INOCÊNCIO II, papa (1130-1143). Gregório Papareschi, o futuro papa Inocêncio II, é romano de nascimento. Cedo fez carreira no palácio apostólico, onde deve ter sido admitido como clérigo no tempo do antipapa Guiberto, por volta do ano 1080. Rapidamente se elevou às honras: Pascoal II o criou em 1116 cardeal-diácono de Sant'Angelo. Gelásio II, quando de sua fuga para a França, o teve como companheiro em 1118. Em Cluny, a 2 de fevereiro de 1119, foi um dos eleitores de Calisto II, de quem será um dos mais ativos auxiliares. Com Lamberto, que o precederá no trono pontifício, é o negociador da concordata de Worms em 1122. Nos anos seguintes representa como legado os interesses de Calisto II na França, de comum acordo com o cardeal Pedro Pierleoni, que logo será seu rival. Sob o pontificado de Honório II continua por algum tempo essa missão. É, pois, quando regressa a Roma em 1125, um dos personagens mais consideráveis do Sacro Colégio. É essa circunstância que decide uma fração bastante pequena dos cardeais a designá-lo em 1130 como sucessor de Honório II. Mas as cerimônias de sua eleição ainda não haviam terminado quando, em outro ponto de Roma, a maioria dos cardeais elege, sob o nome de Anacleto II, Pedro Pierleoni. Essa dupla eleição quase simultânea provoca em toda a Igreja latina um cisma, que só será definitivamente reduzido pela morte de Anacleto II em 1138. Dessa forma, o pontificado de Inocêncio II se esgotará primeiro em tentativas mais ou menos felizes para fazer reconhecer sua eleição por toda a cristandade, depois em esforços impotentes para instalar-se em Roma, onde seu rival se manterá até a morte. Só depois de 1138 poderá Inocêncio II, doravante papa incontestado de toda a Igreja, tentar governar. Ainda assim, sua política religiosa e civil nesses últimos anos permanecerá em função das circunstâncias duvidosas em que se deu sua eleição. Daí resulta que todo o seu pontificado é dominado por essa penosa questão; e desde então não pode ser indiferente ao teólogo, nem ao canonista, examinar de perto esse problema, um dos mais curiosos que a história do papado propõe.
I. A DUPLA ELEIÇÃO DE INOCÊNCIO II E DE ANACLETO II, 14 de fevereiro de 1130. — Há na história numerosos casos em que rivais foram suscitados ao papa legítimo pela política dos soberanos temporais. Encontramo-nos aqui diante de um caso inteiramente diferente. Duas grandes famílias romanas, os Frangipani e os Pierleoni, disputam há trinta anos a influência em Roma e procuram fazer eleger um pontífice de sua escolha. Em 1124, os Pierleoni quase triunfaram, mas por um verdadeiro golpe de Estado os Frangipani fizeram anular a eleição do candidato que lhes era desagradável e impuseram a escolha de Honório II. Tudo foi reparado por uma nova eleição, unânime desta vez. Ver col. 132. Mas é evidente que os Pierleoni conservaram uma lembrança penosa da votação de 1124; prometem-se uma desforra para o dia em que Honório II vier a desaparecer. É inevitável que graves distúrbios rebentem em Roma por ocasião da morte do velho pontífice. Pois os Frangipani não estão decididos a afrouxar o domínio que exercem presentemente sobre a Igreja romana. Têm no Sacro Colégio um representante enérgico e hábil na pessoa do chanceler Aimerico. Persuadido, como está, de que a ascensão ao poder dos Pierleoni será uma grande desgraça tanto para a Igreja romana quanto para ele próprio, Aimerico empregará todos os meios para impedir a eleição do cardeal Pierleoni.
Do leito em que agonizava, Honório II podia já acompanhar as intrigas que antecipavam a hora de sua morte. Quando, nos primeiros dias de fevereiro, o chanceler o fez transportar ao convento fortificado de Santo André (hoje chamado São Gregório), o moribundo deve ter pensado que os Frangipani conservariam o controle da eleição de seu sucessor. Quando faleceu, segundo toda a verossimilhança na quinta-feira depois das Cinzas, 13 de fevereiro, por volta do pôr do sol, a luta já havia irrompido entre os dois partidos que disputavam sua sucessão. Sobre os acontecimentos que se desenrolaram entre 11 e 18 de fevereiro estamos bastante abundantemente informados. Infelizmente as peças que nos restam emanam, umas e outras, de pessoas que tomaram partido no conflito dos dois papas e que, por isso, não oferecem todas as garantias de imparcialidade. Os testemunhos favoráveis a Inocêncio II são constituídos: pelo manifesto do papa e de seus eleitores ao rei da Alemanha, Lotário, datado de 20 de junho de 1130, Jaffé, n. 7413; pela carta de Humberto de Lucca a são Norberto, bispo de Magdeburgo, em Watterich, Pontificum romanorum vitœ, t. ii, p. 179-180; pela carta de Gautier, bispo de Ravena, ao mesmo são Norberto, P. L., t. clxxix, col. 38 : Visis sanctissimœ paternitatis vestræ; enfim pela carta do mesmo Gautier a Conrado, arcebispo de Salzburgo, publicada nas Forschungen zur deutschen Geschichte, t. viii, p. 164. Esta última é de longe a mais importante, tendo sido escrita, a 15 ou 16 de fevereiro, dos arredores mesmos de Roma, com base em informações fornecidas ao autor por seus agentes, que acabava de enviar à cidade, à notícia dos acontecimentos que ali se haviam desenrolado a 13 e 14.
As duas cartas dirigidas a são Norberto já são defesas, escritas por volta do mês de junho, e dão a narração dos fatos tal como se tornara oficial no círculo de Inocêncio II. Com maior razão a peça dirigida pelo papa e seus eleitores ao rei da Alemanha representa a versão inocenciana do conflito. — Exatamente paralela, a carta dirigida a Lotário por Anacleto e seus eleitores a 24 de fevereiro, Jaffé, n. 8371, nos dá dos mesmos acontecimentos a interpretação inversa. Mas existem em favor da eleição de Anacleto dois documentos menos oficiais e, portanto, um pouco mais dignos de crédito: a carta aberta do cardeal Pedro de Porto aos cardeais-bispos eleitores de Inocêncio, P. L., t. clxxix, col. 1337, na Historia novella de Guilherme de Malmesbury, e sobretudo uma carta dirigida em nome do clero romano ao bispo Diogo de Compostela, a 10 de abril de 1130, em Watterich, loc. cit., t. II, p. 187. Seja seu autor, como pretendem alguns, o cardeal Pedro de Pisa, um dos mais sábios juristas de seu tempo, ou, como é mais verossímil, o cardeal Pandulfo, essa carta emana de uma testemunha muito bem informada, que visa à imparcialidade, sem aliás consegui-lo perfeitamente.
Combinando e criticando uns pelos outros esses testemunhos por vezes contraditórios, não é impossível formar uma ideia aproximada dos acontecimentos que precederam e seguiram a morte de Honório II, por vezes até das intenções que dirigiram os principais atores desse drama. Incontestavelmente a morte de Honório foi precedida por negociações, nas quais é impossível não notar a mão do chanceler Aimerico. O que este quer evitar antes de tudo é uma eleição mais ou menos tumultuária, em que a pressão da nobreza e do povo romanos, previamente ganhos para o cardeal Pierleoni, faria pender a favor deste a opinião do Sacro Colégio. O melhor meio que encontra é preconizar, numa reunião dos cardeais realizada a 12 de fevereiro (talvez 11), a nomeação de um comitê de oito membros que, logo terminadas as exéquias do papa defunto, deverão escolher por unanimidade o candidato à tiara. Se esse comitê não chegar a entender-se, recorrerá a árbitros supremos que dirimirão a divergência. Vê-se que a ideia predominante é chegar à unanimidade dos eleitores. Dois bispos, três presbíteros, três diáconos são assim designados; nesse número estão incluídos Gregório de Sant'Angelo e Pedro Pierleoni, os dois futuros rivais, e enfim o próprio Aimerico. Em virtude dessa designação é bem evidente que as chances de Pierleoni ficam seriamente diminuídas: mas pelo fato de que o comitê conta igualmente um partidário decidido de Pierleoni, o cardeal Jonatas, é não menos claro que o candidato de Aimerico só dificilmente poderá reunir a unanimidade dos votos. Assim, a votação de 12 de fevereiro parece dever desembocar na designação de uma terceira pessoa, menos comprometida nas questões de partido.
Parece (aqui a prudência se impõe nas afirmações) que Aimerico tenha desde então mudado seu plano de batalha. Talvez não lamentasse ver cair a própria ideia do compromisso, aceita por todo o colégio eleitoral. O certo é que imediatamente após a sessão em questão ocorre um incidente que será capital para o desenrolar dos acontecimentos. Fora combinado que a eleição teria lugar na igreja de Santo Adriano, se, contudo, as fortalezas que a dominavam pudessem ser entregues às mãos dos cardeais. Dois membros do comitê foram enviados para apoderar-se delas, verossimilmente Pierleoni e Jonatas. Foram impedidos, ao que parece, por certos cardeais-bispos. Temos o direito de supor que estes tinham partido ligado com Aimerico e procuravam assim impedir a execução do que fora previamente resolvido? Não estaria longe de pensá-lo. Mas penso também que Pierleoni aceitou o desafio de coração leve. Desde o momento em que já não era possível fazer executar as decisões tomadas na assembleia geral, ele estava livre para retomar sua liberdade de ação; nem ele nem Jonatas puseram de novo os pés em Santo André. Em contrapartida, parecem ter-se ocupado muito ativamente durante essa noite em conversações e conciliábulos cujo objeto é bastante fácil imaginar.
Seja como for, na manhã de 13 de fevereiro notava-se em Roma grande agitação; corria o boato de que o papa estava morto. A multidão dirigiu-se tumultuosamente ao convento onde o pontífice agonizava, e este, reunindo suas últimas forças, teve de mostrar-se a uma janela para acalmar a emoção popular. Essa efervescência, ou, se se quiser, esse motim, indicava ao menos a Aimerico o que aconteceria quando se espalhasse em Roma a notícia autêntica da morte do papa. O comitê de eleição fora desfeito logo que formado; o compromisso da véspera fora rasgado logo que assinado. Não restava senão montar boa guarda em torno do leito do moribundo; e logo constatado o falecimento, proceder-se-ia o mais rapidamente possível a uma eleição, que seria o que pudesse ser. O essencial era agir depressa, colocar Pierleoni e seus partidários diante de um fato consumado. Diante de um papa regularmente investido, já revestido da capa vermelha, não se ousaria mais, pensava Aimerico, proceder à eleição que ele temia acima de tudo.
O perigo da Igreja justificava esses meios extraordinários, era a íntima persuasão do chanceler. Se se saía da legalidade, era para voltar ao direito. Em suma, a consciência de Aimerico foi-se habituando, durante esse dia 13, à ideia de um golpe de Estado.
Na noite, ou durante a madrugada, Honório morreu; as portas do convento foram imediatamente fechadas, e nenhum dos cardeais que se encontravam fora pôde entrar em Santo André. Aqueles membros do Sacro Colégio que ali haviam passado a noite reuniram-se ao romper do dia. Para respeitar a letra, se não o espírito, das decisões tomadas na antevéspera, procede-se a um simulacro de sepultamento; depois, sem convocar os cardeais ausentes, trata-se de eleger o sucessor de Honório. Pedro de Pisa protesta em vão contra essas iniciativas apressadas e anticanônicas; não é ouvido e retira-se. Sobre a pessoa de Gregório de Sant'Angelo unem-se todos os votos dos cardeais presentes; estão ali no máximo uns quinze, entre os quais é preciso contar, é verdade, quatro cardeais-bispos. Do comitê designado pelo compromisso de 12 de fevereiro, apenas cinco membros em oito estão presentes. Depois das hesitações e recusas de praxe, Gregório aceita o pesado fardo, toma o nome de Inocêncio II, e em toda a precipitação eleito e eleitores se apressam rumo à basílica de Latrão; o mais essencial das cerimônias de entronização cumpre-se com toda a celeridade; quanto à entrega das insígnias pontifícias, só se fará no convento do Palladium, ao abrigo das torres dos Frangipani. Por volta das nove horas da manhã tudo está terminado.
« A legitimidade da eleição de Inocêncio, escreve o Sr. Vacandard, não é daquelas verdades históricas que se impõem ao espírito. » Revue des questions historiques, 1888, t. xliii, p. 65. É o que concluiremos igualmente da narrativa que esboçamos o mais imparcialmente possível. Algumas horas depois, por volta do meio-dia, Pierleoni preparava sua desforra. Desde a manhã tinham-se visto acorrer à igreja de São Marcos, por causa de sua posição muito central, certo número de cardeais, de dignitários romanos de todas as ordens, de abades de mosteiros, de representantes da nobreza romana e uma considerável multidão de gente do povo. É muito difícil crer que nenhuma palavra de ordem tivesse ocasionado uma reunião tão imponente; muito difícil admitir que nada tivesse ainda transpirado da morte de Honório e dos acontecimentos que a seguiram. Quando nos dizem que toda essa gente estava ali para aguardar a notícia da morte do pontífice e proporcionar-lhe dignas exéquias, os partidários de Anacleto II querem fazer-nos acreditar no que não é. Toda essa mobilização não se fez sem que diretivas muito precisas tivessem sido dadas por aqueles que tinham interesse em desencadeá-la. Não é impossível que Pierleoni, cuja ambição não era segredo para ninguém, tenha também pensado em precipitar as coisas e em prevenir, por uma eleição arrebatada a golpes de luta, as manobras do chanceler Aimerico. Ora, no fim da manhã, fica sabendo, sem dúvida por Pedro de Pisa, que seu rival se havia antecipado.
Vivamente irritada pelos procedimentos do chanceler, a grande maioria dos cardeais apressava-se agora rumo a São Marcos; treze cardeais-presbíteros, nove cardeais-diáconos e, coisa importante, o bispo de Porto, decano do Sacro Colégio, reuniam-se em torno de Pierleoni. Se se lhes acrescentarem os bispos de Túsculo, Segni e Sutri, uma abundante representação do clero romano, compreende-se que Pierleoni também não tenha recuado diante de uma violação da legalidade. Sem tomar o cuidado de discutir juridicamente a eleição de Inocêncio, sem debates contraditórios, a assembleia cardinalícia anula a sentença da manhã, aclama a candidatura de Pierleoni que finalmente é eleito e toma o nome de Anacleto II. É difícil imaginar semelhante leviandade. Aimerico fora ultrapassado. A situação imponente que Pierleoni e seus cardeais podiam adquirir na Igreja, pondo em questão por todas as vias de direito a eleição ilegal de Inocêncio II, perdiam-na por esse outro golpe de força. Numa causa em que podiam ser árbitros, faziam-se ao mesmo tempo juiz e parte. A segunda eleição dessa trágica jornada era ainda mais ilegal do que a primeira. Sobretudo perderia ainda mais as aparências do bom direito pelas violências de que ia ser o sinal.
Logo eleito, Anacleto apressava-se em instalar-se no Latrão; depois em ocupar São Pedro. Essa manobra só teve êxito por meios brutais; uma expedição à mão armada tentada contra o convento do Palladium, onde se refugiara Inocêncio II, terminou em fracasso. Pierleoni entrava visivelmente em vias cada vez mais ilegais; para sustentar a justiça de sua causa devia procurar recursos em homens e em dinheiro. Não olhou os meios. Seus adversários o acusarão mais tarde de ter dissipado para esse fim os tesouros da Igreja romana e de ter hipotecado parcelas consideráveis de seu patrimônio. A censura era verossímil demais para não encontrar crédito. O certo é que, nessa noite de 14 de fevereiro, a cristandade tinha dois papas. Para quem tivesse nas mãos todas as peças do processo, a situação teria sido clara. Maculadas ambas de flagrantes ilegalidades, uma e outra eleição eram nulas.
Mas que autoridade podia interpor-se entre os dois partidos, obrigar um e outro a uma renúncia tornada indispensável? De direito, não se conhecia nenhuma; três séculos mais tarde, quando se tratar de extinguir o grande cisma, a Igreja se verá igualmente tomada de surpresa. Nada mais contestável do que as pretensões do concílio de Pisa de resolver a divergência que opôs os papas de Roma e os papas de Avinhão. Um problema análogo se colocava já no dia seguinte à eleição de 1130. Como a cristandade o resolveria?
II. O RECONHECIMENTO DE INOCÊNCIO II. — Se, de direito, não existia nenhuma autoridade capaz de resolver a trágica divergência, de fato o poder secular se achava investido, pelas circunstâncias da época, de um poder considerável na matéria. Aquele dos dois concorrentes que conseguisse fazer-se reconhecer pelos principais soberanos da Europa gozaria sobre o outro de uma vantagem considerável. Desses soberanos havia dois que importava ao mais alto ponto conquistar: o rei dos romanos, Lotário, defensor nato do papado, e o rei da França, Luís o Gordo, para quem já, em circunstâncias críticas, os papas do século XII haviam sido felizes de voltar-se. Cada um dos dois competidores empenhou-se ativamente em fazer-se reconhecer por um e outro desses reis. Dadas as dificuldades internas em que se debatia Lotário, seria sobretudo Luís o Gordo que se tornaria o árbitro da querela. A França capetiana, que ficara quase inteiramente à margem da querela do sacerdócio e do império, vai desempenhar agora um papel considerável. E nessa França um homem será o grande artífice do reconhecimento de Inocêncio II, em detrimento de Anacleto: o abade de Claraval, são Bernardo. É difícil exagerar a influência que possuía então na Igreja da França, influência que, aliás, só fará crescer a partir desse momento. Pelo fato de o rei ser solicitado a tomar partido, pelo fato de dever consultar a Igreja da França para saber a que obediência se alinhar, era inevitável que o abade de Claraval tivesse parte preponderante nas decisões que seriam tomadas.
A consulta do episcopado francês teve lugar em Étampes, verossimilmente por volta de agosto ou setembro, talvez um pouco mais tarde, quando já Inocêncio II pusera o pé em terra da França. Incapaz, com efeito, de manter-se em Roma, onde Anacleto tinha o controle, Inocêncio refugiara-se primeiro em Pisa (maio ou junho), depois decidira-se a vir solicitar pessoalmente a intervenção da França. No início de setembro desembarcava em Saint-Gilles, a montante de Aigues-Mortes; depois, por pequenas jornadas, dirigia-se a Cluny, onde Pedro o Venerável lhe fazia um acolhimento régio; o papa ali permaneceria de 24 de outubro a 3 de novembro. Os historiadores se dividem sobre o ponto de saber se o sínodo de Étampes teve lugar antes ou depois do desembarque do papa na França. Os que admitem a segunda hipótese insistem no fato de que o reconhecimento de Inocêncio por Pedro o Venerável, chefe da ordem cluniacense, constituía em favor do pontífice um preconceito considerável. Os que se alinham com a primeira põem mais em evidência o papel de são Bernardo. Mas seja como for, é certo que este último teve no sínodo de Étampes uma ação das mais consideráveis. Embora não seja evidente que a assembleia lhe tenha confiado a arbitragem, no sentido pleno e absoluto da palavra, resta que sua intervenção em favor de Inocêncio trouxe de um só golpe o reconhecimento desse pontífice pelo sínodo, pela França e pela cristandade.
Vale, pois, a pena precisar as razões que determinaram a consciência do abade de Claraval. Todos os documentos concordam em declarar que a deliberação versou muito menos sobre as circunstâncias em que se havia realizado a dupla eleição do que sobre os méritos respectivos dos dois competidores. Os acontecimentos de 14 de fevereiro, de um lado, eram bastante mal conhecidos e parecia difícil, se não imprudente, instituir um inquérito e revolver todo esse passado. Não parece, de outro lado, que se tivesse em Étampes uma noção muito exata das regras canônicas relativas à eleição pontifícia; o abade de Claraval, em particular, nunca teve o fetichismo da legalidade; de bom grado (vê-se isso em várias ocasiões de sua vida) resolvia questões complicadas em que um jurista teria ficado pouco à vontade, pelo apelo ao bom senso, a ideias religiosas, a uma espécie de adivinhação de sua consciência que lhe ditava o partido a tomar. Esse procedimento pode ser infinitamente perigoso; não há consciência tão reta que não seja humana e que, por isso, não corra o risco de deixar-se surpreender. Perigoso ou não, são Bernardo o empregou frequentemente. Empregou-o aqui. Erguer-se como juiz entre os dois partidos, constatar que um e outro tinham culpas, que um e outro haviam desembocado numa eleição anticanônica e nula e, por conseguinte, despachá-los de costas um para o outro, pedindo que se procedesse a nova escolha, a piedade do abade de Claraval lhe proibia fazê-lo; a própria prudência o desaconselhava. Não era melhor supor o problema resolvido; admitir que o poder pontifício não caíra em vacância, que um dos dois competidores era realmente o papa autêntico?
A discriminação se faria pela comparação dos méritos respectivos dos dois eleitos. Era a aplicação de um princípio enunciado pelo papa são Leão em matéria de eleição episcopal: Is alteri prœponalur qui majoribus sludiis juvatur cl meritis. Em caso de divisão, deve ser preferido o candidato que reúne mais sufrágios e mais méritos. Nem são Bernardo nem o sínodo se detiveram na primeira parte do adágio: a eleição de Inocêncio não fora precisamente feita por maioria de sufrágios; mas se insistiu energicamente na questão dos méritos. Assim posto, o problema seria incontestavelmente resolvido em favor de Inocêncio. Sua vida pública sempre fora digna, sua vida privada sem mancha, e seus próprios adversários deviam reconhecer que era impossível, desse ponto de vista, atacar-lhe a reputação. Com a pessoa de Anacleto era diferente. Embora, em boa crítica, seja impossível dar fé a todas as acusações que o partido adverso fazia correr a seu respeito, não deixavam de circular sobre Anacleto boatos bastante desagradáveis. A vida privada de Pierleoni não era sem dúvida nem melhor nem pior que a de muitos dignitários eclesiásticos da época; em sua vida pública, não escapara a toda suspeita de parcialidade. Sobretudo sua ambição era notória; podia tê-lo arrastado a manobras, a intrigas, que bastavam para viciar sua eleição em princípio. Todas essas considerações fizeram pender a balança em favor de Inocêncio. Como diz ingenuamente o biógrafo de são Bernardo: Ille diligcnler proseculus electionis ordinem, cleclorum mérita, vilam cl jamam prioris decli, aperuit os suum et Spirilus Sanctus rcplcvit illud.
A adesão de são Bernardo a Inocêncio II arrastava a da França e, por contragolpe, a da catolicidade. Pouco a pouco o reconhecimento do pontífice tornar-se-á unânime, e parece bastante natural considerar essa aceitação do fato consumado como uma espécie de sanatio in radice, que teria conferido a posteriori a legitimidade a uma eleição de início irregular. Em outros termos, dever-se-ia considerar o tempo que decorre entre a morte de Honório II e o reconhecimento quase unânime de Inocêncio II como uma longa vacância do papado, vacância que terminou por uma eleição extraordinária, de gênero bastante especial, a saber, o consentimento quase unânime da Igreja. Parece-me que são Bernardo se teria alinhado à teoria que proponho. São argumentos análogos a estes que fará valer alguns anos mais tarde por ocasião das discussões organizadas diante de Rogério da Sicília entre partidários de Anacleto e partidários de Inocêncio II.
Resta-nos apenas mostrar rapidamente como se cumpre o reconhecimento definitivo de Inocêncio II. Logo lhe chega a adesão da Inglaterra. Numa entrevista em Chartres, em janeiro de 1131, o rei Henrique reconhece seu bom direito. A adesão do rei da Alemanha era um fato não menos considerável; foi concedida ao pontífice na entrevista de Liège, 22 de março de 1131. Tudo fora preparado em Würzburg em outubro do ano precedente, numa assembleia paralela à de Étampes e onde são Norberto desempenhou um papel muito sensivelmente análogo ao que são Bernardo havia cumprido nesta última reunião. A entrevista de Liège entre Inocêncio e Lotário foi apenas a execução do plano estabelecido em Würzburg. Combinava-se, ademais, que o rei prestaria seu concurso ao papa fugitivo para instalá-lo em Roma, onde Lotário receberia de suas mãos a coroa imperial. Em outubro, quando celebrava em Reims um importante concílio, Inocêncio recebeu ainda a adesão de Afonso VII de Castela e de Afonso I de Aragão. Em suma, sua obediência no fim de 1131 é constituída pela Alemanha, grande parte da França, o reino da Inglaterra e uma parte da Espanha. Anacleto, sempre senhor de Roma, só é reconhecido pelo sul da França, a Lombardia, e muito especialmente Milão, enfim e sobretudo por Rogério da Sicília, a quem reconheceu desde junho de 1130 o título de rei, com um domínio considerável no sul da Itália. Essas duas obediências não se modificarão sensivelmente antes de 1136.
Os partidários de Inocêncio II davam-se bem conta, aliás, de que somente a instalação deste em Roma cortaria definitivamente as pretensões de Anacleto. Depois de conquistar uma obediência, tratava-se agora, para o pontífice, de conquistar a sé romana. Para essa empresa ele só podia contar com as armas de Lotário; teria sido inútil dirigir-se à França. Esta tivera a parte principal no reconhecimento de Inocêncio; a Alemanha teria de desempenhar o primeiro papel para restabelecer o pontífice no trono de são Pedro. A coisa não se fez sem graves dificuldades. As complicações políticas em que se debatia Lotário não lhe permitiram reunir para sua expedição meios suficientes. Empreendida em abril de 1132, a campanha que devia conduzir a Roma o papa e o rei terminou num sucesso muito relativo. Em agosto de 1133, o exército alemão chegou sob os muros de Roma, depois de ter reunido na Lombardia o papa que ali permanecia desde a primavera de 1132. Por um instante Anacleto foi tentado a negociar; propunha que o tribunal imperial discutisse a dupla eleição de 1130, com a segunda intenção de que essa jurisdição proclamasse necessária a renúncia dos dois competidores.
São Norberto parece ter levado Inocêncio a se prestar a uma transação desse gênero; mas as negociações não chegaram a resultado. Foi pela força que Inocêncio entrou em Roma e se instalou no Latrão; foi sob a proteção das espadas alemãs que pôde proceder, a 4 de junho de 1133, à coroação de Lotário na basílica constantiniana. Anacleto, com efeito, mantinha-se sempre no Transtévere, e São Pedro era inacessível. E, assim que o último alemão deixou Roma, Inocêncio não se sentiu mais seguro ali. Já em setembro havia de novo voltado a Pisa. É aí, ou nos arredores, que permanecerá durante os anos de 1134 a 1136. Em agosto de 1136, Lotário, um pouco mais tranquilizado quanto ao estado da Alemanha, põe-se a caminho para uma nova expedição, com efetivos mais imponentes. O objetivo, desta vez, é marchar diretamente contra Rogério da Sicília, o mais seguro apoio de Anacleto, e só se voltar contra Roma depois de ter derrubado esse considerável obstáculo à instalação de Inocêncio. O plano se executa bem ou mal nos primeiros meses de 1137. Diante das forças consideráveis trazidas pelo imperador, Rogério tomara a fuga e se refugiara na Sicília; foi, desde então, relativamente fácil submeter, ao menos na aparência, os Estados continentais do rei fugitivo. Mas nada de definitivo pôde ser obtido; mal o papa e o imperador partiram para Roma, Rogério desembarca em Salerno. Aliás, a boa inteligência entre Lotário e Inocêncio passava por uma penosa crise. A respeito de Monte Cassino, dissensões bastante vivas haviam surgido entre os dois aliados; palavras muito lamentáveis haviam sido trocadas, e de ambos os lados se havia censurado amargamente os serviços que se tinham prestado. Em outros pontos ainda ocorreram atritos. Papa e imperador separaram-se sem pesar; não deviam mais se rever. Lotário morreu no caminho de volta, numa pobre aldeia dos Alpes, no outono de 1137.
Ficando sozinho em Roma, Inocêncio esforçou-se por consolidar a sua situação diante de Anacleto, que dominava ainda uma parte da cidade. Mas a situação do antipapa (é preciso agora chamá-lo assim) era muito menos favorável do que quatro anos antes. A sua obediência havia se restringido cada vez mais; a ação de São Bernardo na Aquitânia, em Milão, na Lombardia, na Itália do sul, acabara por afastar dele a maior parte dos seus partidários. A mais preciosa conquista feita por Bernardo fora a do cardeal Pedro de Pisa, de quem dissemos que exercia sobre os seus contemporâneos um ascendente considerável. Desaparecido ele do colégio cardinalício de Anacleto, restavam ali apenas personagens medíocres ou desqualificados; a própria nobreza romana se cansava do seu eleito. Em suma, as probabilidades de reconhecimento de Inocêncio iam crescendo, enquanto diminuíam as de Pierleoni. Uma doença rápida levou este último em poucos dias, no início de 1138; morreu a 25 de janeiro. A sua morte deveria ter sido o fim do cisma; mas alguns irredutíveis pretenderam dar um sucessor a Anacleto na pessoa do cardeal Gregório, que tomou o nome de Vítor IV. Essa fantasia não podia vingar. No Pentecostes seguinte, cedendo às instâncias de São Bernardo, o infeliz vinha lançar-se aos pés de Inocêncio implorando o seu perdão. Inocêncio II era doravante o único papa de direito e de fato.
Está longe, aliás, de que Inocêncio tenha reencontrado desde então uma perfeita tranquilidade. Os documentos, muito menos abundantes sobre os últimos anos do seu pontificado, deixam-nos entretanto entrever as numerosas dificuldades com que se deparou. No verão de 1139, logo após o concílio de Latrão, no qual fora lançada a excomunhão contra Rogério da Sicília, sempre rebelde, o papa quis ele próprio apressar, de armas na mão, a execução da sentença. Feito prisioneiro pelo seu adversário, o papa só pôde sair do cativeiro por uma capitulação pouco honrosa; teve de levantar a excomunhão lançada e confirmar a Rogério o título de rei da Sicília, da Apúlia e de Cápua. O regresso do pontífice a Roma não foi um triunfo. Foi preciso em seguida restabelecer a autoridade pontifícia nas pequenas cidades dos Estados romanos; a guerra contra Tívoli durou longo tempo. Se terminou por uma paz honrosa para o papa, está longe de que essa paz tenha satisfeito os romanos, que queriam a ruína definitiva da cidade rebelde. O descontentamento cresceu na capital, e o movimento comunal, que na mesma época agitava grande número de cidades na França e na Itália, foi com isso favorecido. Veio um dia em que a população romana proclamou a república, reorganizou o senado, nomeou cônsules. Em suma, deixando ao papa a gestão dos negócios da cristandade e da Igreja, Roma empreendia governar-se a si mesma. É em meio a essas perturbações, que por várias vezes devem ter sido violentas, que morreu Inocêncio II, a 24 de setembro de 1143.
III. A política religiosa de Inocêncio II. — É em meio a todas essas agitações políticas que se deve buscar os traços da atividade religiosa de Inocêncio II. Reduzi-la-ei a três chefes principais: a reforma moral, a condenação dos erros dogmáticos, as relações entre a Igreja e o Estado. Quanto ao primeiro ponto, Inocêncio continuou com muita energia a política inaugurada meio século antes por Gregório VII.
As diversas etapas do seu pontificado errante são balizadas por certo número de concílios importantes, que têm por objeto restabelecer em vigor as prescrições eclesiásticas que alguns seriam tentados a esquecer: concílio de Clermont-Ferrand, 18 de novembro de 1130, promulgando treze cânones disciplinares relativos sobretudo à vida dos clérigos; concílio de Reims, muito considerável pelo número dos assistentes, de 18 a 23 de outubro de 1131, que reitera as decisões tomadas em Clermont; concílio de Placência, 13 de junho de 1132; concílio de Pisa, 30 de maio a 6 de junho de 1135. Nesta última reunião procedeu-se contra certo número de bispos acusados de incontinência ou de violação dos cânones eclesiásticos; os cânones promulgados renovam sensivelmente as disposições anteriormente fixadas. Todos esses concílios podem ser considerados como os preliminares do grande concílio realizado no Latrão em 1139, e que conta como o X ecumênico. Ver o artigo especial.
Essa reforma moral, decretada nas assembleias conciliares, Inocêncio II urgia a execução; seus legados mostraram-se tão ativos quanto nos pontificados precedentes. Seus Regesta mostram-no intervindo nos assuntos eclesiásticos dos países mais diversos, confiando a certos arcebispos o encargo de representá-lo. Jaffé, n. 7483: missão dada a Hugo de Rouen; n. 7511: constituição de um tribunal eclesiástico compreendendo os arcebispos de Cantuária, de York e de Rouen para compor um desacordo entre dois bispos ingleses; n. 7514-7515: submetendo o bispo de Glasgow e em geral os bispados da Escócia à jurisdição de York; n. 7875, 7906, 7908: organização dos patriarcados latinos de Jerusalém e de Antioquia; n. 7890: organização da circunscrição metropolitana de Pisa, etc. Assinalemos na mesma ordem de ideias a preocupação de levar o Evangelho para fora dos limites da cristandade. As cartas, n. 8110, 8199, 8220, dão a Henrique, bispo da Morávia, os poderes necessários para organizar missões na Prússia.
Do ponto de vista dogmático, Inocêncio teve de ocupar-se de alguns assuntos, nos quais, aliás, se limitou a ratificar decisões tomadas fora dele. O mais importante é o que diz respeito a Abelardo. Já condenado no concílio de Soissons em 1121, este retomou o seu ensino; a vigilância de São Bernardo nele surpreendeu novos erros. Abelardo empreendeu fazer a sua apologia no concílio de Sens em 1140. Mas, vendo que o seu caso era julgado fora das formas legais, Abelardo apela para o julgamento do papa. Vivamente solicitado pelo abade de Claraval, o soberano pontífice proferiu, a 10 de julho de 1140, uma sentença, aliás muito vaga e muito geral, reprovando, sem as determinar, "as perniciosas doutrinas do mestre Pedro Abelardo", aparentadas, dizia ele, às de Ário, de Macedônio, de Nestório. Abelardo é aí qualificado, sem mais, de herege; os extratos (capitula) enviados por São Bernardo, todos os ensinamentos desse mesmo Pedro são condenados com o seu autor: destinata nobis capitula et universa ipsius Petri dogmata, sanctorum canonum auctoritate cum suo auctore damnavimus. Um silêncio perpétuo era imposto ao temerário doutor; seus defensores e seguidores seriam excomungados. Jaffé, n. 8148. Outra carta, destinada a permanecer secreta, prescrevia aos arcebispos Sansão de Reims e Henrique de Sens e ao abade de Claraval que mandassem encerrar separadamente em mosteiros Pedro Abelardo e Arnaldo de Bréscia, e queimar os seus livros. Jaffé, n. 8149. Arnaldo de Bréscia, com efeito, antigo aluno de Abelardo, viera em socorro do seu mestre, péssima recomendação numa época em que Inocêncio II começava a sentir na Itália os efeitos da agitação inaugurada por esse revolucionário.
Não temos nenhum documento emanado de Inocêncio II que se refira à condenação de Pedro de Bruys e do seu aliado, o monge Henrique. Estes parecem visados, sem que o seu nome seja indicado, pelo 23º cânone do concílio de Latrão em 1139. Assinalemos ao menos, para ser completo, duas consultas bastante curiosas do papa Inocêncio II. Na primeira, Jaffé, n. 8272, trata-se de um sacerdote que, não se sabe por que causa, se encontra não ter sido batizado; ele morreu. O seu bispo pergunta o que se deve pensar da sua salvação: "Visto que, responde Inocêncio, ele perseverou na fé da Igreja e na confissão do nome de Cristo, afirmamos sem hesitar que foi libertado do pecado original, e que goza dos bens da pátria celeste", Ab originali peccato solutum et cœlestis patriœ gaudium esse adeptum, asserimus incunctanter. A outra é relativa a uma questão de ordália. Jaffé, n. 8284. "O julgamento de Deus pela água (fria), quando se trata de um clérigo, não é canônico."
A atitude de Inocêncio II nas questões de direito civil eclesiástico é naturalmente dominada pelas necessidades da sua política geral. Tendo o maior necessidade do apoio do poder civil, ele pôde ser levado a fazer-lhe algumas concessões. Por várias vezes, na entrevista de Liège em 1131, mais tarde por ocasião da sagração de Lotário em Roma, foi vivamente solicitado por este a voltar à questão das investiduras tal como a havia regulado a concordata de Worms, e a transação subscrita por Lotário no momento da sua eleição. Ver Honório II, col. 133.
Não é impossível que, deixado a si mesmo, o pontífice tivesse chegado a ceder a instâncias que nos são representadas como tendo sido muito vivas. Cada vez, felizmente, o papa encontrou junto de si um conselheiro enérgico, São Bernardo em Liège, São Norberto em Roma, que lhe fez evitar uma falta e um erro. Com o rei da Inglaterra foi preciso também usar de ponderação; cf. carta de 14 de julho de 1132, Jaffé, n. 7586, pedindo ao arcebispo de Rouen que fizesse algumas concessões ao monarca, em assuntos de nomeações para diversas abadias. Nunca, porém, Inocêncio abdicou completamente da sua independência; viu-se bem por ocasião das desavenças com Lotário relativamente à abadia de Monte Cassino. Ver-se-á melhor ainda quando, a partir de 1138, puder exprimir-se com toda a liberdade. Os Regesta assinalam uma carta datada de 17 de dezembro de 1138, ordenando aos bispos de Metz e de Toul que tomassem a defesa da abadia de Remiremont contra as usurpações do duque Simão, e excomungando este último. Jaffé, n. 7723. O próprio rei da França não será poupado, se for contra os interesses da Igreja. Luís, o Jovem, soube algo disso por ocasião do desentendimento que eclodiu a propósito da eleição para a sé arquiepiscopal de Bourges em 1141. Por ter proibido a Pedro de la Châtre, regularmente eleito e sagrado em Roma pelo próprio papa, de tomar posse da sua sé, o rei viu lançar-se o interdito sobre todas as cidades, aldeias e castelos onde se hospedasse. A situação complica-se ainda no curso do ano seguinte, por efeito de intrigas singularmente embaraçadas, em cujo detalhe é inútil entrar. Desta vez a diplomacia de São Bernardo fracassou; o abade de Claraval não conseguiu fazer levantar o interdito que pesava sobre o rei. Quando Inocêncio II morreu, a questão não estava liquidada. Na Espanha, o papa ofereceu a sua mediação, que foi aceita, entre Afonso de Castela e Afonso Henriques, que pretendia fazer de Portugal um reino independente. Finalmente a independência da nova soberania foi reconhecida. De toda maneira, pois, apesar da paralisia de que o cisma de Pierleoni foi a causa, a ação de Inocêncio II continua, na medida do possível, a de seus grandes predecessores do fim do século XI e dos primeiros anos do século XII.
I. Fontes. — As peças emanadas de Inocêncio II em Jaffé, Regesta pontificum romanorum, t. i, p. 840-911; as de Anacleto II vêm em seguida, p. 911-919; a maior parte das cartas está em P. L., t. clxxix, col. 53-731. Quanto aos documentos relativos ao pontificado, os mais importantes foram reunidos em Watterich, Pontificum romanorum vitœ, Leipzig, 1862, t. ii, p. 174-275. Encontrar-se-á a referência aos documentos contemporâneos que não se encontra aqui nas obras de que se tratará daqui a pouco. A maior parte das peças utilizáveis está em Jaffé, Bibliotheca rerum germanicarum, Berlim, 1869, t. v. Os documentos conciliares em Mansi, t. xxi.
II. Trabalhos recentes. — Sobre a eleição de 1130, duas obras capitais: B. Zöpffel, Die Papstwahlen, Göttingue, 1871, p. 269-395: Die streitige Papstwahl des Jahres 1130; E. Mühlbacher, Die streitige Papstwahl des Jahres 1130, Inspruck, 1876. As duas obras chegam sensivelmente às mesmas conclusões, embora Zopffel se tenha julgado obrigado a atacar violentamente Mühlbacher, em Göttingische gelehrte Anzeigen, 1º de março de 1876, p. 257-304; W. Bernhardi, Lothar von Supplinburg, Leipzig, 1879; Konrad III, Leipzig, 1883. É apoiando-se nessas três obras e utilizando os documentos que elas citam que o Sr. Vacandard tratou a questão da eleição e do reconhecimento de Inocêncio II, na Revue des questions historiques, t. xliii, janeiro de 1888, p. 61-126; t. xlv, janeiro de 1889, p. 5-63. Esses artigos passaram, quase sem modificação, para a Vie de saint Bernard, do mesmo autor. Essa obra dará uma visão amplamente suficiente do conjunto das questões suscitadas durante o pontificado de Inocêncio II. Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, t. V, p. 676-795, dará as últimas indicações bibliográficas. Juntar ainda: G. Wieczorek, Das Verhältnis des Papstes Innocenz II (1130-1143) zu den Klöstern, Greifswald. 1914.
E. Amann.
Autor original: E. Amann
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor