EVANGELHO

EVANGELHO

EVANGELHO. — I. Etimologia e sentidos profanos. II. Sentidos cristãos. — Etimologia e sentidos profanos. O nome Evangelho, que é a transcrição da palavra grega εὐαγγέλιον, não é de origem cristã. É uma antiga palavra grega formada de εὖ, «bem», e de ἀγγέλλειν, «anunciar», e que significa boa nova. Todavia, nos mais antigos escritores profanos que a empregam, ela tem outros significados e designa ou a estrena que se dá ao portador de uma boa nova, assim em Homero, Odyss., xiv, 152, 166; Cícero, Ad Att., II, 12; versão dos Setenta, II Reg., iv, 10, ou o sacrifício oferecido aos deuses em ação de graças por uma feliz mensagem. Xenofonte, Hell., i, 6, 37; Diodoro da Sicília, xv, 74; S. Crisóstomo, In Acta, homil. XIX, n. 5, P. G., t. lx, col. 157. Contudo, tinha também sua significação etimológica de boa nova, de anúncio de um feliz acontecimento. Ápio, Civ., IV, 20; Luciano, Asin., 26; versão dos Setenta, II Reg., xviii, 20, 22, 25; IV Reg., vii, 9; S. Crisóstomo, In Acta, homil. xxvi, n. 3, ibid., col. 201. Cf. F. Blass, Grammatik des Neutestamentlichen Griechisch, 2ª ed., Gœttingue, 1902, p. 72. Foi empregada nesse sentido de boa nova, especialmente no culto dos imperadores romanos.

Uma inscrição encontrada recentemente em Priene, na Ásia Menor, conservada atualmente no museu de Berlim e anterior de poucos anos à era cristã (por volta do ano 9), declara que o dia do nascimento do deus (o imperador Augusto) foi, para o mundo inteiro, o começo de boas novas que deveriam se realizar em sua pessoa. Dittenberger, Orientis græci inscriptiones selectæ, Leipzig, 1903, 1905, n. 458. Um fragmento de papiro de Berlim, publicado por G. Parthey, Memorie dell'Instituto di corrispondenza archeologica, 2, Leipzig, 1865, p. 440, um egípcio (provavelmente um alto funcionário) escreve a outro (um sacerdote sem dúvida) que, tendo recebido a boa nova da nomeação de Gaius Julius Verus Maximus como césar (por volta de 237-238 de nossa era), era preciso organizar uma procissão de deusas. Cf. A. Deissmann, Licht vom Osten, Tubingue, 1908, p. 266-269. A palavra εὐαγγέλιον tinha, portanto, no grego popular, o sentido de boa nova, e era particularmente empregada no culto dos imperadores. Por conseguinte, foi tanto mais facilmente adotada pelos cristãos helenistas em uma significação religiosa especial. — II. Sentidos cristãos.

Na língua cristã, a palavra εὐαγγέλιον teve dois sentidos principais: 1º o da pregação oral da salvação trazida ao mundo por Jesus Cristo; 2º o de livros que contêm o relato da vida e do ensinamento do Salvador Jesus. Em outras palavras, o Evangelho designou: 1º o Evangelho oral; 2º o Evangelho escrito. 1º — oral. 1. Origem dessa significação. Nosso Senhor, que falava aramaico, não empregou a palavra grega εὐαγγέλιον. Como os evangelistas Marcos e Mateus, em seus relatos gregos de sua vida pública, põem várias vezes essa palavra em seus lábios, perguntou-se se ela correspondia a uma palavra hebraica ou aramaica de mesmo sentido, ou se não era senão a tradução do pensamento de Jesus por um termo usado posteriormente entre os cristãos de língua grega, para exprimir a pregação da salvação trazida ao mundo pelo Messias. Muitos comentadores pensaram que Jesus tinha empregado ele mesmo o substantivo hebraico besorâh, derivado do verbo bâsar, do qual o profeta Isaías se serviu várias vezes para significar o anúncio da boa nova da salvação messiânica, xl, 9; lii, 7; lxi, 1; cf. Lucas, iv, 18. Os Setenta traduziram habitualmente esse verbo por εὐαγγελίζεσθαι.

Ora, na sinagoga de Nazaré, Jesus declarou que esse último oráculo de Isaías estava então realizado em sua pessoa, Lucas, iv, 21; e mais tarde fez a isso uma alusão muito clara, Mat., xi, 5; Lucas, vii, 22, em sua resposta aos enviados de são João Batista. Se, portanto, se admite a autenticidade dessas palavras (e as razões para duvidar delas apresentadas pelo Sr. Loisy não são peremptórias), o próprio Nosso Senhor caracterizou sua missão como sendo o anúncio da boa nova da salvação messiânica predita por Isaías. Sendo assim, ele poderia, portanto, ter empregado uma palavra hebraica ou aramaica, correspondendo exatamente a εὐαγγέλιον. Todavia, a prova direta do emprego dessa expressão aramaica não está feita. Com efeito, das cinco passagens, i, 15; viii, 35; x, 29; xiii, 10; xiv, 9, nas quais são Marcos põe essa palavra na boca do Salvador, nenhuma se reencontra em são Lucas, que nunca a emprega em seu Evangelho, embora reproduza várias passagens paralelas às de são Marcos. Do mesmo modo, são Mateus omite duas vezes essa palavra nos relatos análogos. Cf. Mat., x, 39, e Marcos, viii, 35; Mat., xix, 29, e Marcos, x, 29. Se a reproduz outras duas vezes, xxiv, 14; xxvi, 13, pode-se pensar que a toma de empréstimo de são Marcos, do qual dependeria.

Marcos, xiii, 10; xiv, 9. A atenção do crítico deve, portanto, voltar-se principalmente, senão exclusivamente, para os testemunhos de são Marcos. Ora, como de todos os evangelistas, é ele quem emprega a palavra εὐαγγέλιον com mais frequência (sete vezes sem contar o final, xvi, 15; são Mateus, quatro vezes; são Lucas e são João, nunca), como é o único a empregá-la absolutamente e sem epíteto, viii, 35; x, 29; xiii, 10; xiv, 9, a exemplo de são Paulo, Rom., x, 16, ao passo que são Mateus fala do Evangelho do reino, iv, 23; ix, 35; xxiv, 14, é legítimo pensar que a palavra correspondente a εὐαγγέλιον não foi pronunciada por Jesus e que foi tomada de empréstimo a são Paulo e por são Marcos, um companheiro desse apóstolo, para exprimir, aliás, o pensamento do Salvador sobre a pregação do reino de Deus, cujo estabelecimento na terra trazia aos homens a salvação messiânica predita pelos profetas e apresentada por Isaías sob a imagem de uma boa nova. Cf. G. Dalman, Die Worte Jesu, Leipzig, 1898, p. 84-85; J. Weiss, Das älteste Evangelium, Gœttingue, 1903, p. 29-31; R. A. Hoffmann, Das Marcusevangelium und seine Quellen, Kœnigsberg, 1904, p. 19-20; M.-J.

Lagrange, Évangile selon saint Marc, Paris, 1911, p. cxliii, 211, 255, 346, 423. É um dos pontos em que é legítimo admitir o paulinismo literário de são Marcos. Se não é, pois, certo que o próprio Jesus tenha empregado a palavra besorâh para caracterizar sua missão como uma boa nova, a da salvação trazida aos homens, o termo εὐαγγέλιον que, no grego helenístico, tinha esse sentido e era aplicado ao culto do imperador, foi adotado pelos cristãos oriundos da gentilidade para enunciar uma ideia expressa equivalentemente pelo divino Mestre e para proclamar que o advento de Jesus e de seu reino anunciava jubilosamente uma era nova e a salvação da humanidade. — 2. Seu emprego e sua significação precisa. Encontramo-lo nos lábios de são Pedro para designar a pregação feita aos pagãos, Act., xv, 7, e nos de são Paulo em Mileto, para designar o objeto da missão que recebeu de Jesus Cristo, a saber, dar testemunho do Evangelho da caridade de Deus. Act., XX, 24. Em suas Epístolas, exceto a aos Hebreus, onde a palavra não se encontra, esse apóstolo a emprega mais de sessenta vezes. São Marcos serve-se dela sete ou oito vezes e são Mateus apenas quatro vezes.

Lemo-la ainda em I Pet., iv, 17, e Apoc., xiv, 6, mas, neste último lugar, com o sentido particular de Evangelho eterno. Em toda parte, significa a própria pregação cristã, ou o objeto direto dessa pregação, em outros termos, a boa nova da salvação messiânica difundida por toda parte, ou seu conteúdo. Com efeito, o Evangelho, ou a mensagem da salvação, deve ser pregado entre todas as nações, Marc., xiii, 10; ao mundo inteiro, xiv, 9; a toda criatura, xvi, 15. Cf. Matth., XXIV, 14; xxvi, 13. No entanto, diferentes qualificativos que o acompanham determinam sua origem, seu objeto, seus destinatários e seu fim ou seus resultados.

Originariamente, é o Evangelho de Deus, Marc., i, 14, a boa nova que Deus envia aos homens e que Jesus, seu enviado, deve pregar. Cf. Act., xx, 24; I Pet., iv, 17. São Paulo foi separado tendo em vista essa boa nova, que vem de Deus, da qual Deus é o autor, para anunciá-la. Rom., i, 1; cf. Rom., xv, 16; II Cor., XI, 7; I Thess., ii, 8. Como objeto, tem o reino de Deus, sua vinda e seu estabelecimento na terra e no céu, Matth., iv, 23; ix, 35; xxiv, 14; mas sobretudo o chefe do reino, o próprio Jesus Cristo, I Cor., IX, 12; II Cor., ii, 12; ix, 13; xii, 14; Gal., i, 7; Phil., i, 27; I Thess., iii, 2; II Thess., i, 8, sua pessoa, que é não somente o Cristo ou o Messias, mas ainda o Filho de Deus. Rom., i, 9; Marc., i, 1; cf. Gal., i, 16; iv, 4; II Cor., i, 19; iii, 4, 5. Esse Evangelho, que deve ser anunciado a todos, é mesmo para todos, pois Pedro o prega aos circuncisos e Paulo aos incircuncisos. Gal., ii, 7. Enfim, do ponto de vista de seus resultados, é o Evangelho da salvação, Eph., I, 13, e o Evangelho da paz, que ele traz e que produz. Eph., vi, 15. Ao mesmo tempo em que pregava o mesmo Evangelho que os outros apóstolos, a saber, o Cristo crucificado e ressuscitado, I Cor., XV, 1-11, são Paulo tinha, no entanto, seu Evangelho pessoal, Rom., ii, 16; xvi, 25; II Tim., ii, 8, que difundia nas Igrejas da gentilidade.

II Cor., IV, 3; Gal., i, 11. Ele o havia submetido aos outros apóstolos, que o haviam achado conforme ao seu, Gal., ii, 2, embora a maneira de encará-lo e de apresentá-lo fosse própria ao apóstolo dos gentios. Esse Evangelho representa, com efeito, a forma especial que são Paulo dava à mensagem da salvação. Era, por oposição à lei judaica, a salvação e a liberdade trazidas ao mundo pela religião cristã. Rom., i, 16; Gal., ii, 4, 5, 14. A pregação dos judaizantes, que queriam manter a lei antiga, era «um outro Evangelho». Gal., i, 6; II Cor., XI, 4. Ao desejar que fossem confirmados em seu Evangelho, Rom., xvi, 25, o apóstolo identifica esse Evangelho com o mistério de Deus, outrora oculto e agora revelado aos homens pelo advento de Jesus Cristo e pela pregação de sua doutrina. Eph., vi, 19. Ora, esse mistério ou desígnio secreto de Deus consiste na redenção de todos os homens, na admissão dos gentios aos bens messiânicos pela abolição da lei mosaica, como único meio de justificação e de salvação. Cf. F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1908, t. I, p. 52-55, t. II, p. 429-433. A significação de εὐαγγέλιον para designar a pregação oral da doutrina de Jesus Cristo passou dos escritos do Novo Testamento para os mais antigos monumentos da literatura cristã.

Assim, S. Clemente de Roma, I Cor., xlvii, 2, Funk, Patres apostolici, t. I, p. 160; S. Inácio, Ad Philad., c. V, 1, ibid., p. 268; S. Justino, Dial. cum Tryphone, 10, P. G., t. VI, col. 496. Ela perseverou até nossos dias na linguagem cristã, e os padres e os missionários são sempre chamados de pregadores do Evangelho. Conservou-se também a oposição estabelecida por são Paulo entre a lei e o Evangelho, e o nome de Evangelho, tomado nesse sentido, designa a revelação cristã e a nova aliança em oposição à revelação judaica e à antiga aliança. 2° O Evangelho escrito. Pelo emprego de uma metáfora bem conhecida que passa do conteúdo ao continente, deu-se, na literatura eclesiástica, uma significação nova à palavra εὐαγγέλιον. Essa palavra, que designava a boa nova da salvação e a doutrina de Jesus Cristo, serviu também para designar os escritos nos quais essa boa nova e essa doutrina estavam consignadas. Essa nova acepção foi introduzida no decorrer do século II de nossa era. Ao visar uma recomendação evangélica, Matth., xviii, 15-17, o autor da Didaché, xi, 3; xv, 3, 4, Funk, t. I, p. 26, 34, considera o conteúdo do livro mais do que o livro em si.

O mesmo se dá em II Cor., viii, 5, p. 194. Mas a Didaché, viii, 2, Funk, t. I, p. 18, visa um Evangelho escrito que contém a oração dominical. Cf. E. Jacquier, Le Nouveau Testament dans l'Église chrétienne, Paris, 1911, t. I, p. 69. São Justino parece ter sido o primeiro a dar o nome de Evangelho aos próprios livros. Se se pode discutir a significação precisa desse nome em algumas passagens dos escritos desse Padre, por exemplo, Dial. cum Tryphone, 10, P. G., t. VI, col. 496, não se pode ter nenhuma hesitação, quando ele nomeia expressamente os εὐαγγέλια como obras que chama várias vezes de «as memórias dos apóstolos». Apol., i, 66, ibid., col. 429. A Epístola a Diogneto, xi, 6, Funk, op. cit., t. I, p. 410, opõe a fé dos Evangelhos ao temor da lei, à graça dos profetas e à tradição dos apóstolos. Santo Ireneu indica bem qual foi a formação desse nome. Ele declara, de um lado, que os evangelistas puseram por escrito o Evangelho ou a pregação evangélica, e chama, de outro lado, seus escritos de Evangelhos. As duas noções de Evangelho oral e de Evangelho escrito voltam constantemente sob sua pena. Cf. Th. Zahn, Geschichte des Neutestamentlichen Kanons, Erlangen, 1888, t. I, p. 161-163.

Esse nome foi dado primeiramente aos escritos apostólicos, que narravam a vida de Jesus e expunham sua doutrina, tais como a pregação oral os havia consagrado e transmitido. Quando os hereges compuseram outros relatos sobre a vida de Jesus, deram-lhes o nome de Evangelho, que era usual. Foi preciso, pois, desde então distinguir entre os Evangelhos apostólicos, que a Igreja recebeu como testemunhos autênticos da pregação apostólica e que inseriu em seu cânon, ou sua lista oficial dos Livros santos, e os Evangelhos, que ela rejeitou porque não eram de origem ou autoridade apostólica e que foram chamados de apócrifos. Ver os dois artigos seguintes. Fillion, Introduction générale aux Évangiles, Paris, 1889, p. 1-3; Th. Zahn, Einleitung in das Neue Testament, 2e édit., Leipzig, 1900, t. II, p. 159-173; J. Weiss, Das älteste Evangelium, Gœttingue, 1903, p. 25-42; A. Loisy, Les Évangiles synoptiques, Ceffonds, 1907, t. I, p. 3-5; A. Harnack, Entstehung und Entwickelung der Kirchenverfassung und des Kirchenrechts in den zwei ersten Jahrhunderten, Leipzig, 1910, p. 199-239; F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1912, t. II, p. 57-60.

Autor original: E. Mangenot

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