GERTMAN Matias era originário de Turnhout, pequena cidade da Campine (Brabante), onde havia nascido, mais de um século antes, o famoso teólogo de Lovaina, João Driedo. Pertencia a uma antiga e nobre família. Nascido em 1614, fez brilhantes estudos na universidade de Douai; obteve ali o barrete de doutor em teologia, em 1640, depois de ter tido como professor o ilustre Sylvius. Recebeu uma cátedra primária de teologia em 1654 e provavelmente substituiu Valentim Bandour. Foi, durante quarenta anos, diretor do seminário do rei. Prepósito de São Pedro em Douai em 1658, depois de Santo Amato em 1670, foi ao mesmo tempo chanceler da universidade. A esses diversos empregos juntou o de censor de livros.
Esteve envolvido em dois assuntos muito importantes na luta da faculdade contra o jansenismo e o galicanismo. Em 1673, Adam Widenfeld, advogado de Colônia, que havia frequentado os jansenistas de Gand, de Lovaina e de Paris, publicou em Gand um opúsculo intitulado: Monita salutaria B. Virginis Mariœ ad cultores suos indiscretos. O autor punha na boca da Virgem Maria uma série de reproches que ela dirigia a seus devotos sobre a forma de suas orações. Esse opúsculo foi traduzido para o francês; uma dessas traduções era de dom Gerberon, beneditino da congregação de São Mauro, muito comprometido nas lutas jansenistas, que mais tarde teve de refugiar-se na Holanda e foi em seguida encerrado em Vincennes até a retratação de seus erros. Um sacerdote da diocese de Tournai pediu a seu bispo Gilberto de Choiseul, jansenista confesso, a permissão de fazer imprimir uma tradução da qual era autor. O prelado concedeu a autorização. Esse audacioso ataque contra a devoção à Santíssima Virgem causou uma impressão muito viva em Flandres e no Hainaut. Os jesuítas e os recoletos fizeram ao bispo de Tournai uma oposição muito viva. Segundo Foppens, Gertman publicou em Douai uma refutação peremptória do livro de Widenfeld sob este título: Jesu Christi monita maxime salutaria de cultu dilectissimœ matri Mariæ débite exhibendo (1674). Devemos dizer, contudo, que Paquot pensa que essa refutação teve por autor Henrique De Cerf, também professor de teologia em Douai († 1705).
Gertman tomou também parte ativa no protesto que o reitor e o conselho da universidade dirigiram a Luís XIV, em 9 de março de 1683, a propósito dos famosos artigos de 1682, cujo ensino o rei reclamava nas cátedras das faculdades. Os professores de teologia de então eram Tiago Randour, sobrinho de Valentim, Pedro Delalaing, Matias Gertman e Nicolau de la Verdure. Esses doutores não trataram da questão de fundo; dificilmente teriam possibilidade de ser ouvidos; mas, numa carta muito respeitosa na forma, muito firme e muito altiva no fundo, pleitearam a inoportunidade. Fizeram valer da melhor maneira as tradições de sua ilustre escola e do país, os interesses da religião em Flandres e seus temores pelo futuro de sua cara Alma mater. O sucesso não foi imediato. Luís XIV não quis, de início, dar ouvidos a essas queixas, por mais legítimas que fossem. Os mestres recusaram energicamente ensinar a Declaração. Sabe-se que, em 1693, o rei, vencido pela resistência dos soberanos pontífices e de seus núncios, voltou a melhores sentimentos numa carta dirigida ao papa Inocêncio XII. Avisou-o de que havia dado as ordens necessárias « para que as coisas contidas nesse edito, tocantes à Declaração feita pelo clero da França, a que as conjunturas passadas o haviam obrigado, não sejam observadas. »
Gertman havia morrido em 29 de novembro de 1683; não viu a vitória final da universidade de Douai. Foi sepultado na colegiada hoje destruída de Santo Amato. Uma esplêndida epitáfio, relatado por Foppens e por Paquot, recordava os principais fatos de sua carreira de professor e assinalava suas brilhantes qualidades. Por seu testamento, fundou uma bolsa de estudos de quase dois mil florins de renda em favor de seus parentes e, na falta deles, em favor dos jovens nascidos em Turnhout ou num raio de oito léguas dessa cidade. Legou também ao seminário sua rica biblioteca, com a condição de que permanecesse acessível aos doutores, professores, licenciados e estudantes da universidade. Gertman compôs vários tratados de teologia. Seu curso sobre a eucaristia, professado em 1643, encontra-se em manuscrito na biblioteca de Saint-Omer, n. 160.
Bouix, De papa, t. ii, p. 125; Foppens, Bibliotheca belgica (1739), t. n, p. 873; Séries doctorum Académies Duacensis, ms. da biblioteca de Borgonha em Bruxelas, 1709-; Mons. Hautcœur, na Revue des sciences ecclésiastiques, 1re série, t. m, p. 359; Paquot, Mémoires pour servir à l'histoire littéraire des dix-sept provinces des Pays-Bas, t. xvi, p. 291 sq. ; L. Salembier, Hommes et choses de Flandre, p. 256; Van der Meersch, Biographie nationale, publiée par l'Académie royale de Belgique, t. vii, p. 679.
L. Salembier.
Autor original: L. Salembier
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