DREY. — I. Vida. II. Obras. III. Papel.
I. Vida. — Jean-Sébastien Drey nasceu, em 16 de outubro de 1777, na aldeia de Killingen, perto de Ellwangen, numa família de camponeses pobres; seu pai era pastor. O cura da paróquia, impressionado, já nos bancos da escola primária, com as felizes disposições da criança, deu-lhe as primeiras lições de latim e convenceu, não sem custo, seus pais a enviá-lo, no outono de 1787, ao ginásio de Ellwangen. Os habitantes da cidade encarregaram-se, com sua generosidade costumeira, das despesas de sua instrução. Após brilhantes estudos clássicos, nos quais o sagaz e laborioso escolar soube aliar ao culto apaixonado da antiguidade profana um gosto muito vivo pela matemática e pela física, gosto que aliás jamais se desmentirá, foi seguir em Augsburgo os cursos de teologia e de direito canônico, outubro de 1797-novembro de 1799. O espírito moderno, que soprava por toda a Alemanha, ressecando e paralisando até a ciência sagrada, não abalou a fé do jovem estudante; quando muito, roçou-a; e os trabalhos posteriores de Drey atestarão, com uma reação crescente contra as influências do século XVIII, os progressos de seu apego à Igreja. Ordenado sacerdote em 30 de maio de 1801, Jean-Sébastien Drey foi logo nomeado, a seu pedido, vigário de sua paróquia natal. Ao mesmo tempo que se dedicará, durante cinco anos, 1801-1806, aos deveres de seu cargo, estudará a fundo a filosofia da Alemanha do norte; lerá e relerá Kant, Herder, ambos então no apogeu de sua reputação, Fichte, etc., e nada mais sairá de sua pena que não traga a marca de uma forte cultura filosófica. Já havia começado, em consequência do excesso de trabalho intelectual como também das privações, a sentir os ataques da neurastenia que envenenará os mais belos anos de sua maturidade, sem contudo poder alterar a amenidade e a benevolência de seu caráter nem o encanto de seu convívio. Em fevereiro de 1806, foi chamado ao ginásio de Rottweil, para lecionar ao mesmo tempo filosofia da religião, matemática e física; era uma preparação e um prelúdio. A nova universidade de Ellwangen apressou-se, em 1812, a confiar-lhe as cátedras de dogma, de apologética e de enciclopédia teológica. Drey as conservará todas, quando em 1817 a universidade de Ellwangen for suprimida e a faculdade de teologia católica transferida para Tubinga. Dois anos mais tarde, com um seguro instinto do conveniente e do possível, fundará, sendo o quarto fundador, uma revista periódica, a Tüb. theologische Quartalschrift, dedicada à obra de harmonia entre o catolicismo e a ciência moderna, e que, sendo a única sobrevivente das revistas semelhantes da mesma época, é hoje, na Alemanha, sem contestação, o primeiro órgão periódico da teologia. O projeto, formado pelo gabinete de Stuttgart em 1823, de elevar Drey à sede episcopal de Rottenburg, não vingou, seja porque se tivesse reavivado a lembrança desagradável das ideias de Drey sobre a origem e o caráter da confissão sacramental, seja antes porque, por uma razão de alta conveniência, não se tivesse querido afastar dessa sede o vigário apostólico do Wurtemberg, Mons. Keller. Prometeu-se a Drey reservar-lhe, como compensação, a primeira cadeira vacante no cabido de Rottenburg. Promessa vã, que não foi cumprida. Quando, no início de 1838, Drey, gravemente doente, se permitiu lembrá-la, alegou-se, para se safar, que não se podia, em Tubinga, dispensá-lo. Drey foi apenas desobrigado, conforme seu desejo, da cátedra de dogma; deixou-a sem ter publicado suas lições de teologia, que permaneceram inéditas, e conservou apenas as duas cátedras de apologética e de enciclopédia. Aposentou-se finalmente em 1846, após 40 anos de um ensino célebre e fecundo, e recebeu nessa ocasião a cruz de comendador da ordem da Coroa do Wurtemberg. Mas viveu na aposentadoria, não no repouso; o enérgico ancião não cessou de trabalhar e de escrever para o Dicionário teológico de Wetzer e Welte, bem como para a Tüb. theol. Quartalschrift. Estava na plena posse de todas as suas faculdades e nada nele fazia presagiar uma morte próxima, quando foi levado subitamente por um ataque de apoplexia, em 19 de fevereiro de 1851, aos 76 anos de idade.
II. Obras. — Independentemente de numerosíssimos artigos de revista, que, assinados ou não, apareceram em sua maior parte na Tüb. theol. Quartalschrift, e que se fazem notar pela clareza, precisão e elegância do estilo, Drey nos deixou os seguintes opúsculos e obras:
1° Duas dissertações latinas, uma sobre o milenarismo de São Justino, Observata quaedam ad illustrandam Justini martyris de regno millenario sententiam, Gmund, 1814; a outra sobre o caráter e a história da confissão na Igreja, Dissertatio historico-theologica originem et vicissitudinem exomologeseos in Ecclesia catholica ex documentis ecclesiasticis illustrans, Ellwangen, 1815. Nesse último opúsculo, que refletia, atenuando-as, as ideias liberais da época, e que aliás foi denunciado a Roma, sem contudo trazer dissabores ao autor, Drey parece negar à confissão sacramental uma origem divina imediata, para não fazer dela, afinal, senão uma instituição eclesiástica.
— 2° Um manual de enciclopédia e de metodologia teológica, sob o título: Einleitung in's Studium der Theologie, Tubinga, 1819. Livro muito superior, sem dúvida, aos livros análogos da mesma época pela disposição luminosa do assunto e pelo raro talento do escritor, mas ainda excessivamente impregnado das ideias de Schleiermacher e de outros filósofos modernos.
— 3° As Neue Untersuchungen über die Constitutionen und Kanones der Apostel, Tubinga, 1832, suscitaram, quando apareceram, a admiração do mundo erudito. A questão, contudo, embora se tenha então pensado o contrário, não estava encerrada; a ciência não havia dito sua última palavra. As descobertas patrísticas recentes, em particular as da Didascalia e da Didaquê, invalidaram as conclusões de Drey quanto à data e à origem das Constituições apostólicas. O mérito de Drey não fica por isso diminuído; e seu livro faz ressaltar a amplitude de seus conhecimentos históricos, ao mesmo tempo que sua engenhosa sagacidade. — 4° Die Apologetik als wissenschaftliche Nachweisung der Göttlichkeit des Christenthums, Mogúncia, 1838, 1847, é uma obra de maior fôlego; é também a obra-prima do autor; nela não se encontra mais o traço da influência de Schleiermacher. Dos três volumes da obra, o primeiro expõe a filosofia da revelação; o segundo retraça a história da revelação e da religião; o terceiro, sob esse nome de Symbolik que Möhler tornara célebre, põe em relevo o caráter divino da Igreja católica, na qual desemboca e na qual se realiza a revelação inteira. A solidez da ciência, a pureza da ortodoxia, a novidade do método psicológico merecem e obtiveram para a obra um sucesso considerável.
III. Papel. — Como escritor e como professor, Drey exerceu, na Alemanha, sobre o pensamento dos teólogos do século XIX, uma ação poderosa e salutar. Criado na atmosfera dos últimos anos do século anterior, foi-se libertando pouco a pouco, numa ascensão contínua, das influências racionalistas e kantianas que haviam pesado sobre sua educação e sobre seus primeiros trabalhos literários. Foi o chefe e o primeiro guia da escola católica de Tubinga, que havia contribuído para fundar; traçou-lhe o programa e abriu o caminho pelo qual outros, depois dele, caminharão com passo mais seguro e irão mais longe do que ele; preparou, com obstinada assiduidade, o reinado brilhante, senão definitivo, da teologia alemã moderna, 1830-1860. O despertar e a renovação da ciência sagrada além do Reno, eis o ponto fixo em torno do qual toda a sua vida intelectual evoluirá, a ideia diretriz à qual se reconduzirão suas lições e seus livros; daí decorrerão, em suma, todas as suas iniciativas. Assim, diante de espíritos desabituados do método escolástico e cansados de especulações abstratas, Drey, ciôso de devolver à ciência sagrada sua vitalidade e seu prestígio, preconizará e aplicará, no âmbito da teologia, não sem um sucesso duradouro, o método histórico. Seria iludir-se considerar Newman e Möhler os dois primeiros teólogos católicos que reconheceram e puseram em prática o princípio do desenvolvimento dos dogmas. A honra de ter contido o intelectualismo, com o risco de estreitar-lhe demais o leito, e de ter introduzido a ideia da evolução no estudo do dogma, para nele fazer circular melhor a vida, pertence a Drey. O primeiro na Alemanha, já em 1821, cinco anos antes que Döllinger se lembrasse disso, ministrava um curso sobre a história do dogma e preludiava os trabalhos dos Staudenmaier e dos Kuhn. Ao projetar as luzes da história do dogma sobre os problemas da teologia, fazendo assim tocar com o dedo sua alta importância e popularizando-a, Drey foi, portanto, um inovador e um iniciador. Foi-o igualmente no domínio da apologética; pode-se quase dizer que criou a apologética moderna, de tanto que aperfeiçoou a obra de seus predecessores. A velha apologética, contemporânea do cristianismo, transformou-se na Alemanha, sob a mão de Drey, em uma ciência à parte, distinta ao mesmo tempo da teologia propriamente dita e da polêmica confessional, e situada nos confins da filosofia e da teologia. Ciência nova, que Drey, já em 1819, havia delimitado cuidadosamente, num artigo da Theol. Quartalschrift, e que, para fazer ressaltar a divindade da religião cristã, apela tanto para as faculdades e as luzes natas que a alma possui em si mesma quanto para a revelação vinda do alto. A apologética moderna implica, pois, e pressupõe o estudo das relações íntimas entre a fé e a ciência, entre a revelação e a razão. Esse estudo, Drey deixou-o como herança, por assim dizer, à escola católica de Tubinga; e desde então, tal como ele mesmo o fizera em sua maturidade, após os tateios do início, a escola católica de Tubinga sempre manteve o justo meio entre o tradicionalismo e o racionalismo. Era, com efeito, o pensamento fundamental de Drey que é preciso, sem se vincular a uma ou outra dessas escolas, tomar emprestado de ambas ao mesmo tempo: reconhecer, de um lado, o caráter histórico da revelação com sua transmissão de idade em idade, mas, de outro, manter firmemente os direitos da razão humana e da filosofia. Como professor, Drey sustentou e difundiu as mesmas doutrinas tanto pela palavra quanto pela pena. Ensinará durante 40 anos com um brilho imenso. Milhares de estudantes acorrerão a cada ano de todas as partes da Alemanha e da Suíça alemã aos pés de sua cátedra, e se impregnarão de seu espírito. Drey inspirava naqueles que o ouviam uma admiração quase apaixonada, que o tempo e a distância já não alteravam. A poderosa palavra do mestre arrastava a persuasão íntima dos discípulos, convencidos de que aquilo que aprendiam com ele não podia ser diferente do que ele dizia. Todos o veneravam e o amavam. Hefele, na Theol. Quartalschrift, 1853, t. XXXII, p. 341-349; Id., Beiträge zur Kirchengeschichte, 1864, t. I, p. 185-149; K. Werner, Geschichte der kath. Theologie, 2ª ed., Munique e Leipzig, 1889, ver Índice, p. 630; Hurter, Nomenclator, 2ª ed., Innsbruck, 1895, t. III, col. 945-946; art. Drey, em Allgemeine deutsche Biographie; Georges Goyau, L'Allemagne religieuse, t. II, c. IV.
Autor original: P. Godet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor