HIPOCRISIA. — I. Natureza. II. Culpabilidade. III. Variedades. — I. Natureza. 1° A hipocrisia, do grego ὑπό, sob (no sentido de secreto, oculto), e κρίσις, juízo, opinião, é o vício daquele que, sendo mau interiormente, afeta revestir-se em público das aparências da virtude, a fim de enganar os outros sobre o juízo que possam formar a seu respeito, ou sobre a opinião que possam ter dele. Santo Isidoro, Etym., l. X, § 119, P. L., t. LXXXII, col. 379, compara o hipócrita, no palco do mundo, ao ator que, no teatro, ou cobre o rosto para ocultar quem é, ou pinta a face de diversas cores, para imitar a fisionomia do personagem que representa, de modo que se mostra ora com os traços de um homem, ora com os de uma mulher, para enganar os espectadores. Santo Agostinho emprega uma comparação idêntica. De sermone Domini in monte. l. II, c. ii, P. L., t. xxxiv, col. 1271: assim como, diz ele, os atores de teatro são totalmente diferentes do personagem que representam, pois aquele, por exemplo, que faz o papel de Agamêmnon não é verdadeiramente esse príncipe, mas finge sê-lo; assim, em toda a vida humana, e especialmente na vida da piedade e da virtude, aquele que quer parecer o que não é é um hipócrita, pois finge ser justo, e não o é.
2° Entre a hipocrisia e a dissimulação há a diferença da espécie ao gênero. Toda hipocrisia é uma dissimulação, mas nem toda dissimulação é uma hipocrisia. Esta só existe, diz São Tomás, Sum. theol., IIª IIæ, q. cxi, a. 2, quando se simula outro personagem, como, por exemplo, quando o pecador finge ser justo, sendo a hipocrisia, propriamente falando, o vício pelo qual se procura parecer um homem virtuoso, mesmo quando não se pratica a virtude. A dissimulação tem um sentido mais amplo: é uma mentira expressa, não por palavras, mas por atos exteriores. Importa pouco, observa o santo doutor, loc. cit., a. 1, que se viole a verdade simplesmente por palavras ou por atos. A virtude da verdade, ou da veracidade, exige que nos mostremos por fora tais como somos por dentro. Assim como é contrário à verdade exprimir exteriormente, por palavras, algo diferente do que se pensa, e é isso que constitui a mentira; do mesmo modo, é contrário à verdade servir-se de atos exteriores para exprimir o contrário do que se é na realidade. Em outros termos, a dissimulação é uma espécie de mentira, e a hipocrisia é uma espécie de dissimulação.
3° As obras exteriores designam naturalmente a intenção de quem as faz. Portanto, quando, por boas obras que, por sua natureza, pertencem ao serviço de Deus, não se procura agradar a Deus, mas às criaturas, simula-se uma intenção reta que não se tem. É o que leva o papa São Gregório Magno, Moral., XXXI, xiii, n. 24, l. c. P. L., t. LXXXVI, col. 587, a dizer que os hipócritas servem aos interesses do século, ainda que trabalhando nas coisas de Deus, porque, pelas ações santas que praticam na presença das criaturas, não buscam a glória de Deus nem a conversão das almas, mas o favor humano e a satisfação de seu amor-próprio. Assim simulam mentirosamente uma intenção reta que não têm, embora não simulem a ação reta que praticam. Como se exprime o Salvador no santo Evangelho, fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens. Matth., xxiii, 5. Cf. Eccli., XIX, 23; Job, viii, 13; xiii, 16; xxvii, 8 sq.
Foi o horror a isso que Jesus quis inculcar em seus discípulos, quando lhes disse: Quando jejuardes, ou fizerdes esmola, não toqueis a trombeta, como fazem os hipócritas. Matth., vi, 2, 3. Condenou igualmente esses falsos devotos hipócritas, que louvam a Deus com os lábios, e não com o coração, ou que fazem consistir sua devoção principalmente e até unicamente nas observâncias exteriores. Matth., xv, 7; xxii, 18; Marc, vii, 6. Cf. Is., XXIX, 13. Muito frequentemente censurou esse defeito aos fariseus, Luc, xii, 1; Matth., xv, 2, 9; xxiii, 5; e é contra eles, por esse motivo, que se mostrou mais severo, formulando contra eles as mais terríveis ameaças. Matth., xxiii, 27, 28. Cf. I Tim., IV, 2; II Tim., iii, 5; Gal., iii, 13; I Pet., ii, 1.
II. Culpabilidade. 1° Segundo São Tomás, sendo toda mentira um pecado, Sum. theol., IIª IIæ, q. cx, a. 3; ver Mensonge, e importando pouco, segundo ele, que se minta por palavras ou de outro modo, IIª IIæ, q. cx, a. 1, ad 2um, a mentira, a dissimulação e a hipocrisia não são senão meios diversos de disfarçar o pensamento. A virtude da veracidade exige que uma pessoa diga sempre a verdade, não somente em seus discursos, mas em seus atos e em sua conduta. Sendo as palavras, os sinais e os atos naturalmente a expressão do pensamento, é contrário à natureza e ao dever servir-se, não somente das palavras, mas também dos sinais e dos atos para exprimir o que não se tem no espírito, e por vezes todo o contrário. Toda dissimulação é, pois, um pecado, visto que é uma mentira por atos exteriores. Sum. theol., IIª IIæ, q. cxi, a. 1. E toda hipocrisia igualmente é culpável pelo mesmo motivo. Sum. theol., loc. cit., a. 2. Simulata æquitas non est æquitas, sed duplex peccatum, diz Santo Agostinho, In ps. LXIII, n. 11, P. L., t. XXXV, col. 765. Todavia a hipocrisia nem sempre é pecado mortal, pois mesmo nisso pode haver leveza de matéria. Cf. S. Tomás, Sum. theol., loc. cit., a. 4; In IV Sent., l. IV, dist. XVI, q. iv, a. 1, q. iii; Lessius, De justitia et jure cœterisque virtutibus cardinalibus, l. II, c. xlvii, n. 45, in-fol., Milão, 1613, p. 520; Lehmkuhl, Theologia moralis, iii, part. I, l. II, divis. II, sect. iv, c. iii, n. 723, 772, 1182, 2 in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. i, p. 427, 452, 754; Marc, Institutiones alphonsianae, part. II, tr. VIII, c. i. De laesione veritatis, n. 1177, 2 in-8°, Roma, 1904, t. i, p. 739; Génicot, Theologiae moralis institutiones, tr. V, Appendix, § 2, n. 248, 3°, 2 in-8°, Bruxelas, 1909, t. i, p. 207.
2° Para que o contraste entre o ato exterior e o estado interior de quem age seja um pecado de hipocrisia, é preciso que haja intenção de enganar. Por exemplo, o hábito clerical ou religioso é um santo hábito, que significa um estado que obriga a atos de virtude e de perfeição. Se, portanto, aquele que veste esse hábito tem a intenção de fazer todos os esforços para chegar a esse grau de perfeição, e não consegue alcançar esses altos cumes por fraqueza natural, conservando esse hábito religioso, não peca por hipocrisia. Com efeito, diz São Tomás, Sum. theol., IIª IIæ, q. cxi, a. 2, ad 2um, não se é obrigado a manifestar a própria fraqueza e as próprias imperfeições abandonando esse santo hábito. Mas, se o tivessem tomado para mostrar com ostentação que se é justo, quando não se é, e se o conservassem com o mesmo fim, pecar-se-ia certamente por hipocrisia.
Do mesmo modo, não se deve considerar hipócrita o cristão que, tendo hábitos de piedade, não tem a coragem de cumprir todos os deveres que a religião impõe, e que mistura assim às suas práticas de piedade, não somente imperfeições, mas até vícios. Não se deve concluir daí que ele não crê, ou que não está convencido da verdade da religião que pratica tão imperfeitamente. Se nem sempre resiste aos maus pendores que recebeu da natureza decaída, e se, por vezes, sucumbe às tentações, é uma prova da fraqueza de sua vontade, mas não de sua má-fé, como diz o papa São Gregório: Hunc nequaquam credendum est in hypocritarum numerum currere, quia aliud est infirmitate, aliud malitia peccare. Moral., XXXI, xiii, n. 2, l. c. P. L., t. LXXXVI, col. 586.
3° Cumpre observar, além disso, que a hipocrisia é um vício oposto não precisamente à virtude especial que ela finge, mas diretamente à virtude da verdade, ou da veracidade, pois, diz São Tomás, Sum. theol., IIª IIæ, q. cxi, a. 3, ad 1um, o hipócrita que simula uma virtude não a toma na realidade por fim, como se quisesse tê-la, mas simplesmente na aparência, como querendo parecer possuí-la; daí resulta que ele não é diretamente oposto por seus atos a essa virtude, mas só indiretamente; ao passo que é direta e formalmente oposto à veracidade, porque quer enganar o próximo, simulando uma virtude que não tem na realidade. Se pratica, com efeito, por vezes os atos de diversas falsas virtudes, não é por eles mesmos, mas para fazer deles a expressão de uma mentira por atos externos, agindo assim apenas para adquirir uma vã glória, ou a estima das criaturas, ou para ganhar dinheiro, ou por qualquer outro motivo interesseiro. S. Gregório, Moral., XXXI, XLV, § 88, P. L., t. LXXXVI, col. 621.
Mas essa vã glória ambicionada, esses louvores procurados com tanto empenho e astúcia, esse lucro tão desejado, não são senão o fim remoto de seus atos, ou o móvel que o leva a agir. É por isso que dissimula o que é e se apresenta totalmente outro; mas seus atos de hipocrisia não são por isso menos uma mentira. Não é de seu fim remoto que a hipocrisia tira sua espécie própria; é de seu fim próximo, que consiste na oposição entre as aparências queridas e a realidade. Do mesmo modo, o ladrão que mata um viajante indefeso, para apoderar-se de sua bolsa, não comete por isso menos um homicídio, ainda que seja movido a cometê-lo pela avareza e pela cupidez, isto é, pelo amor imoderado do dinheiro. S. Tomás, Sum. theol., loc. cit., a. 3, ad 3um.
4° É bastante curioso que os antigos tenham considerado o cisne como o símbolo dos hipócritas: immunda, longum collum: cygnus, auis coloris candidi, habens, per quod ex profunditate terrœ, vel aquas, cibum trahit, potest significare homines qui per exteriorem justitiae candorem, lucra terrena quærunt. S. Tomás, Sum. theol., Iª IIæ, q. cii, a. 6, ad 1um, in fine. Nosso Senhor os comparava a sepulcros caiados, que por fora parecem soberbos e por dentro estão cheios de ossos descarnados e de toda sorte de podridão. Matth., xxiii, 27.
III. Variedades. 1° A hipocrisia, quando consiste numa falsa devoção, ou numa piedade simplesmente aparente, é desprezível, sem dúvida; é, porém, um vício menos odioso do que o de desafiar com afetação os costumes mais santos e vilipendiar abertamente a religião, violando abertamente suas leis, e sem retenção alguma, sob pretexto de franqueza e de sinceridade. O respeito, mesmo simplesmente exterior, das leis de Deus e da Igreja já é uma certa homenagem prestada à santidade desses preceitos, pelos covardes que não têm a coragem de observá-los.
É também algo apreciável evitar o escândalo, que poderia ser para tantos outros causa de tentação e de queda. Não se poderia, portanto, admitir sem distinção o que diz São Jerônimo em seus comentários ao c. XVI de Isaías: In comparatione duorum malorum, quam levius est aperte peccare sanctitatem simulare. P. L., t. XXIV, col. 240. Deve-se entender essa passagem no sentido que o próprio São Jerônimo indica num dos capítulos precedentes: secunda post naufragium miseriarum: tabula et consolatio est impietatem abscondere, P. L., t. xxiv, col. 65; pois, se é uma mentira hipócrita querer parecer mais virtuoso do que se é, não é hipocrisia deixar de fazer a confissão pública de seus pecados. Ninguém é obrigado a acusar-se a si mesmo.
2° A hipocrisia não afeta apenas a falsa devoção e a falsa piedade; pode também afetar sentimentos de humanidade, de probidade, de caridade, de filantropia, de zelo pelo bem público, de patriotismo, etc. Não deixa por isso de ser sempre uma mentira e uma astúcia culpável para chegar à glória humana, à fortuna ou às honras.
3° Além disso, o hipócrita pode fazer alarde até de irreligião e de incredulidade, por vezes por pura fanfarronada, por vezes para perverter os outros, ou para atordoar-se a si mesmo, quando, sem estar convencido pelas objeções contra a religião, teme a Deus interiormente, mas quer, por essa agitação exterior e esse ruído de palavras, abafar a voz de sua consciência atormentada pelos remorsos. De todos os hipócritas, este é o mais culpável, quer por causa do mal que faz aos outros, quer por causa do que faz a si mesmo, pois fecha voluntariamente os olhos à luz e torna-se ainda mais indigno da divina misericórdia.
369 S. Tomás, In IV Sent., l. IV, dist. XVI, q. iv, a. 1, q. i-iv; Sum. theol., IIª IIæ, q. cxi, a. 2-4; Suarez, l. IX, c. xvii. Opera omnia, 28 in-4°, Paris, 1856-1878, t. vi, p. 512 sq.; Lessius, De justitia et jure cœterisque virtutibus cardinalibus, l. II, c. XLVII, n. 45, in-fol., Milão, 1613, p. 520; Gousset, Théologie morale. Traité des péchés, c. v, 2 in-8°, Paris, 1877, t. i, p. 100; Palmieri, Opus theologicum morale in Busembaum medullam, tr. IV, c. iii, dub. i, n. 353, 7 in-8°, Prato, 1889-1893, t. i, p. 752; Lehmkuhl, Theologia moralis, part. II, divis. II, sect. iv, c. iii, n. 723, 772, 1182, 2 in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. i, p. 427, 452, 754; Marc, Institutiones morales alphonsianae, part. I, tr. IV, c. v, n. 301, 3°; part. II, sect. ii, tr. VIII, c. i, De lœsione veritatis, n. 1177, 2 in-8°, Roma, 1904, t. i, p. 231, 739; Bucceroni, Institutiones theologiae moralis, tr. De octavo Decalogi praecepto, IV. De mendacio, n. 1525, 2 in-8°, Roma, 1908, t. i, p. 659; Génicot, Theologiae moralis institutiones, tr. IV, c. v, § 1, n. 177; tr. V, Appendix, § 2, n. 248, 2 in-8°, Bruxelas, 1909, t. i, p. 145, 207.
T. Ortolan.
Autor original: T. Ortolan
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