ITURRIAGA (Emanuel Marian de), moralista e controversista mexicano, nascido em Puebla, em 24 de dezembro de 1728, de família nobre originária da Espanha, entrou em 7 de março de 1711 na Companhia de Jesus e, depois de ter lecionado alguns anos retórica e filosofia, foi aplicado ao ensino da teologia. Dedicava-se a ele com êxito crescente quando chegou ao México a minuta das ordens do rei da Espanha Carlos III, referendadas por d'Aranda, e que enjoinavam aos governadores de todas as possessões espanholas que prendessem os jesuítas em toda a extensão do reino, na noite de 2 de abril de 1767, e os deportassem sem demora para os Estados da Igreja. O P. Iturriaga suportou sem queixa a terrível perseguição que grassava contra sua ordem no mundo inteiro e privava de seus bens, de suas obras, de sua pátria seis mil jesuítas espanhóis. Não lhe foi permitido levar nem um livro, nem um caderno, nem uma nota. Generosamente, fez o heroico sacrifício de tudo deixar por Deus, edificando até às lágrimas os oficiais e os soldados que o prendiam por ordem real.
A acolhida paterna de Clemente XIII, cujos protestos indignados não haviam encontrado nenhum eco nas cortes bourbônicas, consolou-o, e um vasto campo se abriu logo à sua atividade em várias dioceses da Itália, em Bolonha, em Módena, em Veneza, onde os bispos o chamavam para a defesa dos interesses religiosos e da sã doutrina. Seu primeiro cuidado foi refutar uma obra falsamente atribuída a Lanzerini, professor de Bolonha, e que desnaturava a doutrina teológica sobre a atrição: Dominicus Lanzerinius... vindicatus super attritione venialium ex metu purgatorii concepta, 1778. No ano seguinte, a pedido do bispo de Bolonha, Iturriaga submete a um exame crítico aprofundado a obra do P. Pedro Paulo Monaci, sacerdote da Missão, contendo, sob o pseudônimo de Lellio della Volpe, uma coletânea de exercícios de piedade em que graves erros se misturam a verdadeiros sentimentos de piedade: Esame critico teologico che servirà per fare un errata corrige ad un certo libro stampato in Bologna per Lelio dalla Volpe l'anno 1777, intitolato: Raccolta di varj Esercizj di Pietà, Veneza, 1779; 2e édit., ibid., 1781. Na coletânea das obras do P. Iturriaga, essa obra é seguida de um suplemento contendo as respostas às objeções feitas pelo P. Monaci.
Um tratado sobre a santificação das festas publicado na mesma época: Dissertazione teologico-morale intorno alla santificazione delle feste, Módena, 1780; 2e édit., ibid., 1783, suscitou no mundo eclesiástico de Roma e da Itália as mais vivas discussões. O arcebispo de Bolonha, desviado por preconceitos que nada pudera vencer, qualificava esse livro de « tecido de erros » (cf. R. Caballero, Bibliotheca scriptorum S. I. supplementa, Roma, 1814, t. i, p. 165), e o havia denunciado, não ao tribunal do Santo Ofício, mas ao da Inquisição espanhola, confiando o caso ao confessor do rei da Espanha, Joaquim de Osma, que lhe haviam descrito como desfavorável aos jesuítas. Osma contentou-se em submeter a obra ao julgamento dos mestres da universidade de Alcalá e estes, longe de condená-la, aprovaram a doutrina incriminada como exatamente conforme ao ensino de todos os catecismos espanhóis. Eminentes teólogos, como o P. D. Fuersalida, haviam aliás tomado com pleno sucesso, na própria Bolonha e nas dioceses vizinhas, a defesa dessa obra.
A autoridade do P. Iturriaga cresceu ainda com todo o interesse que suscitou seu tratado sobre a contrição: Dissertazione intorno al dolore necessario per il valore, e per il frutto del sacramento della penitenza, Assis, 1780. Foi um golpe sério desferido contra as doutrinas jansenistas na península. Os adversários não depunham as armas. Às críticas renovadas pelo autor dos Annali ecclesiastici de Florença, no fascículo de 16 de janeiro de 1781, contra a moral de Iturriaga, notadamente contra sua doutrina da santificação das festas, o sábio teólogo respondeu vitoriosamente com sua Risposta ad un' amico sul dubbio se la sola santa messa sufficiente a santificare la festa, Bolonha, 1781. Durante alguns anos, a polêmica e a controvérsia se imporão à atividade e ao zelo desse homem pacífico, mas dedicado de corpo e alma à glória de Deus e ao bem da Igreja. Basta citar aqui suas principais obras: Saggio di Risposta all' autore degli annali delli ecclesiastici, etc., Assis, 1782; Saggio di Risposta alla lettera di Adelfo Mariodulo, etc., Veneza, 1782.
Enquanto a incredulidade estendia seus estragos na França, na Espanha, em Portugal, na Áustria, a situação religiosa da Itália piorava de dia para dia. O josefismo se implantava na Lombardia e em Veneza; na Toscana, o arquiduque Leopoldo patrocinava cegamente o jansenismo, por instigação de Cipião Ricci, e fazia triunfar seus desígnios no concílio de Pistoia; no reino das Duas Sicílias, Caraccioli, fazendo profissão de voltairianismo, continuava a obra de Tanucci. O infortunado Pio VI via a revolução bater com suas ondas às portas de seus Estados e lutava com santa energia pela defesa da Igreja, sustentado pelo zelo dos jesuítas que encontravam acolhida junto a ele e entre os quais brilhavam em primeiro lugar Muzzarelli, Zaccaria, Lazari e Iturriaga, o mais ativo de todos.
Contra o josefismo, este conduziu vivamente a luta com duas excelentes obras: Sul sistema della tolleranza, lettera di Monsig. Vescovo di... indirizzata a Monsig. Leopoldo Ab Hai Vescovo di Königsgratz, Assis, 1783, e Sul sistema della tolleranza, giudizio apologetico e nuova risposta di Don E. Iturriaga all' Esame critico contradittorio dato in luce dal Sig. Ab. Isacco Vanspenspeg, Roma, 1785. A primeira dessas obras, traduzida para o alemão, teve grande repercussão na Áustria. Pio VI louvou publicamente a segunda e quis exprimir ele próprio seus agradecimentos ao autor. Cf. Giornale ecclesiastico di Roma, 11 mars 1786, p. 147 sq.; Esprit des journaux, mars 1788, p. 178-183. José II havia modificado por sua própria iniciativa a legislação canônica sobre o matrimônio e sobre os direitos dos regulares.
Iturriaga interveio na luta suscitada por essas medidas em Veneza, na Lombardia e no reino de Nápoles e desmascarou os erros de Ricci e de seus partidários na Toscana por sua Lettera sulla cognizione delle cause matrimoniali, regolari dalla giurisdizione de' Vescovi, Assis, 1784. Contra as decisões do concílio de Pistoia e especialmente contra as doutrinas de Ricci, aparece, em primeiro plano entre as obras de controvérsia ou de polêmica dessa época tão agitada: L'avvocato Pistoiese citato al tribunale dell' autorità, della buona critica, e della ragione, Ferrara, 1787, obra vivamente louvada por Pio VI. Cf. Giornale eccles. di Roma, t. iii, p. 133-138. Outros escritos de menor importância foram reunidos em suas obras: Operette del M. R. sacerdote D. E. Mariano d'Iturriaga, 5. in-8°, Gênova, 1730. É preciso acrescentar-lhes dois tratados sobre questões de moral: De lege secreti dissertatio moralis, Sinigaglia, 1796; Dissertationes in morales quaestiones quas Fanensi clero dissolvendas proponebat E. Marianus de Iturriaga, 6 vol., Assis, 1794-1796.
A maior parte dos bispos da Itália recorria, nas dificuldades de doutrina, a esse sábio teólogo, que os violentos abalos da Revolução não puderam arrancar de seus estudos nem dos trabalhos de seu ministério junto ao clero da diocese de Fano. Foi para ele um cruel suplício perder a vista no fim de seus dias. Retirado em Pesaro, passava seus dias na meditação e na oração, e teve a alegria, com todos os seus irmãos, de ver a Companhia de Jesus solenemente restabelecida por Pio VII, em 7 de agosto de 1814, retomar suas obras de zelo, seus colégios e suas missões em todos os pontos do universo, e morreu em Fano, em 31 de agosto de 1819, cantando, como Simeão, seu Nunc dimittis. Até o último dia, havia sido o conselheiro esclarecido, nos casos difíceis, do episcopado italiano.
Sommervogel, Bibliothèque de la C.ie de Jésus, t. iv, col. 689-694; Hurter, Nomenclator, 3e édit., 1911, t. v, col. 820 sq.; Caballero, Bibliothecae scriptorum S. I. supplementa, Rome, 1814, t. i, p. 165 sq.; Beristain y Souza, Ensayo politico sobre la Nueva España, t. ii, p. 125; Crétineau-Joly, Histoire de la C.ie de Jésus, t. v, p. 358; J. Cernitori, Biblioteca polemica degli scrittori, Roma, 1793, p.
Autor original: P. Bernard
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