LAMENNAIS (Félicité de), filósofo e publicista francês (1782-1854). I. Vida. II. Obras (col. 2199). III. Doutrinas (col. 2510).
I. VIDA. I. A formação, 1782-1816. 1° Primeira formação, 1782-1804. Félicité-Robert, dito de La Mennais, e que, a partir de 1827, assinará simplesmente Lamennais, nasceu em Saint-Malo, a 19 de junho de 1782. Seu irmão, Jean-Marie, havia nascido a 8 de setembro de 1780. A mãe deles morreu em 1787, deixando os cinco filhos que lhe restavam aos cuidados de sua irmã. Cf. Chr. Maréchal, La famille de Lamennais sous l'ancien régime et la Révolution, Paris, 1913. Em consequência de toda sorte de circunstâncias, a morte da mãe, os negócios que absorviam o pai, seu caráter indisciplinado e sua saúde a poupar, enfim os tempos agitados que se atravessavam, a formação intelectual, moral e religiosa da criança foi um tanto abandonada ao acaso. Pode-se dizer que Lamennais foi um autodidata. « Entregue a si mesmo e sedento de saber, o jovem Félicité ou Féli, como se dizia por abreviação, leu, trabalhou sem descanso e formou-se sozinho. Era no campo durante os verões, na casa de um tio que tinha uma bela biblioteca;... tudo ali passava, tudo interessava à criança; mas ele apreciava os Essais de morale de Nicole mais que o resto; aos dez anos, havia lido Jean-Jacques, mas sem concluir demasiado contra a religião... Por volta dos doze anos, aprendeu o grego e chegou a sabê-lo bastante bem sem outro socorro que os livros, pois nunca mais voltou a escola alguma. » Sainte-Beuve, Portraits contemporains, Paris, 1888, t. i, p. 209-210. (O artigo é de 1832).
Os primeiros biógrafos de Lamennais afirmam unanimemente que essas leituras imprudentes abalaram a fé da criança e a impediram de fazer a primeira comunhão, na idade ordinária: a tradição parece sólida, e a hipótese de uma « primeira comunhão privada », só a solenidade não tendo podido realizar-se por causa das circunstâncias (em 1793-4), não tem quase chance de prevalecer. Cf. Anatole Feugère, Lamennais avant l' « Essai sur l'indifférence », Paris, 1906, p. 26-27; Ad. Roussel, Lamennais et ses correspondants inconnus, Paris, 1912, p. 9-10. O jovem vai continuar ainda dez anos (1794-1804) essa vida agitada, incerta: estuda línguas com vistas ao comércio, a que seu pai o destina; faz música, esportes; sobretudo lê, sonha, enfada-se. Cf. Feugère, op. cit., c. ii. Teria tido também o seu romance? Sainte-Beuve, em 1832, julgava poder insinuá-lo. A hipótese, já posta em dúvida pelo próprio Sainte-Beuve, é hoje abandonada. Cf. Maréchal, La jeunesse de Lamennais, Paris, 1913, p. 42.
Mas sua fé, que foi feita dela em meio a esses « divertimentos » e a essas depressões melancólicas? Os melhores « menaisianos » reportam-se hoje ao juízo bem informado de Sainte-Beuve: « A idade dos arrebatamentos e das paixões chegou; ele a passou, ao que parece, num estado, não de irreligião (isto é essencial notar), [o parêntese é de Sainte-Beuve], mas de convicção racional sem prática. O cristianismo tornara-se para o fogoso jovem uma opinião muito provável que ele defendia no mundo, que produzia em conversação, mas que não governava mais seu coração nem sua vida. Esse retorno imperfeito só teve lugar, contudo, depois de um primeiro caos e na saída das dúvidas tumultuosas que haviam por um tempo prevalecido. » Op. cit., p. 211.
2° Conversão. Em 1804, Lamennais se converte. Que se deve entender por isso? Trata-se de uma conversão moral, ou intelectual, ou de ambas ao mesmo tempo? Sob quais influências e em quais circunstâncias? Não se pode dar resposta categórica a todas essas perguntas. Ver M. Duine, La Mennais, Paris 1922, p. 9, Mgr Laveille, Jean-Marie de Lamennais, t. i, p. 47. Talvez se encontrassem, em certas páginas do Essai sur l'indifférence e nas duas cartas ao Sr. Morton, de 24 e 26 de maio de 1815, indicações preciosas sobre a natureza da crise atravessada então por Lamennais e sobre os motivos que lhe trouxeram o feliz desenlace, se é verdade que nossa apologética reflete e traduz inevitavelmente nossa própria experiência. O Essai sur l'indifférence tornar-se-ia assim a « história de uma alma ». Ora, quem não descobriria o mal de que sofre a alma de Lamennais, nesta página do tomo II do Essai, Paris, 1829, onde ele analisa tão bem o « mal do século »? « Nossas sociedades modernas... encerram em seu seio uma raça de homens desconhecidos nos séculos precedentes... Esses homens não são irreligiosos; contudo, algo os impede de chegar à religião... Em vão procuram sair de uma dúvida que os fatiga; a certeza lhes foge. Entretanto conhecem as provas da religião; parecem-lhes sólidas, ao menos não tentam opor-lhes coisa alguma... Um instinto vago os impele a procurar sem fim, gostariam que se lhes provassem as próprias provas... » Op. cit., p. 7.
Não é a sua própria psicologia que o autor nos revela aqui? Lamennais é um duvidoso sedento de certeza e de infalibilidade, e a quem a certeza foge sem cessar; não ousa afirmar ou negar por si mesmo, como não ousa tomar uma decisão por si mesmo, como veremos em breve quando se tratar de sua vocação; precisa que outros decidam por ele, e conclui, generalizando seu caso pessoal, que o homem tem necessidade de crer, de obedecer, de submeter-se. Se é verdade que as cartas ao Sr. Morton exprimem os « motivos que determinaram (Lamennais) na escolha de uma religião », pode-se dizer que, desde 1804, Lamennais estava de posse de seu sistema apologético, se não ainda de seu sistema filosófico, que aliás não é senão uma generalização daquele. Cf. Feugère, op. cit., p. 45-53; Maréchal, p. 497-512.
3° Segunda formação, 1804-1815. Da conversão ao sacerdócio (9 de março de 1816), decorrerão ainda doze anos, que se podem chamar, se se quiser, anos de formação, mas que formação! Se Lamennais penetrou nos seminários por ocasião de suas ordenações, não foi ali que recebeu sua formação eclesiástica. O colégio de Saint-Malo, onde o abade Jean ensinava teologia a alguns estudantes, onde Féli entrou em 1804 como professor de matemática; depois La Chênaie, do fim de 1805 ao fim de 1807; Paris, onde os dois irmãos passarão os seis primeiros meses de 1806, entrando em contato com Saint-Sulpice, o Sr. Émery e os Srs.
Duclaux, Teysseyre e Brute, e com a Congregação; enfim, de novo o colégio de Saint-Malo de 1808 a 1810, e de novo o campo de La Chênaie de 1810 a 1814 para escrever a obra sobre La Tradition; eis o quadro e o meio em que Lamennais, sempre submetido à influência de seu irmão, vai preparar-se para o estado eclesiástico. Pois o abade Jean concebeu o projeto de conduzir Féli ao sacerdócio; nem sequer esperará a realização desse projeto para fazer dele seu colaborador.
1. Formação intelectual. Nessa segunda formação, como na primeira, Lamennais devora tudo, mas especialmente as línguas, notadamente o hebraico; a metafísica, sobretudo a de Malebranche; e a sociologia, principalmente com Bonald. Cf. Feugère, op. cit., p. 68, 121, 70. E a teologia, que parte obtém nessa busca febril? Féli parece nunca tê-la estudado metodicamente e de maneira desinteressada em seu conjunto: foi ao mais urgente, às questões de atualidade, isto é, aos dois tratados De vera religione e De Ecclesia, para esboçar uma defesa ou uma demonstração da religião contra os filósofos, e uma apologia da autoridade pontifícia contra os galicanos. Mas a teologia escolástica, por sua própria confissão, ele mal a entreviu. Cf. Réflexions, Œuvres complètes, Paris, 1836-1837, t. vi, p. 108. Pode-se dizer que a formação intelectual de Lamennais estava concluída em 1809, no momento em que apareceram as Réflexions. Encontram-se nelas, com efeito, « as grandes direções do catolicismo menaisiano, ao menos sob forma de primeiros lineamentos... Quer-se fixar o princípio de certeza no método de autoridade; quer-se devolver à metafísica religiosa seu lugar de honra acima das ciências...; identificam-se as boas regras da política e as máximas da religião; exprime-se o horror da indiferença em matéria religiosa...; tende-se a libertar a Igreja da tutela do Estado, e a desembaraçar a educação dos entraves de um monopólio suspeito; enfim, deseja-se reanimar os estudos no clero. » Duine, p. 29.
Acrescentemos que se encontram ainda nas Réflexions os primeiros lineamentos da filosofia, católica e mesmo não « católica », de Lamennais; veja-se, por exemplo, a página 78: « Então foi preciso abraçar em seu conjunto o vasto sistema do cristianismo, e... buscar na própria natureza dos seres a razão das relações que os unem entre si e com um primeiro Ser. E não temo avançar que não há na religião cristã um único mistério que não possa ser assim demonstrado pela razão. » A negação da ordem sobrenatural, a confusão da teologia e da filosofia, que são pontos fundamentais da doutrina de Lamennais, tanto antes da secessão como depois, eis onde é preciso buscar a verdadeira unidade de Lamennais. Sua religião nunca foi a religião de São Tomás, mas somente a do Vigário Saboiano; ele nunca teve a ideia verdadeira do sobrenatural cristão, como o entende a teologia tradicional.
2. Formação espiritual. Não será inútil dizer aqui algumas palavras sobre a formação espiritual de Lamennais, pois é verossímil que ela não tenha sido sem influência sobre a concepção de sua filosofia da autoridade. Quatro sacerdotes se aplicaram a ela: o abade Jean, Teysseyre, Brute e Carron. Ora, todos os quatro, em graus diversos, tinham tendências místicas. Sobre a espiritualidade de Jean-Marie, inspirada principalmente em Boudon, cf. Laveille, op. cit., p. 163. É ainda o mais moderado dos quatro, e lhe acontece recomendar aos codiretores da alma de seu irmão que temperem sua exaltação. Entre os livros que contribuíram também para orientar, para colorir a piedade de Féli, assinalemos a Imitação, sobre a qual « ele compõe um pequeno tratado » durante sua estada de convalescença em La Chênaie, cf. Feugère, op. cit., p. 71-72; o Speculum religiosorum de Louis de Blois, que ele traduz e edita em 1809, sob o título: Le guide spirituel ou le miroir des âmes religieuses; enfim as Lettres spirituelles de Fénelon, onde julga reencontrar seus próprios estados de alma. M. Maréchal, La jeunesse de Lamennais, Paris, 1913, p. 254-78, sublinhou a influência predominante do Guide spirituel naquilo que se chamou a « crise mística » de Lamennais.
Eis, pois, que nosso neófito vai exercitar-se, seguindo seus modelos, na busca das consolações sensíveis, das emoções que lhe farão « sentir » a presença de Deus, que lhe farão encontrar Deus. Em certos momentos, sobretudo em 1809, o « ano místico », em seus retiros preparatórios à recepção da tonsura (16 de março) e das ordens menores (23 de dezembro), julgará tocar o alvo. Sem dúvida não serão « consolações » o que saboreará, mas suas próprias « desolações », dizem-lho ao menos, serão sinais ainda mais seguros e mais distintos da eleição divina. Cf. a carta a Brute de 17 de março de 1809, comparada à carta de Teysseyre de 27 de fevereiro de 1816, em Feugère, p. 108 e 215. No entanto, a consolação da desolação não era o que lhe haviam feito entrever seus livros e seus diretores; a felicidade de sofrer à falta da felicidade de gozar, o « silêncio de Deus », cf. Bremond, L'inquiétude religieuse, Paris, 1909, IIe série, p. 47-85, em vez de sua presença, é, apesar de tudo, uma terrível « decepção », à qual Féli não se resigna de primeira. Em diversas reprises, depois da grande crise de depressão de 1810-11, ele se esforçará de novo para encontrar Deus; chega mesmo a acalentar por algum tempo a ideia de entrar numa ordem contemplativa, para entregar-se exclusivamente aos exercícios que lhe proporcionariam as alegrias místicas, antegozo da felicidade celeste; irá de decepção em decepção, até que enfim reconheça que essa fonte de alegria lhe está irremediavelmente fechada neste mundo.
A última, a decisiva experiência foi tentada pela recepção do sacerdócio e pela celebração da primeira missa; foi um fracasso completo, que nos valeu a famosa carta de 25 de junho de 1816; Lamennais estava enfim desiludido: « Sou e não posso ser doravante senão extraordinariamente infeliz... Tenho trinta e quatro anos decorridos; vi a vida sob todos os seus aspectos, e não saberia doravante ser o ludibriado das ilusões com que ainda tentassem embalar-me... Tudo o que me resta a fazer é arranjar-me o melhor que puder e, se possível, adormecer ao pé do poste onde rebitaram minha corrente... Assim a miragem do « Deus sensível ao coração » está definitivamente dissipada; Lamennais não será um místico, apesar do que se disse; não « sentirá » Deus, malgrado a palavra da Sra. Cottu: Ninguém amou, ninguém sentiu Deus mais « do que ele ». Cf. d'Haussonville, Lettres inédites de L... à la baronne Cottu, p. lxi. Sem dúvida, consolou muitas almas em seus sofrimentos, em seus verdadeiros sofrimentos, comunicando-lhes sua receita de resignação e de esperança; mas duvido que lhes tenha aconselhado experiências que tão mal lhe haviam resultado a ele próprio. Mas vê-se imediatamente como essa tentativa infrutífera de cristianismo místico vai determinar o matiz da fé que Lamennais se esforçará por conquistar, sem talvez jamais consegui-lo. À falta da fé pessoal, adquirida pela demonstração ou pela « experiência » religiosa, resta... a fé dos outros.
4° A vocação. Foi assim que Félicité se encaminhava para o sacerdócio, em condições bem singulares, é preciso reconhecê-lo. Demorou a decidir-se, ou antes, a dizer sim ao que os outros decidiram por ele: foi preciso nada menos que a coalizão e o encarniçamento de seus quatro diretores para vencer suas resistências. Não será inútil pesquisar aqui as razões que mantiveram por tanto tempo longe do altar o pobre Féli; talvez nos permitam compreender melhor como, uns vinte anos mais tarde, saiu de outra crise e deixou o altar e a Igreja, aos quais o haviam « acorrentado » contra a sua vontade.
A história de sua vocação é marcada por três episódios: em 1809 recebeu em Rennes a tonsura (16 de março) e as ordens menores (23 de dezembro); depois das ordens menores, parece ter renunciado ao sacerdócio. Em 1812, « julga-se de novo fixado sobre seu destino; pede para receber o subdiaconato, com a única reserva de que não entrará no clero diocesano. E o bispo lhe responde de maneira cordial. Mas quando chega a hora das ordenações, Féli falta. » Duine, p. 39. Nesse momento, abandona a batina. O terceiro ato do drama começa na Inglaterra, onde Féli se refugiou durante os Cem Dias. O abade Carron lhe arranjou um posto de professor e ganhou sua inteira confiança; Féli não tardou a abrir-se inteiramente a seu novo diretor, e entregou-lhe a sua sorte, como outrora havia feito nas mãos de seu irmão. Depois de um retiro que durou cerca de seis semanas (meados de julho a fins de agosto de 1815), a decisão irrevogável foi pronunciada e Féli submeteu-se. De volta à França com o abade Carron, recebia o subdiaconato em Saint-Sulpice a 23 de dezembro de 1815, o diaconato em Saint-Brieuc a 18 de fevereiro de 1816 e o sacerdócio, « quinze dias depois », a 9 de março, em Vannes. Era preciso andar depressa se se queria chegar a um fim com um homem tão irresoluto como Féli.
Que razões opunha, pois, nosso psicastênico? Féli experimenta escrúpulos, à lembrança de sua vida passada, « toda de crimes », ao espetáculo de sua vida atual, « essa tibieza, essa moleza, esse peso dos sentidos que me cansa e me abate, esse amor-próprio que só se sacrifica pela metade e que renasce sob a própria faca ». (Carta a Brute, 11 de fevereiro de 1809.) Teme o futuro, e particularmente não poder carregar o fardo da castidade. Todos os seus gostos naturais o afastam do sacerdócio, pelo qual só sente « as repugnâncias mais vivas ». Mas é inútil defender-se: seus diretores lhe mostram, pois, no sacerdócio a vontade divina; resignar-se-á a deixar-se arrastar à ordenação como uma vítima « ao sacrifício ». Lamentável abdicação de um ser sem vontade! Mas também que aberração da parte de todos esses diretores místicos, que persuadem ao infeliz de que essa ausência total de gosto pelo sacerdócio, de que essas próprias repugnâncias são precisamente uma marca de escolha! Esquecem que, segundo o ensinamento mais autêntico de Saint-Sulpice, a atração é um dos sinais mais essenciais, mais indispensáveis da vocação ao estado eclesiástico. E quanto às aptidões para o ministério, que constituem o outro indício em que se reconhece a vocação sacerdotal, ainda segundo a doutrina sulpiciana, era indicado pôr a serviço da Igreja um grande escritor, sem dúvida, um gênio especulativo, mas também um desequilibrado, um obcecado, um impulsivo, um duvidoso, em uma palavra um psicastênico incurável?
II. O PERÍODO CATÓLICO, 1816-1834. Com a ordenação, começa para Lamennais um novo período, um período de dezoito anos, de 1816 a 1834, de seu trigésimo quarto ao seu quinquagésimo segundo ano, da primeira missa às Paroles d'un croyant. Abre-se pela agonia dessa primeira missa, lenta, e que provoca em sua fronte um suor frio, cf. Feugère, p. 216, e se encerra por uma afirmação, não ouso dizer uma afetação, da alegria de ter « saído de tudo isso », isto é, do estado eclesiástico. Cf. d'Haussonville, p. lxiii. Qual é, pois, a causa secreta desse sofrimento, desse martírio? Será preciso ver nele apenas a privação das consolações divinas, que esperara do altar cotidiano, e que deviam compensá-lo da ausência de toda felicidade humana, e a irritação contra um compromisso irrevogável, que o impede para sempre de buscar agora no amor humano uma compensação ao « silêncio de Deus »? Mas o horror do sacerdócio e a alegria de ter saído dele não se explicam inteiramente pela privação que lhe impunha o subdiaconato: deve haver, há seguramente outra causa; há um muro de separação entre ele e o sacerdócio, entre ele e o mundo eclesiástico, entre ele e a Igreja; há um equívoco que, por fim, lhe aparecerá claramente, mas que já o perturba obscuramente; guardará silêncio enquanto se operar o trabalho oculto de seu pensamento; um mistério pairará sobre ele e, como nos dias de sua secessão, ninguém poderá gabar-se de saber o que pensa, porque não o terá confiado a ninguém. Cf. Laveille, Un Lamennais inconnu, p. 349, 351.
1° O apologista, 1816-1824. O único remédio para o mal crônico de que Lamennais sofreu toda a vida era o trabalho. Assim, Teysseyre conseguiu decidi-lo a escrever em favor da religião, já que tal parecia ser sua vocação especial, já que fora com essa vista que se deixara conferir o sacerdócio.
Determinou-lhe até o assunto a tratar, forneceu-lhe as notas que havia recolhido, cf. Maréchal, p. 595-633, assediou-o, importunou-o, chegando mesmo a forçá-lo a trabalhar diante de si como um escolar em estudo vigiado; e foi assim que se compôs o primeiro volume do Essai sur l'indifférence en matière de religion, que apareceu por volta de 15 de dezembro de 1817. Abundam os testemunhos sobre o « desgosto » e as « angústias inexprimíveis » que experimentou ao escrever « um mau livro, muito a contragosto ». (Carta a Brute, 15 de maio de 1817). Os contemporâneos não foram de seu parecer: o livro obteve um êxito extraordinário: « Num só dia, o Sr. de La Mennais se viu investido do poder de Bossuet. » Lacordaire, Considérations sur le système philosophique de M. de La Mennais, Paris, 1872, p. 35. Glória, um pouco de dinheiro e, o que valia muito mais para seu coração de sacerdote, conversões: Féli sentiu-se curar.
E, passando de um extremo ao outro, eis nosso duvidoso que sente uma vocação de dirigente: há ali, em sua cabeça, algo que pede para sair; o êxito lhe dá confiança; Deus parece assim investi-lo de uma missão: trata-se de nada menos que renovar a filosofia e a apologética e mesmo a teologia tradicionais, ao mesmo tempo que se prosseguirá a restauração da ordem social cristã da Idade Média, de Gregório VII sobretudo. Ou antes, de que se trata? De reconstituir a « sociedade política com o auxílio da sociedade religiosa, que consiste na união dos espíritos pela obediência ao mesmo poder ». Essai, t. ii, prefácio, p. 37, 8e édition, Paris, 1829. Insistamos neste ponto, pois é capital para compreender as evoluções de Lamennais, para apreender seu verdadeiro papel. Lamennais é antes de tudo um político, um sociólogo, cujas preocupações todas se orientam para as questões de organização social ou política; não sonha tanto com a salvação eterna das almas quanto com a salvação temporal das sociedades, da França em particular. Para designar-lhe um lugar entre os pensadores, é preciso situá-lo entre Rousseau e Bonald de um lado, Auguste Comte do outro. Se a religião agora o interessa, não é tanto porque ela constitui um dever para com Deus, nem mesmo porque somente ela pode dar-nos a felicidade, é sobretudo porque somente ela pode fornecer uma base firme às sociedades humanas, legitimando aos olhos do indivíduo o direito de mandar e o dever de obedecer, sem os quais não há sociedade possível. E para Lamennais, como para Bonald, e contrariamente ao que crê o senso comum, a religião não se define como o conjunto das relações que unem o homem a Deus, mas o conjunto das relações que unem os homens entre si e com Deus. A religião é o único laço social.
E, de uma vez, eis a religião subordinada à política: não terá preço, aos olhos de Lamennais, senão pelos serviços que prestou e que pode e deve ainda prestar à sociedade. Ora, o grande benefício social do cristianismo foi a libertação do gênero humano; o grande benefício que ele espera da restauração da ordem social cristã da Idade Média é uma nova libertação das sociedades humanas, que hoje só repousam sobre a força. A liberdade, a independência do homem a respeito do homem: tal é doravante, e desta vez definitivamente, a ideia diretriz, a aspiração fundamental de toda a vida de Lamennais. Explica-se assim que no dia em que « o democrata-cristão » julgar « constatar que a Santa Sé pactua com o poder » despótico, « e por conseguinte faz o cristianismo faltar à sua missão liberal, sua verdadeira razão de ser a seus olhos », perca sua fé na hierarquia, na Igreja « constituída », para só se apegar à grande unidade da sociedade dos espíritos entre si e com Deus, à humanidade? Cf. Maréchal, La jeunesse de Lamennais, p. 692.
1. A apologética menaisiana. Mas ainda não chegamos lá. Trata-se por ora de restaurar a unidade dos espíritos pela admissão de « crenças » comuns. Ora, como reconduzir ao cristianismo, mais precisamente ao catolicismo, e ao catolicismo integral, incluída a infalibilidade pessoal do papa, os espíritos de 1820? As velhas e mesmo as recentes apologias do cristianismo são ineficazes. Lamennais concede de bom grado, embora em seu foro interno pense o contrário, que em si mesma a antiga apologética é sólida. Cf. carta a J. de Maistre, 2 de janeiro de 1821, citada por Feugère, p. 288; carta a Saint-Victor, 20 de agosto de 1820, Revue des Deux Mondes, 1er novembre 1923, p. 190. Mas constata que ela perdeu todo poder sobre os espíritos formados na escola dos filósofos; mais ainda, faz nascer dúvidas nos crentes e conduz à incredulidade. Lamennais o experimentou por si mesmo durante sua curta preparação teológica: « Li, escreve a Jean, os tratados de que me falas, mas os relerei. São, creio, aqueles em que há menos a aprender, ao menos julgo-o assim por Bailly e pelo Sr. de la Hogue. Essa gente me daria o espírito de contradição. » Citado por Feugère, p. 213.
Mas por que essas apologias são sem ação sobre os espíritos do século XIX, e mesmo ruinosas para a fé? Porque empregam para defender a religião as próprias armas de que seus adversários se servem para destruí-la, a arma do raciocínio; porque aceitam a luta no terreno escolhido pelo adversário, o terreno do individualismo, o terreno dos filósofos herdeiros de Descartes, herdeiros de Lutero. Ora, nesse terreno eles são invencíveis: jamais o raciocínio, a pesquisa solitária, poderá chegar a produzir a verdade religiosa, a certeza; é uma constatação muitas vezes registrada, e a experiência pessoal de Lamennais bastaria para convencê-lo disso sem retorno. Mas qual é a razão profunda de nossa impotência para descobrir sozinhos a verdade religiosa? « O autor da natureza, responde Lamennais, não permite que essa fé solitária seja jamais perfeita e inabalável... E por aí Deus nos chama de volta à sociedade para nela encontrar um ponto de apoio, a segurança e o repouso da alma. » Essai, t. ii, p. 7-8. Temos a chave do mistério. Lamennais a recebeu de Bonald.
Tudo se esclarece se se presta atenção ao caráter social do homem e de tudo o que está no homem, a começar pela inteligência: o indivíduo recebe tudo da sociedade, e particularmente a inteligência, que só nele desperta pelo ouvir da palavra. E essa dependência do indivíduo a respeito da sociedade, da razão individual a respeito da razão geral, não é um fato temporário, como seria a dependência da criança a respeito de sua mãe durante a vida uterina; é, ao contrário, essencial, está na própria natureza, é, pois, permanente: a inteligência só existe a esse preço. « Pela própria natureza das coisas, isolar-se é duvidar. O ser inteligente só se conserva no estado de sociedade. » Essai, t. ii, p. 173-4. Cf. o artigo De l'éducation du peuple, (1818), nos Premiers mélanges, p. 335, t. vi das Œuvres complètes, Paris, 1836-37.
Logo, não há inteligência, verdade, certeza, sem uma perpétua comunhão com a sociedade: essa comunicação permanente da razão individual com a razão geral chama-se fé, que é um ato de vontade pelo qual decidimos ter por verdadeiro, não o que nossa razão individual veria ou julgaria ver como tal, mas o que o gênero humano estima como tal. A fé é a aceitação de nossa dependência a respeito da sociedade, é o ponto de apoio de nossa razão, seu repouso e sua segurança, Securus judicat orbis terrarum. Ora, coisa admirável, o próprio gênero humano depõe em favor da Religião, da religião cristã, da religião católica, pois é tudo um; e eis que os próprios filósofos, se se admite o postulado menaisiano concernente ao critério da verdade, os próprios filósofos tornam-se nossos melhores apologistas. « Na controvérsia com os filósofos, escreve a propósito do t. ii do Essai, tomou-se de tal modo o troco de ambos os lados, que uns deram como objeções as verdadeiras provas do cristianismo (penso tratar-se das semelhanças entre o cristianismo e as outras religiões), e outros como provas o que forma objeções reais. Isso me explica por que tanta gente se tornou incrédula lendo os apologistas, ao passo que outros, e sou do número, foram levados ao cristianismo lendo os filósofos. » Carta a Saint-Victor, 24 de abril de 1822, Revue des Deux Mondes, 15 de novembro de 1923, p. 398.
2. Partidários e adversários. Eis as diretrizes que Lamennais propunha, ou melhor, impunha aos apologistas católicos, à Igreja, por volta de meados de 1820, ao publicar o t. ii do Essai. Desta vez não duvidava do êxito. Mas, desta vez ainda, Lamennais se enganara: o êxito não correspondeu à sua expectativa. À parte a adesão de Bonald, ver artigo no Apêndice à Défense de l'Essai, Paris, 1828, 3e édition, p. 243-59, e a de J. de Maistre, ver uma carta inédita de 21 de setembro de 1820, Duine, p. 86-7, « jovens eclesiásticos, em pequeno número, como Salinis, Gerbet, Rohrbacher, foram quase os únicos a adotar a doutrina menaisiana e a defendê-la ». Boutard, t. i, p. 206.
Salinis ficara entusiasmado com o primeiro volume do Essai, e dele se servira para determinar a conversão do conde de Senfft, embaixador da Baviera em Paris: Lamennais lhe submeteu seu manuscrito do t. ii e o entusiasmo redobrou. « Numa tese pública que sustentou na Sorbonne por essa época, (Salinis) desenvolveu o sistema do senso comum com tão notável lucidez que o mestre quis fazê-la imprimir em seguida à sua Défense. » De Ladoue, Vie de Mgr de Salinis, Paris, 1873, p. 28-29. O entusiasmo de Rohrbacher não foi menor; e Lamennais apressou-se também em fazer inserir no Défenseur a carta do original vigário de Lunéville ao Sr. Laurentie. Cf. Ricard, L'école ménaisienne, Gerbet, Salinis et Rohrbacher, Paris, s. d., 3e édition, p. 320-21. Quanto a Gerbet, cf. t. vi, col. 1297, consagrou à filosofia e à apologética novas duas obras: Des doctrines philosophiques sur la certitude, dans leurs rapports avec les fondements de la théologie (1826), e Coup d'œil sur la controverse chrétienne depuis les premiers siècles jusqu'à nos jours (1831). Na Itália, em Turim notadamente e em Roma, o sistema menaisiano fez também adeptos. Cf. Boutard, t. i, p. 217, e uma carta de Lamennais na Revue des Deux Mondes, 15 de novembro de 1923, p. 396.
A nova filosofia, a nova apologética haviam, pois, encontrado oposição na Igreja; Lamennais deveria esperá-lo: pois, afinal, tratava-se de nada menos que queimar o que se havia adorado e adorar o que se havia queimado. Saint-Sulpice e o Sr. Boyer, os jesuítas e o P. Rozaven, foram os principais centros de resistência. Suas refutações escritas foram por muito tempo retardadas, pois o livro do P. Rozaven, Examen d'un ouvrage intitulé : Des doctrines philosophiques sur la certitude... par l'abbé Gerbet, só apareceu em 1831, e o de Boyer, Examen de la doctrine de M. de la Mennais, em 1834; mas sua oposição nem por isso foi menos ativa. Cf. Dudon, Lamennais et les jésuites, Études, 5 de junho de 1908; Trois lettres inédites de Lamennais au P. Godinot, jésuite, Études, 20 de outubro de 1909.
No início de outubro de 1823, o P. Fortis, geral da Companhia, proibiu que se ensinassem em sua ordem as seguintes proposições: I. Não há outro critério da verdade senão o senso comum. II. Só a fé engendra a certeza. III. A existência de Deus é a primeira verdade que conhecemos. IV. Da existência de um ser contingente não se poderia deduzir a existência de um ser necessário; em outros termos, é fazer um raciocínio vicioso dizer: existo, logo Deus existe. V. A inteligência finita, pelo próprio fato de ser finita, está sempre e em tudo sujeita ao erro. VI. Nas escolas católicas prevaleceram falsos sistemas que conduzem ao ateísmo e à subversão da religião. VII. O homem não poderia estar certo, senão pelo senso comum, nem de sua existência nem de seu pensamento. Cf. Études, 5 de junho de 1908, p. 607. Fortis, entretanto, recusava-se a qualificar com qualquer censura as sete proposições que proibia ensinar na Companhia. Contra a censura, de que seus adversários já falavam em 1820, Lamennais procurara premunir-se. « Eu havia logo, por intermédio do Sr. o conde de Maistre, e mais tarde por intermédio do Sr. Núncio, solicitado em Roma, num espírito de perfeita obediência, o exame de minha obra; ...em seguida a esse pedido, publicou-se ali uma tradução de minha Défense, com a permissão do Mestre do Sacro Palácio e a aprovação de três examinadores que todos se explicaram, nos termos mais favoráveis e mais expressos, sobre os pontos contestados.... » Carta ao P. Godinot, 23 de outubro de 1825, em Études, 20 de outubro de 1909, p. 207. Cf. Boutard, t. i, p. 216, e Apêndice, p. 381-3. « A tradução italiana da Défense (1822) foi examinada pelo doutrinário Glanda, pelo cônego dom Paolo del Signore e por Fra Basilio Tommagian, arcebispo de Durazzo... O terceiro dizia: Tais e tão fortes são as razões pelas quais o autor estabelece sua causa, que me parece doravante claramente demonstrada. » Nota do P. Dudon, Études, 20 de outubro de 1909, p. 207. A Défense de l'Essai havia aparecido em junho de 1821.
No ano seguinte, a nova filosofia se cobria com o patrocínio do P. Buffier, S. J., cf. t. ii, col. 1167-73, de quem se publicava em Avinhão La doctrine du sens commun, ou Traité des premières vérités et de la source de nos jugements,... Ouvrage qui contient le développement primitif du principe de l'autorité générale, adopté par M. l'abbé F. de la Mennais, comme l'unique fondement de la certitude. — Pour servir d'Appendice au t. II de l'Essai... De fato, a nova filosofia só foi reprovada pela Santa Sé em 1831, na encíclica Singulari nos, que condenava as Paroles d'un croyant. Dizia-se ali (cito a tradução dada pelo próprio Lamennais nas Affaires de Rome, Paris, 1836-37, p. 397-99): « Aliás, é muito deplorável ver em que excesso de delírio se precipita a razão humana, quando um homem se deixa prender pelo amor da novidade e, malgrado o aviso do Apóstolo, esforçando-se por ser mais sábio do que convém, confiante demais também em si mesmo, pensa que se deve buscar a verdade fora da Igreja católica... Compreendeis muito bem, veneráveis irmãos, que aqui falamos também desse falaz sistema de filosofia recentemente inventado, e que devemos reprovar totalmente, sistema em que, arrastado por um amor temerário e sem freio das novidades, já não se busca a verdade onde ela certamente está, mas em que, deixando de lado as tradições santas e apostólicas, se introduzem outras doutrinas vãs, fúteis, incertas, que não são aprovadas pela Igreja, e sobre as quais os homens mais vãos pensam falsamente que se possa estabelecer e apoiar a verdade. »
O EQUÍVOCO. Pode-se admirar que Roma tenha tolerado durante catorze anos uma filosofia e uma apologética que eram tudo menos sólidas e capazes de sustentar o edifício da fé: doctrinæ inanes, futiles, incertæque,... quibus veritatem ipsam fulciri ac sustineri vanissimi homines perperam arbitrantur. Supondo que seja preciso crer tudo o que o gênero humano sempre creu e ainda crê, e somente isso, como se poderia chegar a esta conclusão, que é o alvo da apologética: é preciso crer tudo o que crê a Igreja católica? Já que « a religião repousa necessariamente sobre a autoridade, e a verdadeira religião sobre a maior autoridade, » Essai, t. ii, p. 375, para nos conduzir à religião católica será preciso provar-nos que a Igreja, porção do gênero humano, possui contudo uma autoridade maior que o gênero humano. Lamennais se esforçará por isso, mas sem o conseguir. Cf. Lacordaire, Considérations sur le système philosophique de M. de la Mennais, p. 119, do t. vii das Œuvres, Paris, 1872.
Na realidade, o sistema apologético de Lamennais continha um equívoco que talvez ele mesmo percebesse, e que o tempo se encarregaria de pôr em evidência. Havia escrito outrora: « Há no homem uma retidão de espírito, uma lógica natural que não lhe permite afastar-se pela metade da verdade; é preciso que avance na estrada em que uma vez entrou; e o erro só é tão perigoso porque dele se tiram necessariamente, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, todas as consequências. » Réflexions sur l'état de l'Église en France..., em Œuvres complètes, 1836-37, t. vi, p. 10. Essa lei psicológica explica em grande parte a história de Lamennais: se o critério da verdade religiosa é o consentimento geral, para que serve a Igreja? E virá o dia, com efeito, em que a organização do gênero humano em uma Igreja « constituída » não lhe parecerá mais necessária; o gênero humano passava bem sem um poder religioso infalível antes de Jesus Cristo, por que não passaria sem ele no futuro?
O equívoco consistia em identificar, graças à teoria do desenvolvimento tomada de Bonald, o conteúdo da religião do gênero humano e o da religião católica: « Assim os cristãos creem tudo o que cria o gênero humano antes de Jesus Cristo, e o gênero humano cria tudo o que creem os cristãos: pois, encadeando-se as verdades da religião umas às outras e supondo-se mutuamente, estavam todas contidas na primeira revelação, como as verdades que Deus revela aos eleitos no céu estão contidas nas que são aqui embaixo o objeto de sua fé. Conhecem o que criam, assim como nós conhecemos o que era somente crido antes de Jesus Cristo. » (Reconhece-se aqui a famosa distinção menaisiana entre a ordem de fé e a ordem de concepção) Essai, Paris, 1823, t. iii, p. 200-01. Lamennais pretendia, ao menos exteriormente, constituir-se apologista do catolicismo integral: na realidade só defendia sua própria religião, essa religião de que teremos a forma definitiva na Esquisse d'une philosophie, mas cujos princípios já estão formulados no Essai. É uma religião, ou antes, uma metafísica social.
« Quem duvida de que o homem tenha recebido, no momento em que saiu das mãos do Criador, tudo o que lhe era necessário para conservar-se e perpetuar-se como ser inteligente, tanto quanto como ser físico?... Deus não dirá tudo ao homem, mas dir-lhe-á tudo o que é necessário que saiba e que só dele pode aprender. Revela-lhe primeiro seu ser, sem o que o pensamento como a palavra seriam impossíveis (para compreender, se possível, essa metafísica ontologista, ler as p. 218-22, do t. n do Essai); revela-lhe as relações que existem entre ele e Deus, entre ele e seus semelhantes, porque deve viver em sociedade com Deus e com seus semelhantes, e porque só pode mesmo viver nessa sociedade... » Essai, t. ii, p. 226-7. Assim, pois, as relações necessárias que existem entre o homem e Deus, entre o homem e seus semelhantes, e as leis que derivam dessas relações necessárias, lei de obediência a respeito do poder, lei de amor a respeito dos iguais, eis todo o conteúdo da revelação primitiva, da religião; e não há nada mais no cristianismo, que não é senão o « desenvolvimento natural da inteligência ». Ibid., p. 103. Embora revelada, a Religião nada contém, pois, de sobrenatural. Lamennais nem sequer compreende a ideia do sobrenatural. « Toda relação entre os seres deriva de sua natureza: pois, se não derivasse dela, ser-lhes-ia estranha, não seria, pois, uma relação, não seria nada. Logo, as relações entre Deus e o homem derivam da natureza do homem e da de Deus. Essas relações constituem, propriamente falando, a Religião. » Essai, t. ii, p. 252-3. Cf. a carta a Morton, em Maréchal, p. 501.
Que Lamennais tenha tido desde então o sentimento muito nítido de uma oposição irredutível entre seu pensamento e o pensamento da Escola, aceito pela Igreja, temos disso uma prova peremptória nas resoluções de retiro e de silêncio em que declara querer encerrar-se, se sua filosofia e sua apologética forem desaprovadas. É um primeiro esboço do gesto que realizará depois da encíclica Mirari: « Rompo e não me dobro. » Cf. carta a Saint-Victor, 20 de agosto de 1820, em Revue des Deux Mondes, 1er novembre 1923, p. 190. Ver citação análoga em Boutard, p. 209. A Benoît d'Azy, em 13 de maio de 1820, comunica também seu projeto, uma vez terminado o Essai, de « trabalhar em silêncio, longe dos homens e do ruído, em alguma outra obra, que só seria publicada depois de minha morte ». Laveille, p. 100.
2° O político. Para restaurar a sociedade pela religião, não basta ter reformado a filosofia e a apologética, é preciso ainda restabelecer a política sobre suas verdadeiras bases. Aqui ainda Bonald será o inspirador de Lamennais, e, se se quer conhecer a fonte das teorias político-religiosas de nosso sociólogo, basta referir-se à Théorie du pouvoir politique et religieux dans la Société civile. Cf. Maréchal, p. 166-187, e Annales de philosophie chrétienne, agosto, setembro, outubro de 1910. É uma revolução na política que Lamennais vai empreender, como julga ter levado a bom termo uma revolução na filosofia; e essa revolução não consistirá somente em querer restabelecer ou estabelecer a monarquia na Igreja e no Estado contra o galicanismo e a Revolução, mas ainda e sobretudo em deduzir a necessidade dessa forma do poder religioso e político de uma metafísica social toda a priori, das condições gerais da existência da sociedade entre os homens. Bonald, Lamennais, de Maistre preocupam-se muito menos, mesmo quando se trata de decidir o que deve ser a constituição da Igreja, com os fatos históricos que com as necessidades sociais.
1. Contra a democracia, 1824-1829. a) A teoria. Eis o que decreta a sociologia de nossos filósofos católicos. O homem pertence a duas sociedades, « a sociedade religiosa e a sociedade civil. O princípio desta se encontra naquela, porque é preciso remontar mais alto que o homem para descobrir a razão do poder e dos deveres. » De l'éducation du peuple, Premiers mélanges, p. 310. « Há duas autoridades, e essas duas autoridades são infalíveis cada uma em sua ordem. » Essai, t. ii, p. 379. Há uma correspondência natural e necessária entre a religião de um povo e sua constituição política; Bonald o pôs bem em luz pelo exemplo dos diversos regimes políticos que se viram na França de 1789 a 1800: « uma estreita e necessária conexão liga às degradações da sociedade religiosa as degradações da sociedade política: à monarquia de 89 correspondia a religião católica; à democracia real de 91 responde o catolicismo presbiteriano; à democracia de 92, o calvinismo; à anarquia de 93, o ateísmo. » Maréchal, p. 168, resumindo as teorias de Bonald. Cf. Lamennais, Réflexions, Premiers mélanges, p. 73-74; e sobretudo Essai, t. i, p. 312, édition Garnier, 1859: « Assim, um erro fundamental em religião é também um erro fundamental em política, e reciprocamente. »
Ora, esse erro, destruidor do poder na sociedade religiosa e na sociedade política, é a teoria da soberania do povo; e a França de 1824 está envenenada por esse veneno que a matará, se não se conseguir eliminá-lo. A democracia na Igreja, ou o galicanismo, cf. Tradition, p. xcv da Introdução, e a democracia no Estado, ou a monarquia constitucional, cf. o artigo Vingt-un janvier (1823) nos Seconds Mélanges, p. 262, eis o inimigo para Lamennais em 1824. Mas isso ainda é apenas um aspecto, e o menos importante, do pensamento político de Lamennais. O galicanismo é bem outra coisa que o introdutor da democracia na Igreja; é também o furriel do despotismo dos reis. Herdeiro dos teóricos cesaristas da alta e da baixa Idade Média, de Henrique IV da Alemanha a Luís da Baviera, o galicanismo político proclama a independência do poder civil a respeito do poder religioso, ou melhor ainda, confere ao rei direitos de intervenção nas matérias eclesiásticas, o que leva direto às Igrejas nacionais, logo às Igrejas cismáticas. Contra o absolutismo real, nenhum contrapeso, nenhum freio: os súditos não têm senão que obedecer e rezar; absoluto, hereditário e inamissível, o poder pode ser impunemente despótico.
Contra tais conclusões, o instinto de independência e de liberdade de Lamennais se revoltava: isso não devia ser e, para que não fosse, era preciso voltar aos luminosos ensinamentos de Gregório VII. Não, os reis não são absolutos, não são independentes da lei moral, da qual somente o papa é o intérprete autêntico; não, seu poder não é inamissível; como eles só o possuem para o bem, desde que façam o mal, ipso facto o poder lhes é retirado; não, enfim, o poder civil não tem nenhum direito sobre os assuntos eclesiásticos; que ele deixe de pretender proteger a Igreja, porque sua proteção não passa de uma servidão; que cesse esta lamentável situação de um clero assalariado pelo Estado; que o Estado deixe de se imiscuir na educação do povo, que pertence somente à Igreja, no que constitui a parte essencial da educação, a comunicação das crenças sociais, dos sentimentos sociais, dos hábitos de ações sociais.
Assim, o programa político de Lamennais em 1826 anuncia e prepara o do Avenir: estamos muito perto do liberalismo católico. A liberdade dos povos e da Igreja diante dos soberanos temporais, que se recusam a compreender seu papel segundo a concepção cristã, isto é, menaisiana, do poder, cf. o artigo Vingt-un Janvier (1823), Seconds mélanges, p. 260-62, tal é ao mesmo tempo o fim e o meio desse programa político. Uma vez que se recusa a proteção de um Estado que pratica o ateísmo político, que resta senão invocar na prática a liberdade dos cultos e a liberdade de ensino inscritas na Carta? Sirvamo-nos das liberdades que nos são concedidas para conquistar aquelas que nos são recusadas. O objetivo a realizar é uma teocracia à maneira de Gregório VII, o papa sendo o diretor supremo dos reis e indefectível protetor dos povos.
b) A ação. Lamennais empreende sua campanha política em 1821, depois da conclusão dos t. iii e iv do Essai (o t. v nunca foi escrito), e ao voltar de uma viagem a Roma, onde sem dúvida não deixou de expor ao soberano pontífice seu programa de « grandeza romana », Duine, p. 100-101, onde talvez esperou fazer reconhecer sua missão e fazer-se investir da autoridade para cumpri-la. Leão XII não se deixou açambarcar. Cf. Dudon, Lamennais et le Saint-Siège, Paris, 1911, 31-32. O « homem de Estado » nada poupou para propagar suas doutrinas e trabalhar pelo advento da nova cristandade: revista, panfleto, livro, escola, congregação religiosa, tais são os meios postos em ação. A revista chamou-se Mémorial catholique: o primeiro número saiu em janeiro de 1821; foi lançada por Gerbet e Salinis; de Bonald, de Haller, O'Mahony, Gousset, Rohrbacher, Doney, Lacordaire e Guéranger nela escreveram. O livro foi La Religion considérée..., cuja primeira parte saiu em maio de 1825 e a segunda em março de 1826, livro « assustador de talento », no dizer de Frayssinous, que nele não era poupado, em particular por causa de sua tese sobre a inamissibilidade do poder: cf. p. 187-8.
Em 2 de dezembro de 1825, Gerbet escrevia a Salinis: « Envio-lhe anexas quatro observações latinas sobre os artigos, destinadas a serem difundidas entre os clérigos dos seminários. » Ladoue, Mgr Gerbet, sa vie, ses œuvres et l'école ménaisienne, Paris, 1870, t. i, p. 118. O panfleto intitulado In quatuor articulos... aphorismata, ad juniores theologos, auctore F. D. L. M., compreende, em oito páginas, dezoito números e dois corolários a respeito do caso em que o bispo quisesse obrigar os clérigos a subscrever a declaração de 1682: Lamennais não hesita em prescrever a resistência — Melius est obedire Deo quam hominibus. Ao mesmo tempo, prossegue na fundação de uma sociedade que teria por fim estudar e escrever. Tratava-se nada menos que de empreender uma enciclopédia católica, para fazer concorrência à demasiado famosa Encyclopédie do século XVIII. Gerbet, que veio instalar-se na Chênaie em janeiro de 1825, e Rohrbacher, que desembarcou em Paris no mesmo dia em que Lamennais comparecia diante da polícia correcional (22 de abril de 1826), foram os dois primeiros discípulos que se ofereceram ao mestre para realizar os imensos projetos intelectuais e políticos que lhe povoavam o cérebro.
A escola menaisiana estava fundada. Dela saiu uma congregação religiosa, cujo objeto o artigo 15 do primeiro capítulo das constituições precisa assim: « Para lutar com sucesso contra as causas de destruição precedentemente enumeradas, três coisas são necessárias: restabelecer nos espíritos a autoridade da Santa Sé; opor ao vasto sistema de erro fundado sobre o juízo privado um corpo de doutrina fundado sobre o princípio contrário e difundi-lo por escritos de toda espécie, pela educação clerical e laica, pela pregação e por todos os meios que o zelo possa sugerir segundo as circunstâncias; recriar uma ciência católica em harmonia com essa doutrina e que dela decorra inteiramente. » Cf. Dudon, Lamennais fondateur d'ordre, Études, 20 de novembro de 1910, p. 458.
A fundação da Congregação de São Pedro se realizou em setembro de 1828 pela fusão da Sociedade dos padres de Saint-Méen, que Jean-Marie presidia, com aqueles dos discípulos de Féli que se destinavam ao estado eclesiástico ou que chegavam de suas dioceses já revestidos do sacerdócio. O noviciado e a casa de estudos foram estabelecidos em Malestroit, perto de Ploërmel, em janeiro de 1829. Cf. Roussel, Lamennais d'après des documents inédits, Rennes, 1893, 2e édition, t. i, p. 256, O abade Blanc, superior da casa, tinha como colaboradores Rohrbacher e Bornet, o mestre dos noviços. Foi para eles que os dois pensadores da Chênaie, Gerbet e Lamennais, escreveram o plano de estudos intitulado Sommaire d'un système des connaissances humaines, que « tornou-se como o Credo da escola menaisiana ». Boutard, t. ii, p. 80. O Sommaire encontra-se na sequência das peças justificativas acrescentadas ao livro Des progrès de la Révolution, Œuvres complètes, 1836-37, t. ix, p. 301-26. Mas alguns dos discípulos do mestre, seja por incerteza de sua vocação, seja por desejo de servir à Igreja, mas sem se comprometer com as ordens, permaneceram na Chênaie, onde residia também o superior geral da Congregação de São Pedro, « M. Félicité de la Mennais, que não parece ter feito mais votos sob esta constituição do que sob a precedente, e que teria sido promovido a esse « cargo » em segredo. » Relatório do Sr. Le Mené, superior geral da congregação dos Padres de Saint-Méen, ao cardeal prefeito da Congregação dos bispos e regulares (25 de março de 1868), citado por Dudon, Études, 20 nov. 1910, p. 451. Contudo, esses leigos da Chênaie se ligavam à Congregação de São Pedro por um vínculo muito estreito; era uma espécie de ordem terceira; depois de um ano de noviciado, eram chamados a contrair seus primeiros votos. Boutard, t. ii, p. 85, nota.
c) A oposição. Se a filosofia e a apologética menaisianas haviam encontrado certa oposição, notadamente na Companhia de Jesus e na Sociedade dos padres de Saint-Sulpice, Lamennais devia bem esperar uma resistência, e mesmo uma repressão enérgica, da parte do governo e do episcopado, em sua tentativa extravagante de ultramontanismo absoluto. Processado na polícia correcional por provocação à desobediência a uma lei do Estado, o polemista foi condenado, em 22 de abril de 1826, a trinta francos de multa e às custas, ao confisco da obra (La Religion considérée...) e à destruição dos exemplares. Cf. de Guichen, France morale et religieuse à la fin de la Restauration, p. 110-19, Paris, 1912. O episcopado galicano foi levado à resistência pelo ministro dos Assuntos eclesiásticos, Frayssinous. Cf., t. vi, col. 795.
Em 3 de abril de 1826, quatorze arcebispos e bispos, presentes em Paris, redigiram e assinaram por instigação sua uma Declaração, que foi entregue ao rei oito dias depois. O texto em Ladoue, Gerbet, t. i, p. 307-10. Os bispos condenavam « essas censuras pronunciadas sem missão, sem autoridade » contra « máximas recebidas na Igreja da França ». Declaravam permanecer inviolavelmente apegados à doutrina tal como nos transmitiram nossos predecessores no episcopado, sobre os direitos soberanos e sobre sua independência plena e absoluta, na ordem temporal, da autoridade, seja direta, seja indireta, de todo poder eclesiástico ». Em contrapartida, reprovavam, com todos os católicos, aqueles que, sob pretexto de liberdades, não temem atentar contra a primazia de são Pedro e dos pontífices romanos, seus sucessores... A declaração foi enviada pelo ministro dos Assuntos eclesiásticos a todos os bispos da França, para que lhe dessem sua adesão. Apenas três ou quatro prelados recusaram-se a seguir os demais: Guichen, p. 126, nota 1. Lamennais procurava, penso eu, iludir-se, quando contestava, numa carta a Ventura, a sinceridade dessas adesões. Cf. Dudon, Lettres inédites de Lamennais à Ventura (1820), Études, 5 mars 1910, p. 612-3.
Ao mesmo tempo que defendia « os verdadeiros princípios da Igreja galicana » pela declaração do episcopado e por sua intervenção na tribuna da Câmara, Frayssinous mobilizava para a batalha da imprensa seu « concílio doméstico », como o chamava Lamennais, isto é, os três Clausel, o bispo de Chartres, Mons. Clausel de Montels, o abade Clausel de Coussergues, « antigo vigário-geral », e seu irmão mais velho, deputado, conselheiro da Corte de Cassação, o Sr. Boyer, e seu sobrinho, o abade Affre, todos parentes e compatriotas de Mons. d'Hermopolis.
d) O silêncio de Roma. Em Roma, acompanhavam-se com atenção, mas não sem inquietação, essas ásperas disputas do ultramontano excessivo com o governo e o episcopado franceses. Bem se pode pensar que notas eram trocadas a esse respeito entre as duas chancelarias. Mons. Macchi primeiro, depois Mons. Lambruschini, a partir de fevereiro de 1827, da nunciatura de Paris, informavam a corte de Roma sobre as ideias de Lamennais e sobre as tentativas que este fazia para comprometer o papa ou seu representante na controvérsia. Ver, em particular, o despacho de 15 de março de 1826, de Mons. Macchi, em Dudon, Lamennais et le Saint-Siège (1820-1834), p. 45-46, e a pequena memória dirigida em 7 de setembro de 1829 por Mons. Lambruschini ao cardeal Capellari, prefeito da Propaganda (futuro Gregório XVI), ibid., p. 80-83.
Se Leão XII tivesse tido necessidade de ser esclarecido sobre as intenções do reformador da apologética católica e da política religiosa da Igreja, Lamennais teria provido a isso pelo envio de uma Memória, cuja composição o P. Dudon fixa no fim de 1826 ou no início de 1827, cf. Recherches de science religieuse, setembro-outubro de 1910, p. 477, e pela entrega das constituições da congregação de São Pedro, feita por Ventura em 1828 ou 1829. Cf. Lamennais et le Saint-Siège, p. 70. Leão XII teria aprendido ali qual era o estado da sociedade religiosa e política, de onde provinha o mal-estar que a fazia sofrer e quais eram os remédios a aplicar. Todos os males da sociedade contemporânea provêm dos « princípios individualistas e revolucionários do protestantismo ». E Lamennais conclui que « o cuidado de conservar na sociedade as verdades necessárias deve levar o soberano pontífice a condenar uma dupla série de erros que se ligam entre si e comprometem ao mesmo tempo a Igreja e o Estado. » Op. cit., p. 62. E Lamennais elabora um catálogo de dezesseis proposições, que lhe parecem resumir as falsas doutrinas galicanas e liberais. Cf. Recherches..., p. 479-81.
Depois de condenar o erro fundamental que arruinaria a sociedade religiosa e a sociedade política, se prevalecesse, restará ao papa libertar a Igreja do « estado de dependência e de servidão em que ela se encontra agora em relação aos poderes temporais », e renovar os estudos eclesiásticos; seguem-se algumas indicações gerais sobre a apologética tradicionalista, sobre a defesa da Bíblia, pelas « descobertas modernas » e sobre a « regeneração das ciências morais » e da metafísica. (Essas indicações foram textualmente reproduzidas em Progrès de la Révolution, Œuvres complètes, 1836-37, t. ix, p. 104, 195). Lamennais aconselhava o papa a « instituir em Roma uma grande universidade, que, quando sua fama estivesse solidamente estabelecida, atrairia os alunos de todas as partes da Europa ». Assim, sem dúvida, seria assegurada a unidade espiritual do gênero humano, sonho ambicioso de Lamennais e de Comte.
Roma, certamente, não podia ver senão com satisfação a defesa e a propagação das ideias ultramontanas e a refutação do galicanismo eclesiástico. Contudo o papa e o secretário de Estado não estavam sem inquietação quanto ao fundo mesmo do pensamento de Lamennais. Lambruschini repetia que « o abade de La Mennais não é um teólogo sólido. Não conhecendo os clássicos que trataram da matéria, deu demasiado pretexto aos antiultramontanos. » Lamennais et le Saint-Siège, p. 83. Mas, mesmo que estivessem de acordo sobre as doutrinas, Roma e Lamennais estavam nos antípodas quanto aos meios a empregar para fazê-las vencer. Lamennais, impaciente por ver o seu triunfo, declarava que « há momentos que é preciso aproveitar e que não se apresentam de novo. » Carta de 18 de março de 1826, citada em Lamennais et le Saint-Siège, p. 39. Ele teria querido logo uma encíclica condenando os quatro artigos. Mas essa pressa febril, que decorria do temperamento de Lamennais, ele bem sabia que nada era mais oposto à lentidão romana.
Leão XII, que aliás não pretendia receber ordens de ninguém, permanecia portanto fiel aos métodos comprovados da corte de Roma, quando, em 1826, depois da Declaração galicana do episcopado francês, guardava silêncio, cf. Guichen, p. 130-4; e quando, em 1828, depois das célebres ordenanças de junho, relativas às escolas secundárias eclesiásticas, e do protesto unânime do episcopado francês, ver a Memória apresentada ao rei pelos bispos da França... em 1º de agosto de 1828, entre as peças justificativas, nos Progrès, p. 237-58, exortava os bispos da França « a confiar na alta piedade e na sabedoria do rei quanto à execução das ordenanças, e a marchar de acordo com o trono. » Cf. Guichen, p. 293-317.
Mas então como explicar as palavras inquietantes sobre o silêncio de Roma que desde então enchem a correspondência de Lamennais? « Estranha-se (isto é, Lamennais) o silêncio de Roma, escreve ele já em 18 de março de 1826, e ninguém pode saber o que viria a ser esse espanto, se se prolongasse. » Dudon, p. 39. Quer ele insinuar já ou que se retirará da luta e deixará a hierarquia defender-se sozinha? ou que o silêncio da Santa Sé é uma traição a seu dever, que o papa falha em sua missão, que talvez seja preciso encarar outra organização da sociedade espiritual, outro meio de realizar a unidade das inteligências? Tais propósitos dizem muito a quem conhece o resto da aventura, e a quem sabe que, no fundo, Lamennais não via na Igreja « constituída » senão uma fase do cristianismo eterno, que outra fase havia precedido e que uma terceira talvez fosse substituir.
Depois da desaprovação da resistência às ordenanças de junho de 1828, escreve em 2 de outubro de 1828: « Não creio que desde há séculos um escândalo tão grande tenha sido dado; e quão funestas podem ser as suas consequências. Roma, Roma, onde estás? ...Rezai, rezai pela Igreja. Sem dúvida ela não perecerá; sem dúvida Deus, que a protege, é mais forte do que são fracos aqueles que ele encarregou de defendê-la. Mas por que é preciso que sejamos obrigados a repetir isso tantas vezes, tão amargamente! » Boutard, t. ii, p. 15-16. E em maio de 1829: « Este silêncio,... esta aparente neutralidade entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, é uma grande prova para a fé, isso ainda não se tinha visto... A voz que havia dezoito séculos não se calara um momento tornou-se completamente muda. Os povos, espantados, aguçam o ouvido e dizem uns aos outros: O santuário está vazio, nada mais sai dele... Deus estendeu um véu sobre os espíritos, e disse à Potência, como à figueira do Evangelho: Seca-te. » ibid., p. 60.
2. Pela democracia, 1829-1835. a) A teoria. 1 Os prelados franceses de 1829 devem ter ficado singularmente espantados e chocados com o tom e as declarações ameaçadoras do prefácio posto por Lamennais ao livro Des progrès de la Révolution et de la guerre contre l'Église. « Pedimos para a Igreja católica a liberdade prometida pela Carta a todas as religiões... Não é, penso eu, pedir demais, e vinte e cinco milhões de católicos têm bem também o direito de contar-se como alguma coisa, o direito de não achar bom que se faça deles um povo de servos, espécies de hilotas ou de párias. Habituou-se demais a ver neles apenas uma massa inerte, nascida para suportar o jugo que se quiser impor-lhe. O repouso do futuro exige que nos desenganemos a esse respeito. » Œuvres complètes, t. ix, p. viii-ix. E para precisar a ameaça, Lamennais fala da resistência dos católicos belgas.
De 1826 a 1829, de La Religion considérée aos Progrès de la Révolution, o pensamento de Lamennais andou muito caminho. E a Revolução de Julho de 1830 não é feita para detê-lo; ele deu-se conta de que a restauração da monarquia cristã e da teocracia gregoriana era, « nas disposições atuais dos povos, visivelmente impossível. » L'Avenir, 9 de novembro de 1830, p. 181, t. x das Œuvres complètes. [Doravante, salvo aviso em contrário, todas as citações do t. ix serão extraídas do livro Des Progrès, e as do t. x se referirão aos artigos publicados por Lamennais mesmo no jornal L'Avenir.] Das duas peças mestras do sistema, o Rei e o Papa, a primeira é atualmente impossível de encontrar: não há mais monarquia cristã; as doutrinas galicanas « transformaram em despotismo a antiga monarquia cristã. » T. ix, p. 32. E aliás o empreendimento estava condenado a um fracasso certo; pois a história nos ensina que não se remonta o curso do tempo, que o desenvolvimento da humanidade se faz segundo uma lei de progresso à qual seria vão e até criminoso opor-se.
« O fim para o qual tende a sociedade..., é a liberdade religiosa, política e civil, isto é, de um lado a libertação da inteligência mais ou menos escravizada, sob todos os governos modernos, à força bruta do poder, e de outro uma extensão da esfera de atividade pública e particular proporcionada aos desenvolvimentos dessa mesma inteligência, com as garantias necessárias dos direitos resultantes desse novo estado social. » T. x, p. 235. A humanidade entra num novo período de sua história.
O movimento que arrasta os povos para a liberdade « tem seu princípio indestrutível na lei primeira e fundamental, em virtude da qual a humanidade tende a desprender-se progressivamente dos laços da infância, à medida que, a inteligência libertada pelo cristianismo crescendo e desenvolvendo-se, os povos atingem, por assim dizer, a idade adulta. » T. x, p. 317-18. É preciso deter-se em tais fórmulas, que aliás não são isoladas, cf. p. 329: « Este tempo chegou para os povos cristãos; chegará para os outros, chegará para o gênero humano quando, tendo passado inteiramente para o império de Cristo, cuja missão é libertá-lo (sou eu que sublinho), ele tiver sido associado ao seu sacerdócio real. » Assim a liberdade que Cristo trazia ao mundo era a liberdade política; a redenção do gênero humano era a supressão da escravidão antiga e a educação progressiva da inteligência social, à qual corresponde um acréscimo proporcional de liberdade civil! A « essência do cristianismo » é a liberdade! Assim a obra à qual Lamennais dedicou toda a sua vida, a obra em que convida o papa a participar, é uma obra toda política.
Mesmo a fé « posta à parte », isto é, feita abstração de tudo o que não é social e político, feita abstração de seu conteúdo propriamente religioso e dogmático, apeguemo-nos ao cristianismo, ao catolicismo, por « sua secreta afinidade com a natureza humana », pelas felizes consequências que seus dogmas, mesmo incertos, podem produzir nas sociedades humanas. Que luz tais incidentes projetam sobre toda a vida de Lamennais! Cf. Affaires de Rome, p. 206.
L'Avenir publicou seu primeiro número em 16 de outubro de 1830, e anunciou sua suspensão no número de 15 de novembro de 1831, que foi o último. « Os redatores eram os Srs. abade F. de La Mennais, abade Ph. Gerbet, abade Rohrbacher, abade H. Lacordaire, Ch. de Coux, Ad. Bartels, conde Ch. de Montalembert, Daguerre e d'Ault-Duménil. » Mémoire présenté au S. P. Grégoire XVI, em Affaires de Rome, p. 69. Para conhecer o pensamento de Lamennais, é preciso ler particularmente seus artigos de 7 de dezembro de 1830, Des doctrines de L'Avenir, t. x, p. 196-205; de 22 de dezembro de 1830, Le pape, p. 206-211; de 28 de junho de 1831, De l'avenir de la société, p. 315-327; e de 30 de junho de 1831, Ce que sera le catholicisme dans la société nouvelle, p. 338-350.
A tese, pois é bem uma tese que Lamennais pretende fazer triunfar na Igreja, é nitidamente formulada e sistematicamente demonstrada no artigo de 28 de junho: « No que concerne especialmente ao catolicismo, é fácil mostrar: a. que, longe de ter algo a temer da mudança que se opera, ele próprio é o seu princípio motor; b. que essa mudança, necessária ao seu próprio desenvolvimento suspenso há vários séculos, realizará, salvando a Igreja, o que se chamava suas pretensões mais audaciosas e, tal como eram concebidas, as mais exorbitantes; ao mesmo tempo que só ele pode fundar e consolidar a nova ordem social que se prepara. » T. x, p. 325. Em duas palavras, impõe-se uma aliança entre o catolicismo e a liberdade, que precisam um do outro: o catolicismo só pode ser salvo pela liberdade; a liberdade só pode ser fundada pelo catolicismo.
Que a liberdade só pudesse ser fundada pelo catolicismo, era coisa fácil de demonstrar aos liberais sinceros; mas que o catolicismo só pudesse ser salvo pela liberdade, era coisa mais delicada de fazer admitir aos bispos da França e ao papa. Lamennais empenhou-se nisso, mostrando que « a partir principalmente do nascimento do protestantismo, duas causas detiveram a força de expansão do catolicismo: a cisão que se fez entre a ciência e a fé, e o estado de servidão em que a Igreja caiu em relação ao poder político », p. 330. Não se restabelecerá a união da ciência e da fé senão pela livre discussão, senão pela liberdade. A verdade é onipotente... « Cremos firmemente que o desenvolvimento das luzes modernas reconduzirá um dia, não só a França, mas a Europa inteira, à unidade católica, que, mais tarde e por um progresso sucessivo, atraindo a si o resto do gênero humano, o constituirá por uma mesma fé numa mesma sociedade espiritual », p. 150-1.
E quanto à outra causa de fraqueza e de esterilidade, a saber « o estado de servidão em que ela caiu em relação ao poder político », é ainda a liberdade que dele libertará a Igreja. Aliás o sistema atual das relações da Igreja e do Estado, que comporta « uma mistura inevitável dos dois poderes espiritual e temporal », p. 332, é uma sobrevivência retardatária de um estado social hoje superado. Por tempo demasiado os dois domínios, o espiritual e o temporal, foram confundidos: « o rei no Estado, como o pai na família, exercia de fato uma autoridade direta sobre o pensamento e a consciência de seus súditos; e como essa autoridade pertencia radicalmente à Igreja..., seguia-se que a paternidade real, subordinada por sua essência ao poder espiritual da Igreja, devia ser ao mesmo tempo dependente dele e instituída por ele », p. 332-3. Chegou a hora de distinguir, de separar nitidamente os dois domínios, os dois poderes, de dar a Deus o que pertence a Deus, e de conceder a César apenas o que lhe cabe. E a César Lamennais parece fazer uma parte bem pequena.
« É claro... que o governo não exercerá (na sociedade futura) nenhum poder espiritual qualquer, e que o povo inteiro obedecerá, nessa ordem, somente à Igreja e a seu chefe, e lhes obedecerá livremente... A liberdade de pensamento e de consciência constituirá, pela unidade de fé, o reinado de Cristo, não somente como pontífice, mas como rei, uma vez que seu vigário será de fato a única potência temporalmente espiritual então existente e reconhecida.. Fora disso, que restará? uma ordem administrativa essencial e totalmente independente da Igreja. Que autoridade tem ela, com efeito, sobre as propriedades da família, da comuna, da província, bem como sobre tudo o que a isso se refere? Nenhuma. Ela só tem poder para regular os costumes pelos preceitos, e as crenças pelos dogmas revelados », p. 335-365.
Retenhamos esta parte da tese liberal de Lamennais: ela liberta a Igreja do Estado, mas liberta também o Estado da Igreja; o temporal, do espiritual; o cidadão, do filho da Igreja; a política pura, em que se pode pensar e agir livremente, da religião, em que se deve submeter-se à Igreja. Veremos reaparecer essa distinção na crise que se seguirá à encíclica Mirari. Em suma, Lamennais, suprema irrisão, nada mais faz do que retomar em proveito da democracia o primeiro artigo da declaração de 1682!
Em consequência desses princípios, L'Avenir pedia: 1. « a liberdade de consciência ou a liberdade de religião, plena, universal, sem distinção como sem privilégio; e por conseguinte... a total separação da Igreja e do Estado, separação escrita na Carta, e que o Estado e a Igreja devem igualmente desejar... Essa separação necessária, e sem a qual não existiria para os católicos nenhuma liberdade religiosa, implica, de um lado, a supressão do orçamento eclesiástico..., de outro lado, a independência absoluta do clero na ordem espiritual, ficando aliás o sacerdote submetido, como os outros cidadãos, às leis do país e na mesma medida... », p. 199; 2. « a liberdade de ensino, porque ela é de direito natural...; porque sem ela não existe nem liberdade religiosa, nem liberdade de opiniões; enfim porque ela é expressamente estipulada na Carta... », p. 200-201; 3. « a liberdade da imprensa... A imprensa não é a nossos olhos senão uma extensão da palavra... Pode-se abusar dela sem dúvida; quem não o sabe? mas também se abusa da palavra.. Tenhamos fé na verdade..., » p. 202; 4. « a liberdade de associação... porque é ainda um direito natural...; porque ali onde todas as classes, todas as corporações foram dissolvidas, de sorte que só restam indivíduos, nenhuma defesa é possível a nenhum deles, se a lei os isola uns dos outros e não lhes permite unir-se para uma ação comum..., » p. 202; 5. « que se estenda o princípio de eleição, de maneira que penetre até o seio das massas..., » p. 203; 6. « a abolição do sistema funesto da centralização, deplorável e vergonhoso resto do despotismo imperial..., » p. 203-4. Cf. o Acte d'union e a exposição dos princípios que formam « a base de todo governo constitucional que não seja fictício », reproduzido na Censure de Toulouse, p. 121-2, Toulouse, 1835.
Mas essas liberdades é preciso conquistá-las; temos os meios para isso: « Organizemo-nos, pois, legalmente, formemos uma grande confederação que abranja a França inteira, uma vasta sociedade de seguro mútuo, onde cada um encontre a garantia de sua segurança e de seus direitos; que, se forem ameaçados, a via das reclamações seja universal..., » t. x, p. 170. E se as reclamações não surtirem efeito, lembremo-nos de que estamos em democracia, em república de fato, de que o povo é soberano e de que, por conseguinte, cabe a ele fazer e desfazer os reis. Em caso de opressão, de despotismo, a resistência é o mais sagrado dos deveres.
Juntando o exemplo ao preceito, Lamennais funda, no fim de 1830, a Agence générale pour la défense de la liberté religieuse, que, em 9 de maio de 1831, abriu « uma escola gratuita de externos, sem autorização da Universidade, rua des Beaux-Arts, 5, em Paris. » Cf. Boutard, t. ii, p. 189-198; e, no último número de L'Avenir, lança o Acte d'union proposto a todos aqueles que, apesar do assassinato da Polônia, do desmembramento da Bélgica e da conduta dos Governos que se dizem liberais, ainda esperam na liberdade do mundo e querem trabalhar por ela. Tratava-se de « estabelecer, entre os próprios povos, no grau em que isso é possível, um vasto concerto de esforços, para defender, com a liberdade religiosa, todas essas altas e nobres franquias que são a pátria comum dos povos livres. » Preâmbulo, reproduzido na Censure de Toulouse, p. 117.
Lamennais não duvidava de que o papa se poria à frente dessa nova cruzada: por ocasião da morte de Pio VIII, permitia-se indicar ao futuro papa que missão gloriosa lhe estava reservada: « Jamais, desde a época em que se cumpriu a libertação do universo, houve outra mais elevada: pois ela começará para o cristianismo uma era nova... A tarefa do pontificado... será restabelecer o equilíbrio rompido da natureza humana e de suas indestrutíveis leis, operando de novo a união íntima da fé e da ciência (pela filosofia menaisiana), da força e do direito, do poder e da liberdade (pela política menaisiana). » T. x, p. 207-11.
b) A oposição. Gregório XVI, não mais que Leão XII, aceitou receber as diretrizes de um homem que não tinha missão para falar alto na Igreja. Ele respondeu « somente pelo silêncio à declaração solene dos princípios de L'Avenir », redigida por Gerbet e enviada por intermédio do cardeal Weld. Dudon, p. 92. A Declaração de 2 de fevereiro de 1831 é reproduzida em parte na Censure de Toulouse, p. 111-16: continha uma lista de quinze proposições que os redatores de L'Avenir professavam rejeitar, e que « não deixa de ter analogia com a do Memorial confidencial » endereçado outrora a Leão XII. Dudon, Recherches de science religieuse, setembro-outubro de 1910, p. 484.
O núncio Lambruschini, em seu despacho de 1º de dezembro de 1830, cf. Dudon, Lamennais et le Saint-Siège, p. 89-91, exprimia um parecer nitidamente desfavorável sobre as « doutrinas políticas » de L'Avenir. O núncio teria dito a Lamennais que aprovava as « doutrinas teológicas », mas que não aprovava os « princípios políticos » de L'Avenir. Cf. Boutard, t. ii, p. 248. Sem dúvida o núncio ainda não tinha lido ou só tinha lido muito superficialmente o artigo de 30 de junho de 1831, para dizer, se o propósito é autêntico, que aprovava as « doutrinas teológicas » de Lamennais; pois esse artigo contém proposições e uma concepção de conjunto da teologia que não se está habituado a ouvir na Escola. O artigo de 30 de junho ousa declarar que « a ciência católica está... por criar », p. 342, mas anuncia essa criação próxima. Lamennais pôde muito bem desautorizar seu advogado, o Sr. Janvier, no processo de 31 de janeiro de 1831, perante a corte de assises: era verdade que ele havia empreendido o papel de reformador, e que havia quinze anos trabalhava para regenerar o catolicismo e devolver-lhe, sob uma forma nova e com progressos novos, a força e a vida que o haviam abandonado. Cf. Boutard, t. ii, p. 222-3.
O silêncio de Roma não era absoluto, e Lamennais soube logo que estava desautorizado. Ventura, em janeiro de 1831, avisa o fundador de L'Avenir de que « Roma está muito descontente com o jornal.... que um ato público de censura se imporá se L'Avenir não modificar suas ideias, e notadamente no que concerne à soberania do povo e à insurreição contra os reis. » Dudon, Études, 5 de junho de 1910, p. 631. A resposta de Lamennais, ibid., p. 629-631, não tendo satisfeito Ventura, este rompeu com L'Avenir por uma carta de 7 de fevereiro, publicada em La Gazette de France. É ainda de Roma que o cardeal de Rohan, um dos principais adversários das ideias menaisianas, enviava, em abril de 1831, um mandamento muito desfavorável a L'Avenir.
Em Roma, enfim, organizava-se a resistência à « ditadura » do profeta bretão (a palavra, retomada por Duine para o título de seu t. II, já se encontra em Boyer, Examen de la doctrine de M. de la Mennais, p. xxx, Paris, 1834); o cardeal de Rohan levava o P. Rozaven a publicar seu Examen du livre de Gerbet, escrito havia quatro anos; o adversário do senso comum demonstrava, na introdução de seu trabalho, que a doutrina de L'Avenir « sobre as liberdades modernas era inaceitável ». Dudon, p. 95; cf. Études, 5 de junho de 1908, p. 618. Ver a análise do votum de Ventura, no que concerne à organização em Roma do partido antimenaisiano. Dudon, p. 128-129.
Pode-se pensar, nessas condições, que foi sem entusiasmo que Lamennais acolheu a proposta de Lacordaire: « Não podemos terminar assim. É preciso irmos a Roma para justificar nossas intenções, submeter à Santa Sé nossos pensamentos. » Boutard, t. ii, p. 254-55. E sem dúvida fazia ostentação de uma segurança que não estava em sua alma, quando, a Montalembert que objetava: « E se formos condenados? », respondia: « É impossível. » Ai! o « peregrino de Deus e da liberdade » traz em seu coração, neste fim de novembro de 1831, pensamentos e resoluções muito mais alarmantes: podem-se lê-los nessas meditações inquietas que ele intitulou Les maux de l'Église, começadas em Roma, continuadas em Frascati, quando, depois da partida de Lacordaire para a França e de Montalembert para Nápoles, ficara sozinho nas proximidades de seus juízes. Em fórmulas ainda veladas, mas já tão nítidas, distingue o humano e o divino, o acidental e o essencial, o variável e o imutável na Igreja. Ver Affaires de Rome, p. 188.
E não é a agonia de sua alma, quando soar a hora inevitável da condenação, e a revolta feroz que fatalmente a terminará, que Lamennais descreve, sob o véu da alegoria, nesta página estranha? « O maior (perigo para a Igreja) é o que resulta de uma posição tal que ela se encontre em discordância com um estado inevitável da sociedade... Então há luta, uma luta terrível, entre os próprios elementos da natureza humana, e o homem foge de Deus, se é lícito dizer, para não deixar de ser homem... Quanto mais santo em si é o obstáculo que encontra, mais ele se indigna; lança-se contra ele com um furor que excita o contraste entre essa mesma santidade e o que há de divino também na potência interna pela qual se sente dominado. Não é impiedade refletida, querida; mas espanto, angústia, a angústia horrível de um ser que, não podendo compreender essa aparente oposição de Deus a Deus, se perturba em si mesmo, e quebra o altar contra o qual não saberia apoiar com fé o seu coração. Falo das massas... » Ibid., p. 194-5.
c) A condenação. Conhece-se o desfecho do Caso: a Memória de 3 de fevereiro de 1832, examinada sumariamente pelo cardeal Lambruschini, revelou ao antigo núncio o equívoco e a armadilha que ele já havia farejado e denunciado: « Ao pedir que a censura de suas doutrinas incida sobre as matérias teológicas, o abade de La Mennais mostra, por essa mesma limitação, que não tem confiança em que suas doutrinas políticas possam ser aprovadas. » Dudon, p. 153. A carta do cardeal Pacca a Lamennais (25 de fevereiro): « Sua Santidade... não me ocultou contudo, em geral, seu descontentamento, por causa de certas controvérsias e opiniões, ao menos perigosas, e que semearam tão grande divisão entre o clero da França... Ele (o santo padre) pareceu-me disposto a fazer empreender o exame de vossas doutrinas, como pedistes. Mas tal exame... não poderia ser feito tão cedo. Exigirá mesmo longo tempo... Assim podereis voltar para vossa casa com vossos colegas; pois, a seu tempo, far-vos-ão conhecer o resultado do caso... » Id., p. 154-5.
A audiência, a única audiência e a audiência de despedida, foi concedida aos « peregrinos de Deus e da liberdade » em 13 de março, na presença do cardeal de Rohan; o papa « despediu-nos muito graciosamente, anotava Montalembert em seu Journal, sem que lhe escapasse uma só palavra que tivesse a menor relação com a nossa missão e com os destinos da Igreja. » Cf. Lecanuet, Montalembert, Sa jeunesse (1810-1836), p. 286-7, Paris, 1898.
Enfim, o golpe de teatro de Munique. Lamennais havia deixado Roma no mês de julho. Em Munique, os três peregrinos se reencontraram. Lamennais mediu-se com Schelling; os católicos alemães o convidaram « a ler diante de um auditório de elite alguns capítulos de seu Essai d'un système de philosophie catholique. » Boutard, t. ii, p. 326. Um banquete de despedida lhe foi oferecido, em 30 de agosto: perto do fim da refeição, enquanto os convivas escutavam uma melodia nacional, Lamennais, avisado de que o procuravam do lado de fora, saiu discretamente. Era um correio da nunciatura que lhe trazia a encíclica Mirari vos e uma carta explicativa do cardeal Pacca. Tomou rapidamente conhecimento dela e voltou à sala, sem manifestar nenhuma emoção. E até a noite soube guardar uma atitude sorridente e triunfante, para nada deixar adivinhar aos seus anfitriões. De volta à sua casa, com Lacordaire, Montalembert e Rio, deu-lhes leitura da encíclica.
« É a condenação da liberdade e o abandono da nacionalidade polonesa, acrescentou ele; Deus falou, só me resta dizer: Fiat voluntas tua! e servir essas duas causas pela oração, já que ele me proíbe, pelo órgão de seu vigário, de servi-las pela minha pena. » Boutard, t. ii, p. 329-331.
O R. P. Dudon narrou em detalhe a gênese da encíclica de 15 de agosto de 1832: relatório de Lambruschini, destinado a definir o objeto das deliberações que o soberano pontífice pedia à Congregação dos Assuntos eclesiásticos extraordinários; votum dos consultores, tomados fora do Sacro Colégio, em particular do P. Orioli, conventual, do P. Rozaven, jesuíta, e dos dois prelados Soglia e Frezza, este secretário da Congregação dos Assuntos eclesiásticos extraordinários; enfim, em 9 de agosto, sessão da dita congregação, em que os cardeais « ratificaram as conclusões apresentadas por Mons. Frezza, e um projeto de carta apostólica conforme a suas conclusões. Sem que Lamennais fosse nomeado, o documento pontifício condenaria certas doutrinas sobre o direito de revolta e as liberdades modernas e lembraria sobre esse ponto a verdade católica. » Op. cit., p. 172-185.
Eis o que Lamennais soube pela carta explicativa do cardeal Pacca: « Como eu vos havia feito esperar pela carta que recebestes de mim durante vossa estada em Roma, Nosso Santo Padre decidiu fazer examinar maduramente e examinar ele próprio as doutrinas de L'Avenir, como vós e vossos colaboradores haviam instantemente pedido... Na carta encíclica... vereis... as doutrinas que Sua Santidade reprova como contrárias ao ensinamento da Igreja, e aquelas que é preciso seguir, segundo a santa e divina tradição e as máximas constantes da Sé Apostólica. Entre as primeiras, há algumas que foram tratadas e desenvolvidas em L'Avenir, sobre as quais o sucessor de Pedro não podia calar... A encíclica vos ensinará que vosso nome, e os próprios títulos de vossos escritos de onde se tiraram os princípios reprovados, foram inteiramente suprimidos. Mas como amais a verdade, e desejais conhecê-la para segui-la, vou expor-vos francamente e em poucas palavras os pontos principais que, após o exame de L'Avenir, desagradaram mais a Sua Santidade. Eles são estes... O Santo Padre desaprova também e reprova mesmo as doutrinas relativas à liberdade civil e política, as quais, contra vossas intenções sem dúvida, tendem por sua natureza a excitar e a propagar por toda parte o espírito de sedição e de revolta da parte dos súditos contra seus soberanos. Ora, esse espírito está em aberta oposição com os princípios do Evangelho e de nossa santa Igreja, a qual, como bem sabeis, prega igualmente aos povos a obediência e aos soberanos a justiça. As doutrinas de L'Avenir sobre a liberdade dos cultos e a liberdade da imprensa... são igualmente muito repreensíveis, e em oposição com o ensinamento, as máximas e a prática da Igreja... Enfim, o que levou ao cúmulo a amargura do Santo Padre é o ato de união... Sua Santidade reprova tal ato quanto ao fundo e quanto à forma, e ...vereis facilmente que os resultados que ele se destina a produzir podem confundi-lo com outras uniões várias vezes condenadas pela Santa Sé. » A carta terminava com uma exortação à submissão. Affaires, p. 128-133.
d) A crise. De volta à França, « nosso primeiro cuidado, diz Lamennais, foi publicar a declaração seguinte: “Os abaixo-assinados, redatores de L'Avenir..., convencidos, segundo a carta encíclica do soberano pontífice..., de que não poderiam continuar seus trabalhos sem se colocar em oposição com a vontade formal daquele que Deus encarregou de governar sua Igreja, creem ser seu dever, como católicos, declarar que, respeitosamente submissos à suprema autoridade do vigário de Jesus Cristo, saem da liça em que combateram lealmente durante dois anos... Em consequência, 1. L'Avenir, provisoriamente suspenso desde 15 de novembro de 1831, não aparecerá mais; 2. A Agence générale... está dissolvida a partir deste dia... Paris, 10 de setembro de 1832.” » Affaires, p. 131-135. Em 27 de outubro, o cardeal Pacca escrevia a Lamennais: « O Santo Padre tomou conhecimento dela (da declaração), e autorizou-me a dar-vos a conhecer a sua satisfação. » Ibid., p. 135.
A submissão, vê-se, era puramente exterior. Mas a encíclica exigia mais? Já, para tranquilizar-se e sobretudo para tranquilizar as almas timoratas, contestava-se seu caráter dogmático. Lamennais escrevia em 15 de novembro de 1832: « A carta do papa, que não tem nenhum caráter dogmático, que não é, aos olhos de todos os que entendem dessas coisas, senão um ato de governo, podia muito bem impor-me momentaneamente a inação, mas não uma crença; e minha declaração... não implica tampouco senão a cessação dos trabalhos que eu havia começado para a libertação dos católicos na França. » Dudon, p. 220. A Guéranger, em 30 de novembro, escrevia: « Nunca consideramos a encíclica senão como um ato de diplomacia solicitado pelos soberanos para deter a ação católica que os inquietava. Conhecemos bem demais os fatos para nos enganarmos nisso um só instante... » Roussel, Lamennais et ses correspondants inconnus, Paris, 1912, p. 226.
Mas de fato Lamennais via bem, ele, que o papa ensinava uma doutrina, e que, ao ensiná-la, se enganava; portanto que não era infalível, cf. carta a Ventura, 8 de maio de 1833, Études, 5 de junho de 1910, p. 640; portanto que a constituição atual da Igreja não era senão uma dessas formas cambiantes, porque humanas, ainda que providenciais, pelas quais o cristianismo havia passado; e porque era evidente que ela havia falido, era preciso esperar ver o cristianismo revestir uma nova forma. Cf. carta a Montalembert, 1º de janeiro de 1831. Se já não o soubesse por outra via, o papa teria aprendido pela carta de Mons. d'Astros, arcebispo de Toulouse, ao cardeal di Gregorio, de 3 de novembro de 1832, que « na França... os menaisianos em geral pretendem que a encíclica não condena suas doutrinas, uma vez que o Sr. de La Mennais não é nela nomeado (Lamennais havia guardado secreta a carta explicativa de Pacca), que nela se trata menos de dogmas do que de política, e que, em consequência, nada pode impedi-los de continuar a sustentar seus princípios ». Dudon, p. 246.
Em seu breve de 8 de maio de 1833, relativo ao caso da Censure, o papa manifesta sua inquietação sobre a sinceridade da submissão de 10 de setembro! Censure, p. 171; cf. Dudon, p. 200. Lamennais, para dissipar essas inquietações, dirige ao papa, em 4 de agosto de 1833, por intermédio do bispo de Rennes, o que a Censure chama sua segunda declaração. Cf. Affaires, p. 138-140. « Uma vez que se tornaram necessárias novas explicações, ...declaro: primeiramente, que por toda sorte de motivos, mas especialmente porque só ao chefe da Igreja pertence julgar o que lhe pode ser bom e útil, tomei a resolução de permanecer no futuro, em meus escritos e em meus atos, totalmente alheio aos assuntos que lhe dizem respeito; em segundo lugar, que ninguém, graças a Deus, é mais submisso do que eu, no fundo do coração e sem nenhuma reserva, a todas as decisões emanadas ou por emanar da Santa Sé Apostólica, sobre a doutrina da fé e dos costumes, bem como às leis de disciplina promulgadas por sua autoridade soberana... »
O papa, por seu breve ao bispo de Rennes, de 5 de outubro de 1833, deu a conhecer a Lamennais quais eram os fatos novos que o haviam contristado: em particular sua carta a Potter, cf. Censure, p. 166, e o livro do Pèlerin polonais; mas, uma vez que, no fim de sua carta, Lamennais havia pedido que lhe indicassem em que termos poderia exprimir melhor sua submissão, para que Sua Santidade ficasse plenamente satisfeita, o papa sugeria uma fórmula: ut doctrinam scilicet Nostris Encyclicis Litteris traditam... se unice et absolute sequi confirmet, nihilque ab illa alienum se aut scripturum esse aut probaturum. Cf. Censure, p. 176-81.
Como não ver, naquilo que se exigia de mim, explica Lamennais, nos Affaires de Rome, p. 142-143, um fim político muito mais que religioso?... « Podia-se enganar sobre a intenção de Roma? Não era claro que a obediência cuja promessa ela exigia se estendia, em sua vaga generalidade, às coisas temporais ao menos tanto quanto às coisas espirituais? Tal compromisso repugnava soberanamente à minha consciência. Se a profissão do catolicismo implicasse o princípio dele, eu nunca teria sido católico, pois nunca o admiti, nunca teria podido admiti-lo. » Tomou, pois, da pena para delimitar ao papa o domínio em que consentia em obedecer-lhe e o domínio em que pretendia ser livre.
Esta foi a terceira declaração (5 de novembro de 1833). « Contendo a encíclica de Vossa Santidade coisas de natureza diversa, umas de doutrina, outras de governo, declaro: 1. que, enquanto ela proclama... a tradição apostólica... a ela adiro unicamente e absolutamente, reconhecendo-me obrigado, como todo católico, a nada calar ou aprovar que lhe seja contrário; 2. que, enquanto ela decide e regula diferentes pontos de administração e de disciplina eclesiástica, a ela estou igualmente submetido sem reserva. Mas minha consciência me faz um dever de declarar ao mesmo tempo que, segundo minha firme persuasão, se, na ordem religiosa, o cristão só sabe escutar e obedecer, permanece, em relação ao poder espiritual, inteiramente livre de suas opiniões, de suas palavras e de seus atos, na ordem puramente temporal. » Affaires, p. 143-144.
Uma carta do cardeal Pacca, de 28 de novembro, informou-o de que o papa desaprovava sua última declaração e exortou-o a dirigir em breve ao papa « uma declaração digna de vós..., que possa enfim satisfazer inteiramente seus votos justos e tão apostólicos. » Affaires, p. 151-156. A desaprovação do papa só podia incidir, aos olhos de Lamennais, sobre a última parte de sua declaração, sobre a distinção, capital segundo ele e católica, da ordem religiosa, em que o cristão está obrigado à obediência, e da ordem puramente temporal, em que permanece inteiramente livre. Justamente ele acabava de ter a esse respeito várias conferências com Mons. de Quélen, das quais saíram uma Memória, cf. Affaires, p. 147-153, e uma Carta ao papa, cf. Dudon, p. 418-419.
Lamennais explicou a Montalembert o que se passou então em sua alma quando se viu constrangido a dar uma « adesão ilimitada, absoluta, ...a um ato que, por confissão de todo o mundo, não tem nenhum caráter dogmático, que não exprime nenhuma doutrina nítida, precisa, à qual a fé possa apegar-se, que, além disso, encerra muitas coisas não suscetíveis, por sua natureza, de serem objetos de fé, enquanto ademais se rejeitava uma cláusula enunciativa de um ponto de tradição constantemente proclamado na Igreja »; essa adesão « implicava o reconhecimento da infalibilidade individual do papa, o que quer que dissesse e em qualquer ordem que fosse, isto é, a real deificação desse mesmo papa... As reflexões que essa posição estranha me sugeriu conduziram-me a dúvidas muito grandes sobre vários pontos do catolicismo... Então, deixando de lado a questão de verdade que me havia preocupado até esse momento, não vi mais nesse triste caso senão uma questão de paz a todo preço, e resolvi-me a assinar não somente o que me pediam, mas ainda, sem exceção, tudo o que quisessem, fosse mesmo a declaração de que o papa é Deus... Mas, ao mesmo tempo, decidi-me a cessar doravante toda função sacerdotal, o que fiz. » Lettres inédites de Lamennais à Montalembert, p. 230-231. Paris, 1898.
Esta foi a quarta e última declaração (11 de dezembro de 1833): era redigida em latim e concebida unicamente nos termos do breve dirigido em 5 de outubro ao Sr. bispo de Rennes. « Ego infra scriptus... doctrinam encyclicis ejusdem pontificis litteris traditam me unice et absolute sequi confirmo, nihilque ab illa alienum me aut scripturum esse aut probaturum. » Cf. Censure, p. 188. Dois dias depois, ao informá-lo desse passo, Lamennais anunciava a Montalembert que renunciava a tudo, sem exceção, o que havia preenchido sua vida anterior e que tentaria, ainda que bem tarde, começar uma nova, mas que não queria associar ninguém a seus destinos futuros, quaisquer que fossem. Lettres inédites..., p. 227-228.
III. O PERÍODO NÃO CATÓLICO (1834-1854). — Essa decisão era irrevogável e todas as tentativas, Deus sabe se foram multiplicadas! feitas para abalá-la, mesmo nos últimos dias, ficaram sem resultado.
Lamennais, aliás, acredita não ter mudado tanto quanto se imagina: « A mudança que se operou em mim é totalmente diferente do que vós figurais. Minhas ideias, sempre as mesmas quanto ao fundo, foram retificadas, ampliadas, desenvolvidas, e é só isso. » À baronesa Cottu, 1º de junho de 1837, p. 191. Dizia a verdade: suas ideias não haviam mudado; sua filosofia religiosa, seu cristianismo identificado com a religião, isto é, com as relações que resultam necessariamente da natureza de Deus e do homem, seu cristianismo mais recente, cuja essência consiste na libertação espiritual e temporal do gênero humano, tudo isso não havia mudado e não mudará. O que mudou, o que caiu irremediavelmente, foi a confiança que depositara no papa, na hierarquia, em virtude de uma teoria metafísica da sociedade, para a realização da unidade da sociedade espiritual. Ainda sonha; sonhará sempre em refazer a unidade espiritual do gênero humano, e pelo cristianismo, porque « nenhuma filosofia, nenhuma religião teve, antes do cristianismo, tão visivelmente por objeto reconstituir o gênero humano na unidade. » Affaires, p. 177. Mas a unidade não pode resultar de uma submissão forçada a uma autoridade opressora das consciências. O despotismo deve ceder lugar à liberdade na Igreja tanto quanto no Estado. Mas como Deus procederá para operar essa grande reforma em sua Igreja, que forma nova sairá da crisálida que se resseca? Lamennais não se arrisca, por ora, a predizê-lo, porque estamos aqui numa ordem de « coisas que dependem de leis particulares, numa ordem sobrenatural dirigida imediatamente pelas vontades de Deus suscitadas para nós. » Citado por Dudon, p. 373. Todavia não hesita em profetizar que os tempos se cumpriram: « Este papa encerra uma época. » A Montalembert, 5 de agosto de 1834, p. 319.
Os povos, mesmo os povos católicos, não prestaram nenhuma atenção à encíclica Mirari e, sem se inquietar com os anátemas do papa contra a liberdade, belgas, irlandeses, poloneses, espanhóis lutam contra seus opressores. O gênero humano de um lado, Roma do outro: a escolha se impõe segundo o critério da razão: Securus judicat orbis terrarum. Mas, em geral, no seio do próprio catolicismo que se crê o mais ortodoxo, Lamennais descobre uma crise da autoridade. « Quanto a mim, em minhas numerosas relações, não encontrei dois católicos que, nas questões mais graves, cressem exatamente a mesma coisa. Não os censuro por isso, pelo contrário, pois, usando da razão que receberam de Deus, com a liberdade inseparável da própria razão, estão na ordem, na ordem eterna; mas vejo aí um sintoma impressionante do futuro que se prepara. » Carta ao abade Thomas, 26 de abril de 1853, Revue latine, 1908, p. 187-188. À espera das transformações inevitáveis e próximas, não nos separemos voluntariamente da Igreja, da velha sociedade espiritual, da « Igreja imperecível, cuja vida, mesmo terrena, não está presa a uma forma única... Permaneçamos firmes e inabaláveis na grande unidade. » A Rio, novembro de 1833, em Feugère, (?) p. 347-348. O mesmo a de Coux, 21 de maio de 1834, em Duine, p. 187; a Montalembert, 19 de outubro de 1833, p. 202; ver a curiosa página « inédita » publicada por Duine a este respeito, 183-184.
A Larminier, que o empurrava a sair da Igreja, Boutard, t. III, p. 119-120, Lamennais respondia: « Não rompi com a Igreja, não imitei Lutero e não o imitarei, persuadido de que os cismas só fazem mal... Fora do catolicismo, expressão mais completa das tradições do gênero humano, naquilo que não é a ciência, não vejo nada que se assemelhe a uma religião. Permaneço, pois, católico para permanecer religioso, para conservar, no que depende de mim, esse elemento imperecível da natureza humana; mas ao mesmo tempo não me associo ao sistema político dos chefes do catolicismo, combato-os, ao contrário, com todo o meu poder, porque tenho também deveres rigorosos para com a humanidade e porque não reconheço a causa de Deus na da ignorância. » 9 de setembro de 1831, em Feugère, p. 363. « Síntese das religiões anteriores, o catolicismo, cujo papel foi magnífico, perdeu-se por sua noção de uma ordem sobrenatural, que devia pô-lo em conflito fatal com a natureza e com a ciência. Mas, se se livrasse essa grande confissão religiosa de seu erro fundamental e desse sistema hierárquico doravante em antagonismo com o progresso, ela constituiria, com algumas adaptações fáceis, o melhor órgão da sociedade espiritual e conduziria a humanidade, sem abalos funestos, aos amanhãs desejáveis. » Tal teria sido, em definitivo, o pensamento de Lamennais, segundo o Sr. Duine, p. 232-233. E é por isso, sem dúvida, que, no momento mesmo em que iam aparecer as Affaires de Rome, Lamennais ainda ia regularmente à missa e guardava a abstinência. Carta da Srta. de la Lumière ao abade João, 3 de outubro de 1836, em Roussel, Lamennais d'après des documents inédits, t. II, p. 258. Acrescentemos que a Igreja jamais rompeu completamente com ele: nunca foi excomungado nominalmente, nem posto no rol dos vitandi. Duine, p. 265. Por ocasião de seu advento, Pio IX mandou dizer-lhe, por intermédio do P. Ventura, que o abençoava e o esperava para abraçá-lo. Duine, p. 264-265.
Não seguiremos Lamennais no último período de sua vida, sobretudo em sua vida política, que começa com o êxito inaudito das Paroles d'un croyant (30 de abril de 1834) e se encerra, naquela manhã brumosa da quarta-feira de Cinzas do ano de 1851 (1º de março), não menos pelo insólito sepultamento de seu cadáver na vala comum do Père-Lachaise, entre dois esquadrões de agentes de polícia. Notemos apenas a título de memória que assumiu a direção política do jornal Le Monde de fevereiro a junho de 1837; que passou um ano em Sainte-Pélagie (4 de janeiro de 1841 a 3 de janeiro de 1842) por sua crítica ao governo no livro Le pays et le gouvernement (1840); que fundou Le peuple constituant, cujo primeiro número apareceu em 27 de fevereiro de 1848 e o último em 11 de julho seguinte; enfim, que dirigiu também La Réforme de 1º de outubro de 1849 até o fim do ano. Nas eleições de 23 de abril de 1848, excluído da lista socialista, foi eleito o último dos 34 deputados a que o departamento do Sena tinha direito. Cf.
Duine, p. 282. Em 13 de maio de 1849, foi inscrito na lista adotada pelo comitê democrático socialista e nomeado o décimo terceiro. Duine, p. 289. Sabe-se quais foram seus últimos momentos: sua porta guardada, por sua própria vontade, contra qualquer tentativa de pressão sobre sua consciência; o pedido, quatro vezes repelido, de sua sobrinha e legatária universal, a Sra. de Kertânguy: « Féli, queres um padre? Queres um padre, não é? » — « Não! Eu te suplico! Não, não, não; que me deixem em paz! » Duine, p. 350-351; enfim aquela espécie de enlevo ao pensamento de que logo repousaria junto de Deus, que o fez dizer várias vezes: « Estas são agora as boas horas, estes são os bons momentos. » Cf. Roussel, t. II, p. 332-382. Assim se extinguiu docemente, na segunda-feira, 27 de fevereiro, às nove horas da manhã. « Morreu cheio de confiança em Deus », escrevia Henri Martin a Michelet. « Seu rosto era admirável na morte, de uma majestade severa e de uma certeza indizível. » Citado por Duine, p. 351-352.
Obras. — Dividi-las-emos em três grupos: I. os Escritos ascéticos, II. as Obras de doutrina ou de controvérsia religiosa, filosófica e política, e III. as Cartas.
1º Escritos ascéticos. 1. Le Guide spirituel ou le Miroir des âmes religieuses, traduzido do latim do R. Luís de Blois, in-12, Paris, 1809, cf. Duine, Essai de bibliographie de Félicité-Robert de Lamennais, p. 2, n. 7. 2. Le guide du premier âge, Paris, 1828. 3. L'Imitation de Jésus-Christ, tradução nova com reflexões ao final de cada capítulo, in-32, Paris, 1828. « Em 1820, havia dado um prefácio e reflexões para a tradução feita por Genoude. Em 1824, publicou ele mesmo uma tradução nova. Na edição de 1828, abandonou as reflexões anteriores, que, em sua maioria, não eram de sua pena, e substituiu-as por outras novas, a fim de que a publicação fosse sua propriedade indiscutível. » Duine, Bibliographie, n. 33. Cf. Études, 20 de março de 1912, p. 745-69. As Réflexions, que eram de Lamennais na edição de 1820 e que passaram naturalmente para a de 1828, são as que seguem os c. v, xiii, xvii, xviii, xix, xxi do t. I; vii, viii, xi, xii, do t. II; v, xxxiv, xliii, l, li, liii, liv, lv, lviii do t. III. Études, p. 753, n. 3. 4. Bibliothèque des dames chrétiennes, na livraria grega-latina-alemã, depois Lesage, 20 vol. in-32, 1820-1821. Ver Quérard, Notice bibliographique des ouvrages de M. de La Mennais..., Paris, 1849, p. 62.
5. Poder-se-iam acrescentar aqui os Entretiens sur la vie spirituelle, publicados por Roussel, uma primeira vez em seu Lamennais d'après des documents inédits, t. II, depois em Lamennais à la Chênaie, 1828-1833, Le père, l'apôtre, le moraliste, Paris, 1909. São « notas tomadas às pressas, sob o ditado de Lamennais, por um de seus discípulos », o Sr. Houet, durante o retiro pregado no início do ano escolar de 1832-1833. Pode-se assim ter uma ideia da ascética de Lamennais nessa época decisiva de sua vida. 6. Enfim, podem-se incluir entre as obras ascéticas Les Évangiles, tradução nova com notas e reflexões ao final de cada capítulo, in-12, Paris, 1846. Roussel publicou, nos Apêndices de seu Lamennais à la Chênaie, « trechos escolhidos » extraídos dessas reflexões, « páginas verdadeiramente belas, nas quais se reconhece não só o grande escritor, mas, ao que parece, o próprio grande crente », p. 178. Mas, se por aí se pode contar essa obra entre as obras ascéticas de seu autor, por outro lado ela mereceria antes figurar em seu lugar cronológico entre as obras político-religiosas do democrata cristão. « É o breviário da religião do futuro », afirma o Sr. Duine, p. 241, do qual as Paroles d'un croyant seriam o saltério, p. 242.
2º Obras de doutrina ou de controvérsia religiosa, filosófica e política. 1. Réflexions sur l'état de l'Église en France pendant le XVIIIe siècle et sur sa situation actuelle, in-8º, Paris, 1808. Cf. Duine, Bibliographie, n. 6 e n. 28. O opúsculo se encontra no início dos Premiers mélanges. Œuvres complètes, 1836-1837, t. VI, p. 1-115. A obra, embora traga a data de 1808, só apareceu em junho de 1809. O abade João tivera nessa obra maior parte do que queria confessar; basta, para se convencer disso, ler o curioso papel publicado pelo Sr. Maréchal, La jeunesse de La Mennais, p. 204-208, que tem por título Torrent d'idées vagues qui se déborde sur le papier ce 13 novembre 1807, de 4 à 5 heures et demie, por ocasião do artigo « Jacobites » de Bergier. Muitas ideias, exploradas por Féli, foram-lhe fornecidas por seu irmão: o menaisianismo deve mais do que se pensa ao mais velho dos dois irmãos.
A obra « compreende duas partes de desigual extensão em seus desenvolvimentos: na primeira, o autor descreve os males da Igreja, suas provações e seus combates desde sua primeira origem, mas sobretudo no século XVIII; na segunda, propõe contra as doenças que a corroem os remédios mais eficazes. Essa segunda parte, muito mais curta que a primeira, é, no entanto, o verdadeiro objeto da brochura, e a que a precede só tem por fim fazê-la aceitar mais facilmente. » Maréchal, p. 221. No momento de propor seus remédios aos males de que sofre a Igreja da França, o autor sente-se tomado de escrúpulo: « Longe de estar exclusivamente apegado a minhas próprias ideias, escreve, peço que as considerem unicamente como dúvidas que proponho e que submeto sem reserva ao juízo da autoridade », p. 88. Essa precaução não impediu Mons. de Pressigny de escrever a João Maria: « Deus vos deu uma missão para dar lições àqueles que revestiu de sua autoridade para ensinar os povos? Quem vos deu o direito de determinar o princípio que deviam seguir? » Boutard, t. I, p. 58. A advertência episcopal visava provavelmente a passagem em que o autor criticava os bispos que haviam recusado a Napoleão sua demissão: seus temores, cujo fundamento não examinamos aqui, levaram-nos talvez além dos limites em que os verdadeiros princípios lhes prescreviam que se contivessem, p. 73. Embora as edições posteriores indiquem que « as Réflexions sur l'état de l'Église, publicadas em 1808, foram logo apreendidas pela polícia de Bonaparte », o Sr. Maréchal, p. 250, pensa que foram antes « retiradas do comércio e postas em lugar seguro, à espera da ocasião favorável.
» Ver em Feugère, p. 90-102, a comparação entre o texto da edição dita de 1808 e o da edição de 1814, no que concerne ao elogio de Napoleão.
2. Tradition de l'Église sur l'institution des évêques, 3 vol. in-8º, 1814. É a segunda das obras devidas à colaboração dos dois irmãos. O Sr. Maréchal estudou longamente a gênese da Tradition nos c. v, vi e viii da segunda parte de La jeunesse de Lamennais. Desde 1806, a questão da instituição dos bispos pelo papa ou sem o papa preocupa João Maria, e sua solução é categórica em favor do direito exclusivo do papa. E ele empreende « remontar às fontes, ler e reler as obras fundamentais ». Reúne, pois, os materiais que confiará a Féli, para que este tire deles um livro. Houve duas redações, ou antes dois estágios na redação, marcados pelo aparecimento do livro do « Sr. Tabaraud, padre da antiga congregação do Oratório », o Essai historique et critique sur l'institution canonique des évêques. Contra a tese galicana que o Sr. Boyer, em seu Traité de l'Église, formulava nestes termos: « Reconhecendo que o direito de instituir os bispos não é uma prerrogativa essencial do papa, mas uma concessão que a Igreja lhe fez desde o século XIII, reconhecemos por isso mesmo que a Igreja universal poderia retirá-lo dele e revestir dele de novo os metropolitas », cf. Maréchal, p. 310-314, nossos neófitos ultramontanos vão demonstrar, com a teologia e a história em mãos, que primitivamente todos os bispos, exceto o bispo de Roma, eram iguais, p. xxiii; que a superioridade de certos bispos sobre outros bispos só pode vir do papa, p. xxv; que toda jurisdição na Igreja não é senão uma participação, uma derivação, uma delegação da jurisdição universal do papa.
A obra se divide em três partes: « A primeira começa por uma história abreviada do estabelecimento dos patriarcas. Faz-se ver que todos foram instituídos pela autoridade de São Pedro e que seus privilégios, entre os quais se deve contar o poder de confirmar os bispos, não eram senão uma emanação da primazia da Sé apostólica. Mostra-se em seguida que os próprios patriarcas foram sempre confirmados pelos pontífices romanos... A segunda e a terceira partes são consagradas a provar que a doutrina da Igreja do Ocidente não era diferente, neste ponto, da Igreja oriental... Depois de responder às objeções que se tiram do sexto cânon de Niceia e de fixar o verdadeiro sentido desse cânon, demonstra-se que os metropolitas não tinham outra autoridade senão a que recebiam da Santa Sé, que os estabelecera e da qual eram, propriamente falando, os vigários... Se se nega essa origem do poder dos metropolitas, fica-se esmagado sob uma multidão quase infinita de testemunhos... se se a admite, é preciso reconhecer que os papas possuíam essencialmente os direitos que comunicavam a outros bispos... » p. cxvii-cxviii. Para situar o lugar e a posição dos irmãos Lamennais na história dessa controvérsia, ver Turmel, Histoire de la théologie positive du concile de Trente au concile du Vatican, Paris, 1906, p. 340-359. A influência de Bonald sobre a maneira de interpretar a história por meio do « diretor » da teoria e « de uma teoria em grande parte a priori, tirada da consideração da própria natureza das coisas », foi assinalada pelo Sr. Maréchal, p. 393-399. Os autores deram-se bem conta das lacunas da tradição, mas as preencheram facilmente pelo recurso aos princípios gerais do governo da Igreja ». Cf. t. II, p. 93-94. É o mesmo método histórico que será aplicado no Essai para demonstrar que todos os povos sempre creram o que creem os cristãos. Os historiadores de hoje já não se contentam com ele.
3. Essai sur l'indifférence en matière de religion, in-8º, Paris, t. I, 1817; t. II, 1820; t. III, 1823; t. IV, 1823; ao qual é preciso juntar 4. Défense de l'Essai sur l'indifférence en matière de religion, in-8º, Paris, 1821. Cf. Duine, Bibliographie, n. 24-26. Toda a matéria dos quatro volumes publicados está repartida em 37 capítulos nas primeiras edições: t. I, c. I a XII; t. II, c. XIII a XX; t. III, c. XXI a XXVIII; t. IV, c. XXIX a XXXVII. Adotaremos essa repartição de preferência à da edição Garnier. O objeto da obra é demonstrar « que a indiferença em matéria de religião, que se preconiza como o último esforço da razão e o mais precioso benefício da filosofia, é tão absurda em seus princípios quanto funesta em seus efeitos », t. I, p. 26. A indiferença de que se trata é a indiferença sistemática, isto é, a doutrina segundo a qual a religião é coisa indiferente, p. 43. Pode-se dividir em três classes os indiferentes dogmáticos. « A primeira compreende aqueles que, não vendo na religião senão uma instituição política, a julgam necessária apenas para o povo. A segunda abrange aqueles que admitem a necessidade de uma religião para todos os homens, mas rejeitam a revelação. A terceira, enfim, compõe-se dos indiferentes mitigados, que reconhecem a necessidade de uma religião revelada, mas permitem negar as verdades que ela ensina, com exceção de certos artigos fundamentais », p. 41.
O tomo I do Essai é consagrado à refutação desses três sistemas de indiferença religiosa. A divisão dessa refutação geral da indiferença sistemática é tirada de uma página de Bonald, em que esse autor observa que os indiferentes supõem « que não há na religião, considerada em geral e em todas as suas diferenças, nem verdadeiro nem falso; ou que, se há verdadeiro e falso na religião como em qualquer outra coisa, o homem não tem nenhum meio de distingui-los; ou que, enfim, a religião, verdadeira ou falsa, é igualmente indiferente para o homem », p. 215-216. Lamennais retoma cada uma dessas suposições, mas numa ordem um pouco diferente, e demonstra sucessivamente (A) « que a religião, se existe uma verdadeira, é de uma importância infinita para o homem, para a sociedade, para o próprio Deus (é todo o objeto da IIª parte do t. I)...; (B) que existe com efeito uma verdadeira religião, que só existe uma, que ela é para todos os homens o único meio de salvação (é o objeto do c. xvi do Essai, no tomo II)...; (C) que todos os homens podem facilmente discerni-la das religiões falsas », t. I, p. 407. Esse terceiro ponto dará origem a desenvolvimentos que o autor não havia previsto, de modo que o Essai crescerá pelo caminho: um terceiro volume parecerá primeiro necessário, t. II, p. 81, depois um quarto e enfim um quinto, que nunca verá a luz. Depois de três capítulos preliminares, c. xiii-xv, consagrados a investigar « como, em nossa condição presente, chegamos a um conhecimento certo da verdade », t. I, p. 407, nos quais Lamennais exporá sua teoria do critério da certeza situado na razão geral ou no senso comum, teoria que será em seguida defendida em um volume à parte, a Défense de l'Essai, Lamennais empreende provar, nos c. xvii-xx, que existe para todos os homens um meio seguro e fácil de discernir a verdadeira religião, e que esse meio é a autoridade; de sorte que « a verdadeira religião é incontestavelmente aquela que repousa sobre a maior autoridade visível. » 8ª edição, Paris, 1829, t. II, p. 83-84.
A aplicação do critério da verdadeira religião é feita nos t. III e IV. « A questão, reduzida a este ponto, é extremamente fácil de resolver; pois, primeiro, quanto aos tempos que precederam Jesus Cristo, temos a autoridade do gênero humano ou o testemunho unânime dos povos que todos... haviam conservado, no meio mesmo da idolatria, as tradições primitivas... O que fora crido sempre, em toda parte e por todos, tal era, pois, antes de Jesus Cristo, a verdadeira religião; e sua certeza repousava sobre o testemunho de todas as nações ou sobre a autoridade do gênero humano, sem contradição a maior autoridade que existira até então... Depois de Jesus Cristo, que autoridade ousar-se-ia comparar à da Igreja católica, herdeira de todas as tradições primordiais,... de todas as verdades outrora conhecidas, de que sua doutrina não é senão o desenvolvimento, e que, remontando assim à origem do mundo, nos oferece em sua autoridade todas as outras reunidas? » t. III, p. 29-31.
Notemos, de passagem, que Lamennais se esforça em vão por elevar a autoridade da Igreja acima da do gênero humano. Previu a objeção; responde a ela de maneira embaraçada: « E que autoridade tentar-se-ia opor-lhe (à Igreja)? Seria a autoridade do gênero humano, atestando as verdades originariamente reveladas? Mas a Igreja ensina todas essas verdades, recebeu-as da tradição, e essa tradição lhe pertence com todas as suas provas, com a autoridade que é seu fundamento e que se tornou uma parte da sua », p. 32-33; cf. t. II, p. 380. Na realidade, esse desdobramento da maior autoridade, antes e depois de Jesus Cristo, é artificial, e Lamennais aliás não o leva em conta no resto de sua argumentação; para ele « nunca houve senão uma religião no mundo », p. 480; « o cristianismo, ou a religião originariamente revelada, sempre foi e será sempre tão universal quanto a sociedade, pois encerra todos os deveres do homem e, por conseguinte, o princípio de sua vida », p. 481. Estamos no equívoco: o cristianismo, para Lamennais, não é o que todo mundo designa com esse nome, é a religião pura e simples, a religião natural, pois é preciso chamá-la por seu nome, a religião da qual dizia no t. I, depois de Bonald, o responsável por essa confusão: « Logo, a religião, sem a qual não poderia existir sociedade, é necessária como a sociedade; logo, não é uma invenção humana », p. 67; « a consequência imediata do que acabamos de ler é que a religião é necessariamente verdadeira, pois é evidentemente absurdo supô-la falsa », p. 79. Tudo o que é necessário à sociedade deve ter existido sempre, é necessariamente verdadeiro, não poderia ser uma invenção humana; ora, a religião é necessária à sociedade. Eis, em duas palavras, o pensamento íntimo de Lamennais, depois de Bonald. Cf. Maréchal, p. 178.
Parece, no ponto em que estamos, que o objeto do Essai foi atingido: as três suposições dos indiferentes dogmáticos foram reduzidas a nada, e conhecemos agora a verdadeira religião, a saber, o cristianismo, que se impõe ao mesmo tempo pela autoridade do gênero humano e pela da Igreja. Mas é preciso empreender demonstrar ainda que a religião é divina, porque possui quatro caracteres que constituem « o sinal certo e para sempre indelével de (sua) origem celeste. Deus é uno, infinito, eterno, santo: e a religião, como a Igreja, é una, universal, perpétua, santa ou manifestamente divina », t. IV, p. 35. Enfim, sem dúvida para responder àqueles que o haviam acusado de desconhecer a solidez das provas clássicas da divindade do cristianismo, cf. Défense, p. 8, p. 159-160, o t. IV se encerra com seis capítulos consagrados à Sagrada Escritura, às profecias, aos milagres, a Jesus Cristo e ao estabelecimento do cristianismo. O t. V devia mostrar « que nenhuma seita separada da Igreja católica pode atribuir-se algum dos caracteres cuja reunião forma o mais alto grau de autoridade visível; que eles se encontram unicamente na Igreja católica, que ela os possui todos e que a Igreja católica é, por conseguinte, a única sociedade depositária dos dogmas e dos preceitos revelados, a única que professa a verdadeira religião », p. 503.
5. O volume que se designa comumente pelo título de Premiers mélanges apareceu em 1819 sob o título Réflexions sur l'état de l'Église... (cf. col. 2482), seguidas de Mélanges religieux et philosophiques. Duine, Bibliogr., n. 28. « Esse volume contém, com uma terceira edição das Réflexions de 1808, artigos publicados nos jornais e alguns pequenos escritos do mesmo gênero que a censura não permitiu inserir nele. Juntaram-se-lhe, sob o título de Pensées diverses, breves reflexões sobre diferentes assuntos de religião e de filosofia. » Duine, La Mennais, L'homme et l'écrivain. Pages choisies. Paris e Lyon, 1912, p. 11.
Assinalemos em particular a brochura De l'Université impériale (1814), as Observations sur la promesse d'enseigner les quatre articles de la Déclaration de 1682 (1818) e quatro dissertações sobre a educação: Du droit du Gouvernement sur l'éducation (1817), De l'éducation du peuple (1818), De l'éducation considérée dans ses rapports avec la liberté (1818), Sur les attaques dirigées contre les Frères des écoles chrétiennes (1818).
6. Nouveaux mélanges, in-8º, Paris, 1820. « Chama-se comumente a essa coletânea Seconds Mélanges. Encerra artigos publicados em 1819 e nos anos seguintes em Le Conservateur, em Le Défenseur, em Le Drapeau blanc, no Mémorial catholique; e diversos prefácios que haviam servido para coleções piedosas; enfim, peças que haviam aparecido em brochuras, como a Défense de la vénérable compagnie des pasteurs de Genève. O volume termina com Pensées diverses. [As mesmas, acrescenta Quérard, p. 24, que as do primeiro volume de Mélanges, de 1819] ». Duine, Bibliogr., n. 32. Assinalemos em particular o longo artigo Sur un ouvrage intitulé « Du Pape », par M. le comte de Maistre (1820), o artigo Sur la poursuite judiciaire dirigée contre le « Drapeau blanc » au sujet de l'Université, e os dois artigos Du projet de loi sur le sacrilège (1825), Du projet de loi sur les congrégations religieuses de femmes (1825).
7. De la religion considérée dans ses rapports avec l'ordre politique et civil. A primeira parte, os quatro primeiros capítulos, apareceu em maio de 1825; depois, revista e corrigida, em julho de 1825. A segunda parte apareceu em fevereiro de 1826. Enfim, a edição completa, qualificada de 3ª edição, in-8º, Paris, 1826. Cf. Duine, Bibliogr., n. 29. O volume reunia duas peças díspares: « um panfleto e uma tese. O panfleto era o quadro da situação atual, quadro carregado em excesso e levado ao mais negro... A tese que vem depois é bela e de vigoroso andamento: sem a Igreja, nenhum cristianismo; sem o cristianismo, nenhuma religião; sem a religião, nenhuma sociedade. » Longhaye, Études, 5 de junho de 1900, p. 597-598.
Dissemos que esse livro foi a arma principal destinada a combater o galicanismo. Os c. vi e vii, Du souverain pontife, Des libertés gallicanes, entregam-nos, neste ponto, todo o pensamento de Lamennais. Seu objetivo é sobretudo político; o famoso sorites que resume o c. vi: sem papa, nenhuma Igreja; sem Igreja, nenhum cristianismo; sem cristianismo, nenhuma religião e nenhuma sociedade; logo, sem papa, nenhuma sociedade, « de modo que a vida das nações europeias tem... sua fonte, sua única fonte, no poder pontifício », p. 146, não deixa nenhuma dúvida sobre esse ponto. O papa está destinado a substituir a única garantia que os Estados modernos ainda encontraram contra o abuso da força, o sistema de equilíbrio entre os Estados, equilíbrio quimérico, que se julgou fixar pelo tratado de Westfália, e que, sempre perturbado e sempre procurado, foi por muito tempo como a grande obra dos rosa-cruzes da política », p. 117.
8. In quatuor articulos declarationis anno 1682 editada aphorismata, ad iuniores theologos, auctore F. D. L. M., in-8º, 8 p. Paris, 1826.
9. Des progrès de la Révolution et de la guerre contre l'Église, in-8º, Paris, 1829. Pièces justificatives, p. 285-358. Sommaire d'un système des connaissances humaines, p. 359-381). Esse Sommaire apareceu também em brochura in-8º, de 28 p. Duine, Bibliogr., n. 35. É uma obra que manifesta no pensamento de Lamennais um período de transição: já não tem confiança na monarquia, ainda não tem confiança na democracia. Por isso aconselha os católicos a se manterem fora e acima dos partidos, a assistirem como simples espectadores às lutas que se preparam entre os reis e os povos; entretanto, Lamennais traça ao papa, aos bispos, aos padres seus deveres « nas circunstâncias presentes ». Cabe ao pastor supremo salvar a lei e a sociedade, rompendo « os laços que detêm a ação do poder espiritual », p. 184, isto é, separando a Igreja do Estado. « Seria necessário também que os bispos... retomassem seus direitos e os exercessem com plena independência », p. 185. Resta ainda ao clero outro dever a cumprir, p. 189, o de renovar a ciência religiosa para adaptá-la ao « que exige de nós o estado presente da sociedade », p. 192; pois, « não temamos confessá-lo, a teologia, tão bela em si mesma, tão atraente, tão vasta, não é hoje, tal como se ensina na maioria dos seminários, senão uma escolástica mesquinha e degenerada, cuja secura repele os alunos e que não lhes dá nenhuma ideia do conjunto da religião », p. 192-193. E Lamennais propõe suas vistas sobre o que devem ser os estudos clericais no estado presente da sociedade. Compreende-se então por que o Sommaire d'un système des connaissances humaines se acrescenta às peças justificativas.
10. Première lettre à Mgr l'archevêque de Paris, in-8º, Paris, março de 1829; Seconde lettre à Mgr l'archevêque de Paris, abril de 1829.
11. Troisièmes mélanges, in-8º, Paris, fevereiro de 1835. Esse volume (que não se deve confundir com os Mélanges catholiques extraits de « l'Avenir », Paris, 1831, 2 vol., in-8º, cf. Duine, Bibliogr., n. 28), e que é intitulado: Journaux, ou articles publiés dans le Mémorial catholique et l'Avenir, no t. X das Œuvres complètes, 1836-1837, encerra os artigos publicados pelo próprio Lamennais em L'Avenir, precedidos de alguns outros publicados no Mémorial catholique ou na Revue catholique. O longo prefácio de 1835, que se intitula Du catholicisme dans ses rapports avec la société politique, no t. VII das Œuvres complètes da edição Pagnerre, 1844, pode ser considerada como « o ato público e definitivo da separação de Lamennais e do catolicismo ». Duine, Pages choisies, p. 13. Lamennais bem poderia tê-la intitulado Rétractations, pois é um verdadeiro exame de consciência intelectual que ali empreende. Seu sistema do senso comum, base da certeza, lhe parece sempre verdadeiro, mas lhe parece ainda incompletamente esclarecido. Faz reparação pública ao galicanismo parlamentar: « as máximas dos parlamentos serviram muito para conservar em sua integridade prática o princípio fundamental da distinção dos dois poderes », p. xix; julga que a campanha de L'Avenir foi empreendida e conduzida com um zelo irrefletido, p. lxxxii; critica a solução que tentou dar ao insolúvel problema da delimitação dos dois domínios, o espiritual e o temporal, p. xxxix; depois, alargando a questão, mostra que esse problema não é senão um aspecto da imensa questão das relações da humanidade inteira com a autoridade espiritual catolicamente concebida, p. xli, a qual não é, em última análise, senão a questão das relações entre a obediência e a liberdade, p. xlii.
12. Paroles d'un croyant, 1833, in-8º, Paris, 1834, 237 p. Cf. Duine, Bibliographie, n. 39. Sainte-Beuve, Nouveaux lundis, t. I, p. 39-41, Paris, 1891, contou como se fez a publicação desse pequeno livro: o bilhete que Lamennais lhe escreveu para exprimir o desejo de vê-lo « por um assunto que urgia », a agitação em que o encontrou, ao entrar no quarto de onde saía Mons. de Quélen, a brusquidão com que Lamennais lhe pediu que fizesse o livro aparecer o mais cedo possível. « Essa publicação das Paroles d'un Croyant, acrescenta Sainte-Beuve, rompeu toda incerteza sobre os pensamentos de Lamennais e fixou aos olhos de todos e aos seus próprios a sua situação. É provavelmente o que ele queria. » Era a retomada de sua palavra de 11 de dezembro e o retorno, em seu pensamento, à distinção de 5 de novembro: submissão do católico, independência do cidadão. Cf. Affaires de Rome, p. 159. Em sua carta de 23 de abril de 1834 a Mons. de Quélen, Lamennais declarou quais intenções tivera ao publicar esse pequeno livro: « Como sabeis, estou convencido de que, não podendo nada deter doravante o desenvolvimento da liberdade política e civil, é preciso esforçar-se por uni-la à ordem, ao direito, à justiça, se não se quer que a sociedade seja subvertida de alto a baixo. Eis o objetivo que me propus. » Affaires, p. 172.
A « brochura » apresentava, pois, duas faces: protestava contra a opressão, que declarava prestes a terminar pelo triunfo da liberdade, e esforçava-se por cristianizar a futura democracia. O público só percebeu a primeira: o livro passou, não sem razão, por um escrito destinado a desencadear a revolução. Foi também o parecer do cardeal Lambruschini em seu relatório de 11 de junho: « Quem definisse as Paroles como um novo apocalipse, inspirado por Satanás, para excitar novos escândalos na Igreja e ocasionar novas perturbações no mundo, faria delas um juízo exato. » Dudon, Lamennais et le Saint-Siège, p. 325. Em 25 de junho de 1834, a encíclica Singulari nos condenava as Paroles d'un croyant: libellum... mole quidem exiguum, pravitate tamen ingentem. « Em desprezo da fé solenemente dada em sua declaração, empreendeu... abalar e destruir a doutrina católica, tal como a definimos em nossa encíclica..., quer sobre a submissão devida aos poderes, quer sobre... essa horrível conspiração de sociedades compostas, para a ruína da Igreja e do Estado, pelos partidários de todos os cultos falsos e de todas as seitas... Mas o que excita sobretudo a indignação, o que a religião não pode absolutamente tolerar, é que o autor,... para libertar os povos da obediência, como se fosse enviado e inspirado por Deus..., ponha em toda parte em primeiro plano as Escrituras Sagradas... Por isso..., por nosso próprio movimento, por nossa ciência certa e por toda a plenitude de nosso poder apostólico, reprovamos, condenamos e queremos que se tenha perpetuamente por reprovado e condenado o livro..., livro que encerra proposições respectivamente falsas, caluniosas, temerárias, conducentes à anarquia, contrárias à palavra de Deus, ímpias, escandalosas, errôneas, já condenadas pela Igreja, especialmente nos valdenses, nos wiclefistas, nos hussitas e outros hereges dessa espécie. » Tradução de Lamennais, em Affaires de Rome, p. 391-397, passim.
13. De l'absolutisme et de la liberté. Dialoghetti, impresso na Revue des Deux Mondes, 1º de agosto de 1834, reimpresso em seguida a várias edições das Paroles. Quérard, p. 44, n. cxxiii. Lamennais expõe as doutrinas do « absolutismo » segundo dois « catecismos publicados por ordem expressa do imperador da Rússia e do imperador da Áustria », e segundo « um escrito semioficial », os Dialoghetti sulle materie correnti nell'anno 1831, que os governos cuidaram de espalhar em grande número de exemplares na Itália, p. 213 da 7ª edição das Paroles. Ver o catecismo do tsar Nicolau, publicado em 1832, na Revue latine, 1908, p. 750-760. Lamennais destaca em particular nos Dialoghetti o aforismo de que « o melhor príncipe é aquele que tem o carrasco por primeiro-ministro », p. 225, e seu patriotismo se comove e se indigna, com justiça, quando encontra aí o conselho dado aos reis absolutos de desmembrar a França, para suprimir suas tendências liberais, que ameaçam invadir a Europa: « se se deixam crescer as unhas de um povo, as unhas de todos os outros crescem também », p. 217.
14. De l'ignorance, artigo composto no início de 1836 para o Dictionnaire de la conversation, encontra-se nas Œuvres complètes, t. VII da edição Pagnerre, p. 311-326. Duine, Bibliographie, n. 43.
15. Affaires de Rome, in-8º, Paris, 1836-1837. « Essa obra contém um opúsculo inacabado, que foi composto em 1832 e que se intitula: Des maux de l'Église et de la société et des moyens d'y remédier. » Duine, Bibliographie, n. 44.
16. Le livre du peuple, in-8º, Paris, 1838. Duine, Bibliographie, n. 45. « Tratado de moral social..., catecismo numa catedral desativada, cujo padre já não tem de intacto, segundo a palavra de Mazzini, senão sua fé na moral cristã. » Duine, La Mennais, p. 211-215.
17. Politique à l'usage du peuple. Recueil des articles publiés dans Le Monde, du 10 février au 4 juin 1837, 2 vol. in-32. Cf. Duine, Bibliographie, n. 46.
18. De l'esclavage moderne, in-32, Paris, 1839.
19. Le pays et le gouvernement, in-32, Paris, 1840. Sátira pela qual Lamennais foi levado diante da corte de assises e condenado a um ano de prisão e dois mil francos de multa.
20. Esquisse d'une philosophie, 3 vol. in-8º, Paris, 1840; t. IV, 1846. « Com a parte mais brilhante do terceiro volume, formou-se um livro intitulado De l'art et du beau, in-12, Paris, 1864. » Duine, Bibliographie, n. 49.
21.
De la société première et de ses lois ou de la religion, in-12, Paris, 1818. « É um fragmento notável da continuação da Esquisse d'une philosophie. » Duine, Bibliographie, n. 61. O Sr. Maréchal « publicou na Revue de métaphysique et de morale (novembro de 1898, janeiro de 1899) os últimos capítulos, que permaneciam inéditos, da Esquisse d'une philosophie », p. v da Introdução ao Essai d'un système de philosophie catholique (1830-1831) par E. de La Mennais. Ouvrage inédit, recueilli et publié d'après les manuscrits, Paris, 1906. A elaboração dessa filosofia foi, pode-se dizer, o sonho de toda a vida de Lamennais. Via nela a salvação das sociedades modernas. Esse sonho, que o obseda desde 1809, começara a tomar corpo no célebre programa de estudos de Malestroit, o Sommaire d'un système des connaissances humaines. O artigo de L'Avenir de 30 de junho de 1831, cf. col. 2490, anunciava ao mundo que logo veria aparecer um sistema geral de explicação, uma verdadeira filosofia conforme à necessidade dos tempos, « que, fundada sobre as leis constitutivas da inteligência, reconduzirá as diversas ordens de conhecimentos à unidade; tudo ali se encadearia com tal rigor que os espíritos rebeldes, obrigados doravante a viver ao mesmo tempo fora da lei e fora da ciência, voltarão, para não morrer, de todas as partes ao catolicismo. »
A nova filosofia do cristianismo foi revelada aos Íntimos nas conferências de Juilly, que o Sr. Maréchal publicou, e nos colóquios de Munique. Indiscrições de Combalot e de Döllinger, cf. Lettres à Montalembert, p. 53, 225, 238, proporcionaram-lhe uma difusão no público, que Lamennais lamentou. « Não se pode dizer, sem dúvida, que a Esquisse d'une philosophie apresente um sistema novo e original. É antes uma obra compósita, em que muitas ideias de origem diferente se misturam e às vezes se contrariam; mas essas ideias são grandes e interessantes, e algumas delas, novas então, antecipam a filosofia ulterior. O mérito eminente dessa obra é sobretudo ser quase o único ensaio de síntese geral filosófica que nosso século apresentou... Uma ontologia, uma teologia, uma cosmologia, uma estética, uma filosofia das ciências: tais são as diferentes partes dessa obra magistral. » Paul Janet, La philosophie de Lamennais, Paris, 1890, p. 101-103.
22. Discussions critiques et pensées diverses sur la religion et la philosophie, in-8º, Paris, 1841. Cf. Duine, Bibliographie, n. 50. O prefácio é datado de Sainte-Pélagie, 10 de abril de 1841; mas ele nos informa que os « fragmentos » que compõem a obra foram escritos, na maioria, « há muito tempo », p. 5. As Discussions critiques são o « diário » das demolições do catolicismo por Lamennais. « É unicamente sobre essa radical e decisiva questão de uma ordem sobrenatural que versa a discussão instituída nos fragmentos que se seguem. Ver-se-á neles por que não poderíamos admitir uma tal ordem de dispensação, que nos parece oposta às leis essenciais de Deus e da criação; como também se pode ver, na Esquisse d'une philosophie, de que maneira entendemos que a Religião, que não é para o homem senão o conjunto das condições de sua vida superior, de sua vida intelectual e moral, entra no recinto das puras leis naturais », p. 16-17. Em verdade, Lamennais, depois de Bonald, nunca pensou outra coisa, sem talvez dar-se conta disso nitidamente. A encíclica Mirari abriu-lhe os olhos, colocando diante dele o problema da autoridade: « Não se diga que deveríamos ter-nos reportado à autoridade reconhecida, defendida até então: pois era essa mesma autoridade que tínhamos de examinar naquele momento, cujos títulos devíamos discutir, a fim de não agir ao acaso e temerariamente », p. 8.
O exame, sobretudo filosófico, foi desfavorável às pretensões do « sacerdócio », que declara que « existem verdades ao mesmo tempo indispensáveis e inacessíveis ao homem; (que) Deus as revelou a alguns, encarregados por ele de anunciá-las aos outros e de escolher sucessores que ele assistirá, como a eles, sobrenaturalmente, para que o ensino dessas verdades nunca desfaleça no mundo e nunca seja nele alterado », p. 67. Mistério, revelação, milagre, autoridade doutrinal infalível: essas noções teológicas fundamentais são « criticadas » filosoficamente e julgadas inadmissíveis. Mas a história bastaria para rejeitar as bases do sistema católico: nunca houve « revelações dogmáticas »; Moisés « prescreveu leis a um povo, promulgou preceitos; não revelou nenhum dogma, nem Jesus Cristo tampouco... O dogma, é a Igreja que o fez por suas decisões reputadas infalíveis », p. 49-50. E se nada há na religião que não entre no recinto das puras leis naturais, « não há necessidade, para conservá-la, de uma autoridade doutrinal sobrenaturalmente infalível: nenhuma ideia se perde no mundo... As noções, as verdades igualmente incompreensíveis em parte que formam o fundamento de cada ciência, não se conservam sem alteração pela via natural do ensino puramente humano? » p. 70.
23. De la religion, in-32, Paris, 1841. O prefácio é datado de Sainte-Pélagie, 15 de maio de 1841. A página de rosto traz por epígrafe o texto Joa., IV, 22-23. « A hora vem, e já veio, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. » Lamennais passou, portanto, da « religião de autoridade » à « religião do espírito ». O pequeno livro se apresenta « como um sumário rápido, e todavia suficiente, para julgar dos princípios e de seu encadeamento, (das ideias) já desenvolvidas na Esquisse d'une philosophie. » Quem tiver lido esse pequeno in-32 conhecerá também suficientemente, para poder formular um juízo, a « filosofia da religião » de nosso pensador, e nós o utilizaremos amplamente na terceira parte deste artigo.
24. Du passé et de l'avenir du peuple, in-32, Paris, 1841. Cf. Duine, Bibliographie, n. 52. Ver a análise em Boutard, t. III, p. 276-281.
25. Amschaspands et Darvands, in-8º, Paris, 1843. Sátira violenta da sociedade, sob a forma de conversas ou de monólogos dos gênios do bem e dos gênios do mal, segundo a religião dos persas. É preciso juntar-lhe 26. Une voix de prison, in-32, Paris, 1846.
« Poemas em prosa, dos quais a maioria formava a última parte dos Amschaspands. » Duine, Bibliographie, n. 54.
27. Le Peuple constituant, 27 de fevereiro de 1848 - 11 de julho de 1848. Os artigos de La Mennais não foram « reunidos em volume. Mas vários deles foram publicados em brochura, como o Projet de Constitution de la République française, pequeno in-18 de 62 p., o Projet de Constitution du crédit social, in-18 de 30 p. (com Aug. Barbet), Question du travail, in-18 de 31 p., De la famille et de la propriété, in-8, de 32 p. » Cf. Quérard, p. 46 e Duine, n. 59-60.
28. La Réforme, sob a direção de Lamennais, de 1º de outubro a 30 de dezembro de 1849. Os artigos de Lamennais não foram reunidos em volume. Duine, n. 64.
29. Nouveau Testament de Notre-Seigneur Jésus-Christ. Traduction nouvelle, 2 vol. in-32, Paris, 1851. Duine, n. 65.
30. La Divine Comédie de Dante Alighieri. Précédée d'une Introduction sur la vie, les doctrines et les œuvres de Dante, 3 vol. in-8º, Paris, 1855. Obra póstuma publicada segundo o desejo do autor por E. D. Forgues. Cf. Duine, n. 67. A Introdução compreende 124 páginas; ela constitui « um quadro integral de sua mentalidade derradeira », Duine, La Mennais, p. 297, « seu testamento intelectual ». Boutard, t. III, p. 439.
3º Cartas. Eis as principais coletâneas da correspondência de Lamennais: 1. Œuvres posthumes de F. Lamennais, publiées par E. D. Forgues, Correspondance, 2 vol. in-8º, Paris, 1859. Duine, n. 69. 2. Lettres inédites de J.-M. et F. de La Mennais, adressées à Mgr Brûlé, de Rennes, ancien évêque de Vincennes (États-Unis), recueillies par M. Henri de Courcy et précédées d'une introduction par M. Eugène de la Gournerie, in-12, Nantes, 1862. 3. Œuvres inédites de F. Lamennais publiées par A. Blaize, 2 vol. in-8º, Paris, 1866; t. I, Correspondance; t. II, Correspondance, Mélanges religieux et philosophiques. Cf. Duine, n. 71. 4. Correspondance inédite entre Lamennais et le baron de Vitrolles, publiée, avec une introduction et des notes, par Eugène Forgues, in-8º, Paris, Charpentier, 1886. 5. Confidences de La Mennais. Lettres inédites de 1821 à 1848 (à Marion), publiées avec une introduction et des notes par Arthur du Bois de la Villerabel, in-12, Nantes, 1886. 6. Auguste Laveille, Un Lamennais inconnu: Lettres inédites à Benoît d'Azy, in-12, Paris, 1898. 7. Eugène Forgues, Lettres inédites de Lamennais à Montalembert, in-8º, Paris, 1898. 8. Comte d'Haussonville, Le prêtre et l'ami: Lettres inédites de Lamennais à la baronne Cottu (1818-1854), in-8º, Paris, 1910. 9. Ad. Roussel, Lamennais et ses correspondants inconnus, in-12, Paris, 1912.
Sobre a correspondência de Lamennais, consultar o apêndice do livro do Sr. Anat. Feugère, Lamennais avant l'Essai sur l'indifférence, p. 249-427. Encontram-se aí primeiro uma « bibliografia da correspondência geral de Lamennais » e depois uma « tabela cronológica da correspondência geral de Lamennais », que não têm senão um defeito, o de terem sido escritas em 1906.
III. Doutrinas.
I. A CENSURA DE TOULOUSE.
A introdução necessária à exposição das doutrinas de Lamennais é um estudo da Censura de Toulouse. A história dela é contada no opúsculo que tem por título Censure de cinquante-six propositions extraites de divers écrits de M. de La Mennais et de ses disciples, par plusieurs évêques de France, et Lettre des mêmes évêques au souverain pontife Grégoire XVI; le tout précédé d'une préface où l'on donne une notice historique de cette censure, et suivi de pièces justificatives, Toulouse, 1835. É Mons. d'Astros, arcebispo de Toulouse, quem fala ele próprio no Prefácio. Conta que, sabendo que o Sr. bispo de *** (sem dúvida de Chartres, cf. Dudon, p. 167) havia, na época, redigido um projeto de censura dos erros menaisianos, lhe pedira que lhe comunicasse seu trabalho; « a carta foi enviada por inadvertência a outro bispo, que nos enviou o que havia escrito com o mesmo fim. Não deixamos de renovar nosso primeiro pedido, e pusemos o trabalho dos dois prelados nas mãos de um teólogo hábil, que foi encarregado de completá-lo por um exame aprofundado dos principais escritos do Sr. de La Mennais e de seus sectários », p. xxii. « Sessenta e uma proposições foram notadas com as censuras que pareciam merecer, e o conjunto foi submetido a uma congregação de teólogos que, depois de maduro exame, reduziu as proposições censuradas a cinquenta e nove », p. xxiii. O P. Dudon nomeia, p. 167, estes teólogos: os Srs. Vieusse, Boyer e Carrière, sulpicianos.
Em 28 de abril de 1832, o projeto de censura, com a carta ao papa, foi enviado « a quatorze arcebispos ou bispos dos mais próximos, para que se dignassem examiná-los por sua vez e adotar o juízo que se fazia deles, ou dizer-nos o que julgassem merecer mudança ». Os prelados consultados « propuseram várias observações, que foram atendidas... As 59 proposições censuradas foram reduzidas a 56. É nesse estado que a censura, bem como a carta ao soberano pontífice, revestidas da assinatura de dois arcebispos e de onze bispos, partiram para Roma em 15 de julho do mesmo ano », p. xxiii. Dois dias depois, Mons. d'Astros enviava aos bispos da França cópia da censura e da carta ao soberano pontífice; os bispos eram convidados a fazer chegar ao santo padre ou sua adesão à censura, ou o juízo que dela tivessem feito. Em 28 de julho, o cardeal di Gregorio acusava o recebimento do envio do arcebispo e anunciava que a carta encíclica que o papa se propunha publicar em 15 de agosto responderia ao voto dos bispos da França, enunciando « as máximas que são próprias ao assunto em questão », p. xxiii-iv.
Mas a encíclica Mirari condenava sobretudo as doutrinas de L'Avenir, ao passo que a Censura visava principalmente as do Essai: depois da encíclica, a Censura tinha, portanto, ainda sua razão de ser; por isso, em sua carta de 3 de novembro de 1832 ao cardeal di Gregorio, Mons. d'Astros pedia que o santo padre confirmasse com sua autoridade apostólica a censura dos bispos da França; Roma esquivou-se a esse convite, e o arcebispo de Toulouse não insistiu.
A Censura de Toulouse, nunca tendo sido aprovada nem confirmada pela Santa Sé, não goza, portanto, da autoridade que se prende aos documentos emanados do poder doutrinal supremo da Igreja; contudo, merece ser levada em consideração, pois, de setenta e três arcebispos e bispos que havia na França, cinquenta aderiram pura e simplesmente à Censura; (seis) responderam de maneira equivalente a uma adesão pura e simples, e todos, com exceção de (três) que não deram resposta, e de quatro ou cinco que disseram reportar-se inteiramente ao juízo de Roma sem declarar o seu sentimento, todos manifestaram a sua oposição às novas doutrinas. » Censure, p. xxxv. Como o opúsculo se encontra com dificuldade, julgou-se oportuno indicar aqui ao menos algumas das proposições censuradas, sem reproduzir a censura que as acompanha.
PROPOSITIONES EXCERPTAE EX I TOMO LIBRI QUI inscribitur ESSAI SUR L'INDIFFÉRENCE...
Todos os povos antes de Jesus Cristo haviam conservado, 1. no seio mesmo da idolatria, a noção de um Deus único, do verdadeiro Deus. P. 29. 2. Um Deus único, imaterial, eterno, infinito, todo-poderoso, criador do universo, tal era o primeiro dogma da religião primitiva, e a tradição conservou perpetuamente o seu conhecimento entre todos os povos. P. 62. 5. A idolatria nunca foi senão o culto dos espíritos bons e maus, e o culto dos homens distintos por qualidades brilhantes, ou venerados por seus benefícios; isto é, no fundo, o culto dos anjos e o dos santos. P. 108. 7. A idolatria não é a negação de um dogma, mas a violação de um preceito. P. 74. 9. A idolatria continha o esquecimento, não do verdadeiro Deus, mas do seu culto. P. 165. 10. A idolatria não é um erro, mas um crime. P. 349.
11. Enquanto os judeus subsistiram em corpo de nação, as suas crenças e o seu culto, à exceção de certos ritos particulares, repousavam sobre as tradições universais, sobre a autoridade do gênero humano, atestando a revelação primitiva. P. 53. 12. Os cristãos creem tudo o que cria o gênero humano antes de Jesus Cristo, e o gênero humano cria tudo o que creem os cristãos. P. 200. 13. « O que há de certo é que, quanto mais se aprofunda a religião dos diferentes povos, mais se persuade de que ainda não houve senão uma só em toda a terra. » Hanc assertionem (tirée des Lettres américaines de M. le comte J. R. Carli) suam facit auctor, eamque veram esse déclarât. P. 233. 14. Nunca houve no mundo senão uma religião, religião universal, no sentido mais rigoroso e mais extenso. P. 480. 15. O cristianismo, em seus dogmas, não é senão a razão humana, ou o conjunto das verdades necessárias que Deus nos manifestou. P. 489.
PROPOSITIONES EXCERPTAE EX IV VOL. EJUSDEM OPERIS.
16. A religião primitiva e o cristianismo são identicamente a mesma religião. P. 126. 17. Longe de a profecia, ou a predição das coisas futuras que o homem só pôde conhecer por uma revelação divina, ser inacreditável em si mesma, é impossível, existindo o homem, conceber que ela não exista. P. 228. 18. A profecia é uma consequência necessária das leis que derivam da natureza do homem. P. 235. 19. Não sendo nenhum homem infalível, não há nenhum que possa estar certo, se Deus não o assegura por algum sinal exterior, de que aquilo que lhe parece verdadeiro seja realmente verdadeiro, ou que possa com certeza distinguir dos seus próprios pensamentos as verdades que Deus lhe revela. P. 309. 20. Jam alibi dixerat auctor: A persuasão mais invencível de que se é inspirado nada prova. Essai sur l'indifférence, 3e édit., t. ii, p. 192-193.
III. PROPOSITIONES EXCERPTAE EX OPERE QUI inscribitur: DES DOCTRINES PHILOSOPHIQUES SUR LA CERTITUDE DANS LEURS RAPPORTS AVEC LES FONDEMENTS DE LA THÉOLOGIE. São as prop. 21 a 31. Assinalo apenas a prop. 27, que a censura declara tomada por Gerbet de Lamennais. 27. Tudo o que afirma uma razão falível podendo ser falso, tudo o que ela nega podendo ser verdadeiro, a noção da certeza encerra a ideia de uma razão infalível. P. 50. Hanc doctrinam discipulus acceperat a magistro suo: Nada do que afirma uma razão que pode enganar-se, ou uma razão falível, é certo. Logo, buscar a certeza é buscar uma razão infalível. Essai, t. ii, in Monito, p. vii, 4e édit. Et addit, ibid., p. 8: Nosso primeiro cuidado deve ser assegurar-nos de se existe para nós um meio de conhecer com certeza, e qual é esse meio; e, p. 29: O consentimento comum, sensus communis, é para nós o selo da verdade; não há outro; e, p. 71: A certeza repousa sobre a autoridade ou o consentimento comum.
IV. PROPOSITIONES EXCERPTAE EX OPUSCULO QUOD INSCRIPTUM EST CATÉCHISME DU SENS COMMUN. São as prop. 32 a 39.
V. PROPOSITIONES EXCERPTAE EX DIARIO QUOD INSCRIBITUR L'AVENIR:
40. O Sr. de la Mennais encarregou-me de vos dizer: há quinze anos ele trabalha por regenerar o catolicismo e por lhe devolver, sob uma forma nova e com progressos novos, a força e a vida que o haviam abandonado. N. 110; suplemento de 3 de fevereiro de 1831, col. 15. Plaidoyer de M.***
41. Quem quer que tenha seguido o catolicismo em sua admirável rota através dos acontecimentos humanos sabe que em diversas ocasiões se desesperou dele. Não passou sem eclipse de seu berço do velho mundo à sua conquista da América... Entre Carlos Magno e Gregório VII, por exemplo, ele afundou num caos do qual só nos restam recordações espantosas... Quatro séculos de glória sucederam ao caos dos séculos precedentes... N. 83, 7 de janeiro de 1831, col. 4 e 5. 43. As línguas são o próprio Deus, pois está escrito em alguma parte que o Verbo é Deus. N. 2, 17 de outubro de 1830, col. 6.
45. A censura (dos livros ou escritos) pode ser exercida pela Igreja? Não. Resta, pois, a liberdade (da imprensa), e Deus seja bendito! Deus seja bendito por ter feito o homem uma criatura tão elevada que a força conspira em vão contra a sua inteligência, e que o pensamento não tenha aqui outro juiz senão o pensamento. Longe de a ordem ser destruída pelo livre combate do erro contra a verdade, é esse mesmo combate que é a ordem primitiva e universal. N. 239, 12 de junho de 1831, col. 5. 46. A Igreja não usa da censura preventiva, e não o poderia, moralmente falando, sem faltar aos seus usos e às suas tradições de dezoito séculos. N. 261, 3 de julho de 1831, col. 8 e 9. 47.
Os protestantes, os filósofos e os galicanos coligaram-se, de certo modo, no século passado para atacar a autoridade pontifícia, desnaturando os fatos históricos. Os últimos, sobretudo, distinguiram-se nesse gênero, e foram também os mais perigosos inimigos da Santa Sé. N. 269, 12 de julho de 1831, col. 11. Há uma doutrina religiosa que se fez solidária de todos os poderes e que sancionou todas as injustiças: essa doutrina chama-se galicanismo. N. 123, 10 de fevereiro de 1831, col. 3. Quando o catolicismo bastardo se formulou na França, e quando o soberano consumava, por um ato formal, o cisma galicano... N. 325, 6 de setembro de 1831, col. 4.
48. O método que prevaleceu na Escola, e que só admitia os procedimentos puramente lógicos, matava por isso mesmo toda invenção, e não podia produzir senão uma ciência verbal, abstrata e vazia. A ciência católica está, pois, por criar, e é ela que o espírito humano espera, fatigado da insuficiência e da desordem da ciência atual. Das noções certas da fé sairá, mais cedo ou mais tarde, e talvez em breve, um sistema geral de explicação, uma verdadeira filosofia conforme à necessidade dos tempos. N. 257, 20 de junho de 1831, col. 1. 49. Quando isso acontecesse (que o povo romano sacudisse o último anel pelo qual o chefe da Igreja ainda prendia ao báculo pontifício um resto de sociedade política); quando credes que isso aconteceria, essa posição não seria uma posição de progresso? Paroles du Globe. N. 83, 7 de janeiro de 1831, col. 6.
50. Crente ou não, quem aspira a uma emancipação real deve, primeiro e antes de tudo, esforçar-se por emancipar a inteligência e a consciência, pois elas não podem ser escravizadas sem que o homem inteiro o seja, e a sua liberdade engendra todas as outras; foi assim que Cristo nos libertou: Christus nos liberavit. N. 318, 30 de agosto de 1831, col. 3. 51. A carta de 1814 e a concordata estão quebradas pelo fato, por um fato consumado... N. 19, 3 de dezembro de 1830, col. 5. O Estado e a Igreja devem igualmente desejar a total separação da Igreja e do Estado..., sem a qual não existiria para os católicos nenhuma liberdade religiosa. N. 53, 7 de dezembro de 1830, col. 2. 53. Uma Igreja assalariada pelo Estado é uma novidade que jamais será abençoada, um exemplo pavoroso deixado a nossos descendentes, e que ainda só deu uma parte de seus frutos. N. 18 e 19, 2 e 3 de novembro de 1830, col. 7.
54. Os jesuítas já nada podem pela religião, e a bula que os ressuscitou atesta apenas que a Igreja, em sua divina sabedoria, quis que uma morte natural selasse o seu destino. N. 341. Suplemento de 22 de setembro de 1831, col. 8 e 9. Discurso pronunciado na Câmara dos Pares por um dos redatores de L'Avenir. 55. (A proposição termina por uma citação de Des Progrès de la Révolution, p. 5 e 6) O cristianismo mostrou em Deus o soberano, o ministro de Deus (Rom., xiii), representante de Cristo, mas advertindo-o de que o seu direito, fundado sobre a lei divina que o obrigava como a seus súditos, expirava logo que ele se revoltasse contra o Chefe supremo de quem derivava o seu poder... Não era ao homem que se obedecia, mas a Jesus Cristo. O soberano reinava em seu nome sagrado como ele, enquanto usasse do poder para manter a ordem estabelecida pelo Salvador-Rei; sem autoridade, desde que a violasse... A submissão do povo ao príncipe tinha por condição a submissão do príncipe a Deus.
II. O MENAISIANISMO. A Censura de Toulouse é, de certo modo, o decreto Lamentabili desse modernista avant la lettre (mas não foi a propósito dele que o termo modernismo foi forjado? cf. Charles Périn, Le modernisme dans l'Église, in-8°, de 41 p., Paris, 1881, Duine, Bibliographie, n. 038) que foi Lamennais: resta-nos esboçar a síntese e a sistematização de suas doutrinas; entendo por doutrinas de Lamennais não tanto as diretrizes políticas de La Religion considérée... ou de L'Avenir, que indicamos em seu lugar, quanto esse fundo de ideias filosóficas e religiosas que ele trazia em si, e que constituíam o que se pode chamar sua estrutura mental, sua armadura intelectual. Pode-se repartilas em dois grupos: a filosofia propriamente dita e a filosofia da religião.
1° A filosofia de Lamennais. É a lógica e a metafísica, mais do que a cosmologia e a estética de Lamennais, que interessam ao teólogo; teoria da certeza, distinção da ordem da fé e da ordem da concepção, problema da origem das ideias, explicação filosófica da Trindade e, enfim, mistério das relações do infinito e do finito, ou teoria menaisiana da criação e da ascensão progressiva e indefinida das criaturas rumo ao Criador: tais são as principais doutrinas filosóficas de Lamennais que vamos expor rapidamente.
1. Teoria da certeza. Lamennais foi levado a imaginar o seu sistema do senso comum, ou da razão geral, ao mesmo tempo por sua experiência pessoal e por suas preocupações políticas e sociais. É bem o « solitário » da Chênaie que se analisa a si mesmo nessa curiosa nota do t. ii do Essai, p. 17-21: a ideologia e a melancolia que resultam para o homem da vida solitária, Lamennais as descreveu tão bem porque as constatara em si mesmo. Por outro lado, os povos também só vivem de « crenças », o que, para Lamennais, significa certezas. Mas como, no estado dos espíritos em que se encontra a Europa ao sair da Revolução, devolver aos povos crenças comuns? Pois bem, para o indivíduo e para as sociedades, há um único meio de restaurar a crença, a certeza: subtraí-la ao exame, à discussão da razão individual, impondo-a de autoridade. « Para evitar o ceticismo a que conduz a filosofia do homem isolado, em vez de buscar em si a certeza de uma primeira verdade, é preciso partir de um fato, que é essa lei insuperável inerente à nossa natureza, e admitir como verdadeiro aquilo que todos os homens creem invencivelmente. A autoridade, ou a razão geral, o consentimento comum, é a regra dos juízos do homem individual. » Défense de l'Essai, p. 179-180.
Tais são as duas proposições positivas em que Lamennais resumiu o ponto de partida e, se não a prova, ao menos a legitimidade de seu sistema; ele se apoia em um ou, antes, em dois fatos constantes da psicologia da crença: temos uma tendência a admitir como verdadeiro aquilo que todos os homens « creem invencivelmente »; não há outra « regra dos juízos do homem individual » senão « o consentimento comum ». Logo, se queremos evitar o ceticismo, se queremos viver e agir, cumpre-nos « admitir como verdadeiro o que todos os homens creem invencivelmente ». Crê ou morre: tal é a alternativa inelutável. Buscar « a certeza é... buscar uma razão que não possa errar, ou uma razão infalível. Ora, essa razão infalível, é necessário que seja ou a razão de cada homem, ou a razão de todos os homens, a razão humana. Não é a razão de cada homem,... logo é a razão de todos. Não se poderia provar diretamente a infalibilidade da razão humana... Mas, se não se supõe a razão humana infalível, não há mais certeza possível; e, para ser consequente, seria preciso duvidar de tudo sem exceção. » Essai, t. ii, p. 171-175, nota. « Se não se supõe a razão humana infalível, não há mais certeza possível. » Todo o sistema do senso comum reduz-se a essa proposição condicional.
Como se vê, ele repousa sobre um postulado, ou antes, sobre uma necessidade, a necessidade de certeza; e desemboca em outro postulado, ou mais exatamente em uma convenção arbitrária: suponhamos a razão humana infalível e aceitemos como lei de nossos pensamentos as crenças comuns da humanidade. Já Lamennais havia observado que « destruir-se-ia completamente a geometria, se a obrigassem a provar os axiomas e os teoremas que lhe servem de fundamento. Ela só subsiste em virtude de uma convenção tácita de admitir certas bases necessárias; convenção que se pode exprimir nestes termos: Comprometemo-nos a ter por certos tais princípios, e a declarar culpado de revolta contra o senso comum, que não é senão a autoridade do maior número, quem quer que se recuse a crer neles sem demonstração », p. 153-156. Que é uma ciência, « senão um conjunto de ideias e de fatos sobre os quais se está de acordo? » p. 118. O sistema do senso comum, aplicado não só às ciências matemáticas, mas a todos os nossos conhecimentos, e principalmente às crenças fundamentais que devem dirigir o homem individual e as sociedades humanas, redunda, queira-se ou não, em fundar a certeza, a verdade, sobre uma convenção arbitrária, sobre uma decisão da vontade.
Tal é a filosofia e a religião de Lamennais. É a « de um racionalista cansado que se submete à autoridade ». (Augustin Thierry.) « A fé é o ato da vontade que se submete, muitas vezes sem convicção, às vezes contra a própria convicção, àquilo que uma razão exterior e mais elevada declara verdadeiro. Eis por que a fé é sempre possível, mediante uma graça que nunca é recusada, e eis também por que ela é meritória. Quem quer crer, crê; pois essa vontade é a própria fé. » Lettre à la baronne Cottu, 10 août 1829, p. 207. E eis como Lamennais resolve, suprimindo-o, o próprio problema filosófico, por assim dizer a filosofia, que se vê reduzida a já não ser « a busca da verdade », mas uma simples geometria, na qual se deduzem das verdades primeiras, recebidas do senso comum, todas as verdades secundárias nelas contidas. Em duas palavras, já não há filosofia « separada », mas uma filosofia subordinada à ordem da fé, na qual se encontra ao mesmo tempo a sua base e a sua regra. » Sommaire, Œuvres complètes, t. ix, p. 305.
E. Faguet, Revue des Deux Mondes, 1er avril 1897, p. 573-579, criticou fina e vigorosamente o sistema do senso comum: é um método perfeitamente « fácil e estéril, e é mesmo, a meu ver, a marca, em si, de um espírito desprovido de senso filosófico; é precisamente por isso que Lamennais se entregava a ele tão plenamente. Pois, homem de ação sobretudo e querendo agir imediatamente, procurava algo com que pudesse agir. Ora, a consideração do consentimento universal não leva à conquista verdadeira de nenhuma verdade; não é um método filosófico, mas é um expediente », p. 577. Será bem certo que Lamennais não se desse conta disso? Viu bem, em todo caso, ele, o investigador do absoluto, que o seu método só lhe podia dar a verdade relativa, a verdade para nós, e não a verdade em si; leia-se, para disso se convencer, sua introdução às « conferências » de Juilly, página inédita publicada pelo Sr. Duine, La Mennais, p. 139-143. « Quando, chegado ao último termo dessa progressão, ou ao acordo universal que constitui a certeza, se afirma algo como verdadeiro, deve-se entender que essa afirmação só tem valor lógico relativamente à razão humana, e significa apenas que o homem está colocado na alternativa ou de renunciar à razão, ou de ter por verdadeira a coisa afirmada, sem que tenha, aliás, o direito de concluir daí, de modo rigoroso, a sua verdade intrínseca... Isto, contudo, não abala de nenhum modo o fundamento de nossos conhecimentos, e seria mesmo contraditório pedir um mais sólido. Pois... há contradição em pedir uma certeza que não seja relativa à natureza do ser que ela deve afetar, e que não dependa dela sob esse aspecto », p. 141-142.
E eis que descobrimos em Lamennais algo do humanismo de Schiller, cf. Dict. apologétique, t. iv, col. 119, Paris, 1922; assim como se pode discernir pragmatismo nos aforismos de Bonald, aceitos e retomados por Lamennais: a utilidade social é o critério da verdade, tudo o que é necessário à sociedade é verdadeiro. Cf. Maréchal, La jeunesse de Lamennais, p. 178. Seja como for, Lamennais não espera ter terminado a sua investigação histórica sobre aquilo que sempre e por toda parte foi admitido por todos, para determinar o conteúdo do símbolo do gênero humano; decreta que esse símbolo corresponde exatamente ao que concebe sob o nome de cristianismo, sob o nome de Religião, isto é, àquelas verdades primeiras que são a base necessária da vida do espírito, da sociedade espiritual.
A pesquisa histórica, como vimos a propósito da Tradição, será guiada pelo fio condutor da teoria; as conclusões são conhecidas de antemão, porque, « na verdade, o homem pode rejeitar antigas crenças e admitir novas; certas religiões podem variar, naquilo que têm de arbitrário, seja em proveito, seja em detrimento da ordem social; mas o fundo subsistiu sempre, sem faltar a uma condição necessária, sem a qual a sociedade teria faltado à sua existência. » Essai, t. i, p. 67-68.
2. A ordem da fé e a ordem da concepção. « Tudo o que é certificado pela razão geral, pelo simples fato de ela o atestar, constitui a ordem da fé. Mas, ao mesmo tempo, está na natureza do homem buscar conceber o que crê, ou, em outros termos, passar da simples fé à inteligência, tanto quanto o comportam os limites de seu espírito. Daí a ordem da concepção. » Sommaire, p. 803. A distinção é familiar aos teólogos: fides quærens intellectum. Em outro lugar, Lamennais dá dela uma noção pouco diferente: « O modo segundo o qual o espírito humano conhece ou possui o Infinito chama-se fé; o modo segundo o qual conhece ou possui o finito chama-se concepção, ciência. A ciência e a fé estão, pois, unidas por um laço natural e indissolúvel: nenhuma concepção sem fé, nenhuma fé sem um começo de concepção ou de ciência. » L'Avenir, 30 de junho de 1831, p. 340.
A ordem da fé corresponderia, portanto, àquelas verdades primordiais que recebemos da razão geral, principalmente às que nos fazem conhecer Deus; a ordem da concepção, ou aos ensaios de explicação racional dos dogmas, ou à ciência propriamente dita, isto é, à explicação racional do universo, à metafísica. Essas duas ordens respondem a « duas necessidades... inerentes à natureza humana: a necessidade de doutrinas comuns, que formam a sociedade dos espíritos, e a necessidade, para cada espírito, de desenvolver a sua atividade particular. » Sommaire, p. 309. Reencontramos aqui os termos do eterno problema: achar um meio-termo que concilie os direitos do indivíduo com os da sociedade, a liberdade com a autoridade, a multiplicidade com a unidade. « A ordem da concepção é livre, no sentido de que nenhum homem pode fazer de suas próprias concepções uma lei para os outros homens. » Sommaire, p. 308. Lamennais o declara, no que concerne ao seu sistema de « filosofia católica », no início de suas conferências de Juilly; Maréchal, Essai d'un système..., p. 14-15.
Mas a ordem da fé impõe-se a todo pensador que queira entregar-se à especulação filosófica, ao mesmo tempo como base indispensável e como regra intangível; Sommaire, p. 305; « pelo simples fato de as teorias contradizerem o que há de constante e de universal na experiência, na consciência e na razão humana, pode-se concluir que contêm ou princípios falsos ou consequências mal deduzidas », p. 306. O filósofo não tem o direito de isolar-se do gênero humano, de contradizer o senso comum. Ora, « o primeiro artigo do símbolo do gênero humano » pode enunciar-se assim: « Creio em Deus, criador do universo, distinto dele e unido a ele. » De la religion, p. 67, Paris, 1841. Tal é também o ponto de partida da filosofia, o dado primordial « que se recebe sem discussão nem demonstração, e de onde se tirará toda a ciência do infinito e do finito. O primeiro artigo de fé encerra, em sua unidade complexa, o infinito e o finito, Deus e o que não é Deus, a Causa necessária de tudo o que é, e o efeito emanado dessa causa, o Criador e a Criação. » Ibid. Logo, ele « exclui ao mesmo tempo o ceticismo, que desemboca na negação de todas as coisas, e o panteísmo, que se resume na identidade de todas as coisas. » Ibid., p. 67-68.
3. A origem das ideias. « Não é mais possível conceber uma inteligência sem verdade, uma inteligência não pensante, porque só se pensa no que é, ou no que pode ser. Para as criaturas inteligentes, viver é, pois, participar do ser de Deus ou de sua verdade, e elas recebem juntamente a verdade e o ser, visto que o ser e a verdade não são senão uma mesma coisa; e, se pudessem dar-se a verdade, dar-se-iam o Ser. Puramente passivas, quando a palavra as fecunda no seio do nada, quando derrama nelas seus pensamentos, as verdades primeiras, não podem nem inventá-las, nem julgá-las, nem recusar-se a recebê-las... Existe, pois, necessariamente, para todas as inteligências, uma ordem de verdades ou de conhecimentos primitivamente revelados, isto é, recebidos originariamente de Deus como as condições da vida, ou antes, como a própria vida; e essas verdades de fé são o fundo imutável de todos os espíritos, o laço de sua sociedade e a razão de sua existência... » Essai, t. ii, p. 218-219.
Eis, pois, ainda um problema filosófico escamoteado. A solução de La Mennais reduz-se a uma combinação do ontologismo de Malebranche e do sistema de Bonald sobre as relações do pensamento e da palavra. A inteligência ou o pensamento não podem existir sem um conteúdo objetivo, sem a ideia do ser; ora, o ser, o ser universal, p. 222, é Deus; logo, nenhuma inteligência pode pensar, pode existir, sem pensar Deus. Não se poderia falar sem nomear Deus, « pois não se poderia falar sem pronunciar ou sem conceber a palavra é... Assim, o homem não pôde existir como ser inteligente, não pôde falar sem conhecer Deus, e não o pôde conhecer senão pela palavra. » Essai, t. ii, p. 222-223.
Mas, assim como o homem, ser finito, contingente, não existe por si mesmo, a sua inteligência, o seu pensamento, a sua visão de Deus, que é tudo um, não é adquirida por ele mesmo: é-lhe dada, e é-lhe dada pela palavra, que é, de certo modo, o sacramento da visão de Deus. « Toda palavra não é senão um eflúvio, uma participação da palavra infinita, do Verbo divino... Na palavra dos seres criados há, pois, duas coisas: o Verbo divino, que só ilumina por sua eficácia, e um limite relativo à natureza dos seres aos quais ele se comunica, nos quais se encarna de alguma maneira. » Esquisse d'une philosophie, t. ii, p. 222-223.
Assim nasce no homem a Inteligência. « A visão do verdadeiro, ou a visão de Deus, é propriamente a inteligência, a razão, naquilo que tem de primitivo; e, consequentemente, a razão implica originariamente (o que quer dizer na origem da humanidade) a revelação ou o concurso de Deus na produção do pensamento, concurso permanente e que não é senão a lei natural do próprio pensamento, impossível sem ele. Assim, todo ato de inteligência, toda visão espiritual implica algo de Deus, uma revelação de si mesmo, e algo do homem, ou a consciência de sua visão, o assentimento interno chamado fé. » De la religion, p. 61. « Inalterável, invencível, essa fé primitiva, idêntica à vida intelectual, não depende de nós de maneira alguma. Não pudemos produzi-la em nós, não podemos destruí-la em nós: ela é o fundo de todo pensamento... O domínio da crença livre começa além, pois a crença livre implica a vontade, que, nascida da inteligência e a supondo, nada pode sobre a fé constitutiva da inteligência. » Ibid., p. 68-69.
4. A Trindade. Duas ideias, diz P. Janet, dominam « mesmo a filosofia da natureza (digamos toda a filosofia) de Lamennais: a ideia de evolução e a ideia trinitária. » Op. cit., p. 126. É preciso acrescentar-lhes a ideia de sociedade, ou da multiplicidade reconduzida à unidade, da qual a Trindade oferece, aliás, o tipo ideal. Cf. Maréchal, Essai d'un système..., p. xxvi e seg. E a razão do lugar importante que a doutrina da Trindade ocupa no sistema de Lamennais é que, « sendo o Ser infinito o princípio de tudo o que é, nada pode ser conhecido senão na medida em que se o conhece a ele mesmo. Só ele é a razão dos seres que existem fora dele; suas leis são as leis deles, e a noção que se pode formar deles, naquilo que têm de radical, deriva de tal modo da noção que se fez do Ser necessário, que o edifício inteiro da ciência não tem outra base. » De la religion, p. 77-78. A ideia trinitária desempenha, na filosofia de Lamennais, o mesmo papel que a teoria do ato e da potência na de Aristóteles.
Mas o dogma cristão da Trindade, se podia figurar no Essai d'un système de philosophie catholique, não causará espanto encontrá-lo na Esquisse d'une philosophie? Lamennais previu a objeção. « Mostramos que o dogma cristão da Trindade, resultado do trabalho da razão humana durante longos séculos e de seu desenvolvimento progressivo, é o ponto mais alto a que ela chegou até agora na ciência de Deus, e que esse dogma continuará sendo a base inabalável, quaisquer que sejam os progressos futuros dessa mesma razão. » Esquisse, t. i, p. xiii. Talvez ele ainda não pertença à ordem da fé, não tendo sido ainda sancionado pelo consentimento universal, mas entra na ordem da concepção, na « teologia ».
« Embora rigorosamente uno, o Ser tem, contudo, propriedades necessárias como ele, infinitas como ele, pois não são senão ele mesmo, e distintas entre si; pois são as propriedades que determinam o Ser, que o constituem o que ele é; e a ausência de todas as propriedades não é senão a ausência total do Ser. » Esquisse, t. i, p. 47. « Se, contemplando o Ser infinito, tentamos descobrir as suas propriedades necessárias, achamos que a ideia do Ser encerra, em primeiro lugar, a de força ou de potência; pois, para ser, é preciso poder ser, e a existência implica a noção de uma energia pela qual ela é perpetuamente realizada », p. 48. A segunda propriedade contida na « ideia do Ser infinito » é a inteligência, pois visivelmente lhe faltaria algo que pode ser e que é, ou ele não seria infinito, se não fosse inteligente. Ele não seria sequer de nenhuma maneira; sua existência implicaria contradição, pois nada poderia existir sem forma, e a forma não é senão a inteligência sob outro nome. Ibid. « Sendo o que é necessariamente determinado, a substância implica uma forma que a determina; e, como, determinando-a, a torna por isso mesmo inteligível, e como o Ser infinito só é completamente inteligível para si mesmo, a forma que o torna inteligível é a própria Inteligência, ou o conhecimento íntimo que ele tem de si. » De la religion, p. 86.
Enfim, eis como Lamennais descobre uma terceira e última propriedade « na noção do ser »: « a potência e a inteligência, essencialmente distintas, devem ser reconduzidas à unidade da substância, sem o que a sua coexistência no Ser infinito seria contraditória. Somos, pois, obrigados a conceber na substância uma terceira propriedade, que opere nela a união da potência e da inteligência; e esse princípio infinito de união, que se chama amor, é a própria vida de Deus; pois, em todos os seres, a vida não é senão a união da força pela qual o ser é, e da forma que, determinando-o a ser o que é, é a sua razão sob esse aspecto. » De la religion, p. 86-87. « Há, pois, no Ser infinito três propriedades necessárias, e não há senão três, pois todas as outras que se tentasse nomear não são senão essas propriedades essenciais concebidas sob relações particulares, segundo suas operações próprias. » Esquisse, t. i, p. 49-50.
Resta apenas mostrar que essas três propriedades necessárias constituem três pessoas; eis como se chega a isso: « Essas três propriedades essenciais do Ser absoluto, distintas e ao mesmo tempo infinitas, são necessariamente concebidas sob uma noção análoga à de pessoa, visto que a personalidade está evidentemente encerrada na ideia do soberano Ser e que, por conseguinte, tudo o que ele contém tendo nele um modo de existência pessoal, tudo o que ele contém de essencialmente distinto tem nele necessariamente uma personalidade distinta. » De la religion, p. 87.
5. A Criação, ou relações do infinito e do finito. « Criar é produzir ou realizar no exterior o que antes só tinha existência no entendimento divino. E, uma vez que, ao criar, Deus dá o ser, esse ser que ele dá, ele o tira de si, pois evidentemente não pode existir nenhuma porção de ser que não tenha a sua fonte no Ser infinito. » Esquisse, t. i, p. 104-105. « A realização exterior das ideias divinas, ou a criação, nada retira do Ser infinito, nada lhe acrescenta.
Ela nada retira dele, pois os tipos eternos que estavam no Ser infinito nele permanecem imutavelmente; nada lhe acrescenta, pois dela não resulta nenhuma produção de ser ou de substância, a qual é impossível em si. » Ibid., p. 106. Assim, a criação não é senão a « produção no exterior das ideias divinas », ou, para dizer melhor, a reprodução, sob o modo finito, em inúmeros exemplares, cada vez mais perfeitos, da substância de Deus e das propriedades que lhe são inerentes. Mas é aí que está para nós o mistério impenetrável: não podemos « conceber como a mesma substância pode subsistir simultaneamente em dois estados diversos, um finito, outro infinito. Não nos espantemos com isso, pois sabemos que a substância é, para todos os seres finitos, radicalmente incompreensível. » Ibid. « É, aliás, o único mistério que nunca poderá ser compreendido pela criatura. » Essai d'un système, p. 28.
Logo, a criação (aqui o ser criado) não é, naquilo que a constitui radicalmente, « senão uma participação da substância de Deus e das propriedades que lhe são inerentes, de modo que, por aquilo que tem de positivo, é algo do próprio Deus, menos Deus, e o caráter incomunicável de infinito exclusivamente próprio do Ser absoluto. Sua separação de Deus, ou sua existência fora dele, resulta da oposição entre a sua essência necessariamente finita e a essência necessariamente infinita de Deus. » De la religion, p. 94. « Essa doutrina de Lamennais, diz P. Janet, pouco conhecida ou esquecida, foi retomada em nossos dias pelo Sr. Ravaisson em seu Rapport sur la philosophie du XIXe siècle (sic). Pode-se perguntar em que essa doutrina se distingue do panteísmo, que Lamennais chamou um sistema monstruoso. Considerou-se geralmente a unidade de substância como o traço essencial e característico do panteísmo. Em. Saisset o caracterizava justamente nestes termos: « a consubstancialidade do finito e do infinito ». Ora, não há dúvida de que, no sistema de Lamennais, Deus e o mundo são consubstanciais. Ele nega, contudo, que seja panteísta por isso. » Op. cit., p. 115.
Reproduções, manifestações, por que não dizer encarnações de Deus, cf. Esquisse, t. i, p. 150, o papel das criaturas, sobretudo das criaturas dotadas de inteligência, é manifestá-lo cada vez mais, por um desenvolvimento indefinido que as aproxima sempre mais de seu tipo infinito, sem que possam, contudo, jamais chegar a atingi-lo. « Naquilo que tem de positivo, a criação é algo de Deus, uma real participação de sua substância e de suas propriedades. Suas leis, desde então, são as leis de Deus, modificadas em cada ser segundo a sua natureza própria; e, em sua evolução contínua, ela tende a manifestar Deus cada vez mais, a reproduzi-lo segundo tudo o que ele é, sob as condições do tempo e do espaço, e consequentemente a unir-se cada vez mais a ele, a absorver-se nele, se fosse possível que essa reprodução jamais fosse completa. » De la religion, p. 135-136. « O universo não é senão uma grande comunhão, pela qual se prepara e se elabora, de alguma maneira, a unidade para a qual tende, e que nunca será consumada, porque seria a completa reprodução do Ser infinito, sob condições contraditórias com a sua essência. » Ibid., p. 139.
Uma teoria tão otimista da criação e da eterna ascensão das criaturas para Deus devia levar Lamennais a repudiar o dogma cristão da eternidade das penas do inferno e a reconduzi-lo à apocatástase origenista: o homem não nasce no pecado, « mas na inocência; e, quando, tornado inteligente e livre, falha, só arrasta a si mesmo em sua queda; e essa queda não é eterna, pois, de outro modo, o mal seria eterno e infinito, e desde então seria de si, seria um princípio oposto a Deus e independente dele, seria Deus como ele e a igual título que ele. Tudo o que cai se levanta; tudo o que se afasta da ordem, sujeito ainda às suas leis, contra as quais nada prevalece, nela volta a entrar um dia; tudo o que está doente cura-se mais cedo ou mais tarde. » De la religion, p. 100.
2° A filosofia da religião. Que é a religião, e como se pode conceber o desenvolvimento da religião na história da humanidade: esses dois problemas esgotam toda a matéria de uma filosofia da religião.
1. Definição da religião. A religião considerada « em geral é o laço que une a criação ao seu autor. » De la religion, p. 41-42. Em outras palavras, é o conjunto das leis pelas quais Deus governa o universo: cada ser tem as suas leis próprias, que se ligam ordenadamente às leis dos outros seres entre si, e todas idênticas no fundo às leis do próprio Deus, que elas manifestam fora dele, p. 43. « O conjunto das leis constitui a ordem universal, que não é senão a variedade reconduzida à unidade, encadeando-se as leis às leis, como os seres se encadeiam aos seres na criação. » Ibid. Mas, se as leis da criação são « idênticas no fundo às leis do próprio Deus », pode-se dar da religião uma definição ainda mais geral do que a precedente, e dizer que a religião encerra « as leis essenciais dos seres, enquanto abrangem a causa necessária e os efeitos contingentes, Deus e as criaturas », p. 13-14.
Em sentido mais restrito, « a religião é a lei superior das criaturas inteligentes, o laço que as une entre si unindo-as a Deus, a razão do direito e a regra do dever. » Ibid., p. 29-30. Como os seres privados de inteligência e de liberdade, as criaturas espirituais também são governadas por leis no exercício de sua atividade superior, de sua inteligência, de seu amor e de sua vontade. Essas leis, que elas têm o triste privilégio de poder transgredir, mas de maneira sempre parcial e transitória, ibid., p. 9, sem o que não poderiam subsistir, governam « a sociedade geral das inteligências de que Deus é o monarca supremo. » Essai, t. i, p. 263. Aplicada especialmente ao homem, « a religião... pode ser definida a lei eterna da humanidade, ou a lei da sociedade universal e perpétua, que, compreendendo as gerações passadas, presentes e futuras..., não é outra senão o próprio gênero humano. » De la religion, p. 39-40.
« Digam o que disserem muitos, ela regula todo o homem e determina o caráter da sociedade, pois é o conjunto dos princípios primeiros de que decorrem todos os outros. » Ibid., p. 14. Em definitivo, a religião não é outra coisa senão a razão geral, que não é ela mesma senão uma participação, uma manifestação da razão divina, do Logos. Assim como a « verdadeira razão humana, imagem da razão divina, de que emana, é una e universal, assim também o cristianismo é uno e universal, porque não é, em seus dogmas, senão essa mesma razão, ou o conjunto das verdades necessárias que Deus nos manifestou, e, em seus preceitos, senão o conjunto dos deveres que decorrem dessas verdades, ou a lei una e universal, não só de todos os homens, mas ainda, no que lhe constitui a essência, de todos os seres inteligentes. » Essai, t. iii, p. 189.
2. A sequência da religião. « Sob suas diversidades aparentes, a religião nunca variou naquilo que tem de radical. Feita toda a parte do erro, dos abusos e das corrupções, apresenta uma sequência contínua de esforços dirigidos no mesmo sentido, para chegar ao conhecimento do Ser infinito e de suas leis, de que derivam as leis da criação. » De la religion, p. 156. Mas « permanecendo sempre imutavelmente a mesma, é também de sua essência revestir sucessivamente, seja na inteligência do homem, seja na sociedade exterior, formas diversas, à medida que uma e outra se desenvolvem sob sua influência. » L'Avenir, 30 de junho de 1831, p. 338. Assim, pode-se reconhecer na história da religião um duplo desenvolvimento: o desenvolvimento das formas intelectuais que ela reveste na inteligência do homem, e o desenvolvimento das formas sociais que ela determina, ou da sociedade espiritual de que é o laço, a condição de existência fundamental; desenvolvimentos paralelos entre si, e coordenados, por outro lado, com a evolução geral da humanidade. « A religião é una, imutável, universal, mas... progressiva...; cumpre, segundo fases que a ordem geral determina, sua eterna evolução, idêntica à do homem. » De la religion, p. 9-10.
a) Desenvolvimento do conhecimento religioso. Uma vez que a religião não é outra coisa senão a razão, « a fé constitutiva da inteligência », a iluminação do Verbo, imprimindo na criatura espiritual a sua semelhança, signatum est super nos lumen vultus tui, a religião começa no instante em que o próprio homem « começa a ser inteligente; sua origem é ao mesmo tempo divina e natural », p. 146-147. « Para que o progresso se cumprisse e a humanidade atingisse seu fim, era preciso que, além da simples fé, mas partindo dela, a razão operasse sua laboriosa evolução, que se esforçasse por conceber sua crença, por penetrar em Deus para melhor conhecê-lo e deduzir de suas leis as leis da criação. O que a religião oferece de diverso em suas manifestações entre os diferentes povos representa as fases desse trabalho », p. 148-149. Lamennais distingue três, representadas pelas « religiões da natureza », o politeísmo e o cristianismo. As religiões da natureza « não eram senão um esforço do espírito para descobrir, na unidade do Ser infinito, as suas propriedades essenciais », p. 151. « Mas logo se reconheceu que essas propriedades, essas potências distintas inerentes ao soberano Ser, implicavam em si necessariamente a ideia de pessoa: daí o politeísmo, que foi um verdadeiro progresso, embora, personificando as propriedades, se tenham esquecido demasiado as próprias propriedades, de que a personalidade não é senão o modo de existência, e nas quais reside fundamentalmente toda a realidade. » Ibid.
O cristianismo, « completando a obra dos séculos precedentes, resolveu (o problema de Deus, de sua essência, de suas leis internas), ao menos em parte. Determinou o número e a noção das pessoas divinas, sem determinar, contudo, a das propriedades que as caracterizam e de que elas não são senão o modo de existência », p. 152-153. Enfim Lamennais apareceu! « Tentamos, diz ele, preencher a lacuna que apresenta a esse respeito o dogma cristão... Trata-se de operar uma profunda síntese que abranja em sua unidade as religiões da natureza e as religiões fundadas na ideia de personalidade, ou que, satisfazendo à dupla necessidade do espírito, resolva, em suas bases metafísicas e científicas, o problema de Deus e da Criação », p. 154-155.
Essa lacuna na concepção da Trindade não é a única censura que Lamennais dirige ao cristianismo tradicional. « O cristianismo, divino e humano ao mesmo tempo, contém por esse motivo dois elementos: um correspondente à verdade imutável, eterna e, contudo, progressiva quanto a nós; o outro relativo às nossas concepções, que se modificam com as idades », p. 159. O cristianismo « fixou a noção de Deus e a da criação distinta dele e unida a ele. Revelou simbolicamente, no dogma eucarístico, a verdadeira lei de vida. Promulgou a lei moral, a lei do dever e do direito, sob sua expressão mais perfeita... », p. 159-160. « Mas, pela falsa ideia de uma ordem sobrenatural, geralmente difundida outrora por causa da ignorância das leis da criação ou das causas segundas derivadas da causa primeira », produziu toda uma série de crenças que a razão já não poderia admitir. Enfim, um vasto campo a cultivar estende-se ainda diante do cristianismo, livre dessa « ideia contraditória de uma ordem sobrenatural ». « Até aqui confinado, no que diz respeito ao dogma, à teologia pura, e, no que diz respeito aos preceitos, à vida doméstica, às relações individuais, ainda não penetrou diretamente nem na ciência nem nas instituições sociais », p. 165.
Mas não há « nenhuma possibilidade de que o cristianismo continue sua evolução, de que se una à ciência e à sociedade de maneira íntima e direta, a menos que se transforme em virtude de uma concepção nova do que ele é em si, por sua essência; a menos que, despojando-se do caráter sobrenatural que lhe imprime uma crença fundada numa visão obscura e confusa das coisas, volte a entrar no recinto das leis naturais do homem; e essa transformação, difícil e lenta, mas certa, começa a operar-se sob os nossos olhos.
Ela marcará, na história da humanidade, um desses momentos solenes que encerram uma era e abrem outra, em que tudo parece perecer e em que tudo renasce », p. 166-167.
b) Desenvolvimento da sociedade religiosa. Na esteira de Bonald, Lamennais distinguiu primeiramente duas épocas no desenvolvimento da sociedade espiritual ou religiosa: « Antes de Jesus Cristo existia uma sociedade espiritual e visível, sociedade universal, mas puramente doméstica, que conservava o depósito das verdades necessárias... Tendo-se desenvolvido a religião primitiva..., a sociedade espiritual desenvolveu-se igualmente; aperfeiçoada em sua constituição e em suas leis, tornou-se sociedade pública. » Essai, t. ii, p. 385-386. Lamennais não aceita a aventurosa hipótese de Ventura de uma « sucessão regular de personagens infalíveis que, sob o aspecto do ensino da fé, teriam substituído antes de Jesus Cristo o pontífice supremo da lei nova. » Lettre à Ventura, 20 de janeiro de 1827, Études, 20 de abril de 1910, p. 242-243. Essa ausência « de tribunal exterior divinamente instituído para proclamar infalivelmente a doutrina é (precisamente) o que distingue a Igreja menos perfeita antes de Jesus Cristo da Igreja mais perfeita depois de Jesus Cristo. » Por outro lado, o estabelecimento do « povo de Deus » sob a lei mosaica não constitui uma modificação de toda a sociedade espiritual, que abrange o gênero humano. Cf. Essai, t. iii, c. xxiii. Portanto, duas grandes épocas apenas na evolução da sociedade espiritual: antes de Jesus Cristo, sociedade puramente doméstica ou natural; desde Jesus Cristo, sociedade pública ou « constituída ».
Mas, a partir do dia em que o papa recusou seguir o programa de renovação do catolicismo que Lamennais lhe propunha, este começou a profetizar uma « dispensação » nova do cristianismo. Cf. Duine, p. 183-184; Dudon, p. 363-364. « Mais cedo ou mais tarde, uma grande religião, que não será senão uma fase da religião imutavelmente una..., sairá do caos atual e realizará entre os homens uma unidade mais vasta do que o passado jamais conheceu. » De la religion, p. 21-22. Ninguém poderia prever como se operará essa transformação, ou como se quiser chamá-la, esse movimento novo do cristianismo no seio da humanidade; mas operar-se-á sem nenhuma dúvida, e grandes massas de homens serão por ele arrastadas... Será de início como um ponto que mal se perceberá, uma fraca agregação de que talvez se riam. Pouco a pouco esse ponto se estenderá, essa agregação se dilatará, afluirão a ela de todas as partes, porque será um refúgio para tudo o que sofre na alma e no corpo; e a humilde planta tornar-se-á uma árvore cujos ramos cobrirão a terra, e sob cuja folhagem virão abrigar-se as aves do céu. Affaires de Rome, p. 302-303.
Conclusão. Juízo sobre a doutrina de Lamennais. Não nos cabe aqui apreciar a importância do papel de Lamennais na história da Igreja ou na história da França. É incontestável que o fundador de L'Avenir foi o pai do liberalismo católico e dos diversos movimentos de pensamento que, com razão ou sem ela, diversas pessoas quiseram vincular a este. O teólogo perguntar-se-á sobretudo que influência Lamennais pôde exercer sobre o movimento teológico e filosófico, e sobretudo de que aquisições duráveis a teologia e a filosofia lhe seriam devedoras.
Lamennais foi trabalhado por uma imensa ambição, a de renovar o edifício inteiro dos conhecimentos humanos e de reuni-lo num sistema em que todos estivessem encadeados e rigorosamente deduzidos de alguns princípios. Desse ponto de vista, aproxima-se dos teólogos católicos alemães a quem se deu o nome muito impróprio de semirracionalistas, como Hermes e Günther. Como eles, remexeu muitas ideias, tocou em muitas questões; mas que restará desse esforço titânico? Uma epopeia metafísica, a « Esquisse d'une philosophie »; uma teoria do fundamento da certeza, que traz « a marca de um espírito desprovido de senso filosófico »; uma apologética no mínimo ineficaz, pois não consegue demonstrar o que seria preciso demonstrar, se ao menos se quer servir-se dela para demonstrar a divindade do catolicismo integral; uma defesa do primado e da infalibilidade do papa fundada principalmente em considerações filosóficas e políticas; enfim, uma filosofia da religião que nada tem a ver com o estudo objetivo das religiões e de sua história, tendo sido Lamennais ainda mais desprovido de senso histórico do que de senso filosófico.
O juízo de Lambruschini era exato: Lamennais não era um teólogo e quase não pode servir ao teólogo católico. A tirada final do testamento de Rohrbacher não carece de verdade, no que se refere ao valor teológico de Lamennais: « Escritor em dois tomos: o primeiro diz sim, o segundo não; valor total, zero. »
A bibliografia de Lamennais está toda feita no Essai de bibliographie de Félicité Robert de La Mennais publicado pelo Sr. Duine, Paris, 1923. Contentar-nos-emos em indicar aqui, segundo a ordem alfabética dos autores, as principais obras ou artigos que nos parecem interessar mais ao teólogo ou ao filósofo; o número entre parênteses remete ao Essai do Sr. Duine. Assinalaremos apenas escritos em língua francesa.
Affre, Essai historique et critique sur la suprématie temporelle du pape et de l'église. Ouvrage... où l'on répond aux trois derniers écrits de M. de La Mennais..., in-8°, Amiens, 1829 (213); Jules Arboux, Lamennais, em Encyclopédie des sciences religieuses de Lichtenberger, t. vii (633); Mgr d'Astros, archevêque de Toulouse, Censure de cinquante-six propositions... (336); cf. R. P. Caussette, Vie du cardinal d'Astros, Paris, 1853 (506); Auguste Barbet, Les derniers moments de Lamennais, dans Notice sur les trois frères Barbet 1919 (511); Hippolyte Barbier, Biographie du clergé contemporain par un solitaire (424); Barthou, Lettres inédites de Lamennais à Saint-Victor, Revue des Deux Mondes, 1 et 15 novembre 1923; Baston, docteur de Sorbonne, Antidote contre les erreurs et la réputation de l'Essai..., 1823 (122); Bautain, Réponse d'un chrétien aux Paroles d'un croyant, Strasbourg, 1831 (281); A. Bellessort, Conférence sur Lamennais, publiée dans la Revue française, 5 février 1911; J. Bellugou, Essai de réfutation du système erroné et dangereux que prétend établir M. l'abbé F. de la Mennais dans le t. II de son Essai..., 1821 (106); Benoît-Champy, Quelques souvenirs sur la mort de M. de Lamennais, Relation inédite (509); Louis Binaut, Lamennais et sa philosophie. Quelle en fut l'origine, quel en fut le sens? Revue des Deux Mondes, 15 de agosto de 1860 (558); do mesmo, Joseph de Maistre et Lamennais. Les tendances communes et les résultats définitifs de leur philosophie, ibid., 1º de fevereiro de 1861 (567); A. Blaize, Essai biographique sur M. F. de la Mennais, 1858 (511); do mesmo, Œuvres inédites de F. Lamennais, 1866, 2 vol. in-8º, t. I, Correspondance; t. II, Correspondance, Mélanges religieux et philosophiques. Esses Mélanges contêm Lettres à un Anglais sur le protestantisme, 1815...; Mémoire adressé à Léon XII sur l'état de l'Église en France (incompleto;...) (71); M. Blondel, Une note inédite de La Mennais contre la religion naturelle et le semi-déisme, nos Annales de philosophie chrétienne, setembro de 1912 (875); Bordage, La philosophie de La Mennais, Estrasburgo, 1869 (606); C. Boutard, Lamennais, sa vie et ses doctrines, t. I, 1905; t. II, 1908; t. III, 1913 (791).
Boyer, Antidote contre les aphorismes de M. F. de la Mennais, 1826 (150); Examen de la doctrine de M. de la Mennais, 1834 (266); Défense de l'ordre social contre le carbonarisme moderne, avec un jugement sur M. de la Mennais considéré comme écrivain, et une dissertation sur le romantisme, 1835, 2 in-8º; Bremond, L'inquiétude religieuse, IIe série, 1909 (830); Pour le romantisme, 1923; Brunetière, Lamennais, Revue des Deux Mondes, 1º de fevereiro de 1893 (690); Brute, bispo de Vincennes, Rapport au pape sur son entretien avec La Mennais, 1º de março de 1836 (343); cf. abade Charles Brute de Rémur, Vie de Mgr Brute de Rémur, premier évêque de Vincennes, Rennes, 1887 (664); Cacheux, Principaux systèmes philosophiques en France depuis 1800, 1834 (267); C. Calippe, Les relations d'Auguste Comte et de Lamennais, na Revue du clergé français, 1º de outubro de 1918 (900); Caro, Nouvelles études morales sur le temps présent, 1869 (601); L. H. Caron, Démonstration du catholicisme, 2 vol. in-8º, 1834-1836 (270); A. Chrétien, Le christianisme de Lamennais, Berna, 1897 (170); Combalot, Éléments de philosophie catholique, 1833 (262); Lettre de M. l'abbé C. à M. F. de la Mennais, en réponse à son livre contre Rome, Tournay (347); Deuxième lettre..., Paris, 1837 (352); cf. Ricard, L'abbé Combalot. L'action catholique de 1820 à 1830, Paris, 1891 (680); Damiron, Essai sur l'histoire de la philosophie en France au XIXe siècle, 1828 (192); Debidour, Histoire des rapports de l'Église et de l'État en France de 1789 à 1870, Paris, 1898 (718); Lamennais et le parti néo-catholique, na Revue des cours et conférences, 31 de março de 1910 (848).
Dudon, Lamennais et le Saint-Siège (1820-1834), 1911; Fragment d'un mémoire inédit de Lamennais à Léon XII, em Recherches de science religieuse, setembro-outubro de 1910 (856); Lamennais et les jésuites, em Études, 5 de junho de 1908; Trois lettres inédites de Lamennais au P. Godinot, jésuite, Études, 20 de outubro de 1909; Lettres inédites de Lamennais au chanoine Buzzetti, Études, 20 de janeiro de 1910; Lettres inédites de Lamennais à Ventura, Études, 5 de março, 20 de abril, 5 de junho de 1910; Lamennais fondateur d'ordres, Études, 20 de novembro de 1910; Lettres de Lamennais à de Coux (1832-1835), Études, 5 de abril de 1911; « L'Imitation » de Lamennais, Études, 20 de março de 1912; La bibliothèque de Lamennais, Études, 20 de abril de 1912; Bibliothèque des Dames chrétiennes publiée sous la direction de Lamennais (1820-1825), Études, 5 de julho de 1923; Duine, La Mennais, l'homme et l'écrivain. Pages choisies, 1912 (863); Documents ménaisiens, 1919 (904); La Mennais, sa vie, ses idées, ses ouvrages, d'après les sources imprimées et les documents inédits, 1922 (919); Faguet, Politiques et moralistes du XIXe siècle, t. I, 1898 (716); A. Feugère, Lamennais avant l'Essai sur l'indifférence, 1906 (805); Flottes, M. l'abbé de Lamennais réfuté par les autorités mêmes qu'il invoque, ou observations critiques sur les IIIe et IVe volumes de l'Essai... 1825 (133); A. Franck, Philosophie du droit ecclésiastique.
Des rapports de la religion et de l'État, 1864 (588); Gerbet, Réflexions sur la chute de M. de la Mennais, 1838; Des doctrines nouvelles de M. de la Mennais, 1838 (364); Gioberti, Lettres sur les doctrines philosophiques et politiques de M. de Lamennais, Bruxelas, 1843 (431); Victor Giraud, Le « cas » de Lamennais, na Revue des Deux Mondes, 1º de março de 1919 (902); Points obscurs de la vie de Lamennais, ibid., 1º de setembro de 1922 (936); G. Goyau, La pensée religieuse de J. de Maistre, II, 1792-1821 (909); Mons. Guillon, Histoire de la nouvelle hérésie, ou réfutation des ouvrages de l'abbé de Lamennais, 3 in-8º, 1835 (338); Harispe, Lamennais et Gerbet, 1909 (832); Jammes, Le sens commun de M. Gerbet... suivi de deux appendices sur le sens commun de M. de La Mennais et de M. Laurentie, 1827 (191); Paul Janet, La philosophie de Lamennais, 1890 (676); Étienne Jondot, L'antipyrrhonien, ou réfutation complète des principes contenus dans le IIe vol. de l'Essai..., 1821 (111); Éloi Jourdain ou Charles Sainte-Foi, Souvenirs de jeunesse (1828-1835), publicados por Camille Latreille, 1911 (862); Julliard, Lamennais, son œuvre et son évolution religieuse, Genebra, 1899 (731).
Lacordaire, Considérations sur le système philosophique de M. de la Mennais, 1834 (289); Lettre sur le Saint-Siège, 1836. Reproduzida nos Mélanges do autor (349); de Ladoue, Vie de Mgr de Salinis, évêque d'Amiens, archevêque d'Auch, 1861 (587); Mgr Gerbet, sa vie, ses œuvres et l'école ménaisienne, 1870 (610); Jean-Marie de Lamennais, Mémoire relatif au sens et à la portée de l'encyclique Mirari vos, em Laveille, Jean-Marie de La Mennais, t. I, p. 548-550; Latreille, Une tentative de conversion de Lamennais, em La Quinzaine, 1º de outubro de 1906 (800); Laurentie, Introduction à la philosophie, ou traité de l'origine et de la certitude des connaissances humaines, 1826 (159); Souvenirs inédits, publicados por seu neto, 1892 (685, cf. n. 516); Laveille, Lamennais, directeur des âmes, na Revue du clergé français, 15 de maio de 1896 e 1º de julho (708); Lamennais et les études ecclésiastiques, ibid., 1º de julho e 1º de novembro de 1897 (709); Lettres de Lamennais à M. Emmanuel d'Alzon, na Revue bleue, 9 e 16 de abril de 1898 (721); Lettres de Lamennais à Benoit d'Azy, em La Quinzaine, 15 de julho, 1º e 15 de agosto de 1896 (722); Les deux La Mennais et les études ecclésiastiques, ibid., 16 de junho de 1901 (740); Lamennais et ses anciens amis après 1838, em La science catholique, abril de 1902 (748); Jean-Marie de La Mennais, 1903 (753); Lazerges, Lamennais, étude sur l'unité de sa pensée, Montauban, 1895 (704); Lecanuet, Montalembert, t. I, 1895 (703); Lerminier, Lettres philosophiques..., VIII, De l'Église et de la philosophie catholique, M. de la Mennais.
Revue des Deux Mondes, 15 de setembro de 1832 (252); Les adversaires de M. de La Mennais, ibid., 1º de setembro de 1834 (303); Du radicalisme évangélique. Le « livre du peuple », ibid., 1838, t. I (372); A. Leroy-Beaulieu, Les catholiques libéraux, L'Église et le libéralisme, de 1830 à nos jours, 1885 (654); Longhaye, Lamennais, em Études, 20 de maio, 5 e 20 de junho de 1900 (737); Madrolle, Histoire secrète du parti et de l'apostasie de M. de la Mennais, 1834 (272); Mainage, La chute de Lamennais, na Revue pratique d'apologétique, 1º de março de 1916 (895); C. Maréchal, Un fragment inédit de « l'Esquisse d'une philosophie », na Revue de métaphysique et de morale, novembro de 1898 e janeiro de 1899 (726); La clef de « Volupté », 1905 (779); Essai d'un système de philosophie catholique, 1906 (797); La jeunesse de La Mennais, 1913 (880); Un centenaire : le premier volume de l'Essai sur l'indifférence, em Le Correspondant, 10 de dezembro de 1917 (899); Maret, Le néo-christianisme de M. de Lamennais et sa traduction des Évangiles, em Le Correspondant, 1846, t. XIV (446); Mercier, Lamennais d'après sa correspondance et les travaux les plus récents, 1895 (699); Mourret, Le mouvement catholique en France de 1830 à 1850, 1917 (898); O'Mahony, Souvenirs politiques, 1831 (234); Joseph d'Ortigues, Maladie et derniers moments de M. de Lamennais, 1845 (510); Paganel, Considérations... ou examen critique des opinions de M. de la Mennais, 1824 (126); Doctrine de M. l'abbé de la Mennais, déférée... à la cour de Rome, 1827 (190); Paguelle de Follenay, Monsieur Teysseyre, 1882 (642); J.-M. Peigné, Lamennais, sa vie intime à La Chênaie, 1864 (589); C. Périn, Le modernisme dans l'Église, 1881 (638); N. Peyrat, Béranger et Lamennais, Correspondance, entretiens et souvenirs, 1861 (564); Pujol, Coup d'œil sur le système religieux et politique de L'Avenir, Toulouse, 1831 (238); Quérard, Notice bibliographique des ouvrages de M. de Lamennais, de leurs réfutations, de leurs apologies et des biographies de cet écrivain, 1849 (78); Rastoul, Le P. Ventura, 1906 (804); Histoire de la démocratie catholique en France, 1780-1903, 1913 (881).
G. Reyss, Lamennais apologiste catholique, étude biographique et critique, Genebra, 1887 (665); Mgr Ricard, L'école ménaisienne : Lamennais, 2ª edição, 1883 (645); L'école ménaisienne, Salinis, Gerbet et Rohrbacher, 1883 (646); Rohrbacher, Catéchisme du sens commun, 1825 (134); Histoire universelle de l'Église catholique. A 6ª edição, 1872, começa pela Notice biographique et littéraire sur l'abbé Rohrbacher, de Charles Sainte-Foi. A Notice termina com o testamento de Rohrbacher, que contém a indicação de seus diversos escritos, em particular uma obra manuscrita, Justification des doctrines contre une censure de M. de Lamennais imprimée à Toulouse.
Ver no t. XIV dessa edição o l. XCI, de 1802 a 1852, § 4, 1815 a 1848, para a história de Lamennais; A. Roussel, Lamennais d'après des documents inédits, Rennes, 1892 (689); Lamennais intime, 1897 (713); Lamennais et ses correspondants inconnus : Des Saudrais, Querret, Caron, Guéranger, Vuarin, Macé de la Villéon, 1912 (869); Lamennais à La Chênaie, 1909 (843); Derniers jours et mort de Lamennais, Friburgo, 1913 (878); Rozaven, Examen d'un ouvrage intitulé : Des doctrines philosophiques sur la certitude... par l'abbé Gerbet, 1831 (241); Lettre sur le système philosophique de l'abbé de la Mennais, 1851 (498); Sainte-Beuve, L'abbé de La Mennais, Revue des Deux Mondes, 1º de fevereiro de 1832 (242); Paroles d'un croyant, ibid., 1º de maio de 1834 (294); Affaires de Rome, ibid., 15 de novembro de 1836 (346); esses três artigos estão reproduzidos em Portraits contemporains, t. I; Correspondance de Lamennais, em Nouveaux lundis, t. I, 1863 (563); Œuvres inédites de F. de La Mennais, publiées par M. A. Blaize, em Nouveaux lundis, t. XI (601); Scherer, Mélanges de critiques religieuse, 1860 (557); Segretain, Examen raisonné de la doctrine philosophique de F. Lamennais, 1843 (438); Sénac, Le christianisme considéré dans ses rapports avec la civilisation moderne, 1837 (354); Spuller, Lamennais, Étude d'histoire politique et religieuse, 1892 (683); Trébutien, Maurice de Guérin, journal, lettres et poèmes, avec une notice écrite par Sainte-Beuve, et les Impressions et souvenirs de F. du Breil de Marzan, 1861 (561); Ventura de Raulica, Lettre sur la dernière disposition d'esprit de M. l'abbé F. de Lamennais, nos Annales de philosophie chrétienne, novembro de 1857 (545); Viatte, Le catholicisme chez les romantiques, 1922 (1161); Vincent, Observations sur l'unité religieuse, en réponse au livre... intitulé Essai..., 1820 (104); Vrindts ou Wrindts, Nouvel essai sur la certitude, 1828 (193); Les erreurs de M. de La Mennais, 1832 (247); Les Paroles d'un croyant, revues, corrigées et augmentées, 1834 (289).
A. Fonck.
Autor original: A. Fonck
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