LA METTRIE (JULIANO OFFRAY OU OFFROY DE)

LA METTRIE (JULIANO OFFRAY OU OFFROY DE)

LA METTRIE (Juliano Offray ou Offroy de), médico-filósofo francês, um dos primeiros em data dos filósofos do século xviii e dos materialistas franceses (1709-1751). I. Vida e obras. II. Ideias filosóficas e morais.

I. Vida e obras. Nascido em Saint-Malo, a 25 de dezembro de 1709, de um rico negociante, La Mettrie, depois de brilhantes estudos em Coutances, depois em Caen e em Paris, onde teve por mestres jansenistas (aos 15 anos, teria escrito uma apologia do jansenismo muito apreciada pelo partido), destinado por seu pai ao estado eclesiástico, preferiu a medicina, e seu pai o deixou fazer, persuadido « de que uma boa receita era mais lucrativa do que uma absolvição. » Frederico II, Elogio. Recebido doutor em Reims em 1728, foi, em 1733, a Leiden seguir os cursos de Boerhaave, médico célebre e fervoroso espinosista, cujos tratados médicos empreendia traduzir para o francês. Em 1737, voltou a Saint-Malo; em 1742, dirigiu-se a Paris, onde se tornou médico das Guardas do rei. Tomou assim parte na guerra de Sucessão da Áustria. Ferido no cerco de Friburgo, concluiu de suas observações médicas sobre si mesmo que as funções psíquicas são rigorosamente condicionadas pelo organismo fisiológico e que, em consequência, «a concepção de uma alma independente e diferente do corpo é uma pura quimera ». Expôs essa visão numa Histoire naturelle de l'âme, ouvrage traduit de l'anglais de M. Charp par feu M. H..., impressa em Haia, 1745, e que se tornou o Traité de l'âme em suas Œuvres philosophiques.

Ele havia posto ali alguma moderação, mas a opinião ainda não estava preparada; o livro causou escândalo; La Mettrie teve de deixar seu posto; tornou-se médico inspetor dos hospitais militares dos exércitos. De humor insolente, escreveu então contra os médicos da Faculdade de Paris um livro satírico: La politique du médecin de Machiavel... par le docteur Fum-Ho-Ham, ouvrage traduit sur l'original chinois... première partie qui contient les portraits des plus célèbres médecins de Péking, Amsterdã, in-12, s. d. (1746). Foi um novo escândalo; a 9 de julho de 1746, o Parlamento ordenava que o livro fosse queimado em praça pública. Já suspeito de materialismo, La Mettrie temeu a Bastilha e fugiu para Leiden. Foi ali que, sem deixar de escrever contra os médicos de Paris, publicou, no início de 1748, L'homme-machine, in-12, s. d. a., a mais famosa de suas obras, em que seu materialismo se afirma com audácia e por vezes com licenciosidade. Seja para melhor se ocultar, seja para ser mais lido, seja por simples bravata, dedicava esse livro ao espiritualista e piedosíssimo Haller, que protestou vivamente. Cf. Zimmermann, Leben des Herrn von Haller, Zurique, 1755, p. 226 sq.

O livro fez um barulho imenso sobretudo na Alemanha, onde apareceram várias refutações, entre outras: Frantzen, Widerlegung des L'Homme-machine, Leipzig, 1749; Tralles, De machina et anima humana prorsus a invicem distinctis, commentatio, amantis se libello latere autoris gallico Homo machina inscripto opposita.... « » Leipzig e Breslávia, 1749; Hoffmann, Lettre d'un anonyme pour servir de réfutation au livre intitulé l'Homme-machine, Berlim, 1749. Na Inglaterra apareceu logo uma tradução que atribuía a obra ao marquês d'Argens: Man a machine translated the : of French the marquis d'Argens, Londres, 1749. Em Leiden, todas as crenças se uniram contra ele e os magistrados condenaram o livro a ser queimado e o autor a ser banido. La Mettrie fugiu rapidamente para a corte de Frederico II, aonde o chamava Maupertuis. Membro da Academia de Berlim, leitor do rei, vivia com o monarca na maior familiaridade. Cf. Dieudonné Thiébaut, Mes souvenirs de vingt ans de séjour à Berlin, 5 in-8°, 1804, t. v.

Ali compôs L'Homme-plante, in-12, Potsdam, s. d. (1748), em que, inspirando-se na classificação das plantas que Lineu acabava de dar (1747), desenvolvia a ideia da unidade da criação e do encadeamento contínuo dos seres; Les animaux plus que machines, in-8°, Berlim, 1750; Réflexions philosophiques sur l'origine des animaux, in-4°, Berlim, 1750; e três obras em que se desenvolvem suas concepções morais: o Discours sur le bonheur ou l'Anti-Sénèque, 1748, que servia primitivamente de preliminares a uma tradução feita por La Mettrie do tratado de Sêneca de Vita beata; Le Système d'Épicure, 1750, e L'art de jouir ou l'école de la volupté, 1751. Entediava-se, porém, em Berlim e pedia a Voltaire que o ajudasse a voltar à França, quando morreu de indigestão, a 11 de novembro de 1751, em casa do embaixador da França, Tyrconnel. Frederico II compôs o Elogio de La Mettrie, que foi lido em sessão pública na Academia de Berlim, a 19 de janeiro de 1752, por Dargent, secretário de comandos do rei. Esse Elogio inspirou todos os biógrafos de La Mettrie.

As Œuvres médicales de La Mettrie foram reunidas e publicadas em Berlim, 1755, in-4°. Cf. H. Haeser, Lehrbuch der Geschichte der Medizin, Iena, 1881, t. ii, p. 475-470. Suas Œuvres philosophiques foram igualmente reunidas e publicadas, in-4°, Londres (Berlim), 1751, depois precedidas do Elogio do autor por Frederico II, 2 in-8°, Berlim, 1774; 3 in-12, Amsterdã, 1774; a edição mais completa é a de 3 tomos em 1 vol. in-8°, Berlim (Paris), 1796. Foi publicado na coleção dos chefs-d'œuvre méconnus, L'Homme-machine, suivi de l'Art de jouir, Introdução e nota de Maurice Solowine, in-12, Paris, 1921.

II. Ideias filosóficas e morais. Os contemporâneos de La Mettrie, inclusive aqueles que partilharam suas ideias ou se inspiraram nelas, e o próprio Frederico II, não falam dele com benevolência. Lange, que lhe consagra um capítulo inteiro de sua Histoire du matérialisme, é o primeiro que lhe atribui uma real importância. La Mettrie se inspira em Descartes, Montaigne, Bayle, Hobbes, Locke e Toland e, em tudo, como seus contemporâneos, preocupa-se com a religião, mas para combatê-la. Seu materialismo, contudo, não é positivamente um materialismo cosmológico: em nenhuma parte afirma categoricamente que a matéria é a única realidade, mas um materialismo antropológico. Há uma alma no sentido espiritualista da palavra?

A filosofia nunca pôde nem poderá jamais sustentar senão o pró e o contra, e a revelação, por si só, não pode tampouco resolver a questão: « Se há um Deus, ele é autor da natureza como da revelação; deu-nos uma para explicar a outra e a razão para harmonizá-las. Somente pela natureza se pode descobrir o sentido das palavras do Evangelho... » L'Homme-machine, edit. Solowine, p. 58-59. A observação pelos sentidos deve ser o guia único. Os sentidos, «são os meus filósofos ». Primeiro: « Sem sentidos, sem ideias » e « sem sensações, sem ideias ». A alma separada do corpo por abstração assemelha-se à « matéria considerada sem nenhuma forma; não se pode concebê-la. A alma e o corpo foram feitos juntos, no mesmo instante, e como que de um só golpe de pincel. Quem investiga as propriedades da alma deve, pois, investigar antes aquelas que se manifestam claramente nos corpos. » Traité de l'âme, c. i, exposição da obra. E, por conseguinte, também os médicos que foram filósofos, mas não os filósofos que não foram médicos, têm o direito de falar aqui. L'Homme-machine, p. 60.

Ora, que dizem os sentidos e a experiência? As funções da alma dependem nitidamente dos temperamentos, dos meios, da alimentação, das bebidas, das doenças; os distúrbios mentais são sempre consequência de distúrbios orgânicos. Os infinitamente pequenos do próprio organismo podem desempenhar um papel importante em relação às funções do espírito: « Um nada, uma pequena fibra, uma coisa qualquer que não pode ser descoberta pela anatomia mais sutil, teria feito de Erasmo e de Fontenelle dois idiotas. » Ibid., p. 70; a fisionomia revela o segredo das almas; a anatomia comparada demonstra a perfeita analogia da organização interna do homem e dos animais. O flautista de Vaucanson obedece ao mesmo mecanismo que o seu pato, porém mais complicado; assim também o homem e o animal. O movimento e a faculdade de sentir são, pois, inerentes à matéria; e o pensamento é tão pouco incompatível com a natureza que parece ser dela uma propriedade como... a extensão; concluamos, pois, ousadamente que o homem é uma máquina e que não há no universo senão uma substância diversamente modificada. » Ibid., p. 142.

O homem é assim um conjunto de molas « que todas se movem umas pelas outras, sem que se possa dizer por que ponto do círculo humano a natureza começou. Se essas molas diferem entre si, é apenas por sua sede e por alguns graus de força, e, por conseguinte, a alma não é senão um princípio de movimento ou uma parte natural invisível do cérebro que se pode, sem temer o erro, considerar como a mola principal da máquina... de modo que as outras não seriam senão uma emanação dela. » Ibid., p. 123. Contudo, não digamos que a máquina humana «perece totalmente; disso nada absolutamente sabemos ». A lagarta mais avisada soube alguma vez que se tornaria borboleta? « Assegurar que uma máquina imortal é uma quimera ou um ente de razão é fazer um raciocínio absurdo. Submetamo-nos a uma ignorância invencível da qual depende a nossa felicidade. » Ibid., p. 140.

O mesmo raciocínio quanto a Deus. La Mettrie diz muito provável a existência de um Ser supremo, mas as provas tradicionais do primeiro motor e das causas finais nada provam: há um peso igual de argumentos pró e contra. A questão, aliás, pouco importa. Da existência de Deus não se poderia concluir a necessidade de um culto, e a crença em Deus não traz consigo a moralidade. « Que loucura atormentar-se por aquilo que é impossível conhecer e que não nos tornaria mais felizes ainda que chegássemos a dominá-lo. » Ibid., p. 105. Mas o seu verdadeiro pensamento parece ser antes esta conclusão que atribui a um de seus amigos, « tão franco pirrônico » quanto ele mesmo: O universo jamais será feliz a menos « que seja ateu... A natureza, antes infectada pelo veneno sagrado, retomará os seus direitos. Surdos a qualquer outra voz, os homens seguirão seus pendores individuais, que somente podem conduzir à felicidade pelas veredas atraentes da virtude. » Ibid., p. 111.

A moral de La Mettrie não é senão um epicurismo vulgar, traduzido por vezes em propósitos licenciosos. « A natureza criou-nos unicamente para sermos felizes. » Ibid., p. 103. A felicidade repousa no sentimento do prazer. Nem todas as espécies de prazer e de felicidade têm o mesmo valor, mas todas se reduzem ao prazer sensual e todas têm direitos iguais. A sensibilidade natural é, pois, a fonte primeira e a mais fecunda da nossa felicidade, e a educação, desde que siga a natureza e não se embarace de preconceitos, principalmente da crença na imortalidade da alma, pode ainda contribuir para ela remediando os defeitos do nosso organismo. Não há bem e mal no sentido absoluto da palavra; mas há o interesse público e o interesse privado. Os bons são aqueles que fazem passar o primeiro antes do segundo; nisso consiste a virtude. Ao contrário de Hobbes, La Mettrie não atribui ao Estado o direito de fixar obrigatoriamente o bem assim entendido, mas a cada um. Contudo, pela educação, por um sistema de recompensas, o Estado pode levar os indivíduos a servir o interesse geral, a pôr nisso a sua honra e a encontrar nisso a sua felicidade, ao mesmo tempo que, por um sistema de penas, manterá os maus num temor salutar.

Os maus, como aliás os bons, só agem sob o impulso irresistível de uma educação que os deformou. São doentes mais que culpados; dependem do médico mais que do magistrado, e o Estado que os persegue no interesse da conservação social não deve fazer-lhes mais mal do que esse fim exige. Acusou-se La Mettrie de ter aconselhado o vício e condenado o arrependimento e o remorso. Sem dúvida, no Discours sur le bonheur, Œuvres philosophiques, edit. de Amsterdã, 1774, t. iii, p. 170, ele emite esta teoria: « Se a natureza te fez porco, revolve-te na lama, pois és incapaz de gozar de uma felicidade mais elevada », mas isso não é um conselho; é o enunciado de uma consequência infeliz da necessidade a que o homem está submetido, e ele não escreve em parte alguma uma frase equivalente a esta de Mandeville: « O vício é tão necessário à prosperidade de um Estado quanto a fome à manutenção da vida do homem. »

Citado por Hettner, Literaturgeschichte, t. i, p. 210. É mais exato dizer que La Mettrie condena o arrependimento e o remorso. O remorso lhe parece, com efeito, a consequência frequente de ideias e de sentimentos com que o filósofo não se embaraça, ou seja, da religião. Onde parece justificar-se, é sem razão, pois « o mau não pôde agir de outro modo, e o remorso tem apenas um resultado funesto: perturba a única felicidade de que o mau é capaz, sem fazer bem a ninguém ». Ibid.

D'Holbach, Helvétius, Volney retomarão muitas ideias já expostas por La Mettrie, mas não se pode dizer até que ponto lhe são devedores. A única coisa certa é que essas ideias interessaram vivamente o século XVIII e que La Mettrie contribuiu para formar o seu espírito.

Frederico II, Éloge de la Mettrie, Œuvres complètes, 31 in-8°, Berlim, 1846-1857, edit. Preuss, t. vii, e em La Mettrie, Œuvres philosophiques, edit. de Berlim e de Amsterdã, 1774, t. i; Levot, La Mettrie, em Biographie bretonne. Vannes, 1852-1857, t. ii, p. 124-127; Lange, Geschichte des Materialismus, 2 Solingen, 1866, ; tradução in-8°, e francesa por H. Pommerol, Paris, 1877, part. III, t. i, c. Hettner, Literaturgeschichte des achtzehnten Jahrhun- ; derts : zweiter Theil, Geschichte der französischen Literatur, Brunswick, 1881, p. 386 sq. Karl Rosenkranz, Diderot's Leben und Werke, ; 65 Nérie Qué- Leipzig, 1866, t. ii, p. sq.; prat, La philosophie matérialiste au XVIIIe siècle. Essai sur La Mettrie, sa vie et ses œuvres, Paris, 1873; Picavet, La Mettrie et la critique allemande, Paris, 1889; Vezeaux de Lavergne, Du caractère médical de l'œuvre de La Mettrie, Paris, 1907, e em geral os historiadores franceses e alemães da filosofia no século xviii.

C. Constantin.

Autor original: C. Constantin

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