystique dans l'esprit et la vérité, Paris, 1633, in-8.º. 4.º Avant-goût du Paradis ou Méditations sur l'amour divin, Paris, 1634 e 1640, in-8.º; 1653, in-16. 5.º Encyclopædiæ præmessum, Paris, Jean Guillemot, 1635, in-4.º; esta obra apareceu igualmente em francês, primeiro em 5 opúsculos, depois em 2 volumes, Paris, 1654 e 1679. 6.º La constance de l'esprit, Paris, 1636. 7.º Disciplina prudentiœ, Paris, 1637. 8.º Avis sincères et charitables de François Irénée sur les questions de la prédestination et de la fréquente communion, Paris, 1643, in-8.º e in-4.º. 9.º L'économie de la vraie religion chrétienne, catholique, dévote, par un raisonnement naturel, moral, politique, Paris, 1643; apareceu igualmente em latim: Œconomia veræ religionis christianœ, catholicœ, mysticæ, lumine naturali, morali et politico adornata, Paris, 1644, in-4.º. 10.º Instruction catholique pour distinguer infailliblement la vérité du mensonge en matière de religion, Poitiers, 1647, in-4.º.
11.º Cinco opúsculos editados separadamente em Paris em 1647, in-12: De l'attention à la sainte Messe; Principes de perfection; Philosophie chrétienne; Oraison mystique; Formulaire des supérieurs. 12.º Théologie mystique, Paris, 1654, 2 vol. in-8.º. 13.º La conduite générale de la théologie mystique, Paris, 1656, in-12.º. 14.º Jésus-Christ en son trône établissant la vraie religion, la morale chrétienne et la théologie mystique, 1657. O título deste livro, do ponto de vista místico sobretudo interessante, difere um pouco do que dá Cosme de Villiers, onde o ano 1665 é indicado como data de sua publicação. 15.º Studium sapientiœ universalis, 3 vol. in-fol., Paris, 1657, outra enciclopédia da qual o t. i trata das ciências profanas e os dois outros, Lyon, 1664, das ciências religiosas. Essa mesma obra apareceu igualmente em francês sob o título de Académie des sciences et Medulla des arts, Paris, 1679, 3 vol. in-12.º. 16.º [título truncado pelo OCR] sapientiœ universalis, espécie de introdução à obra precedente, Paris, 1667, in-fol. 17.º Instructio catholica adversus heterodoxos, 1661. 18.º Aurum optimum, 1669, in-8.º, que não é outra coisa senão os quatro evangelhos em um só e que talvez se deva identificar com La vie de Jésus-Christ, tirée des quatre évangiles. 19.º La Verge et la Manne; ou Traité du gouvernement des âmes qui ont été appelées dans différents états et exercées par des voyes extraordinaires. 20.º De theologiae christianœ ortu, progressu, variisque œtatibus et incrementis diatriba.
Paris, in-fol. 21.º L'Alliance de la Vierge touchant les privilèges du S. Scapulaire des Carmes. Em 1752 este opúsculo já tivera uma quarentena de edições em Paris e alhures e fora traduzido em latim.
Enfim, é preciso notar que o P. Leão, com a permissão do autor, editou o manuscrito de Teófilo Raynaud, S. J., a respeito do escapulário, sob o título de Scapulare Partheno-Carmeliticum illustratum et defensum, Paris, 1663, in-8.º, obra que teve várias edições. É muito lamentável que o P. Leão tenha tomado tais liberdades, a tal ponto que o autor, o próprio P. Raynaud, repudiou a obra (cf. Opera omnia, t. xx, p. 70, n. 72), porque o P. Leão levara a interpolação até omitir passagens inteiras, acrescentar outras de seu próprio fundo, e mesmo até mudar o título da obra. É, pois, indevidamente que, ainda em nossos dias, alguns se obstinam em alegar essa obra assim interpolada de Raynaud como uma autoridade na questão do escapulário de Nossa Senhora do Monte Carmelo; por isso seria muito interessante reencontrar o manuscrito original da obra de Raynaud.
É preciso ainda assinalar, como tendo importância para o estudo do movimento religioso na França, a história da reforma dos carmelitas da Touraine: Delineatio observantiœ carmelitarum Rhedonensis in provincia Turonensi in qua carmeliticœ historiœ compendium Turonensis provinciœ, status, conventuum fundationes et instaurationes designantur, apareceu anônima em Paris, 1645. Da p. 218 evidencia-se que o P. Leão nela trabalhou onze anos (de 1634 a 1645).
Daniel da Virgem Maria, Speculum carmelitanum, Antuérpia, 1680, t. ii, p. 1091 b-1092, n. 3848; Cosme de Villiers, Bibliotheca Carmelitana, Orléans, 1752, t. ii, col. 235-246, n. 40, onde se encontrará uma excelente bibliografia; H. Bremond, Histoire littéraire du sentiment religieux en France, t. i, Paris, 1924, p. 266-267; t. ii, 1923, p. 389-393.
P. Anastase de S. Paul
Autor original: P. Anastase de S. Paul
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