LALLEMANT Luís, jesuíta francês, criou no século XVII um movimento de ascetismo e de mística pouco extenso, mas muito caracterizado. I. O homem. II. O livro. III. A doutrina. IV. A escola.
I. O HOMEM. O P. Luís Lallemant, nascido em Châlons-sur-Marne em 1588 (ou 1587), entrou, em 1605, no noviciado dos jesuítas de Nancy. Terminado o noviciado, seguiu os cursos de filosofia e de teologia na Universidade de Pont-à-Mousson, e ele próprio ensinou filosofia durante três anos no colégio de La Flèche. Foi em seguida aplicado à pregação, primeiro na residência de Bourges, depois na de Rouen, onde se tornou mestre dos noviços de 1622 a 1625. Depois de um ano que passou em Paris como professor de teologia escolástica, voltou a Rouen, para dirigir ali esse segundo noviciado que santo Inácio reserva aos sacerdotes de sua Companhia, ao fim de seus estudos, antes de autorizá-los a pronunciar seus últimos votos. Foi então que o P. Lallemant deu aquela série de conferências cuja substância nos foi conservada no livro intitulado La vie et la doctrine spirituelle du P. Louis Lallemant. Obrigado pela fadiga a interromper esse ensino, voltou a Bourges, onde morreu em 1635, com a idade de quarenta e sete anos.
O P. Lallemant deixou a reputação de um homem de Deus, absolutamente morto para si mesmo, animado do mais puro espírito sobrenatural e favorecido de graças de oração mais que ordinárias. Foi um dos mais ardentes promotores do culto de são José, havia feito o voto do mais perfeito, e as almas adiantadas nas vias interiores recorriam a ele como a um oráculo.
II. O LIVRO. O P. Lallemant nada publicou ele próprio e nenhum de seus escritos nos chegou. De seu ensino conhecemos apenas as notas tomadas por dois de seus discípulos, o P. Surin e sobretudo o P. Rigoleuc. As notas do P. Rigoleuc eram bastante abundantes. Por sua morte, passaram às mãos do P. Huby, o grande iniciador dos retiros fechados na Bretanha. Este compreendeu o valor do tesouro de que era depositário; mas, absorvido por seus trabalhos apostólicos, não dispunha do tempo indispensável para rever, classificar e publicar essas preciosas notas. Confiou-as ao P. Champion, que esteve ligado à casa de Nantes durante os últimos vinte anos de sua vida (1680-1701). Foi o P. Champion que publicou, em 1694, as notas do P. Rigoleuc, precedidas de uma biografia do P. Lallemant e seguidas de uma espécie de apêndice contendo as notas do P. Surin, descobertas tarde demais para serem fundidas com as primeiras.
No texto dessa edição, que parte cabe ao P. Lallemant, ao P. Rigoleuc e ao P. Champion? Ao tomar notas, seja ao pé da cátedra, seja após as conferências do mestre, o P. Rigoleuc reproduziu sempre exatamente todo o seu pensamento e unicamente o seu pensamento? Que se deve crer desta afirmação inquietante do P. Champion, de que o P. Rigoleuc, ao recolher a doutrina espiritual do P. Lallemant, « longe de lhe tirar algo de sua força e de sua unção, antes lhe acrescentou »? La vie et la doctrine spirituelle du P. Louis Lallemant, edição Pottier, 1924, p. 7-8. Por sua vez, o P. Champion, que oito anos antes (1686) publicava as obras do P. Rigoleuc e, por sua própria confissão, as corrigia para dar ao estilo a exatidão e a pureza que se buscavam tanto em seu tempo, mas de tal maneira, assegura ele, que nada mudou no pensamento (La vie du P. Jean Rigoleuc, 4ª ed., 1739, prefácio), não fez o mesmo trabalho sobre notas que remontavam a mais de sessenta anos? Nessa mesma época, o P. Brignon dava uma edição da Introduction à la vie dévote de são Francisco de Sales, e julgava-se obrigado também ele a rejuvenescer-lhe o estilo. São problemas que se prestam a conjecturas mais ou menos plausíveis, mas que, por falta de documentos, jamais receberão soluções certas.
O que se pode afirmar é que, em 1630, mais de vinte anos antes dos primeiros sermões de Bossuet, o P. Lallemant não falava a língua em que sua doutrina nos foi transmitida. Não se encontram nela nem as expressões nem as construções que se encontram até meados do século XVII em todos os escritores franceses, notadamente no P. Saint-Jure, nascido no mesmo ano que o P. Lallemant. Para oferecer ao público as notas do P. Rigoleuc, parece mesmo que o P. Champion não se contentou em retirar-lhes a forma arcaica, quis pô-las em ordem, reuniu as que se referiam ao mesmo assunto e as distribuiu em sete partes, que designou sob o nome de Princípios, inspirando-se verossimilmente no P. Saint-Jure que, meio século antes, havia dividido em oito Princípios a segunda parte de L'homme spirituel. Cada princípio teve suas divisões e subdivisões, com títulos correspondentes, de maneira mais ou menos feliz, a cada um desses múltiplos fragmentos. É assim que essas notas nos chegaram, sem que se possa saber exatamente em que medida o pensamento do primeiro autor foi conservado ou modificado, depois dessas cópias, dessas transposições e desses rejuvenescimentos. É preciso, pois, conformar-se: não é mais tal como foi ensinada, é tal como está contida no texto do P. Champion que se deve doravante julgar e, se necessário, discutir a Doutrina espiritual do P. Lallemant.
III. A DOUTRINA. O P. Champion anuncia claramente à frente de sua edição a distribuição que julgou dever adotar: « Tudo o que o P. Rigoleuc recolheu das instruções de seu diretor, o P. Lallemant, a respeito da vida espiritual, pode reduzir-se a sete princípios: a visão do fim, a ideia da perfeição, a pureza de coração, a docilidade à condução do Espírito Santo, o recolhimento ou a vida interior, a união com Nosso Senhor e a ordem ou os graus da vida espiritual », p. 51. Através desses diferentes assuntos, o pensamento dominante do P. Lallemant, aquele que volta sob todas as formas e ao qual todos os outros se referem em seu ensino, é a necessidade da vida interior e da oração para os homens apostólicos, se querem, em meio às suas ocupações, conservar a união com Deus, avançar na virtude e atrair sobre seu ministério as bênçãos do céu. « Somos instrumentos, dizia ele... Faremos tanto mais fruto quanto mais unidos estivermos a Deus... Ora, é a oração que nos une a Deus, p. 294. »
« Um homem interior fará mais sobre o coração por uma única palavra inspirada do espírito de Deus, do que outro por um discurso inteiro que lhe tenha custado muito trabalho e no qual tenha esgotado toda a força do raciocínio », p. 299. « Temperemos nossas funções em relação ao próximo com recolhimento, oração e humildade; Deus se servirá de nós para grandes coisas, ainda que não tenhamos grandes talentos », p. 294. Depois de relatar esses pensamentos e outros do mesmo gênero, o P. Rigoleuc acrescenta em suas notas: « É o que nosso Pai diretor nos representa com muita força, e é um dos pontos que mais recomenda », p. 301.
Ao dar esse ensino, o P. Lallemant não fazia, aliás, senão desenvolver o que aprendera de santo Inácio e o que pudera ler nas Constituições de sua ordem. Ele próprio indica essa fonte: « Nossa regra e nossa profissão, diz ele, nos obrigam a fazer mais caso desses meios de perfeição que nos unem a Deus, como instrumentos à causa principal, da qual devemos receber o movimento, do que de todos os outros exercícios », p. 97-98. Santo Inácio havia dito: Media illa quæ cum Deo instrumentum conjungunt ac disponunt ut a divina manu recte gubernetur, efficaciora sunt quam quæ illud disponunt erga homines... Omnes in virtutum solidarum ac perfectarum et spiritualium studium rerum incumbant, ac in hujusmodi majus momentum quam in doctrina vel aliis donis naturalibus et humanis constitutum esse ducant. Constit. S. J., p. x, n. 2.
Perseguindo constantemente o mesmo fim, o P. Lallemant insistia na pureza de coração, na docilidade ao Espírito Santo e na união com Nosso Senhor. Assinalava igualmente, como o fizera alguns anos antes dele o P. Le Gaudier (De perfectione vitœ spiritualis, p. II, sect. i, cap. v), essa segunda conversão que se produz por vezes no curso da vida religiosa e que rompe com uma mediocridade mais ou menos regular, para introduzir definitivamente numa fase toda de abnegação e de união com Deus. É difícil tratar com mais experiência e unção esse assunto particularmente delicado e importante da vida interior, e não se poderia louvar demais certas páginas em que se encontram o espírito mais puro e a medula mais requintada do cristianismo. Ao concluir o apanhado que dá da Doutrina espiritual, o Sr. Bremond escreve: « Lallemant sempre conservou uma autoridade diante da qual todo o mundo se inclina. Desconhecido dos profanos, o modesto livro que acabamos de estudar não deixa de ser um dos três ou quatro livros essenciais da literatura religiosa moderna. » Histoire littéraire du sentiment religieux en France, t. v, p. 64.
Com esses elogios, mais de uma vez ratificados em nossos dias, desde que a atenção se voltou para o P. Lallemant, foram formuladas algumas críticas que talvez bastem para explicar por que uma obra, sob certos aspectos notável, ficou longo tempo sepultada numa espécie de esquecimento; por que nenhum jesuíta do século XVIII parece ter-lhe feito a menor menção; por que, enfim, os mestres espirituais mais experimentados só falam dela de ordinário em tom de reserva e de desconfiança, às vezes até a atingem, por assim dizer, com ostracismo, aplicando sem dúvida aqui o princípio que faz lei em semelhantes matérias: Bonum ex integra causa, malum quocumque ex defectu. Cf. P. Ginhac, sa vie par le P. Calvet, 1904, p. 131; P. de Maumigny, sa vie par le P. Aug. Hamon, 1921, p. 137; P. Watrigant, L'École de la spiritualité simplifiée, 1903, p. 152 sq., collection de la Bibliothèque des Exercices, fascic. 77-78, 1922, p. 80 sq., etc.
Seja o que for do ensino mesmo do P. Lallemant, considerando apenas o livro editado pelo P. Champion, julgou-se descobrir nele um temor excessivo do ministério apostólico em relação à vida interior; perguntou-se se certas passagens não reduzem a parte do homem, no trabalho da santificação, a esse papel puramente negativo que consiste em afastar os obstáculos diante da ação de Deus; assinalaram-se exageros de linguagem, devidos talvez ao arrebatamento oratório ou intencionalmente queridos para acentuar um pensamento que era preciso fazer penetrar e gravar na alma dos ouvintes, mas que causam espanto nas páginas que hoje se leem friamente; observou-se que certos conselhos, exclusivamente destinados a almas adiantadas nas vias da perfeição, induziriam facilmente os principiantes em erro, se eles mesmos os aplicassem a si; notou-se esta afirmação muito vivamente contestada, de que « sem a contemplação » (trata-se da contemplação infusa e passiva? cf. edição Pottier, p. 405, nota 1, e p. 406) « jamais se avançará muito na virtude e jamais se será muito apto a fazer avançar os outros », p. 397; enfim, pensou-se que é muito difícil, senão impossível, dar, mesmo ajudando-se do contexto, uma interpretação satisfatória a proposições como estas: Admirar alguma coisa na ordem da natureza é mostrar o pouco de virtude que se tem, p. 320. É de fé que Deus pune um pecado venial com penas sobrenaturais muito longas, p. 140. Tudo o que deve fazer aquele que quer tornar-se perfeito é tirar os impedimentos à operação divina, p. 453. Servir fielmente a Deus é servi-lo sem esperança de recompensa e sem pensar em nossos interesses, sem olhar se fazemos nossos próprios negócios ao fazer os de Deus, p. 460. Se não se recebeu esse excelente dom (da contemplação infusa), só se deve empregar-se (nas funções que dizem respeito ao próximo) a título de ensaio, a não ser que a isso se esteja comprometido pela obediência. Mas, fora disso, só se devem tomar poucos empregos no exterior, p. 419. Etc.
Qualquer que seja o juízo que se faça sobre tais proposições, cujo equivalente não se encontra em parte alguma em santo Inácio, se são verdadeiramente do P. Lallemant, pode-se dizer em sua defesa que ele se dirigia a um auditório bastante restrito e muito especial, composto no máximo de dez a quinze religiosos, vivendo todos havia um certo número de anos a vida regular (Cf. Bremond, op. cit., p. 13, nota 1), que lhes assinalava o que tinham então a corrigir ou a prevenir, e que lhes dava avisos em relação com suas disposições do momento; não se generaliza de ordinário sem inconveniente um ensino tão particular.
É justo igualmente observar que o P. Lallemant falava meio século antes das lutas e das condenações do quietismo, e sabe-se bastante, pela experiência, que antes das censuras doutrinais os autores, menos alerta, nem sempre têm na expressão a mesma exatidão que passam a ter depois. É, aliás, verossímil que o piedoso autor não deixaria de pôr ele próprio em ponto, se as tivesse revisto, notas que reproduzem mais ou menos fielmente uma palavra improvisada em sua forma e cujas nuances puderam escapar a um ou outro de seus ouvintes.
Lallemant teve por discípulos os homens mais interiores e mais espirituais que a Companhia teve (nessa época), e todos os que fizeram sob ele seu primeiro ou seu segundo noviciado se distinguiram comumente dos outros por uma conduta religiosa que correspondia às excelentes lições que haviam aprendido dele », p. 37. Nessa plêiade, é preciso ao menos assinalar o P. João Rigoleuc (1595-1658) e o P. João José Surin (1600-1665). O P. Rigoleuc, um modesto, de incontestável valor, gastou-se sem alarde nas humildes funções do ensino e das missões bretãs. Seria desconhecido da posteridade, se não se tivessem publicado, um terço de século após sua morte, as notas que recolhera e os tratados espirituais que ele próprio compusera. Suas notas nos conservaram quase tudo o que conhecemos da doutrina do P. Lallemant. Seus tratados, que se inspiram habitualmente dessa doutrina, são notáveis pela clareza, pela sabedoria e pela piedade. Contudo, seu culto pelo mestre não chegava a acorrentar seu juízo pessoal. Assim é que, a respeito da oração, dá uma nota bastante diferente da que ouvira ao pé da cátedra de Lallemant. « Há almas, diz ele, para as quais Deus só tem graças comuns, e que resolveu conduzir apenas pela via ordinária por razões que nos são ocultas, mas que tendem à sua glória e ao bem dessas almas... Afinal, acrescenta, há vários santos no céu que nunca andaram senão no caminho comum, e que, no entanto, não deixaram de chegar à perfeição. » La vie du P. L. Rigoleuc, 4° édit., 1739, p. 327, 330. Nos tratados do P. Rigoleuc, as páginas talvez mais notáveis são aquelas em que trata da oração de silêncio, essa oração que ocupa o meio-termo entre a oração afetiva e a contemplação infusa.
O P. Surin é o mais célebre dos discípulos do P. Lallemant. É conhecido como exorcista de Loudun e como autor de espiritualidade. É ele, ao que parece, que se mostrou o mais fiel ao espírito e à doutrina do mestre. Escreve a propósito dos estados místicos, aquém das visões, êxtases etc.: « Em certo sentido, pode-se dizer a cada um que pode alcançá-los e que é sua culpa se não o consegue. » Traité de l'amour de Dieu, 1879, l. III, c. i, p. 116. Tem-se do P. Surin um certo número de obras muito notáveis, nas quais trata as questões mais delicadas do ascetismo e da mística. O Catéchisme spirituel, publicado sem a revisão dos superiores e, segundo o autor, sem sua própria permissão, foi posto no Índex, numa tradução italiana, em 1695.
Ligaram-se à escola Lallemant dois autores espirituais de verdadeiro mérito, pertencentes à Companhia de Jesus, o P. João Pedro de Caussade (1693-1751) e o P. Nicolau Grou (1731-1803). É difícil mostrar que esses dois autores dependem do P. Lallemant; mas, como ele, trataram da vida interior; como ele, procuraram orientar todas as almas para a contemplação; como ele, enfim, foram suspeitados de alguma tendência ao semiquietismo. O P. Grou reconheceu lealmente a justeza das observações que a primeira edição de suas Méditations sur l'amour de Dieu provocou. Dizia, à frente de uma nova edição que preparara, mas que só foi publicada em 1903: « Este retiro sofreu algumas críticas, e confesso sem dificuldade que lhes dei motivo, em alguns aspectos, por expressões pouco corretas e não suficientemente precisas », página xii. Nas edições que deram de suas obras, o P. Ramière para o P. de Caussade, o P. Cadrés e o P. Aug. Hamon, para o P. Grou, julgaram-se obrigados a fazer correções ou a acompanhar o texto de notas explicativas para tornar inofensiva a leitura de livros que são excelentes em seu conjunto. Cf. Poulain, Des grâces d'oraison, c. xxvii, n. 28.
Para a biografia do P. Lallemant, ver a notícia que o P. Champion pôs à frente de sua edição; ver igualmente Bremond, Histoire littéraire du sentiment religieux en France, t. v, p. 1-65. Edição Champion: La vie et la doctrine spirituelle du Père Louis Lallemant de la Cie de Jésus, 1091, Michallet, Paris. Este texto passou integralmente para as edições seguintes, mas com faltas bastante numerosas. Essas faltas desapareceram na edição Pottier, 1924, Paris, que reproduz fielmente o texto primitivo, acompanhando-o de notas históricas e doutrinais. Cf. Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, t. iv, col. 409, e appendice, p. xiv; t. ix, col. 566.
Pierre Bouvier
Autor original: Pierre Bouvier
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