IRVINGIANOS ou Irvingitas são as denominações dadas a uma seita que, aliás, não as aceita, e que reivindica para si, sem exclusividade, aliás, o título de Igreja católica apostólica. É sob este último nome que ela é oficialmente conhecida nos países de língua inglesa. As origens remontam ao primeiro terço do século XIX. As convulsões da Revolução e do Império haviam perturbado certos espíritos e os haviam levado à ideia de que o segundo advento de Cristo estava próximo. Procurava-se, assim, nas Escrituras e em particular no Apocalipse, ler os sinais dos novos tempos. A primeira manifestação literária dessa ideia parece ter sido uma obra de Emmanuel Lacunza, religioso da Companhia de Jesus, nascido em Santiago do Chile, que fora expulso de seu país, com todos os seus confrades, em agosto de 1767. Refugiara-se nos Estados pontifícios, em Ímola, onde vivera na solidão e, ao que parece, na miséria. Fora encontrado morto na rua, em 17 de junho de 1801.
Havia composto em seu retiro uma obra: La Venida del Mesias en gloria y majestad, cujo primeiro volume apareceu inicialmente em Cádiz, depois, em 1816, em Londres, sob o nome de Juan Josaphat Ben Ezra, hebreu cristão. A edição de Cádiz fora proibida pela Inquisição dessa cidade em 1812, e a própria obra foi posta no índice em 6 de setembro de 1824. Lacunza, com efeito, nessa interpretação do Apocalipse, professava uma doutrina que se aproxima muito do milenarismo. Acreditava que Jesus Cristo, no tempo devido, desceria do céu, que seria acompanhado dos anjos e dos santos, que reinaria visivelmente com eles durante mil anos, e que, antes de subir de novo aos céus, apareceria em toda a sua majestade para julgar todos os homens.
Esse livro, publicado em Londres, caiu ali em uma fermentação de ideias semelhantes que se fazia em certos círculos pertencentes às diversas tendências da Igreja da Inglaterra. Um deles se reunia na casa de um rico banqueiro, Henry Drummond, membro dos Comuns. Seu castelo de Albury contava entre seus hóspedes personalidades conhecidas, como o filho do primeiro-ministro Percival e um pastor estimado, Nicholas Armstong. Mas suas ideias só tomaram corpo no dia em que tiveram por intérprete o homem que lhes ia dar o seu nome, Edward Irving.
Este nascera em Annan, na Escócia, em 1792. Desde a juventude ligara-se ao célebre historiador Thomas Carlyle, que lhe consagrou um capítulo de suas « Reminiscências ». Depois de ter ensinado, durante alguns anos, matemática e literatura, tornara-se pastor do Caledonian Asylum de Londres. Atraíra ali primeiro a atenção, depois logo a multidão, por sermões que giravam em torno dos temas caros ao grupo de Albury. Publicava quatro deles, em 1823, sob o título significativo: For the oracles of God. No mesmo ano, outra coletânea anunciava o grande julgamento: For judgment to come. Em 1826, aparecia Babylon and Infidelity foredoomed. Por fim, em 1831, dava uma tradução, com introdução, da obra de Lacunza, sob o título: Exposition of the Book of Revelation.
Mas seus livros nada eram junto de seus discursos. Duas viagens de pregação à Escócia, em 1828 e em 1829, haviam sido, para Irving e para suas ideias, um verdadeiro triunfo. Todos os que o haviam ouvido estavam na expectativa de uma renovação dos milagres da era apostólica. Ora, em 1830, produziu-se, primeiro na igreja reformada escocesa de Port Glascow, na foz do Clyde, depois nos arredores, depois no próprio Caledonian Asylum, uma série de acontecimentos estranhos. Eram visões, profecias e fenômenos de glossolalia que foram interpretados pelos assistentes como « efusões do Espírito Santo. » Não era preciso tanto para que Irving e seus companheiros de ideias encontrassem aí o indício certo da realização de seus sonhos. Outro indício não menos certo foi a « perseguição » que começou, nesse mesmo ano de 1830, da parte das autoridades eclesiásticas, contra Irving.
O conselho presbiteral das igrejas escocesas de Londres, do qual dependia o Caledonian Asylum, achou que as cenas a que davam lugar as profecias e as glossolalias eram tudo menos edificantes. Aliás, Irving havia chocado a teologia reformada ao professar, sobre a humanidade de Cristo, teorias pouco compatíveis com o dogma calvinista. O processo, iniciado em 1830, prolongado por um apelo de Irving ao sínodo geral da Escócia, terminou, em 2 de maio de 1832, com sua deposição do ofício de pastor.
Esses incidentes decidiram Irving e seus amigos a fundar uma comunidade independente. Ela tomou, sobretudo nos primeiros tempos, o aspecto de um colégio de profetas, no qual se fizeram notar um advogado de Londres, Gardale, depois Baxter e Taplin. Uma propaganda popular conduzida por sessenta jovens permitiu formar, na capital, sete agrupamentos em memória dos sete dons do Espírito Santo e das sete igrejas do Apocalipse. Mas a imagem dos tempos apostólicos que obcecava esses iluminados levava-os a considerar esses acontecimentos como uma simples preparação e como os preliminares de um novo Pentecostes. Este se produziu, em 7 de novembro de 1832, pelo chamado de John Cardale como « apóstolo ». Assim se delineava uma organização cuja alma era precisamente Cardale. Quanto ao próprio Irving, sua influência oratória diminuía.
Aliás, sua saúde estava gravemente comprometida e ele morreu, com apenas quarenta e dois anos de idade, em 8 de dezembro de 1834. Essa morte foi, aliás, o sinal de uma expansão da nova Igreja apostólica. Em 14 de julho de 1835, o « colégio dos Apóstolos » foi completado, graças a novos « chamados ». Os « chamados » retiraram-se para Albury e, durante todo um ano, prepararam-se, pelo estudo das Escrituras, para o cumprimento de sua missão. Ela começou, no início de 1836, com o envio de uma carta circular a todas as autoridades civis e eclesiásticas do universo. Em seguida, os « Apóstolos » repartiram o mundo entre si. Cardale foi designado para a Inglaterra, Drummond para a Escócia e a Suíça, Arnistrong para a Irlanda e o Oriente cristão, Percival para a Itália, King-Church para os Países Baixos e a Dinamarca, Tudor para a Polônia e as Índias, Woodhouse para a Áustria e a Alemanha do Sul, Cariyle, um advogado escocês, para a Alemanha do Norte, Dalton para a França, Sittwill para a Espanha, William Dow para a Rússia e Mackenzie para a Escandinávia.
Dirigiram-se às suas missões e voltaram a Albury em 1838 para prestar contas a Cardale do estado em que cada uma se encontrava. Partiram de novo. Mas, já no ano seguinte, Cardale os chamava de volta em razão das dificuldades que se levantavam nas comunidades inglesas. Com efeito, os chefes dessas comunidades, que, em memória do Apocalipse, traziam o título de « Anjos », apoiados pelos profetas, reclamavam uma maior independência diante da autoridade dos « Apóstolos ». A querela foi apaziguada e o caso se resolveu; mas esse debate foi causa de que um dos apóstolos, Mackenzie, se demitisse de seu encargo. Quanto ao êxito da missão, fora muito diverso. Nos países de língua românica, o resultado era praticamente nulo. Na Alemanha, ao contrário, Woodhouse e Cariyle haviam feito adeptos, entre os quais um conhecido redator da Gazeta da Cruz, Wagner, e sobretudo o professor Hermann Thiersch, de teologia da universidade de Marburgo.
Mas novas dificuldades aguardavam o « Colégio dos Apóstolos ». Os profetas haviam fixado sucessivamente as datas do segundo advento de Cristo em julho de 1835, depois no Natal de 1838, depois em 1842, depois em 1845, depois em 1855. Apesar das decepções várias vezes experimentadas, esperava-se sempre que a vinda em glória e majestade se cumpriria em vida dos « Apóstolos ». Ora, Mackenzie, Cariyle e William Dow morreram em 1855. Como conciliar a fé no advento e a administração das comunidades? Daí duas correntes: uns se recusavam a aceitar novos apóstolos, outros afirmavam a necessidade deles. Para resolver o problema, os seis apóstolos que restavam em 1860 reuniram-se em Albury. Woodhouse trazia de Berlim o profeta Henri Geyer. Este declarou que o Espírito Santo chamava como apóstolos Charles Boehm para a Alemanha e Caird para a França. Mas os anciãos declararam que esse novo chamado estava em contradição com a Escritura. Essa oposição foi o ponto de partida de um cisma que se realizou sobretudo graças à atividade do « Anjo » da comunidade de Hamburgo, Schwarz. Contudo, não foi ele, mas seu subordinado Preuss, que o profeta Geyer chamou como apóstolo para a Alemanha do Norte e a Escandinávia.
Um novo cisma produziu-se em 1878, por iniciativa de um antigo empregado de estrada de ferro, Krebs, que estivera à frente de uma comunidade irvingiana no Harz. Foi ainda Hamburgo que serviu de palco a essa nova cisão. Os dissidentes reuniram-se aos grupos holandeses, à frente dos quais se encontrava Schwarz, que fora expulso de sua antiga comunidade por Preuss e Geyer. As inovações mais importantes desses neo-irvingianos foram a singular cerimônia da consignatio dos vivos e dos mortos e a doutrina da reencarnação de Cristo nos « Apóstolos ». Por ocasião da morte de Krebs e de Schwarz, o chefe desses grupos foi o fazendeiro Hermann Niehaus, de Steinhagen, perto de Bielefeld, na Vestfália. Seus principais « Apóstolos » são, para os Estados Unidos, Edward Mierau, em Nova York, para a Argentina, Faber, para a África do Sul, Klibbe, para a Austrália, Niemeyer. Em 1900, esses neo-irvingianos pretendiam ter conquistado para suas ideias, graças ao apóstolo nativo Sadrach, a ilha de Java inteira. Quanto às concepções milenaristas de Lacunza, segundo uma benévola comunicação oral de Mons. de la Scrcna, elas não desapareceram de seu país de origem.
Compreende-se que, nessas condições de desenvolvimento, essa seita não tenha tido de recorrer a inovações doutrinais. Ela declara admitir o que admitem em comum todas as grandes confissões cristãs. Afirma a autoridade absoluta e a inspiração total do cânon das santas Escrituras. Considera como expressão essencial da doutrina os três grandes credos históricos: o símbolo dos apóstolos, o de Niceia e o de santo Atanásio. Reconhece o caráter sacramental do batismo, da santa ceia e da ordem. Proclama a indissolubilidade do matrimônio. Mas o que a caracteriza é essencialmente a importância que atribui ao papel do Espírito Santo na vida da Igreja. Dá um lugar de primeiro plano à imposição das mãos como meio de obter a plenitude dos dons espirituais. Professa a necessidade desses dons, em particular do dom de profecia e do dom das línguas, para aperfeiçoar a igreja.
Ela crê na vinda pessoal de Cristo para ressuscitar os mortos, glorificar os membros vivos da Igreja e inaugurar sobre a terra o reino da paz que durará mil anos e que terminará com o grande julgamento. Quanto à organização da Igreja, pretende copiar a dos primeiros séculos. Repousa essencialmente sobre um « Colégio apostólico » de doze membros, escolhidos pelo chamado dos profetas. Esse colégio forma o governo supremo, que deve revelar ao mundo o Espírito de Deus. As comunidades locais são dirigidas por um bispo, que toma o título de « Anjo » e que é cercado por um corpo de sacerdotes e de diáconos.
Esses ministros não são eleitos pelo clero nem pelos fiéis. Somente os diáconos, que devem ser em número de sete para cada comunidade, podem ser, com a permissão dos apóstolos, escolhidos pelo povo. Para ser admitido ao ofício de sacerdote ou de bispo, é necessário um chamado dos profetas. A consagração, a nomeação e a administração dos sacerdotes e dos bispos estão nas mãos dos apóstolos. Uma vez chamados e ordenados, recebem cada um uma função particular conforme seus respectivos dons, seja de profetas, seja de evangelistas, seja de pastores. Quando um apóstolo vem a desaparecer, os bispos e os sacerdotes governam diretamente as igrejas que dele dependiam, até que um chamado o tenha substituído. O culto, que é muito desenvolvido, comporta cerimônias tomadas de diversas comunhões cristãs.
As comunidades irvingianas não parecem ter feito grandes progressos na Inglaterra. Em 1907, contavam-se nove em Londres. Não é assim na Alemanha, onde elas acusam, em quase todas as regiões, uma progressão constante. Em 1906, somente a Prússia contava 45 054 irvingianos. Nos Estados Unidos, segundo a estatística de 1916, os antigos irvingianos contavam 13 comunidades e 2 708 membros, ao passo que os neo-irvingianos tinham 20 comunidades com 3 828 membros. Não se têm informações precisas sobre suas missões de Java e da África do Sul. Na Alemanha, dispõem de vários jornais e publicações periódicas.
Toda a literatura relativa à seita irvingiana anterior a 1900 encontra-se indicada em Th. Kolde, Edward Irving, Leipzig, 1901; do mesmo, art. Irving, da Realencyclopädie de Hauck, 3ª edição. É preciso acrescentar-lhe K. Handtmann, Die Neu-Irvingianer, Gütersloh, 1907, e a publicação do departamento do comércio dos Estados Unidos, Religious bodies. Part. II, Separate denominations, p. 180 e p. 529 sq.
A. HUMBERT.
Autor original: A. Humbert
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor