EUSÉBIO DE TESSALÔNICA — adversário dos aftartodocetas. I. Vida. II. Carta. III. Obra. — Vida. Devemos o conhecimento da existência de um bispo de Tessalônica, de nome Eusébio, no final do século VI, apenas a um incidente relatado pelo papa são Gregório Magno e à análise de uma carta e de uma obra feita por Fócio. Fora isso, ignoramos a data de seu nascimento e de sua morte; mas é certo que esse bispo foi um adversário declarado e esclarecido da seita dos aftartodocetas. São Gregório Magno adverte Eusébio de Tessalônica sobre o infortúnio ocorrido ao leitor Teodoro, seu procurador. Epist., l. XI, epist. lxxiv, P. L., t. LXXVII, col. 1213. Teodoro, portador de escritos de seu bispo que estava encarregado de entregar ao papa, confiou-os sem desconfiança a certo monge, chamado André, da seita dos aftartodocetas, então encerrado no convento de São Paulo em Roma, o que não era propriamente uma recomendação. De posse dos escritos do bispo de Tessalônica, André não hesitou em falsificá-los e em lhes dar uma coloração heterodoxa. Não era esse seu primeiro golpe. Já havia feito circular alguns sermões em grego sob o próprio nome do papa. São Gregório sabia disso e não se deixou enganar pela nova artimanha.
Sem pôr em dúvida a perfeita ortodoxia de Eusébio de Tessalônica, ele lhe escreve para pedir-lhe que, se vier a descobrir esses falsos sermões, os suprima, denuncie o falsário e ponha em guarda contra ele os que estivessem tentados a se deixar enganar por seus escritos. André foi, aliás, condenado pouco depois num concílio romano. Baronio, Annales, an. 601. — II. Carta. André, num alarde de audácia, escreveu a Eusébio, não para se justificar, mas para sustentar sua doutrina errônea; enviou-lhe uma carta singular, dita παραναγνωστικόν, conjurando-o a lê-la. O papa havia tratado esse monge de imperitus litterarum et divinae Scripturae nescius. Eusébio, ao ler essa epístola, não teve dificuldade em se convencer de quanto o papa tinha razão. Poderia, pois, ter dispensado responder-lhe; fê-lo, contudo, mas não sem assinalar primeiro a falta de cultura de seu correspondente ocasional.
Depois, apontou quatro erros principais. 1° Com que direito, disse-lhe, tomar a palavra φθορά, corrupção, em uma única acepção, para aplicá-la apenas ao pecado, quando os Padres a empregaram em outros sentidos, sobretudo para designar a corrupção dos corpos? 2° Dizer que o corpo de Cristo se tornou imortal, impassível e incorruptível no momento de sua união com a divindade, como ousara sustentar Juliano (de Halicarnasso), e isso numa carta em que se põe como contraditor desse mesmo Juliano e de Severo (de Antioquia), é ao mesmo tempo um erro grosseiro e uma inconsequência lamentável. 3° É outro erro sustentar que o corpo de Adão não havia sido criado nem mortal nem corruptível, quando se deve dizer, para se conformar ao ensinamento unânime dos Padres, que o corpo de Adão era por natureza mortal e passível, e que, se foi preservado até o momento da queda do sofrimento e da morte, foi unicamente por uma pura graça divina. 4° E ainda é um erro pretender que este mundo é incorruptível e imortal, quando é preciso ter por certo que ele está sujeito à mudança e à corrupção. Eusébio terminava sua resposta exortando André a corrigir opiniões tão heterodoxas.
O monge falsário guardou-se bem de fazê-lo; obstinou-se e retomou a pena para sustentá-las de novo, mas sem trazer a menor prova convincente. — III. Obra. Eusébio, em vez de negligenciar um adversário tão pouco temível, pôs-se ao contrário a refutá-lo em regra numa obra em dez livros, atualmente perdida, mas da qual Fócio nos conservou a análise. Bibliotheca, cod. 162, P. G., t. CIII, col. 452. Havia-a intitulado Κατὰ Ἀνδρέου τινός. Nela desvela e qualifica severamente os procedimentos empregados, próprios de um ignorante ou de um homem desonesto. Depois retoma, mas com mais detalhes, os quatro pontos já assinalados na carta acima citada, mostrando que esse André teve a audácia de compor uma exposição da fé completamente fora dos limites postos pelos concílios, de citar, alterando-os ou forçando-os, os testemunhos escriturísticos e patrísticos, e de se pôr assim em oposição flagrante com os dois Testamentos e com os santos Padres. Por sua vez, recorre à Escritura e à tradição; cita santo Atanásio, os três Gregórios, são Basílio, são João Crisóstomo, Proclo de Constantinopla, o mártir são Metódio e Codrato (Quadrato). Fócio, loc. cit., col. 456. Sublinha as passagens mal compreendidas, por falta de inteligência, ou mal interpretadas, por falta de probidade.
O pior é que André tenha posto sem vergonha na conta dos Padres as próprias palavras proferidas pelos hereges. Quanto ao epíteto de ftartólatras, que lança como um insulto aos católicos, ele se aplica muito melhor, que ele saiba, a Ário, Aécio, Eunômio, Apolinário e Nestório. Ibid., col. 457. Cristo teve um corpo como o nosso, submetido às mesmas condições naturais, exceto ao pecado, passível e mortal antes da crucificação, mas tornado depois, permanecendo identicamente o mesmo, impassível e imortal após a ressurreição. É assim, observa Fócio, que Eusébio, tendo ensinado divinamente, encerra seu décimo livro. Ταῦτα φιλοθέως ἐπιδογματισάμενος, τέλος ἐπιτίθησι τῇ δεκαλόγῳ. Fócio teve razão em salvar do esquecimento a memória do valente defensor da ortodoxia que foi Eusébio de Tessalônica, na época de são Gregório Magno. S. Gregório, Epist., XI, epist. LXXIV, P. L., t. LXXVII, col. 1213; Fócio, Bibliotheca, cod. 162, P. G., t. CIII, col. 452-457; Dupin, Bibliothèque des auteurs ecclésiastiques, Mons, 1693-1696, t. V, p. 11; Realencyklopädie für protestantische Théologie, 3ª ed., Leipzig, 1898; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, Paris, 1905, t. I, col. 1418
Autor original: G. Bareille
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