HÉGÉSIPPE (O PRETENSO)

HÉGÉSIPPE (O PRETENSO)

HÉGÉSIPPE (o pretenso). No fim do século I da era cristã, o historiador judeu Flávio Josefo havia composto em grego várias obras: uma em 20 livros sobre as antiguidades judaicas, história do povo judeu desde os tempos mais remotos até a guerra do ano 66, sob o título de Ἰουδαϊκὴ ἀρχαιολογία; outra, complemento da precedente, intitulada De vita sua, espécie de autobiografia que trata sobretudo da parte que ele tomara na guerra de 66-67 como comandante em chefe da Galileia; uma terceira em dois livros, verdadeira apologia do judaísmo contra Apião, citada sob o título de Πρὸς τοὺς Ἕλληνας ou de Περὶ τῆς τῶν Ἰουδαίων ἀρχαιότητος; e uma quarta em sete livros, Περὶ τοῦ Ἰουδαϊκοῦ πολέμου, que narra as guerras judaicas desde o tempo de Antíoco Epifânio até a ruína de Jerusalém. Todas essas obras acabaram por ser traduzidas para o latim. Desde o fim do século IV corria o boato de que São Jerônimo era o autor da tradução delas; mas São Jerônimo defendeu-se disso, alegando que não tinha nem o tempo livre nem a capacidade de traduzir essas obras sem lhes fazer perder a elegância nativa. Epist., lxxi, 5, ad Lucinium, P. L., t. xxii, col. 671.

No século VI, Cassiodoro († 570) relata que mandou traduzir por seus amigos, em 22 livros, as obras de Josefo, isto é, as Antiguidades e o Tratado contra Apião, e que já existia uma tradução latina dos sete livros do De bello judaico, atribuída por uns a São Jerônimo, por outros a Santo Ambrósio, por outros ainda a Rufino; boa prova, observava ele, dos dictionis eximiœ merita de tal tradução. De instit. div. litterarum, 17, P. L., t. lxx, col. 1133. Mas Cassiodoro não especifica se, neste último caso, se trata da tradução literal do De bello judaico geralmente atribuída a Rufino, ou da outra, de andamento muito mais livre, que leva o nome de Hégésippe; no entanto, o que ele diz do estilo faz pensar antes nesta última, que lembra a maneira de Salústio muito mais do que o estilo de Rufino. Rufino, aliás, segundo o testemunho de Genádio, De script, eccl., 17, P. L., t. lvii, col. 1070, nada traduziu de Josefo.

Existe, com efeito, uma obra latina, sob o título de De bello judaico ou De excidio urbis hierosolymitanœ, estreitamente aparentada com o Περὶ τοῦ Ἰουδαϊκοῦ πολέμου, de Josefo, que ela traduz sempre livremente, que por vezes abrevia ou que amplifica recorrendo a outras fontes, e cujos quatro primeiros livros correspondem de maneira bastante exata aos quatro primeiros livros e a uma parte do V do De bello judaico de Josefo, sendo o V e último um resumo dos dois últimos livros do mesmo Josefo. É obra de um bom latinista, como prova o estilo, e de um defensor da fé cristã, como prova sua linguagem relativa à morte do Salvador e à perseguição de seus discípulos pelos judeus, De bello jud., ii, 12, aos apóstolos São Pedro e São Paulo, iii, 2, e ao judaísmo, iv, 5, P. L., t. xv, col. 2056-2057, 2068-2070, 2115.

Esse autor leva em diversas edições o nome de Hégésippe ou de Égésippe, o qual, justamente em razão da perfeição de seu estilo, nada tem em comum com o Hégésippe do século II, e que parece não ser senão a corrupção do próprio nome de Josefo. O grego Ἰώσηπος, Ἰώσηππος, Ἰωσιηππος, Josepus, Joseppus, Josippus em latim, tornou-se facilmente Egesippus, Hegesippus, e sob essa forma esse nome não aparece antes do século VIII. Em um manuscrito dessa obra da biblioteca ambrosiana de Milão, que é do século VII-VIII, lê-se no fim do livro I: Josippi liber primus explicit; mas Josippi foi corrigido posteriormente para Egesippi. Cf. Mabillon, Museum italicum, Paris, 1687, t. i, p. 13. Outros manuscritos, em seguida, trazem Hegesippi, como também o nome de Santo Ambrósio. Mas a substituição de Egesippi por Joseppi não enganava os espíritos advertidos; testemunha-o esta passagem de uma carta do espanhol Álvaro: scito quia nihil tibi ex Egesippi posui verbis, sed ex Josippi vestri doctoris, onde se trata precisamente de uma citação tomada do pretenso Hégésippe. Cf. Traube, Rhein. Museum, 1884, t. xxxix, p. 477. De sorte que é preciso ver no nome de Hégésippe o nome desfigurado de Josefo.

Mas então quem pode ser o autor dessa tradução, que, segundo os critérios internos e externos, remonta ao fim do século IV? Será preciso ver nela um trabalho da juventude de Santo Ambrósio? A questão não parece decidida, responde Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. ii, p. 305, embora em nossos dias, com base nos manuscritos e em certas analogias de linguagem, se pronuncie em geral pela afirmativa. No século XVII, os beneditinos haviam riscado essa tradução da lista das obras de Santo Ambrósio; mas Gronovius, Vives e Valois a julgavam realmente do bispo de Milão; mais reservado, Tillemont, Mémoires, t. i, p. 541, achava que o estilo é demasiado fácil e fluente para ser de Santo Ambrósio. Galland, em todo caso, a exemplo de Mazochius, inseriu-a na sequência das obras de Santo Ambrósio, Bibliotheca veterum Patrum, Veneza, 1765-1788, t. vii, p. 653-711, e Migne fez o mesmo, P. L., t. xv, col. 1961-2224. Mais recentemente Fr. Weber e J. Cœsar, que se inclinam por sua atribuição a Santo Ambrósio, deram dela uma edição crítica, a melhor surgida até aqui, que serviu de base ao texto do pretenso Hégésippe na edição das obras de Santo Ambrósio por Ballerini, Milão, 1875-1883, t. vi, col. 1-276. E enquanto Vogel, De Hegesippo, qui dicitur, Josephi interprete, Erlangen, 1881; Ambrosius und der Uebersetzer des Josephus, em Zeitschrift für die österreich. Gymnasien, 1883, t. xxxiv, p. 241-249, combate a origem ambrosiana dessa tradução, Reifferscheid, em Sitzungsberichte der Wiener Akademie. Philos.-hist. Classe, 1867, t. lvi, p. 442, Rönsch, Die lexikalischen Eigentümlichkeiten der Latinität des sog. Hegesippus, em Romanische Forschungen, Erlangen, 1883, p. 256-321, e Ihm, Studia Ambrosiana, em Jahrbücher für class. Philologie, 1889, Suplemento, t. xvii, fasc. 1, p. 61-68, tentam defendê-la. Schürer, Geschichte des jüdischen Volkes, 3ª edição, Leipzig, 1901, t. i, p. 96, partilha o parecer de Vogel.

No prólogo do De bello judaico, o autor indica duas outras obras de sua composição: um resumo histórico do conteúdo dos quatro livros dos Reis, e um trabalho sobre os Macabeus. Referiu-se esta última obra aos livros bíblicos dos Macabeus. Dom Morin, loc. cit., p. 81-86, identifica-a com a Paixão latina dos Macabeus, que se conserva em umas vinte manuscritos e que dom de Bruyne vai publicar. A questão do autor não parece, pois, decidida, mas a obra continua sendo um documento precioso, obra de um cristão que, no fim do século IV, utilizou Josefo sem esquecer a defesa de sua fé. V. Ussani, que empreendeu a edição dessa tradução para o Corpus de Viena, pronunciou-se em favor de Santo Ambrósio, em Studi italiani di filologia classica, Florença, 1906, t. xiv, p. 245 sq.; O. Scholz, ao contrário, atribui-a ao judeu convertido Isaac (o Ambrosiaster?), Die Hegesippus-Ambrosius-Frage, em Kirchengeschichtliche Abhandlungen, Breslau, 1909, t. viii, p. 149-195; depois como dissertação doutoral, Breslau, 1913. Dom Morin rejeita absolutamente a atribuição a Santo Ambrósio, e pensa em Dexter, de quem fala São Jerônimo, De viris illust., 132, P. L., t. xxiii, col. 715. L'opuscule perdu du soi-disant Hégésippe sur les Machabées, na Revue bénédictine, 1914, p. 86-91.

A melhor edição do pretenso Hégésippe é a de Fr. Weber e de J. Cœsar: Hegesippus qui dicitur sive Egesippus, de bello judaico, ope codicis Cassellani recognitus, Marburgo, 1864; Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1693-1712, t. i, p. 541; Oudin, De scriptoribus ecclesiasticis, Leipzig, 1722, t. ii, col. 1026-1032; Fabricius, Bibliotheca lat. mediœ et infimœ œtatis, 1735, t. iii, p. 582-584; J. Cœsar, Observationes nonnullœ de Josepho latino, qui Hegesippus vocari solet, emendando, Marburgo, 1878; Klebs, Das lateinische Geschichtswerk über den jüdischen Krieg, em Festschrift zum fünfzig-jährigen Doctor-jubiläum Ludwig Friedländer, 1895, p. 210-241 (para ele, o autor do De bello judaico é um oriental); Schürer, Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, 3ª edição, Leipzig, 1901, t. i, p. 96-97; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. ii, p. 305-306; Geschichte der altkirchlichen Literatur, Friburgo em Brisgóvia, 1912, t. iii, p. 505-506; Smith e Wace, Dictionary of Christian biography, t. ii, p. 878; Kirchenlexikon, 2ª edição, t. v, col. 1585-1586.

G. Bareille.

Autor original: G. Bareille

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