HIPNOTISMO

HIPNOTISMO

HIPNOTISMO. I. Razão de ser e limites deste artigo. II. Em que pé está a questão do hipnotismo. III. Documentos oficiais a ela relativos.

— I. RAZÃO DE SER E LIMITES DESTE ARTIGO. A que título pode figurar um artigo sobre o hipnotismo num dicionário de teologia católica? A que títulos o hipnotismo interessa ao teólogo? O artigo Hypnotisme do Dictionnaire apologétique de la foi catholique, t. ii, col. 533-534, assinala em poucas palavras o interesse que o hipnotismo pode apresentar para o apologista católico. O hipnotismo figura também, de fato, em pelo menos dois tratados da teologia moral, o Dos atos humanos e o Da virtude de religião.

1° O tratado Dos atos humanos estuda, entre outras questões, as causas que podem diminuir ou suprimir a liberdade e, por conseguinte, a responsabilidade. Ora, precisamente, a hipnose passa por ser um estado patológico em que o sujeito estaria mais ou menos inconsciente, mais ou menos entregue à vontade do operador. « O sujeito hipnotizado, diz Grasset, Le psychisme inférieur, 1906, p. 456-457, deve ser declarado irresponsável, e toda a responsabilidade pertence ao hipnotizador. O perito deve fazer absolver o autor inconsciente do crime em virtude do artigo 64 (do Código Penal) : Não há crime nem delito, quando o acusado... foi constrangido por uma força a que não pôde resistir. Quanto ao hipnotizador, Garraud afirma, em seu Précis du droit criminel, que ele deve ser declarado cúmplice nos termos do artigo 60 do Código Penal. Ora, sabemos que o artigo 59 pune o cúmplice com a mesma pena que a pronunciada pela lei contra o crime ou o delito cometido pelo autor principal; o que permite condenar o hipnotizador, reconhecendo ao mesmo tempo a irresponsabilidade do hipnotizado. Só que é evidente que, para sustentar a irresponsabilidade completa do sujeito nesse caso, é preciso adotar a definição estreita e precisa da sugestão, tal como a dei, e não a definição larga e vasta de Bernheim. Tudo o que acabo de dizer só se aplica aos casos (tão raros que se discute ainda a sua existência) em que a hipnose seria completa e, por conseguinte, a sugestão verdadeiramente soberana. »

Por outro lado, o mesmo tratado comporta um estudo sobre o « voluntário in causa » e sobre o « voluntário indireto », que também encontra aplicações no hipnotismo. Se os atos realizados no estado de hipnose, ou em virtude de sugestões hipnóticas, não são completamente imputáveis em si mesmos, não podem sê-lo em sua causa, in causa, no consentimento dado à hipnotização, no abandono absoluto à vontade do operador, quaisquer que sejam os atos que ele possa sugerir? Se, contudo, a hipnose em si mesma não fosse um mal, e se dela se pudesse esperar algum bem, seu emprego daria lugar a uma exata ponderação das vantagens e dos inconvenientes, dos benefícios que dela se esperam e dos malefícios que dela se podem temer, segundo a fórmula do « voluntário indireto ». É assim que Lehmkuhl, Theologia moralis, 3e édit., 1886, t. i, p. 619, em nota, coloca o problema da licitude do uso do hipnotismo :

A theologo quœri potest sitne hoc, si sit remedium, licitum. Negandi ratio esse nequit, nisi aut 1) modus inducendi illum statum sit illicitus, aut 2) effectus ipse aliquid illicitum contineat. In primo illicitum aliquid cogitari posse non videtur, nisi injuria aut superstitio. Injuriam fieri non sumo, sed consensum tum ejus qui agit, tum ejus qui patitur... Superstitio per se non inest, si in agendi modo et in effectibus, ut descripsi, sistitur... Effectus vero estne ex se illicitus? Habes privationem usus rationis, atque statum in quo facile... alterius nutum sine conscientia et libertate exsequaris. Quo igitur graviores atque hominem magis non decentes effectus appareant, eo gravior causa requiritur ut talem statum inducere liceat. neque unquam licebit sine cautione... At cautela adhibita et accedente sufficienti causa, licebit, maxime si verum est, morbos aliter non sanabiles ita curari posse.

2° O hipnotismo figura ainda, mas desta vez com o magnetismo animal, o sonambulismo e o espiritismo, no tratado Da virtude de religião, entre as práticas em que se pode suspeitar a intervenção diabólica. Certos autores, por exemplo Tanquerey, Synopsis theologiae dogmaticae, 1919, t. ii, p. 490-499, estudam essa questão no tratado De angelis. O hipnotismo, sucedendo ao magnetismo animal e vizinho muito próximo do sonambulismo, não podia deixar de atrair a atenção dos teólogos. Com razão ou sem ela, passou, e talvez passe ainda, por possuir poderes misteriosos, por obter efeitos maravilhosos. Sugestão mental, comunicação a distância, telepatia, visão transopaca, predições, intuição dos pensamentos alheios : eis alguns dos « prodígios » correntemente atribuídos ao hipnotismo (1894). Cf. abbé Schneider, L'hypnotisme, t. i, c. v. Ora, certo número desses fenômenos pertence também ao ocultismo, que se tende a confundir com o espiritismo, e cujo nome basta para sugerir a idéia de práticas que se passam entre iniciados em reuniões secretas, nas quais se crê estar em relação com o mundo sobrenatural. Cf. Grasset, L'occultisme hier et aujourd'hui, le merveilleux prescientifique. É essa suspeita de intervenção diabólica no hipnotismo que motivou diversas questões dirigidas seja à S. C. do Santo Ofício, seja à S. Penitenciaria, e as respostas dessas Congregações. Ver adiante.

II. EM QUE PÉ ESTÁ A QUESTÃO DO HIPNOTISMO? Não temos a intenção de refazer aqui o histórico do aparecimento, do desenvolvimento e do declínio do mesmerismo, do magnetismo animal, do braidismo ou do hipnotismo : um dicionário de teologia não é um dicionário de medicina, nem sobretudo de história da medicina. Seria mais interessante para nós saber dos médicos em que pé está hoje a questão do hipnotismo. Ora, eles nos advertem de que « o estudo desses estados (hipnotismo, sonambulismo) está em vias de revisão. Nos numerosos trabalhos que suscitaram, apenas um pequeno número de fatos parece hoje estar ao abrigo da crítica. Na prática, convém observar a maior reserva a esse respeito. » Dr. Henry Meige, art. Hystérie, separata, 1911, p. 27-28. As conclusões das observações do Sr. Babinski, notadamente, transtornam completamente as idéias aceitas no público não especializado a respeito do hipnotismo. « Babinski demonstrou, escreve o Dr. Robert Vander Elst, no Dictionnaire apologétique de la foi catholique, art. Hystérie, col. 539, que o hipnotismo não pode ser operado contra a vontade do sujeito; que não há amnésia completa, ao despertar do hipnotizado, quanto aos fatos sugeridos durante o sono; que não há inconsciência, mesmo no estado letárgico; que, no sonambulismo, o sujeito não perde o controle de sua vontade. »

Por outro lado, o emprego do hipnotismo em terapêutica está quase, se não completamente, abandonado. Reserva-se ele, diz o Dr. Vander Elst, ibid., « à cura dos pequenos acidentes histéricos »; ele afirma mesmo que não se hipnotiza mais. Ibid., col. 538. Os médicos, os verdadeiros médicos ao menos, só recorrem a ele hoje a título de tratamento psicoterápico, como fazem uso da corrente farádica para « curar » as anestesias ou paralisias puramente funcionais, ou as dores sine materia. Para o tratamento mesmo dos distúrbios histéricos, o Dr. H. Meige escreve no fim do artigo citado : « Enfim, nada de manobras : abster-se-á de hipnóticos, salvo em alguns casos raríssimos, e ainda assim... O abuso das práticas do hipnotismo só pode ser prejudicial. Obtêm-se excelentes resultados pelas intervenções psicoterápicas no estado de vigília, sob forma de explicações, de encorajamento e de bons conselhos. O doente só pode ganhar com isso, e o médico igualmente. Devemos tirar nosso prestígio e nossos meios de cura, não de um pretenso poder misterioso, mas da confiança que inspira o saber aliado à dedicação. »

Em definitiva, o que resta, seja o que for a hipnose? Resta que ela não é, propriamente falando, um sono patológico, artificialmente provocado, durante o qual o sujeito estaria absolutamente submetido à vontade do operador, mas a sugestão do sono, feita a um sujeito particularmente sugestionável, seguida de outras sugestões. O sujeito recebe a primeira sugestão, a do sono, como recebe as outras, como receberia qualquer sugestão; e, se está de boa-fé, na medida em que o sono depende da vontade, da imaginação, realiza certas condições do sono, como realizaria uma anestesia ou uma dor. Mas, na realidade, não dorme, pois tem consciência, mais ou menos nítida talvez, mas tem consciência do que se passa nele, ao redor dele. Em suma, a hipnose reduz-se a duas coisas : um temperamento sugestionável, isto é, histérico ou pitiático, e uma sugestão de sono. O hipnotismo não é, pois, na realidade, senão um procedimento particular de sugestão, que consiste em preparar o sujeito para receber outras sugestões, sugerindo-lhe primeiro que vão adormecê-lo, portanto colocá-lo num estado em que já não será senhor de si, mas totalmente dependente do operador. Não sendo a sugestão hipnótica, assim, senão uma forma particular da sugestão, somos levados a remeter ao art. Suggestion o estudo e a solução de todas as questões que ela coloca diante do teólogo moralista : pode-se resistir a ela? de que efeitos é capaz? em que condições seu emprego é legítimo? etc.

III. DOCUMENTOS OFICIAIS DA IGREJA RELATIVOS, DE PERTO OU DE LONGE, AO HIPNOTISMO. A maioria dos documentos que vamos citar e analisar, surgidos entre 1840 e 1856, não se refere ao hipnotismo, mas ao magnetismo animal; contudo, se se pôde dizer que « guardadas todas as proporções, o hipnotismo está para o magnetismo como a química para a alquimia, a astronomia para a astrologia, » abbé Schneider, L'hypnotisme, p. 1, compreender-se-á que possam ter para nós mais que um interesse retrospectivo e que possamos descobrir neles princípios e regras práticas aplicáveis ao hipnotismo.

1° A 3 de junho de 1840, à seguinte questão proposta ao Santo Ofício : Utrum magnetismus generatim acceptus et in se censeri debeat licitus an illicitus ? a S. C. respondia : Remoto omni errore, sortilegio, explicita aut implicita dœmonis invocatione, merus adhibendi actus media physica aliunde licita, non est moraliter vetitus, dummodo non tendant ad finem illicitum, aut quomodocumque pravum. Applicatio autem principiorum et mediorum pure physicorum ad res aut effectus vere supernaturales, ut physice explicentur, non est nisi deceptio illicita et haeretica. Cf.

Gury-Ballerini, Compendium Theologiœ moralis, 17e édit., 1866, t. i, p. 276, note; Bergier, Dictionnaire de théologie, 1852, t. IV, p. 180; Ojetti, Synopsis rerum moralium et juris pontificii, alphabetico ordine digesta, 1911, t. ii, n. 2331, col. 2134. O Santo Ofício, que aliás começara sua resposta remetendo o autor da súplica ad probatos auctores, cf. Bergier, loc. cit., se não resolvia em seguida diretamente a questão proposta, estabelecia ao menos princípios que podiam servir para resolvê-la. Eles ainda podem servir-nos hoje. Tratando-se de hipnotismo, de sonambulismo, de espiritismo ou de outros fenômenos ainda inexplicados, para julgar de sua licitude devemos examinar primeiro se os meios empregados são proporcionados aos resultados obtidos ou buscados; se se trata apenas de obter efeitos naturais por meios proporcionados, a moral está salva; se se trata, ao contrário, de obter efeitos maravilhosos, verdadeiramente sobrenaturais, por meios naturais, tais práticas não podem ser aprovadas.

2° A 21 de abril de 1841, nova resposta do Santo Ofício : Usum magnetismi, prout exponitur, non licere. Cf. Denzinger-Bannwart, Enchiridion symbolorum, 13e édit., 1921, n. 1653.

3° A exposição a que se refere essa resposta devia sem dúvida assemelhar-se à que fez, a 19 de maio de 1811, em sua consulta à S. Penitenciaria, o bispo de Lausanne e Genebra. Ver o texto completo em Gury-Ballerini, loc. cit., p. 282-286; em Gousset, théologie morale, 8e édit., 1851, t. i, p. 565-567, e a tradução francesa no Dictionnaire de théologie morale do abbé Pierrot, t. ii, col. 255-256, no t. XXXII da Encyclopédie théologique de Migne, 1849. « Uma pessoa magnetizada, que é ordinariamente do sexo feminino, entra num tal estado de sono que nem o maior ruído feito a seus ouvidos nem a violência do ferro e do fogo poderiam dele tirá-la... Então, interrogada de viva voz ou mentalmente (sem dúvida pelo magnetizador só) sobre a sua doença ou sobre a de pessoas ausentes, que lhe são absolutamente desconhecidas (mas das quais se lhe põe na mão um cacho de cabelos"), essa magnetizada, notoriamente ignorante, encontra-se no mesmo instante dotada de uma ciência bem superior à dos médicos : ela dá descrições anatômicas de perfeita exatidão; indica a sede, a causa, a natureza das doenças internas do corpo humano mais difíceis de conhecer e de caracterizar; muitas vezes prediz-lhes a duração precisa e prescreve-lhes os remédios mais simples e mais eficazes... Logo que o cacho de cabelos é apenas aproximado da mão da magnetizada, esta diz de quem são esses cabelos, onde está atualmente a pessoa de quem provêm, o que ela faz e, sobre a sua doença, dá todas as informações acima enunciadas com tanta exatidão como se fizesse a autópsia do corpo... Tirada desse estado,... ela parece ignorar completamente tudo o que lhe aconteceu durante o acesso... » Vê-se, por esta citação, em que diferem, em que se assemelham os fenômenos do magnetismo e os fenômenos do hipnotismo : o que se pedia aos sujeitos magnetizados de então era mais ou menos o que se vai pedir hoje às sonâmbulas profissionais extralúcidas.

A S. Penitenciaria respondeu, a 1º de julho de 1841, exatamente como o Santo Ofício : usum magnetismi, prout in casu exponitur, non licere.

4° Mons. Gousset, loc. cit., p. 567, não achando essa resposta « absoluta », julgou dever, em 1842, consultar a Santa Sé sobre a mesma questão, perguntando se, sepositis rei abusibus rejectoque omni cum dæmone fœdere, era permitido exercer o magnetismo animal, ou recorrer a ele, encarando-o como um remédio que se crê útil à saúde. O cardeal Castracane, grão-penitenciário, respondeu a Mons. Gousset, com data de 2 de setembro de 1843 : « A questão não é de natureza a ser decidida tão cedo, se é que alguma vez o será, porque não se corre nenhum risco em diferir a decisão e uma decisão prematura poderia comprometer a honra da Santa Sé; enquanto se tratou da aplicação do magnetismo a alguns casos particulares, a Santa Sé não hesitou em pronunciar-se; mas agora, é em geral que se examina se o uso do magnetismo pode conciliar-se com a fé e os bons costumes. »

5° A 28 de julho de 1847, o Santo Ofício renovava, modificando-a ligeiramente, sua declaração de 23 de junho de 1840. Cf. Denzinger-Bannwart, loc. cit. A Santa Sé encontrava-se desta vez em condições de proferir uma decisão aplicável, não a alguns casos particulares, mas ao uso do magnetismo em geral, pois a carta encíclica de 4 de agosto de 1856, que recorda e reproduz a declaração de 1847, faz preceder esta da seguinte explicação : verum, quia, prœter particulares casus, de usu magnetismi generatim agendum erat, hinc per modum regulœ sic statutum fuit.

6° Enfim, a 4 de agosto de 1856, o Santo Ofício enviava a todos os bispos uma carta encíclica ad magnetismi abusus compescendos. O texto completo é dado por Gury-Ballerini, loc. cit., p. 287-289; por Lehmkuhl, loc. cit., p. 226-227; por Müller, Theologia moralis, 5e édit., 1887, t. ii, p. 255-256; a maior parte dele se encontra em Denzinger-Bannwart, n. 1653-1654. 1.

A carta encíclica caracteriza nestes termos a nova superstição que se espalha pelo mundo : Novum quoddam superstitionis genus invehi ex phaenomenis magneticis, quibus haud scientiis physicis enucleandis, ut par esset, sed decipiendis ac seducendis hominibus student neoterici plures, rati posse occulta, remota ac futura detegi magnetismi arte vel prœstigio, prœsertim ope muliercularum quæ unice a magnetizatoris nutu pendent.

2. Ela recorda, de um lado, as responsiones ad peculiares casus quibus reprobantur tanquam illicita illa experimenta quae ad finem non naturalem, non honestum, non debitis mediis assequendum ordinantur, e, de outro lado, a declaração de princípio e a regra geral promulgada a 28 de julho de 1847.

3. Ela constata que a nova superstição não faz senão crescer; o magnetismo degenerou em adivinhação, em sonambulismo, em espiritismo : ut, neglecto licito studio scientiœ potius curiosa sectantes, ariolandi divinandive principium quoddam se nactos glorientur. Hinc somnambulismi et clarœ intuitionis, uti vocant, prœstigiis, mulierculae illœ... se invisibilia quaeque conspicere effutiunt, ac de ipsa religione sermones instituere, animas mortuorum evocare, responsa accipere, ignota ac longinqua detegere aliaque id genus superstitiosa exercere... prœsumunt, magnum quœstum sibi ac dominis suis divinando certo consecuturœ.

4. Os bispos deverão, portanto, empenhar-se, qua paternae caritatis monitis, qua severis objurgationibus, qua demum juris remediis adhibitis, em fazer cessar esses abusos do magnetismo. O princípio geral que faz descobrir imediatamente a ilicitude de semelhantes usos é ainda lembrado em poucas palavras : In hisce omnibus, quacumque demum arte vel illusione utantur, ordinentur media physica ad effectus non naturales, reperitur deceptio omnino illicita et haeretica. Todas as vezes que há desproporção evidente entre os meios naturais empregados e os efeitos sobrenaturais buscados, está-se no erro e na desordem.

7° O último documento oficial que nos resta mencionar é mais recente e se refere diretamente à sugestão hipnótica, ou mesmo à sugestão sem qualificativo. É uma resposta, de 26 de julho de 1899, do Santo Ofício à consulta de um médico católico. Encontra-se em Ojetti, loc. cit., col. 2135. O médico havia perguntado : An liceat sibi partem habere in disputationibus quæ fiunt a societate scientiarum medicarum de suggestionibus in cura puerorum infirmorum. Agitur non de discutiendis tantum experimentis jam factis, sed etiam de novis experimentis agendis, sive hœc rationibus naturalibus explicari possint, sive non. Respondeu-se-lhe : Quoad experimenta jam facta modo permitti posse, absit periculum superstitionis et scandali... Quoad nova experimenta, si agatur de factis quæ certo naturæ vires praetergrediantur non licere: sin vero de hoc dubitetur, praemissa protestatione nullam partem haberi velle in factis praeternaturalibus, tolerandum, modo absit periculum scandali.

Em suma, pode-se dizer que uma só idéia, sempre a mesma de 1840 a 1890, uma só preocupação, se encontra em todos esses documentos : tomar cuidado com a superstição, tomar cuidado para não abandonar as pesquisas verdadeiramente científicas, que são lentas e penosas, mas sadias e seguras, para satisfazer uma vã curiosidade por meios que só podem ser decepcionantes, mesmo que não sejamos joguete de potências das trevas : ut, neglecto licito studio scientiae potius curiosa sectantes, ariolandi divinandive principium quoddam se nactos glorientur. Carta encíclica de 4 de agosto de 1856. A Igreja, condenando a superstição, atinge o charlatanismo, tão oposto à ciência quanto à moral.

A. FONCK.

I. OBRAS DE MEDICINA. 1° Sobre o hipnotismo. 1. Generalidades. Art. Hypnotisme do Dictionnaire de médecine et de chirurgie pratiques, por Mathias Duval, 1891; do Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales, por P. Richer et Gilles de La Tourette, 1889; da Grande encyclopédie, por G. Lemoine, 1895; da Pratique médico-chirurgicale, por Bauer, 1912; do Dictionnaire apologétique de la foi catholique, por R. Vander Elst, 1912.

2. Origens, noção do sono patológico. Braid, Neurypnologie (sic), 1843; trad. franç. de J. Simon, préf. de Brown-Séquard, 1883; Liébeault, Du sommeil et des états analogues, action du moral sur le physique, 1866; A. Maury, Le sommeil et les rêves, 4e édit., 1878.

3. Formas, técnica e aplicação. Dr Luys, Compte rendu de l'Académie des sciences, 1888; Dieulafoy, Pathologie interne, t. iii, iv classe, c. vi, § 4; Ch. Féré, Les hypnotisés et hystériques, considérés comme sujets d'expériences en médecine mentale, em Archives de neurologie, t. vi, p. 130; Grasset, Leçons, recueillies par Rauzier. Revue de l'hypnotisme, mai-juin 1889; ver também L'hypnotisme et la suggestion, c. iv : Degrés et variétés de l'hypnose; Babinski, Grand et petit hypnotisme, em Archives de neurologie, 1889, n. 49-50; Voisin, Semaine médicale, 1891, p. 304; Crocq, L'hypnotisme scientifique, un vol. de la Société d'études scientifiques; Dr Joire, Traité complet d'hypnotisme expérimental et de psychothérapie, Lyon, 1914; Clinique thérapeutique, p. 1148 sq.; Albert Deschamps, Maladies de l'esprit et asthénies, Paris, 1919, p. 556 sq.

4. Hipnotismo e sugestão.

Grasset, L'hypnotisme et la suggestion, 1903; Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psychothérapie, 1891; La suggestion dans l'état hypnotique, em Revue médicale de l'Est, 1884; Communic. no Congrès de Moscou, 1897; Rapport au 1er Congrès de l'hypnotisme expérimental et thérapeutique, Paris, 1890; Vires, L'hypnotisme et les suggestions hypnotiques, em Nouveau Montpellier médical, 1901; Wundt, Hypnotisme et suggestion, 1905, trad. Keller; Déjerine, Séméiologie des affections du système nerveux, 1914, p. 31-34: hypnotisme, suggestion, persuasion; Bajenoff e Ossipoff, La suggestion et ses limites, 1911.

5. Conclusões médico-legais, pedagógicas, etc. G. Ballet, Anglade, Vallon, etc., Traité de pathologie mentale, 1903, p. 35, o hipnotismo como causa de doenças mentais, p. 1488 sq., a responsabilidade dos hipnotizados; Babinski, Semaine médicale, 1910 (27 de julho); Bérillon, ...méthode hypno-pédagogique, em la Revue de psychothérapie, 1913; Ern. Dupré, L'hypnotisme devant la loi. Rapport au 13e Congrès international de médecine, Paris, 1900; Vibert, Traité de médecine légale (hypnotisme et viol), p. 371; Grasset, Traité de physiopathologie clinique, t. iii, 1913, p. 222 sq.

2° Sobre as relações entre a histeria e a hipnose. 1. Sobre o fundo da questão. Babinski, Hypnotisme et hystérie, em la Gazette hebdomadaire de médecine et chirurgie, julho de 1891; Magnin, Les rapports de l'hypnotisme et de l'hystérie, em la Revue de l'hypnotisme, julho de 1901; Vander Elst, Contribution apportée à la notion d'hystérie par l'étude de l'hypnose, tese de Paris, 1908. Ver também Grasset, L'hypnotisme et la suggestion, c. vi, § 4; e as obras citadas mais adiante sobre a doutrina da Salpêtrière e a concepção de Nancy.

2. Aplicações, tratados de psicoterapia. J. Camus e Pagniez, Isolement et psychothérapie, Paris, 1904; Dubois (de Berne), Les psychonévroses et leur traitement moral, Paris, 1904; A. Thomas, Traité de psychothérapie, 1912; Burlureaux, Traité de psychothérapie, 1914; Janet, Les médications psychothérapiques, 1919; de Grandmaison, Revue de philosophie, 1912, t. xx, p. 366. Ver também Déjerine, prefácios das obras precedentes de Camus e Pagniez, de Dubois e de Thomas; todos esses mestres contemporâneos reservam uma parte cada vez mais restrita ao hipnotismo na terapêutica. E, com efeito (cf. nossa tese), só os histéricos são passíveis do hipnotismo. Ora, eles já estão inteiramente hipnotizados, em virtude da analogia entre a hipnose e a histeria. Portanto, na prática, só resta sugestioná-los.

3° Sobre a histeria. 1. Generalidades. Art. Hystérie do Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales (Grasset); da Grande encyclopédie (Lemoine); da Pratique médico-chirurgicale (Meige), 1912; do Dictionnaire apologétique de la foi catholique (Vander Elst), 1912; M. Lewandowski, Die Hysterie, Berlim, 1914.

2. História. Origens da noção de histeria (concebida como neurose). Georget, Physiologie du système nerveux, Paris, 1821; Brachet, Nature et siège de l'hystérie, Paris, 1832; Briquet, Traité clinique et thérapeutique de l'hystérie, Paris, 1859; Cesbron, Histoire critique de l'hystérie, tese de Paris, 1909.

3. A doutrina da «Salpêtrière». Charcot, Leçons du mardi à la Salpêtrière, 1885-1891, notadamente os t. i e ix; Charcot e Richer, Hypnotisme chez les hystériques, Archives de neurologie, 1881; Richer, Études sur la grande hystérie, 1885; G. de La Tourette, Traité clinique et thérapeutique de l'hystérie, t. i e ii.

4. A concepção de «Nancy». Liébeault; Beaunis, Le somnambulisme provoqué, 1886; Amselle, tese de Nancy, 1906; Hartenberg, L'hystérie et les hystériques, Paris, 1910; ver também Bernheim, op. cit., e Liégeois, op. cit., bem como a bibliografia (tese) das obras citadas mais adiante de Dieulafoy, Grasset e Vander Elst sobre a histeria.

5. Os fatores «mentais» da histeria. Pierre Janet, État mental des hystériques, tese de Paris, 2e édit., 1911; H. Collin, no Traité de pathologie mentale, já citado, p. 816-841; Rogues de Fursac, Traité de psychiatrie, part. XVI, 1909; Kraepelin, Introduction à la clinique psychiatrique, trad. Devaux-Merklen, 1917, c. xxv (a loucura histérica); Mairet e Salager, La folie hystérique, Montpellier, 1910.

6. Os fatores «emocionais» da histeria. O lithiatismo. Alquier, Gazette des hôpitaux, agosto de 1908; Raymond, Névroses et psychonévroses, em L'encéphale, janeiro de 1907; H. Claude, Rapport au Congrès de Genève-Lausanne, 1907; cf. Bulletin médical, 1907, n. 62, p. 723 sq.; Déjerine e Gauckler, Manifestations fonctionnelles des psycho-névroses, Paris, 1911; Babinski, Démembrement de l'hystérie traditionnelle, Semaine médicale, 1909; Revue de l'hypnotisme, janeiro de 1902 (Communication à la Société de neurologie); Ma conception de l'hystérie, 1906; Claude e Porak, Symptomatologie dite hystérique, em L'encéphale, maio de 1916, etc.

7. Conclusões morais, sociais, médico-legais. Schnyder, Rapport au Congrès de Genève-Lausanne, 1907; Fiessinger, Erreurs sociales et maladies morales, Paris, 1909; ver também G. Ballet, etc., Traité de pathologie mentale, p. 1482 sq.; Grasset, Traité de physiopathologie clinique, t. iii, p. 86-90; Hartenberg, op. cit.; G. Roussy, Hystérie de guerre, Journal des praticiens, 1918, p. 638.

4° O magnetismo animal e o hipnotismo.

Quaisquer que sejam, em teoria, as distinções que se possam fazer entre o magnetismo e o hipnotismo, de fato a bibliografia de um diz respeito à do outro, pois habitualmente são considerados como os efeitos conexos, físico e psíquico, de uma mesma realidade sobre o composto humano. De resto, certas obras da presente nomenclatura, notadamente nossa tese, as obras de Ribet, de Schneider e de Lapponi, citadas mais abaixo, fornecerão importantes referências sobre o magnetismo. Indiquemos também Moutin, Le diagnostic de la suggestibilité, Paris, 1896 (tese em que o caráter físico da influência sugestiva é desembaraçado dos elementos psíquicos).

II. Obras de filosofia. 1° Psicologia. 1. Generalidades. Princípios. Cardeal Mercier, Psychologie, 8e édit., Paris, t. ii, p. 208 sq.; Mons. Farges, Études philosophiques, Paris, t. IV, Le cerveau et l'âme, p. 116 sq.; Cours de philosophie scolastique, t. ii, § 206: o hipnotismo; Mons. Blanc, Philosophie scolastique, Lyon, t. ii, § 643: o hipnotismo; § iii, a sugestão; t. III, § 1274, Hypnotisme et sommeil naturel; P. de La Vaissière, Éléments de psychologie expérimentale, Paris, 1912, § 69; cf. a bibliografia (considerável); P. Boule, Revue des questions scientifiques, outubro de 1910 e janeiro de 1911: Le concept actuel d'hystérie.

2. Psicologia comparada. Joly, L'hypnotisme chez les animaux, na Revue de l'hypnotisme, 1891; Lépinay, ibid., 1899, p. 180, e 1902, p. 146; Gley, Année psychologique, 1895; Mangold, Hypnose und Katalepsie bei Tieren, tese de Iena, 1914, etc.

3. O automatismo psicológico; o inconsciente. Pierre Janet, L'automatisme psychologique, tese de Paris (letras), 1889; Les névroses (coleção Flammarion), 1909; Dwelshauvers, L'inconscient (ibid.), 1916; Peillaube, Les images, Paris, 1912; W. C. de Sermyn, Facultés cérébrales méconnues, Lausanne e Paris (Alcan), 1911; Dr Geley, De l'inconscient au conscient, Paris, 1919.

4. A sugestão. Binet, La suggestibilité (Bibliothèque de pédagogie), 1900; Crocq, Les suggestibilités, Revue de psychologie, junho-julho de 1898; R. Vander Elst, La suggestion, na Revue de philosophie, novembro de 1910.

2° Moral, pedagogia, direito. P. F. Schneider, L'hypnotisme, Paris, Lyon, s. d.; J. X, Peut-on hypnotiser pour gagner sa vie? no Ami du clergé, parte doutrinal, 1906, p. 64; V. Raymond, Guide des nerveux et des scrupuleux, 25e édit., Paris, 1920; P. de La Vaissière, Psychologie pédagogique, Paris; ver a bibliografia dessa obra; Liégeois (de Nancy), De la suggestion et du somnambulisme dans leurs rapports avec le droit civil, etc., Paris, 1889.

3° Metafísica, Apologética, etc. 1. Obras devidas a teólogos. J. Ribet, La mystique divine, contrefaçons diaboliques et analogies humaines, Paris, 1903, t. iv, c. xiv (hipnotismo) e seguintes (interpretação, perigos do hipnotismo); P. F. Schneider, op. cit.; J. Guibert, Étude sur l'hypnotisme, faits, théorie, difficultés, Paris, por volta de 1894 (cf. bibliografia); P. Teilhard de Chardin, nas Études, 20 de janeiro de 1909 (a propósito de Lourdes); P. Raymond, Les phénomènes anormaux de la vie psychique, nas Études franciscaines, julho de 1910; A. Castelein, Les phénomènes de l'hypnotisme et le surnaturel, Paris, 1912; Duhaut, Traité des démons, hypnotisme, etc., Paris, 1915; L. Roure, Le merveilleux spirite, c. x, Paris, 1917; Ferret, Cause de l'hypnose, Paris, 1891; Mons. Farges, bibliografia curta, mas substanciosa, na Revue pratique d'apologétique, 1909, t. IX, p. 719; Documents relatifs aux ordres du Saint-Office, ibid., 1911, t. xii, p. 206.

2. Estudos feitos por leigos (apologistas ou adversários da fé). Dr Hélot, Le diable dans l'hypnotisme, Paris, 1899; Dr Lapponi, L'hypnotisme et le spiritisme, Paris, 1907; Dr Grasset, L'occultisme hier et aujourd'hui, 2e édit., Paris, 1908; Lombroso, Hypnotisme et spiritisme (coleção Flammarion), 1910; Flournoy, Esprits et médiums, Paris, 1911; Dr Osty, Lucidité et intuition, Paris, 1913; Dr Charcot, La foi qui guérit, nos Archives de neurologie, 1893; Dr Janet, op. cit. (médications psychologiques); Dr Geley, op. cit.; Dr Vander Elst, art. Guérisons miraculeuses e Occultisme, no Dictionnaire apologétique de la foi catholique. Fornecemos uma bibliografia especial nesses dois últimos artigos. Encontrar-se-ão também referências que não podemos detalhar aqui em nossos artigos da Revue de philosophie, 1911, t. xix, p. 65; Phénomènes surnaturels et phénomènes nerveux, na Revue pratique d'apologétique, 15 de dezembro de 1911 e 15 de setembro de 1912; Stigmatisation, extase; na Revue du clergé français, outubro de 1912: Possessions démoniaques.

R. Vander Elst.

Autor original: R. Vander Elst

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor