HEGESIPO

HEGESIPO

HEGESIPO, escritor eclesiástico do século II. — I. Vida. II. Memórias.

I. Vida. — Contemporâneo de santo Irineu, particularmente apreciado por Eusébio e são Jerônimo, qualificado de homem apostólico por Estêvão Gobaro, Hegesipo é uma testemunha preciosa da fé da Igreja no século II. Nada se sabe de positivo sobre o lugar e a data de seu nascimento, nem sobre as circunstâncias de sua conversão do judaísmo ao catolicismo. Mas, como conhecia o hebraico, o siríaco e as tradições judaicas puramente orais, Eusébio concluiu que era judeu de origem e palestino de nascimento. H. E., iv, 22, P. G., t. xx, col. 384. Por volta de meados do século II, empreendeu, como nos informa ele próprio, uma longa viagem de informação religiosa, durante a qual visitou grande número de igrejas e de bispos. Permaneceu notadamente em Corinto, onde conversou com o bispo Primo; constatou que essa Igreja, fundada por são Paulo, havia perseverado até então na ortodoxia e que nela se lia a Iª Epístola do papa são Clemente aos Coríntios. Depois foi a Roma durante o pontificado de Aniceto (155-166) e ali viveu sob seus dois sucessores imediatos, os papas Sotero (166-175) e Eleutério (175-189). Segundo o Chronicon paschale, Olymp. ccxxxix, P. G., t. xcii, col. 641, teria morrido sob o imperador Cômodo (180-192). Seu nome está inscrito no catálogo dos santos por Usuardo, Adon, Notker e os demais martirológios; sua festa aí é fixada em 7 de abril.

II. Memórias. — 1º Título e objeto da obra. — De toda a sua atividade literária conhece-se uma única obra, infelizmente perdida, em cinco livros, da qual restam apenas fragmentos conservados por Eusébio, H. E., ii, 23; iii, 20, 32; iv, 8, 22, P. G., t. xx, col. 196, 252, 281, 321, 377, e por Estêvão Gobaro, in Fócio, Bibliotheca, 232, P. G., t. ciii, col. 1096, e uma citação feita por Jorge Sincelo. Chronogr., an. 5578, P. G., t. cviii, col. 1197. Essa obra compreendia cinco livros que Eusébio designa ora pelo nome de συγγράμματα, ora pelo de ὑπομνήματα, e cujo verdadeiro título era: Πέντε ὑπομνήματα ἐκκλησιαστικῶν πράξεων. Segundo Eusébio e são Jerônimo, era escrita em estilo simples e sem pretensão; e os fragmentos que dela restam não contradizem essa apreciação.

Mas qual era seu objeto, sua nota característica, seu fim preciso? Eusébio, que não deixou de utilizá-la para a história dos tempos apostólicos, coloca Hegesipo entre os adversários ortodoxos do gnosticismo e o põe à frente deles. H. E., iv, 8, P. G., t. xx, col. 321. São Jerônimo, De vir. ill., 22, P. L., t. xxiii, col. 640, vê nele o historiador da Igreja universal desde a paixão do Salvador até a época em que redigiu suas Memórias; e isto explica o título de Pai da história eclesiástica que às vezes se lhe dá. Mas, tanto quanto se pode julgar pelos fragmentos, sua obra, ao mesmo tempo histórica e polêmica, não era uma história propriamente dita, pois não se explicaria como o relato do martírio de são Tiago, ocorrido no século I, só se encontra no l. V, como atesta formalmente Eusébio. H. E., ii, 23, P. G., t. xx, col. 197. Tampouco era uma obra de pura polêmica contra as seitas judaicas e as heresias gnósticas, mas antes uma coletânea de informações, de fatos, de tradições e de tudo o que pudesse ser de alguma utilidade para os leitores, como nota são Jerônimo, composta não por vã curiosidade, mas com um fim apologético nitidamente marcado. Pois, depois de ter por toda parte interrogado os usos locais e as doutrinas que se ensinavam nas diferentes Igrejas, para compará-los entre si, Hegesipo tem o cuidado de constatar que, em cada centro cristão e em cada sucessão episcopal, o ensino eclesiástico era plenamente conforme à lei, aos profetas e ao Senhor. H. E., iv, 22, P. G., t. xx, col. 377. Não se pode senão lamentar a perda de tal obra para a história dos dois primeiros séculos cristãos.

2º Os fragmentos. — Eles são em número de cinco em Eusébio. O primeiro diz respeito ao martírio de são Tiago, irmão do Senhor, primeiro bispo de Jerusalém. H. E., ii, 23, P. G., t. xx, col. 196-204. O segundo narra a comparência dos parentes do Salvador diante de Domiciano; esse imperador, temendo uma ação política da parte deles, quis saber se pertenciam realmente à raça de Davi, interrogou-os sobre o estado de sua fortuna e sobre o que pensavam do reino de Cristo; mas, achando-os tão simples e tão inofensivos, mandou-os embora ilesos. H. E., iii, 20, ibid., col. 252-253. O terceiro é o relato do martírio de Simeão, sucessor de são Tiago na sé de Jerusalém, crucificado aos 120 anos de idade por ordem do legado Ático, por volta de 110, por denúncia de certos hereges. H. E., iii, 32, ibid., col. 281-284. Diz-se ali que, até essa época, a Igreja de Jerusalém permanecera virgem de todo erro, não tendo ousado mostrar-se aqueles que haviam de tentar corrompê-la enquanto restava algum sobrevivente dos tempos apostólicos. O quarto faz alusão às honras divinas prestadas a Antínoo, o demasiado célebre favorito de Adriano. H. E., iv, 8, ibid., col. 321. O quinto menciona a estada de Hegesipo em Corinto e em Roma, as seitas judaicas e as heresias gnósticas. H. E., iv, 22, ibid., col. 377-384. Por outro lado, sobre este texto: « o olho não viu, o ouvido não ouviu, etc., » que lembra, com pouca diferença, o empréstimo feito por são Paulo a Isaías, I Cor., ii, 9, Estêvão Gobaro escreveu: Hegesippus, vir antiquus et apostolicus, libro quinto Commentariorum, haud scio an offensus dicit frustra hœc dici et eos qui hœc dicunt in sacram Scripturam et contra Christum... mentiri. Em Fócio, Bibliotheca, 232, P. G., t. ciii, col. 1096. Enfim, Jorge Sincelo refere que, segundo Hegesipo, a carta de são Clemente aos Coríntios era lida na Igreja de Corinto. Chronogr., Olympiad. ccxxxix, P. G., t. cviii, col. 641.

3º A sucessão dos pontífices romanos. — Hegesipo tinha por hábito, diz ele, elaborar a lista dos bispos locais até os apóstolos; deve, portanto, ter elaborado a dos bispos de Roma desde são Pedro até Aniceto; mas essa lista não chegou até nós. Lightfoot julgou tê-la encontrado naquela que santo Epifânio, Hœr., xxvii, 6, P. G., t. xli, col. 372, declara ter recolhido ἔν τισιν ὑπομνηματισμοῖς, título que faz pensar nos ὑπομνήματα de Hegesipo, The earliest papal catalogue, in The Academy, 1887, p. 362-363; The Apostolic Fathers, S. Clement of Rome, Londres, 1870, t. i, p. 327-333; mas Funk não partilha esse parecer. Der Papstkatalog Hegesipps, in Historisches Jahrbuch, 1888, t. ix, p. 674-677; 1890, t. xi, p. 77-80. Eis essa lista: Pedro e Paulo, Lino e Cleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto. Vê-se ali, contrariamente ao catálogo liberiano, que não se faz menção de dois papas distintos, um com o nome de Cleto, outro com o nome de Anacleto ou Anenclito. Eusébio também só conhece um único papa, que nomeia Anenclito, em sua Histoire ecclés., iii, 15, P. G., t. xx, col. 249, ao passo que o catálogo liberiano traz: Pedro, Lino, Clemente, Cleto, Anacleto, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Aniceto, Pio, etc. Ver, em de Smedt, o catálogo eusebiano e liberiano, Dissertationes selectœ in primam œtatem historiœ ecclesiasticœ, Paris, 1876, Appendix K, p. 83-85, 90-91, 94. Eusébio deve ter aproveitado a lista de Hegesipo; de Smedt rejeita a distinção de Cleto e Anacleto. Op. cit., p. 301-302. Ver esses nomes. Na falta de lista, Hegesipo fornece ao menos uma informação precisa e irrecusável, segundo a qual se deve colocar Aniceto depois de Pio, e não, como fez o catálogo liberiano, Pio depois de Aniceto; pois marca nitidamente que chegou a Roma sob o pontificado de Aniceto e que Aniceto teve por sucessores imediatos Sotero e Eleutério. H. E., iv, 22, P. G., t. xx, col. 377.

4º As seitas judaicas e as heresias gnósticas. — Deve-se a Hegesipo uma lista das seitas judaicas e das primeiras heresias gnósticas. Sem grande preocupação com a exatidão cronológica e com o cuidado de caracterizar cada uma das seitas de que fala, Hegesipo lembra que havia sete entre os judeus: os essênios, os galileus, os hemerobatistas, os masbotheus, os samaritanos, os saduceus e os fariseus. H. E., iv, 22, P. G., t. xx, col. 381. É exatamente o mesmo número, mas com alguns nomes diferentes, em são Justino: saduceus, genistas, meristas, galileus, helenianos, fariseus e batistas, Dial. cum Tryphone, 80, e em santo Epifânio: escribas, fariseus, saduceus, essênios, nazarenos, hemerobatistas e herodianos.

Mais completo e mais explícito, o Indiculus hœreseon, falsamente atribuído a são Jerônimo, distingue dez e as descreve assim: 1. Esseni dicunt Christum docuisse illos omnem abstinentiam. 2. Galilaei dicunt Christum venisse et docuisse eos, ne dicerent dominum Cœsarem, neve ejus monetis uterentur. 3. Masbothei dicunt ipsum esse Christum qui docuit illos in omni re sabbatizare. 4. Pharisœi negant Christum venisse, nec ulla in re cum prœdictis communicant. 5. Sadducœi negant resurrectionem. 6. Genistœ prœsumunt quoniam de genere Abrahœ sunt. 7. Meristœ, quoniam separant Scripturas, non credentes omnibus prophetiis, dicentes aliis et aliis spiritibus prophetasse. 8. Samaritœ... in observationibus suis a Judœis omnino separantur. 9. Herodiani Herodem magnificabant, dicentes ipsum esse Christum. 10. Hemerobaptistœ qui quotidie corpora sua et domum et supellectilem lavant. Cf. Valois, n. 22, P. G., t. xx, col. 381-382. Por outro lado, Hegesipo assinala, entre os sectários saídos do judaísmo, Simão, Cleóbio, Dositeu, Gorteu, Masbóteu, assim como as heresias gnósticas dos menandrianos, dos marcionitas, dos carpocracianos, dos valentinianos, dos basilidianos e dos saturnilianos, de onde saíram os pseudocristos, os pseudoprofetas, os pseudoapóstolos, que alteraram a doutrina de Cristo e procuraram romper a unidade da Igreja. H. E., iv, 22, P. G., t. xx, col. 380-381.

É tudo o que anotou Eusébio, sem nos dizer se Hegesipo, a exemplo de são Justino e de santo Irineu, havia exposto esses sistemas para refutá-los.

5º Importância de seu testemunho. — A constatação formal feita por Hegesipo de que o ensino cristão era por toda parte conforme à lei, aos profetas e ao Senhor prova ao menos que, da época em que empreendeu sua viagem, por volta de 150, até aquela em que consignou por escrito os resultados dela, por volta de 180, a fé das Igrejas judeu-cristãs da Palestina e da Síria era a mesma que a da Grécia e do Ocidente, e que não há vestígio de dissensão alguma.

Mas, segundo Baur e a escola de Tubinga, isso provaria simplesmente que, por volta de meados do século II, as Igrejas estavam fortemente penetradas de elementos judaicos e não eram ainda católicas; pois Hegesipo não era na realidade senão um ebionita, encarregado por seus correligionários de empreender uma viagem de exploração religiosa no interesse do partido judaizante. Seu conhecimento do hebraico, do siríaco e das tradições judaicas, o uso que fazia do Evangelho hebraico de são Mateus, o silêncio que guarda sobre a seita dos ebionitas e sua animosidade contra são Paulo, de que dá testemunho a passagem de Estêvão Gobaro, seriam outras tantas provas de seu ebionitismo. Mas isso não passa de uma hipótese, à qual é preciso renunciar; pois, se Hegesipo tivesse sido o ebionita que se pretende, não se explicaria o elogio sem restrição que fizeram de sua fé e de sua obra Eusébio e são Jerônimo. Tampouco são Justino, como Hegesipo, assinalou os ebionitas; e pôde fazer uso do Evangelho hebraico de são Mateus sem por isso ser acusado de ebionitismo. Resta, é verdade, a passagem incriminada por Estêvão Gobaro, na qual se quis ver um ataque contra são Paulo. Mas é uma passagem que não é citação exata de são Paulo; pois traz τοῖς δικαίοις, aos justos, onde o apóstolo escreveu: τοῖς ἀγαπῶσιν αὐτόν, aos que o amam; e, longe de visar são Paulo, fala daqueles, no plural, que interpretam mal o texto, isto é, segundo toda verossimilhança, dos gnósticos. Além disso, tal censura a são Paulo é inconciliável com o conhecimento e a aprovação da epístola de são Clemente aos Coríntios, de que fala Hegesipo, e cuja coloração paulina é tão fortemente acentuada. Deve-se, pois, rejeitar a hipótese de Baur e ter Hegesipo por uma testemunha ortodoxa, que arruína o sistema da escola de Tubinga. Cf. Freppel, Les apologistes chrétiens, 3ª edit., Paris, 1887, p. 364-372.

O testemunho de Hegesipo é particularmente importante sobre os irmãos de Jesus. Embora o que ele refere de são Tiago o Menor seja já em parte lendário, o que diz, contudo, de seu grau de parentesco com o Salvador é confirmado pelo testemunho sobre seu irmão, são Simeão, e provém da tradição palestinense a respeito da família de Jesus. Ora, ele afirma que Tiago e Simeão eram filhos de Cléofas, o qual era ele próprio irmão de são José. Os irmãos de Jesus, mencionados nos Evangelhos, seriam, portanto, primos-irmãos do divino Mestre, por seu pai putativo, são José. Os esforços de Zahn para tirar daí a conclusão de que esses irmãos de Jesus eram irmãos uterinos, filhos de José e de Maria, são em pura perda. Brüder und Vettern Jesu. Leipzig, 1900. O dado de Hegesipo, repousando sobre a tradição palestinense, já um pouco misturada de elementos lendários, explica melhor, ao que parece, o grau de parentesco de Jesus com seus irmãos do que a opinião puramente exegética, fundada em Joa., xix, 25, segundo a qual Maria de Cléofas é a irmã da santa Virgem. Conclui-se geralmente daí que o parentesco dos irmãos de Jesus derivava de sua mãe, de quem a santa Virgem era irmã. Além da dificuldade de explicar que duas irmãs tivessem o mesmo nome de Maria, sem outra distinção que o nome do esposo da segunda, é mais verossímil que ἡ ἀδελφὴ τῆς μητρὸς αὐτοῦ fosse, segundo o uso hebraico, sua cunhada, e não propriamente sua irmã, tendo as duas Marias desposado dois irmãos, José e Cléofas.

Os fragmentos de Hegesipo em Galland, P. G., t. v, col. 1317-1328; Grabe, Spicilegium SS. Patrum, Oxford, 1698-1700, t. ii, p. 203-214; Routh, Reliquiœ sacrœ, 2ª edit., Oxford, 1846-1848, t. i, p. 203-284; Th. Zahn, Brüder und Vettern Jesu, in Forschungen zur Geschichte des neutestamentlichen Kanons und der altkirchlichen Literatur, Leipzig, 1900, t. vi, p. 220-250; Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1693-1712, t. iii, p. 47-48, 610-611; ver no fim do t. i dessas Mémoires uma Dissertation sur ce que raconte Hégésippe de saint Jacques, évêque de Jérusalem, por Arnauld, com as observações de Tillemont; Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1858-1863, t. i, p. 473-475; Th. Jess, Hegesippus nach seiner kirchengeschichtl. Bedeutung, in Zeitschrift für die histor. Théologie, 1865, t. xxxv, p. 3-95; Hilgenfeld, Hegesippus und die Apostelgeschichte, in Zeitschrift für wissenschaftl. Théologie, 1878, t. xxi, p. 297-330; Th. Zahn, Der griechische Irenäus und der ganze Hegesippus im 16. Jahrhundert, in Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1878, t. ii, p. 288-291; Id., Der griechische Irenäus und der ganze Hegesippus im 16. und 17. Jahrhundert, in Theolog. Literaturblatt, 1893, p. 495-497; Ph. Mayer, Der griechische Irenäus und der ganze Hegesippus im 17. Jahrhundert, in Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1889, p. 155-158; De Boor, Neue Fragmente des Papias, Hegesippus und Pierius, Leipzig, 1888; Overbeck, Ueber die Anfänge der Kirchengeschichtschreibung, Basileia, 1892; Lavigerie, De Hegesippo, disquisitio historica, Paris, 1850; Dannreuther, Du témoignage d'Hégésippe sur l'Église chrétienne, Paris, 1878; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. i, p. 198-200; Dictionary of Christian biography, t. ii, p. 875-878; Kirchenlexikon, 2ª edit., t. v, col. 1584-1585; U. Chevalier, Répertoire, Bio-bibliographie, t. i, col. 2041; Realencyclopädie für protestantische Théologie und Kirche, Leipzig, 1899, t. vii, p. 531-535.

G. Bareille.

Autor original: G. Bareille

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