HENNEBEL (JOÃO LIBERTO)

HENNEBEL (JOÃO LIBERTO)

HENNEBEL João Liberto nasceu a 20 de janeiro de 1652, no lugarejo de Bilande, perto de Wavre, em Brabante. Fez suas humanidades em Lovaina, aparentemente no colégio da Santíssima Trindade, e seu curso de filosofia na « pedagogia do Falcão ». Em 1670, na promoção geral da faculdade de artes, obtinha o sétimo lugar. Foi então admitido, na qualidade de bolsista, ao colégio de Bay, assim chamado do nome de seu fundador Tiago de Bay, sobrinho de Miguel Baio. Ali seguiu as lições públicas de teologia, das quais as mais notadas nesse momento eram as de Nicolau du Bois, sobre a Sagrada Escritura, e as de Gerardo van Werm e de Francisco van Viane, sobre a escolástica. A 13 de outubro de 1682 era proclamado doutor em teologia, ao mesmo tempo que Bartolomeu Pasmans, cujo nome se encontra muitas vezes unido ao seu nas polêmicas dessa época. Primeiro leitor ou vice-presidente do colégio de Bay, passou, a 15 de julho de 1684, à presidência do colégio de Viglius. Nesse cargo poderia, diz Paquot, « juntar algum benefício ou alguma cátedra de teologia, se não estivesse ligado ao partido dos que pensavam, sobre a assinatura do formulário, como os bispos de Angers, de Beauvais, de Pamiers e de Aleth. » Trata-se, como se compreendeu, do formulário de Alexandre VII e das resistências jansenistas com que ele deparou.

A controvérsia sobre essas matérias estava então em seu auge em toda a Bélgica, em Lovaina em particular; e Hennebel era um dos homens mais em evidência entre os adversários da aceitação pura e simples. Foi designado, em 1693, para ir, em nome da universidade, expor ao Santo Padre as dificuldades e os perigos da situação. As circunstâncias e os resultados dessa deputação foram apresentados e apreciados de maneira muito diferente pelos contemporâneos. Sabemos ao menos, de modo certo, que, chegado a Roma a 17 de novembro e recebido em audiência pelo papa a 26 do mesmo mês, Hennebel, depois de ter dado sumariamente conta das dissensões e dos atritos de que o formulário era a ocasião ou o pretexto, pediu a Sua Santidade o favor de ser ouvido nas Congregações romanas antes que estas tomassem uma decisão. Inocêncio XII consentiu nisso e manteve a palavra. O resto das negociações nos escapa em parte. Mas, depois de uma estada de oito anos em Roma, o negociador estava longe de ter assegurado o apaziguamento dos espíritos e aplainado todas as dificuldades. Constata-se apenas, a partir de seu retorno à Bélgica, que sua situação pessoal melhorou um pouco.

Em 1691, solicitara à corte de Bruxelas o cargo de censor régio e apostólico dos livros, com o canonicato de São Pedro de Lovaina, que lhe era anexo; esse posto lhe fora, aliás, prometido pelo eleitor da Baviera, governador dos Países Baixos; e, no entanto, sofreu uma recusa, motivada pela natureza das teses que defendera para seu doutorado e que haviam desagradado em alto lugar. Reinstalado em Lovaina na data de 15 de janeiro de 1701, via-se outorgar, pouco tempo depois, no capítulo de São Bavão de Gand, uma prebenda canonical, que aliás logo resignou em favor de um de seus parentes. Em 1708, obtinha, na faculdade de teologia, uma cátedra de doutor-regente, isto é, de professor, que antes pleiteara duas vezes sem êxito. Nessa ocasião, subscreveu, em novembro desse ano, a bula Vineam Domini. A 30 de abril de 1709, assinou, como decano da mesma faculdade, outra declaração de adesão às doutrinas romanas. Mas, lamenta-se ter de acrescentá-lo, esses dois atos públicos, por estarem sempre envoltos em reservas e reticências, que se traíam nas palavras e na atitude subsequente de seu autor, deixavam ainda pairar alguma suspeita sobre a sinceridade de sua submissão.

Só mais tarde repeliu os erros jansenistas com toda a franqueza desejável: a carta dirigida à universidade de Douai pela inteira faculdade de teologia de Lovaina, a 8 de julho de 1715, era nítida e absoluta, fechava enfim a porta a toda equivocidade possível. Hennebel não sobreviveu mais que cinco anos a esse feliz acontecimento. Morreu, a 30 de agosto de 1720, nesse colégio de Viglius de que guardara a presidência durante trinta e seis anos, e foi sepultado na igreja de São Quintino. Apesar das tendências doutrinais da maior parte de sua vida, era, segundo o testemunho de todos os que dele se aproximaram, um homem de caráter doce e conciliador. São essas qualidades, sem dúvida, que lhe valeram ser, em 1710, levado pelos sufrágios de seus colegas à honra do reitorado: é talvez também a elas que deveu ser deputado a Roma pela universidade. Depois de se ter declarado aberta e absolutamente, em 1715, pela bula Unigenitus, passou seus últimos dias numa piedosa e estudiosa tranquilidade e não quis ter mais nada em comum com os não aceitantes.

Costuma-se ligar ao nome de Hennebel, como redigidos por ele, quer sozinho, quer em colaboração com outros membros do partido jansenista, um número bastante grande de opúsculos, dos quais vários apareceram sob o véu do anonimato. A maior parte, tomados um a um, não tem grande importância; mas sua série nos apresenta, por assim dizer em ação, uma parte das vicissitudes da existência e do pensamento de Hennebel, e todos juntos podem servir muito utilmente à história do jansenismo nos Países Baixos.

Eis os principais: 1° Notæ brèves ac modestæ in propositions XXXI S. Inquisitionis decreto nuper proscriptas, in-4°, Lovaina, 1651. Essas Notæ foram censuradas e proibidas pelo arcebispo Humberto de Precipiano, por atribuírem às proposições condenadas pelo Santo Ofício um sentido absolutamente fantasioso e que teria feito de sua condenação um ato ridículo e ilusório. 2° Responsio ad articulos XLII quos eximii DD. Martinus Harney et Mailinus Steyaert altestcmtur, authoribus Gummaro Huijgens, aliisque, ut loquuntur, Mi adhserentibus et confœdcralis, qua clam, qua palam serpere et circumferri, tradi et inculcari apud scholæ theologicæ alumnos, non sine ingenti periculo injectionis, in-4°, Lovaina, 1691. Este escrito será também mencionado sob o nome de Huygens, que parece ter tido nele uma parte preponderante. 3° O mesmo vale para a Refutalio Synopseos opponendorum responsioni ad articulos XLII Ex. De Huygens et aliorum. 4° Apologia pro Jo. Liberto Hennebel, ab Academia Lovaniensi ad S. Sedan deputato, adversus rumorem publicum, qui spargilur in Belgio quasi propositionem aliquam Romæ suslineat aut hæreticam, aut de hæresi suspectam, in-4°, 1693. 5° Libelli hispanice editi hoc litulo : Mémorial al rey... nomine ac jussu Thyrsi Gonzalez, Soc. Jesu præpositi generalis, obltdi, confutatio per Belgas theologos, in-8°, Bruxelas, 1699.

6° Propositiones quadraginta excerptæ ex libro cui litulus : Nodus prædestinationis, adjunctis quibusdam notis. O Nodus prædestinationis é uma obra póstuma do cardeal Sfondrati. Publicada em 1697, foi muito discutida desde o seu aparecimento e até acusada, mas sem razão, ao que parece, de pelagianismo. Hennebel mostrou-se um dos mais ardorosos em atacá-la. Sua crítica apareceu inserida numa coletânea do mesmo espírito, devida, crê-se, ao menos em parte, à pena de Quesnel e intitulada: Augustiniana Ecclesiæ romanæ doctrina a cardinalis Sfondrati nodo extricata per varios S. Augustini discipulos, in-12, Colônia, 1700. 7° Declaratio circa articulos doctrinæ in Belgio controversæ..., Die 10 septembris 1700 coram apostolica in Urbe exhibita, in-12, Lovaina, 1701. Todas as peças deste volume, salvo uma, encontram-se reproduzidas nos Opuscula mencionados abaixo. 8° Memoriale pacis Romam missum die 4 martii 1701 et ibidem sacræ Congregationi S. Officii exhibitum, in-12. 9° Várias outras Memórias dirigidas por Hennebel às Congregações romanas durante sua estada na Cidade eterna foram impressas no Commonitorium ad orthodoxos do P. Désirant, bem como no Commonitorium de Opstraet.

10° Via pacis seu status controversiæ inter theologos Lovanienses, in-4°, Liège, 1701. 11° Os Opuscula, assim detalhados no subtítulo: Eximii viri J. L. Hennebel theses theologicæ de gratia et pœnitentia ; accedit Declaratio theologorum Belgarum per eumdem doctorem coram Sede apostolica exhibita ; item accedunt Martini Steyaert theses de sacerdote lapso et assertio censuræ Lovaniensis et Duacensis adversus quorumdam hodie objectiones, in-12, Lovaina, 1703. 12° Declaratio facultatis theologicæ Lovaniensis contra quinque propositiones ab apostolica Sede damnatas, que só foi publicada em 1717, em Colônia, no Molinismus profligatus do carmelita Henrique de Santo Inácio. 13° Epistola ad illustrissimum D. Fenelonem, archiepiscopum Cameracensem. É de 12 de maio de 1714 e foi também reproduzida no Molinismus profligatus. Enfim, 14° encontram-se na Causa quesnelliana várias outras cartas de Hennebel, dirigidas ao P. Quesnel ou a Brigode, seu secretário.

Esses diversos escritos, dos quais alguns, como disse, notadamente os nos 2, 3 e 5, não são certa e exclusivamente obra pessoal de Hennebel, são muito diferentes quanto ao alcance como quanto à extensão; mas todos ou quase todos têm um traço comum: neles se pleiteia, mais ou menos abertamente, ou pela tese do « silêncio respeitoso », ou pela supressão e apaziguamento, por via de autoridade, de todas as discussões; trabalha-se discretamente por inocentar o Augustinus e os que nele se apoiam, e chega-se, por exemplo, na Réfutation du mémoire des jésuites espagnols (n° 5), a pretender, contra a evidência cegante dos fatos, que os Países Baixos não oferecem vestígio nem de jansenismo nem de rigorismo. O leitor notará, aliás, que nenhum é posterior à data de 1695. Depois do que foi dito acima, essa circunstância se explica por si mesma.

Paquot, Mémoires pour servir à l'histoire littéraire des Pays-Bas, édit. de Louvain, t. xvm, p. 286-303; édit. in-fol., t. m, p. 628-632; Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1910, t. iv, col. 725; Reusens, art. Hennebel, na Biographie nationale de Belgique, Bruxelas, 1886-1887, t. ix, p. 69.

J. Forget.

Autor original: J. Forget

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