INOCÊNCIO V (papa de 21 de janeiro a 22 de junho de 1276). — Pedro de Champagny, mais conhecido desde sua entrada na vida religiosa sob o nome de Pedro de Tarentaise, ou de Pedro da Borgonha, nascera em 1225, no condado de Tarentaise, dependência do ducado de Saboia. Admitido muito jovem na ordem de São Domingos, em 2 de fevereiro de 1234, foi enviado por seus superiores à universidade de Paris. Aí seguiu provavelmente as lições de Alberto Magno e mostrou-se desde então o digno discípulo de tal mestre. Bacharel em 1256, leu e explicou as Sentenças de Pedro Lombardo até 1258. Em 1259, obteve o grau de doutor, e no mês de setembro desse ano inaugurou suas lições de mestre, que continuou durante sete anos até o verão de 1267. Mandonnet, Des écrits authentiques de saint Thomas d'Aquin, 2° édit., Fribourg, 1910, p. 126-127. No mês de junho de 1269, tomou parte, com diversos mestres em teologia, no capítulo geral de Valenciennes, que fixou definitivamente a regra dos dominicanos e determinou em particular o regulamento dos estudos para todos os colégios teológicos da ordem. Denifle e Châtelain, Chartularium Universitatis Parisiensis, t. i, p. 385.
Suas qualidades distintas e a confiança de seus confrades levaram-no ao cargo de provincial da França, que exerceu de 1260 a 1267. No mês de outubro de 1267, voltou a ser professor em Saint-Jacques até 1269. Foi reeleito nesse mesmo ano provincial da França. Mas em 1272, Gregório X, a pedido do clero de Lyon, nomeou-o para a sé arquiepiscopal dessa cidade e, no ano seguinte, criou-o cardeal-bispo de Óstia e grande penitenciário da Igreja romana. No II concílio ecumênico de Lyon, reunido (1274) principalmente com vistas a socorrer as cristandades orientais e a conseguir a reunião dos gregos à Igreja latina, Pedro ocupou um lugar eminente; tomou a palavra várias vezes com rara autoridade, e foi a ele que coube a honra de pronunciar a oração fúnebre de São Boaventura. Por isso, por ocasião da morte de Gregório X, ocorrida em Arezzo em 10 de janeiro de 1276, foi eleito, por voto unânime, para sucedê-lo. Sua eleição deu-se em 21 do mesmo mês. Tomou o nome de Inocêncio V; era o primeiro dominicano chamado a cingir a tiara.
No trono pontifício, sua grande preocupação, como a de seu predecessor, foi assegurar à Igreja a paz e a união no interior e protegê-la contra os inimigos de fora, sobretudo contra os muçulmanos. Antes mesmo de deixar Arezzo para Roma, onde ia ser sagrado, escreveu aos genoveses, exortando-os vivamente a restabelecer a concórdia em sua cidade. Contra os habitantes de Pavia, de Verona e de várias outras cidades, obstinados fautores de desordens e revoltas, teve de recorrer primeiramente às censuras eclesiásticas. Mas, à força de admoestações e de negociações, conseguiu enfim estabelecer entre Pisa e o resto da Toscana um tratado de paz que valeu a essa região turbulenta alguns anos de feliz e fecunda tranquilidade. Todavia, a política italiana de Inocêncio foi muito mais favorável que a de seu predecessor à causa angevina.
Por outro lado, sua atenção voltava-se também para os perigos e angústias da Espanha, onde Afonso de Castela e Jaime de Aragão estavam em luta com Ben-Yousouf, o temível sultão do Marrocos, a quem os mouros da península haviam chamado em seu auxílio. Por suas cartas ao clero e pela concessão de um dízimo de guerra a ser cobrado sem demora sobre as rendas eclesiásticas, sustentou o zelo pela cruzada nacional. Além disso, enviava uma embaixada solene a Miguel Paleólogo e a seu filho Andrônico, e instava esses dois príncipes a realizar praticamente e a organizar em todo o seu império a união decretada em Lyon; e levava sua solicitude até propor-lhes fórmulas de ordenações e regulamentos a promulgar com esse fim. Potthast, Regesta pontificum romanorum, p. 1704-1708. Cf. Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, Paris, 1914, t. vi, p. 229-230. Infelizmente faltou-lhe o tempo para o cumprimento desses generosos projetos. Morreu em Roma, em 22 de junho de 1276. Reinara apenas cinco meses e um dia.
Como escritor, Inocêncio V, a quem seus contemporâneos apelidaram Doctor famosissimus, deixou obras dignas de menção, notadamente: 1° Commentarius in quatuor libros Sententiarum, publicado somente em 1852, em Toulouse, em 3 in-fol. Não é, como se repetiu erradamente, um resumo do comentário de São Tomás sobre o mesmo livro; continha certas opiniões, sem dúvida discutíveis, que parecem ter fornecido muito cedo matéria a polêmicas hoje esquecidas; 2° notas ou « postilas » super Pentateuchum, super Lucam, super Epistolas Pauli, etc.; estas últimas, frequentemente citadas pelos exegetas posteriores, foram de 1478 a 1692 impressas seis vezes sob o nome de Nicolau de Gorran (†1295); as edições impressas foram feitas segundo manuscritos interpolados, o que levou bons críticos a duvidar de sua verdadeira proveniência; mas manuscritos antigos, puros dessas interpolações, trazem o nome de Pedro de Tarentaise. Por isso o P. Denifle não tem nenhuma dúvida sobre sua autenticidade. Die Abendländischen Schriftausleger bis Luther über Justitia Dei (Rom. 1, 17) und Justificatio, Mayence, 1905, p. 144-152; 3° questões quodlibéticas inéditas: De unitate formae, De materia caeli, De aeternitate mundi, De intellectu et voluntate, e alguns outros estudos manuscritos cujos títulos se encontrarão em Quétif-Echard, Scriptores ordinis praedicatorum, Paris, 1719, t. i, p. 350.
Sobre os manuscritos, as edições e os extratos das duas principais obras de Pedro de Tarentaise, ver a Revue des sciences philosophiques et théologiques, outubro de 1902, p. 570-572; Muratori, Rerum italicarum scriptores, Florença, 1723-1751, t. iii, p. 605, Vita Innocentii Papae V ex ms. Bernardi Guidonis; Touron, Histoire des hommes illustres de l'ordre de Saint-Dominique, Paris, 1743, t. i, p. 644; P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres, moyen âge. t. ii, p. 487-495; Mons. Turinaz, La patrie et la famille de Pierre de Tarentaise, Nancy, 1882; Carboni-Laureti, De Innocentio V romano pontifice dissertatio, Roma, 1894; Vie du bienheureux Innocent V, par un religieux du même ordre (le P. Mothon), Roma, 1896.
J. FORGET.
Autor original: J. Forget
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