LAMENTAÇÕES (Livro das). — Um dos livros do Antigo Testamento. Sumário: I. Nomes e lugar no cânon. II. Forma literária e estilo (col. 2526). III. Análise (col. 2527). IV. Origem do livro (col. 2528). V. Doutrinas religiosas (col. 2535).
I. Nomes e lugar no cânon. 1º Nomes. O livro das Lamentações não leva título em hebraico, nem nos manuscritos nem nas bíblias impressas; é designado ali por sua primeira palavra, 'êkâh, como. Os judeus o chamam segundo seu conteúdo: Qinôth, lamentações, cf. tr. Baba Bathra, 14b-15a, o que os Setenta traduziram por Θρῆνοι Ἱερεμίου), que se tornou, nas antigas versões latinas e na Vulgata, Threni, isto é, Lamentationes Jeremiæ prophetæ. A versão siríaca o chama de maneira semelhante: 'ûlylo, uivos. — 2º Lugar no cânon. Nos manuscritos hebraicos, as Lamentações encontram-se na 3ª categoria dos livros da Bíblia, os Ketûbim ou hagiógrafos. Embora a disposição dos livros nesses manuscritos varie segundo a sua nacionalidade, as Lamentações encontram-se regularmente no meio do grupo dos Megillot. A ordem adotada é a da sucessão das festas em que estes últimos são lidos na sinagoga: Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester. Nos Setenta, elas seguem imediatamente o livro de Jeremias, ao qual estão ligadas por uma breve introdução que afirma sua composição pelo profeta. Dá-se o mesmo nas versões siríacas e latinas. É aliás contando-as como um único livro com as profecias de Jeremias, assim como Rute com os Juízes, que se chega ao número de 22, o das letras do alfabeto hebraico, para o conjunto dos livros do Antigo Testamento. O silêncio de certos autores a seu respeito, que nem sequer as mencionam na enumeração dos livros da Bíblia, supõe evidentemente que para eles Lamentações e profecias de Jeremias não formavam senão uma só e mesma obra. Cf. São Jerônimo, no Prologus galeatus, P. L., t. XXVIII, col. 553, e Santo Agostinho em De doctrina christiana, II, 13, P. L., t. XXXIV, col. 41.
II. Forma literária e estilo. 1º Forma literária. O livro compõe-se de cinco poemas, cuja composição em verso todos reconhecem, embora quase não haja acordo quanto à determinação da métrica empregada. Um sistema, contudo, que parece reunir o maior número de sufrágios é o que propôs Budde; tratar-se-ia de um metro próprio dos poemas elegíacos; encontra-se ele, com efeito, não só nos quatro primeiros capítulos das Lamentações, mas ainda e sobretudo em Is., XIV, 4-21; Ez., XIX; XXVI, 17-18; Jer., IX, 9b-10, 18, 20-21... Consiste no emprego de versos de dois membros, um deles, ordinariamente o primeiro, mais longo; a prova de que é de fato esse o metro adotado pelo autor é que a toda alteração da medida do verso assim reconstituído parece corresponder uma alteração do texto, cuja correção se torna assim mais fácil. Budde, Das hebräische Klagelied, em Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, 1882, p. 1-52, e em Preuss. Jahr., 1893, p. 460 sq. Cf. Bickell, Carmina Vet. Test. metrice, Innsbruck, 1882.
Os versos dos quatro primeiros poemas estão agrupados em estrofes fáceis de reconhecer, pois a sucessão de sua primeira letra constitui o alfabeto hebraico; no c. III, cada um dos três versos da estrofe começa pela mesma letra. A ordem das letras, no entanto, não é a mesma nos quatro capítulos; enquanto no c. I a ordem é regular, nos c. II e IV a ordem de duas letras está invertida, a letra phé precede a letra 'aïn. Diferentes explicações foram propostas para essa inversão, entre outras a da diversidade de autores; nenhuma se impõe. Cf. Böhmer em Zeitschrift für die A. T. Wissenschaft, 1908, p. 53 sq. O c. V distingue-se dos precedentes, tanto do ponto de vista do verso, que não tem a mesma medida, quanto do ponto de vista da composição, que já não é acróstica, embora se encontrem ali tantos versos quantas são as letras do alfabeto hebraico. As respostas para dar conta dessas particularidades do último poema das Lamentações permanecem simples hipóteses. Note-se, enfim, a repetição frequente, nesse capítulo, da sílaba nû, espécie de rima talvez intencional.
2º O estilo. Todos os que estudaram o livro das Lamentações comprazeram-se em celebrar suas belezas literárias e o talento do autor, que soube evocar de maneira tão comovente as desgraças do povo de Deus. « Jeremias, diz Bossuet, é o único que igualou as lamentações às calamidades. » « O profeta, diz Lowth, deplora ali, com tal extensão e tão grande riqueza de ornamentos, o desastre de sua pátria, que não se pode deixar de reconhecer que cumpriu perfeitamente seu doloroso ministério. Em nossa opinião, não se encontrará outro poema em que, em espaço tão restrito, se encontre uma escolha de imagens tão feliz, tão variada, tão elegante... » De sacra poesi Hebræorum, edit. Rosenmüller, Leipzig, 1815, p. 261.
III. Análise. O livro das Lamentações tem por objeto os sofrimentos de Judá e de Jerusalém durante o cerco e a tomada da cidade pelos caldeus em 586. A confissão dos pecados, causa desses sofrimentos, a exortação ao arrependimento e à esperança de um retorno do favor divino entremeiam-se com a descrição dos males da nação. Tal é o tema único do livro em seu conjunto e de cada uma de suas partes; é pelo menos a opinião quase unânime, pois não se trata, nem mesmo no c. IV, de uma lamentação sobre a morte do rei Josias, como o creram alguns, São Jerônimo por exemplo, segundo uma passagem de II Par., XXXV, 25, que atribui a Jeremias uma lamentação sobre esse rei, escrita no livro dos Qinoth. Cada um dos poemas forma um todo completo, que só se liga ao que precede e ao que segue pela identidade de assunto. Por isso é bem difícil seguir o desenvolvimento do pensamento e marcar-lhe a sequência lógica ou histórica; as tentativas nesse sentido (de Wette, Ewald) permaneceram sem sucesso. Não só esses poemas são independentes uns dos outros, mas, além disso, nem sempre é fácil apreender a ligação de seus diversos elementos; isso se deve à sua própria natureza, que não se presta a um desenvolvimento lógico ou histórico; assim, não é inverossímil que a adoção do gênero alfabético para os quatro primeiros capítulos não tenha outro objetivo senão facilitar a memorização.
C. I. Duas partes: 1-11 e 12-22.
Na primeira, o poeta descreve a miséria de Sião, que, na segunda, exala ela mesma sua queixa. Em ambas aparece, expressa em termos comoventes, a triste situação do país depois de sua conquista por Nabucodonosor: o isolamento e a desolação da cidade, o exílio e a penúria de seus habitantes, tornados objeto de escárnio por seus inimigos.
C. II. A descrição das desgraças de Judá prossegue com maior precisão: o país está devastado, as cidades fortes são tomadas, os príncipes e os povos são aniquilados, o próprio santuário e o culto já não existem, todos na cidade em ruínas se lamentam. 1-12. Dirigindo-se então à infeliz Sião, doravante inconsolável, o poeta invectiva os profetas, que não tiveram senão visões vãs e loucas e provocaram o triunfo dos inimigos; exorta-a a implorar a divina misericórdia. 13-22.
C. III. A análise deste capítulo depende da resposta à pergunta: de quem se trata neste poema? É o próprio poeta que fala de suas misérias e de seus sofrimentos, 1-18, entrevendo, no entanto, à lembrança das misericórdias divinas, a esperança da salvação, 19-39, a qual, apesar dos pecados do povo, justamente castigado, 40-54, poderá ainda vir sobre Israel e vingá-lo de seus inimigos? 55-56. Ouvir-se-ia então a voz de Jeremias, que sofre não somente os males de todos, mas ainda as perseguições de seus compatriotas. Cf. v. 14. Não seria antes, segundo a opinião de antigos comentadores e de Smend (em Zeitschrift für die A. T. Wissenschaft, 1888, p. 62...), o povo em seu conjunto, mas personificado aqui como em muitas outras passagens do Antigo Testamento (cf. os salmos), que se queixa dos golpes da ira divina, 1-18, mas pensa que Javé quer levá-lo com isso ao arrependimento, condição do perdão, 19-39, e se excita à conversão para desviar o castigo? 40-47. Uma nova queixa do povo, acabrunhado por seus inimigos, 48-54, seguida de uma oração e de uma exortação à confiança, concluem o poema. A essa interpretação, que não carece de verossimilhança, pode-se contudo fazer uma objeção, tirada dos v. 14 e 48, onde aquele que fala se distingue do povo; responde-se a ela substituindo no v. 14 o singular 'ammi pelo plural 'ammîm, como fazem alguns manuscritos, e supondo no v. 48 uma alteração do texto primitivo sob a influência da passagem paralela II, 11. Dever-se-ia antes ver a solução do problema colocado por este capítulo na hipótese de que essa parte do poema foi composta com o auxílio de dois salmos primitivamente independentes, um formado por 1-24, o outro por 52-66, e ligados pelo desenvolvimento 25-51, em que o autor, Jeremias, quereria por seu exemplo levar o povo à penitência? (Löhr). O caráter acróstico de todo o poema exige a unidade e, por conseguinte, a rejeição da hipótese.
C. IV. Este capítulo volta à situação miserável que foi a do povo e dos príncipes sobretudo no tempo do cerco, à pavorosa fome mais mortífera que a espada e à causa de tão terríveis males: as faltas do povo e mais especialmente dos sacerdotes e dos profetas, que se mancharam de sangue puro e inocente. 1-16. Prossegue com uma evocação dos últimos momentos de Jerusalém: a vã espera do socorro egípcio, a tentativa de fuga para o deserto e a captura do rei, 17-20, e termina com uma ameaça a Edom e uma garantia de perdão. 21-22.
O c. V é uma oração em que, sem ordem muito rigorosa, o poeta pede a Javé que considere a vergonha, a desgraça, a injusta perseguição de seu povo e tenha enfim piedade dele. A dificuldade de analisar em detalhe tais poemas deve-se ao próprio gênero, em que o pensamento, para submeter-se à forma, nem sempre pode seguir uma marcha lógica muito rigorosa.
IV. Origem do livro. 1º Segundo a tradição. O nome de Jeremias está intimamente ligado ao das Lamentações nas liturgias da semana santa; não menos que a iconografia, escultura e pintura, concorreram para tornar familiar a nossos olhos o profeta de Anatot sob os traços de um homem de dores, cujos lábios não parecem murmurar senão queixas e cantos de luto. Este dado merece, na verdade, o nome de tradicional. » J. Touzard, L'âme juive au temps des Perses, na Revue biblique, 1916, p. 326. Importa, pois, recolher os testemunhos da tradição e apreciar-lhes o valor.
1. Argumentos externos. Se o livro das Lamentações não tem título no hebraico e não traz nenhuma indicação relativa a seu autor, os Setenta, em contrapartida, mencionem ou não o profeta no título, começam com esta breve introdução: « Aconteceu que, depois que Israel foi reduzido ao cativeiro e Jerusalém ficou deserta, o profeta Jeremias sentou-se chorando; proferiu esta lamentação sobre Jerusalém e disse. » A Vulgata jeronimiana traduziu esse prólogo fazendo-o preceder do título Thrènes, isto é, Lamentações do profeta Jeremias, e acrescentando-lhe estas palavras: a alma cheia de amargura e gemendo. Esse prólogo de nossa Vulgata não parece, contudo, ter pertencido ao texto primitivo, pois antigas testemunhas o ignoram; é da antiga versão latina que, sem dúvida, terá passado à Vulgata. No Targum, encontram-se simplesmente estas palavras: Jeremias, o profeta e sumo sacerdote, disse. No siríaco, nenhuma indicação análoga.
Toda a questão está em saber de onde vem esse texto dos Setenta e, portanto, qual é seu valor. O caráter de tradução de um original hebraico que ele parece bem apresentar fez supor que o texto hebraico primitivo comportava uma notícia semelhante; isso é pouco verossímil, pois seu desaparecimento do texto massorético se torna dificilmente explicável, dada a tendência dos copistas a acrescentar antes que a suprimir. Cf. os títulos dos salmos. Vale mais ver ali um acréscimo dos tradutores gregos, que registra uma tradição sobre a origem das Lamentações, tradição aliás ainda atestada tanto pelo próprio lugar da coletânea, que segue imediatamente os oráculos de Jeremias, quanto pela afirmação do Talmude no tratado Baba Bathra 15a: « Jeremias escreveu seu livro e as Lamentações. »
Anterior a esse mesmo testemunho dos Setenta, do qual seria, segundo alguns, um dos pontos de partida mais importantes, é um texto de II Par., XXXV, 25: « E Jeremias compôs uma lamentação (ou lamentações) sobre Josias, e todos os cantores e cantoras falaram em suas lamentações a respeito de Josias até este dia; disso se fez um costume em Israel, e eis que elas (esses cantos) estão escritas nas Lamentações. » Segundo esse texto, objeto de numerosas discussões, Jeremias teria escrito sobre a morte de Josias uma ou várias lamentações, cujo canto, mantido até o século III aproximadamente, teria se tornado um costume ou uma lei em Israel; mas as Lamentações em que esses cantos foram consignados por escrito são idênticas ao nosso livro canônico das Lamentações? À primeira vista, parece bem que sim; pois, se se tratasse de uma coletânea diferente, composta por Jeremias e gozando de tal notoriedade no tempo do cronista, não se explicaria seu desaparecimento. Assim aliás o entenderam, provavelmente o historiador Josefo, Ant. jud., X, V, 1, e certamente São Jerônimo, o qual, em seu comentário sobre Zacarias XII, 11, exprime-se assim: « Jeremias escreveu Lamentações sobre Josias, que são lidas na Igreja; o livro dos Paralipômenos o atesta. » P. L., t. XXV, col. 1515. Numerosos são os críticos modernos que pensam igualmente que o cronista pretende falar, no que se engana, de nosso livro das Lamentações (Nöldeke, Löhr, Wildeboer, Cornill, Budde, Steuernagel). Ele terá aplicado a Josias certas passagens das Lamentações, tais como II, 6; IV, 20, este último em particular, onde se fala de um rei com tanto amor e respeito que não é possível que se trate do ímpio Sedecias.
Apesar disso, não se poderia identificar o livro canônico das Lamentações com o de que fala o autor dos Paralipômenos, pois nele não se faz nenhuma menção do rei Josias, ao passo que ali só se trata da ruína de Jerusalém e do cativeiro de Judá. Se se deve admitir, como alguns o querem, que as lamentações sobre Josias e as nossas Lamentações teriam feito parte de uma mesma coletânea, a afirmação do cronista não testemunharia mais em favor da opinião tradicional, uma vez que somente as Lamentações sobre Josias seriam obra de Jeremias. A tradição cristã seguiu a tradição judaica dos Setenta, testemunhas Orígenes, em Eusébio, H. E., VI, 25, P. G., t. XX, col. 581; Santo Epifânio, Hær., VIII, P. G., t. XLI, col. 213; São Jerônimo, In Zach., XII, 11, cf. supra. Até o século XVIII essa tradição não variou.
2. Argumentos internos. Em apoio desses testemunhos da tradição, as provas fornecidas pelo estudo do próprio livro não faltam. São, em primeiro lugar, as numerosas e impressionantes semelhanças que oferecem entre si as duas obras atribuídas a Jeremias. Em ambas, a mesma sensibilidade, sempre pronta a comover-se com as desgraças da pátria, encontra, para exalar sua queixa, a mesma riqueza e o mesmo frescor de expressão, em particular cf. os c. XIV e XV de Jeremias. Em ambas reencontra-se a mesma maneira de encarar e julgar a situação: os males da nação têm as mesmas causas, a saber: os pecados do povo, Jer., XIV, 7; XVI, 10-12; XVII, 1-3, e Lam., I, 5, 8, 14, 18; III, 42; IV, 6, 22; V, 7, 16; os dos sacerdotes e dos profetas, Jer., II, 8; V, 31; XIV, 13-16; XXIII, 11-40, e Lam., II, 14; IV, 13-15; a vã confiança nos aliados, Jer., II, 18, 36; XXX, 14; XXXVII, 5-10; e Lam., I, 2, 19; IV, 17. A essa semelhança de pensamentos e de sentimentos acrescenta-se a semelhança de imagens e de vocabulário: Jerusalém é abandonada por seus amantes, Jer., XXX, 14, e Lam., I, 2; sua nudez e sua vergonha foram desveladas, Jer., XIII, 22, 26, e Lam., I, 8-9; as mulheres comem a carne de seus filhos, Jer., XIX, 9, e Lam., II, 20...; cf. Driver, An introduction to the Literature of the Old Testament, Edimburgo, 1898, p. 462. Mesma tendência, enfim, a citar frequentemente o Deuteronômio, Lam., I, 3, e Deut., XXVIII, 65; Lam., I, 5, e Deut., XXVIII, 44; Lam., I, 10, e Deut., XXIII, 3; Lam., II, 8, e Deut., XXVIII, 52; Lam., IV, 11, e Deut., XXXII, 22, e a repetir os mesmos pensamentos e por vezes as mesmas palavras.
« Mas mais ainda que nesses detalhes, as aproximações são impressionantes quando se considera o andamento geral dos dois documentos. A grande profecia parece, de início ao menos, dar a mesma nota, refletir o mesmo matiz, respirar o mesmo espírito que os cinco deliciosos pequenos poemas. » J. Touzard, loc. cit., p. 327-328. Cf. Flöckner, Ueber den Verfasser der Klagelieder, em Theologische Quartalschrift de Tubinga, 1877, p. 187-280; Ermoni, art. Lamentations, em Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. IV, col. 46-47; Cornely, Historica et critica introductio..., t. II b, p. 406-411; Trochon, Jérémie, Lamentations, Paris, 1883, p. 333-339; Kaulen, Einleitung..., Friburgo-em-B., 1884, p. 313; Keil, Commentar über den Prophet Jeremias, p. 548-555; Knabenbauer, In Danielem prophetam, Lamentationes et Baruch, Paris, 1891, p. 367-374.
2º Segundo a crítica moderna. Apesar do conjunto desses argumentos invocados em favor da opinião tradicional, a maioria dos críticos rejeita a autenticidade do livro das Lamentações. Foi somente a partir do século XVIII que a afirmação tradicional foi contestada, mas é sobretudo no século XIX que a questão foi colocada e resolvida pela negativa. Atualmente, pode-se dizer que, fora do catolicismo e de alguns protestantes cada vez mais raros, tem-se geralmente as Lamentações por composições anônimas, devidas a vários autores, escalonadas desde a ruína de Jerusalém até o fim do exílio e mesmo ainda mais tarde. Uma exposição das razões da rejeição da tese tradicional e das conclusões a que chega o estudo crítico do livro permitirá julgá-lo.
1. Crítica dos argumentos da tese tradicional. a) Os testemunhos. O texto dos Paralipômenos não constitui prova em favor da autenticidade das Lamentações; é-lhe mesmo desfavorável, pois, segundo ele, o c. IV, com exclusão de todo o resto, seria obra de Jeremias. Cf. supra. O breve prólogo dos Setenta e da Vulgata está totalmente ausente do hebraico, cujo título reproduz simplesmente a primeira palavra « como » do primeiro poema.
Não será isso uma prova de que uma tradição mais antiga que a dos Setenta ignorava a composição das Lamentações por Jeremias? Outra prova ainda é fornecida pelo próprio lugar da coletânea na IIIª parte da Bíblia hebraica, ao passo que o livro do vidente de Anatot figura entre os « Profetas », na IIª parte, observação tanto mais significativa quanto a composição do livro de Jeremias com o auxílio de elementos muito variados não se opunha de modo algum à inserção desses poemas elegíacos, se tivessem sido realmente tidos como obra do mesmo autor que o conjunto da coletânea profética.
b) Os argumentos internos. O exame aprofundado do próprio livro, longe de ser concludente em favor da solução tradicional, sublinha-lhe ainda mais a inverossimilhança. Se se pôde apontar certo número de expressões semelhantes ou idênticas nas Lamentações e nas profecias de Jeremias, mais numerosas ainda são as palavras das Lamentações desconhecidas do profeta. Sem dúvida, em muitos casos a diversidade de assuntos fornece uma explicação suficiente, mas o emprego, pelo poeta elegíaco, de palavras diferentes para exprimir ideias comuns às duas obras concilia-se dificilmente com a unidade de autor. Cf. Nœgelsbach, Die Klagelieder, Bielefeld, 1868, p. XI-XV; Löhr, em Zeitschrift für die A. T. Wissenschaft, 1894, p. 31-50; Driver, op. cit., p. 463, nota. As afinidades indubitáveis que apresentam entre si o livro de Jeremias e o das Lamentações podem aliás receber outra explicação que não a proposta pelos partidários da opinião tradicional: um discípulo de Jeremias, vários talvez, familiarizados com as obras do profeta, bem puderam fazer passar para seus escritos algo do espírito e das expressões habituais do mestre.
Quanto ao gênero de composição, poemas alfabéticos, não é ele incompatível com o que sabemos por outras vias da maneira de escrever, viva e natural, do profeta, que dificilmente poderia acomodar-se a um gênero tão artificial? Se em tal matéria de gosto é difícil emitir juízos para uma época tão remota, é permitido, contudo, supor, observa Budde, que Jeremias, depois dos acontecimentos da ruína de sua pátria e na medida em que podemos acompanhá-lo pelos c. XXXIX a XLIV de seu livro, não tinha propriamente aquela liberdade e aquela tranquilidade de espírito necessárias a tais efusões líricas. Die Klagelieder, p. 74. Quanto à tradição, consignada na introdução ao c. XXI dos Setenta e separada ao menos por três séculos da época de Jeremias, não seria ela uma simples hipótese, fundada na semelhança de tom entre as Lamentações e os oráculos do filho de Helcias, cf. sobretudo Jer., VIII, 8-IX, e em certas alusões à vida de Jeremias que se julgou encontrar nas Lamentações? Cf. Lam., III, 14, 53-56, e Jer., XX, 7; XXXVIII, 6. Não procede ela, essa tradição, « da necessidade instintiva e geralmente difundida de sair do anonimato, de pôr um nome de autor em toda obra literária ou artística?... Ora, para as Lamentações, quase não havia meio de hesitar. A situação que esses cantos descrevem está claramente delineada: trata-se da catástrofe que pôs fim à existência autônoma do reino de Judá. Um profeta dos maiores foi, todos o sabem, o contemporâneo e a testemunha desse doloroso acontecimento; apresentou-o como um justo castigo dos pecados do povo e flagelou a conduta dos sacerdotes e dos profetas. Ora, as Lamentações adotam a mesma atitude: que há de mais natural do que ver nelas uma obra de Jeremias? Pode-se aliás discernir nesses cinco poemas certas locuções e certas imagens que se encontram igualmente no livro de Jeremias. » Gautier, Introduction à l'Ancien Testament, Lausana, 1914, p. 162-163.
Menos que qualquer outro, contudo, Jeremias estava designado, segundo a observação de outro crítico, para descrever os acontecimentos que marcaram os últimos dias da cidade, pois durante o cerco estava na prisão, Jer., XXXVIII, 28; XXXIX, 19, e não se contava entre os fiéis de Sedecias que o acompanharam em sua tentativa de escapar ao inimigo, Lam., IV, 19. Cf. Jer., XXXIX, 4, e IV Reg., XXV, 4; Budde, Die Klagelieder, Tubinga, 1898, p. 73. Os juízos sobre as pessoas e as coisas, não menos que os procedimentos literários, distinguem nitidamente as Lamentações das profecias de Jeremias. Os oráculos em que os caldeus aparecem como executores dos desígnios de Deus não poderiam ser da mesma mão que os apelos à vingança de Javé sobre eles. Lam., I, 21-22; III, 59-66. Poderia o vidente de Anatot dizer que os profetas da filha de Sião já não recebem visão de Javé, Lam., II, 9, e aquele que havia afirmado que nada havia a esperar da intervenção do Faraó, Jer., XXXVII, 5-10, teria podido escrever: « Do alto de nossas torres, olhávamos para uma nação que não podia salvar-nos »? Lam., IV, 17. O oráculo de maldição contra Sedecias, Jer., XXIV, 8-10, não deixa de tornar bem inverossímeis, da parte do mesmo autor, estas palavras das Lamentações aplicadas a Sedecias: « o sopro de nossas narinas, o ungido de Javé ». IV, 20. Enfim, o profeta que havia proclamado a responsabilidade pessoal: « Cada um morrerá em sua iniquidade », Jer., XXXI, 29-30, como poderia dizer: « Nossos pais pecaram e já não existem; e nós, nós carregamos suas iniquidades »? Lam., V, 7.
Os empréstimos feitos pelas Lamentações a obras mais recentes forneceriam um último argumento contra a autenticidade. Todas elas apresentam, com efeito, algumas semelhanças literárias com salmos, mas sobretudo com os salmos de lamentação; além disso, o c. III lembra, do ponto de vista da composição alfabética, o salmo CXVIII; o c. II não deixa de ter analogia com muitas passagens do livro de Ezequiel; cf. sobretudo Lam., II, 4, e Ez., XXIV, 16, 21, 25; Lam., II, 1, e Ez., VIII, 6, 9, 23; XXI, 34; XXII, 28...; uma expressão muito rara na Bíblia: « Javé cumpriu seu furor », encontra-se em Lam., IV, 11, e em Ez., V, 13; VI, 12; XIII, 15. O poema, enfim, sobre a ruína de Tiro, Ez., XXVII, bem poderia ter sugerido uma composição semelhante sobre a ruína de Jerusalém. Cf. Löhr em Zeitsch. für die A. T. Wiss., 1894, p. 31.
Note-se, contudo, que esse argumento das afinidades literárias, de que alguns se servem para fixar a data dos diferentes capítulos das Lamentações, não parece muito probante aos olhos de todos os críticos. Cf. Driver, op. cit., p. 463, nota. Aliás, os empréstimos a Ezequiel não se oporiam à composição por Jeremias.
2. Origem do livro das Lamentações segundo os críticos. a) Pluralidade de autores. Ao mesmo tempo que a autenticidade, foi também quase igualmente abandonada a unidade de autor. É pelo menos, atualmente, a tendência cada vez mais geral. Não só, observa Budde, uma tal coleção de poemas sobre um mesmo assunto sugere de início a ideia de autores diferentes, mas é fácil estabelecer entre esses poemas agrupamentos. Op. cit., p. 75. Para esse efeito, um dos primeiros argumentos apresentados pelos críticos vem da variação da ordem alfabética. Enquanto no c. I a ordem do alfabeto hebraico é a ordem usual, nos c. II e IV há inversão das letras phé e aïn. Se o fato não se reproduzisse até três vezes, poder-se-ia admitir uma transposição acidental; o sentido, aliás, ao menos nos c. III e IV, exige a disposição atual. Numerosas foram as hipóteses propostas para dar conta dessa particularidade mantendo a unidade de autor. Cf. Ermoni, art. Lamentations, em Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. IV, col. 49; somente a diversidade de autores forneceria uma explicação satisfatória.
Apesar da unidade de assunto nas Lamentações, existe certa diversidade entre os poemas de que se compõem. Se os c. II e IV parecem bem obra de uma testemunha dos acontecimentos dolorosos que descreve, de um dos fiéis de Sedecias que o acompanharam em sua fuga, não é o mesmo nem do c. I, que aparece na dependência de II e IV, e cujo autor, já mais afastado dos acontecimentos, já não vê o lúgubre espetáculo, mas somente as funestas consequências, nem sobretudo do c. III, geralmente considerado o mais recente, pois lhe falta a vivacidade de cores dos outros, ao passo que a arte fictícia do alfabetismo é nele levada ao extremo, como no salmo CXVIII. Quanto ao c. V, a forma poética basta por si só para distingui-lo dos outros poemas; pelo tom geral, aproximar-se-ia dos c. I e III. Steuernagel, op. cit., p. 760-761. Quanto ao número dos autores e ao agrupamento dos poemas, as conclusões, bem se concebe, variam de maneira sensível. De bom grado se atribuem à mesma mão os c. II e IV, ambos da mesma época, muito próxima da ruína de Jerusalém. Mais recentes, mas anteriores ao fim do exílio, os c. I e V, com o c. III, de três autores diferentes, Steuernagel, Löhr, Budde. « É provavelmente necessário, conclui Gautier, admitir cinco autores diferentes. » Op. cit., p. 164.
b) Data e lugar de composição. Na hipótese tradicional, essa questão da data e do lugar de composição das Lamentações é fácil de resolver. Visto que é Jeremias o seu autor, tudo leva a crer que escreveu pouco tempo depois da tomada e da destruição de Jerusalém, em meio às próprias ruínas da cidade; a vivacidade das cores e a angústia da alma que transparece em cada palavra dão a entender que a catástrofe é recente; a fome que grassa tão cruelmente, Lam., I, 11, 19; II, 19, 20; IV, 3-5, está bem em situação nos dias que seguiram imediatamente a destruição da cidade. Na hipótese crítica, as mesmas observações valem igualmente para a composição dos c. II e IV em época muito próxima dos acontecimentos que supõem. Segundo Zac., VII, 3, 5; VIII, 19, desde o tempo do exílio comemoravam-se esses mesmos acontecimentos com dias de luto e de penitência; pode-se supor que nessas circunstâncias eram cantados cantos do gênero dos de nosso livro, e talvez mesmo que nossas Lamentações tenham sido então compostas. Steuernagel, op. cit., p. 759-760. Assim se explicaria a forma acróstica desses cantos, destinada a facilitar-lhes a memorização; mesmas conclusões, a respeito da data desses dois capítulos, 580 a 570 aproximadamente, nos comentários de Löhr e de Budde. Mais recentes, mas ainda anteriores ao fim do exílio, os c. I e V, pois nada indica sequer um começo de restauração das ruínas de 586. Quanto ao c. III, geralmente tido como o mais recente e de muito, faz-se descer até o século IV e mesmo o III (Budde). Façamos uma simples menção da hipótese de Fries, que tenta fazer dos c. III e IV uma obra do tempo dos Macabeus. Zeitsch. für die A. T. Wiss., 1893, p. 110 sq. Sobre a época da constituição da coletânea, não se poderia, por falta de elementos, tentar sequer alguma precisão.
Conclusão. Mesmo entre os críticos, todas essas conclusões sobre a origem das Lamentações não são tidas por definitivamente adquiridas. Driver, por exemplo, reconhecendo embora que os dados do livro não são favoráveis à autenticidade jeremiana, acrescenta que não se poderia pôr em dúvida que as Lamentações sejam obra de um ou de vários contemporâneos; mais de um, com efeito, nesses dias conturbados, deve ter sentido vivamente, como o profeta, os lutos e as desgraças da pátria e, discípulo de Jeremias ou autor familiarizado com suas obras, terá exprimido sua dor e sua fé em acentos que lembram por vezes os dos oráculos do filho de Helcias. Op. cit., p. 464. Muitos argumentos também, invocados em apoio das hipóteses críticas, não deixam de exigir muitas reservas. Foi com justiça notado que, se as Lamentações soam por vezes de modo totalmente diverso das profecias de Jeremias, é que então, depois da ruína de Jerusalém, a situação se tornara totalmente outra; já não é aqui o profeta que fala, tentando por censuras e ameaças deter seu povo na ladeira fatal, é o patriota, cruelmente ferido em seu amor profundo por seu país e pela cidade santa, dando livre curso aos sentimentos que teve de comprimir por tanto tempo até o dia da execução do julgamento. Por outro lado, os caracteres particulares de cada um dos poemas que se oporiam à unidade de autor não são tais que imponham absolutamente semelhante conclusão. Se se notam, por exemplo, os pontos de contato do c. III com os outros, as expressões comuns, cf. Driver, op. cit., 464, o laço lógico que o liga ao capítulo precedente, cuja descrição da miséria geral ele não faz senão reforçar; se se admite, por outro lado, que esse mesmo capítulo, cuja autenticidade é a mais vivamente contestada, « tem algo de elevado e de profundo que lhe pertence em propriedade », Gautier, Introduction..., p. 164, dificilmente nos resignaremos a considerar esse poema como um pastiche sem originalidade, cuja composição seria de dois ou três séculos posterior à dos outros. Notemos enfim que, mesmo segundo as conclusões da maioria dos críticos, permanecemos, com os dois poemas dos c. II e IV, no meio histórico da ruína de Jerusalém, cuja dolorosa impressão testemunhas nos fazem reviver; com os dos c. I e V, são ainda os mesmos acontecimentos com suas funestas consequências e sua repercussão na alma do povo judeu, e assim as Lamentações permanecem documentos de primeiro valor para a história dos últimos dias de Judá e dos primeiros tempos do cativeiro.
Além disso, é justo sublinhar com o Sr. Touzard « uma consequência das diferenças que existem entre essas elegias e as profecias de Jeremias. Ali o sentimento do vidente se trai de maneira muito viva, muito abrupta; resulta daí que, sob essa manifestação espontânea, não temos, por assim dizer, senão uma impressão parcial e, em todo caso, bastante exclusivamente pessoal. Os longos desenvolvimentos das Lamentações, ao contrário, constituem como uma análise do estado de alma produzido pelo espetáculo de tanta desventura e, qualquer que seja a força da personalidade do autor, é impossível que, neste quadro em que ele se aplica, por assim dizer, a não omitir nenhum traço, não faça eco aos sentimentos das almas que o cercam. Por esse motivo, o testemunho das Lamentações tem um alcance mais geral que o do próprio livro das profecias de Jeremias. » L'âme juive au temps des Perses, na Revue biblique, 1916, p. 332.
V. Doutrinas religiosas. Se a descrição das ruínas materiais e morais acumuladas pela tomada de Jerusalém e pela queda de Judá ocupa grande lugar nas Lamentações, se os acentos dolorosos se multiplicam à vista da miséria presente e à lembrança do esplendor passado, se os terríveis flagelos da guerra, do incêndio, da fome, do exílio provocam alternadamente os gritos dilacerantes e os apelos angustiados do poeta, é contudo sob seu aspecto religioso que, em definitivo, todas as coisas são encaradas. Por isso, embora o livro das Lamentações não traga ao nosso conhecimento da religião de Israel no século VI elementos muito novos, sua insistência em certas verdades morais e religiosas no-las faz ver em saliente relevo e ajuda-nos a compreender melhor o papel e a influência do profeta Ezequiel em meio a seus companheiros de cativeiro, cujo estado de alma deve refletir-se muitas vezes nesses poemas.
1. Deus. Para aqueles que permaneceram na Palestina depois da ruína de Jerusalém, como para os que tomaram o caminho do exílio, aparece doravante a verdade dos oráculos de Jeremias e de Ezequiel que anunciavam a catástrofe; a confiança cega outrora concedida às promessas dos falsos profetas não vai dar lugar ao desespero e, portanto, à negação do poder e da fidelidade do Deus de Israel, para chegar finalmente ao abandono e à rejeição de seu culto? Poder-se-ia crê-lo ao ouvir o próprio profeta exclamar que sua força está perdida, assim como sua esperança em Javé, Lam., III, 18, e ao vê-lo terminar sem uma palavra de consolação o sombrio quadro do c. II. Mas não é nada disso. Ele sabe, e o dirá com força e insistência, que o Deus de Israel, longe de ser diminuído pela catástrofe que atingiu seu povo, deu com isso uma nova prova de seu poder e de sua justiça, pois foi ele quem a quis em sua cólera, Lam., I, 12; foi ele quem entregou Judá às mãos de seus inimigos, Lam., I, 14, enviando-os contra Jacó. Lam., I, 17. Não fez senão executar o que havia resolvido, segundo as afirmações repetidas de todo o começo do c. II; apesar dos privilégios de Israel e de Sião, apesar de todas as súplicas, apesar de sua bondade e de sua piedade, Javé afligiu seu povo. Lam., III, 43-45; IV, 11, 16. Se o poder do Deus de Israel não poderia sofrer o menor abalo com o desastre que arruinou seu povo, sua justiça, assim como sua sabedoria, também não saem diminuídas. Javé, verdadeiramente justo, devia castigar os rebeldes, Lam., I, 18; III, 42; verdadeiramente sábio, cumpriu a palavra que havia pronunciado desde os dias antigos. Lam., II, 17. Dessa confissão do poder e da sabedoria divinas vai decorrer, como conclusão lógica, a confissão dos pecados, germe ela própria de esperança e de regeneração.
O pecado. — A verdadeira causa de todos os males, com efeito, é o pecado; pecado de todo o povo em primeiro lugar: a multidão de suas faltas atraiu sobre ele o castigo, Lam., I, 5, e fez dele e da cidade santa uma coisa maculada, Lam., I, 8, pois sua iniquidade é maior que o pecado de Sodoma, Lam., IV, 6; pecado, em seguida e particularmente grave, dos que tinham a missão de guiar e advertir o povo, crime dos sacerdotes e dos profetas que não lhe desvelaram sua iniquidade e que, em lugar da verdade, não lhe fizeram ouvir senão oráculos de mentira e de sedução, Lam., II, 14; IV, 13, mantendo-o em vãs ilusões até a hora da catástrofe, em que o próprio povo, enfim esclarecido, os rejeitou e amaldiçoou, Lam., IV, 13-16; pecado, enfim, dos antepassados, pois não é somente a geração presente que foi prevaricadora; às suas infidelidades acrescentam-se as de seus pais. Lam., V, 7.
O castigo de faltas tão graves e tão numerosas não chegou, contudo, até o aniquilamento do culpado, e isso já é uma graça de Javé, Lam., III, 22, graça que permite esperar outras. Pouco a pouco, da queixa quase desesperada o poeta passa à oração cada vez mais confiante, mas sabe que a primeira condição do perdão, do qual jamais se deve desesperar, Lam., III, 25-26, é a humilde confissão das faltas; que cada um, portanto, se queixe somente de seus pecados, Lam., III, 39, e, tendo examinado e perscrutado seus caminhos, volte a Javé. Lam., III, 40. As misericórdias divinas, com efeito, não estão esgotadas, Lam., III, 22; a vista dos males de que sofre o povo fá-las-á descer do alto dos céus. Lam., III, 49-50.
Então se exercerá a vingança sobre os inimigos de Israel, e por sua vez o castigo os atingirá, Lam., iii, 64, 66; iv, 22; logo virá a salvação para aqueles que Jahvé, apesar de tudo, não esqueceu, pois o seu abandono não poderia ser eterno, e é com um grito de esperança que termina a coletânea das Lamentações: « Faze-nos voltar a ti, Jahvé, e voltaremos; renova os nossos dias como outrora. Pois nos terias rejeitado inteiramente, estarias irritado contra nós sem medida? » v, 22.
O culto. Objeto de uma condenação especial de Jahvé, o culto também desapareceu na tormenta; o Senhor sentiu nojo do seu altar e abominação do seu santuário; por isso os destruiu e fez cessar em Sião solenidades e sábados, rejeitou os sacerdotes como os reis, já não há lei. Lam., ii, 6-9. Essa condenação de um culto que ofendia a Deus porque não era a expressão dos verdadeiros sentimentos daqueles que o ofereciam, o desaparecimento de tudo o que lhe constituía o brilho e que com demasiada frequência fora causa de vãs ilusões entre o povo, tudo isso preparava as almas dos exilados para compreender melhor as lições dos profetas Jeremias e Ezequiel e sobretudo os seus apelos à consciência e à responsabilidade pessoais.
Desta rápida exposição das doutrinas morais e religiosas do livro das Lamentações se depreende a sua perfeita conformidade com os ensinamentos dos profetas e de Jeremias em particular. Nos oráculos deste, como nas Lamentações, as desgraças de Israel recebem uma explicação idêntica: o pecado; e através das mais sombrias perspectivas, na maior angústia, a alma piedosa e confiante volta-se igualmente para Jahvé e não desespera nem da sua salvação nem da salvação da nação. Ao repetir essas queixas e essas confissões, os deportados da Babilônia sobretudo, pois o povo que permaneceu na Palestina não parece ter compreendido a lição dos acontecimentos, podiam por sua vez voltar o olhar para Jahvé e esperar dele, depois da dura e longa provação do cativeiro, um futuro melhor. É em conduzi-los a esse futuro que doravante se empregará toda a atividade do profeta Ezequiel, particularmente em suas profecias de esperança.
I. Principais comentadores. — 1° Católicos. Orígenes, Selecta in Threnos, P. G., t. xiii, col. 606-652, e edit. Klostermann, no Corpus de Berlim, Orígenes, t. iii, 1901, p. 233-278; Teodoreto de Ciro, in Threnos, P. G., t. lxxxi, col. 779-806; S. Efrém, S. Ephræm Syri hymni et sermones, edit. Lamy, Malinas, 1886, t. ii, p. 217-228; Olimpiodoro, Fragmenta in Jer. Lamentationes, P. G., t. xciii, col. 725-761; Rabano Mauro, Expositio super Jerem., P. L., t. cxi, col. 1181-1272; Pascásio Radberto, In Threnos, P. L., t. cxx, col. 1059-1256; Guibert, Tropologiæ in Lament. Jer., P. L., t. clvi, col. 451-458; Ruperto, In Jerem., P. L., t. clxvii, col. 1378-1420; Hugo de São Vítor, In Threnos Jer., P. L., t. clxxv, col. 255-322; Alberto Magno, In Threnos Jer. proph., em Opera omnia, Paris, 1893, t. xviii, p. 243-338; S. Boaventura, Expositio in Lam. Jer. proph., em Opera omnia, Paris, 1867, t. x, 138-206; del Rio, Comm. liter. in Threnos, Lião, 1608; Léo Ad. Schneedorfer, Die Klagelieder des Propheten Jeremia, Praga, 1876; Trochon, Jérémie, Lamentations, Baruch, em La Sainte Bible avec commentaires, Paris, 1878; J. Knabenbauer, Commentarius in Danielem prophetam, Lamentationes et Baruch, em Cursus Scripturæ sacræ, Paris, 1891; Minocchi, Le Lamentazioni di Geremia, Roma, 1897; La Sainte Bible commentée, v; Aug. Cram- Fillion, t. pon, La Sainte Bible traduite en français sur les textes originaux, t. v; Ricciotti, Le Lamentazioni di Geremia, Turim-Roma, 1924. — 2° Não católicos. Entre os comentadores judeus e sobretudo protestantes, numerosos são os que, na esteira das profecias de Jeremias, estudaram as Lamentações; cf. Jérémie de 885; men- ; artigo deste Dicionário, acima, col. cionemos além disso Tarnow, Comm. in Threnos, Rostock, : 1770; 1642; Lessing, Observationes in tristitia Jer., Leipzig, Pareau, Threni Jer. philologice et critice illustrati, Leida, 1790; Koch, Klagelieder des Propheten Jeremias, Mogúncia, 1835; Thenius, Klagelieder, Leipzig, 1855; Naegelsbach, Die Klagelieder, Bielefeld, 1868; Gerlach, Klagelieder Jeremiä, Berlim, 1868; Schönfelder, Die Klagelieder des Jeremias nach rabbinischer Auslegung, Munique, 1887; Œttli, Die Klagelieder, em Kurzgef. Komm., Nördlingen, 1889; Löhr, Die Klagelieder des Jeremia, Gotinga, 1891 e no Handkommentar zum A. T. de Nowack, 1893; Budde, Die Klagelieder, Tubinga,- 1898, no Kurzer Hand-Kommentar zum A. T. de — Marti.
II. Obras a consultar. Numerosos artigos na Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft: de Budde em 1882, p. 1 sq.; 1883, p. 299 sq.; 1891, p. 234 sq. 1892, 261 de Smend, 1888, 62 de Fries, 1893, ; p. sq. ; p. sq. ; p. 110 sq.; de Löhr, 1894, p. 31 sq.; W. R. Smith, art. Lamentations, em Encycl. britannica, 9ª edit.; V. Ermoni, art. Lamentations, em F. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. iv, col. 44-53; J. A. Selbie, art. Lamentations, em Hastings, A Dictionary of the Bible, t. iii, p. 20-23; von Orelli, art. Klagelieder, em Hauck, Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, 3ª edit., t. x, p. 501-508. Entre as obras de introdução ao Antigo Testamento, ver sobretudo R. Cornely, Historica et critica introductio in U. : 1887, 402-411; T. libros sacros, Paris, t. ii, p. S. R. Driver, An introduction to the literature of the Old Testament, Edimburgo, 1898, p. 456-465; Francis E. Gigot, Special introduction to the study of the Old Testament, Nova York, 1906, part. ii, p. 293-302; Carl Steuernagel, Lehrbuch der Einleitung in das A. T., Tubinga, 1912, p. 755-761; Lucien Gautier, Introduction à l'A. T., Lausana, 1914, t. ii, p. 155-164; Vigouroux, Bacuez et Brassac, Manuel biblique. Ancien Testament, Paris, 1920, t. ii b, p. 361-364; J. Touzard, L'âme juive au temps des Perses, na Revue biblique, especialmente 1916, p. 326-332 e 1919, p. 19-23.
A. Clamer.
Autor original: A. Clamer
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