FLORENÇA (CONCÍLIO DE)

FLORENÇA (CONCÍLIO DE)

Ferrara (8 de janeiro — 1438 a 10 de janeiro de 1439).

I. 1° Causas do concílio. Enquanto em Basileia o concílio, por um lado entravado pelas legítimas dificuldades que o papa não cessava de lhe criar e, por outro, impelido pelo espírito dos doutores parisienses, se lançava cada vez mais por vias cismáticas e revolucionárias, deixava-se invadir pelo elemento democrático que o arrastava a cometer falta sobre falta e, por isso, desde a sua penosa abertura, em 23 de julho de 1431, parecia como que ferido de esterilidade, Eugênio IV, por sua vez, apesar das inúmeras dificuldades políticas e religiosas contra as quais se debatia, não deixava de agir.

Os Padres de Basileia tinham sobretudo como objetivos de suas tumultuosas sessões a reforma da Igreja e a heresia hussita. Sem, decerto, fechar os ouvidos às propostas que os gregos lhes faziam em vista da união das Igrejas, não seguiam, contudo, este assunto com particular atenção, esqueciam-se de enviar instruções a seus embaixadores em Constantinopla e, depois, de modo demasiado visível, procuravam atrair os gregos para si, menos para encontrar um terreno de entendimento em favor da união desejada do que para serem, por aí, mais fortes na sua luta contra o papa. Foi, ao contrário, o grande mérito de Eugênio IV apreender com clareza a situação do momento e buscar, antes mesmo do seu próprio, o interesse da Igreja. Foi também a causa do seu sucesso religioso, que foi, ademais, a de seu triunfo pessoal.

Surgira, com efeito, entre 1431 e 1437, ao lado da questão que sempre apaixonava os espíritos: a reforma da Igreja, uma nova questão não menos importante, a dos gregos. Sob a ameaça dos turcos, que já acampavam às portas da capital, os bizantinos compreenderam que só tinham chance de vencer se se voltassem mais uma vez para Roma e lhe pedissem socorro e dinheiro. A união de sua Igreja com a Igreja latina era a única condição de um entendimento duradouro e fecundo. E é por isso que, nas classes elevadas, existia, nessa data, entre os gregos, toda uma corrente favorável a uma aproximação.

Se para os imperadores era puro negócio político, se, incontestavelmente, muitos, na Igreja e no Estado, eram francamente hostis a todo projeto de união com os latinos e, no fundo do coração, não estavam longe de preferir o « turbante à tiara », havia, no entanto, espíritos elevados, patriotas sinceros que achavam bastante insignificantes as razões que separavam as duas Igrejas e soberanamente fortes as razões que militavam em favor da união. Até nos mosteiros do Atos contavam-se partidários decididos dessa nova orientação, que aplaudiam os esforços empreendidos para salvar, por essa política, o império e sua civilização.

Em 1433, as negociações que se arrastavam desde 1417 foram ativamente retomadas e contribuíram não pouco para lançar no seio do concílio de Basileia a mais completa desunião. Cada um se pôs a enviar e a receber embaixadores: os Padres, o papa e o imperador. Isidoro de Kiev chegou a Basileia em julho de 1434, enquanto Eugênio IV despachava a Constantinopla Cristóvão Garatoni. Muito habilmente, o sumo pontífice ofereceu-se para realizar o concílio na própria Santa Sofia e pediu que se convidasse a essas solenes assembleias o imperador de Trebizonda. Essa embaixada, admiravelmente recebida, causou excelente impressão no imperador e voltou a Florença, onde o papa fora forçado pelos acontecimentos romanos a refugiar-se, acompanhada de Jorge e de Emanuel Dishypatos.

As negociações teriam sem dúvida chegado a bom termo, não fossem os Padres de Basileia, que, a nenhum preço, queriam Constantinopla como lugar de reunião e intrigavam em favor de Basileia, de Avinhão ou de uma cidade qualquer da Saboia como sede do futuro concílio. Nesta questão, os interesses de Eugênio IV e de João Paleólogo eram idênticos. Nem um nem outro queriam esses países excêntricos. Reclamavam ao menos uma cidade marítima e na Itália. Enquanto isso, em Basileia, no decorrer das XXIV e XXV sessões, travavam-se ardentes lutas sobre a questão de saber onde teria lugar o concílio dos gregos. A maioria manteve-se firme e conservou suas decisões anteriores; mas uma minoria, logo sustentada e aprovada pelo papa, destacou-se e aderiu ao desejo expresso por Eugênio IV e por João. Essas lutas, naturalmente, só fizeram aproximar cada vez mais o papa e o imperador. Por fim, Ferrara foi a cidade designada por Eugênio IV e aceita pelos gregos.

Foi então que, diante das ameaças do concílio, que ousou citar à sua barra o sumo pontífice, este, sentindo-se cada vez mais forte, seguro de uma minoria em Basileia e do apoio benévolo do marquês de Ferrara, publicou em 18 de setembro de 1437 a bula Doctoris gentium, na qual advertia o concílio contra suas audaciosas doutrinas e ameaçava transferir a assembleia para Ferrara. Isso não era, aliás, da parte do papa, senão uma medida de deferência e uma manifestação platônica para com o concílio, pois já nessa data o acordo estava feito entre Eugênio IV e o imperador, e os navios pontifícios faziam-se à vela rumo a Bizâncio desde o mês de julho de 1437, para buscar ao mesmo tempo soldados e dinheiro. Quando a bula de 18 de setembro foi conhecida em Basileia, os furores contra Eugênio IV redobraram realmente.

A bula foi declarada nula e o papa foi ameaçado de suspensão e de deposição, Seulement déni plUSil On des leurs, et des plus bandonner. Cesarini, Nicolau de tinrent, desde 1º de outubro de 1437, de assistir ao concílio e, pouco depois, em 20 de dezembro, deixaram a cidade. Durante esse tempo, depois de terem assinado com os embaixadores do papa um tratado que regulava todos os pontos da viagem e da estada na Europa, os gregos embarcaram no mês de novembro para Veneza. Foi então que, em 1º de janeiro de 1438, Eugênio IV pronunciou definitivamente a transferência do concílio para Ferrara e designou como dia de abertura o 8 de janeiro, pela bula Pridem ex — justis.

2º Personagens presentes. Quando, em 1º de janeiro de 1438, o papa lançou as cartas de convocação para o concílio de Ferrara, encontrava-se em Bolonha. Já no dia seguinte, 2 de janeiro, enviou a Ferrara Nicolau Albergati, bispo de Bolonha, cardeal de Santa Cruz de Jerusalém, como legado, para abrir e presidir o sínodo enquanto aguardava a sua chegada e a dos gregos. Ele próprio, aliás, não tardou a chegar. Em 24 de janeiro, estava em Ferrara e imediatamente pôs-se à obra para preparar as sessões. Logo, de diversos pontos, sobretudo da Itália — pois a França e a Alemanha se abstiveram — bispos, abades, monges, sacerdotes e leigos afluíram.

Em 9 de janeiro, o cardeal Cesarini partiu de Basileia e, pouco tempo depois, fez por sua vez a sua entrada no concílio, vindo diretamente de Basileia, de onde trazia, com as notícias mais deploráveis sobre os Padres revoltados, o apoio de sua alta autoridade científica e moral. Enfim, em 8 de fevereiro, os gregos punham os pés em Veneza e logo, depois da solene recepção do doge, dirigiram-se a Ferrara, onde o imperador chegou em 4 de março e o patriarca em 7. Jamais o mundo vira semelhante e mais magnífica assembleia numa cidade do Ocidente. É preciso ter contemplado os maravilhosos afrescos de Benozzo Gozzoli no palácio Riccardi, em Florença, para se dar conta da impressão que essas assembleias da cristandade latina e grega causaram nos contemporâneos.

Os latinos estavam representados pelo papa Eugênio IV, cercado de uma multidão de bispos, sacerdotes e leigos, entre os quais havia alguns célebres e que tomaram parte ativa no concílio.

Era, antes de tudo, o cardeal Juliano Cesarini, cuja situação era incomparável por causa de seu passado, de seu saber e dos cargos que ocupara. Com apenas quarenta e nove anos, aproximadamente, era cardeal desde 1426. Sucessivamente, até que fosse morrer em Varna, em 10 de novembro de 1444, havia sido enviado por Martinho V a pregar a cruzada na Polônia, na Hungria e na Boêmia, depois por Eugênio IV como legado à Alemanha para lutar contra os hussitas. Depois do doloroso e retumbante fracasso das tropas pontifícias na batalha de Taus, fora presidir o concílio de Basileia e empregara os mais nobres esforços para conseguir entre o sumo pontífice e os Padres uma aproximação necessária. Com todas as suas forças, com toda a sua ciência e todo o seu coração, trabalhara para evitar o cisma, quando foi obrigado a deixar Basileia por Ferrara. Ali, como em Florença, esteve constantemente na labuta e não poupou nem seu tempo, nem sua ciência, nem seu dinheiro para realizar obra útil, pacífica e fecunda.

A seu lado, Albergati, cardeal de Santa Cruz, não tinha situação menor. Esse cartuxo era já um ancião de sessenta e três anos, cujo passado não era sem glória e cuja santidade era tão reputada que foi beatificado; havia outrora cumprido várias missões diplomáticas na França, na Inglaterra, na Itália e, em 1433, fora nomeado legado presidente do concílio de Basileia. Quando Eugênio IV o escolheu como presidente do concílio, acabava de obter um importante triunfo diplomático reconciliando Carlos VII e o duque da Borgonha. Ver Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques, t. col. 198

Os outros cardeais latinos não tomaram nenhuma parte ativa nas deliberações. Limitaram-se a assistir o papa e a assinar os protocolos. Eram o velho Branda Castiglione, cardeal de Placência, de oitenta e oito anos; o sobrinho de Eugênio IV, Francisco Condolmario, cardeal de São Clemente, primeiro vice-camerlengo, depois cardeal, camerlengo da santa Igreja; Angelotto de' Foschi, bispo de Anagni, depois de Cava, cardeal de São Marcos; Giordano Orsini, cardeal-bispo da Sabina; Próspero Colonna, cardeal de São Jorge in Velabro, sobrinho de Martinho V; Antônio Correr, cardeal de Bolonha, depois de Porto e por fim de Óstia, amigo de juventude do papa.

Mas, ao lado deles, alguns personagens de segunda ordem desempenharam um papel importante. Foi Ambrósio Traversari, amigo de Eugênio IV, geral dos camaldulenses, que foi, em nome do papa, saudar os gregos em Veneza; João de Ragusa ou de Montenegro, provincial dos dominicanos da Lombardia; João Caffarelli, bispo de Forli; Nicolau Sagundino, de Negroponte, secretário ducal em Veneza, célebre poliglota que foi o intérprete habitual das deliberações; enfim e sobretudo, André de Constantinopla, arcebispo de Rodes, e João de Torquemada.

O primeiro, dominicano, mestre do sacro palácio, recém-feito arcebispo, fora um dos núncios enviados por Eugênio IV, logo após a afixação dos cartazes em Roma, em 6 de junho de 1432, para levar ao concílio de Basileia as propostas do papa. Desde essa época, mostrara-se ardente partidário da união grega e todo dedicado à reforma da Igreja.

Teólogo de grande renome, versado no conhecimento dos Padres gregos e latinos, ia ser uma das luzes do concílio e um dos ardentes defensores dos latinos.

Quanto ao dominicano espanhol João de Torquemada, é suficientemente conhecido para que não tenhamos de insistir sobre sua pessoa. Nascido em Valladolid em 1388, havia sido embaixador do rei de Castela no concílio de Basileia. Tornado mestre do sacro palácio, foi, por ocasião da transferência do concílio para Ferrara, acreditado junto ao mesmo rei. Em 1439, tornou-se cardeal. Entre os leigos, o nome de André de Santa Croce, advogado do consistório apostólico, permaneceu conhecido graças à história do concílio, a que assistiu pessoalmente e que narrou sob a forma de um diálogo com um amigo seu.

Do lado dos gregos, a assembleia era ainda mais magnífica. Enquanto nenhum soberano europeu tinha assento ao lado de Eugênio IV, o imperador estava ali com seu filho Demétrio. Infelizmente, entre todos esses representantes da Igreja bizantina, as dissensões eram profundas. Uns queriam a união, outros a rejeitavam antes de qualquer discussão; uns vinham à Itália por motivos puramente políticos, alguns por convicção, outros forçados pelo poder supremo e atraídos somente pela esperança de um ganho pecuniário. João VIII Paleólogo, que reinava desde 1423, era inteiramente devotado à união, desde que o Ocidente lhe oferecesse os socorros de que necessitava. Sabendo por experiência que as discussões teológicas não trariam nenhum resultado, procurou por muito tempo esquivar-se da luta. Teria querido que a união fosse votada em bloco, sem exame teológico prévio, e partir em seguida o mais depressa possível para Bizâncio.

Seu filho Demétrio, ao contrário, era violentamente antiunionista; aliás, por outro lado, pouco inteligente e muito ambicioso; sua conduta não deixou de encorajar os partidários da oposição à união e, certamente, sua política religiosa teve, ao contrário da de seu pai, os mais funestos resultados. Tanto em Ferrara como em Florença, manteve-se por cálculo à margem de todas as discussões religiosas, e foi somente em seu retorno a Constantinopla que se declarou chefe de um partido político e religioso, no fundo inteiramente devotado ao turco.

Era uma bela figura a do velho patriarca José II. Desde 1416 no trono de Bizâncio, sempre desejara a união e trabalhara constantemente para realizá-la. Sem dúvida, talvez houvesse nele uma segunda intenção política, e essa intenção era a esperança de que a união libertaria um pouco a Igreja grega da coerção imperial; mas isso não era para ele senão um argumento secundário. Parece bem que quis a união por motivos antes de tudo religiosos. Quando se pôs a caminho, José já estava muito doente. Pôde pressentir que não voltaria para morrer em Bizâncio. A viagem, com efeito, acabou com ele. Morreu em Florença em 1439.

As duas grandes figuras gregas do concílio são, certamente, do lado unionista Bessarion, do lado antiunionista Marcos de Éfeso. Nascido por volta de 1395, arcebispo de Niceia, amigo pessoal do imperador, um dos mais sábios teólogos de seu tempo, Bessarion foi, durante todo o concílio, o grande defensor da união como o grande doutor de sua Igreja. Nesse intelectual, a união era antes de tudo questão religiosa e convicção raciocinada. Assim, quando assinou o ato de união, conformou a ele praticamente sua conduta. Obrigado, por causa de sua fé, a abandonar o Oriente, veio residir na Itália e morreu cardeal. Ver II, t. col. 801.

Marcos Eugênico, metropolita de Éfeso, monge como Bessarion, não parece ter tido a grande alma de seu ilustre contraditor. Já antes do concílio sempre se mostrara muito hostil aos latinos. Assim, só veio à Itália por coação e muito decidido a lutar com todo o seu poder contra a união. Com um ardor e uma atividade extraordinários, tomou a chefia do movimento de oposição e foi o único bispo que se recusou a assinar o decreto de união. Ele também era grande teólogo e excelente canonista. O historiador Ducas o chama de « uma regra e uma medida inamovível na ciência e nos decretos do concílio. » Muito popular em Bizâncio, tornou-se, depois do concílio, o centro de toda a agitação anticonciliar, foi encerrado na prisão por ordem do imperador e morreu por volta de 1443, anatematizando os unionistas, « transgressores das leis dos antepassados, gente sumamente celerada, digna da morte eterna. »

Entre os outros membros da Igreja grega que tomaram parte ativa no concílio, é preciso citar, depois de Bessarion e de Marcos de Éfeso, um sacerdote de talento, secretário do imperador e grande-custódio de Santa Sofia, Teodoro Xantopulo; Balsamon; Doroteu, arcebispo de Mitilene, que nos deixou uma história do concílio escrita no sentido unionista; Antônio, arcebispo de Heracleia, antiunionista; Dositeu, bispo de Monembásia; Jorge Escolário, então simples leigo, mas já amigo e discípulo de Marcos de Éfeso, de quem mais tarde será o herdeiro e continuador. Em Florença, assinou o decreto de união, mas é preciso ler os dois discursos que pronunciou, obra-prima de oportunismo, para se dar conta de que a aceitação por Escolário do fato consumado não era, para ele como para muitos outros, senão questão de um momento, simples concessão ao poder para obter dinheiro e voltar para casa.

Enfim, dois unionistas de grande mérito têm direito a uma menção especial: são o futuro patriarca de Constantinopla, então protosincelo de José, Gregório Mammas, e o famoso Isidoro de Kiev. Gregório estava bem colocado para conhecer os dois mundos aos quais se dirigia. Nascido na Calábria, teria aprendido desde cedo, naquela terra greco-latina, a compreender a Igreja romana e os benefícios da união, e é bem provável que, durante os longos anos que passou em seu mosteiro, tenha sido tendo em vista a união sonhada que estudou os Padres gregos e latinos. Em todo caso, seguiu o partido de Bessarion e de Isidoro da Rússia e morreu na fé romana, em Roma, em 1459, patriarca de Constantinopla desde 1443.

Quanto a Isidoro da Rússia ou de Kiev, foi elevado pelo imperador à sé de Kiev para atrair a Rússia ao concílio e à união. João VIII já o havia enviado como embaixador a Basileia, e foi com o mesmo fim que o enviou a Moscou. Como Bessarion, era um humanista; além disso, homem de letras, era um homem de ação. Durante todo o concílio, foi o intermediário constante entre o papa e o imperador; foi também, entre os gregos, um dos artífices mais hábeis da reconciliação. Depois do retorno destes a Bizâncio, tornou-se conselheiro habitual do imperador, o chefe do partido oposto a Marcos de Éfeso e o grande promotor da união que, graças a ele e por ele, foi enfim solenemente proclamada em Santa Sofia em 1452. Foi morrer em Roma depois de ter defendido heroicamente, em 30 de maio de 1453, a ponta do Serralho.

3.º Questões tratadas. Pela bula de 2 de janeiro de 1438, Eugênio IV ordenava ao cardeal Albergati que fosse a Ferrara para presidir o concílio, que teria de ocupar-se de três coisas: a união, a reforma da Igreja e o restabelecimento da paz entre os povos cristãos. Eram os três pontos já submetidos ao concílio de Basileia. Na realidade, em Ferrara só se tratou do primeiro. Conforme o papa ordenara, o concílio abriu-se, em 8 de janeiro de 1438, por uma cerimônia religiosa, e a I sessão teve lugar no dia 10 do mesmo mês. O período de Ferrara devia contar dezesseis sessões. Apesar dessa primeira abertura solene, pode-se dizer, contudo, que o concílio só começou verdadeiramente com a chegada dos gregos e as cerimônias que tiveram lugar nessa ocasião, em 9 de abril de 1438. Durante os três primeiros meses do ano, os Padres se ocuparam apenas de preparar o trabalho do concílio e de regular certos assuntos de procedimento. No dia 10 de janeiro, leu-se o decreto de transferência do sínodo de Basileia para Ferrara, declarou-se nulo tudo o que os Padres pudessem fazer, salvo na questão hussita, e declarou-se, enfim, que todas as penas fulminadas contra os Padres de Ferrara pelos de Basileia eram e seriam declaradas nulas, sem valor legal.

Foi nessas circunstâncias que, em 24 de janeiro, no mesmo momento em que entrava em Ferrara, Eugênio IV foi suspenso pela facção de Basileia na XXXI sessão. A luva estava assim lançada pelos bispos cismáticos; era, naquela hora, sem consequência alguma. Nos dias 8 e 10 de janeiro, o papa pôde, sem se preocupar demais com o que se fazia em Basileia, realizar duas congregações para regular as questões de precedência e o modo de deliberação. Decidiu-se repartir todos os membros do sínodo em três classes (status): os cardeais, os arcebispos, abades e prelados, os doutores e demais teólogos. Para que uma decisão fosse válida, devia recolher os dois terços dos votos de cada uma.

Enfim, em 15 de fevereiro, realizou-se, sob a própria presidência do papa, a II sessão oficial, que contou com doze bispos. Os Padres de Basileia foram excomungados, privados de seus benefícios e inabilitados para adquirir outros. Os magistrados da cidade de Basileia seriam postos em interdito, sob a mesma pena, se, no prazo de trinta dias, não tivessem dissolvido o concílio e mandado os Padres de volta para casa. Era proibido a quem quer que fosse ir a Basileia ou enviar socorros aos revoltosos. Estes, submetendo-se, poderiam obter seu perdão.

Foi então que os gregos chegaram a Veneza. Segundo Syropulos, grande dignitário da Igreja grega, que já estava então inteiramente ganho para Marcos de Éfeso, haveria, entre os orientais, graves dissensões, não somente a respeito da oportunidade da união propriamente dita, mas mesmo quanto à escolha da cidade do concílio. Sobre este último ponto, a informação de Syropulos não parece exata, se é verdade que a questão de Ferrara havia sido resolvida antes da partida dos gregos e aceita de comum acordo. Infelizmente, as discussões versavam sobre o próprio projeto que se ia realizar, e aí estava a grave dificuldade. Pode-se dizer que, antes de terem aberto a discussão, cada um havia tomado posição num sentido ou no outro, e toda a tática dos antiunionistas consistirá doravante em fazer obstrução.

Essa manobra se mostrou primeiro na questão protocolar. Se a chegada do imperador, em 4 de março, transcorreu sem incidente, o mesmo não ocorreu com a do patriarca, no dia 7. Por mais unionista que fosse José, não queria prestar-se, para si e para o alto clero, ao beijo da mula. Decidiu-se, pois, que ele beijaria a face do papa, os demais bispos a mão, e que o resto dos eclesiásticos o saudaria de longe. Era provavelmente, da parte do patriarca, uma concessão ao seu séquito. Regulado esse ponto, surgiram outras dificuldades. E antes de tudo, o dinheiro.

O papa havia enviado somas importantes a Veneza. Foram necessárias novas somas para satisfazer os gregos. Não apenas foram alojados e alimentados, mas exigiram dinheiro. Por fim, deram-lhes algum. Depois disso, o imperador pediu que os príncipes do Ocidente assistissem ao concílio. Isso era, na situação política do momento, pura impossibilidade. Contudo, para contentá-lo, Eugênio IV convocou os príncipes temporais, por cartas e pelo envio de legados. Enfim, foi preciso resolver a questão cerimonial e a ordem das precedências, o que não foi coisa fácil. Após longas negociações, decidiu-se que o concílio se realizaria na catedral de São Jorge. Os latinos teriam o lado do evangelho, os gregos o lado da epístola. O imperador teria querido ter precedência sobre o papa, o que lhe foi recusado; mas estabeleceu-se para ele um assento um pouco mais baixo que o do papa, do lado dos gregos. Abaixo de seu trono colocou-se o do déspota Demétrio, depois o assento do patriarca, em tudo semelhante ao de Eugênio IV, mas um pouco menos elevado; enfim, mais adiante, os assentos dos metropolitas, dos bispos, etc. Do lado latino, a disposição era em tudo semelhante.

O papa, primitivamente, teria querido sentar-se sozinho e no meio dos dois grupos. Por conciliação, deixou transportar seu trono para o lado dos latinos, mas exigiu que fosse mais alto que todos os outros. Abaixo do trono pontifício, à mesma altura do de João VIII, colocou-se o assento do imperador do Ocidente, que ficou vazio, tendo Sigismundo morrido em dezembro anterior; depois, mais abaixo e por ordem, os assentos dos cardeais, dos arcebispos, dos bispos.

Após essas laboriosas negociações, o concílio abriu-se em 9 de abril, sob a presidência do papa e na presença de todo o clero grego e latino. Somente faltava a essa cerimônia o patriarca José, já muito doente. Mas ele mandou ler uma declaração pela qual reconhecia o concílio. O papa, de seu lado, mandou dar leitura da bula, em grego e em latim, anunciando a chegada dos gregos e a celebração do concílio.

Após essa pomposa cerimônia, as coisas ficaram por aí. Até 6 de outubro, os gregos não queriam começar nada antes da chegada dos príncipes temporais, que não davam nenhum sinal de vida, nem antes da chegada dos Padres de Basileia. Era como dizer que se buscavam todos os meios de temporizar. Enquanto o imperador passava o tempo na caça, o cardeal Cesarini procurava aproximar gregos e latinos oferecendo-lhes jantares. Eugênio IV impacientava-se.

Por fim, depois de longos adiamentos, chegou-se a um acordo para nomear uma comissão meio grega, meio latina, na qual se trataria de discutir os pontos controvertidos. A saber: a processão do Espírito Santo, os ázimos, o purgatório, a primazia do papa. Somente dois comissários de cada lado deviam tomar a palavra nessas reuniões; os outros deviam simplesmente assistir às discussões. Os gregos escolheram para representá-los Bessarion e Marcos de Éfeso; os latinos, o cardeal Juliano Cesarini e Torquemada.

Essas reuniões realizaram-se na igreja dos franciscanos. Foram inauguradas por um discurso de Cesarini sobre a união. Só que não podiam chegar a nenhum resultado prático. O imperador havia proibido os gregos de tratar dos pontos controvertidos. Foram necessárias quatro reuniões preliminares antes que João VIII se decidisse a deixar discutir a questão do purgatório. Era 4 de junho.

Na verdade, a questão era bastante secundária. Primeiro, gregos e latinos admitiam esse ponto de fé; diferiam apenas quanto ao modo das penas, afirmando uns que havia no purgatório um fogo semelhante ao do inferno; os outros, ao contrário, que havia apenas sofrimentos expiatórios. Ver Fogo do purgatório. Depois, mesmo sobre essa questão, os gregos não estavam de acordo entre si. Bessarion, Marcos de Éfeso, Gregório Mamas não se entendiam e mudavam de opinião de um dia para o outro. Todos, aliás, recusavam-se a dar a conhecer claramente a doutrina de sua Igreja a esse respeito e sobre o ponto de saber se, sim ou não, o castigo e a felicidade dos condenados e dos eleitos eram completos antes da ressurreição.

Foi então que o imperador, para dar uma aparência de satisfação aos latinos, mandou publicar, em 17 de julho de 1438, uma declaração composta por Bessarion e Marcos de Éfeso e revista por ele, que estava assim concebida: « Os justos gozam em suas almas, desde a morte, de toda a felicidade de que as almas são capazes; mas, depois da ressurreição, acrescenta-se ainda algo a essa felicidade, a saber, a glorificação do corpo, que brilhará como o sol.»

Essas vãs discussões não tinham nenhuma utilidade no caso e só serviam para arrastar as coisas por longo tempo. Os ânimos se azedavam na espera e, ainda por cima, a peste havia feito sua aparição em Ferrara. Houve numerosos mortos. Isidoro de Kiev, que chegara em 15 de agosto, perdeu muita gente de sua comitiva; Dionísio de Sardes, representante do patriarca de Jerusalém, morreu. Era o desânimo. Os antiunionistas, entre os quais Marcos de Éfeso e o arcebispo de Heracleia, esperavam que a doença pusesse fim aos debates e, nessa esperança, deixaram até mesmo Ferrara às escondidas. Foi preciso ir à procura deles e trazê-los de volta à força. O imperador teve de intervir e proibir os gregos de saírem da cidade. Incontestavelmente, era preciso acabar com aquilo.

Por isso decidiu-se, de comum acordo, que a verdadeira I sessão do concílio se realizaria em 8 de outubro. Nesse ínterim, preparou-se um programa. Nomeou-se uma dupla comissão, composta, do lado dos gregos, de seis membros que teriam o encargo de atacar as crenças e os costumes latinos controvertidos: eram Bessarion, Marcos de Éfeso, Isidoro de Kiev, Balsamon, Teodoro Xanthopulos e Jorge Gemisto; do lado dos latinos, foram também escolhidos seis membros: Juliano Cesarini, André de Rodes, João Albergati, de Forli, Pedro Perquerii, João de São Tomás.

Quanto ao programa, os gregos, contra o parecer de Bessarion, decidiram propor, antes de qualquer discussão, esta questão que julgavam essencial e que na realidade era apenas acessória: « É lícito inserir uma única palavra nova no símbolo? » Bessarion, mais lógico, teria querido, ao contrário, que se discutisse simplesmente se, sim ou não, o acréscimo do Filioque era dogmaticamente exato. Não obstante, foi o parecer de Marcos de Éfeso que prevaleceu. Ele esperava secretamente que, respondendo-se negativamente à primeira questão, se interromperiam de imediato todas as negociações e se evitaria assim qualquer outra discussão.

A sessão de 8 de outubro realizou-se na capela do papa, então doente, e foi ocupada unicamente por um grande discurso de Bessarion, no qual, sem tocar em nenhum dos pontos controvertidos, ele fez o elogio da união, mostrou-a possível e infinitamente desejável. Habilmente, soube dirigir a cada um um cumprimento e procurou ganhar todos os seus ouvintes para a sua convicção pessoal.

Na II sessão, em 10 de outubro, André de Rodes respondeu a Bessarion e fez por sua vez o elogio dos gregos. Foi na III sessão do concílio, em 14 de outubro, que a questão prejudicial foi introduzida. Ela dizia respeito à doutrina do Filioque. Marcos de Éfeso atacou violentamente a Igreja latina, imputou-lhe o cisma e pediu a supressão do acréscimo, fosse ele exato ou não. André de Rodes respondeu e, durante toda a sessão, bem como no dia seguinte, a discussão continuou sobre esse único assunto.

Em 16 de outubro, depois de uma disputa bastante viva entre gregos e latinos, realizou-se a V sessão. Marcos de Éfeso apresentou as provas de todas as afirmações que havia emitido contra a licitude do Filioque. André de Rodes respondeu-lhe nas VI e VII sessões, em 20 e 25 de outubro, e provou que o acréscimo contestado era menos um acréscimo do que uma explicação, um esclarecimento, contido nas palavras ex Patre; que um esclarecimento dessa espécie não podia ser, e não havia sido, proibido pelos concílios, e que, enfim, a Igreja romana tinha o direito de acrescentar tais esclarecimentos ao símbolo, que para isso havia precedentes e que, aliás, o próprio Fócio jamais atacara os latinos a esse respeito.

Na VIII sessão, em 1º de novembro, Bessarion entrou em campo. Tampouco ele era partidário do acréscimo e não quis admitir a distinção de André entre acréscimo e explicação. Para ele, além disso, havia verdadeiro acréscimo porque a explicação era tomada de fora do próprio texto. Mas, não mais do que Marcos de Éfeso, não contestava a exatidão dogmática da fórmula discutida.

Na IX sessão, em 4 de novembro, Bessarion continuou sua argumentação, favorável aos gregos e muito viva contra André de Rodes, que quis responder e se embaraçou bastante ao lançar-se nas provas da processão do Espírito Santo pelo Filho, o que não era o assunto. Foi João, bispo de Forli, quem veio em socorro de André de Rodes, em 8 de novembro, na X sessão; depois o próprio cardeal Cesarini, em 11 de novembro, na sessão seguinte. Evidentemente, andava-se em círculos. João retomou a tese de André de Rodes, pretendendo que não havia acréscimo, mas explicação, que o que os três primeiros concílios haviam feito outros podiam fazê-lo, que o essencial era que se conservasse o dogma intacto. Quanto a Cesarini, esforçou-se por provar da melhor maneira que a proibição de nada acrescentar ao símbolo, promulgada pelo concílio de Éfeso, visava evidentemente a própria fé e não a letra. Essas discussões eternas, sempre as mesmas, com os mesmos textos e os mesmos argumentos, preencheram ainda as XI e XII sessões, durante as quais Marcos de Éfeso refutou João de Forli e Cesarini.

No decorrer da XIII sessão, em 27 de novembro, chegaram os embaixadores do duque da Borgonha, os bispos de Cambrai, de Chalon-sur-Saône e de Nevers e o abade de Cîteaux. Apresentaram-se ao sínodo, mas recusaram-se a saudar o imperador. Daí novas discussões, novas ameaças, novas queixas da parte dos gregos. Foi preciso resolver o caso e, na XIV sessão, em 4 de dezembro, os embaixadores prestaram suas homenagens ao imperador e o abade de Cîteaux pronunciou um grande discurso, pedindo ao papa que fizesse esforços para chegar à dupla reconciliação do sumo pontífice com os gregos e com os Padres de Basileia. Depois Marcos de Éfeso e Cesarini retomaram sua discussão, que durou três dias e prosseguiu, na XV sessão, em 8 de dezembro.

Como Marcos de Éfeso havia previsto desde o início, batalhava-se no fundo de um beco sem saída: uns, os latinos, afirmando que uma adição ao símbolo era permitida e não podia deixar de sê-lo; os outros, os gregos, sustentando que em nenhum caso, para maior bem da Igreja, mesmo para combater uma heresia, era permitido acrescentar o que quer que fosse ao credo, ainda que fosse a verdade mais universalmente aceita. Já muitos gregos, vendo a inutilidade de todo esforço sério, falavam ostensivamente de voltar a Constantinopla. Estavam muito provavelmente impelidos por Marcos de Éfeso.

Mas o imperador não entendia as coisas dessa maneira. Queria chegar a um resultado qualquer e por isso decidiu-se a atender ao pedido tanto dos latinos como dos unionistas e a deixar discutir a primeira questão verdadeiramente importante, a da processão do Espírito Santo, aquela por que se deveria ter começado logo. Mas, no momento em que se podia esperar que as coisas tomassem melhor rumo, surgiram novas dificuldades. De um lado, a peste grassava em Ferrara; de outro, o papa não podia mais pagar as despesas do concílio. Os bens pontifícios eram presa de bandos de aventureiros conduzidos por Niccolo Piccinino, que vinham rondar até junto dos muros de Ferrara. Os gregos reclamavam cinco meses de atraso em sua pensão. Tudo ia da pior maneira.

Foi então que os florentinos fizeram a Eugênio IV magníficas propostas para que transferisse o concílio para a sua cidade. Era também o desejo do papa, que amava Florença; mas os gregos se opunham. Não se preocupavam em ser retidos por muito tempo na Itália e em ir habitar uma cidade tão afastada do mar. Só que estavam na miséria. Por isso, quando Eugênio IV lhes disse que, graças a Florença, poderiam receber, uma vez votada a união, 12 000 escudos de ouro e imediatamente o seu atraso, deixaram-se convencer. Em 2 de janeiro de 1439, aceitaram, depois de longas discussões, aquiescer à vontade do papa e do imperador, com a condição de que lhes dessem dinheiro e de que as negociações não durassem mais de quatro meses. Foi o que se prometeu.

Na XVIª e última sessão que teve lugar em Ferrara, em 10 de janeiro de 1439, o arcebispo de Grado, pelos latinos, e Doroteu de Mitilene, pelos gregos, leram cada um em sua língua o decreto de translação; pagou-se aos gregos e enviaram-se fortes somas, 19 000 florins, a Constantinopla. Depois o concílio de Ferrara foi declarado encerrado.

Esse primeiro e considerável esforço não tivera resultado algum. —

II. Florença (26 de fevereiro de 1439-26 de abril de 1442). O concílio de Florença divide-se muito naturalmente em dois grandes períodos. O primeiro estende-se da abertura do concílio à proclamação da união e ao es, de 26 de fevereiro a 26 de agosto do mesmo ano; o segundo vai até o momento em que o papa pôde regressar a Roma e para lá transportar o concílio, isto é, até 1442.

O concílio de Florença de 26 de fevereiro a 26 de agosto. Eugênio IV, depois de ter conquistado os gregos para a ideia da transferência do concílio para Florença e, com ni da república, pago a pensão dos Padres, deixou solenemente Ferrara em 16 de janeiro. Alguns dias mais tarde, João Dishypathos, em 22 de janeiro, ar- os alojamentos reservados pap< ni sua entrada na cidade, em -'- de janeiro, logo seguido do patriarca, em 13 de fevereiro. 1 ' '"!" reur, em 16 I ne uma vez mais, mas tudo em vão. Eugênio IV anunciou aos príncipes do Ocidente a transferência do concílio e idi ni e bispos.

Parece que em Florença os gregos chegaram com melhores disposições do que haviam chegado a Ferrara. No fundo, porém, a situação era sempre a mesma. Apenas cada um dava-se conta de que era impossível recuar, impossível mesmo partir de novo sem os socorros do papa. Não havia, portanto, senão uma solução prática: acabar o mais depressa possível, assinar tudo o que se quisesse e voltar para casa. Depois disso, ter-se-ia todo o vagar para renegar a própria assinatura ao recuperar a liberdade.

Foi, aliás, uma profunda desilusão para o imperador, eixo de toda essa política religiosa, ver que nenhum soberano queria vir ao concílio. Ele contara interessar o Ocidente em sua aflição, obter um apoio e, de fato, em vez de discutir um negócio de Estado, encontrava-se unicamente diante de sacerdotes ocupados em discutir um assunto de teologia.

É essa situação do imperador e do clero grego que explica, de um lado, a rapidez com que se pôs mãos à obra para encontrar um terreno de entendimento e, de outro, a influência crescente dos unionistas no seio das deliberações. Doravante a autoridade de Marcos de Éfeso irá declinar até o dia em que o imperador lhe proibirá a palavra; doravante também, por um golpe de autoridade, o imperador suspende o direito de voto de alguns dos mais irredutíveis antiunionistas até o momento em que se tiver de assinar o ato de união. Então, de novo, o imperador intervirá para obrigar esse mesmo partido a assinar.

De resto, como veremos, adotou-se em Florença, depois de algumas sessões públicas, um novo método de discussão infinitamente mais expedito: o das comissões. Chega de longos discursos e de controvérsias intermináveis, nessas reuniões privadas na casa do imperador e do papa. Delegados, sabiamente escolhidos entre os mais favoráveis à união, fazem um trabalho preciso, discutem entre si, estudam, depois relatam e votam.

A 1ª sessão do concílio de Florença, a XVII do concílio geral, teve lugar já em 26 de fevereiro no palácio do papa. Oitenta pessoas foram ali convocadas. O cardeal Cesarini pronunciou o discurso de abertura, após o que se decidiu que as sessões públicas teriam lugar três vezes por semana e durariam em todo caso três horas. Nos outros dias, as comissões trabalhariam. Por fim, o imperador declarou que era preciso abordar imediatamente a questão dogmática e que se devia deixar de lado, em público, a irritante e insolúvel questão da adição do Filioque.

Decidido isso, e era um primeiro passo dado, os gregos nomearam uma comissão composta de Antônio de Heracleia, Gregório Mammas, Isidoro da Rússia, Marcos de Éfeso, Dositeu de Monembasia, Bessarião e Doroteu de Mitilene, para preparar a união sobre a questão do Espírito Santo. A composição dessa comissão era já um indício do rumo que os debates iriam tomar. Havia apenas um único opositor irredutível eleito, Marcos de Éfeso, e dois bispos antiunionistas, Antônio e Dositeu.

A XVIII sessão realizou-se em presença do papa, em 2 de março, e imediatamente abordou-se a questão dogmática da procedência do Espírito Santo. Os dois oradores designados foram Marcos de Éfeso e João de Ragusa, provincial dos dominicanos da Lombardia. Sabe-se qual era o fundo desse segundo debate. Para os latinos, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; para os gregos, ele procede somente do Pai. Ver t. V, col. 762.

Durante três meses, isto é, até o início de junho, essa questão foi a única discutida, primeiro nas sete sessões públicas que se realizaram até 2\ de março (s VIII* \ \ IV sessões, realizadas em 2. 5, 7, M. 21 de março); depois nas comissões qn I t. Burent place, às sessões públicas a partir de 30 de março, até h de junho, data em que, solenemente, os gregos aderiram à fórmula de união sobre esse primeiro ponto. VI. a 35

João de Ragusa, antes de tudo, procurou provar que o Espírito Santo procede de fato do Filho, pois dele tira o seu ser. Três grandes teólogos foram particularmente chamados a depor a favor ou contra a doutrina latina e grega: santo Epifânio, são Basílio e santo Cirilo de Alexandria. Foi pelo primeiro que começou o combate.

Santo Epifânio, desde 374, em seu 'AyxupwTÔ;, havia escrito Filium illum dico qui Sanctum : ambobus ex ipso est ; Spiritum vero qui solus ex est; ex hoc igilur diclo si Spiriius ex ambobus est, ergo esse eliam accipit ex ambobus'.' Depois isto: Et quemad- modum nemo Palrem : Filium vidit nisi Filius, neque nisi Pater; ita dicere audeo, neque Spiritum Sanctum novit quisquam nisi Pater et Filius a quo accipit et procédait ; nec Filium et Patrem nisi Spiritus Sanctus qui vere clariflcat, qui docct omnia, qui est a Paire et Filio.

Esses textos eram embaraçosos para Marcos de Éfeso. Ele se saiu deles discutindo os termos de santo Epifânio. João de Ragusa, com efeito, havia citado seu autor segundo a tradução de santo Ambrósio. Marcos, portanto, cavilou sobre o sentido das palavras uap 'où È-/.7topEijEi:ai y.ai 7rap'o0 Xap.- ?iâ.-iti e pretendeu que o primeiro verbo se refere apenas ao Pai, e que o segundo se refere exclusivamente ao Espírito Santo. A fim de reforçar sua prova, o arcebispo de Éfeso citou um texto de santo Basílio que provaria, segundo ele, que o Espírito Santo procede apenas da substância do Pai.

Na realidade, o teólogo grego estava encurralado. Para sair do impasse em que santo Epifânio o encerrava, foi-lhe forçoso encontrar uma distinção, e é essa distinção que santo Basílio lhe fornecia. No texto discutido, o bispo de Salamina, ao dizer de Marcos, não tinha em vista as pessoas divinas como origem do Espírito Santo, mas sim a substância divina comum a uma e outra pessoa. Foi então que os textos de santo Basílio entraram na discussão e se tornaram o eixo de todas as argumentações posteriores.

A prova de que era preciso, em santo Epifânio, fazer a distinção proposta era, afirmava Marcos de Éfeso, este texto de santo Basílio, tirado do Contra Eunômio, l. V, c. xm: ys-zx 6 Qeô;, o\j/ to; avôpcoTtoç, yEvà Se à).ï)6(îiç" y.al to yeysvïiij.évov k% aÛTo-j Èx7rÉjxit£t nvsû(i.a Sià otôiaocto;, o\>y o'ov tô àv- 6pu>7itvov, kiztï fj.r)8È a-6\).a. ©soO o"(t>[j.aTi"/.ù>; èvvoo\J(jiev' k% aOtoO 8è tô TtvEÛ|j.a, xaî oùx ErcpaiOEv.

A discussão versou logo sobre este último membro de frase: O espírito é dele e não de outra parte. Com muita presença de espírito, João de Ragusa fez notar que essa passagem visava os arianos e que significava simplesmente que o Espírito Santo procede da substância divina e não de uma substância criada, que ele não é uma criatura. O texto era, pois, inválido para provar que santo Basílio havia ensinado que o Espírito Santo procede apenas do Pai.

Mas havia mais. Em outra passagem da mesma obra, no l. III, c. 1, santo Basílio escreve isto: Te; jap «vâ^xiQ, et tw à<;ik>[j.aTi •/.ai Tr) Tri^E'. Tptxov imipx 11 T0 TCvcû[Aa, rpitov Etvai a-jTÔ xai T7J cp-jo-et; à^i(i(xaTi |j.èv -yàp ÔE-jTepov tov •j£oû,7tap' aùxoO tô eîvai É'yov, xa\ itap'a-jxo'j Xaaëàvov, v.où àvay- YÉX).ov T)(iîv.

Esse texto famoso, que desempenhou um papel considerável em todas as discussões e ao qual se voltou sem cessar, era irrespondível pela sua própria clareza. Por isso Marcos de Éfeso recorreu a um argumento inteiramente novo e muito curioso, o argumento crítico: atacou a tradição manuscrita e pretendeu que o texto alegado não era autêntico, que era interpolado. De uma discussão infinitamente sutil, girando em torno do sentido preciso das palavras e de suas relações gramaticais ou lógicas na frase e com o contexto, passava-se, na xx.ª sessão, a uma questão de pura crítica, uma questão de fatos.

O procedimento era hábil. Os manuscritos eram numerosos, provinham de diversas fontes, haviam sido escritos sem preocupações científicas. Marcos de Éfeso contava com grande sucesso. Na xx.ª sessão, o arcebispo de Éfeso afirmou, pois, de repente que o texto de santo Basílio contra Eunômio havia sido interpolado para defender o Filioque. João de Ragusa não teve dificuldade em fazê-lo notar que, antes de tudo, se havia textos alterados, eram os gregos que estavam habituados a semelhantes fatos, mas que, no caso, não podia haver interpolação, pois o códice trazido de Constantinopla por Nicolau de Cusa, e que datava de uma época anterior às discussões, continha o texto incriminado, o que era probante.

Mas houve coisa melhor. Nesse momento, enquanto Marcos continuava a sustentar a não autenticidade da frase de santo Basílio, o cardeal Cesarini pediu para ver o manuscrito que Doroteu de Mitilene tinha em mãos. Achou-o semelhante ao manuscrito discutido, trazendo o texto em questão, aliás inteiramente diferente do texto citado por Marcos de Éfeso, e sempre alegado por ele. Essa descoberta foi ocasião de um tumulto indescritível. Evidentemente, a boa-fé grega não era inteira e, se a história que Bessarion conta é autêntica, como é muito provável, ela ilustra a maneira como Marcos e seus partidários entendiam a discussão.

«Encontraram-se neste concílio, diz Bessarion, primeiro cinco exemplares, depois seis. Quatro estavam escritos em pergaminho e eram muito antigos, dois outros em seda. Dos quatro, três pertenciam ao arcebispo de Mitilene, o quarto aos latinos. Dos dois escritos em seda, um era propriedade de nosso poderoso imperador, o outro do patriarca sagrado. Desses seis exemplares, cinco tinham o texto tal como o citei, isto é, afirmavam que o Espírito tem o ser do Filho e que depende dessa mesma causa, isto é, do Filho.

Mas um só, o exemplar do patriarca, era diferente: estava cortado; tinha o texto e depois lhe foram acrescentadas e retiradas certas coisas. Mais tarde, depois do concílio, tendo-me proposto examinar quase todos os livros desses mosteiros, constatei que nos mais recentes, isto é, naqueles que foram escritos depois dessa grande querela, essa passagem estava cortada. Todos aqueles, ao contrário, que eram de mão mais antiga e que foram compostos antes da querela dos gregos entre si, todos esses permaneceram sãos e íntegros, e no entanto são tão numerosos quanto os textos corrompidos...

Nesse ínterim, encontrei, entre outros livros, no mosteiro de Cristo Salvador de Pantepoptos, dois exemplares de são Basílio, um, em pergaminho muito antigo, a julgar pela aparência..., o outro, em papel, que datava de pelo menos trezentos anos, pois a data estava inscrita no fim. Esses dois exemplares têm a passagem de são Basílio; apenas esses homens audaciosos, e de mão ainda mais audaciosa, cortaram a passagem. Mas o lugar permaneceu vazio e metade das sílabas subsiste, o que só faz trair a fraude e demonstrar ainda melhor a verdade.

Em outro livro, uma rasura foi posta sobre a frase «recebendo o ser dele e dependendo unicamente dele como de sua causa». Carta de Bessarion a Alexis Lascaris, P. G., t. clxi, col. 319 sq., citada por Vast, p. 81-82. Essas discussões de crítica externa não impediram Marcos de Éfeso e João de Ragusa de continuar seu torneio dialético trazendo novos textos de são Basílio, de santo Atanásio e de são Cirilo. A XXI.ª sessão, realizada em 10 de março, e a XXII.ª, realizada em 14, foram consagradas inteiramente a retomar os textos alegados para tirar deles uma síntese do ensino patrístico. Mas, visivelmente, todos estavam cansados desses debates. O imperador queixava-se da extensão dos discursos; João o fez, por seu lado, e certamente podia fazê-lo. Mas incontestavelmente o sucesso final cabia aos latinos.

Contudo, ninguém podia entrever como se chegaria a pôr termo a essas fastidiosas polêmicas quando, na XXIII.ª sessão, em 17 de março, enquanto cada um repisava os mesmos textos e as mesmas interpretações, e se acusava reciprocamente de não responder às objeções escriturísticas e patrísticas, João de Ragusa fez, uma vez mais, a declaração de que a Igreja romana só reconhecia um único princípio e uma única causa da processão do Espírito Santo, o Pai, e não duas causas, como afirmavam os gregos. Há na divindade um só princípio, uma só causa, o Pai. Este produz de si eternamente o Filho e o Espírito Santo. Assim o Filho recebe do Pai duas coisas, seu ser e seu poder de produzir o Espírito Santo e producit Spiritum non ex se ipso, sed ex a quo et ipse suum esse habel.

Os partidários de illi/, da união, vendo que grande número de gregos aprovava essa declaração, apoderaram-se dela para chegar a fazer o acordo sobre esse princípio admitido por todos e obter do imperador que as sessões públicas fossem suspensas. Para confirmar a declaração oral de João de Ragusa, os unionistas invocaram um texto muito feliz, uma carta de são Máximo dizendo a propósito dos latinos ...Per quos demonstra- nequaquam : Filium causam runt sese asserere esse Spirilus; unam quippe norunt causam Filii ac Spi- rilus Patrem, illius quidem secundum generationem, liujus aulem secundum processionem : sed significare quod per ipsum etiam procédât eaque ralione ostenderc vjusdem essentiœ nulla cum varietale communioncm.

Diante dessas afirmações, os gregos decidiram fazer a união e o imperador pediu a suspensão das sessões públicas. Mas João de Ragusa, com pouca generosidade, e os latinos, com bastante inabilidade, reclamaram uma nova reunião para refutar os argumentos apresentados por Marcos de Éfeso. Foi preciso consentir.

Nos dias 21 e 24 de março, João de Ragusa recomeçou seus discursos, trazendo uma multidão de textos gregos e latinos. Mas foi o único a falar. O imperador havia proibido Marcos de Éfeso de comparecer às reuniões e de tomar a palavra nelas. O arcebispo alegou, por sua vez, que não pôde assistir, por estar doente. No conjunto, o resultado era o mesmo. Só o latino falou, o que levou Isidoro de Kiev a dizer com graça: «Se há apenas um combatente, naturalmente ele permanecerá vencedor.» Esses discursos de João de Ragusa foram os últimos pronunciados. De comum acordo com o imperador, o papa suspendeu as sessões públicas e com elas a intervenção de Marcos de Éfeso terminou. A união podia, portanto, fazer-se sobre um ponto: sobre a unidade de princípio. Isto, aliás, não impediu, mais tarde, Marcos de Éfeso de escrever que os latinos atribuíam a existência do Espírito Santo a dois princípios. Esse homem inteligente, cultivado, eloquente, era infelizmente pouco leal. Se os resultados do concílio não foram os que de parte a parte se esperavam, a culpa coube em grande parte à sua intransigência e à sua má-fé.

A primeira reunião privada que se seguiu à sessão pública de 24 de março realizou-se no dia 30, na casa do patriarca, na presença de todos os dignitários gregos. A decisão de suprimir essas reuniões gerais foi comunicada a cada um, assim como a ordem do imperador e do papa de unir. Era preciso, na Páscoa (e estava-se na segunda-feira santa), ou ter encontrado um terreno de entendimento definitivo ou dissolver o concílio. Foi então que p.

Entre os gregos manifestaram-se, então, todas as correntes e todos os desejos contrários que os dirigiam. Uns, uma minoria, não queriam de modo algum a união; a maioria a desejava por motivos diversos. Marcos de Éfeso, de Monembasia, Isidoro, Gregório. Pela primeira vez, os adversários da união falaram de capitulação e procuraram criar a esse respeito uma agitação, mas era tarde demais. O imperador velava e, por fim, iria impor nitidamente a sua vontade.

Bessarion fez notar, nessa reunião, em resposta a Marcos de Éfeso, que tratava os latinos como hereges, que, nesse ritmo, todo o mundo o era, uma vez que os Padres gregos e os Padres latinos ensinavam a mesma doutrina. Quanto aos escritos falsificados, era um argumento cômodo demais. « Se a dúvida é levada até esse ponto, diz Bessarion, o que subsistirá? O que restará nos livros, além do papel branco? Era a própria evidência. »

Os dias que se seguiram foram empregados em novas diligências e em preparar a discussão que devia ter lugar no sábado seguinte, para acabar com a questão do Filioque, encontrar uma fórmula aceitável e iniciar as negociações que deviam conduzir à união. Infelizmente, o patriarca José caiu tão gravemente doente que foi preciso renunciar a essa reunião e administrar os sacramentos ao ancião. Certos irredutíveis quiseram aproveitar-se da circunstância para interromper todas as conversações e partir; mas o imperador não o entendia assim. Foi preciso ficar e retomar as reuniões.

Em 10 de abril, os gregos enviaram ao papa uma delegação para lhe pedir que fixasse ele próprio os meios que julgava adequados para conduzir à união. Foram-lhes trazidas quatro propostas; era preciso 1º que os gregos dissessem se estavam de acordo com os latinos sobre a processão do Pai pelo Filho ou, se tinham dúvidas, que as formulassem; 2º que trouxessem textos da Sagrada Escritura que infirmassem a crença latina; 3º que demonstrassem pela Escritura que o seu ensinamento é melhor do que o outro; 4º no caso de essas propostas não serem aceitas, restava um último meio: reunir-se em assembleia geral, declarar sob juramento e abertamente aquilo em que cada um crê e adotar o que a maioria dos gregos tivesse aprovado.

Essas propostas embaraçaram singularmente os gregos. Discutiram-nas, contudo. O imperador desejaria que se escolhesse, antes de tudo, uma proposta para apresentá-la; mas nem nisso se pôde chegar a um entendimento. Os gregos deram às questões do papa respostas evasivas, exceto quanto ao último ponto, que rejeitaram nitidamente como uma novidade », e as negociações foram retomadas entre o imperador e Eugênio IV.

Foi numa dessas reuniões privadas, realizada em 13 de abril e que prosseguiu no dia seguinte, que Bessarion pronunciou o seu famoso discurso sobre a união, discurso que ele traduziu mais tarde para o latim, que leva o título de discurso dogmático, P. G., t. clxi, col. 543 sq., e que o autor dividiu em dez capítulos.

Depois de mostrar os benefícios e as belezas da união, Bessarion procura provar que, a respeito da processão do Espírito Santo, os Padres gregos e latinos estão de acordo e ensinam a mesma verdade, ainda que com maior ou menor clareza. Não se devem, portanto, separar os autores que, aliás, não podem contradizer-se sobre uma verdade dogmática, mas esclarecê-los uns pelos outros, aproximá-los e conciliá-los, pois uma coisa está fora de dúvida: é que nenhum Padre grego jamais disse que o Espírito Santo não procede do Filho.

Com efeito, para que a tese de Marcos de Éfeso fosse verdadeiramente sólida, ele deveria ter apresentado textos indiscutíveis mostrando que a Igreja grega havia ensinado formalmente que o Espírito Santo procede somente do Pai e havia recusado ao Filho toda cooperação direta, em vez de limitar-se a discorrer interminavelmente sobre textos que podiam ser entendidos num e noutro sentido.) No fundo de toda essa controvérsia havia, na realidade, sobretudo um mal-entendido, proveniente das expressões de que se tinham servido os gregos.

É por isso que Bessarion se esforçou por demonstrar, no centro de todo o discurso, que o verdadeiro sentido da preposição διά, per em latim, indica uma causa « mediante », « cooperante ». Prœposilionem igilur «per in omnibus in quibus accipitur, causam significare nunquamque dici, nisi aliqaam medianiem subostcndal causam, nemo est qui ignoret. Semper enimet in omnibus quibus hoc ab hoc per hoc esse aul fieri dicilur, illud « per » tanquam communicans aut coopérons primo agenti accipitur.

Daí resulta que per Filium significa exclusivamente isto: que o Filho coopera ativamente na processão do Espírito Santo, porque em Deus não há senão uma potentia productiva e nenhuma causa instrumental. Como há no Pai e no Filho uma só e mesma potência produtiva, diz-se que o Espírito Santo procede igualmente de ambos (ἐκ em grego, ex em latim). Dizer, pois, que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho ou procede do Pai e do Filho são, afirma Bessarion, duas expressões sinônimas. « São quatro locuções equivalentes para dizer que o Espírito é do Filho, que é manifestado pelo Filho, que procede pelo Filho ou que procede do Filho. » Em suma, conclui Bessarion, apoiando-se nos textos muitas vezes alegados, pode-se dizer, sem alterar o dogma, com os Ocidentais, do e pelo Filho.

Tanto uns quanto outros ensinam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de um único princípio, não tendo ambos senão uma só e mesma substância.

Depois de ter assim falado, Bessarion concluiu este grande discurso com uma comovente peroração, na qual mostrou as desgraças da pátria e afirmou que se unia aos latinos para não perder o corpo e a alma.

Enquanto Bessarion falava de teologia, um leigo do círculo do imperador, Jorge Scholarios, iniciou, a 14 de abril, uma série de três discursos, o último dos quais foi lido a 30 de maio. O orador contentou-se em estudar a situação presente das coisas no Oriente e no Ocidente para concluir pela união. Coisa notável: parece bem que os argumentos de Scholarios tiveram mais peso do que todos os raciocínios escolásticos de Bessarion e de Marcos de Éfeso, pois este último fazia a observação: « O latinismo nos invadia pouco a pouco », isto é, que, sob a pressão tanto dos acontecimentos quanto do imperador, muitos se afastavam da oposição e se aproximavam dos latinos.

Em seguida a estes fatos, a 15 de abril, na presença dos cardeais Condolmieri, Cesarini, Albergati, decidiu-se que se nomearia uma comissão, composta de dez membros para cada uma das duas Igrejas, a qual teria por missão entender-se para chegar à paz. Os comissários gregos foram designados diretamente pelo imperador. Eram dez metropolitas.

Logo a comissão pôs-se ao trabalho. Declarações foram penosamente elaboradas, discutidas, recusadas sobre a questão do Espírito Santo. Tentou-se redigir profissões de fé que não contentavam nenhum dos dois partidos; disputaram-se de novo os textos muitas vezes citados dos Padres orientais; pediu-se um suplemento de explicações e de precisões sobre os termos causa, por, princípio único, que não satisfaziam. Em suma, o próprio imperador, apesar de sua vontade de chegar a um resultado, de sua autoridade e de seu otimismo, teve de confessar ao papa, a 24 de maio, que encontrava na maioria muita má vontade. Para conquistar os recalcitrantes, Eugênio IV, a 27 de maio, tentou ir à assembleia dos gregos pregar ali a união e trazer os indecisos. Foi sem grande êxito.

E no entanto, se todos esses esforços não chegavam a nenhum resultado, não era culpa dos latinos. A pedido dos gregos e para cortar todas as insinuações espalhadas contra a sua doutrina, a 1.º de maio, os latinos haviam enviado a seus irmãos do Oriente uma longa e precisa declaração que, ao que parece, deveria tê-los satisfeito

Credimus in unum Deum Patrem unum Filium : unigenitum et in ex Paire natum et in unum Spiritum Sanctum, habentem quidem j ex Paire suam substantiam sicut et Filius sed eliam I ex Filio procedentem. Unam QVIPPB DiciiWS Fn.u im ei j Spiritus sa NEMPE Patrbm; quidem per i/ illius generationem, hujus vero per processionem. Sed ne identitatem unilalcmque (subslanliic separemus et ut substantiam) ab hypostasibus non re differcnlem, sed ralione i tantum aclu asseveremus, et inlelligendi et nulla suspicio sit, Spiritum Sam tum bsse solo Patrb, I l.\ TRIUMQVE SUBSTANTIA, qui: VNICA EST, in 1res parles dissecta cuipiam vocke videalur, illam ex Filio pronunciamus in symbolo; et propterca dicimus Spiiiiium Saxctim procedbrb ex Paire et Filio, vtabvsico Labbe, xm, principio. Concil., t. col. 463.

Havia ali, ao que parece, com que satisfazer os gregos. A unidade de princípio estava nitidamente afirmada, assim como explicada a fórmula ex Patre Filio, que chocava os adversários. Contudo, eles não ficaram satisfeitos e, durante dois dias, discutiram entre si a declaração latina; depois, por sua vez, apresentaram a seguinte fórmula, muito mais vaga, que não satisfez os latinos e que até certos gregos, como Marcos de Éfeso, recusaram subscrever 6Li.oXoyoC|j.Ev my-jr)-/ xa'i pt'Çav ; : 'jIo'j te -/.ai TtvE-jLiaTOç tôv TtaTEpa, -/.ai av6r, BEOç-jta tôv : tô xatà vtbv y. où TivE-jaa to-j TraTpô;, tov dyiov KvpiXÀov, I xa\

Finalmente, porém, no início de junho, depois de um mês e meio de disputas, a comissão, por intermédio de Bessarion e graças à ativa energia de Isidoro de Kiev, acabou por encontrar uma fórmula de entendimento. É verdade que, a 1.º de junho, o papa acabava de fazer ao imperador as seguintes promessas para o caso de a união se realizar: suportaria as despesas de retorno dos gregos a Constantinopla, manteria à sua custa em Constantinopla trezentos soldados e duas galés; a cruzada destinada a Jerusalém passaria por Constantinopla; em caso de necessidade, o papa enviaria ao imperador vinte grandes navios por seis meses ou dez por um ano; enfim, se o imperador tivesse necessidade de um exército, o papa solicitaria aos príncipes cristãos o envio de soldados. Este compromisso favoreceu incontestavelmente a votação da fórmula preparada por Bessarion.

Exceto Marcos de Éfeso, que protestou verbalmente, os gregos, no dia 3 de junho, depois de se terem posto de acordo sobre os termos discutidos ex Patre et Filio; ex Patre per Filium, assim como sobre o sentido da preposição per, S; i, aderiram à declaração do patriarca José: « Não quero mudar nada nos dogmas que nos foram transmitidos pelos santos Padres..., mas, como os latinos nos mostram, não por si mesmos, mas pelos santos escritos, que a processão do Espírito Santo se dá também pelo Filho, eu me uno a eles e declaro que a preposição Sibt designa o Filho como causa (αἰτία) do Espírito e, em consequência, uno-me aos latinos. » Labbe, ibid., col. 489.

Precisaram ainda que ficava bem entendido que o « Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de uma mesma ἀρχή e que procede οὐσία do Pai pelo Filho enquanto semelhante em natureza e em essência, e que procede do Pai e do Filho como de uma única spiratio e productio. » No dia 4 de junho, assinaram enfim três exemplares da fórmula, que foi solenemente adotada no dia 8 de junho em sessão pública presidida pelo papa: Consentimus vobis et quod symbolo : desumptum additum sacro recitatis, e sanctis est: et approbamus illud et vobiscum unimur; dicimusque Spiritum Sanctum ex Patre et Filio procedere, tamquam ab uno principio et causa. Labbe, col. 487.

Por esse ato acabava de ser dado um grande passo rumo à união. Contudo, nem todas as questões em litígio estavam resolvidas. Como o tempo urgia, decidiu-se retomar o trabalho já no dia seguinte e examinar imediatamente os três pontos do pão ázimo : e das palavras da consagração, do purgatório e do primado da Igreja romana. Para apressar a discussão, Eugênio IV mandou entregar aos gregos projetos de declarações (cedulæ), espécies de « esquemas » nos quais o papa indicava o que devia ser adotado. As negociações que iam assim ser retomadas foram novamente interrompidas por um instante pela morte do patriarca, em 10 de junho de 1439. Essa morte poderia ter tido graves consequências para o fim do concílio, e os Marcos de Éfeso e outros opositores poderiam facilmente ter encontrado motivos para atacar de nulidade tudo o que se ia decidir, se, felizmente, José não tivesse deixado um escrito que exprimia sua fé e suas últimas vontades, datado do dia de sua morte. Ver, para a discussão a respeito da data e da autenticidade desse escrito chamado Extrema sententia, Hefele, Histoire des conciles, trad. Delarc, t. xi, p. 445 sq.

Por esse ato solene, o patriarca reconhecia e ensinava tudo o que reconhece e ensina a Igreja católica e apostólica, e a isso aderia. « Reconheço igualmente o santo Pai dos Pais, o maior pontífice e representante de Nosso Senhor Jesus Cristo, o papa da antiga Roma. Reconheço também o purgatório. » Se este testamento é verdadeiramente autêntico, é certo que deve ter incomodado muito os antiunionistas, pois, embora vago sobre a questão do purgatório, embora toda a questão do Espírito Santo estivesse implicitamente resolvida pelo fato de José aderir sem restrição ao ensinamento católico, havia, contudo, nessa declaração uma passagem essencial, a saber, o nascimento do sumo pontífice. É verdade que o patriarca não dizia se esse reconhecimento era o de uma proeminência de honra ou de um poder de jurisdição. Morreu, em todo caso, cedo o bastante para não assistir às discussões que se levantaram sobre o primado do papa, e isso foi sem dúvida um grande bem para a sua memória, pois foi sepultado em Santa Maria Novella com todas as honras devidas à sua posição, e o seu pensamento inspirou mais de uma vez as negociações da união até o ato final.

A primeira questão que foi resolvida após a morte do I i patriarca foi a do purgatório. Foi resolvida com bastante rapidez. Os latinos apresentaram uma memória para provar que as almas dos fiéis que deixam o mundo com faltas leves devem sofrer, antes de sua entrada no céu, uma purificação pela prova do fogo. Os teólogos apoiavam suas afirmações em patrirtiqui e1 SOT os três textos bem conhecidos techabées, de são Marcos e de são Paulo. Os Les mers, I eux, soutenaient que, até o juízo final, as almas dos defuntos permanecem numa nés e castigos só serão bués no fim dos tempos. No fundo, era a questão do purgatório.

Contudo, os gregos cederam. Ficou entendido, segundo as palavras da bula de união, que as almas que não satisfizeram inteiramente na terra são purificadas após a morte por penas que não se especificaram. Na cédula definitivamente adotada, dividiram-se os mortos em: aqueles que vão imediatamente gozar da visão beatífica; os pecadores que vão para o inferno, onde sofrem penas diversas; os pecadores perdoados que vão para o purgatório. Ora, já no início da discussão, antes mesmo de qualquer reunião oficial, o papa havia dito a esse respeito ...médias (animas) autem : esse in loco tormentorum : sed sive ignis sit, sive caligo ac turbo, sive quid aliud, non contendimus. Labbe, col. 491. Esse era o resultado das discussões de Ferrara. Não se voltou, pois, a isso, e sobre esse ponto a união foi concluída. Ver Feu du purgatoire, t. v, col. 2246 sq.

A segunda questão a resolver foi, ela também, bastante depressa liquidada. Era a questão do pão ázimo e das palavras da consagração.

Nos dias 15 e 20 de junho, Torquemada ou Traversari (as duas únicas fontes de que dispomos, André de Santa Croce e as Acta, dão uma o nome de Torquemada, a outra o de Traversari) pronunciou a esse respeito um discurso no qual defendeu os usos dos latinos. Ficou acertado quase de imediato que o pão poderia ser ázimo ou fermentado.

Quanto às palavras da consagração, o debate versava sobre a oração que segue as palavras da consagração e que se chama epiclese. Ver t. v, col. 17-199. Para satisfazer os gregos, decidiu-se que nada se diria desse dissenso na bula de união, mas que Bessarion faria, a esse respeito, em nome dos gregos, uma declaração pública antes da leitura da bula. Foi o que ele fez a 5 de julho de 1439. Ver t. v, col. 198. Reconhecia ele que a consagração se completa pelas palavras sacramentais e que, pelas palavras de Jesus Cristo, o pão e o vinho são transubstanciados em seu corpo e em seu sangue. A doutrina da Igreja latina foi, em contrapartida, expressamente ensinada por Eugênio IV em sua Carta aos Armênios. Restava a questão, de outro modo candente, da primazia do papa. Ali iriam medir-se novamente os adversários encarniçados da união e os teólogos romanos. Será necessária toda a flexibilidade de Bessarion e de Isidoro de Kiev para chegar a selar o entendimento.

A disputa começou por volta de 16 de junho, com um discurso de João de Ragusa no qual ele se esforçava por mostrar que os dados teológicos inscritos na cédula sobre a primazia pontifícia estavam fundados na antiguidade, a saber, que o sumo pontífice era cabeça de toda a Igreja e da ordem dos patriarcas. Essa pretensão era naturalmente contrária à tradição grega, que só queria reconhecer ao papa uma primazia de honra. O próprio Bessarion inclinava-se para o lado do imperador. João, em 20 de junho, teve de retomar em pormenor as provas da primazia de jurisdição e dar a Bessarion as explicações que este reclamava.

As provas de João eram as seguintes: honra com : qual dos concílios receberam as cartas dos papas, entre outros, o concílio de Calcedônia, ver Calcedônia (Concílio de), t. n, col. 2193 sq., essas cartas serviram muitas vezes de base às discussões dos concílios. Elas têm, portanto, mais valor e autoridade que os cânones conciliares, e cum essent epistolae synodicœ erant majoris auctoritatis quam canones qui fiebant in synodis, quia Spiritus Sanctus operatur in Ecclesia romana ut in aliis conciliis. Quanto à expressão Romanus pontifex dicitur successor Pétri et vicarius Christi et pater et doctor et magister christianorum, ela afirma verdadeiramente uma primazia de jurisdição e não somente de honra, hac praeeminentia non solum denotat reverentiam, sed potestatem quamdam cujusdam obedientiae, e é provada pela Escritura santa e pelos próprios textos gregos. Esses textos são evidentemente os que sempre são citados a esse respeito: Pasce oves meas, tibi dabo claves, etc.

Mas uma questão mais importante para os gregos era a dos limites dessa jurisdição, pois não queriam nem sacrificar as prerrogativas de seu patriarca, nem colocar o imperador sob o poder absoluto do papa. Contudo, João de Ragusa não hesita em dizer: potestas il m qutt l'iini et in universis, vocatur potestas spiritualis jurisdictionis quœ est ordinata in salutem animarum omnium christianorum. Et circa hanc potestatem et clerici et laici sunt subjecti... Logo, não há dúvida: todos os cristãos estão submetidos ao poder pontifício nas coisas que concernem à salvação. Donde os papas poderem receber os recursos do metropolita contra os soberanos que os perseguem, como foi o caso a respeito de santo Atanásio e de são João Crisóstomo.

Mas aí João teve grande cuidado em fazer notar que essa pretensão não prejudica o poder imperial, quod hoc non prœjudicat potestati imperatoris, quia illa ut in civilibus et temporalibus, hœc est ecclesiastica et spiritualis. Há dois grandes luminares, o sol e a lua, assim como dois poderes que devem unir-se para o bem de todos. É sempre a grande doutrina romana.

Indo mais longe, e para responder a duas perguntas de Bessarion, João de Ragusa mostrou que o poder dos papas se estende à convocação dos concílios e que, enquanto um patriarca e um metropolita só têm uma autoridade limitada ao território que administram, a autoridade do sumo pontífice vai muito além: successor : om- Pétri habet immédiate potestatem superioris in nes, sed ita habet, ut cum ordine hœc omnia fiant. Labbe, col. 1146. Em resumo, Cristo deu à sua Igreja a forma de uma monarquia; mas a Igreja romana não tem de modo algum, por isso, a intenção de destruir os direitos e privilégios das outras Igrejas.

Esse discurso, como era de esperar, suscitou grandes controvérsias entre os gregos. Evidentemente João de Ragusa não esquecera que, na hora em que falava, os Padres de Basileia faziam cisma e a França preparava uma pragmática sanção. Era preciso reagir publicamente contra todas as tentativas de Igreja nacional, e é por isso que, diante dos gregos, o papa só consentiu, neste capítulo da primazia, em uma coisa: reconhecer a sé de Constantinopla como a primeira depois da sua e confirmar a antiga hierarquia dos patriarcados. O discurso do provincial dos dominicanos era, contudo, certeiro.

A prova disso é que, em 22 de junho, os gregos responderam que reconheciam a primazia do sumo pontífice, salvo em dois pontos: um concílio ecumênico não pode ser realizado sem a presença do imperador e do patriarca; um recurso dirigido a Roma contra um patriarca deve ser julgado pelos legados do papa na província e na presença das partes.

Em 23 de junho, Eugênio IV recusou-se a ratificar essas duas exceções à primazia e, por um instante, tudo pareceu rompido. Contudo, graças à energia dos unionistas gregos, encontrou-se uma fórmula de conciliação, provavelmente por Bessarion, e foi apresentada aos latinos em 26 de junho: ïleç,\ v/j; àpyrfi toO 7ia7ia Ô(XO/.oyoO(j:ev aùxbv axpov àp/iEpea xai ÈTmpoTtov, xai TOTtoTï]Oï)TT|V xai |3txâ- ptov toû Xpiaroû, TroijxévaTe xai 8c8ii/.a).ov 7iâvT(i>v xpio- Ttaviov, Î6-jvsiv ie y.at xuêepvàv x^v èxxXr,