JOÃO X, papa, sagrado em março-abril de 914, derrubado em junho de 928, deve ter morrido pouco depois. — Clérigo da Igreja de Bolonha, João, se é preciso crer em Liutprando, teria sido primeiro eleito bispo dessa cidade; mas, antes de sua consagração, teria feito atribuir-se a sé de Ravena, pela onipotente influência de Teodora, mulher do senador romano Teofilato. Pouco tempo depois, as manobras dessa mulher, da qual Liutprando declara que João era o amante, teriam instalado o bispo de Ravena no trono pontifício. Antapodosis, l. II, n. 17 sq., P. L., t. cxxxvi, col. 827 sq. Mas é preciso não tomar ao pé da letra todos os mexericos escandalosos de que Liutprando recheou sua Antapodosis. Outros testemunhos apresentam-nos a primeira Teodora como pessoa de vida exemplar: ver esses testemunhos em Duchesne, Liber Pontificalis, t. ii, p. 240, e em Hefele, t. iv b, p. 736. Barônio foi, pois, um pouco apressado ao aceitar, sem outra crítica, as alegações feitas contra João pelo panegirista de Otão I.
Permanece contra João o fato de que, antes de sentar-se na cátedra de São Pedro, fora bispo de Ravena, sem dúvida entre 905 e 911; mas a velha regra canônica que proibia a transferência de uma sé episcopal para outra, fosse a de Roma, acabava de sofrer, uma após outra, várias violações. Formoso e Marino, antes de serem papas, já haviam sido bispos, um de Porto, o outro de Cere. É certo, por outro lado, que a influência em Roma da mulher de Teofilato era das mais consideráveis; que ela se tenha servido dela para fazer subir ao trono pontifício o homem decidido que foi João X, não é de lamentar. Convém, portanto, não ratificar sem mais amplo exame o epíteto de pseudo-pontifex ligado por Barônio à memória de João X. Foi um papa enérgico, um dos últimos que contam nessa triste lista do século X, e que por mais de um traço lembra João VIII.
Como este último, tenta libertar a Itália do domínio dos sarracenos, que cada vez mais se estreitava em torno de Roma. Para isso conta primeiro com o socorro de Berengário de Friuli, único senhor da Itália desde que vencera definitivamente Luís de Provença (905). Berengário é coroado imperador por João X em novembro-dezembro de 915. Mas seu poder é tão contestado que o novo augusto só poderá prestar ao papa um socorro bem restrito, e é finalmente João X em pessoa que organiza e conduz a luta contra os sarracenos. Contra eles consegue coligar os feudatários da Itália central e meridional e os últimos chefes bizantinos. Expulsos primeiro da Sabina, onde se haviam infiltrado havia vinte anos, os infiéis são forçados em seu covil do Garigliano: o próprio papa pagou com a pessoa: várias vezes foi visto carregando contra as fileiras inimigas. Isso deve ter-se passado em agosto de 916. Cf. Jaffé, p. 450, e n. 3556. Nessa campanha distinguira-se particularmente ao lado do papa o marquês Alberico de Spoleto, um dos mais poderosos senhores da Itália central. Sua influência cresceu ainda mais quando, na volta da expedição do Garigliano, desposou Marózia, uma das filhas da primeira Teodora.
Em razão desse casamento, a situação de Marózia consolidou-se ainda mais na cidade. João X, que tentava governar por si mesmo, não tardou a ofender-se com isso. Julgou poder livrar-se dessa tutela incômoda apelando a Hugo de Provença, que, depois de alguns anos de lutas, conseguira fazer-se dar em 926 a coroa dos lombardos e sonhava abrir-se o acesso a Roma e à coroa imperial. Posta a par dessas manobras, Marózia, que acabava de desposar em segundas núpcias Guido, marquês da Toscana, não hesitou em depor o papa e lançá-lo na prisão; ali teria morrido pouco depois, de medo, diz um cronista, sufocado sob um travesseiro, segundo Liutprando. É então que se instala por alguns anos em Roma o regime que se chamou a «pornocracia», aquele que, em seu latim bárbaro, o cronista Bento de Santo André resume nestas palavras: Subjugatus est Roma potestative in manu feminæ, sicut in propheta legimus : feminæ dominabuntur Jerusalem.
Os embaraços políticos não haviam impedido João X de governar com mão ainda firme a Igreja universal. Por fragmentária que nos seja conservada, sua correspondência mostra-o implicado em todos os grandes assuntos da época. É um legado de João X que preside na Suábia o concílio de Hohenaltheim (setembro de 916), o qual dá ao cambaleante reino da Germânia o apoio da Igreja e consolida, por algum tempo ao menos, o poder do rei Conrado I. É o próprio João que insta o arcebispo de Reims, Herveu, a convocar um sínodo que deverá reparar as ruínas acumuladas na França do Norte por cinquenta anos de guerra, e consolidar os normandos, recentemente convertidos, na fé e na prática cristã. Jaffé, n. 3553. É o papa que, por sua autoridade soberana, regula o desacordo suscitado em torno da sucessão da sé de Narbona. Jaffé, n. 3554. No Ilírico ocidental, João tenta, apesar das infiltrações bizantinas, manter a autoridade direta do patriarcado romano. A carta ao bispo de Salona é um protesto contra a liturgia em língua eslava e os processos de evangelização outrora importados por Metódio, protesto que é renovado numa carta ao rei dos croatas. Jaffé, n. 3571-3575.
Em Constantinopla, o papa foi solicitado a restabelecer a paz eclesiástica comprometida pelos processos violentos de que usara em 907 o imperador Leão VI. Nessa data, o basileu, descontente com o protesto levantado pelo patriarca Nicolau, o Místico, contra o seu quarto casamento, depusera-o e o substituíra por Eutímio. O novo patriarca, de acordo, ao que parece, com os apocrisiários do papa Sérgio, aceitara o quarto casamento do soberano, embora proibido pelas regras tradicionais da Igreja grega. O clero bizantino dividiu-se; uns permaneceram fiéis ao patriarca deposto, outros se uniram em torno de Eutímio. Esse cisma perseverou após a reintegração de Nicolau em 912; além de exercer represálias em Roma contra os eutimianos, Nicolau fez sentir seu descontentamento com a atitude adotada pelos apocrisiários do papa Sérgio.
Uma longa carta dirigida verossimilmente ao papa Anastácio III exprimiu em termos muito veementes a irritação do patriarca. P. G., t. cxi, col. 195 sq.; o nome do papa foi riscado dos dípticos: em outras palavras, a comunhão foi rompida, mais uma vez, entre Roma e Constantinopla. Todavia, em 920, os esforços, aliás muito interessados, do regente Romano Lecapeno e do patriarca Nicolau levaram primeiro a uma redução do cisma oriental. O sínodo de união reconciliou amigos e adversários de Nicolau e proclamou a proibição definitiva das quartas núpcias, ao mesmo tempo que declarava legítimo post factum o casamento litigioso do falecido imperador. Logo em seguida, Nicolau tentou reatar as relações com Roma; tendo exposto ao papa João X o sucesso de suas iniciativas pacíficas em Constantinopla, pedia que fossem esquecidas de ambos os lados as ofensas passadas e que fossem retomadas as relações de amizade entre as duas grandes sés. Nessas condições, o nome do papa seria restabelecido nos dípticos segundo o antigo costume. Um alto funcionário imperial, acompanhado de um sacerdote bizantino, iria a Roma para negociar os detalhes. O patriarca contava bem que o papa enviaria por sua vez a Constantinopla um apocrisiário que ali fosse persona grata, e de quem esperava a aceitação pura e simples das medidas tomadas pelo sínodo de união. Carta 53, P. G., ibid., col. 248-252.
João X fez-se rogar por bastante tempo; no fim de 923, contudo, enviou a Constantinopla dois legados, que deviam em seguida dirigir-se à Bulgária para ali restaurar a soberania de Roma, sempre ameaçada. Restabeleceram entre Roma e Constantinopla os laços de comunhão; Nicolau pretendeu mais tarde que haviam condenado positivamente a tetragamia. Carta 28, ibid., col. 180. Nicolau quer sem dúvida dizer que se encontrou uma fórmula de acordo, pois é muito pouco provável que os legados tenham condenado sem nenhuma restrição uma prática admitida pelo direito ocidental.
Fontes. — Liber Pontificalis, t. ii, p. 240-241; Jaffé, Regesta, t. i, p. 443-453; Watterich, Pontificum romanorum vitæ, t. i, p. 33, 38, 661-669; o concílio de Hohenaltheim em Mansi, Concilia, t. xviii, col. 325 e em Monumenta Germaniæ, Leges, 1837, t. ii a, p. 556-560; o concílio de Reims, em Mansi, t. xviii, col. 192-201 (falsamente referido ao pontificado de João IX); o sínodo de união, em Mansi, t. xviii, col. 331-342; duas cartas de Nicolau, o Místico, que permitem estudar a atitude de Roma no caso das quartas núpcias, foram publicadas primeiro por Barônio, Annales, ad annum 912 et 916, depois sob forma diferente na edição das cartas de Nicolau, por Mai, Spicilegium Romanum, t. x b, reproduzida em P. G., t. cxi, ver cartas 32, 53, 54, 56, 77, 28. Essas cartas permitem escrever uma história bastante completa dessa questão.
Trabalhos. — Hefele, Histoire des Conciles, trad. Leclercq, t. iv b, p. 734-751, 1361; L. Duchesne, Les premiers temps de l'État pontifical, p. 166; Langen, t. iii, p. 319-327; Hergenröther, Photius, t. iii, p. 674-694; Gregorovius, t. iii, p. 252-272; Hartmann, t. iii b, p. 187 sq., 208-216; Baxmann, Politik der Päpste, t. ii, p. 314-328; Liverani, Giovanni da Tossignano, Opere, Macerata, 1859, t. ii. Ver aqui ainda a bibliografia dada no art. Formoso.
E. Amann.
Autor original: E. Amann
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