JOÃO XXI (PAPA)

JOÃO XXI (PAPA)

JOÃO XXI, papa, setembro de 1276, maio de 1277. — Não existe papa João XX. Martinus Polonus e seus sucessores deram ao papa João do século XIII o número XXI, porque supunham, na esteira de Marianus Scotus, a existência, entre Bonifácio VII e nosso João XV, de outro papa João que teria reinado quatro meses. Wilmanns, Jahrbücher des deutschen Reiches unter Otto III, p. 208 e 212, mostrou que esse João, filho de Roberto, é uma personagem mítica. O erro causado por sua inserção provocou uma perturbação na série dos papas seguintes, cujo número de ordem foi aumentado de uma unidade, passando João XV a João XVI e assim por diante. A confusão foi ainda agravada pelo fato de o antipapa João Filagato ter sido contado por uns e omitido por outros. Prevaleceu o uso de dar aos papas dos séculos XI e XII os números de ordem que adotamos. A correção não foi feita para João XXI e os dois seguintes. Embora se tenha pretendido o contrário, essa perturbação na numeração nada tem a ver com o romance da papisa Joana.

Em setembro de 1276 (o dia é difícil de precisar), os cardeais reunidos em Viterbo deram por sucessor ao efemérico Adriano V Pedro Juliani, cardeal-bispo de Túsculo. Era conhecido pelo nome de Pedro de Espanha, Petrus Hispanus, pois era originário da península ibérica, tendo nascido em Lisboa e tendo se tornado bispo de Braga. O nome de Pedro de Espanha é bem conhecido dos historiadores da lógica e da medicina. Fez uma tradução ou adaptação de Miguel Psellos, e fundou o ensino da lógica medieval, tal como se manteve até nossos dias. Pedro de Espanha era também médico; resta sob seu nome toda uma série de tratados, que não carecem de interesse para a história da arte de curar: Commentaria in Isaacum medicum; Thesaurus pauperum seu de medendis humani corporis membris; De medenda podagra; etc. O curriculum vitae desse Pedro de Espanha é bastante obscuro; a opinião que o identifica com o Pedro de Espanha que se tornou papa sob o nome de João XXI parece, contudo, bastante sólida. As diversas apreciações feitas sobre esse pontífice pelos cronistas contemporâneos assinalam a elevada cultura científica de João: magnus sophista, logicus et disputator atque theologus; factus papa propter florem scientiarum; magnus fuit in scientia; os Anais de Colmar chegam a chamá-lo de mágico: Johannes papa magus, in omnibus disciplinis instructus. Ver Potthast, t. ii, p. 1718.

O pontificado de João XXI foi curto demais para que se possa caracterizá-lo com justiça. Nos dois graves assuntos políticos que então preocupavam a Santa Sé, a questão do Oriente e a questão do Sacro Império Romano, João nos aparece sobretudo como o servidor muito dedicado da causa de Carlos de Anjou, rei da Sicília desde 1266. Para favorecer o rei francês, é preciso multiplicar os obstáculos ao reconhecimento de Rodolfo de Habsburgo como imperador dos romanos. Potthast, n. 21180 sq. A questão do Oriente levanta problemas infinitamente mais complexos. A cruzada que a Santa Sé prepara terá por objetivo os Lugares Santos ou, ao contrário, Constantinopla? Se o papa quer dar crédito a Carlos de Anjou, é Constantinopla que se deve visar. Sem dúvida, no recente concílio de Lyon, os enviados de Miguel Paleólogo restabeleceram oficialmente a união das duas Igrejas, grega e latina. Mas a maneira como o papa João XXI age com o clero grego não é feita para trazer a paz. Potthast, n. 21186. Há grandes probabilidades de que os subsídios arrecadados em toda a cristandade para a futura cruzada se destinem a secundar os ambiciosos projetos de Carlos de Anjou. Em todo caso, fala-se cada vez mais de cruzada; e é para favorecer esse grande desígnio que o papa procura prevenir conflitos entre os soberanos. Ver a carta a Filipe, o Audaz, por ocasião de sua desavença com Afonso, rei de Castela. Potthast, n. 21165, 21229.

Em matéria de atos estritamente eclesiásticos, assinalemos a carta de João XXI a Estêvão Tempier, bispo de Paris, para recomendar-lhe que fizesse um diligente inquérito sobre os novos erros que se espalhavam na universidade de Paris: trata-se do que se chamou averroísmo latino, e especialmente da doutrina das duas verdades. Potthast, n. 21213. De alcance não menor é o ato pelo qual o papa continuou a decisão tomada por Adriano V relativamente ao regulamento do conclave promulgado por Gregório X no concílio de Lyon. Achou-se que essa constituição continha muitas coisas intoleráveis, alguns pontos obscuros, e que contribuiria antes para alongar que para abreviar os interregnos. Adriano V concluíra por suspender provisoriamente sua aplicação. João XXI ratificou esse decreto, em 30 de setembro de 1276. Potthast, n. 21151. É, portanto, responsável pela duração das vacâncias, que se multiplicarão e se estenderão indefinidamente durante os últimos anos do século XIII. É verdade que João XXI pensava em fazer um novo regulamento sobre as eleições pontifícias; mas morreu de um acidente estúpido após 8 meses de reinado. O teto de um aposento que mandava arranjar em seu palácio de Viterbo desabou sobre ele; morreu alguns dias depois. Parece não ter deixado muitas saudades.

E. Cadier, Le registre de Jean XXI, à la suite du 3e fasc. des Registres de Grégoire X, Paris, 1893; Potthast, Regesta pontificum romanorum, t. ii, p. 1710-1718; L. Duchesne, Liber pontificalis, t. ii, p. 157 : Raynaldi, Annales ecclesiastici, ad ann. 1276, n. 29, ad an. 1277, n. 1-20. — Sobre a identidade de Pedro de Espanha e de João XXI, J. T. Köhler, Vollständige Nachricht vom Papst Johann XXI, welcher unter dem Namen Petrus Hispanus als ein belehrter Arzt, bekannt ist, Göttingue, 1760; Histoire littéraire de la France, t. xx, p. 322-334; G. Petella, Sull'identita di Pietro Ispano, medico in Siena e poi papa col filosofo dantesco, dans Bulletino Senese di storia patria, 1899, t. vi; H. Stapper, Papst Johannes XXI, Munster-en-W., 1898. Sobre a política geral, L. Bréhier, L'Église et l'Orient au moyen âge, Paris, 1907, p. 233 sq.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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