ÉZÉCHIEL (Livro de). Bíblia hebraica: יְחֶזְקֵאל. O terceiro dos Nebiim, ou grandes profetas (cf. Eccli., XLVIII, 25-XLIX, 12); o segundo, segundo Baba Bathra, 14 b-15 a, entre Jeremias e Isaías, porque «Jeremias não falando senão de ruína, Ezequiel começando pela ruína e terminando pela consolação, Isaías não falando senão de consolação, é preciso unir a ruína à ruína e a consolação à consolação». Ver R. Cornely, Introductio, Paris, 1897, p. 287, n. 3; G. Wildeboer, De la formation du canon de l'Ancien Testament, trad. franc., Lausanne, s. d., p. 10. Bíblia grega: ΙΕΖΕΚΙΗΛ (προφήτης: Nazianze, Carm., Alexandrinus). Ἐζεκιήλ: Gregório de Nazianzo: pseudo-Atanásio, I, 12, P. G., t. XXVIII, col. 172; Synopsis, P. G., t. XXVIII, col. 283. Colocado algumas vezes depois de Daniel: Melitão de Sardes, cf. Eusébio, H. E., IV, 26, P. G., t. XX, col. 397; ps. Atanásio, P. G., XXVIII, col. 1084. — Bíblia latina: Ezechiel t. 1: (S. Hilário de Poitiers, In psalmos, prol., 15, P. L., t. IX, col. 214 Ezekiel).
Alguns catálogos o colocam também depois de Daniel: S. Hilário, ibid., loc. cit.; De doctrina christiana, II, 8, 13, P. Santo Agostinho, P. L., XXXIV, 41; catálogo de Mommsen (Cheltenham), Prousdien, Anecdota, Leipzig, 1893, p. 139; cf. os manuscritos: Bibliothèque nationale, fundo do alto Idade Média latina, 229, 165. Algumas Bíblias o fazem abrir a série dos profetas: biblioteca de Rouen, 588; l'Arsenal, 2; Munster, 1 (Dan., Ez....); Bâle (Université) B. I-3; B. N., 97, 135, 157; Auch, 1, 1; Douai, 6. S. Berger, Histoire de la Vulgate pendant les premiers siècles du moyen âge, Paris, 1893, p. 331 sq. I. Texto e versões. II. Canonicidade. III. Autor e data. Estilo. IV. Conteúdo profético. V. Ensinamentos doutrinais. VI. Comentadores. — I. Texto e versões. 1° Texto. 1° Estado de conservação. Ao apresentar ao público o liber Ezechielis em seu texto massorético, Franz Delitzsch o julgava præ reliquis libris recensionem criticam postulare. Isso era admitir que o texto hebraico desse livro havia sofrido por causa das transcrições desde o momento em que fora fixado pela Massorá.
É preciso dizer que esse texto havia sofrido ainda muito mais anteriormente a essa data, e que ele se situa, ao menos para certas partes, entre os textos do Antigo Testamento mais corrompidos. C. H. Cornill, Das Buch des Propheten Ezechiel herausgegeben, Leipzig, 1886, restituiu-o concedendo às LXX um alto valor, mas fazendo-lhe sofrer numerosas mudanças corretivas demais. Cf. P. de Lagarde, Mitteilungen, Gœttingue, 1887, t. II, p. 49-64. Bertholet, Das Buch Hesekiel, Fribourg-en-Brisgau, 1897; Toy, The book of Ezechiel in Hebrew, with notes, Leipzig, 1899; Krätzschmar, Ezechiel übersetzt und erklärt, Gœttingue, 1900, mostraram-se mais conservadores a respeito do texto hebraico. G. Jahn, Das Buch Ezechiel auf Grund der LXX hergestelt, Leipzig, 1905, fez uso sobretudo da conjectura crítica, e sua restituição é conforme ao seu título. Cf. Bertholet, Theologische Literaturzeitung, 1907, n. 2, col. 35-37. I. W. Rothstein, Das Buch Ezechiel em Kautzsch, Die Heilige Schrift des Alten Testaments übersetzt und herausgegeben, Tubingue, 1909, t. I, p. 813 sq., fez um judicioso e prudente emprego das antigas versões e da conjectura crítica para a correção do texto, sem pretender a uma solução definitiva. As passagens mais alteradas são as seguintes: I, 1-28; VII, 1-13; XVI, 1-14; XIX; XXI, 13-22; XXIV, 1-14; XXV-XXXII (mais particularmente XXVIII, 11-19; XXXII, 1-21); XL, 5-XLIII, 12. O texto foi também abundantemente glosado.
Edições críticas: S. Baer, Liber Ezechielis, Leipzig, 1884 (prælatio de Franz Delitzsch; glossário das palavras babilônicas de Frédéric Delitzsch); notas da Massorá; G. H. Toy, The book of Ezechiel in Hebrew, Leipzig, 1899, com notas críticas; I. W. Rothstein, Ezechiel, em Biblia hebraica, edit. R. Kittel, Leipzig, 1906, p. 745-829, e à parte; rico aparato crítico ao pé das páginas.
— 2° Língua. O hebraico de Ezequiel já se afasta do hebraico clássico por alguns neologismos que se diz serem-lhe de todo peculiares. Cf. Keil, Einleitung, Francfort-sur-le-Mein, 1873, p. 296 sq. Knabenbauer, Comm. in Ezechielem prophetam, Paris, 1884, p. 10; ver, no entanto, tradition, p. 11. Comporta algumas formas gramaticais especiais bastante frequentes que o aproximam do aramaico. Cf. Smend, Der Prophet Ezechiel, Leipzig, 1880, p. XXVIII sq.
— 3° Forma literária. — Keil, op. cit., p. 55 sq. O livro é escrito em sua maior parte em prosa. Aqui e ali apenas alguns trechos poéticos se destacam sob uma forma rítmica em que se devem reconhecer versos. Assim: XVIII, 3-15, 19-24; XIX, 2-14; XXI, 13-22; XXIV, 3-7; XXVI, 2-18; XXVII, 2-10, 26-36; XXVIII, 2-10, 12-17; XXIX, 3-7; XXXI, 2-8; XXXII, 2-7.
Todos são glosados em prosa e, salvo os dois primeiros, pertencem infelizmente às passagens mais provadas do texto assinaladas mais acima. Quanto ao estilo e à maneira, ver mais adiante. Rothstein, loc. cit.
— II. VERSÕES. 1° — Versões imediatas. 1. Versão dos Setenta. A tradução grega alexandrina é extremamente fiel e de uma literalidade tal que reproduz a construção da frase hebraica, decalca sobre o texto original frases incompreensíveis, consigna sem traduzi-las palavras cuja inteligência o tradutor sem dúvida não teve. Os hebraísmos ali abundam: cópulas, pronomes isolados, servilismo em relação às partículas e a certas expressões preposicionais, atenção sustentada em distinguir os dois tempos do verbo hebraico, etc. Cornill, op. cit., p. 96-100.
Ela não deve, contudo, sob esse ponto de vista, ser apreciada da mesma maneira que a de Áquila, pois encerra também traduções livres e algumas ligeiras adições que denunciam uma mão de outro modo familiarizada com o grego. Ibid., p. 100-102. «Deve-se considerá-la uma testemunha perfeitamente segura do texto hebraico de Ezequiel tal como se o lia em Alexandria no século III antes de nossa era.» Ibid., p. 100. V. de Rubeis (de Regibus), Ezechiel secundum Septuaginta ex Tetraplis Origenis e singulari Chisiano codice, Rome, in-fol., 1740; A. Merx, Der Wert der LXX für die Textkritik des A. T. arr. Ezechiel aufgezeigt, em Jahrbücher für protestantische Theologie, 1883, p. 65-77; St. J. Thackeray, The Greek translators of Ezekiel (2 tradutores), em Journal of theological studies, 1904, IV, p. 398-411. Quanto às três recensões de Luciano, de Hesíquio e de Orígenes, ver Cornill, op. cit., p. 65 sq.; E. Tisserant, Codex Zagrabiensis rescriptus Veteris Testamenti, Rome, 1911, p. 145-262; Cf. p. LXVI-LXXXIV; Notes sur la recension lucianique d'Ezéchiel, na Revue biblique, Paris, 1911, p. 384 sq.
— 2. Outras versões gregas. Áquila, Field, Origenis Hexaplorum quæ supersunt, Oxford, 1875, t. II, p. 768-899; Auctarium, p. 55-57; Cornill, op. cit., p. 104 sq. Símaco, ibid., p. 108 sq.
— 3. Targuns. O único targum de Ezequiel que possuímos está contido no Targum babilônico dos profetas dito de Jônatas. Edições na primeira bíblia rabínica de Bomberg, Venise, 1517 (recensão de Félix Pratensis); a bíblia rabínica de Buxtorf, 1618-1619; as Poliglotas de Anvers, 1569-1572 (recensão de Arias Montanus, segundo manuscritos do cardeal Ximenes), de Paris, 1629-1645 (mesma recensão), de Londres, 1654-1657 (texto de Buxtorf com colação do texto de Anvers); as Prophetæ chaldaice, de Lagarde, Leipzig, 1872 (segundo o codex Reuchlinianus, século XII); S. Silbermann, Das Targum zu Ezechiel (diss.), Strasbourg, 1902 (segundo um manuscrito da Arábia do sul).
Quanto às relações de todos esses textos com Ezequiel, ver Cornill, op. cit., p. 113 sq., e A. Kohut, em Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, t. VII, p. 177 sq. Segundo o Sepher Aruk ha-schalem, Vienne, 1878-1892, Índice das citações targúmicas, no verbete baz, o autor desse léxico, Natan bar Jechiel (por volta de 1100), teria possuído um targum palestinense de Ezequiel. Cf. G. Dalman, Grammatik des jüd.-palästinischen Aramäisch, Leipzig, 1896, p. 22.
— 4. Versão siríaca. Em Ezequiel, ela segue de muito perto o texto hebraico, mas somente quanto ao sentido, pois se mostra bastante livre na construção, no emprego das partículas e da cópula, do pronome sufixo e de algumas outras particularidades gramaticais: simplifica as locuções hebraicas de forma reduplicativa, procedimento que por vezes prejudica o sentido; acrescenta também não raramente ao texto, usando até de circunlocução e de perífrase; conjectura em muitos pontos obscuros ou difíceis, e o contrassenso aí se encontra em algumas passagens. Cornill, op. cit., p. 148-153. Essa versão foi influenciada pela dos Setenta, ibid., p. 153-154, e pelo targum de Jônatas, p. 154-155.
Embora, nessas condições, não deva ser utilizada sem alguma precaução na crítica do texto hebraico, «ela oferece não obstante quantidade de boas lições, mostra-se frequentemente, ao contrário de toda a tradição (textual), a única original, e, nas passagens corrompidas, de um tato seguro para buscar o sentido primitivo.» Ibid., p. 156. Ver em Cornill, op. cit., p. 137-145, a comparação dos textos da Poliglota de Paris, da edição de S. Lee, da colação dos três manuscritos de Ussher (século XVII), de Pocock, de Cambridge (1066) na Poliglota de Londres, t. VI, e do codex Ambrosianus de Milan.
— 5. Vulgata latina. São Jerônimo traduziu Ezequiel do hebraico entre o ano 392 e 393, ao mesmo tempo que Jó, os outros Profetas e os Salmos, embora a tradução latina corrente desse livro (vulgata ejus editio) não lhe parecesse «divergir tanto do texto hebraico» (non multum distat ab hebraica). In Ezech. prœf., P. G., t. XXVIII, col. 938. A fim de facilitar sua leitura e inteligência, escreveu-a per cola et commata (linhas de sentido), como fizera com a de Isaías. Ibid.
— 2° Versões derivadas. 1. Latina antiga. Fragmentos de Ezequiel no codex Weingartensis (século V), publicados por E. Ranke, em Fragmenta versionis ante-hieronymianœ, Vienne, 1868 (XVI, 52-XVII, 6; XVII, 19-XVIII, 9; XXIV, 25-XXV, 14; XXVI, 10-XXVII, 7; XXVII, 17-19; XXVIII, 1-17; XLII, 5, 6, 14; XLIII, 22-XLIV, 5; XLIV, 19-XLV, 2; XLVI, 9-XLVII, 15; XLVIII, 22-30); Antiquissima V. T. versionis latinœ fragmenta, Marbourg, 1888 (XVIII, 9-17; XX, 18-21; XXVII, 7-17; XXXIII, 24-30; XXXIV, 6-12); e por P. Corssen, em Zwei neue Fragmente der Weingartener Prophetenhandschrift, Berlin, 1899 (XXXIII, 7-11). Cf. Cornill, op. cit., p. 26-27.
Fragmentos do mesmo num palimpsesto de Wurzbourg (Herbipolis), do século V, publicados por E. Ranke, em Par palimpsestorum Wirceburgensium, Vienne, 1871 (XXIV, 4-21; XXVI, 10-XXVII, 4; XXXIV, 16-XXXV, 5; XXXVII, 19-28; XXXVIII, 8-20 (fora de lugar); XL, 3-XLII, 18; XLV, 1-XLVI, 9; XLVIII, 28-35). Comparação das partes comuns, Cornill, p. 30-32. Relação desses textos com o Alexandrinus e o Vaticanus, ibid., p. 32-35. «A latina antiga provém de uma recensão grega relativamente próxima do Alexandrinus. Um fato a considerar é que o Herbipolensis revela um parentesco mais estreito com o Alexandrinus do que o Weingartensis.»
— 2. Outras versões. a) Árabe. α. Texto da Poliglota de Paris, traduzido de um texto grego bastante aparentado ao do Alexandrinus, Cornill, p. 52-54, mas de uma forma mais pura da recensão egípcia. Ibid., p. 54-55. b. Texto de um manuscrito de Oxford, traduzido da versão siríaca, Cornill, p. 56-57, e do qual apenas uma passagem, XXIV, 6b-27, faltando no texto da Poliglota de Paris, foi publicada na Poliglota de Londres.
b) Armênia. — Edição de J. Zohrab, Venise, 1805.
c) Coptas. — a. Boaírica (menfítica). Proveniente dos Setenta, de uma recensão mesclada, influenciada pelo texto massorético. Cornill, p. 35-36. Publicada em H. Tattam, Prophetiœ majores in dialecto linguœ œgyptiacœ memphitica seu coptica, Oxford, 1852, t. II. Ver ms. copta 2 A na Bibliothèque nationale de Paris. L. Delaporte, na Revue de l'Orient chrétien, 1909, p. 419-420.
b. Saídica. Feita sobre o texto anti-hexaplar e tendo sofrido em seguida a influência das Héxaplas. Loisy, Histoire critique du texte et des versions de la Bible, Paris, 1893, t. II, p. 228. Fragmentos da coleção do museu Borgia, IV, 14-VIII, 3; XVIII, 21-XXI, 20; XXI, 32-XXII, 16; XXII, 31-XXIV, 19; XXVI, 20-XXX, 13; XXXII, 13-XXXIV, 7; XXXVI, 16-29; XL, 1-XLIII, 3; XLVI, 1-7; XLVII, 2-9, publicados por A. Ciasca, em Sacrorum Bibliorum fragmenta copto-sahidica musei Borgiani, Rome, 1889, t. II; da Bibliothèque nationale, I, 1-10; III, 23-IV, 14; XI, 17-XIII, 17; XV, 6-XVI, 63; XXVII, 6-15; XXIX, 8-16, publicados por G. Maspero, nos Mémoires publiés par les membres de la mission archéologique du Caire, Paris, 1892, t. VI, e E. Amélineau (XXXVII), em Recueil de travaux relatifs à la philologie et à l'archéologie égyptiennes..., Paris, 1889, t. X, p. 85; do lecionário da Bodleiana, Hunt. 5, XXI, 14-17; XXVIII, 1-19; XXXVI, 16-23, publicados por A. Erman, em Bruchstücke der oberägyptischen Uebersetzung des A. T., Gœttingue, 1880. Ver Hyvernat, Étude sur les versions coptes de la Bible, na Revue biblique, Paris, 1896, t. V, p. 559; 1897, t. VI, p. 53, 56 sq.
— d) Etíope. Ezequiel não publicado. Estudo da «antiga recensão» proveniente dos Setenta e do «remanejamento mais recente da precedente segundo» o texto hebraico, em Cornill, op. cit., p. 36 sq.
e) Siro-hexaplar. Texto do Ambrosianus, fotografado em Ceriani, Monumenta sacra et profana, Milan, 1874, t. VII; publicado por Norberg em Codex syriaco-hexaplaris, Lund, 1787.
II. CANONICIDADE. Se dermos crédito a certos tratados do Talmude da Babilônia, algumas antinomias apontadas entre várias passagens dos c. XL-XLVIII de Ezequiel e as prescrições do Pentateuco (ver mais adiante) atraíram a atenção dos doutores judeus contemporâneos de Cristo e de são Paulo. Estão todas enumeradas e julgadas insolúveis pelo tratado Menakhoth, 45 a: Elias, em seu retorno a esta terra, deveria apenas explicá-las. Entretanto, a fim de impedir que alguns «ocultassem» o livro, isto é, o desviassem do uso litúrgico, o que equivalia a uma rejeição implícita do cânon, Ananias ben Ezequias, contemporâneo de Gamaliel I, empreendeu explicar suas «contradições com a Lei». Conseguiu, não sem despender nisso, ao que parece, muitas vigílias laboriosas. Schabbath, 13 b; Khagigah, 13 a. Ver J. Fürst, Der Kanon des Alten Testaments nach den Ueberlieferungen in Talmud und Midrasch, Leipzig, 1868, p. 24-25, 53; G. Wildeboer, De la formation du canon de l'Ancien Testament, p. 49-51.
Desde então nenhuma dúvida se levantou na sinagoga quanto à canonicidade de Ezequiel. A Igreja cristã sempre recebeu e ainda recebe esse livro como canônico. Se ele não se encontra citado expressamente no Novo Testamento, frequentes alusões às profecias e às alegorias que encerra são todavia ali feitas. Cf. Ezech., XXXIV, 11 sq., e Joa., X, 11 sq. (o bom pastor); Ezech., XVII, 23, e Matth., XIII, 32 (o grão de mostarda); Ezech., XXVII; XXXVIII; XXXIX; XLVII; XLVIII, e Apoc., XVIII-XXI. Cornely, Introductio, t. II, 2, p. 461 sq. Para a comparação completa, ver W. Dittmar, Vetus Testamentum in Nov., Gœttingue, 1903, p. 324-326.
— III. AUTOR E DATA. ESTILO. 1. AUTOR E DATA. O livro se enuncia na primeira pessoa, a de Ezequiel, filho de Buzi, de raça sacerdotal, I, 3, transportado por Nabucodonosor para a Babilônia com o rei de Judá Jeconias, no ano 597, I, 2; XXXIII, 21; XL, 1; fixado em Tell-Abib, às margens do «rio Cobar» (n'har-k'bàr, o nâru kabru de Nipur, grande canal navegável), III, 15, numa casa que lhe pertencia, III, 24; VIII, 1; XII, 3 sq., chamado ao ministério profético no quinto ano de seu cativeiro, I, 2, e morto muito provavelmente em terra estrangeira.
Parece ter sido a princípio mal visto pelos exilados, seus compatriotas, II, 5, 6, 8; III, 8, 26, 27; XII, 22-27; XXI, 5, e ter restringido sua pregação aos que o visitavam em sua morada, III, 24 sq., até o momento em que a queda definitiva de Jerusalém; VIII, 1; XIV, 1; XX, 1, confirmando suas profecias, lhe assegurou, senão o pleno sucesso, ao menos a atenção universal, XXIV, 27; XXXIII, 22, 30-33. Recebeu sua missão do próprio Javé, de quem afirma não ser senão o porta-voz, e que lhe fala seja diretamente, seja em visão, passim, especialmente I-III, 15. Essa missão, que deve cumprir per fas et nefas, III, 4-9, é dupla, na medida em que diz respeito seja à coletividade israelita, antes da ruína de Jerusalém e do fim da autonomia de Judá, seja aos indivíduos, depois desses acontecimentos, no seio da primeira dispersão, II, 8-III, 3; III, 16b-21; XXXIII, 1-9. Ver mais adiante. Ao cumpri-la, comporta-se como uma «sentinela» cujo ofício é vigiar e simplesmente avisar, limitando assim sua responsabilidade em caso de insucesso, III, 17; XXXIII, 2, 7. Os meios de que se serve para cumpri-la são a palavra e a ação simbólica.
Pois Ezequiel não foi apenas um escritor, como queria Reuss, Les prophètes, Paris, 1876, t. II, p. 10; certamente falou ao povo, diretamente, XXXIII, 30-33, ou por intermédio dos anciãos do povo, VIII, 1; XIV, 1; XX, 1; e é inverossímil que um homem que tão frequentemente, mais frequentemente que qualquer outro profeta, faz de uma afirmação, de um dito de seus contemporâneos e companheiros, o ponto de partida de seus discursos, VIII, 12; IX, 9; XI, 3; XI, 15; XII, 22, 27; XVIII, 2, 25, 29; XX, 32 (suposto); XXI, 5; XXXIII, 17, 20, 24; XXXVII, 11, se tenha contentado em guardar na gaveta de sua mesa de escrever, com vistas a publicá-las mais tarde, as notas manuscritas que lhe sugeria a necessidade de remediar as preocupações e as dúvidas daqueles que devia instruir e reformar.» J. Herrmann, Ezechielstudien, Leipzig, 1908, p. 86 sq.
Há também toda razão para crer que a maioria das ações simbólicas a ele ordenadas por Deus foram realmente executadas pelo profeta. É o caso, ao menos, de IV, 1-3, 9-12; XII, 3-11; XXI, 11-12, 24-25; XXIV, 16-24; XXXVII, 16-20, das quais não se compreenderia que pertencessem ao êxtase (Keil, Hengstenberg), ou que fossem puras alegorias, simples artifícios literários (Hävernick, Bleek, Hitzig, Smend, Kuenen, Toy), visto que deviam ou ter caráter de «sinais», ou ser executadas «diante dos olhos» de espectadores. Uma, ao menos, dessas ações, XXIV, 2-14, não foi, contudo, e nem sequer deveria ter sido executada, proposta apenas como «parábola», 3, à casa de Israel; e talvez se deva julgar do mesmo modo de IV, 4-8 e de V, 1-4. Herrmann, op. cit., p. 89 sq. Reais ou não, essas ações simbólicas não podem, em todo caso, ser consideradas «encantamentos» a serem aproximados dos encantamentos babilônicos (R. Krätzschmar); pois não revestem de modo algum, no livro de Ezequiel, o caráter ritual que pertence essencialmente a estes últimos.
Enfim, orador e simbolista, Ezequiel, se foi realmente favorecido de êxtases, se foi mesmo de natureza extática, não pode, com base em textos interpretados abusivamente, ser considerado um doente acometido por momentos de catalepsia, apresentando em sua pessoa fenômenos de hemiplegia, de anestesia e de alalia, que lhe teriam tirado o uso dos membros ou da palavra (Klostermann, em Theologische Studien und Kritiken, Leipzig, 1877, p. 391 sq.); pois as passagens em que o profeta deve ser «atado com cordas», III, 25; IV, 8, que se interpretam como «invisíveis cadeias da paralisia cataléptica» (Krätzschmar, p. 40, 48), podem muito bem entender-se em sentido próprio, de laços reais, materiais, mais aptos que um estado mórbido a simbolizar, no primeiro caso, uma interrupção momentânea do ministério profético de Ezequiel necessitada provavelmente por um primeiro insucesso, e, no outro, a inutilidade de esperar que qualquer mudança pudesse ocorrer no estado de coisas trazido pelo cerco de Jerusalém; enquanto essas outras passagens em que a língua do profeta «presa ao seu paladar», depois liberada em sua «boca aberta» para que «não seja mais mudo», III, 26-27; XXIV, 25-27; XXXIII, 21-22, longe de revelar nele uma alalia intermitente de origem patológica, ainda que possam se interpretar em sentido figurado, cf. XVI, 63; XXIX, 21, aplicam-se na realidade apenas a um silêncio relativo ao objeto da missão profética. Ver, aliás, Herrmann, op. cit., p. 71-81.
A maioria dos críticos concorda hoje em atribuir ao próprio Ezequiel não apenas a redação de seus oráculos, mas também seu agrupamento na coletânea que possuímos sob o título de livro de Ezequiel. Tendo o profeta sido favorecido com sua primeira visão no quinto ano de sua estada na Babilônia, I, 1, seu livro foi escrito, por conseguinte, no intervalo de tempo decorrido do ano 593 até sua morte. Estando o último de seus oráculos datado do vigésimo sétimo ano de seu transporte, XXIX, 17, foi portanto por volta do ano 571 e seguintes que deve ter posto a última mão em sua obra. Cf. A. Van Hoonacker, Le livre primitif du livre d'Ézéchiel, na Revue biblique, 1912, p. 241-253.
Mencionar-se-á aqui apenas para memória as teorias: a) dos rabinos do Talmude, que fazem o livro ser escrito pelos «homens da Grande Sinagoga», Baba bathra, 14 b, explicada por Marx, Traditio rabbinorum veterrima de V. T. ordine atque origine, Leipzig, 1884, p. 48, 51, e por Wildeboer, Geschichte der Litteratur des A. Testaments, Gœttingue, 1895, § 15, obs. 5;
b) de Spinoza, que não vê no livro de Ezequiel senão um resumo de suas profecias, uma vez que ele só começa no trigésimo ano e que se diz no c. XVII que Sedecias é levado à Babilônia, ao passo que Josefo, Ant. jud., X, c. IX, 1, relata que Ezequiel predisse que esse rei não veria a Babilônia, Tractatus theologico-politicus, Hamburgo, 1670, c. X, Œuvres, trad. Prat, 2ª série, Paris, 1872, p. 245-246, teoria que refuta Huet, Démonstrations évangéliques, Veneza, 1765, p. 293, e Carpzov, Introductio ad libros canonicos V. T., Leipzig, 1757, t. III, p. 208 sq.;
c) de alguns modernos, cf. Skinner, Dictionary of the Bible, Edimburgo, 1898, t. I, col. 818, que recusam a Ezequiel, para atribuí-la a um autor mais recente, a composição dos c. XL-XLVIII, teoria que refuta amplamente Herbst-Welte, Historisch-kritische Einleitung in die heiligen Schriften des A. T., Carlsruhe e Friburgo, 1840-1844, t. II, 2, p. 72 sq., opinião retomada em nossos dias por P. Volz, Die vorexilische Jahveprophelie und der Messias, 1897, p. 84, e refutada por Bertholet, Das Buch Hesekiel, 1897, p. 251 sq.;
d) de Zunz, Gottesdienstliche Vorträge der Juden, Berlim, 1832, p. 157 sq., que atribui o livro inteiro à época persa, e de Seinecke, Geschichte des Volkes Israël, Gœttingue, 1884, t. II, p. 1 sq., que o faz escrever em 163-164, no tempo dos Macabeus, teoria que refuta, ao mesmo tempo em que resolve algumas objeções de Geiger, de Vernes e de Havet, Toy, Encyclopædia biblica, Londres, 1901, t. II, col. 1460.
O que melhor indica a unidade de autor é a constante uniformidade do estilo de uma ponta a outra do livro e a homogeneidade manifesta de seu conteúdo: «Que esse autor único foi efetivamente contemporâneo de Jeremias, é o que prova o tom geral do livro, diferente do dos profetas pós-exílicos...: Israel luta contra a idolatria; deve ser castigado e purificado; encontra-se em relação bem definida com certas nações. A situação religiosa e política é a mesma em Ezequiel e em Jeremias.» Toy, loc. cit., col. 1160.
«Que esse autor foi um sacerdote, é o que torna evidente o fato de que tanto espaço é consagrado nos c. XL-XLVIII ao templo e aos serviços que ele comporta, a seus ministros, etc. E que esse sacerdote escreveu esses capítulos antes do retorno do exílio, é o que se pode inferir da influência considerável exercida por toda a sua obra sobre a reorganização do culto divino imediatamente após o exílio.» Ver W. Rob. Smith, The Old Testament in the Jewish Church, Londres, 1907, p. 442-449. Gigot, Special introduction, Nova York, Cincinnati, Chicago, 1906, t. II, p. 326, 330-332.
Se não se pode admitir com Winckler, Altorientalische Forschungen, 3ª série, Leipzig, 1902, t. I, p. 135, que o livro de Ezequiel é «o produto de uma combinação de elementos heterogêneos, como Isaías e Jeremias, e que de uma ponta a outra a distinção das fontes se deixa operar aí frequentemente com mais facilidade do que nesses dois livros», talvez seja exagerado o juízo que pronuncia que «nenhum outro livro bíblico mostra uma unidade de plano tão firmemente aplicada e tão claramente desenvolvida, e da primeira à última letra não trai a mesma mão, o mesmo espírito, e, fortemente marcada, a mesma individualidade.» Cornill, Einleitung in das A. T., Leipzig, 1896, p. 176. Cf. também Smend, Der Prophet Ezechiel, Leipzig, 1880, p. XXI; Bertholet, Das Buch Hesekiel, Leipzig, 1897, p. XIX sq.; com alguma restrição, Orelli, Ézéchiel, Leipzig, 1896, p. 8 sq., e Krätzschmar, Das Buch Ezechiel, Gœttingue, 1900, p. XI sq. Lajard, Ézéchiel, sa personne et son enseignement, Paris e Cahors, 1905, p. 160.
Segundo J. Herrmann, Ezechielstudien, Leipzig, 1908, p. 61-62, o livro de Ezequiel se apresenta a nós como uma coletânea de trechos formada pouco a pouco pelo profeta, com retoques redacionais e algumas inserções subsequentes, feitas, seja pelo próprio autor, seja, em número muito pequeno, por mãos estranhas. Desenvolvimento da tese, p. 8-63. Cf. também Rothstein, Das Buch Ezechiel, em Kautzsch, Die heilige Schrift des A. T., Tübingen, 1909, t. I, p. 813 sq. Todavia as conclusões de detalhe estão longe de ser idênticas nesses dois autores.
— b) ESTILO. O estilo de Ezequiel é uma mescla de monotonia e variedade, de movimento e pesadez. A monotonia nasce da constante repetição de certo número de fórmulas estereotipadas (assinalam-se cerca de trinta, cf. Driver, Introduction, p. 297 sq.; Gigot, op. cit., p. 323 sq.), das quais várias retornam com muita frequência. Elementos de variedade são fornecidos, no entanto, pelas numerosas visões, I, VIII-XI, XXXVII, XL; semelhanças ou símbolos, III-V, XII, XV, XXXI, XXXIV; parábolas, XVII, e alegorias, XVI, XXIII-XXIV, por meio das quais o profeta escritor interrompe agradavelmente a série dos oráculos diretos, e que fazem honra à sua poderosa imaginação e ao seu gênio.
Todavia, pela maneira como desenvolve longamente, sobrecarregando-os de detalhes, esses trechos artificiais (cf. especialmente xvi, xxiii, xxxi), Ezequiel não evita certa pesadez na composição, que nem sempre é contrabalançada pelo «largo movimento rítmico do pensamento precipitado como uma vaga através de alguns de seus mais longos discursos.» Skinner, loc. cit.
A poesia, nele, assume principalmente a forma da lamentação, xix, 2-14; xxvi, 17; xxvii, 2-10, 26-36; xxviii, 12-17; xxxii, 2-7. Embora se tenha dito que a prosa de Ezequiel é «simples e sem rebuscamento,» S. M. A. C., Encyclopaedia britannica, 1878, t. viii, p. 830, ela é, no entanto, muito obscura, tanto mais quanto já o haviam notado os antigos comentadores. Cf. S. Gregório de Nazianzo, Orat., ii, n. 64; xxv, n. 14, P. G., t. xxxv, col. 473, 1217; Teodoreto, Comm. in Ezech., prol., P. G., lxxxi, col. 812; S. Jerônimo, Epist., liii, ad Paulin., 7; Comm. in Ezech., passim, xxv, 1; P. L., t. xxii, col. 547; t. xxv, col. 17, 392, 468. Atribui-se geralmente essa obscuridade à minúcia e à abundância das descrições, bem como à ousadia das imagens. Cornely, op. cit., p. 453 sq. Talvez também, entre as causas desse fenômeno, seja preciso dar grande parte à corrupção do texto hebraico.
— IV. Conteúdo profético. Depois de haver contado como, em uma visão, i-ii, 2; iii, 12-15, 22, recebeu de Jahvé a missão de anunciar à coletividade israelita quais castigos lhe estavam reservados, ii, 3-iii, 11, e como, sete dias depois, o mesmo Jahvé lhe ordenou avisar a «casa de Israel» das sanções divinas impostas seja em caso de endurecimento, seja de arrependimento, no tocante aos indivíduos, e em caso de não cumprimento de seu mandato, no tocante ao próprio profeta, iii, 16-21 (retomado em xxxiii, 1-9), Ezequiel profetiza a respeito dos «julgamentos», v, 8, 15, que atingirão os culpados, depois sobre a salvação e o restabelecimento do «resto que escapará», xiv, 22, ao castigo.
JULGAMENTOS. — I. PROFECIA DOS JULGAMENTOS. — Esses julgamentos atingem não somente Israel, mas também as nações estrangeiras. 1º Profecias contra Israel. 1. São dirigidas aos deportados do ano 597, entre os quais se encontra o profeta, iii, 11; xi, 15 a; mas atingem diretamente o reino de Judá, especialmente os «habitantes de Jerusalém», xi, 15 b. 2. As pessoas a que dizem respeito são todo o povo de Judá, toda a casa de Israel, iii, 7; os «filhos do povo», iii, 11; profetas e profetisas, xiii; xxii, 25, 28; sacerdotes, xxii, 26; chefes, príncipes ou pastores, xix, 1; xxii, 6, 27; xxxiv, 2 sq.; o rei, xii, 2; xvii, 12, 20.
3. Os castigos que anunciam são: a) o cerco de Jerusalém e suas consequências funestas: a fome e a sede, a peste, o extermínio pela espada ou pelas feras, o incêndio, a destruição, o saque, que se estenderão, aliás, a «todo o país», castigos figurados seja por ações simbólicas, iv, 1-13; v, 1-4; xii, 17-18; xxi, 23-25; xxiv, 2-5, 10-12, 15-17, seja em parábolas ou alegorias, xiii, 11-16; xv, 1-5; xvi, 35-43; xix, 10-14; xxii, 18-22; xxiii, 22-35, 43-47, ou descritos em visões ou quadros proféticos, iv, 16-17; v, 10-17; vi, 2-7, 11-14; vii, 15-22, 24-27; ix, 1-7, 11; x, 2, 6-7; xi, 8-11; xii, 19-20; xiv, 13-23; xv, 6-8; xxi, 1-22, 26-27, 31-32; xxiv, 18-23; b) o cativeiro e a dispersão, figurados ou descritos, v, 2, 12; vi, 8; xii, 3-7, 11-15; xvii, 1-21; xix, 4, 1-9.
4. A iminência e a certeza desses castigos são afirmadas contra os incrédulos, xii, 21-28, e os falsos profetas, xiii, 6-7, 8-10. 5. Os motivos desses castigos são os pecados e crimes de todo Israel, lembrados de maneira geral por ocasião da profecia dos castigos; enumerados especialmente em xviii, 5-18; xxii, 1-16: a) a idolatria, no próprio templo, xviii, 6 b, 12 d, 15 b; cf. viii, 3, 5, ídolo do ciúme (Asera? IV Reg., xxi, 7; xxiii, 6; II Cron. [Par.], xxxiii, 7, 15); viii, 10 sq., imagens pintadas na parede; viii, 15, Tamuz; viii, 16, adoração do sol; ou nos altos-lugares, xviii, 6 a, 11 c, 15 a; xxii, 9 a, 9 b; em consequência das alianças estrangeiras, alegorias, xvi, 15-31; xxiii, 5-42; com o agravamento dos sacrifícios humanos, xvi, 20-21; xx, 26, 31; xxiii, 37, 39;
b) a impudicícia, xviii, 6 c-d, 11 c, 15 c; xxii, 10-11; c) a opressão e o assassínio para com o pobre, o infeliz, o devedor por penhor, o órfão, a viúva, o estrangeiro, xviii, 7 a-b, 12 a, c, 16 a-b; xxii, 6-7, 9 b; d) a rapina e a usura, xviii, 8, 13, 20, 7 c, 8 a, 12 b, 13 a, 16 f, 17 a; xxii, 12 b-e; e) a dureza para com o pobre, xviii, 7 d, 16 d; f) a injustiça, xviii, 8, 16 c; xxii, 12 a, tudo isso em infração das leis dadas no deserto e com rebelião, especialmente xx, 13-31.
6. A intenção, o propósito de Jahvé ao castigar seu povo encontra-se enfim claramente marcado: manifestar assim sua existência, sua personalidade divina em tudo ou em parte desconhecida, iv, 13-15; vi, 10; vii, 8-9, 27; xi, 10 b, 12; xii, 15, 16, 20; xiii, 23; xiv, 8; xv, 7 b; xvii, 21 b; xxi, 4, 10; xxii, 16, 22 b; xxiii, 49 b; xxiv, 24 b, 27 b; xxxiii, 29; xxxviii, 23; xxxix, 23-24.
2º Profecias contra as nações. — Contra os amonitas, xxi, 33-37; xxv, 2-7; contra os moabitas, xxv, 8-11; contra os edomitas, xxv, 12-14; xxxii, 29; xxxv; contra os filisteus, xxv, 15-17; contra os fenícios de Tiro, xxvi-xxviii, 19, e de Sídon, xxviii, 20-24; xxxii, 30; contra os egípcios, xxix-xxxii, 21; contra os assírios, xxxii, 22-23; contra os elamitas, xxxii, 24-25; contra Gog, Mésec, Tubal, xxxii, 26-28; xxxviii-xxxix. Cf. P. Cheminant, Les prophéties d'Ézéchiel contre Tyr (xxvi-xxviii, 19), Paris, 1912; J. Plessis, Les prophéties d'Ézéchiel contre l'Égypte (xxix-xxxii), Paris, 1912.
1. Parece certo que todos esses povos, mesmo aquele que se dissimula sob o nome de Gog, devem ser tomados por aqueles que a história e a geografia nos mostram em relação com Israel. Gog, «personificação das potências terrestres inimigas de Israel», «o Anticristo do Antigo Testamento», Krätzschmar, p. 255, que invade a Palestina no momento em que Israel, «reunido dentre os povos», voltado do exílio, «vive em paz em suas moradas», xxxviii, 8, pode ter sido visto por Ezequiel sob os traços do rei da Babilônia, ou do povo babilônico, que Jeremias já mostrava «vindo do Norte», Jer. iv, 6-vi, 30; i, 13-15; Ezeq. xxxvi, 7; xxxviii, 6, 15; xxxix, 1, e contra o qual o profeta de Tell-Abib não teria, na hipótese contrária, pronunciado nenhum oráculo, o que seria surpreendente.
Ezequiel, vivendo em terra babilônica, não teria assim ousado anunciar senão em termos velados a ruína da Babilônia, xxxix, e não teria absolutamente previsto que essa ruína deveria efetuar-se, na realidade, antes da libertação e do retorno. Herrmann, op. cit., p. 47 sq. Outras identificações, propostas por Krätzschmar, p. 255 sq. A única a reter é a que faz de Giges (Heródoto, i, 103 sq.) o povo de Gog; mas cabe notar que Ezequiel, xxxviii, 17; xxxix, 8, concebe Gog como devendo cumprir a profecia predita também por Jeremias, vi, 30; i, 13-15, e que este último acomoda então aos babilônios, os inimigos do momento, um oráculo que visava originalmente, cf. Sof., i, 2-17, a invasão cita dos primeiros anos do reinado de Josias, v, 17; vi, 22 sq. Ver Driver, Introduction, Edimburgo, 1897, p. 263, e as referências.
2. O castigo das nações corresponde ao de Israel: é a invasão, os cercos, os flagelos, as ruínas, o saque, o aniquilamento, a dispersão, xxv, 4-7, 9-10, 13-14; xxvi, 3-14, 19-21; xxviii, 7-10, 16-19, 23; xxix, 4-12, 19-20; xxx, 3-18, 21-26; xxxi, 11-18; xxxii, 3-15, 20-32; xxxv, 3-9.
3. É motivado pela atitude hostil e ultrajante que estas assumiram para com Israel por ocasião do julgamento divino exercido contra este, xxv, 3 b, 6, 8 b, 12, 15; xxvi, 2; xxviii, 24; xxxv, 5-6, 10, 12, 15; xxxvi, 1-7, ou simplesmente pelo orgulho de suas riquezas, de sua sabedoria ou de seu poder, xxvii, 1-25, 32-34; xxviii, 2-5, 12-17; xxix, 3 b, 9 b; xxxi, 2-10; xxxii, 12.
4. E aqui o propósito é o mesmo: fazer conhecer a todos a personalidade e o poder de Jahvé, xxv, 5 b, 7 b, 11, 14 b, 17 b; xxviii, 6 b, 24; xxix, 6 b, 9 b; xxx, 19, 26 b; xxxii, 15 b; xxxv, 4 b, 9 b, 15 b; xxxix, 6 b, 7 b, 21, com a intenção de assegurar a segurança de Israel restabelecido, xxviii, 26.
Assim como o meio babilônico em que vivia o profeta certamente influenciou em alguns traços a teofania do início do livro, i, 4-28; iii, 12-13; x, 9-17. Quanto a 1, 20-22, ver Vigouroux, Bible et les découvertes modernes, 6ª ed., Paris, 1896, t. iv, p. 183-253; Lenormant, Les origines de l'histoire d'après la Bible et les traditions des peuples orientaux, Paris, 1880, t. i, p. 111 sq., 121 sq.; Schrader-Zimmern, Die Keilinschriften und das Alte Testament, Berlim, 1903, p. 631 sq.; A. Jeremias, Das Alte Testament im Lichte des alten Orients, Leipzig, 1906, p. 580 sq., assim a descrição dos julgamentos de Jahvé contra as nações teria tomado de empréstimo, sob a pena de Ezequiel, algumas cores de velhos mitos, de origem caldaica, como aparece especialmente em xxviii, 12-19, o rei de Tiro no Éden: Gunkel, Schöpfung und Chaos in Urzeit und Endzeit, Gœttingue, 1895, p. 148 sq.; Genesis übersetzt und erklärt, Gœttingue, 1901, p. 30 sq.; A. Jeremias, op. cit., p. 593; xxix, 3 b-7; xxxii, 2-8, o Faraó esquartejado, Gunkel, Schöpfung, p. 71-77, 131; Gressmann, Der Ursprung der israelitisch-jüdischen Eschatologie, Gœttingue, 1905, p. 140; xxxi, o cedro do jardim de Deus, Gressmann, op. cit., p. 104 sq., e as referências; xxxix, 17-20, Gog sacrificado sobre os montes de Israel, Winckler, Altorientalische Forschungen, 2ª série, Leipzig, t. i, p. 160 sq. Gressmann, p. 139; Herrmann, Ezechielstudien, Leipzig, 1908, p. 180 sq., 103 sq.
Segundo Herrmann, esses elementos míticos utilizados pelo profeta não teriam sido, na intenção deste, senão puros artifícios de estilo, de caráter tradicional e reservados à poesia.
— PROFECIAS DA SALVAÇÃO E DO RESTABELECIMENTO, II. Essas profecias dizem respeito principalmente a Israel, mas algumas visam também às nações pagãs. 1º Profecias da salvação de Israel. 1. Os que terão parte nessa salvação são os deportados, escapados da ruína, o «resto» poupado pelo inimigo, vi, 8; xii, 16, aqueles que terão sido dispersos entre as nações e que Jahvé reconduzirá ao país, depois de os haver reunido do meio dos povos, xi, 17; xvi, 53; xx, 34; xxxiv, 13; xxxvi, 24; xxxvii, 21; xxxix, 25-28, em oposição àqueles que permaneceram na Palestina e que continuaram a ofender a Deus, xi, 15, 21; xxxiii, 24 sq., depois, todavia, que se tiver operado uma triagem, por efeito de um julgamento divino, entre os exilados, entre os convertidos e os rebeldes obstinados, xx, 36-38; xxxiv, 17 (vi, 9).
2. A salvação consiste no restabelecimento de Israel: a) em um estado social ideal, onde a paz mais completa reina entre as duas classes principais, os governantes e os governados, os fortes e os fracos, e de onde são excluídos os perturbadores, xxxiv;
b) em um estado político ideal, onde a unidade não será mais rompida, como o havia sido antes, entre os dois reinos, xxxvii, 15-22, estado no cume do qual entroniza «para sempre» um «príncipe», um «rei», Davi, servo de Jahvé, vice-regente do novo reino, representante do Pastor divino que doravante assumiu em mãos próprias o governo de seu rebanho, xxxiv, 10-12, 14, 15-16, 23-24; xxxvii, 24, 25 b, ramo da antiga árvore real replantado em seu lugar, xvii, 22-24, chifre poderoso que «brotará» à «casa de Israel», xxix, 21 (hebr.), pretendente de direito ao «diadema» tirado do «príncipe mau» rejeitado, xxi, 30-32.
Para todos os comentadores, o Davi redivivo de xxxiv, 23-24, e de xxxvii, 24-25, é o próprio Messias, do qual Davi foi a figura (comentadores católicos, cf. Knabenbauer, p. 356 sq., 383 sq.): seja o próprio Cristo; seja um davídida, o primeiro de uma nova série de reis, detendo o reino como um outro Davi (comentadores críticos). K. Begrich, Das Messiasbild des Ezechiel, em Zeitschrift für wissenschaftliche Theologie, 1905, t. XLVII, p. 433-461. Depois de santo Jerônimo e Teodoreto, vários exegetas só viram o Messias no «ramo» de xvii, 22-24. Knabenbauer, p. 179. Depois de santo Efrém, alguns outros e vários críticos aí reconhecem Zorobabel. Knabenbauer, p. 179; Zunz, Bibelkritisches, em Zeitschrift der deutschen morgenländ. Gesellschaft, 1873, p. 678; Winckler, op. cit., 2ª série, t. i, p. 142.
r) A salvação consiste ainda em um estado religioso ideal, onde o povo, contrito do passado, será purificado das antigas manchas, xi, 18; xviii, 30-32; xx, 41, 43; xxxvi, 25 b, 31; xxxvii, 23 b; o culto idolátrico estrangeiro não terá mais lugar, xi, 18; xx, 39; xxxvii, 23 a; onde a observância fiel das «leis e ordenanças» de Jahvé será assegurada pelo dom divino de um espírito e de um coração novos, xi, 19-20; xxxvi, 26-27; xxxvii, 1-14 (visão simbólica); xxxix, 29; onde, renovada para sempre a antiga aliança, Jahvé poderá, no meio de seu povo, habitar para sempre seu «santuário» reconstruído, xvi, 60, 62; xxxvii, 26-28;
d) em um estado de prosperidade material ideal: fertilidade do solo, xxxiv, 26; xxxvi, 8-9; xxxvii, 29 b-31; reconstrução e repovoamento, xxxvi, 10-12; xxxvii, 33-38; segurança completa em face das nações inimigas, xxxiv, 25, 27-30; xxxvi, 13-15.
3. A organização de Israel restabelecido é descrita de maneira ideal nos c. xl-xlviii, sob forma de visão relativa a) aos edifícios do novo templo, xl-xliii; b) à ordenança do culto, xliv-xlvi, com descrição da fonte maravilhosa que sai do limiar da «casa» divina, xlvii, 1-12; c) à partilha do «país» entre as «doze tribos», xlvii, 13-xlviii, 29, com notícia sobre as «saídas da cidade», xlviii, 30-35.
Três espécies de interpretação foram dadas à visão dos c. xl-xlviii. 1º Ou bem o conteúdo desses capítulos deve ser tomado estritamente no sentido literal e deve ser entendido como um verdadeiro programa de restauração político-religiosa traçado por Ezequiel. Ver sobretudo L. Gautier, La mission du prophète Ézéchiel, Lausanne, 1891, p. 122 sq.; A. Westphal, Les sources du Pentateuque, 1892, t. ii, p. 353 sq. As noções representadas por essa legislação marcariam uma fase intermediária entre o Deuteronômio, de um lado, e a parte fundamental do Código sacerdotal, de outro. Ver Holzinger, Einleitung in den Hexateuch, Friburgo-em-Brisgau e Leipzig, 1893, p. 437 sq.; Driver, Introduction, 1897, p. 139 sq.; Carpenter e Battersby, The Hexateuch, Londres, 1900, t. i, p. 126 sq. Crítica dessa opinião em Knabenbauer, op. cit., p. 504 sq. Os antigos rabinos já haviam manifestado sua surpresa com as divergências entre Ezequiel, xlvi, e os Números, xxviii, relativamente às oferendas. Menakhôth, 45a. Alguns exegetas católicos, Villalpando, Cornélio a Lápide, Menóquio, Gordon, Calmet, pensaram que a descrição do templo se aplicava ao mesmo tempo ao templo de Salomão, cuja memória deveria conservar, e ao templo do retorno, cujo plano esboçava. Crítica dessa opinião em Knabenbauer, p. 501 sq.
Os judeus, cf. S. Jerônimo, Comm. in Ezech., P. L., t. xxv, col. 375, e Weber, System der altsynagogalen palästinischen Theologie aus Targum, Midrasch und Talmud, Leipzig, 1880, p. 358 sq., alguns protestantes, e, Knabenbauer, p. 510, um católico, G. K. Mayer, Die messianischen Prophezeien des Ezéchiel, Viena, 1864, p. 188 sq., aplicaram literalmente a visão à época messiânica. — Crítica em Knabenbauer, p. 510 sq.
2º Ou então, tendo o profeta visado no sentido próprio o templo e o culto do retorno e da Sinagoga, seu texto comportaria também, na realidade, uma significação típica mais elevada: a restauração do templo e do culto levítico seria a sombra e a figura do templo espiritual mais perfeito erguido pelo Messias e do culto mais perfeito realizado pela Igreja. Alguns Padres e exegetas católicos.
3º Ou então os c. xl-xlviii não são senão uma descrição simbólica e poética do reino messiânico, isto é, da Igreja. Opinião preferida pelos Padres, em particular santo Jerônimo, santo Efrém, são Gregório Magno, e pelos exegetas católicos, Maldonado, Pinto, Mariana, Trochon. Ver Knabenbauer, p. 516 sq.; Cornely, Introductio, t. ii, 2, p. 455 sq.
4. O propósito, a intenção de Jahvé ao restaurar assim Israel é fazer-se conhecer de seu povo, xvi, 62; xvii, 24; xx, 38 b, 42 d, 44; xxxiv, 27; xxxvi, 38; xxxvii, 13-14; xxxix, 28, e das nações, xxxvi, 23, 36; xxxvii, 28 a, assim como «salvar a honra de seu santo nome» aos olhos de todos, xx, 41 b, 44; xxxvi, 21-23; xxxix, 25 b, 27 b. — 2º Profecias de salvação às nações. 1. Ao Egito. xxix, 13-16. Reunidos quarenta anos depois de sua dispersão, os egípcios não formarão, contudo, senão um fraco reino, que a casa de Israel não poderá temer, e cuja aliança tampouco poderá buscar. 2. A Sodoma, representante das nações, que terão parte nas bênçãos dos tempos messiânicos, xvi, 53-58. Cf. L. Gautier, La mission du prophète Ézéchiel, Lausanne, 1891, p. 364 sq.; Orelli, Die alttestamentliche Weissagung von der Vollendung des Gottesreiches, Viena, 1882, p. 406 sq.
— V. ENSINAMENTOS DOUTRINAIS. Três noções principais dominam, por assim dizer, o livro de Ezequiel: as de Deus ou Jahvé, da retribuição individual, do fim dos tempos (escatologia).
1º Deus. Para defini-lo ou descrevê-lo, Ezequiel usa amplamente o antropomorfismo: ele o vê em forma humana, sobre um carro descrito minuciosamente: o todo formando sua glória, i, 9, 28; iii, 12-14; viii, 2-3; x, e situa no «Norte» sua morada, i, 4, «jardim magnífico», xxviii, 13-16; cf. xxxi, 8-9; põe sobretudo em relevo a preocupação que Jahvé tem de assegurar, por ponto de honra, seu poder e sua santidade divinos: seu poder, que seu povo incrédulo ou as nações pagãs poderiam ter julgado comprometido pelo fato da queda de Jerusalém, mas que já se manifestou, ou se manifestará ainda mais no futuro, pela derrota destas, xxv, 5, 7, etc.; xxxviii, 23; xxxix, 6 sq., 22, e pelo restabelecimento daquele, xx, 42; xxxiv, 27; xxxvi, 11, 38; xxxvii, 13-14; xxxix, 28; sua santidade, a «santidade de seu nome», que se encontra ou se encontrará vingada pelos mesmos acontecimentos, tendo sido ofendida pelas faltas de Israel, xx, 39; xxxvi, 20-23; xxxix, 21-24, ou em perigo de ser posta em dúvida entre as nações, xx, 9, 14, 22, 44.
2º Retribuição individual. Essa doutrina nova responde a duas objeções formuladas em consequência da antiga doutrina da retribuição, que encontrava ela mesma sua fórmula, no tempo de Ezequiel, no «provérbio»: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados, xviii, 2. Primeira objeção: O caminho de Jahvé não é reto, ele pune nos filhos as faltas de seus pais, xviii, 25, 29; xxxiii, 17, 20. Segunda objeção: Assim punidos, os filhos de Israel estão sem retorno; façam o que fizerem, é-lhes impossível «viver», ter parte no restabelecimento, xxxiii, 10. Resposta à primeira objeção: Nenhuma falta é hereditária, como também, aliás, nenhum mérito, diante de Jahvé, seja na ascendência, seja na descendência, xviii, 20. Que um homem seja justo, isto é, que observe os mandamentos afastando-se da iniquidade, ele «viverá», xviii, 5-9, ainda que no presente sofra os males da nação; mas que tenha um filho ímpio, esse filho não «viverá»: não lhe será levada em conta a «justiça» de seu pai, xviii, 10-13, 20. Em contrapartida, que um homem seja criminoso, ele perecerá, xviii, 18; mas que tenha um filho justo, esse filho «viverá», não morrerá pela iniquidade de seu pai, xviii, 14-17, 19. Resposta à segunda objeção: Nenhuma falta, nenhum mérito decidem de início a sorte final do indivíduo; é a situação religiosa e moral em que este se encontra na hora do «julgamento» de Jahvé que sozinha influi sobre seu destino ulterior, xviii, 30-32; xxxiii, 20. Donde, até essa hora, há sempre para o indivíduo possibilidade de conversão ou de queda.
Assim, que um «ímpio» se converta, ele «viverá», suas transgressões serão esquecidas, e sua nova «retidão» lhe será contada, xviii, 21-22, 27-28; xxxiii, 12, 14-16, 19; que um «justo» venha a pecar, ele não «viverá», sua justiça anterior será esquecida, xviii, 24, 26; xxxiii, 12, 13, 18.
3º Escatologia. O profeta parece unir em seu pensamento o «julgamento» exercido por Jahvé sobre Israel e as nações com uma grande catástrofe final que transtornará toda a terra. É assim que o «fim» se abate sobre Israel ao mesmo tempo que vem sobre os quatro «cantos da terra», vii, 2 (ἀδάμας: cf. Is., xi, 12; xxiv, 16; Jó, xxxvii, 3; xxxviii, 13), que o mar ou o fogo cósmicos devem aniquilar a cidade de Tiro, xxvi, 3-5; xxviii, 18; que as trevas dos dois luzeiros apagados, a paralisação do jogo das águas do abismo presidirão à ruína do Egito, xxx, 3, 18; xxxi, 15; xxxii, 7-8; que grandes convulsões da natureza devem acompanhar a queda de Gog, xxxviii, 20.
Mas cabe notar que em toda parte o julgamento se cumpre, afinal de contas, por meio de fatos de guerra, dos quais a catástrofe natural e mundial não é então senão uma imagem ou representação poética. Permanece, contudo, que Ezequiel teve a ideia, ele também, de um «dia de Iahvé», de um julgamento de alcance universal, como vários outros profetas. Cf. Gressmann, Der Ursprung der israelitisch-jüdischen Eschatologie, Gœttingue, 1905, p. 141 sq.
— VI. COMENTADORES. 1º Católicos. Orígenes compôs sobre Ezequiel vinte e cinco livros, Eusébio, H. E., VI, xxxii, Hemmer e Lejay, Textes et documents, t. xiv, p. 238-239, dos quais a prophetiam interpretatio de são Basílio e de são Gregório de Nazianzo, c. xi, P. G., t. xiii, col. 663-666, salvou uma única passagem pertencente ao XX. Cf. Charles de la Rue, Opera omnia, Paris, 1733-1759, t. i, p. 352-353, 406-437; P. G., xiii, col. 768-828, que fornecem dessa obra Selecta ex catenis, e A. Mai, Veterum Patrum bibliotheca, Roma, 1854-1857, t. vii b, præf., p. v-vi, que lhe acrescenta alguns novos fragmentos, P. G., XVII, col. 288. Orígenes compôs também homilias sobre Ezeq., xi, 5, das quais quatorze nos foram conservadas em tradução latina por são Jerônimo, P. G., t. xiii, col. 665-768; P. L., t. xxv, col. 723-826. S. Efrém, Explanatio in Ezechielem, Opera syriaca, Roma, 1740, t. ii, p. 165-202, fragmentária; Teodoreto, In Ezechielis prophetiam interpretatio, P. G., t. lxxxi, col. 807-1256; Apolinário de Laodiceia, o Jovem, em A. Mai, op. vii b, p. 82-91, fragmentos exegéticos; Policrônio, ibid., p. 92-127, fragmentos de escólios; Hesíquio (monge, 433), P. G., xciii, col. 1385 sq., escólios;
S. Jerônimo, Commentariorum in Ezechielem libri XIV, P. L., t. xxv, col. 15-512; S. Gregório Magno, Homiliarum in Ezechielem libri II (I, 1-iv, 3; xl, 1-49), P. L., t. lxxvi, col. 785-1072; trechos das obras desse Padre por santo Patério, Testimonia in Ezechielem prophetam, P. L., t. lxxix, col. 983-8; Rábano Mauro, Comm. in Ezech., P. L., t. cx, col. 493-1084; Ruperto de Deutz, In Ezech. proph. libri II (i-xii; xl-xlviii), P. L., t. clxvii, col. 1419-1498; Ricardo de São Vítor, In visionem Ezechielis, P. L., t. cxcvi, col. 527-600; Nicolau de Lira, Postillas perpetuæ, Roma, 1471-1472, t. ii; Dionísio Cartuxano, Enarratio in Ezechielem, em Opera, Montreuil, 1900, t. ix, p. 411-676; Vatábulo, Annotationes, Salamanca, 1584 (edição expurgada); P. Serrano, Comm. in Ezech., Antuérpia, 1572, 1609; J. Maldonado, Comm. in prophetas Jerem., Ezechielem, etc., Lyon, 1609; Paris, 1610; em Migne, Cursus completus Scripturæ sacræ, t. xix, col. 645-1016; H. Pinto, Comm. in Ezech., Salamanca, 1568; Prado e Villalpando, In Ezechielem explanationes, 3 in-fol., Roma, 1596-1604; J. Mariana, Scholia brevia in Vetus ac Novum Testamentum, Madri, 1619; G. Sánchez (Sanctius), Comm. in Ezechielem et Dan., Lyon, 1619; Luís de Alcázar, In eas V. T. partes, quas respicit Apocalypsis, Lyon, 1632; J. Tirino, Comm. in Vetus et Novum Testamentum, Lyon, 1678;
Th. Malvenda comentou os dezesseis primeiros capítulos de Ezequiel, Comment. in sac. Script., Lyon, 1650, t. v; Cornélio a Lápide, Comm. in iv prophetas majores, Antuérpia, 1661; Menóquio, Brevis explicatio, Colônia, 1630; Calmet, Commentaire littéral, 2ª ed., Paris, 1726, t. vi, p. 353-618; Xeteler, Gliederung des Buches Ézéchiel, Munster, 1870; Le Hir, Les grands prophètes, ed. Grandvaux, Paris, 1877; Trochon, Ézéchiel, Paris, 1880; J. Knabenbauer, Commentarius in Ezechielem prophetam, Paris, 1890; P. Schalzl, Das Buch Ézéchiel, Viena, 1902. — 2º Não católicos. 1. Judeus. Raschi, trad. lat. por Breithaupt, Gota, 1713; D. Kimchi, Biblia rabbinica, Basileia, 1618; Abarbanel, Pesaro, 1520; Amsterdã, 1661.
2. Protestantes. J. G. Eichhorn, Die hebr. Propheten, Gœttingue, 1816-1819; 2ª ed., 1824; Rosenmüller, Scholia in V. T., 2ª ed., Leipzig, 1826, t. vi; F. W. C. Umbreit, Praktischer Kommentar über die Propheten, Hamburgo, 1841-1846; H. A. C. Hävernick, Comment. über den Propheten Ezechiel, Erlangen, 1843; Hitzig, Das Buch Ezechiel, Rostock, 1847; E. Henderson, Commentary on Ezekiel, Londres, 1855; P. Fairbairn, Ezekiel, an exposition, Londres, 1863; 4ª ed., Edimburgo, 1876; Kliefoth, Das Buch Ezechiels, 2 vol., Schwerin, 1864; H. Ewald, Die Propheten des Alten Bundes erklärt, Gœttingue, 1868, t. ii; F. W. L. Schröder, Der Prophet Hesekiel, Bielefeld e Leipzig, 1873; E. Reuss, Les prophètes, Paris, 1876, t. ii; F. Hitzig e R. Smend, Der Prophet Ezechiel, Leipzig, 1880; Franz Delitzsch, Der Prophet Ezechiel, 2ª ed., Leipzig, 1882; G. Currey, Ezekiel, Londres, 1882; C. H. Cornill, Das Buch des Propheten Ezechiel herausgegeben, Leipzig, 1886; H. Meulenbelt, De prediking van den profeet Ezechiel, Utrecht, 1888; A. B. Davidson, Ezekiel, Cambridge, 1892; B. Blake, How read the Prophets, Edimburgo, 1892-1894, t. iv; J. Skinner, Ezekiel, Londres, 1895; C. von Orelli, Das Buch Ezechiel, Leipzig, 1896;
A. Bertholet, Das Buch Hesekiel, Tübingen, Friburgo-em-Brisgau e Leipzig, 1897; E. H. Plumptre, Ezekiel, Londres, 1898; Krätzschmar, Das Buch Ezechiel, Gœttingue, 1900; Cobern, Ezekiel and Daniel, Nova York, 1903; Jahn, Das Buch Ezechiel auf Grund der Septuaginta hergestelll, übersetzt und kritisch erklärt, Leipzig, 1905; Redpath, The book of Ezekiel, Londres, 1907; Lofthouse, Ezekiel, Londres, 1907; Maclaren, Ezekiel, em The biblical illustrator, Londres, 1906; Daniel and the minor Prophets, Londres, 1908. F. Vigoureux, Manuel biblique, 12ª ed., Paris, 1906, t. ii, p. 725-757; E. Philippe, art. Ézéchiel, no Dictionnaire de la Bible, t. ii, col. 2154-2162; R. Cornely, Introductio specialis, Paris, 1897, t. ii, p. 432-465; S. R. Driver, Introduction to the literature of the Old Testament, Edimburgo, 1897, p. 278-298; trad. alemã de Rothstein, Einleitung in die Litteratur des Alten Testaments, Berlim, 1896, p. 298-318; C. H. Cornill, Einleitung in das A. T., 3ª ed., Friburgo-em-Brisgau e Leipzig, 1896, p. 175-177; G. Wildeboer, Die Litteratur des Alten Testaments, 2ª ed., Gœttingue, 1905, p. 245-257; H. L. Strack, Einleitung in das A. T., Munique, 1906, p. 102-106;
F. Gigot, Special introduction, Nova York, Cincinnati, Chicago, 1900, t. ii, p. 312-332; L. Gautier, La mission du prophète Ézéchiel, Lausanne, 1891; Introduction à l'A. T., Lausanne, 1906, t. i, p. 512-556; J. Lajciak, Ézéchiel, sa personne et son enseignement (tese), Paris, 1905; W. Harvey-Jellie, Ezekiel, his life and mission, Edimburgo, 1906; Kirchenlexikon, Friburgo-em-Brisgau, 1886, t. iv, col. 1159-1163; Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, Leipzig, 1898, t. v, p. 704-713; Encyclopædia biblica, Londres, 1901, t. ii, col. 1456-1472; Dictionary of the Bible, Edimburgo, 1898, t. i, p. 814-820; The catholic encyclopedia, Nova York, 1909, t. v, p. 737-739
Autor original: L. Bigot
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