GELÁSIO

GELÁSIO

GELÁSIO — GELÁSIO II (24 de janeiro de 1118). Já era de idade avançada e havia feito parte dos dezesseis cardeais que o imperador Henrique V levara à força de Roma com o papa precedente (fevereiro de 1111), quando extorquiu o direito das investiduras. Naquela época, Roma ainda estava nas mãos dos imperiais e Pascoal II só pudera voltar ao castelo Sant'Angelo, onde acabava de morrer. Estes, conduzidos por Cencio Frangipani, penetraram, de espada nua na mão, na igreja onde acabava de realizar-se a eleição e arrastaram Gelásio para uma torre vizinha ao arco de Tito, para dar a Henrique V, então ocupado no cerco de Verona, o tempo de voltar.

Mas outros nobres, uma parte do povo, o próprio prefeito, libertaram-no à força e conduziram-no ao palácio do Latrão, onde foi coroado no mesmo dia. Um mês depois, ainda não estava sagrado, quando se soube de repente (1º de março) da chegada do imperador. Imediatamente, Gelásio, com seus cardeais, fugiu para o Tibre e, de noite, embarcou para Gaeta, aonde chegou a 5 de março.

Henrique V esforçou-se por persuadi-lo a voltar para ser sagrado diante dele e ameaçou-o, caso não ratificasse o privilégio das investiduras outorgado por Pascoal II, de usar de seu direito imperial fazendo eleger outro pontífice. Não tendo ficado satisfeito com a resposta de Gelásio, mandou proceder, a 8 de março, por seus partidários, sob pretexto de que não se havia esperado sua confirmação, à eleição do cardeal Maurício Bourdin, arcebispo de Braga, de quem já havia recebido o diadema no ano anterior, e que tomou o nome de Gregório VIII.

Por seu lado, Gelásio fazia-se sagrar a 9 de março em Gaeta e, num sínodo em Cápua, excomungava o imperador e seu antipapa (7 de abril). A essa sentença, o imperador respondeu fazendo-se coroar de novo na basílica de São Pedro, por sua criatura, a 2 de junho. Mas pouco depois, teve de voltar à Alemanha, por causa de perturbações.

Gelásio, aproveitando-se de sua ausência e apesar da predominância de seu rival, tentou entrar em Roma, em segredo (5 de julho de 1118). Ali ficou alguns meses, mas, vendo-se ali exposto às violências dos Frangipani, resolveu deixar essa cidade e mesmo a Itália. A 2 de setembro, embarcou para Pisa, depois para Gênova, e por fim para Marselha, aonde chegou por volta do fim de outubro.

À sua chegada, os bispos e os abades da província, senhores e uma grande multidão vieram prestar-lhe suas homenagens. O rei da França, Luís VI, enviou-lhe o abade de Saint-Denis, Suger, com ricos presentes. O encontro teve lugar em Maguelone. Atravessou Montpellier, Avinhão, Viena, Lyon, honrado pelos povos como se tivessem visto são Pedro. Devia ter uma entrevista com Luís, o Gordo, em Vézelay; mas, perto de Mâcon, sentindo-se doente, mandou-se levar a Cluny, onde morreu a 29 de janeiro de 1119, de uma pleurisia que se juntou à gota de que sofria. Foi sepultado na igreja de Cluny entre a cruz e o altar, e seu túmulo ainda se via no século XVII. Havia indicado para seu sucessor, primeiro, Conon, bispo de Palestrina, depois, diante da recusa deste, Guido de Borgonha, que foi Calisto II.

Gelásio, com sua fuga, havia posto o papado ao abrigo dos atentados do imperador e lhe havia ensinado a não se apoiar sobre a França contra ele. Havia também atado por aí uma aliança íntima entre a Santa Sé e a filha primogênita da Igreja. Por toda parte em sua passagem, havia consagrado lugares santos, concedido ou confirmado privilégios às igrejas, aos capítulos e aos mosteiros, especialmente ao de Cluny. Havia enviado núncios à Espanha e à Alemanha; neste último país, Conon, bispo de Palestrina, havia lançado anátema sobre Henrique V, em Colônia (28 de maio) e em Fritzlar (22 de julho), e os príncipes comovidos falavam de proclamar a deposição do imperador, numa dieta em Wurtzburgo. Gelásio havia celebrado um concílio em Viena em janeiro de 1119, cujas atas estão perdidas, e havia indicado outro para o decorrer do ano, que foi o de Reims, realizado por Calisto II, no mês de outubro seguinte: nele deviam ser tratados os assuntos da Igreja com o império e da reforma. Gelásio não teve ocasião de escrever cartas dogmáticas.

Jaffé-Lœvenfeld, Regesta pontificum romanorum, t. i, p. 775-780; t. ii, p. 714; Lœvenfeld, Epistolœ pontificum romanorum ineditœ, Leipzig, 1882, p. 79-81; Duchesne, Liber pontificalis, t. ii, p. 301; P. L., t. clxiii, col. 473-514; Muratori, Rerum italicarum scriptores, t. iii, p. 367 sq.; Pandulphe, Vita Gelasii, t. v, p. 91 sq.; t. vi, p. 55 sq.; Pertz, Annales romanorum scriptorum, t. v, p. 178; Watterich, Pontificum romanorum vitœ, Leipzig, 1862, t. ii, p. 91-114; Bouquet, Recueil des historiens de la France, t. xv, p. 213-218, 223-228; Ceillier, Histoire des auteurs ecclésiastiques, 2ª edição, Paris, 1863, t. xiv b, p. 1089-1091; Pandulphe, S. Gelasii papœ vita, Roma, 1638; Jungmann, Dissertationes selectœ in historiam ecclesiasticam, Ratisbona, 1884, p. 383-384.

A. Clerval.

Autor original: P. Godet

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