HERMAS. — I. Sua pessoa. II. Sua obra. III. Sua doutrina.
I. Sua pessoa. — 1° Autobiografia. — Do autor do Pastor só se sabe o que ele disse de si mesmo em sua obra. E eis as poucas informações que ele fornece. Seu nome é Hermas; é assim que ele se designa em várias ocasiões. Vis., i, 1, 4; 2, 2; 4, 3; ii, 2, 2. Escravo de nascimento, vendido em Roma a uma mulher chamada Rode, ele deve ter sido libertado por ela. Casado, pai de família, mas comerciante pouco escrupuloso, conseguiu enriquecer-se; pois, inclinado à mentira e à dissimulação, confessa nunca ter dito a verdade. Mand., iii, 3, 3. A fortuna lançou a desordem em sua família; ele mesmo tornou-se um grande pecador, Mand., iv, 2, 3; sua mulher foi uma língua má e seus filhos desencaminharam-se a ponto de renegar sua fé e de denunciar seus pais. Vis., ii, 2, 2. Perdeu sua fortuna, Vis., i, 3, 1; ii, 3, 2; iii, 6, 7, e não lhe restou mais que um campo a cultivar na estrada de Roma a Cumas. Vis., iii, 1, 2; iv, 1, 2. Era, pois, cristão, assim como toda a sua família, mas todos haviam pecado e deviam fazer penitência para se reerguer; o que eles fizeram.
Como foi ele, então, levado a escrever o Pastor? Eis como. Um dia, ao margear o Tibre, avistou Rode, a quem amava como a uma irmã, banhando-se no rio; estendeu-lhe a mão para ajudá-la a sair da água, não sem dizer a si mesmo: «Como eu seria feliz de ter por esposa uma mulher dessa beleza e desse mérito!» Pensamento mau para um homem casado e pai de família; ele devia fazer penitência por isso. Um pouco mais tarde, quando se dirigia a Cumas, foi transportado pelo Espírito de Deus a um lugar inacessível; e ali viu no céu Rode, que lhe ensinou que Deus estava irritado contra ele por causa de seu mau pensamento. «Reza ao Senhor, disse-lhe ela, e ele curará teus pecados, os de tua casa e de todos os teus.» Refletindo então sobre o meio de aplacar Deus e de assegurar sua salvação, teve sucessivamente, em intervalos mais ou menos longos, a visão quatro vezes repetida de uma mulher, que representava a Igreja, que lhe leu e lhe confiou um livro, com a ordem de transcrevê-lo em dois exemplares, um para Clemente, que, segundo o dever de seu cargo, devia transmiti-lo às cidades estrangeiras, outro para Grapta, que devia instruir com ele as viúvas e os órfãos. Vis., ii, 4, 3. Ele mesmo devia interpretá-lo em Roma com aqueles que presidiam à Igreja. Em seguida, foi a visita de um homem que ele recebeu; este, vestido de pastor, com o alforje no ombro e o cajado na mão, disse-se encarregado de lembrar-lhe as visões que tivera e de fazê-lo escrever preceitos e similitudes: era o anjo da penitência, Vis., v: daí o livro do Pastor.
Tais são as informações autobiográficas fornecidas por Hermas sobre sua vida e sobre a origem de sua obra. Ele se apresenta, portanto, como um contemporâneo do papa são Clemente, no fim do século I. Mas o que há de verdadeiro em tudo isso? Terá Hermas imaginado ter tido essas visões? Terá querido fazer crer que as tivera realmente? Não terá antes recorrido a um simples artifício literário para fazer entender de maneira impressionante a lição de moral que exigia um período de relaxamento? Sua pessoa permaneceu numa sombra discreta; mas, em compensação, seu livro gozou, desde a segunda metade do século ii, de uma celebridade bastante grande; pois foi lido publicamente nas igrejas, ao menos a título de instrução e edificação, e passou mesmo, aos olhos de alguns Padres, por um livro inspirado. Importa, pois, saber o que a antiguidade cristã pensou dele.
2° Tradição primitiva entre os gregos. — O Pastor foi conhecido, apreciado e citado por certos Padres gregos. Santo Ireneu, por exemplo, reproduziu dele uma passagem, fazendo-a preceder destas palavras bastante significativas: καλῶς εἶπεν ἡ γραφή. Cont. hœr., iv, 20, 2, P. G., t. vii, col. 1032. Do mesmo modo Clemente de Alexandria, que admite a realidade e o caráter divino das revelações de Hermas, cita frequentemente o Pastor e o qualifica de Escritura. Strom., i, 17, 29; ii, 1, 9, 12, 13; vi, 15, P. G., t. viii, col. 800, 928, 933, 980, 994; t. ix, col. 357. Mas nem santo Ireneu nem Clemente de Alexandria dizem formalmente que Hermas tenha sido um contemporâneo dos apóstolos. Orígenes, ao contrário, que crê na inspiração do livro, identifica seu autor com o Hermas nomeado na Epístola aos Romanos: Puto quod Hermas iste (aquele da Epístola aos Romanos) sit scriptor libri illius, qui Pastor appellatur, quae scriptura valde mihi utilis videtur et, ut puto, divinitus inspirata. In Rom., x, 31, P. G., t. xiv, col. 1282. Ele não ignora, contudo, que sua opinião não é a de todo mundo, In Matth., xiv, 21, P. G., t. xiii, col. 1240, e que alguns têm pouca estima por essa obra. De princ., iv, 11, P. G., t. xi, col. 365. Quatro vezes mesmo, quando fala dela, usa desta precaução oratória: Si cui tamen placeat eum legere ou recipere. P. G., t. ii, col. 823-826. Não havia, pois, unanimidade entre os gregos, no tempo de Orígenes, sobre a questão de saber se se devia ter por inspirado o livro do Pastor, mas concordava-se em reconhecer-lhe uma utilidade e um valor moral de alguma importância. No começo do século iv, Eusébio constatava que era lido publicamente nas igrejas e servia para a instrução dos catecúmenos, mas que alguns punham em dúvida sua inspiração.
Nessas condições, ele o retira dos ὁμολογούμενα, juntamente com os Πράξεις Παύλου, o Ἀποκάλυψις Πέτρου, a Ἐπιστολή Βαρνάβα e as Διδαχαί τῶν ἀποστόλων, H. E., iii, 3, P. G., t. xx, col. 217; coloca-o entre os νόθα. H. E., iii, 25, ibid., col. 269. Mais tarde, são Atanásio, embora também o exclua do cânon das Escrituras, De decr. Nic. syn., 18, P. G., t. xxv, col. 456, o coloca entre os livros que se devem ler aos catecúmenos: «Para maior exatidão, escreve ele, sou obrigado a dizer que temos outros livros que não estão no cânon, mas que, segundo a instituição dos Padres, devem ser lidos àqueles que querem ser instruídos nas máximas da fé.» E assinala, entre estes últimos, o Pastor, bem como livros do Antigo Testamento, tais como a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac, Ester, Judite, Tobias, que ainda não eram recebidos no cânon das Escrituras por consentimento unânime. Epist. fest., xxxix, P. G., t. xxvi, col. 1437. Quanto a si mesmo, não hesita em apoiar-se no Pastor para refutar os arianos que o exploravam em seu proveito. De incarnatione Verbi, 3, P. G., t. xxv, col. 101. Dídimo, o Cego, cita-o igualmente: Vis., iii, 2, 8, P. G., t. xxxix, col. 1141. O autor do Opus imperfectum in Matthœum (fim do século IV), xix, 28, homil. xxxiii, P. G., t. un, col. 821, cita Sim., ix, 15. Deve-se notar que, no Codex Sinaiticus, o Pastor se encontra, com a Epístola do pseudo-Barnabé, na sequência dos livros do Novo Testamento. Em suma, até o século IV, o Pastor de Hermas gozou entre os gregos de grande autoridade, pois dele se fazia leitura pública para a instrução dos catecúmenos. Mas logo sua influência declina. Ainda é, contudo, citado por alguns escritores. E enquanto Nicéforo o exclui da lista dos livros canônicos, o intérprete etíope o tinha em tão grande apreço que o considera como obra de são Paulo. Eis, com efeito, o que se lê em apêndice na versão etíope, traduzida para o latim por Antoine d'Abbadie nas Abhandlungen für die Kunde des Morgenlandes, 1860, t. ii: Finitae sunt visiones et mandata et similitudines Hermœ, qui est Paulus.
3° Tradição primitiva entre os latinos. — Muito menos favorável foi o juízo entre os latinos. Por volta de 180, o autor do fragmento de Muratori atribui formalmente o Pastor ao irmão do papa Pio, e recusa admitir seu caráter inspirado: Pastorem vero nuperrime temporibus nostris, in urbe Roma, Hermas conscripsit, sedente cathedra urbis Romae ecclesiœ Pio episcopo, fratre ejus. Et ideo legi eum quidem oportet, se publicare vero in ecclesia populo, neque inter prophetas completum (completos) numéro, neque inter apostolos in fine temporum potest. Tertuliano, ainda católico, tratava-o, é verdade, de scriptura, De orat., 16, P. L., t. i, col. 1172; mas, tornado montanista, qualificou-o de Pastor mœchorum e o rejeitou como livro apócrifo, De pudicil., 11, 20, P.L., t. ii, col. 1000, 1021; sem dúvida porque nele se concedia a penitência aos adúlteros, e verossimilmente porque o papa Zeferino tivera de apoiar-se no Pastor para decidir a admissão dos adúlteros à penitência. Cf. A. d'Alès, La théologie de Tertullien, Paris, 1903, p. 228. Mas isso não impediu o autor do De aleatoribus, c. iv, edit. Hartel, t. iii, p. 96, de citá-lo como Escritura. No início do século IV, o decreto atribuído ao papa Pio pelo pseudo-Isidoro recorria a Hermas para refutar os quartodecimanos. Hardouin, t. i, col. 95; Mansi, t. i, p. 672. É que, com efeito, pretendia-se então que a celebração da Páscoa no domingo havia sido prescrita pelo anjo a Hermas. E o Liber pontificalis, na notícia consagrada ao papa Pio, fez-se eco dessa tradição: Sub hujus episcopatum, Hermis librum scripsit, in quo mandatum continet quod ei prœcepit angelus Domini, cum venit ad eum in habitu pastoris, et prœcepit ut Pascha die dominico celebraretur. Liber pontificalis, edit.
Duchesne, Paris, 1886, t. i, p. 132. Mas, por um lado, o Pastor não contém a menor alusão à Páscoa e, por outro, o uso romano de celebrar a Páscoa no domingo era anterior ao papa Pio, visto que, segundo o testemunho de santo Irineu, em Eusébio, H. E., v, 24, P. G., t. xx, col. 505, Higino, Telésforo e Sisto já o praticavam. O Liber pontificalis, que confunde o autor do Pastor com o próprio livro, concorda ao menos, quanto à data, com o fragmento de Muratori. Esse título Liber Pastoris levou alguns escritores a crer que Pastor era um nome de autor. O autor do poema contra Marcião já apresenta essa confusão, Adv. Marc., iii, 9, P. L., t. ii, col. 1078; e Rufino igualmente, In symb., 38, P. L., t. xxi, col. 374, bem como, mais tarde (por volta de 530), o autor da Vida de santa Genoveva. Acta sanctorum, januarii t. i, p. 139. São Jerônimo, depois de lembrar os testemunhos de Orígenes e de Eusébio, afirma que o Pastor era quase desconhecido entre os latinos, De vir. ill., 10, P. L., t. xxiii, col. 625; que não fazia parte do cânon, Prœf. in libr. Sam. et Malach., P. L., t. xxxviii, col. 556; e acusa Hermas de loucura ou de tolice a respeito do que dissera relativamente ao anjo Tyri (Thegri). In Habac, i, 14, P. L., t. xxv, col. 1286. Apesar de tudo, ainda se apelava ao Pastor; assim, Cassiano apoiava-se nele para sustentar que cada homem tem dois anjos. Collât., viii, 17; xiii, 12, P. L., t. xlix, col. 750, 929. Mas são Próspero replicava a Cassiano: Nullius auctoritatis est testimonium, quod disputationi suœ de libello Pastoris inseruerit. Cont. Collat., xiii, 6, P. L., t. li, col. 250. O Pastor encontra-se citado no apêndice da lista dos Livros santos reproduzida no Codex Claromontanus; mas o decreto de Gelásio, Hardouin, t. ii, col. 941; Thiel, Epistolae romanorum pontificum, 1868, t. i, p. 463, o rejeita entre os apócrifos. Não permaneceu, contudo, desconhecido; foi mesmo ainda utilizado na Igreja latina, como o testemunham, por volta de 530, o autor da Vida de santa Genoveva, que cita uma passagem segundo a versão latina do manuscrito palatino, Acta sanctorum, januarii t. i, p. 139, e Sedúlio Escoto, no século IX, que partilhava a opinião de Orígenes sobre o caráter inspirado desse livro. Collect. ad Rom., xvi, 14, P. L., t. ciii, col. 124. Alguns manuscritos contêm a versão latina do Pastor entre os livros do Antigo Testamento. Autores da Idade Média citaram dele algumas passagens.
4° A crítica moderna. — Do século XVI até meados do século XVIII, a maioria dos críticos continuou a ver em Hermas um contemporâneo dos apóstolos e situava a data do Pastor, uns antes da ruína de Jerusalém, outros por volta do ano 92. Mas, em 1740, a descoberta e a publicação do fragmento de Muratori, tão preciso quanto à época em que Hermas viveu e escreveu, fizeram a maioria dos críticos abandonar essa opinião. Admitiu-se que Hermas só viveu no século II. E é hoje a opinião quase unânime. Mas, nesse caso, diz-se, o autor do Pastor nos enganou ao apresentar-se como contemporâneo do papa Clemente. Nada mais verdadeiro. Ora, além do testemunho tão formal do fragmento de Muratori, há razões internas que favorecem a nova opinião. Considerando, com efeito, as ideias do Pastor, sua composição por volta de meados do século II, observa Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. i, p. 91, é, se não fora de contestação, ao menos muito verossímil. «O Pastor compraz-se tanto em tratar a grave questão do perdão dos pecados graves, e nela manifesta uma insistência tão espantosa, que naturalmente se é levado a pensar que Hermas está a par e leva em conta, pelo menos, os primeiros passos da agitação montanista. Em todo caso, os gnósticos já são, para ele, o inimigo.» O autor escreve durante um longo período de paz, que parece bem ser o de Antonino Pio (138-161); o sentido cristão enfraqueceu-se em muitos fiéis; o espírito do mundo retoma seu império. Vis., ii, 2, 3. Uma tempestade precedeu essa calma, e as circunstâncias assinaladas, Sim., ix, 28, designam a perseguição de Trajano (98-117) antes que a de Domiciano (81-96). A Igreja se encontra em um estado de crise moral ou de relaxamento, que exige um retorno a uma disciplina severa para assegurar a salvação de seus membros. Os apóstolos estão mortos, Vis., iii, 5, 1; Sim., ix, 15, 4; já não se está, portanto, nos tempos apostólicos.
Se Hermas nos enganou quanto à data, será preciso rejeitar toda a sua autobiografia? Como conciliar o que ele diz de si mesmo com a ideia que dele dá o seu livro? Por certo, todos os pormenores se ajustam admiravelmente à tendência da obra e deixam a impressão de uma história verdadeira. Hermas e sua casa figuram as chagas da Igreja; por isso é ele visado em primeiro lugar, assim como os seus, pelo apelo à penitência. A forma apocalíptica que dá à sua obra não tem por que causar espanto. Não é obra nem de um ingênuo, nem de um impostor. Mons. Freppel, que, apesar de tudo, se atém à opinião antiga quanto à data, escreve: «Inclino-me a pensar que estamos diante de um tratado didático, de uma espécie de trilogia moral que, sem se dar por uma revelação propriamente dita, se desenvolve sob a forma de um apocalipse, numa série de comunicações entre o céu e a terra.» Les Pères apostoliques, 4e édit., Paris, 1885, p. 269. E é ainda aqui, observa Bardenhewer, op. cit., p. 92, uma dessas ficções, um desses artifícios literários, que a literatura dos apócrifos aprecia e prodigaliza, e dos quais a crítica não saberia ser vítima.
Assinalemos, contudo, uma terceira opinião, a de Gaâb, Der Hirt des Hermas, Basileia, 1866, e de Th. Zahn, Der Hirt des Hermas, Gotha, 1868, segundo a qual o Pastor não teria sido composto nem pelo irmão do papa Pio, nem pelo Hermas da Epístola aos Romanos, mas por um personagem do mesmo nome, contemporâneo do papa são Clemente. Foi também a opinião de Peters, Theolog. Literaturblatt, 1869, p. 854 sq., de Mayer, Die Schriften der apost. Vàter, 1869, p. 255 sq., de Caspari, Quellen zur Geschichte des Taufsymbols, 1875, t. iii, p. 298, e de Nirschl, Patrologie, 1881, t. i, p. 80-88. Segundo Salmon, Dictionary of Christian biography, t. ii, p. 912-921, esse Hermas teria sido um profeta como Quadrato, e sua obra não seria senão um espécime do ensino dos profetas no início do século II. Quanto à opinião de Champagny, Les Antonins, Paris, 1863, t. i, p. 134, n. 1; t. ii, p. 347, n. 3, partilhada por dom Guéranger, Sainte Cécile, 2e édit., p. 132 sq., 197 sq., e segundo a qual o Pastor teria dois autores, o Hermas da Epístola aos Romanos para as Visões, e o irmão do papa Pio para os Preceitos e as Similitudes, ela não merece, diz Funk, Opera Patr. apostol., Proleg., p. cxx, ser refutada, tão fortemente se impõe a unidade de autor.
E. Spitta julgou notar que o Pastor teria sido composto sob Cláudio (41-54) ou mesmo antes por um judeu, mas que teria sido interpolado em muitos lugares por um cristão, por volta do ano 130. Zur Geschichte und Litteratur des Urchristentums, Gœttingue, 1896, t. ii, p. 241-447. Daniel Vôlter, Die Visionen des Hermas, die Sybille und Clemens von Rom, 1900, e H. A. van Bakel, De compositie van den Pastor Hermae, 1900, aderiram mais ou menos a esse sentimento, que deve ser absolutamente rejeitado. Ver Funk, em Theologische Quartalschrift, 1899, p. 321-360. Cf. A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, Paris, 1912, p. xxxix-xlvi. É, portanto, ao testemunho do fragmento de Muratori, corroborado aliás por argumentos de ordem interna, que convém ater-se, com Lipsius, Bibellexikon, 1871, t. iii, p. 20 sq.; Heyne, Quo tempore Hermœ Pastor scriptus sit, Kœnigsberg, 1872; Behm, Ueber den Verfasser der Schrift, welche den Titel « Hirt » führt, Rostock, 1876; Harnack, Patrum apost. opéra, Leipzig, 1876, t. i, p. lxxvii sq.; Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 63 sq.; Mons. Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1906, t. i, p. 224; A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, p. xxv-xxix; Funk, Opera Patr. apost., Tubinga, 1881, t. i, p. cxvii sq.; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. i, p. 98-92.
Hermas faz alusão ao amor das riquezas; boa prova de que a Igreja havia gozado de um tempo de paz. Mas houvera perseguições; houve mártires e também apóstatas; alguns cristãos, porém, safaram-se com a só perda de seus bens. O próprio Hermas fora denunciado por seus filhos e arruinado; no momento de suas visões, restava-lhe apenas um campo. Talvez tivesse sido, no tempo de sua juventude, aos 30 ou 35 anos, uma das vítimas da perseguição de Domiciano a quem Nerva, segundo Dião Cássio, 68, 2, mandara restituir os bens confiscados. Nesse caso, sob o reinado de Antonino Pio (138-161), contemporâneo do papa Pio (140-155), teria sido mais que septuagenário. Escreve num tempo em que o gnosticismo existe, mas ainda não parece um perigo grave para a Igreja; combate o relaxamento dos cristãos, mas sem assinalar erros doutrinais. A única passagem que se refere a um ensino gnóstico é aquela em que se trata dos que abusam da carne, Sim., v, 7; mas os falsos doutores visados por Hermas parecem pertencer ainda à Igreja e não ter sido dela rejeitados, como não tardaram a ser.
Na passagem mais particularmente relativa aos gnósticos, Sim., ix, 22, 2, trata-se ainda de fiéis, πιστοί, que «querem saber tudo e nada conhecem», «ser mestres, quando não passam de insensatos». Entre eles, muitos foram rejeitados, mas outros, reconhecendo suas faltas, fizeram penitência; aos que restam a penitência é proposta como meio de salvação, pois não foram maus, mas antes tolos e sem entendimento: οὐκ ἐγένοντο γὰρ πονηροί, μᾶλλον δὲ μωροὶ καὶ ἀσύνετοι. Sim., ix, 22, 4. Não seria assim que Hermas se teria expressado, se em seu tempo o gnosticismo tivesse sido para a Igreja o perigo que se tornou pouco depois; podia falar dessa maneira antes da explosão do gnosticismo por volta de meados do século II.
Era um montanista? Dificilmente parece, apesar de certas afinidades de sua moral com a do montanismo. Considera, com efeito, a Igreja como sendo de direito uma sociedade de santos, mas sendo de fato uma mistura de justos e pecadores; tem por iminente a parusia do Senhor; tem visões e revelações. Mas a solução de Hermas difere da do montanismo e traz a marca de uma data anterior. Enquanto os montanistas recusavam o perdão aos grandes pecadores, Hermas lhes concede ao menos uma vez a penitência e promete a salvação aos penitentes. Montanista, ele não teria louvado o marido de uma esposa adúltera por tomá-la de volta, caso fizesse penitência, e teria condenado as segundas núpcias. Os montanistas acrescentavam jejuns aos jejuns prescritos pela Igreja; Hermas contenta-se em jejuar nos dias de estação, sem ver nessa prática uma obrigação e insistindo no lado espiritual do jejum. Há, portanto, no Pastor menos rigorismo do que no montanismo, e nele não há nada do que é próprio do montanismo. A. Stahl, Patristische Untersuchungen... III. Der « Hirt » des Hermas, Leipzig, 1901, chegou a pretender que o autor combatia os montanistas, mas data sua obra dos anos 165-170. O testemunho do fragmento de Muratori tem mais autoridade do que os argumentos de Stahl têm valor.
II. Sua obra. — 1° Texto e versões. — O Pastor foi composto em grego, mas o texto original não chegou até nós em sua integridade.
O primeiro quarto, Vis., i-Mand., iv, 3, 6, encontra-se no codex Sinaiticus da Bíblia do século IV, descoberto em 1859; dois outros trechos encontram-se em um papiro do século V trazido de Fayum e conservado em Berlim; um manuscrito do monte Athos, séculos XIV-XV, publicado em Leipzig por Tischendorf, em 1856, o contém quase em sua totalidade; três folhas desse manuscrito, compreendendo Mand., xii, 4, 7 - Sim., viii, 4, 3, e Sim., ix, 15, 1 - 30, 2, subtraídas por Constantin Simonide, foram adquiridas pela biblioteca de Leipzig. É com o auxílio desses manuscritos que foram feitas as edições do texto grego por Hilgenfeld, Novum Testamentum extra canonem receptum, Leipzig, 1866; 2e édit., 1881; 3e, 1887; Gebhardt-Harnack, Hermae Pastor, Leipzig, 1877. Em 1880, Lambros descobriu no Monte Athos um manuscrito contendo uma parte do texto grego do Pastor e constatou mais tarde que era a fonte do manuscrito de Leipzig. Robinson fez a colação do texto, A collation of the Athos codex of the Shepherd of Hermas, 1888, p. 25-29. Hemmer foi o primeiro a utilizar esse manuscrito em sua edição dos Padres apostólicos em 1891. Fotografia por K. Lake, Oxford, 1907. No mesmo ano, U. Wilcken descobriu uma folha manuscrita em papiro, do século IV, reproduzindo Sim., ii, 7-10; iv, 2-8, e publicou-lhe o texto.
Tabeln zur àlteren griechischen Paléographie, Leipzig e Berlim, 1891, tab. iii. Diels e Harnack reeditaram e comentaram esse fragmento, encontrado no Fayum e conservado no museu de Berlim, nos Sitzungsberichte der Berliner Akademie der Wissenschaften, 1891, p. 427-431; Albert Ehrhard, na Theologische Quartalschrift, 1892, p. 294-303, e K. Schmidt e W. Schubart, Altchristliche Texte, Berlim, 1910, p. 13-15. Uma folha de papiro, contendo uma curta citação de Mand., xi, 9 sq., foi publicada por Grenfell e Hunt, em 1899. Fragmentos de sete folhas de papiro foram publicados pelos mesmos sábios papirólogos, The Amherst papyri II, Londres, 1901, p. 195 sq. (Vis., i, 2, 2-3, 1; iii, 12, 3; 13, 3, 4; Mand., xii, 1, 1, 3; Sim., ix, 2, 1, 2, 4, 5; 12, 2, 3, 5; 17, 1, 3; 30, 1-4). Cf. A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, p. ci n. Um fragmento (Sim., x, 3, 3-6) foi ainda publicado pelos mesmos. Cf. ibid., p. ciii-civ. Uma folha de pergaminho, encontrada no Egito e conservada na biblioteca municipal de Hamburgo, do século IV ao V, contém o fim de Sim., iv, e o começo de Sim., v. Cf. K. Schmidt e W. Schubart, nos Sitzungsberichte der Berliner Akademie, 28 de outubro de 1909; A. Lelong, op. cit., p. xcv-cii. Um papiro do século VI dá o início de Sim., viii, 1, 1-12, publicado por K. Schmidt e W. Schubart. Allchristliche Texte, p. 17-20.
Até 1856, o Pastor só era conhecido por uma versão latina, dita Vulgata, publicada pela primeira vez por Lefèvre d'Étaples, Liber trium virorum et trium spiritualium virginum, Paris, 1513, e reproduzida em suas edições dos Padres apostólicos por Cotelier, Fell, Gallandi, Migne, Hefele. Hilgenfeld deu dela uma edição crítica insuficiente, Hermœ Pastor, Leipzig, 1873. Outra versão latina, dita palatina, foi publicada por Dressel, em Leipzig, em 1857 e em 1863, depois por Hollenberg, em Berlim, em 1868, segundo um manuscrito do fundo palatino do Vaticano, do século XIV. Essas duas versões são independentes uma da outra; a primeira deve ter seguido de perto o aparecimento do original grego; Tertuliano fala do Pastor, não do Ποιμήν; a segunda, já conhecida do autor da Vida de santa Genoveva, por volta de 530, remonta ao século V e teve verossimilmente a Gália por berço, Cf. T. Haussleiter. De versionibus Pastoris Hermœ latinis, Erlangen, 1884; Ph. Thielmann, em Archiv für lat. Lexikographie, 1885, p. 176; Still, em Jahresbericht für Altertumswissenschaft, 1887, t. xvii, p. 35. Em 1860, Antoine d'Abbadie descobria, na Abissínia, uma versão etíope do Pastor; traduziu-a para o latim e publicou-a nas Abhandlungen für die Kunde des Morgenlandes, 1860, t. ii, n. 1. Dillmann demonstrou que ela fora feita diretamente sobre o grego. Zeitschrift der Deutschen morgenländischen Gesellschaft, 1861, t. xv, p. 111-118. Possuem-se também curtos fragmentos de uma versão copta. Ver A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, p. cv-cvi.
F. X. Funk, aproveitando os trabalhos anteriores e melhorando-os ainda, publicou o texto grego com uma tradução latina feita com o auxílio das que já existiam; a partir de Sim., ix, 30, 3, onde o original grego falta até o fim, transcreveu, por um lado, o texto da versão Vulgata e, por outro, a versão latina de Antoine d'Abbadie. É a essa edição que nos referimos, Opera Patrum apostolicorum, Tubinga, 1881. Uma segunda edição apareceu em 1901 sob o título: Patres apostolici. Ver também sua pequena edição: Die apostolischen Vàter. Tubinga, 1906. Fotografia do codex Sinaiticus por K. Lake, Oxford, 1911.
2° Divisão. — Pela extensão das matérias, pela riqueza do conteúdo e pela originalidade da forma, o Pastor constitui uma obra à parte na literatura cristã do século II.
Compreende cinco Visões, ὁράσεις, doze Preceitos, ἐντολαί, e dez Similitudes, παραβολαί; e é sob esses três títulos distintos que está dividido nas edições atuais, contrariamente às indicações do autor, que só assinala duas partes, a primeira compreendendo as quatro primeiras Visões, e a segunda, todo o resto, com a quinta Visão por prefácio e a décima Similitude por epílogo. Essa divisão do autor corresponde aos dois personagens que são os intérpretes ou os órgãos das revelações: na primeira parte, é a Igreja que aparece e fala a Hermas sob os traços de uma mulher; na segunda, é o Pastor que lhe notifica os Preceitos, propõe e explica as Similitudes. O conjunto forma um todo coerente que acusa nitidamente a unidade de autor; e o título, Ποιμήν, dado à obra, vem-lhe do personagem que entra em cena desde a primeira parte, embora aí só desempenhe um papel secundário, Vis., ii, 4, 1; iii, 10, 7, mas que aparece em seguida como o personagem encarregado de dar a conhecer a Hermas os Preceitos e as Similitudes.
As Visões indicam a razão de ser da obra e lhe traçam o esboço; os Preceitos e as Similitudes são o desenvolvimento. Tudo ali se reduz à ideia fundamental de penitência ou de reforma moral. E essa disciplina se desenha nas Visões sob forma apocalíptica, desenvolve-se de maneira mais nítida e mais precisa nos Preceitos e se completa sob forma de parábola nas Similitudes. É essa penitência que Hermas deve aplicar a si mesmo, e que deve em seguida pregar aos membros de sua própria família, à Igreja, aos fiéis e ao clero. E a razão desse apelo geral à penitência não é outra, como Hermas dá a entender, senão a iminência da perseguição e a aproximação do advento do juiz soberano.
Discutiu-se a unidade do livro. O conde de Champagny sustentou que a obra atual é formada de dois livros muito diferentes, como foi dito acima. Haussleiter emitiu uma opinião análoga: o Pastor seria composto de um primeiro livro, Vis., v-Sim., x, obra de Hermas, irmão do papa Pio (um pouco antes de 150), e de um segundo, Vis., i-iv, obra de um desconhecido publicada sob o nome de Hermas, personagem apostólico, no fim do século II. De versionibus Pastoris Hermae latinis, Erlangen, 1884. A. Hilgenfeld discerniu três escritos: um escrito de pastoral, Vis., v-Sim., vii, anterior ao reinado de Trajano, um apocalipse, Vis., i-iv, redigido sob Adriano (117-138), um escrito secundário, Sim., viii-x; Vis., v, 5, com algumas outras adições, juntado aos dois primeiros pelo irmão do papa Pio. Hermœ Pastor, 2e édit., 1881, p. xxi-xxix. Essas opiniões não obtiveram nenhum êxito. Foram refutadas por A. Link, Die Einheit des Pastor Hermas, Marburgo, 1888, e por P. Baumgartner, Die Einheit des Hermas-Buchs, Friburgo em Brisgóvia, 1889. Este último, contudo, sustentou que o autor redigiu primeiro separadamente Vis., i-iv e Vis., v-Sim., ix, que reuniu depois em um único livro. A. Harnack aderiu a essas ideias e determinou a ordem sucessiva da composição das partes. Geschichte der allchristl. Litteratur, t. ii a, p. 260-263. Seus argumentos não pareceram concludentes.
1. As Visões. — É sob forma de apocalipse ou de revelação que começa o Pastor; e esse procedimento lembra, entre os autores sagrados, as visões de Ezequiel e de são João, e, entre os apócrifos, a Ascensão de Isaías, o Livro de Henoc e sobretudo o IV livro de Esdras. A entrada em matéria é feita para aguçar a curiosidade. Hermas conta, com efeito, como vimos em sua autobiografia, os incidentes que deram lugar à redação de seu livro e à sua missão de pregar a penitência: é o objeto da primeira Visão. Na segunda Visão, ele avista ainda a Igreja sob a forma de uma velha, que lhe confia o seu livro para que o transcreva em duplo exemplar, e que lhe ensina que seus filhos pecaram contra Deus e blasfemaram contra o Senhor, que traíram seus pais e caíram em grande iniquidade, que sua mulher pecou muito pela língua, mas que todos serão perdoados se fizerem de todo o coração uma sincera penitência. Hermas põe-se a praticar o jejum.
Na terceira Visão, a velha o faz sentar-se, não à sua direita, pois é o lugar reservado àqueles que sofreram por Deus, mas à sua esquerda, e lhe mostra, elevando-se sobre as águas, uma torre construída por anjos com pedras tiradas do fundo do abismo ou do seio da terra, que se ajustavam tão bem entre si que se diria um monólito. Ela lhe aconselha conservar a paz, socorrer os indigentes e lhe prescreve recomendar aos chefes da Igreja que evitem as dissensões e observem a disciplina. — Vinte dias depois, quando se dirigia ao seu campo, rogando ao Senhor que lhe fizesse compreender o sentido dessas visões e lhe concedesse, assim como a todos os servos de Deus, a penitência, encontra uma fera enorme e horrenda, que levantava ondas de poeira. À sua vista, põe-se a chorar e a rezar, quando lhe aparece a mulher como uma virgem ornada, vestida de branco. Retoma logo a coragem e fica sabendo que escapou ao monstro graças à firmeza de sua fé e à proteção do anjo Tegri. O monstro anunciava uma grande tribulação, à qual só se escapará pela penitência e pela conversão, pela pureza de vida e pela perseverança, pela confiança em Deus.
— Na quinta Visão, que a bem dizer não passa de uma transição e do início da segunda parte, Hermas está em sua morada; acabara de rezar e está sentado em seu leito quando se apresenta a ele um homem, com o hábito de pastor: é o anjo da penitência, que já lhe apareceu sob outra forma, Vis., ii, 4; iii, 10, 7, e que se diz encarregado de lhe lembrar as visões precedentes e de lhe fazer escrever os Preceitos e as Similitudes.
2. Os Preceitos. — Esta parte não deixa de oferecer alguns traços de semelhança com o apócrifo conhecido sob o nome de Testamento dos doze patriarcas. É um pequeno tratado de moral em doze preceitos, encerrando a maior parte dos deveres do homem para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo. Tem por ponto de partida e fundamento a fé em um só Deus, criador de todas as coisas, e por finalidade o retorno à virtude por meio de um temor salutar e de um ascetismo bem entendido. Desde o início, com efeito, são recomendadas a fé, o temor e a continência, πίστις, φόβος, ἐγκράτεια, três virtudes cuja força e eficácia são mostradas a partir do sexto preceito. O segundo preceito recomenda a simplicidade e a inocência, ἁπλότης, ἀκακία; proíbe a maledicência falada ou ouvida, καταλαλιά, e prescreve a esmola sem acepção de pessoas.
O terceiro ordena o amor e a prática da verdade, a fuga da mentira. O quarto prescreve a pureza, ἁγνεία, e proscreve todo pensamento ou desejo desonesto, o que provoca, da parte de Hermas, certas perguntas sobre o matrimônio, o adultério e a penitência. Para praticar a justiça, diz-se no quinto, é preciso possuir a longanimidade e a prudência, e evitar a irascibilidade, ὀξυχολία, que expulsa o Espírito Santo e chama o diabo; é uma espécie de demência que engendra a amargura, πικρία, a cólera, θυμός, a paixão, ὀργή, e o furor, μῆνις; este último é um pecado incurável. Relativamente à fé, deve-se crer que o homem tem dois anjos, o da justiça e o da malícia: as inspirações do primeiro devem ser seguidas, pois são boas; as tentações do segundo devem ser repelidas, pois são perversas. Relativamente ao temor, é preciso distinguir o de Deus do do diabo: o primeiro deve ser praticado porque é salutar, o segundo evitado porque é pernicioso. Relativamente à continência, é preciso distinguir o mal ao qual se deve subtrair e o bem do qual não se deve abster.
O nono preceito recomenda a oração, uma oração inspirada pela fé e pela confiança, pois Deus é cheio de misericórdia, uma oração desprovida da menor dúvida, por mais que o resultado se faça esperar, pois a dúvida é de inspiração diabólica. É preciso, além disso, fugir da tristeza, irmã da dúvida, e revestir-se da alegria, que é sempre agradável a Deus e favorável ao bem. Mand., x. Existem profetas; mas, entre eles, alguns são falsos e perturbam os sentidos dos que os consultam. Não têm o espírito de Deus: orgulhosos, sensuais, loquazes, ávidos, interesseiros, reconhecem-se por suas obras, e deve-se absolutamente guardar-se deles. Mand., xi. Resta, enfim, a ἐπιθυμία, que é boa ou má conforme os desejos que inspira sejam bons ou maus; é preciso, pois, evitar a má concupiscência, que dá a morte espiritual, e, para resistir-lhe com êxito, convém abraçar o desejo da justiça e armar-se do temor de Deus. Mand., xii.
3. As Similitudes. — Esta última parte do Pastor tem o mesmo caráter que a primeira, o de um apocalipse, e liga-se a certas parábolas evangélicas. Comparações e quadros, que não carecem de encanto, servem para pôr em relevo alguns pontos de doutrina e de moral. Nas duas primeiras similitudes, trata-se do bom emprego da fortuna. Não tendo aqui embaixo cidade permanente, o homem não deve apegar-se exclusivamente aos bens da terra; esses bens são dados por Deus para que dele se beneficiem os indigentes. Sim., i. O rico e o pobre são um para o outro como o olmo e a videira. O olmo sustenta a videira, e a videira orna o olmo com seus frutos. O rico ajuda o pobre, mas não se despoja sem proveito, pois sua pobreza espiritual é socorrida pelo pobre, que, por sua oração, enriquece espiritualmente o rico. Sim., ii.
Uma comparação não menos graciosa serve, nas duas similitudes seguintes, para explicar a mistura, neste mundo, dos justos e dos pecadores, e sua separação no século futuro. Assim é que, no inverno, as árvores, despojadas de suas folhas, se assemelham; mas, vindo o verão, enquanto umas se adornam de folhas e de frutos, as outras não mudam e estão mortas. Do mesmo modo, na terra, que é o inverno para eles, bons e maus estão confundidos; mas o século futuro, como o verão, é revelador de uns e de outros: os justos, carregados de frutos, serão recompensados; os pecadores, permanecidos estéreis, serão punidos. Na quinta similitude acusa-se o caráter profundamente espiritualista do ascetismo cristão, não devendo as práticas exteriores ser mais que um meio para operar a reforma moral. Eis a verdadeira noção do jejum: «Não faças o mal no curso de tua vida, diz o Pastor a Hermas, mas serve a Deus com um coração puro, observa seus mandamentos, entra na via de seus preceitos, e repele até o desejo culpável que procura insinuar-se na alma.
Tem plena confiança em Deus; pois se aceitas estas coisas, se de tudo te absténs por temor de desagradar-lhe, ele te dará a vitória: eis o verdadeiro jejum, aquele que Deus aceita.» E isso não é a condenação do jejum praticado por Hermas, pois o anjo da penitência acrescenta: «No dia em que jejuares, não provarás nenhum alimento, limitando-te ao pão e à água. Porás de lado a quantidade de alimentos que tens por costume tomar a cada dia, e a darás à viúva, ao órfão e aos pobres; é assim que consumarás a mortificação de tua alma.» Tal é a noção completa do jejum. Ao lado desse preceito, há o conselho. Na similitude, imitada do Evangelho, o Senhor e o servo da vinha, este último não se contenta em executar as ordens recebidas, vai além, e, assim fazendo, merece e recebe uma recompensa maior, é adotado pelo Senhor.
Na sexta similitude, Hermas vê dois pastores e dois rebanhos: o anjo da volúpia e o anjo da pena; um respirando doçura e alegria mas perdendo as almas porque não fazem penitência; o outro, de aspecto rude e repulsivo, conduzindo suas ovelhas, com o bastão erguido, em meio às sarças e aos espinhos, e fazendo-as fazer penitência para sua salvação. Na sétima similitude, Hermas pede que o anjo da pena seja afastado de sua casa; mas o Pastor lhe mostra a necessidade de expiar suas faltas e de fazer penitência, pois a penitência bem aceita merece a reconciliação. Nas duas similitudes seguintes, a oitava e a nona, a Igreja reaparece sob o duplo símbolo do salgueiro e da torre. O salgueiro é podado; cada fiel recebe dele um ramo que deverá apresentar, e, segundo o estado desse ramo, será recompensado ou punido; é uma maneira de dar a entender que cada um será tratado segundo as suas obras. Os pecadores serão submetidos à penitência e, se a cumprirem de todo o coração, obterão o perdão, senão serão condenados. Quanto ao símbolo da torre, reaparece com um conjunto de circunstâncias que serve para caracterizar os que entram na construção por sua fidelidade perseverante ou por sua sincera penitência, e os que dela são afastados.
A última similitude serve de conclusão: a Hermas cabe fazer penitência e perseverar; a Hermas cabe ensinar aos outros esse meio de salvação. Já que a salvação é assegurada pela penitência, cada um deve tomar esse meio enquanto a torre está em construção, pois depois seria tarde demais.
III. Sua doutrina. — 1° Trindade e encarnação. — O Pastor é antes de tudo obra de um moralista preocupado em remediar os males da sociedade cristã, e não de um polemista que pretende refutar certos erros nem de um teólogo que expõe, com provas em apoio, alguma das verdades da fé. Nem por isso deixa de afirmar com nitidez certos dogmas, tais como a unidade divina e a criação ex nihilo, Mand., i, 1, p. 388; cf. Sim., v, 5, 2; vii, 4; mas está longe de ser tão categórico sobre a Trindade e a cristologia. Aí, seu pensamento é nebuloso e sua linguagem desconcertante. Não sem algumas sutilezas certos críticos defenderam sua ortodoxia; entre outros Jackman, Der Hirt des Hermas, Kœnigsberg, 1835, p. 68-73; Hefele, Opéra Patrum apost., 4e édit., Tubinga, 1855, p. 386, n. 3; Dorner, Lehre von den Person Christi, 2e édit., 1845, p. 190-205; Gaâb, Der Hirt des Hermas, Basileia, 1866, p. 77-82; Zahn, Der Hirt des Hermas, Gotha, 1868, p. 253-282; Donaldson, The apostolical Fathers, 2e édit., Londres, 1874, p. 353-358; Freppel, Les Pères apostoliques, 4° édit., Paris, 1885, p. 318; Rambouillet, L'orthodoxie du livre du Pasteur d'Hermas, Paris, 1880; Un dernier mot sur l'orthodoxie d'Hermas, Paris, 1880, na Revue du monde catholique, 1880, p. 21 sq.; A. Briill, Der Hirt des Hermas, 1882; J. Schwane, Dogmengeschichte der vornicânischen Zeit, 2e édit., 1892, p. 61; trad. franc., Paris, 1903, t. i, p. 65; R. Seeberg, Lehrbuch der Dogmengeschichte, 1895, t. i, p. 22; outros, em contrapartida, Lipsius, Zeitschrift für wiss. Théologie, 1865, p. 277-282; 1869, p. 273-285; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1898, t. i, p. 94; Funk, Opéra Patrum apost., Tubinga, 1881, t. i, p. 458; 1901, t. i, p. cxli-cxliii, acusaram Hermas de identificar a segunda pessoa da Trindade com o Espírito Santo, e mesmo, segundo Harnack, em suas notas, Vis., v, 2; Sim., v, 5, 2; 6, 5; viii, 1, 2; ix, 1, 1; Duchesne, Les origines chrétiennes, edit. lith., Paris, 1885, p. 198, com o arcanjo são Miguel. Mons. Duchesne já não fala dessa identificação, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1906, t. i, p. 232-234. Cf. Lueken, Michael, Gœttingue, 1898, p. 87, 148-154; E. Huckstadt, Der Lehrbegriff des Hirten, 1889; O. Bardenhewer, Christi Person und Werk in Hirten des Hermas, 1886; Funk, Patres apostolici, 2e édit., Tubinga, 1901, t. i, p. 532-540.
O que se deve reconhecer, ao menos, é que sua terminologia deixa muito a desejar. Eis, com efeito, uma primeira passagem que permitirá julgá-lo: é relativa às três pessoas divinas. Um homem, diz o Pastor, Sim., v, 2, p. 450-452, possui um domínio e numerosos servos. Separa uma parte desse domínio e nela planta uma vinha. Depois, escolhendo um servo fiel e honrado, encarrega-o de empar essa vinha com estacas, prometendo-lhe a liberdade. Partido o senhor, esse servo põe-se à obra, e não só empa a vinha, mas ainda arranca as ervas daninhas, coisa que não lhe fora prescrita. À sua volta, o senhor é informado do zelo de seu servo, e vendo que este fizera mais do que lhe haviam pedido, convoca em conselho seu filho e seus amigos; de acordo com eles, decide que o bom servo partilhará sua herança com seu filho. Tendo dado um banquete, envia provisões ao servo fiel que, depois de ter tomado sua parte, dá o resto a seus companheiros de servidão. Há aí, de fato, três personagens distintos: o senhor, seu filho e seu servo. Mas quem são eles?
O campo, explica o Pastor, Sim., v, 5, 2-3, p. 460, representa este mundo, do qual o senhor é Deus, criador de todas as coisas. O filho do senhor é o Espírito Santo. Filius autem Spiritus Sanctus est, traz a versão Vulgata. Essas palavras, é verdade, não se encontram nem no texto grego nem na versão palatina; nem por isso deixam de representar o pensamento do autor, pois ele diz noutro lugar: «Quero mostrar-te o que te mostrou o Espírito Santo, que te falou na pessoa da Igreja; pois esse Espírito é o filho de Deus: ἐκεῖνο γὰρ τὸ πνεῦμα ὁ υἱὸς τοῦ Θεοῦ ἐστίν. Sim., ix, 1, 1, p. 498. Quanto ao servo, é o filho de Deus; ὁ δὲ δοῦλος ὁ υἱὸς τοῦ Θεοῦ ἐστίν. Sim., v, 5, 2, p. 460. Ora, esse servo, chamado filho de Deus, põe anjos à guarda da Igreja; extirpa as ervas daninhas ou desenraíza os pecados por seus labores e seus sofrimentos; e partilha as sobras do banquete com os outros servos. Tal é a sua obra: obra de redenção, sem que seja mencionada a morte expiatória, e obra de comunicação da graça pela pregação evangélica. Nem uma só vez o autor o assinala sob o nome de Verbo, de Cristo ou de Jesus, assim como não pensa em dizer a diferença que há entre sua filiação divina e a do Espírito Santo.
Eis outra passagem relativa à encarnação: «O senhor chamou em conselho seu filho e os anjos gloriosos para deliberar sobre a participação do servo na herança; isso quer dizer: o Espírito Santo que preexistia, que criou toda criatura, Deus o fez habitar numa carne escolhida por ele.
Essa carne, na qual habitava o Espírito Santo, serviu bem ao Espírito em toda pureza e toda santidade, sem jamais lhe infligir a menor mancha.
Depois que ela se conduziu assim bem e santamente, que ajudou o Espírito e trabalhou com ele em toda ação, mostrando-se sempre forte e corajosa, Deus a admitiu a participar com o Espírito Santo. A conduta dessa carne agradou a Deus, pois ela não se manchou sobre a terra enquanto possuía o Espírito Santo. Consultou, pois, seu filho e seus anjos gloriosos, a fim de que essa carne, que havia servido ao Espírito sem nenhuma censura, obtivesse um lugar de habitação e não perdesse o prêmio de seu serviço. » Sim., v, 6, 4-7, p. 462. « Que concluir daí, pergunta Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1898, t. i, p. 94, senão que, visivelmente, a distinção entre o Espírito Santo e o Filho de Deus decorre da encarnação; o Filho de Deus antes da encarnação e o Espírito Santo são um só. » E Bardenhewer acrescenta: « Acabou-se, pois, a Trindade no pensamento de Hermas, enquanto Jesus não tiver consumado a obra da redenção; a Trindade só se constitui quando a humanidade do Salvador se eleva ao nível do Pai e do Espírito Santo. »
Fala-se várias vezes, Vis., v, 2; Mand., v, 1, 7; Sim., v, 4, 4; vii, 1, 5; viii, 1, 1, p. 384, 402, 456, 474, 476, 478, de um anjo que está acima dos seis anjos superiores que formam o conselho de Deus; e esse anjo é alternadamente qualificado de veneradíssimo, de santo, de glorioso, σεμνότατος, ἅγιος, ἔνδοξος, no qual a maioria dos intérpretes viu o Cristo. Mas Hermas acaba por nomeá-lo, e chama-o Miguel. Sim., viii, 3, 3, p. 484. Seria que ele identifica o Filho de Deus com o arcanjo são Miguel? A resposta pareceria dever ser afirmativa, em razão das múltiplas semelhanças que o Pastor assinala entre um e outro em suas funções. Um e outro, com efeito, são investidos da onipotência sobre o povo de Deus, Sim., v, 6, 4; viii, 3, 3, p. 462, 484; um e outro pronunciam-se sobre a sorte dos fiéis, Sim., viii, 3, 3; ix, 5, 2-7; 6, 3-6; 10, 4, p. 484, 508, 510; um e outro entregam os pecadores ao anjo da penitência para os emendar. Sim., viii, 2, 5; 4, 3; ix, 7, 1-2, p. 480, 484, 510, 512.
Mas essa analogia de situações e de missões não pareceu suficiente a Zahn, Der Hirt des Hermas, Gotha, 1868, p. 263-278, e a Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1898, t. i, p. 95, para induzir daí a identidade das pessoas, tanto mais que diferenças de denominações e de atributos são características. Assim, são Miguel é sempre qualificado de anjo e o Filho de Deus nunca leva esse nome; se são Miguel tem poder sobre o povo, o Filho de Deus não é somente o senhor do povo, Sim., v, 6, 4, p. 462, é ainda o senhor da torre, seu proprietário, seu possuidor; dispõe dela soberanamente: αὐθέντης, δεσπότης, Sim., ix, 5, 2, 6, 7; ix, 7, 1, p. 508, 510; e enquanto são Miguel simplesmente grava a lei no coração dos fiéis, « essa lei é o Filho de Deus, tal como foi pregado até os confins do mundo. » Sim., viii, 3, 3, p. 484. Cf. Heurtier, Le dogme de la Trinité dans l'Épître de S. Clément de Rome et le Pasteur d'Hermas, Lyon, 1900.
2° Os anjos. — Hermas, sem falar da natureza dos anjos, alude sobretudo ao seu número considerável e às suas diversas funções. Distingue, como já observamos, os anjos superiores dos anjos inferiores; estes estão encarregados da vinha ou dos membros da Igreja, Sim., v, 5, 3, p. 460; trabalham na construção da torre mística, sob a direção dos seis anjos gloriosos. Sim., ix, 6, 2, p. 510. Os anjos gloriosos fazem parte do conselho de Deus e assistem à deliberação que deve dar ao servo a herança divina e ao seu corpo a recompensa celeste. Sim., v, 6, 4-7, p. 462. Diversas são as funções dos anjos: há o anjo da penitência, que desempenha tão grande papel no Pastor; há o anjo Thegri, Θεγρί, encarregado da guarda das feras, Vis., iv, 2, 4, p. 382; há sobretudo são Miguel, cujo papel preponderante vimos. Cada homem tem seu anjo da guarda, ἄγγελος δικαιοσύνης, cujas inspirações e conselhos deve seguir para praticar a justiça e preservar-se do mal. Mand., vi, 2, 1-3, p. 406. Mas tem também outro anjo, ἄγγελος πονηρίας, ibid., que não é outro senão o diabo, de quem deve desconfiar, pois este é o inspirador e instigador do pecado; todas as suas obras são más. Mand., vi, 2, 10, p. 408. Deve-se, pois, temê-lo, porque poderia impedir o cumprimento dos preceitos e assim fazer perder a salvação. Mas nada pode contra os servos de Deus, pois é dominado pelo anjo da penitência: ἐγὼ γὰρ ἔσομαι μεθ' ὑμῶν, ὁ ἄγγελος τῆς μετανοίας, ὁ κατακυριεύων αὐτοῦ, Mand., xii, 4, 7, p. 436; tenta-os, mas os que são cheios de fé resistem-lhe com sucesso, e ele se afasta, por não encontrar lugar neles, para entrar nos homens vãos, dos quais faz seus escravos. Mand., xii, 5, 4, p. 436.
3° A Igreja. — Hermas dá poucas informações sobre a organização da Igreja. Alude ao episcopado quando diz de Clemente que enviará seu livro às cidades de fora conforme o dever de seu cargo: ἐκείνῳ γὰρ ἐπιτέτραπται. Vis., ii, 4, 3, p. 350. Fala dos presbíteros que presidem a Igreja. Ibid. Entre as pedras que se ajustam perfeitamente à torre, assinala as que figuram os apóstolos, os bispos, os didáscalos e os diáconos. Vis., iii, 5, 1, p. 360. Recomenda aos προηγουμένοις e aos πρωτοκαθεδρίταις que evitem toda dissensão e observem a disciplina para poderem dar frutuosamente a lição aos outros, Vis., iii, 9, 7-10, p. 370; pois talvez estivessem entre aqueles fiéis ambiciosos que lutavam pelo primeiro lugar e pelas honras. Sim., viii, 7, 4, p. 492. Numa época em que o carisma da profecia tinha suas contrafações, previne os fiéis contra os falsos profetas, que não passavam de exploradores da credulidade pública, Mand., xi, 1-4, p. 424, ao passo que o profeta segundo Deus se faz reconhecer pela probidade de sua vida, por sua humildade, por seu ascetismo, por sua discrição, não falando em segredo, não respondendo a qualquer um que o interrogue, mas exprimindo-se em público, na assembleia, sob a inspiração do espírito profético. Mand., xi, 7-10, p. 426. Hermas alude, por fim, ao papel das diaconisas, quando nomeia Grapta, encarregada do cuidado das viúvas e dos órfãos. Vis., ii, 4, 3, p. 350.
O que sobretudo retém a atenção de Hermas é a Igreja considerada como uma sociedade de santos perfeitamente una. Por duas vezes a compara a uma torre cuja construção forma um só monólito. Na primeira vez, Vis., iii, essa torre é representada como edificada sobre as águas, por uma alusão transparente ao batismo; e essa torre figura a Igreja, que só compreende santos, uns já saídos deste mundo, outros ainda vivendo sobre a terra. Para se ajustarem perfeitamente a ela, só servem os materiais apropriados, tais como as pedras cúbicas e brancas, isto é, os apóstolos, os bispos, os didáscalos e os diáconos, que andaram na santidade e cumpriram bem o seu ministério, os mártires e os justos. Quanto às outras pedras, umas jazem ao pé da torre, outras são quebradas e lançadas para longe, até que uma preparação conveniente as torne aptas a ser utilizadas. Na segunda vez, Sim., ix, a torre é edificada sobre uma imensa rocha, na qual está aberta uma porta; alusão a Cristo, que é a pedra e a porta da Igreja. Mas desta vez as pedras que entram na construção a título provisório representam toda sorte de batizados, os pecadores tanto quanto os justos; pois, antes de ser concluído, o edifício deve sofrer a inspeção do senhor que, provando as pedras empregadas, afastará as que não são de bom quilate para entregá-las ao anjo da penitência. E este, conforme tenham se tornado aptas ou não para a construção, fica encarregado de utilizá-las ou de rejeitá-las definitivamente. De modo que, no fim, a Igreja só compreende santos e forma um corpo, semelhante a um monólito resplandecente, cujos membros têm um só pensamento, um só sentimento, uma só fé, uma só caridade. Cf. P. Batiffol, L'Église naissante, 2e édit., Paris, 1909, p. 222-224.
4° O batismo e a vida cristã. — Natureza, necessidade, efeitos do batismo, obrigações que impõe: outros tantos pontos assinalados por Hermas. É ao batismo por imersão que se alude: « Desce-se morto à água (batismal), e dela se sobe vivo. » Sim., ix, 16, 4, p. 532. Esse sacramento assegura a remissão de todos os pecados anteriores. Mand., iv, 3, 1, p. 39!i. Imprime um selo tão necessário para fazer parte da Igreja que os justos do Antigo Testamento só puderam tomar lugar na construção da torre e formar suas três primeiras camadas depois de o terem recebido. E como era a única coisa que faltava à sua justiça, foi aos apóstolos que deveram conhecer-lhe a existência e a necessidade, bem como receber-lhe a impressão. Sim., ix, 16, 3-7, p. 532. Essa singular opinião de uma missão póstuma dos apóstolos junto aos justos do Antigo Testamento, a fim de lhes pregar e lhes conferir o batismo, foi de fato partilhada por Clemente de Alexandria, Strom., ii, 9; vi, 6, P. G., t. viii, col. 980; ix, col. 268-269, mas ficou sem outro eco entre os Padres. Ver t. ii, col. 212.
Ora, « aquele que recebeu o perdão de seus pecados (no batismo) não deve mais pecar, mas perseverar na pureza (batismal), » ἐν ἁγνείᾳ κατοικεῖν. Mand., iv, 3, 2, p. 398. Está plenamente justificado, e essa justificação confere uma santidade positiva, fazendo da alma a própria morada do Espírito Santo. « Conservai vossa carne pura e sem mancha, a fim de que o Espírito, que nela reside, lhe dê testemunho e que vossa carne seja justificada. Guardai-vos de deixar subir ao vosso coração o pensamento de que vossa carne é perecível e de abusar dela por vossas imundícies (como faziam certos gnósticos), pois, manchando vossa carne, manchais também o Espírito Santo, e se ultrajais o Espírito Santo, não vivereis. » Sim., v, 7, 1-2, p. 464. Tal era o magnífico ideal proposto ao batizado. A fé, é evidente, e também o temor de Deus são recomendados ao cristão pelo Pastor, mas muito particularmente a continência. « Quem a observa (essa continência) será feliz nesta vida e terá a vida eterna por herança. » Vis., iii, 8, 4, p. 308. Não se deveria crer que isso seja um eco da doutrina exagerada dos encratitas.
Pois ser continente, aos olhos do Pastor, é abster-se de todo mal e fazer o bem: e os males de que é preciso abster-se são o adultério e a fornicação, a embriaguez, o orgulho, a mentira, a blasfêmia, a hipocrisia, o furto, o dolo, o falso testemunho, a avareza, a concupiscência má e tudo o que se lhe assemelha. Mand., viii, 2, 6, p. 412. Ser continente é também praticar a fé, o temor de Deus, a caridade, a concórdia, a justiça, a verdade, a paciência, e é socorrer as viúvas, os órfãos e os pobres, exercer a hospitalidade. Mand., viii, 9-10, p. 412. Outros tantos deveres que incumbem à vida ordinária do cristão, onde não se trata de modo algum do ascetismo encratita, mas que mostram bem que à fé se devem juntar as obras. Já dissemos como o Pastor entendia o jejum. No estado de justificação, tal como é constituído pelo batismo, o homem pode adquirir méritos, observar os mandamentos, seguir mesmo os conselhos e praticar virtudes heroicas dignas de uma recompensa especial.
Isto não é outra coisa senão a afirmação do dogma católico relativo às obras supererrogatórias. Por ter procedido ao arrancamento das ervas daninhas, operação que não lhe fora prescrita, o servo foi adotado como co-herdeiro do Filho de Deus. « Observai os mandamentos do Senhor, e agradareis a Deus, e sereis inscritos no número dos que observam os seus mandamentos. Mas se fizerdes algum bem que ultrapasse os mandamentos de Deus, adquirireis para vós mesmos uma glória sobreeminente e gozareis junto a Deus de um crédito maior do que podeis esperar. » Sim., v, 3, 1-3, p. 454. É verdade que a observância dos mandamentos parece muito difícil a Hermas. Mand., xii, 3, 4, p. 432. Não é, contudo, impossível, observa o Pastor; basta persuadir-se de que é possível para tornar fácil o seu cumprimento. Mand., xii, 3, 4-5, p. 432. Em todo caso é obrigatória, pois « se não os observas, diz o Pastor a Hermas, Mand., xii, 3, 6, p. 432, não haverá salvação nem para ti, nem para teus filhos, nem para tua casa, » isto é, para ninguém. Mas há o diabo, observa Hermas, Mand., xii, 5, 1; e o Pastor responde: basta resistir-lhe, pois se ele pode lutar, não pode vencer; o anjo da penitência está aí para sustentar os esforços do cristão tentado.
5° A penitência e a salvação. — Como conservar intacto o selo batismal, praticar a castidade da verdade, ἁγνότης τῆς ἀληθείας, e atingir esse ideal de perfeição, quando a fragilidade humana é tão grande? É preciso levar em conta uma queda sempre possível, com demasiada frequência real. O cristão que sucumbe deve desesperar de sua salvação? Aqui se apresentavam duas soluções, radicalmente opostas uma à outra: a dos gnósticos relaxados e a dos rigoristas exagerados. Os primeiros tinham por indiferente toda falta cometida depois do batismo; mas era isso « uma doutrina estrangeira, um ensinamento de hipócritas, » de natureza a perverter os servos de Deus, sobretudo os pecadores, não os deixando fazer penitência e tranquilizando-os com propósitos insensatos. Sim., viii, 6, 5, p. 490. Por reação contra esse cínico relaxamento, outros pregavam um rigorismo exagerado e procuravam impor um ascetismo completo. Como se pode ver nos Aota Thomœ, Bonnet, Aela Thomse, Leipzig, 1883, p. 11-13, 55-73, e em outras peças apócrifas, tais como os Actus Pétri cum Simone, Lipsius, Acta i'rtri, Lelozig, 1891, p. 85-87, 228-234, e o Evangelho segundo os Egípcios, Nestlé, Novi Teslamenli supplementum, Leipzig, 1896, p. 72, o ideal de uma pureza integral, de uma continência absoluta, devia ser a regra a seguir. O autor da 77° démentis, 7, 8, 9, 13, 15, Funk, Opéra Patrum apost., Tubingue, 1881, t. i, p. 152, 154, 158, 160, 162, preconiza esse ascetismo.
A solução de Hermas é mais humana; opõe-se aos que sustentavam já, como deviam fazê-lo os montanistas, a impossibilidade de o cristão decaído reconquistar a inocência batismal e obter depois do batismo o perdão de seus pecados. « Deus é cheio de longanimidade, e quer que o apelo dirigido por seu Filho não seja frustrado. » Sim., viii, 11, 1, p. 496. « Conhece a enfermidade do homem e a astúcia do diabo, e tem piedade de sua criatura. » Mand., iv, 3, 4-5, p. 398. Somente ele assegura a cura do pecador. Mand., iv, 1, 11, p. 396. Como? Pela μετάνοια. À vontade divina de salvar os batizados, à misericórdia de Deus pronta a perdoar e a curar, deve corresponder da parte do culpado um ato, ou melhor, uma conduta moral que aceite esse meio e a ele se submeta. Ora, não se trata aqui nem do sacramento da penitência, de que Hermas não fala, nem do processo canonicamente instituído para a reconciliação oficial dos pecadores, tal como não tardou a funcionar, mas de um exercício da virtude da penitência, comportando muito mais do que significa a palavra latina pœnitentia, a saber, uma mudança da alma, uma reforma interior, uma renovação moral, uma transformação das ideias, dos sentimentos e dos costumes, numa palavra, uma verdadeira conversão, pois tal é a força da palavra grega μετάνοια. E isso compreende, com o pesar do passado e o firme propósito para o futuro, isto é, com a contrição, a expiação penosa do pecado, isto é, a satisfação.
« A μετάνοια é uma grande prudência; pois aquele que a pratica compreende que pecou, arrepende-se de seu ato, não faz mais o mal, aplica-se a fazer o bem, humilha e atormenta sua alma porque pecou. » Mand., iv, 2, 2, p. 396. Essa μετάνοια aplica-se a todos os pecados sem distinção, mesmo àqueles que, por um tempo bastante curto, serão considerados casos reservados: a apostasia, o adultério e o homicídio. Hermas não fala, é verdade, do homicídio, mas assinala os adúlteros e os blasfemadores. A esposa adúltera, diz ele, Mand., iv, 1, 7, p. 394, deve ser recebida por seu esposo, se fez penitência de seu pecado. Quanto aos apóstatas, podem beneficiar-se da μετάνοια os que renegaram de boca e não de coração. Sim., ix, 26, 5, p. 546.
Mas essa μετάνοια, se se estende a todos os pecados, não convém indistintamente a todos os pecadores: serve apenas aos cristãos antigos, e não aos que acabam de ser batizados ou o serão no futuro. Estes têm, sem dúvida, a remissão de seus pecados (pelo batismo), mas não têm a μετάνοια. Mand., iv, 3, 3, p. 398. Essa restrição arbitrária denuncia bem o rigorismo da época, mas não é a única, pois se especifica que aquele que se aproveitou da μετάνοια só pode recorrer a ela uma única vez: μίαν μετάνοια ἔχει. Mand., iv, 3, 6, p. 398. Se, pois, recai no pecado, não há que contar com o socorro eficaz de uma segunda μετάνοια, e viverá dificilmente: ἀσύμφορόν ἐστι τῷ ἀνθρώπῳ τῷ τοιούτῳ, δυσκόλως γὰρ ζήσεται. Ibid. Assim é que, durante algum tempo, a Igreja introduzirá no regime penitencial uma restrição desse gênero, concedendo ao cristão pecador apenas uma vez o benefício da penitência canônica.
Estabelecidos esses dois pontos, o Pastor enumera por três vezes os pecadores que podem recorrer eficazmente à μετάνοια. A primeira vez, a propósito da torre edificada sobre as águas. Aqui só são definitivamente rejeitados da construção, isto é, da Igreja, e privados de salvação, os filhos da iniquidade: exasperaram o Senhor. Vis., iii, 6, 1, p. 362. Entre as pedras ainda não utilizadas, umas jazem junto à torre, outras são quebradas e lançadas para longe. As primeiras estão apenas momentaneamente abandonadas, porque ainda são impróprias para a construção. Há as negras: são os que conheceram a verdade, mas não perseveraram nela. Há as rachadas: são os que não guardaram a paz uns com os outros. Há as lascadas: são os que não possuem a justiça integral. Há as redondas e brancas: são os crentes escravizados à fortuna, que, no momento da provação, renegaram o Senhor para conservar suas riquezas; e tal foi o caso de Hermas. Mas todas essas pedras poderão, depois de uma apropriação necessária, fazer parte da torre: os pecadores que elas figuram poderão, depois de fazer penitência, tomar lugar nessa sociedade de santos que é a Igreja.
Entre as pedras quebradas e lançadas para longe, umas rolam para fora do caminho: são os que tiveram a fé, mas que, pela dúvida, perderam a via. Outras caíram no fogo: são os que se afastaram de Deus sem pensar ainda em arrepender-se. Outras, enfim, caíram perto da água, mas sem poder nela entrar: são os que ouviram a palavra (de verdade) e quiseram receber o batismo, mas não ousaram pedi-lo, a fim de poderem entregar-se aos seus maus desejos. Os pecadores dessa tríplice categoria poderão recorrer à μετάνοια e tomar lugar na torre? A essa pergunta precisa de Hermas o Pastor responde: « Têm a μετάνοια, mas não podem tomar lugar nesta torre; estarão num lugar muito inferior, mas depois de terem sido castigados. Serão transferidos por terem tido parte na palavra do justo. E lhes acontecerá serem transferidos de seus tormentos, se tiverem no coração o arrependimento de suas iniquidades, caso contrário não serão salvos por causa da dureza de seu coração. » Vis., iii, 7, 5-6, p. 366. Em outras palavras, esses pecadores ainda não têm a justiça requerida para fazer parte da sociedade dos santos, mas estão em vias de purificação pela penitência, e permanecem seguros de sua salvação.
Uma segunda vez, na Similitude do salgueiro, todos os cristãos recebem um ramo de salgueiro que deverão apresentar; o estado desse ramo servirá para distinguir os que mereceram a salvação. Ora, de treze categorias de cristãos, três representam os justos e dez os pecadores. Estes são entregues ao anjo da penitência; mas nem todos fazem penitência de maneira igualmente útil à sua salvação. Deus previu os que dela se aproveitariam e os que fingiriam recorrer a ela. Sim., viii, 6, 2, p. 488. Ora, uma só dessas dez categorias de pecadores é rejeitada, a dos apóstatas e dos traidores: esses estão definitivamente mortos para Deus. Por quê? Porque, entre eles, « nenhum se arrependeu, embora tenham ouvido o que te prescrevi pregar-lhes (relativamente à μετάνοιαν), diz o Pastor a Hermas; a vida já não está neles. » Sim., viii, 6, 4, p. 490. Todas as outras serão salvas: » todos os que se tiverem submetido à μετάνοια de todo o coração e se tiverem purificado de suas iniquidades sem acrescentar novas, terão o remédio de seus pecados e viverão para Deus; e todos os que acrescentarem aos seus pecados e andarem segundo os desejos do século condenar-se-ão à morte, » θανάτῳ ἑαυτοὺς κατακρίνουσιν. Sim., viii, 11, 3, p. 498.
Uma última vez, enfim, a propósito da torre edificada sobre a rocha, há primeiro as quatro primeiras camadas definitivamente seladas, que representam os patriarcas, os profetas e os justos do Antigo Testamento, bem como os apóstolos e os pregadores do Evangelho. Há em seguida pedras de toda espécie, das quais algumas são afastadas e outras provisoriamente empregadas até a inspeção do senhor da torre, que só reterá as boas e confiará as outras ao anjo da penitência. A torre permanece inacabada para permitir aos pecadores prepararem-se pela μετάνοια para a sua reintegração no edifício. As pedras são extraídas de doze montanhas, que representam o mundo inteiro. Como acima, uma só categoria, a dos apóstatas, dos blasfemadores e dos que entregaram os servos de Deus, é irremediavelmente condenada: são os endurecidos: τούτοις δὲ μετάνοια οὐκ ἔστι, θάνατος δὲ ἔστι. Sim., ix, 19, 1, p. 536. Cinco outras, a dos que conservaram a simplicidade, a inocência e a paz, a dos apóstolos e dos didáscalos que pregaram como convinha a palavra de Deus, a dos bispos e dos hospitaleiros, a dos mártires, e a dos que guardaram a simplicidade das crianças, estão asseguradas de fazer parte dessa torre. Para as seis que restam, a μετάνοια é a condição imposta. Cheio de confiança, Hermas exclama: Spero quia omnes, qui antea peccaverunl, libenler acluri sunt psenilenliam, vilam récupérantes. E o Pastor responde: Quicumque mandata efficiunt, habebunl vitam... Quicumque vero mandata non servant, fugiunt a sua vita, morti se tradunl, et unusquisque eorum reus fil sanguinis sui. Sim., x, 2, 3-4, p. 560. Em suma, entre os antigos batizados, todo pecador pode obter o perdão e a cura de seus pecados, sob a condição de recorrer seriamente à μετάνοια.
Essa μετάνοια comporta, no pecador, o arrependimento sincero do pecado, o firme propósito para o futuro e uma laboriosa purificação. Deus dá então a cura. Mas da parte de Deus, essa μετάνοια constitui uma graça; e o bom uso que dela faz o pecador é outra. Deus, com efeito, concede a μετάνοια àqueles que vê dispostos a purificar sua alma e a servi-lo de todo o coração, ao passo que a recusa àqueles cuja duplicidade, malícia e hipocrisia prevê. Sim., viii, 6, 2, p. 488. É por terem recebido o Espírito de Deus que uns se aproveitam dela, e é por culpa deles que outros a tornam inútil. O Pastor diz a Hermas: « Vês quantos fizeram penitência e foram salvos; é para que compreendas quão grande e digna de ser glorificada é a misericórdia do Senhor, que encheu de seu espírito aqueles que foram dignos da μετάνοια. » Sim., viii, 6, 1, p. 488. Mas o Senhor não se contenta em dar-lhes esse espírito, assiste-os ainda no cumprimento de seu ato, Sim., v, 3, 4, p. 454; escuta favoravelmente a sua oração. Sim., v, 4, 4, p. 456. Eis já em germe os elementos satisfatórios do regime penitencial futuro.
A Igreja deve ser uma sociedade de santos. Julga possível a conservação intacta da pureza batismal, mas sabe também quão grande é a fragilidade humana. Ao pecador, oferece depois do batismo um meio de salvação. E assim como regula a iniciação e administra o batismo, pretende regular a administração da penitência e intervir ao fim da prova satisfatória, por um ato jurídico, para reconciliar oficialmente o pecador convertido. Mas nesse desenvolvimento da disciplina penitencial, as distinções arbitrárias do Pastor desaparecerão, e seu rigorismo cederá cada vez mais lugar a um regime de benignidade e indulgência. Cf. Rauschen, L'eucharistie et la pénitence durant les six premiers siècles, trad. franc., Paris, 1910, p. 139 sq.; A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, p. iv-vii, lx-lxxv; A. d'Alès, L'édit de Calliste, Paris, 1914, p. 52-113.
6° O matrimônio. — Relativamente ao matrimônio cristão, a indissolubilidade do vínculo conjugal, mesmo no caso de adultério, é nitidamente afirmada, e a questão das segundas núpcias é resolvida num sentido de modo algum proibitivo. Eis, com efeito, os casos de consciência propostos por Hermas e resolvidos pelo Pastor. — 1. O esposo peca se vive com sua mulher culpada de adultério? Não, se ignora a falta; sim, se chega a conhecê-la, pois então se tornaria cúmplice de seu pecado. — 2. Que deve fazer no caso em que sua mulher persevera no pecado? Deve então deixá-la e permanecer só, pois se contraísse novo matrimônio, cometeria ele mesmo um adultério. Mand., iv, 1, 4-6, p. 392-391. — 3. Se a esposa adúltera, depois de ter sido repudiada, fez penitência, não muitas vezes, mas uma só vez, μὴ ἐπὶ πολλά· τοῖς γὰρ δούλοις τοῦ θεοῦ μετάνοιά ἐστιν μία, o esposo deve recebê-la de novo, sem o que cometeria uma falta grave. Mand., iv, 1, 7-8, p. 394. — 4. Mesmas soluções para a mulher, quando é o esposo que cai no adultério. Ibid. — 5. Se um dos dois esposos vem a morrer, o sobrevivente peca ao casar-se de novo?
Não, mas adquiriria mais honra e glória junto a Deus permanecendo na viuvez. Mand., iv, 4, 1-2, p. 378-400.
7° As subintroductœ. — Na Similitude ix, 10, 6, p. 518, Hermas recebe do Pastor a ordem de ficar junto à torre para aguardar a chegada do senhor; é confiado à guarda das virgens. Mas, aproximando-se a noite, quereria retirar-se; e as virgens lhe dizem: μεθ' ἡμῶν κοιμηθήσῃ ὡς ἀδελφός, καὶ οὐχ ὡς ἀνήρ. Sim., ix, 11, 3, p. 520. Afirmam que o amam, e uma delas o beija. Será uma alusão ao costume das mulheres que viviam com os clérigos sob o nome de sorores, subintroductœ, ἀδελφαί, ἀγαπηταί, συνείσακτοι? Hefele o acreditou, Opéra Patrum apost., 4e éclit., Tubingue, 1855, p. xcvi; mas nem Gaâb, Der Hirt des Hermas, Bàle, 1866, p. 56-59, nem Zahn, Der Hirt des Hermas, Gotha, 1868, p. 179-181, são desse parecer. Harnack acha suspeito o emprego desses termos κοιμηθήσῃ, ἀγαπῶμεν, καταφιλεῖν, sem considerar verossímil a introdução desse costume antes do século III. Funk, por sua vez, Opéra Patrum apost., p. 518-519, nota, sem negar que o Pastor aí faça alusão, estima que o uso das subintroductœ se introduziu no século II, e apoia sua opinião na linguagem de Tertuliano, De jejuniis, 17; De virginibus velandis, 14, e de são Cipriano, De habita virginum, 19; Epist., iv, 2. Pode muito bem ser, embora não se possa dar prova positiva disso, que a linguagem do Pastor tenha favorecido esse costume, que não devia tardar a mostrar o que encerrava de chocante e de perigoso para os costumes e a provocar, desde o fim do século III e o começo do IV, sua interdição categórica. Cf. concílio de Ancira, c. 19; concílio de Niceia, c. 3, em Lauchert, Die Kanones der wichtigsten altchr. Concilien, Leipzig, 1896, p. 34, 38. Quanto ao concílio de Elvira, c. 27, ver t. iv, col. 2388.
I. Edições. — Lefèvre d'Étaples, Liber trium virorum et trium spiritualium virginum, Paris, 1513; Cotelier, Patres œvi apostolici, Paris, 1672; Leclerc, Patres œvi apostolici, Anvers, 1698; Galland, Bibliotheca veterum Patrum, Venise, 1765-1767; Migne, P. G., t. ii; Hefele, Opera Patrum apost., 4e édit., Tubingue, 1855; Tischendorf, Hermœ Pastor grœce, Leipzig, 1856; Anger et Dindorf, Hermœ Pastor grœce, Leipzig, 1856; Dressel, Patrum apost. opera, Leipzig, 1857; Hilgenfeld publicou a versão latina dita Vulgata, Hermœ Pastor, Leipzig, 1873; 2ª ed. à parte, e o texto grego em Novum Testamentum extra canonem receptum, Leipzig, 1866; Hermœ Pastor grœce, Leipzig, 1881; 3ª ed., 1887; Hollenberg, Pastor Hermœ, Berlin, 1868; Gebhardt, Harnack et Zahn, Patrum apost. opera, Leipzig, 1877; 2ª ed., 1894; Funk, Opera Patrum apost., Tubingue, 1881; 2ª ed., 1901; A. Lelong, Le Pasteur d'Hermas, Paris, 1912 (texto grego, trad. francesa e introd.); Ant. d'Abbadie publicou uma tradução latina da versão etíope de Hermas, Hermœ Pastor, nos Abhandlungen fur die Kunde des Morgenlandes, 1860, t. ii.
II. Trabalhos. — Além dos prolegômenos e das notas que acompanham a maioria das edições, pode-se consultar: Weinrich, Disquisitio in doctrinam moralem ab Herma in Pastore propositam, 1804; Jachmann, Der Hirt des Hermas, Kœnigsberg, 1835; Gaâb, Der Hirt des Hermas, Bâle, 1866; Zahn, Der Hirt des Hermas, Gotha, 1868; Freppel, Les Pères apostoliques, Paris, 1859; 4e édit., 1885, p. 257-322; Lipsius, Der Hirt des Hermas und Montanismus in Rom, em Zeitschrift fur wissenschaftliche Théologie, 1865, t. viii, p. 266-308; 1866, t. ix, p. 27-81; Heyne, Quo tempore Hermœ Pastor scriptus sit, Kœnigsberg, 1872; Donaldson, The apostolical Fathers, 2e édit., Londres, 1874, p. 351-382; Behm, Ueber der Verfasser des Schrift welche den Titel « Hirt » fuhrt, Rostock, 1876; Ledrain, Deux apocryphes du IIe siècle, avec une étude sur la date du Pasteur d'Hermas, Paris, 1871; Nirschl, Der Hirt des Hermas, Passau, 1879; E. Renan, L'Église chrétienne, 3e édit., Paris, 1879, p. 401-425; M. du Colombier, Le Pasteur d'Hermas, Paris, 1880; Brüll, Der Hirt des Hermas, Fribourg-en-Brisgau, 1882; Duchesne, Les origines chrétiennes, édit. lith., Paris, 1886; Link, Christi Person und Werk im Hirten des Hermas, Marbourg, 1886; Die Einheit des Pastor Hermas, Marbourg, 1888; A. Ribagnac, La christologie du Pasteur d'Hermas, Paris, 1887; Huckstaedt, Der Lehresbegriff des Hirten, Anklam, 1888; Baumgartner, Die Einheit des Hermas Buchs, Fribourg-en-Brisgau, 1889; Taylor, The witness of Hermas to the four Gospels, Londres, 1892; Spitta, Studien zum Hirten des Hermas, Goettingue, 1896; Fessler, Institutiones patrologiœ, édit.
Jungmann, Inspruck, 1890, t. i, p. 178 sq.; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1898, t. i, p. 84-98; Geschichte der altkirchlichen Litteratur, Fribourg-en-Brisgau, 1902, t. i, p. 557-578; J. Bénazech, Le prophétisme chrétien depuis les origines jusqu'au Pasteur d'Hermas, Cahors, 1901; P. Batiffol, Les origines de la pénitence, Hermas et le problème moral au IIe siècle, Paris, 1902 (ou Revue biblique, 1901, t. x, p. 327-351); Wengel, em Hennecke, Neutestamentliche Apokryphen, 1904, p. 277-279; Kirchenlexikon, t. v, col. 1839-1844; Dictionary of Christian biography, t. ii, col. 912-921; Richardson, Bibliographical synopsis, Buffalo, 1887, p. 30-36; Realencyclopädie fur protestantische Théologie und Kirche, t. vii, p. 714-718; The catholic encyclopedia, New York, t. vii, p. 268-271; Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, Berlin, t. i, col. 1900; 2132; D. Völter, Die Visionen des Hermas, etc.; B. Heurtier, Le dogme de la Trinité dans l'Épître de saint Clément de Rome et le Pasteur d'Hermas, Lyon, 1900; J. Réville, La valeur du témoignage historique du Pasteur d'Hermas, Paris, 1900; Mgr Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1906, t. i, p. 225-235; K. Lake, The Shepherd of Hermas and Christian life in Rome in the second century, em Harvard theological review, 1911, t. iv, p. 25-46; K. O. Macmillan, The Shepherd of Hermas, apocalypse or allegory? em The Princeton theological review, 1911, t. ix, p. 61-94; G. Bardy, Le Pasteur d'Hermas et les livres hérétiques, na Revue biblique, 1911, p. 391-407; Baumeister, Die Ethik des Pastor Hermœ, Fribourg-en-Brisgau, 1912; A. d'Alès, L'édit de Calliste. Étude sur les origines de la pénitence chrét. Paris, 1914, p. 52-113; A propos du Pasteur d'Hermas, nos Études, 1912, t. cxxxii, p. 79-94; C. H. Turner, The Shepherd of Hermas and the problem of its text, em Journal of theol. studies, 1920, t. xxi, p. 193-209.
G. Bareille.
Autor original: G. Bareille
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