ISAAC (JUDEU CONVERTIDO)

ISAAC (JUDEU CONVERTIDO)

ISAAC, judeu convertido e autor eclesiástico (século IV). — 1° A personagem e sua obra certa. — Genádio menciona, em De viris ill., 26, P. L., t. LVIII, col. 1075-1076, um certo Isaac, ao qual atribui, sem fornecer o menor detalhe biográfico, uma obra bastante obscura: De sanctae Trinitatis una substantia et incarnatione Domini. No século XVII, o jesuíta Sirmond publicou, a partir de um manuscrito da biblioteca de Pithou, um pequeno tratado com este título: Fides Isaaci ex judaeo, sobre o assunto indicado por Genádio. Opuscula dogmatica, Paris, 1630. Reconheceu com razão no autor o judeu convertido, Isaac, de quem se fala na história do papa São Dâmaso: esse judeu convertido, depois de ter escrito em favor da fé católica, havia-se engajado no partido cismático de Ursino. Ver Duchesne, Le Liber Pontificalis, t. i, p. 214. Mas, assim que Ursino foi exilado em Colônia, apostatou, voltou à sinagoga e levou, em Roma, diante do tribunal do prefeito da cidade, contra o papa, uma acusação capital, cujo objeto se ignora e da qual não pôde fornecer a prova. Graciano interveio e fez exilar o acusador num recanto afastado da Espanha, de onde talvez fosse originário. Mas o velho pontífice quis levar sua causa diante de um tribunal de bispos. Um concílio foi reunido, em 380, talvez já em 378, e lavou Dâmaso de toda acusação, e escreveu aos imperadores Graciano e Valentiniano II uma relação do caso. Encontrá-la-ão em Mansi, Concilia, t. iii, col. 624 sq. A resposta dos imperadores é o n. 13 da Collectio Avellana, Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum, t. xxxv a. O resto da vida de Isaac não é conhecido.

Vê-se que somos muito mal informados sobre a própria pessoa de Isaac. Genádio, que não tem uma só palavra sobre as características do autor, atribui simplesmente a Isaac a dissertação (disputatio) teológica acima designada, e que se costuma chamar o Liber fidei de sancta Trinitate et incarnatione Domini. Esta, aliás, não nos chegou integralmente, pois o opúsculo, publicado por Sirmond, em 1630, a partir de um manuscrito de Paris, do século VIII ou IX, só pode ser um extrato dela, tão bruscos são o começo e o fim. P. G., t. xxxiii, col. 1541-1546. É uma série de considerações passavelmente obscuras sobre os números 5, 3 e 2, nas quais o autor procura precisar o que, na Trindade, é exclusivamente próprio do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São, diz ele, três pessoas distintas, mas que formam uma única e mesma divindade. A segunda dessas três pessoas é eternamente gerada sem que se possam dizer as circunstâncias desse mistério: quando quomodo vel ubi non potest dici de eo. Ela se encarnou para nos salvar por sua paixão. Possui duas naturezas na unidade de pessoa, a pessoa do Filho de Deus: unigenitus et primogenitus, duae naturae sunt, divina et humana, sed una persona. O Espírito Santo, Deus como o Pai e o Filho, diz-se simplesmente proceder do Pai. Tais são as poucas informações fornecidas por esse extrato. Zeuchner reeditou a Fides Isaaci ex Judaeo, em Studien zur Fides Isaaci, nos Kirchengeschichtliche Abhandlungen de Sdralek, 1909, t. viii, p. 99-148.

Mas, se devemos dar crédito a certos críticos modernos, o Liber fidei estaria longe de representar toda a herança do judeu convertido. Parece que se assiste, há uns vinte anos, à ressurreição de um autor que teria sido muito mais fecundo do que se pensava a princípio. De um lado, com efeito, vários críticos notáveis concordam em identificar Isaac com o misterioso Ambrosiaster; indo mais longe, outros autores atribuem, com um pouco demais de liberalidade, a Isaac grande número de produções sem autor da antiga literatura latina. Passaremos sucessivamente em revista essas duas categorias bastante diferentes de hipóteses.

2° Isaac e o Ambrosiaster. — 1. Aparição da hipótese que os identifica. — Dom Morin, L'Ambrosiaster et le juif converti Isaac, contemporain de Damase, na Revue d'histoire et de littérature religieuses, Paris, 1899, t. iv, p. 97-121, foi o primeiro a conjecturar que havia lugar para identificar o judeu convertido Isaac com o autor de um célebre comentário sobre as 13 epístolas de São Paulo, falsamente atribuído a Santo Ambrósio e designado, desde Erasmo, pelo nome de Ambrosiaster. Cf. t. i, col. 915, l. 21. Apoiava essa conjectura no seguinte raciocínio. Caspari publicou em seus Kirchenhistorische anecdota, Christiania, 1883, p. 304-308, a partir de um ms. de Bobbio, uma Expositio fidei catholicae que mantém com o Liber fidei relações tão estreitas que acusam ou uma fonte comum, ou a dependência de um em relação ao outro. Ora, as duas dissertações, tão estreitamente aparentadas, oferecem além disso analogias impressionantes, de um lado com o comentário dito do Ambrosiaster, de outro com as Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, falsamente atribuídas a Santo Agostinho e inseridas em suas obras. P. L., t. xxxv, col. 2213-2416.

Além de certas locuções bastante características, existem relações mais gerais entre o estilo de Isaac e o do Ambrosiaster, assim como semelhanças de doutrina muito curiosas, de modo que dom Morin, depois de as ter assinalado minuciosamente, formulava esta questão: « O inencontrável Ambrosiaster não seria, por acaso, esse mesmo Isaac, cujo único escrito que nos resta nos permitiu, apesar de sua brevidade, constatar um número relativamente considerável de analogias filológicas e doutrinais, seja com os Comentários sobre São Paulo, seja com as Questões sobre o Antigo e o Novo Testamento? » L'Ambrosiaster, p. 108. Sim, ao que parece. Mas, sem ir até lá, dom Morin contentou-se em trazer essa interessante contribuição à solução do problema relativo ao Ambrosiaster, julgando que certas coincidências de linguagem entre os escritos do Ambrosiaster e o que resta de Isaac, contemporâneo de São Dâmaso, mereciam ser introduzidas no debate.

Desde 1899, ano em que foi publicada, a conjectura de dom Morin passou por diferentes fases, que importa assinalar brevemente. Parecia então a seu autor, como ele mesmo lembra, Études, textes, découvertes, IIe série des Anecdota Maredsolana, Maredsous e Paris, 1913, t. i, p. 8, « que havia alguma semelhança entre os dois escritos do Ambrosiaster (isto é, o Comentário e as Quaestiones) e o pequeno tratado Fides Isaaci ex Judaeo, editado por Sirmond: os traços que caracterizam o primeiro, um espírito mordaz e sempre pronto a censurar, curiosas ligações com o judaísmo, um temperamento de legista, tudo isso concorda bem com o que sabemos da índole e da carreira do segundo. » Vários eruditos, Th. Zahn entre outros, trouxeram desde então novos argumentos em apoio dessa identificação. Th. Zahn, Der Ambrosiaster und der Proselyt Isaac, em Theologisches Literaturblatt, 1899, t. xx, p. 313-317; Burn, The Ambrosiaster and Isaac the converted Jew, em The Expositor, novembro de 1899, t. ii, p. 368 sq.; Krueger, em Theologisches Jahresbericht, 1900, t. xix, p. 217; o P. Jos. Brucker, nos Études, 5 de fevereiro de 1900, t. lxxxii, p. 339 sq.; Turner, em The Journal of theological studies, outubro de 1902, t. iv, p. 135; J. Wittig, Papst Damasus I, Roma, 1902, p. 71, acharam a hipótese de dom Morin muito sedutora e a adotaram. Somente Zimmer, Pelagius in Irland, Berlim, 1901, p. 120, declarou-a inaceitável, porque o Ambrosiaster, ao comentar I Tim., iii, 15, fala de Dâmaso, que governa hoje a Igreja. Dom Morin reconhece que o argumento nada prova, pois o comentário das Epístolas de São Paulo pode ter sido composto antes da subornação de Isaac contra Dâmaso, subornação que teve lugar em 372, quando Dâmaso estava no trono pontifício desde o mês de setembro de 366, e, se a questão cxv parece ter sido redigida depois de 374 e a cxxv muito tempo depois de 371, o comentário pode ser anterior a elas. Hilarius l'Ambrosiaster, na Revue bénédictine, 1903, t. xx, p. 114-115.

Se dom Morin abandonou sua primeira hipótese, foi por outras razões. Mantinha, contudo, que o Comentário e as Quaestiones são do mesmo autor, que escrevia sob o pontificado de São Dâmaso, que faz frequentes alusões às tradições e aos usos judaicos, ao mesmo tempo que combate vigorosamente os judeus que não se convertem ao cristianismo. Deixava apenas de lado « a hipótese de Isaac ». Ibid., p. 114. Parecia-lhe « mais sensato ater-se à tradição paleográfica, que indica como autor, ao menos para o comentário sobre a Epístola aos Romanos, um certo Hilarius. Ora, há precisamente um Hilarius que, pela posição que ocupou e pelas funções que exerceu a partir de 377, corresponde bastante bem à ideia que podemos fazer do Ambrosiaster segundo seus escritos: é Decimus Hilarianus Hilarius, primeiro procônsul da África, depois prefeito do pretório e finalmente prefeito de Roma em 408. Pois, enfim, F. Cumont o pôs muito bem em relevo, em seu estudo sobre La polémique de l'Ambrosiaster contre les païens, na Revue d'histoire et de littérature religieuses, t. viii, p. 417-440, nosso autor tem toda a aparência ou de um funcionário público, ou ao menos de um advogado, e há em suas obras frases que um judeu de nascimento dificilmente poderia ter escrito ». Études, textes, et découvertes, t. i, p. 8-9. Cf. Revue bénédictine, 1903, t. xx, p. 115-124.

A nova hipótese de dom Morin quase não teve sucesso no mundo erudito. M. Souter criticou-a desde o seu aparecimento. A new view about Ambrosiaster, em The Expositor, VIe série, t. vii, 1903, n. 1, p. 442-456. Ele mesmo outrora a defendera com prudência, e todos os críticos a haviam rejeitado. Pseudo-Augustini Quaestiones Veteris et Novi Testamenti cxxvii, no Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum, Viena, 1908, t. l, p. xxiv, nota 8. Dom Morin, aliás, não se ateve ele próprio à segunda identificação que havia proposto. Já em 1913, anunciava que ia lançar outra hipótese que, desta vez, « reuniria todos os sufrágios ». Études, textes, t. i, p. 9. O estudo assim anunciado foi publicado na Revue bénédictine, 1914, t. xxxi, p. 1-34, sob este título: Qui est l'Ambrosiaster? Solution nouvelle. As duas obras que lhe são atribuídas harmonizam-se num mesmo autor. Esse autor é Evágrio, bispo dos eustacianos de Antioquia pouco depois de 392. Em favor dessa surpreendente identificação, dom Morin invoca a tradução latina da Vida de Santo Antão, comparada com os escritos do Ambrosiaster, o curriculum vitae de Evágrio e o que sabemos da carreira do Ambrosiaster, enfim o testemunho de São Jerônimo a respeito dos escritos de Evágrio. A conclusão é esta: « Creio-me autorizado a afirmar, não que o Ambrosiaster pode ser, mas que ele é Evágrio de Antioquia. » Dom Wilmart, ibid., p. 163, nota, escreveu a esse respeito: « O argumento desconcerta de início e desconfia-se da hipótese que ele engaja; depois sua força atua pouco a pouco e determina enfim a convicção. » Dom Morin declara que há para ele daqui em diante evidência. Todo observador sem prevenção concederá ao menos que a probabilidade é tão grande quanto pode ser em tal caso. Nenhum outro crítico, que eu saiba, emitiu sua opinião sobre a nova hipótese, e M. Tixeront não a menciona. Précis de patrologie, Paris, 1918, p. 317-318. Essa carência de discussão se deve às circunstâncias da guerra ou à pouca consideração concedida à última (será mesmo a última?) hipótese de dom Morin?

2. Sucesso da hipótese que identifica Isaac e o Ambrosiaster. — Enquanto dom Morin abandonava a hipótese de que era o pai, esta continuava a seguir seu caminho no mundo da crítica. Assinalamos acima as numerosas adesões que ela recolheu desde seu aparecimento. Ela tomou lugar, quase a título de certeza, no clássico manual de Schanz, Geschichte der römischen Litteratur, t. iv, 2ª edição, Munique, 1911, § 945, p. 354. J. Wittig sustentou a mesma tese, Der Ambrosiaster Hilarius, em Sdralek, Kirchengeschichtliche Abhandlungen, Breslau 1906, t. iv, p. 1-66. Mas nenhum crítico desdobrou tanto saber quanto M. Alexandre Souter em favor da identificação do Ambrosiaster com o judeu Isaac. Em A study of Ambrosiaster, nos Texts and Studies de Robinson, Cambridge, 1905, t. vii, n. 4, por uma longa e minuciosa comparação do comentário das Epístolas de São Paulo e das Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, tanto sob o aspecto da ilustração e das alusões, das citações da Escritura (textos pré-jeronimianos) quanto sob o da língua, do estilo e das ideias, ele procura saber quem é o autor dos dois escritos. Depois de afastar Santo Ambrósio para o primeiro e Santo Agostinho para o segundo, prova que o autor único, sem ser romano de origem, havia vivido em Roma e provavelmente ali escrevera suas obras, sob o pontificado do papa Dâmaso I, enfim que não era membro do clero, mas um leigo, versado nas questões jurídicas e muito a par dos costumes judaicos. Todos esses indícios sugerem que não era Decimus Hilarianus Hilarius. São Jerônimo teria conhecido este último, e o teria sem dúvida mencionado ou no De viris ou no prefácio do comentário da Epístola aos Gálatas, onde declara empreender um trabalho que nenhum dos latinos ainda tentou. Ao contrário, compreende-se muito bem que tenha passado em silêncio o judeu convertido e depois relapso, adversário de Dâmaso, o grande protetor de Jerônimo.

M. Souter sustentou a mesma tese, e com ainda mais força, nos Prolegomena de sua edição, já citada, das Quaestiones Veteris et Novi Testamenti. O exame dos manuscritos, sobre os quais repousa o estabelecimento do texto, foi feito na dissertação De codicibus manuscriptis Augustini quae feruntur quaestionum Veteris et Novi Testamenti CXXVI, em Sitzungsberichte der kais. Akademie der Wissenschaften in Wien, Phil.-hist. Klasse, Viena, 1905, t. cxlix, Abhand. 1, e na edição das Quaestiones, p. xxvi-xxxiii. Este estudo mostra que o texto existiu em três recensões. A primeira compreende cl questões (a cli estando perdida), das quais lvi versam sobre o Antigo Testamento e xciv sobre o Novo, numeradas separadamente. A segunda conta apenas cxxvii questões, cuja numeração é contínua nos manuscritos. A terceira tem cxv, das quais xxxviii para o Antigo Testamento e lvi para o Novo, com, além disso, um Liber quaestionum de xxi questões, numeradas separadamente. Dessas três recensões, a terceira é certamente posterior e, por conseguinte, apresenta menos interesse para o estudo do texto. A comparação da segunda com a primeira faz ressaltar a antiguidade desta. Todavia a segunda deve ser considerada como saída ela própria da pena do autor, de modo que se deveria falar de uma primeira e de uma segunda edição, esta corrigida e remanejada.

Essa segunda edição contém muitos indícios da época de sua composição. O estilo é do século IV e a doutrina é a do tempo de Santo Agostinho. O autor nomeia os imperadores Constantino, Constâncio e Juliano. Cerca de trezentos anos se passaram desde a ruína de Jerusalém. A devastação da Panônia, operada pelos quados e sármatas em 374, é mencionada. Eusébio de Vercelli, morto em 371, não está mais no número dos vivos. Os ritos pagãos que são descritos não podiam mais ser cumpridos depois do rescrito de Graciano de 382, que abolia os privilégios dos sacerdotes. A coletânea, contudo, pôde ser publicada um pouco mais tarde, tanto mais que é muito verossímil que as questões mais longas, ao menos, tenham sido editadas separadamente. Em 384, São Jerônimo respondia a cinco questões, que lhe havia posto São Dâmaso e que são as mesmas que as questões vi, ix, x, xii e xiii da coletânea. O papa interrogava o santo doutor sobre questões que seu adversário havia tratado nesse mesmo ano.

Era em Roma que o autor escrevia. Descreve exatamente a vida dessa cidade; combate a jactância dos levitas romanos. O que diz dos novacianos convém a Roma, onde eram muito numerosos. Não se encontra nenhum indício de outro lugar de composição. É permitido concluir daí que uma boa parte da coletânea, se não talvez a obra inteira, foi redigida em Roma. Alguns traços, contudo, se referem à Itália do norte ou à Espanha. Samuel Berger, Histoire de la Vulgate pendant les premiers siècles du moyen âge, Paris, 1893, p. 139, disse que o texto das Epístolas de São Paulo do Ambrosiaster é « o texto milanês por excelência »; e é o mesmo que o das Quaestiones. O autor parece conhecer também o símbolo de Aquileia. Sua maneira de falar da Espanha mostra que tem algo em comum com essa região. Só ele entre os latinos, com Prisciliano, conhece um demônio chamado Saclas. Ambos combatem os maniqueus, que eram então numerosos na Espanha. Duas particularidades ortográficas da obra são próprias dos manuscritos espanhóis da Vulgata. M. Souter conclui daí que o mais antigo arquétipo das Quaestiones foi escrito na Espanha.

O autor pertence à Igreja católica, cujos dogmas aceita muito firmemente, todavia à sua maneira. Conhece muito bem as leis romanas e emprega os termos usados nos tribunais; foi advogado. Conhece os costumes e as opiniões dos judeus tão bem quanto as instituições romanas. Tem a mentalidade judaica, e trata das genealogias e dos números como faziam os judeus. Quem é ele, então, afinal? Nenhum erudito pode negar que o Ambrosiaster tenha escrito seus comentários de São Paulo sob o pontificado de Dâmaso I (366-384), que tenha o mesmo caráter, as mesmas opiniões e o mesmo estilo que o autor das Quaestiones. A maioria dos sábios pensa que ele é o mesmo que o judeu convertido Isaac, porque a doutrina e o estilo de seus escritos estão de acordo com a doutrina e o estilo do De fide Isaaci. O que se sabe da vida de Isaac concorda também com o que foi dito acima da vida do Ambrosiaster. Enfim, a dificuldade que se tiraria do silêncio guardado por São Jerônimo sobre o judeu Isaac desapareceu desde que Zahn e Schanz assinalaram que o santo doutor o nomeou em termos velados, mas bastante transparentes, quando escreveu, em seu comentário sobre a Epístola de São Paulo a Tito, iv, 9: Audivi ego quemdam de Hebraeis, qui se Romae in Christum credidisse simulabat, de genealogiis Domini nostri Jesu Christi quae scripta sunt in Matthaeo et Luca, facere Quaestiones quod uidelicet a Salomone usque ad Joseph, nec numero sibi, nec uocabulorum qualitate consentiunt.

Qui cum corda simplicium pervertisset, quasi ex adytis et oraculo deferebat quasdam, ut sibi videbatur, solutiones, cum magis debuerit justitiam et misericordiam et dilectionem Dei quaerere et post illa, si forte occurrisset de nominibus et numeris disputare. (Cf. Questão lvi) P. L., t. xxvi, col. 396. Isaac, tendo sido relegado à Espanha, que era talvez o seu país de origem, conhecia essa província. Sabe-se também que visitou a Itália do norte e, por conseguinte, Milão. Tudo concorre, pois, para provar que o autor das Quaestiones foi o judeu convertido Isaac. Ver Agostinho (santo), t. i, col. 2308. A demonstração de M. Souter arrastará a convicção de todos os eruditos? M. Arnold ainda duvida, Realenzyklopädie, t. xxiii, p. 35. A palavra cabe ao P. Brewer, jesuíta de Feldkirch (Áustria), que prepara, para o Corpus de Viena, a edição do comentário pseudo-ambrosiano das treze Epístolas de São Paulo.

3° Outras obras, atribuídas recentemente ao Ambrosiaster, e por conseguinte ao judeu convertido Isaac. Incentivados pelo sucesso da hipótese precedente, vários críticos passaram para a cabeça do Isaac-Ambrosiaster certo número de bens sem dono. — 1. Fragmenta contra arianos. — Mons. A. Mercati, Note di letteratura biblica e cristiana antica, em Studi e testi, Roma, 1901, n. 5, p. 102, nota, tendo chamado a atenção sobre um tratado Contra arianos, contido no manuscrito papiro de Viena, Cod. 2160, Theol. G, do século VI, o professor Seidmayer publicou dele uma edição crítica com um levantamento das citações bíblicas e das particularidades filológicas. Der Tractatus contra arianos der Wiener Hilarius Handschrift, em Sitzungsberichte der K. Akademie der Wissenschaften in Wien, Phil.-hist. Klasse, Viena, 1903, t. cxlvi, n. 2. Atribuía o tratado a Santo Hilário de Poitiers, cujas obras esse manuscrito reproduz. Dom Morin acrescentou-lhe um epílogo, do qual deu a substância na Revue bénédictine, 1903, t. xx, p. 125-134. Declarava ali que a atribuição a Santo Hilário é totalmente desprovida de fundamento, que o autor devia ser um Hilário, talvez o Ambrosiaster (para ele, então, Hilarianus), que escreveu um libellus contra arianos, q. cxxv. A esse fragmento, dom Morin juntava outro, que havia reencontrado na porção, de proveniência desconhecida, do sermão ccxlvi de Santo Agostinho, desde as palavras Obiciunt nobis até o fim, P. L., t. xxxix, col. 2198-2200. Esses dois fragmentos têm traços de parentesco, nos pensamentos e na maneira de se exprimir, com os escritos do Ambrosiaster. Somente M. Wittig, veremos, adotou essa identificação. Como dom Morin não fala dela em seus Études, textes, découvertes, t. i, é preciso concluir que ela é agora para ele como não existente.

2. Anonymi Chiliastae in Matthaeum fragmenta, publicados por Mons. Mercati, em Studi e testi, 1908, n° 11, fasc. 1. M. Turner os reeditou e estudou. An exegetical fragment of the third century, em Journal of theological studies, 1901, t. v, p. 218-241. Essas duas publicações forneceram a M. Souter a ocasião de considerar o Ambrosiaster como o autor desses fragmentos. Reasons for regarding Hilarius (Ambrosiaster) as the author of the Mercati-Turner anecdoton, ibid., p. 608-621. Essas razões são do mesmo gênero que as precedentes: semelhanças de fundo e de forma. A conclusão é para ele manifesta. Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, p. xxiii, e Zahn adotou seu parecer. Neue kirchliche Zeitschrift, 1905, t. xvi, p. 419-427.

3. Mosaicarum et romanarum legum collatio. É uma comparação entre a legislação, sobretudo penal, do Pentateuco e a legislação romana, feita com intenção apologética; reeditada por Mommsen, Collectio librorum juris ante justiniani, Berlim, 1880, t. iii, p. 136 sq. M. Schanz admitiu, sem insistir, a hipótese de sua composição por Isaac. Geschichte der röm. Litteratur, t. iv, 1914, p. 359 e 361. M. Souter diz o mesmo. Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, p. xxiii.

4. Mas M. Wittig atribuiu a Isaac um número maior de obras. Em 1902, em seu livro Papst Damasus I, sustentou que o Quae gesta sunt inter Liberium et Felicem episcopum, que não seria senão uma exposição da rivalidade de Dâmaso e Ursino, era da mão de Isaac. Em 1906, em seu Der Ambrosiaster Hilarius, publicado em Sdralek, Kirchengeschichtliche Abhandlungen, t. iv, p. 4-66, atribuiu-lhe, com dom Morin, o Tractatus contra arianos, com Schanz, a Lex Dei sive mosaicarum et romanarum legum collatio, e além disso o Hegesippus sive de bello judaico, que Bardenhewer crê ser uma obra de juventude de Santo Ambrósio, Geschichte der altkirchlichen Literatur, t. iii, p., mas que O. Scholz, Die Hegesippus-Ambrosius-Frage, em Sdralek, 1909, t. viii, p. 149-195, atribui, confirmando-o com novos argumentos, ao Ambrosiaster; outro, um pequeno tratado De concordia Matthaei et Lucae in genealogia Christi, que está editado em P. L., t. xvii, col. 1011-1014, e que corresponde bastante bem à descrição de São Jerônimo, referida acima (Gellot o havia publicado em 1568 sob o nome de Santo Ambrósio); um tratado maior sobre o décimo capítulo de Mateus, que o cardeal Mai havia impresso sob o nome de Hilário de Poitiers, Nova Patrum bibliotheca, Roma, 1852, t. i (cf. Bardenhewer, op. cit., p. 377). Enfim, em 1908, M. Wittig atribuía ainda ao Ambrosiaster uma carta, ou pelo menos um extrato de uma carta a Abra, que Mingarelli e Trombelli haviam publicado em 1751 sob o nome de Santo Hilário de Poitiers (ver Bardenhewer, op. cit., p. 387), mas que não é dele, Revue bénédictine, 1898, t. xv, p. 97-99, e que está reproduzida em P. L., t. x, col. 733-750.

Contudo, no ano seguinte, a rica herança atribuída a Isaac se desvanecia. M. Wittig julgava reencontrar no tratado De haeresibus de Filastrio vestígios dos comentários das Epístolas de São Paulo do Ambrosiaster, e reconhecia em Gaudêncio, bispo de Bréscia, o judeu Isaac. Filastrius, Gaudentius und Ambrosiaster, em Sdralek, 1909, t. viii, p. 1-56. A respeito da longa série de obras que Wittig coloca sob o patrocínio do Ambrosiaster Isaac, M. Souter não pode pronunciar-se por ora e diz que a posteridade será o juiz. Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, p. xxiii. Além das obras citadas no texto, ver A. Harnack, Der pseudoaugustinische Traktat Contra Novatianum, em Abhandlungen Alexander von Oettingen zum siebenzigsten Geburtstag gewidmet von Freunden und Schülern, Munique, 1898, p. 54-93 (esse tratado contra Novaciano não é senão a q. cii das Quaestiones Veteris et Novi Testamenti); A. Souter, The genuine Prologue to Ambrosiaster on I Corinthians, em Journal of theological studies, 1903, t. iv, p. 89-92; An unknown Fragment of the Pseudo-Augustinian Quaestiones Veteris et Novi Testamenti, ibid., 1905, t. vi, p. 61-66 (é a q. cx De psalmo primo, na edição das Quaestiones, p. 268 sq.); Turner, Niceta and Ambrosiaster, ibid., 1906, t. vii, p. 203, 219, 355-372 (o segundo artigo é consagrado às Quaestiones); W. Schwierholz, Hilarii in Epistolam ad Romanos, em Sdralek, Kirchengeschichtliche Abhandlungen, Breslau, 1909, t. viii, p. 59-96; M. Schanz, Geschichte der römischen Litteratur, Munique, 1914, t. iv, § 945, p. 354-362; O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, Friburgo em Brisgóvia, 1912, t. iii, p. 520-525 (distingue o Ambrosiaster e Isaac, o judeu convertido, indicando ao mesmo tempo os partidários de sua identidade); Realenzyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, Leipzig, 1913, t. xxiii, p. 35-36.

G. Bareille e E. Mangenot.

Autor original: E. Mangenot

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