JOÃO DE SALISBURY, autor eclesiástico e bispo de Chartres (século XII). I. Vida. — João de Salisbury, em latim Joannes de Saresberia ou Saresberiensis, é por vezes designado também pelo nome de João o Pequeno, conforme o que escrevia falando de si mesmo: parvum nomine, facultate minorem, minimo merito. (Epist., ccii, P. L., t. cxcix, col. 224). Nasceu em Salisbury (Old Sarum) ou nas vizinhanças dessa cidade, provavelmente entre os anos 1115 e 1120. Ele mesmo conta, Policraticus, ii, 28, P. L., ibid., col. 471, que, sendo criança, foi confiado a um sacerdote que devia ensinar-lhe os salmos, que esse sacerdote praticava a magia e quis empregá-lo como instrumento de certas experiências, mas que ele foi achado inapto para esse ofício: coisa pela qual João agradecia mais tarde ao Senhor. É o único detalhe que temos sobre a sua primeira infância.
Era ainda muito jovem quando começou seus estudos em Paris, em 1130: primeiro seguiu as lições de Abelardo, o peripatético palatino, como ele o designa. Metalogicus, ii, 10, P. L., ibid., col. 867. Um ano depois, tendo o mestre deixado a sua cátedra, João passou do nominalismo ao realismo exagerado sob Alberico de Porta Veneris: é assim que ele designa o seu novo mestre, que se pensa ser o futuro arcediago de Reims. Epist., cxiii, P. L., ibid., col. 121, depois sob Roberto de Melun, realista moderado, promovido mais tarde ao bispado de Hereford. Esse curso de dialética durou para João cerca de dois anos, de 1136 a 1138. Em seguida o nosso jovem estudante toma as lições de Guilherme de Conches, gramático e filósofo renomado, em Chartres, se acreditarmos em C. Schaarschmidt, Johannes Saresberiensis nach Leben und Studien, Schriften und Philosophie, Leipzig, 1862, p. 24; tem ainda por outro mestre Ricardo o Bispo, que se tornou mais tarde bispo de Avranches. É assim que João lança os fundamentos desse saber clássico pelo qual se distingue como humanista entre todos os seus contemporâneos. O chanceler Bernardo Silvestre (provavelmente mais tarde bispo de Quimper) havia dado grande renome à escola da catedral de Chartres.
Mas os recursos do estudante são medíocres e, para ganhar um pouco de dinheiro, ele se encarrega de alguns alunos, vai passar algum tempo em Provins, onde, em companhia de seu amigo Pedro, o futuro abade de Moutier-la-Celle, continua a conduzir ao mesmo tempo os estudos e o ensino. Então também aproveita as liberalidades do conde Teobaldo, Epist., cxliii, P. L., ibid., col. 123. Por volta de 1140 ou 1141, volta a Paris, atraído pelas vantagens que essa cidade oferece aos professores: continuando a ensinar, segue um curso de teologia, sob mestre Gilberto, evidentemente o mesmo que havia conhecido como chanceler em Chartres, Metalogicus, i, 5. P. L., ibid., col. 832. Trata-se de Gilberto de la Porrée, mais tarde bispo de Poitiers, o comentador dos livros da Trindade atribuídos a Boécio, o autor do Liber sex principiorum, considerado o complemento indispensável do Organon de Aristóteles: ver t. vi, col. 1351. Pouco tempo depois, esse mestre lhe falta, sendo nomeado bispo de Poitiers em 1142: os outros mestres de João em teologia foram Roberto Pullus, logo nomeado cardeal, e Simão de Poissy. Doze anos (ou talvez dez) passam-se nesses diversos estudos (1136-1148).
Aqui se apresentam algumas dificuldades de cronologia nas quais não podemos entrar: não se pode duvidar de que, pouco antes de 1148, João estava junto de seu amigo Pedro de Celle, na aparência como secretário, mas na realidade como hóspede. Na primavera de 1148, assiste ao concílio realizado em Reims por Eugênio III, e ali é testemunha da discussão que se levanta entre Gilberto de la Porrée e são Bernardo. É sem dúvida por essa ocasião que foi apresentado a Teobaldo, arcebispo de Cantuária, pelo próprio são Bernardo. S. Bernard, Epist., ccclxi, P. L., t. clxxxii, col. 562. Após o concílio, parece que João acompanhou Eugênio III a Bréscia, foi a Roma em setembro de 1148, Historia pontificalis, 18. Toma então a resolução de voltar à Inglaterra, o que ocorreu sem dúvida antes de 1150. Atravessando a França, recebe de Pedro de Celle o dinheiro necessário para a viagem, Epist., lxxxv, P. L., t. cxcix, col. 71, e de são Bernardo uma carta de recomendação (citada acima) para Teobaldo, que o incorpora ao seu clero.
De 1150 a 1164, João viveu em Cantuária: sua habilidade nos negócios e sua notável erudição empenharam-no em diversas negociações; a corte de Teobaldo era um centro de atividade administrativa e tornou-se ainda mais com o advento de Henrique II, em razão das estadas prolongadas desse rei no continente. O prelado, avançado em idade, fez de João seu secretário íntimo e seu assistente. Metalogicus, prólogo, P. L., ibid., col. 824: de modo que este pode escrever que sobre ele recai a sollicitudo totius Britanniae. E contudo mostra-se de uma assiduidade infatigável no estudo, toma parte ativa nas discussões entre os sábios, mantém uma contínua correspondência com os eruditos. Acrescentemos a isso as numerosas viagens que, durante esse lapso de tempo, o fazem atravessar dez vezes os Alpes, Metalogicus, iii, P. L., ibid., col. 880: encontramo-lo em 1150 na Itália, Historia pontificalis, 32 e 39; está junto do papa Eugênio III durante a sua estada em Ferentino, de novembro de 1150 a junho de 1151. Policraticus, vi, 21, P. L., ibid., col. 624.
Por duas vezes vai até o sul da Apúlia, uma vez antes de 1154, outra vez com Adriano IV entre novembro de 1155 e julho de 1156. Com este último pontífice vive nos termos de uma afetuosa intimidade, permanece em Benevento por quase três meses. Policraticus, vi, 24, P. L., ibid., col. 623. Em 1155, serve de intermediário para obter de Adriano IV a doação da Irlanda ao rei Henrique II. Metalogicus iv, c. 12, P. L., ibid. col. 915. A autenticidade da bula Laudabiliter, pela qual o papa autoriza Henrique II a fazer invasão na ilha, não parece contestável. Ver o art. Adriano IV, t. i., col. 458. Na volta de uma de suas visitas à corte pontifícia, em 1159, João vê a cólera do rei Henrique II desencadear-se contra ele.
O incidente é ocasionado pelo relatório no qual Arnulfo, bispo de Lisieux, denuncia ao rei os seus procedimentos: trata-se sem dúvida do protesto contra as somas consideráveis retiradas por Henrique II dos bens do clero para fazer face às despesas da expedição contra Toulouse. Epist., cxv, P. L., ibid., col. 100. Nessa carta a seu amigo Pedro de Celle, João declara que o acusam de levar o clero a afirmar mais vigorosamente os seus privilégios; sua intenção é passar à França para pedir conselho e recorrer a Roma. Ao mesmo tempo, escreve ao chanceler Tomás Becket, então na França junto ao rei, lembra-lhe a antiga amizade que os une e anexa uma carta na qual o papa Alexandre III, sucessor de Adriano IV, recomenda João de Salisbury ao favor de Henrique II. Epist., cxiii, col. 98. João se encontra por algum tempo num profundo desespero; talvez exagere o perigo em que se encontra. Mas a sua extrema pobreza e as dívidas que precisa pagar o deixam perplexo: dissuadem-no de deixar a Inglaterra. Epist., xcvi, col. 87. Ao cabo de algum tempo, graças sem dúvida à mediação de Tomás Becket e apesar da resistência de Arnulfo de Lisieux, parece ter saído de suas dificuldades.
Por ocasião da morte de Teobaldo, em abril de 1161, João aparece em cena como um dos executores testamentários do arcebispo. Epist., lvii, col. 37. Depois da sagração de Tomás Becket, em 3 de junho de 1162, é um dos cinco comissários encarregados de ir a Montpellier para receber de Alexandre III o pálio do novo arcebispo. Algum tempo depois, compõe uma vida de santo Anselmo a pedido de Tomás e com vistas a obter a canonização: Alexandre III, depois de receber essa vida, escreveu de Tours, em 9 de junho de 1163, para explicar os motivos de remeter o assunto a outra ocasião, e, de fato, a canonização pedida só ocorreu três séculos depois.
A eleição de Tomás como primaz da Inglaterra parecia prometer a João dias tranquilos: nada disso aconteceu. Na volta do rei, em janeiro de 1163, depois de uma ausência de cinco anos, os negócios mudaram de aspecto rapidamente; João julgou necessário deixar o país. A data dessa partida não é claramente indicada. W. Fitz-Stephen estima que, sendo João um dos mais firmes apoios de Tomás, Henrique II queria afastá-lo antes da assembleia de Clarendon. Escrevendo em 1167, João se exprimia assim: quartus exilii mei annus elapsus est, Epist., ccxxi, col. 246; assim, teria deixado a Inglaterra durante os primeiros meses de 1164. Atravessou lentamente a França; foi acompanhado até Paris por seu irmão Ricardo, que parece ter voltado à Inglaterra. Foi buscar refúgio junto de Pedro de Celle, tornado havia pouco abade de Saint-Remi de Reims. Durante essa estada, compôs a sua Historia pontificalis, continuação da crônica de Sigeberto de Gembloux, indo de 1148 a 1152, se é que se deve atribuir-lhe essa obra. Já em 1159, havia completado as suas duas obras mais consideráveis, o Polycraticus e o Metalogicus.
Apesar da assistência de seus amigos, continua em apuros; soubera em 1165 que toda a sua propriedade fora posta sob sequestro. Por meio de seus escritos, podia obter alguns recursos, mas suas despesas eram pesadas, pois, depois do exílio de Tomás, os serviços que prestou ao seu arcebispo e amigo exigiram viagens dispendiosas. Sua situação, no entanto, acabou por melhorar. Prolongou a sua estada no estrangeiro, esperando poder, com o tempo, voltar à Inglaterra sem ter de sacrificar nenhum de seus princípios. Em diversas ocasiões, apelou aos bons ofícios de Ricardo, arcediago de Poitiers, de Gilberto Foliot, bispo de Londres, e de Henrique, bispo de Bayeux. Fiel à causa de Tomás Becket, criticava, contudo, os métodos dele com sincera franqueza, e não aprovava a diplomacia, demasiado rígida a seu ver, da corte pontifícia. Nas tentativas de aproximação entre o rei e o arcebispo, João se recusa a aceitar as constituições de Clarendon, mas mostra a mesma firmeza para desviar Tomás de chegar à medida extrema da excomunhão e do interdito. Epist., clxxv, col. 166-171.
Finalmente, a paz concluída em Fréteval, em 22 de julho de 1170, permite ao arcebispo e a João voltar à Inglaterra: em outubro João escreve aos monges de Cantuária que devem esperar receber em breve o seu chefe espiritual. Epist., ccxcix, col. 347. Ele mesmo desembarca na Inglaterra em 9 de novembro, dirige-se a Cantuária, onde encontra as propriedades da Igreja nas mãos dos oficiais do rei, vai ter com Henrique II e visita a sua própria mãe idosa. Em 29 de dezembro, assistia ao assassinato de Tomás de Cantuária; seus conselhos de prudência ao arcebispo não haviam sido ouvidos. Disse-se que, no momento fatal, teria faltado de coragem e teria ido esconder-se, tendo depois voltado ao teatro do crime. Um de seus amigos, ao contrário, escreveu que ele foi tingido com o sangue do mártir, sanguine beati martyris Thomas intinctus. Pedro de Celle, Epist., cxvii, P. L., t. cxcix, col. 567.
Durante os quatro anos de seu episcopado, deu novas provas de seu zelo pelas prerrogativas do clero e pela disciplina eclesiástica: no concílio de Latrão de 1179, mostrou o seu apego aos antigos decretos que se queria ab-rogar. Desempenhou com êxito várias delegações da Santa Sé. Teve, contudo, detratores: "Censuram-vos, escrevia-lhe Pedro de Celle, abade de Saint-Remi, que devia sucedê-lo na sé de Chartres, censuram-vos por faltar gravidade em vossa conduta, circunspecção em vossos discursos, estabilidade em vossos juízos, exatidão em vossas promessas... Se tudo isso é verdade, estais bem mudado." Epist., ii, 168, P. L., t. cxcix, col. 568. Pedro de Celle hesitava em crê-lo, e de fato os contemporâneos de João são quase unânimes em lhe conceder elogios. O bispo de Chartres morreu em 25 de outubro de 1180.
II. Obras. — Uma vida tão atravessada não deixava muitos lazeres ao escritor. Contudo, João de Salisbury deixou escritos que o colocam entre os melhores humanistas de seu tempo: reconhece-se nele um letrado muito versado no conhecimento da antiguidade. É ao mesmo tempo filósofo e teólogo: Vir magna religionis totiusque scientiae radiis illustratus, diz-se dele no elogio necrológico de Chartres.
1° O Polycraticus (alguns escrevem Policraticus), sive de nugis curialium et vestigiis philosophorum. É a sua obra mais considerável, sátira dos costumes de seu tempo e principalmente da corte de Henrique II. O autor a dedica a Tomás Becket. Um prólogo ou epístola em versos, dirigido ao próprio livro, aconselha-o ou a permanecer sossegado no gabinete de seu autor ou a apresentar-se com circunspecção: segue-se um elogio ou panegírico de Tomás, chanceler da Inglaterra (dissemos que a obra foi terminada em 1159). As bagatelas que vai pintar, ele as encontra na Igreja, na corte. Em oito livros, o autor trata dos princípios de governo, da filosofia, da ciência; as digressões são ali tão numerosas que se encontra uma verdadeira enciclopédia e o melhor reflexo do pensamento culto em meados do século XII.
O livro I tem 13 capítulos: assinalam-se nele os perigos de uma posição elevada, os deveres que impõe a situação pessoal de cada um, os prazeres que se substituem nas cortes ao cumprimento do dever. O livro II, em 29 capítulos, volta aos augúrios, trata do cerco de Jerusalém, do milagre de Vespasiano, da ciência e presciência de Deus. No capítulo xxvi encontra-se esta asserção: "Se não posso resolver o conflito que existe entre a Providência e o livre-arbítrio, se não posso conciliar a certeza dos acontecimentos com a facilidade natural de agir, nada disso é menos certo: a causa disso está sem dúvida na fraqueza de nossas luzes." O livro III tem 15 capítulos: investiga-se nele o que constitui o homem: a alma é o princípio da vida do corpo, como ela mesma tem Deus por princípio de sua vida; que vantagens há em estudar-se a si mesmo, de onde vêm os nossos males, orgulho insensato, adulação perniciosa. Esta só pode ser permitida em relação aos tiranos, pois são inimigos públicos que é justo matar.
O livro IV, em 12 capítulos, trata da subordinação dos príncipes ao sacerdócio, mesmo no temporal: do poder que o autor atribui à Igreja de conceder coroas, ele deduz que ela pode retirá-las. O livro V, 17 capítulos, continua a nos entreter sobre a dignidade real, as obrigações que ela impõe, as virtudes que exige, os males que o exemplo dos soberanos pode produzir, por exemplo Trajano. Trata em seguida dos auxiliares dos príncipes no governo: deveres dos juízes, que o autor compara aos ouvidos e aos olhos no corpo humano. O livro VI, em 29 capítulos, expõe os deveres dos guerreiros, dos lavradores e outros trabalhadores, toda uma reminiscência das Geórgicas de Virgílio. Em seguida o autor volta a princípios mais gerais em matéria de governo e mostra como a união deve reinar entre senhores e súditos: relata por extenso uma conversa que teve com Adriano IV.
No livro VII, 30 capítulos (Migne dá apenas 25), temos apreciações sobre os antigos filósofos, uma exposição da essência e dos caracteres da virtude, dos vícios mais frequentes na corte e mais perigosos para o Estado: preferência dada aos acadêmicos apesar de seus erros. O livro VIII, 25 capítulos, é o mais variado: dá os únicos meios de viver feliz e tranquilo, marca a oposição entre a verdadeira e a falsa glória, a avareza e a liberalidade... a tirania e o bom uso do poder soberano. No c. xx o autor volta ao que disse no livro terceiro... Do luxo das refeições, etc. Há um pouco de desordem em toda essa erudição.
Edições: Há oito edições do Policraticus: a primeira, sem indicação de lugar, foi feita ou em Colônia ou em Bruxelas, em 1476; 2 in-8°, em Lyon, 1513; 3 in-4° em Paris, 1513; 4 in-8° em Leiden, 1595; 5 Leiden 1639; 6 in-8°, em Amsterdã, 1664. A sétima e a oitava na Bibliothèque des Pères em Colônia e em Lyon, de onde passou para P. L., t. cxcix, col. 379-823. O livro foi traduzido em francês por Dom Soulechat por ordem de Carlos V; mas essa tradução não é a que foi impressa por Mézerai sob o título: Vanités de la Cour par Jean de Soresberg, Paris, 1610 (raro).
2° O Metalogicus é uma crítica acerba dos falsos filósofos de seu tempo, que João de Salisbury chama Cornificianos. Ataca ao mesmo tempo os realistas e os nominalistas, dá prova de grande independência de espírito. Louva, como Abelardo, os homens célebres de seu século, Bernardo de Chartres, Guilherme de Conches, etc., insiste na importância da gramática, da lógica, da retórica, das belas-artes, nas regras a seguir para estudá-las (livro primeiro). Voltando ao estudo da lógica, empenha-se em desenvolver a filosofia de Aristóteles; faz-lhe o elogio, reconhecendo ao mesmo tempo que ela encerra alguns erros (livros II, III e IV). O capítulo final é uma elegia em prosa sobre a infelicidade dos tempos, deplorando ver os franceses e os ingleses armados uns contra os outros, lamentando a morte de Adriano IV, temendo um cisma. Este tratado se encontra na sequência do precedente, nas edições de 1513, de 1639, 1664. Foi, além disso, publicado separadamente em Paris em 1610 e em Leiden em 1630. Cf. P. L., ibid., col. 823-945.
3° O Entheticus, de dogmate philosophorum, é um poema de 1800 versos, contra os falsos filósofos da época. João de Salisbury o escreveu provavelmente algum tempo antes de concluir o Policraticus, ao qual devia servir de introdução... trata nele em resumo bom número dos assuntos característicos do Policraticus. Atualmente um poema análogo, mas mais curto, ocupa o lugar do Entheticus à frente do tratado. C. Petersen: Johannis Saresberiensis Entheticus... nunc primum editus et commentariis instructus. Hamburgo, 1843, in-8°. Duas outras obras: o De membris conspirantibus, fábula em versos representando os membros revoltados contra o estômago; e o De septem septenis, meios para elevar-se das coisas humanas às divinas, pareceram suspeitas aos críticos, que não creem poder atribuí-las a João de Salisbury.
4° João de Salisbury fez também obra de hagiógrafo escrevendo as vidas de santo Anselmo e de são Tomás de Cantuária, resumindo a sua vida, como assinalamos.
5° A coleção de suas cartas pode ser considerada como formando uma de suas principais obras: é interessante para a história do século XII em razão do número das cartas, de sua extensão, dos assuntos variados de que tratam.
Restam-nos 339: infelizmente falta-nos uma classificação metódica. As dirigidas ao papa Adriano IV são escritas em nome do arcebispo Teobaldo, de quem João era capelão e secretário: referem-se a desavenças ocorridas entre igrejas, entre eclesiásticos e seculares, entre mosteiros e bispos. Um bom número diz respeito ao cisma suscitado por Vítor contra o papa Alexandre III; outras são dirigidas a este último. As que João escreveu durante os anos de exílio testemunham o seu zelo em defender os direitos da Igreja. As cartas 150, 159, 166, 175 atestam a dedicação de João a seu amigo Tomás Becket, mas fornecem-nos a prova de que nem sempre aprovava o zelo ardente do arcebispo. Várias são escritas a Pedro de Celle, a cujas generosidades João de Salisbury presta sincera homenagem.
J. Masson publicou 302 reunidas com as Cartas de Estêvão de Tournai e de Gerberto, in-4°, Paris, 1611. A edição é defeituosa, e foi reproduzida tal qual na Bibliotheca maxima Patrum de Lyon e na de Colônia. C. Lupus publicou 35 epístolas novas, juntas a 40 outras já conhecidas, na edição das Epístolas de Tomás de Cantuária, 2 vol. in-4°, Bruxelas, 1682. — Os Anecdota de Dom Martène, t. I, p. 602, trouxeram à luz duas outras. Baluze havia preparado uma edição que não pôde terminar: Fabricius, em sua Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, conservou o plano dela. Ver também Levillain, Correspondance historique. Brial, Historiens de France, t. xvi, p. 489-625, publicou 106 dessas cartas com notas. As obras enumeradas anteriormente foram reunidas por J. A. Giles, Oxford, 1848, Joannis Saresberiensis opera omnia; os tomos i e ii contêm as Cartas, 2 vol., os tomos iii e iv o Policraticus, o tomo v o Metalogicus e diversos opúsculos; edição reproduzida em P. L., t. cxcix.
6. Às obras precedentes convém acrescentar a Historia pontificalis, continuação de Sigeberto de Gembloux — vai de 1148 a 1152 — Esse fragmento foi editado por Arndt nos Monumenta Germaniae historica, Scriptores, t. xx, p. 515 a 545, segundo um manuscrito de Berna. A obra é dedicada a um certo Pedro, daí o título Anonymus ad Petrum, sob o qual é encontrada frequentemente designada, por exemplo em B. Kugler, que havia publicado alguns trechos dela: Studien zur Geschichte des zweiten Kreuzzuges, 13-20. Uma feliz conjectura de Giesebrecht identificou o anônimo com João de Salisbury, Sitzungsberichte der philos.-philol. und hist. Classe der K. Bayr. Akademie der Wissenschaft, Munique, 1873, p. 123. O Pedro, amigo do autor, seria nesse caso Pedro de Celle. A conjectura foi adotada por Pauli: Zeitschrift für Kirchenrecht, 1881, t. xvi, p. 261. Outros, contudo, hesitam ainda: Ver Vacandard, Vie de saint Bernard, t. ii, p. 346 sq.
III. OBSERVAÇÕES SOBRE ALGUMAS ASSERÇÕES ENCONTRADAS NAS OBRAS DE JOÃO DE SALISBURY. Para não interromper a enumeração das obras, adiamos estas observações; os que criticaram amargamente esse autor parecem não ter percebido o ponto de vista em que se colocava João de Salisbury. Assim, em matéria de política, a sua exposição no Policraticus quase não tem relação com as formas de governo que existiam em seu tempo: seus exemplos são tomados ou ao Antigo Testamento ou ao antigo império romano, é só de passagem que faz alusão aos costumes de seus contemporâneos. Acima das questões de ordem temporal, eleva-se ao que considera os princípios eternos do direito civil: seu ponto de partida é a noção de equidade, que constitui o perfeito ajustamento das coisas. Neste mundo, dois intérpretes a julgam, a lei e o príncipe; mas sob esse nome de príncipe não se deve compreender o tirano. Ver B. Lane Poole, Illustrations of the history of medieval thought, Londres, 1884, p. 211 sq.
Duas queixas principais foram feitas a João de Salisbury. Preconizou o tiranicídio; ensinou o poder direto da Igreja sobre o temporal dos reis.
1° O tiranicídio. — Os escritos de João de Salisbury, notadamente o Policraticus, contêm de fato as expressões que acabam de ser apontadas. Lê-se em particular esta frase: tyrannum occidere, non modo licitum est, sed aequum et justum. Eis como a explica numa nota Gosselin, Pouvoir du pape au moyen âge, p. 710: "O bispo de Chartres, na verdade, diz que é permitido matar um tirano público, isto é, aquele que usurpa manifestamente o poder supremo; mas supõe claramente que só se pode matá-lo em nome do poder público... accipere (gladium) intelligitur, qui eum propria temeritate usurpat, non qui utendi eum a Domino accipit potestatem: utique qui a Deo potestatem accipit, legibus servit, et justitiae et juris famulus est. Qui vero cum usurpat jura deprimit et voluntati suae leges submittit. In eum ergo armantur jura qui leges exarmat, et publica potestas in eum qui evacuare nititur publicam manum. Policraticus, l. III, c. xv. Esta explicação resolve todas as dificuldades que podem oferecer à primeira vista várias outras passagens, por exemplo no l. VIII, c. xx: Sed nec veneni, licet videam ab infidelibus aliquando usurpatum, tamen nunquam jure indultam esse licentiam. Non quod tyrannos de medio tollendos non esse credam, sed sine religionis honestatisque dispendio.
É de notar que, nesta última passagem, como na precedente, o autor só autoriza os particulares a matar um tirano no caso em que a lei o permite. Pois, se proíbe o uso do veneno contra um tirano, é unicamente pela razão de que esse meio não é permitido por nenhuma lei. Aliás, quando, no século XV, um franciscano chamado João Petit ousou sustentar a seguinte tese: "É permitido a todo súdito matar ou mandar matar um vassalo criminoso ou um tirano infiel (8 de março de 1408)", tentou em vão apoiar-se em João de Salisbury; o chanceler Gerson declarou-se nitidamente contra a sua asserção invocando o nosso doutor e são Tomás. A universidade de Paris condenou a teoria de João Petit, que foi reprovada igualmente pelo concílio de Constança. Em suma, nem então, nem mais tarde, quando se quis fazer aos jesuítas uma queixa de sustentar o tiranicídio, o nome de João de Salisbury foi pronunciado: conheciam-se, porém, as suas obras. Ver Tiranicídio.
2° O poder do papa sobre o temporal dos reis.
— Gosselin, que acabamos de citar, reconhece com efeito que o bispo de Chartres sustenta a opinião de um poder direto da Igreja e do papa sobre as coisas temporais: "É, diz ele, o primeiro autor, que conheçamos, a ter sustentado essa opinião: teve poucos partidários antes do século XIII." Op. cit., p. 448, nota 2. Para João de Salisbury, a Igreja e o sumo pontífice receberam imediatamente de Deus pleno poder de governar o mundo, tanto no espiritual quanto no temporal, de tal maneira, contudo, que devem exercer por si mesmos o poder espiritual e confiar aos príncipes seculares o poder temporal: assim o príncipe não é senão o ministro da Igreja. Essa opinião é exposta e sustentada abertamente no Policraticus, l. IV, c. i e iii.
É interessante ver essa doutrina manifestar-se tão categoricamente em meados do século XII. É a sistematização, no domínio da teoria, de uma prática que se tornava cada vez mais corrente, à medida que se reforçava o poder da Igreja. João de Salisbury fala já como os canonistas e os teólogos da geração seguinte. Mas o seu pensamento carece ainda de todos os matizes que a reflexão teológica acabará por introduzir nessa delicada matéria.
I. Obras gerais. As histórias literárias: Cave, Scriptores ecclesiastici, t. i, p. 243; Ceillier, Histoire des auteurs sacrés, t. xvi, p. 279; Oudin, Scriptores ecclesiastici, t. i, p. 303; Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, t. v, p. 370; Du Pin, Nouvelle bibliothèque des auteurs ecclésiastiques, t. ix, p. 167: Histoire littéraire de la France, t. xiv. p. 89-161. As histórias da filosofia medieval, em particular B. Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, Paris, 1872, t. i, p. 533; A. Clerval, Les écoles de Chartres au moyen âge, Paris, 1895, p. 180. Não se devem negligenciar também as obras gerais inglesas: Dictionary of national Biography, t. x, p. 876; The catholic Encyclopedia, t. viii, p. 178; Biographia britannica literaria, t. ii, p. 230. Enfim, trabalhos de ordem menos geral, tais como Leyser, Poetae medii aevi, 1721, p. 445; Liron, Bibliothèque Chartraine, 1719, p. 71 sq.; R. Poole, Illustrations of the history of medieval thought, Londres, 1884; W. Stubbs, Seventeen lectures on the study of medieval and modern history, Londres, 1886; Norgate, England under the angevin kings, Londres, 1887.
II. TRABALHOS PARTICULARES. M. Demimuid, Jean de Salisbury, Paris, 1873; P. Gennrich, Zur Chronologie des Lebens Johannes von Salisbury, em Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1892, t. xii, p. 544 sq.; R. Pauli, Ueber die Kirchenpolitische Wirksamkeit des Johannes Saresberiensis, em Zeitschrift für Kirchenrecht, 1881, t. xvi, p. 265 sq.; H. Reuter, Johannes von Salisbury, zur Geschichte der christlichen Wissenschaft im XII Jahrhundert, Berlim, 1848; C. Schaarschmidt, Johannes Saresberiensis nach Leben und Studien, Schriften und Philosophie, Leipzig, 1862 (a melhor obra que apareceu sobre João de Salisbury).
J. Baudot
Autor original: J. Baudot
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