FRANÇA — A MULTIPLICAÇÃO DOS LUGARES DE CULTO DESDE A SEPARAÇÃO

FRANÇA — A multiplicação dos lugares de culto desde a separação

II. — A multiplicação dos lugares de culto desde a separação. Dessa liberdade, que assim desabrocha em soberbos impulsos de obediência, que uso faz ela em favor das almas? Aproxima-se delas, com uma alegria conquistadora que merece ser observada e admirada. A Paris do regime concordatário carecia de igrejas como Notre-Dame: via-se uma paróquia como Clignancourt reunir 121 000 almas; contavam-se 96 000 no território de Sainte-Marguerite, 90 000 no de Saint-Ambroise, 83 000 no de Saint-Pierre de Montrouge. Em 38 paróquias de Paris, a proporção entre o número de padres e o número de habitantes era notoriamente insuficiente, pois havia apenas um padre para 5 000 fiéis. Por isso os observadores assinalavam a ausência quase completa de prática religiosa nos subúrbios de Paris; e um padre desses subúrbios, em 1899, convidando os católicos a ocuparem-se daquela « China que cerca Paris e que conta perto de 2 milhões de habitantes », concluía seu apelo declarando: Seria faltar à fé dizer: Não há nada a fazer! Há tudo a fazer.

» Mas esbarrava-se, com demasiada frequência, em ministérios que aplicavam e manejavam a concordata num sentido hostil aos interesses do apostolado religioso: onde muitas vezes havia tudo a fazer, era muito difícil começar a fazer alguma coisa; à ereção de uma capela, e com maior razão de uma paróquia, opunham-se dificuldades administrativas frequentemente invencíveis.

« Não cessamos de repeti-lo, proclamava em 1905 o cardeal Richard, a diocese de Paris é um país de missões. Damos para a obra da Propagação da Fé e, de modo geral, para a conversão dos infiéis, e temos razão, pois não há nada maior aos olhos de Deus do que a salvação das almas. Mas não têm alma, esses operários dos subúrbios de Paris? » Nessa mesma data, o Sr. abade Raffin ilustrava a situação da diocese elaborando a estatística dos enterros religiosos e civis de 1883 a 1903. Constatava que durante esses vinte anos o número de enterros civis se elevara, em média, a 10 000 por ano (sobre 53 000 parisienses que morrem anualmente). Observava que era sobretudo entre os pobres que os enterros civis eram numerosos: por exemplo, em 1888, nos funerais mais dispendiosos, o número de funerais puramente civis não passava de 4 em 100, ao passo que, ao contrário, no meio operário atingia uma porcentagem bem mais elevada.

Desde a lei de separação, transcorreram sete anos, e alguns números, muito precisos, permitem medir a nova força de irradiação adquirida, em pouco tempo, somente em Paris. Há, na Paris de 1912, nove paróquias a mais do que no momento da separação, reunindo cerca de 250 000 habitantes. Eis um número imponente; equivale quase à população inteira de Bordéus. Há, no subúrbio de 1912, quinze paróquias a mais do que no momento da separação; reúnem 215 000 almas. Enfim, tanto em Paris quanto no subúrbio, abriram-se 24 capelas de socorro, para atender às necessidades religiosas de 166 500 almas.

Somemos esses números; constataremos que mais de 630 000 almas, condenadas há sete anos, pelo afastamento dos edifícios do culto, a uma penúria religiosa quase incurável, viram, em pouquíssimo tempo, Deus aproximar-se delas, vir fixar-se junto delas. 630 000 almas é mais do que há na cidade de Marselha. Representemos a aglomeração marselhesa tal como é; suponhamos por um instante que, por efeito das circunstâncias, toda proximidade de Deus ali faltasse: ficar-se-ia dolorosamente surpreso com semelhante lacuna. Bastaram sete anos ao cardeal Amette, primeiro coadjutor, depois arcebispo de Paris, para preenchê-la. A tarefa não está concluída: umas quarenta outras circunscrições paroquiais já estão desde agora traçadas sobre a superfície da vasta diocese; e o arcebispado conta que dentro de cinco anos, dez no máximo, essas quarenta outras paróquias estarão em funcionamento.

Rumo a essas igrejas, rumo a essas modestas capelas, que parecem assim brotar do solo, veem-se, pouco a pouco, os fiéis chegarem. Os números, a esse respeito ainda, são eloquentes, se pensarmos que esses números catalogam almas humanas. Há vinte anos, em todo um subúrbio parisiense onde hoje se ergue a igreja Notre-Dame-du-Rosaire, havia uma família, uma família apenas, que ia aos distantes ofícios de uma igreja paroquial situada a dois quilômetros. Hoje, nesse mesmo território, distribuem-se, no período pascal, 4 000 hóstias. Em outra aglomeração do subúrbio, viu-se, em quatro anos, graças à ereção de uma capela de socorro, quintuplicar o número dos agonizantes que recebiam o padre, e sextuplicar o número dos que faziam a primeira comunhão.

E sem dúvida esses agonizantes que voltam a saudar na Igreja uma escola de boa morte, esses que fazem a primeira comunhão e vêm à Igreja como a uma escola de boa vida, ainda não passam de minoria, no meio dessas vastas multidões tornadas pagãs que circunstâncias infelizes haviam afastado do apostolado católico. Mas uma minoria ativa, fervorosa, animada do espírito de Deus, já é muito para mudar um povo; e em certa paróquia nova, em Paris, já se veem despertar as vocações sacerdotais.

Essas multidões ignorantes, que veem o sacerdote vir até elas, familiarizam-se pouco a pouco com ele; a missa ainda não as atrai, as vésperas tampouco; mas se o sacerdote passa a exibir, em sua igreja, algumas projeções luminosas destinadas a revelar aos espectadores a história de Cristo, essas multidões acorrem a essa cerimônia de novo gênero, que chamam, com uma expressão bastante pitoresca, a missa do cinema, e pela primeira vez ressoa a seus ouvidos o nome de Jesus.

Misérias semelhantes existiam e existem em muitas grandes cidades de província: o episcopado, um pouco por toda parte, pôs-se à obra para remediá-las. E como a Igreja, repetimo-lo, não tem existência legal, como não poderia ser proprietária nem mesmo dos edifícios que constrói, foram encontradas combinações em virtude das quais Deus, nesses edifícios, é pura e simplesmente um locatário. A propriedade, geralmente, pertence a acionistas; na diocese de Paris, esses acionistas estão agrupados em duas sociedades anônimas que prestaram à Igreja o precioso serviço de adquirir e preparar terrenos adequados, e que reclamam dela, a título de aluguel, pelos fundos que investiram nessas empresas, um juro de 5 por cento. Eis os subterfúgios a que deve recorrer a Igreja da França, sob o regime atual.

Autor original: G. Goyau

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