DRIEDO Jean nasceu no lugarejo de Darisdonck, perto de Turnhout, em Campine, por volta de 1480. Nada se sabe de sua família, que era sem dúvida de condição modesta. Seu nome patronímico era não Driedo, mas Neys, segundo a maioria de seus biógrafos. Segundo Foppens, Bibliotheca belgica, t. II, p. 630, ele se teria chamado Driedoens; mas esta última palavra parece, ela mesma, não ter sido senão um apelido popular relacionado ao lugar de origem acima designado. O jovem Driedo fez, acredita-se, seus estudos humanísticos sob a direção de religiosos da vizinhança, os agostinianos do priorado de Corsendonck. Foi depois estudar filosofia em Lovaina, na pedagogia do Faucon. Sua aplicação e seus êxitos foram tais que, em 1499, obteve o primeiro lugar no concurso geral da faculdade de artes. Pouco tempo depois, encontramo-lo, no mesmo estabelecimento, encarregado de transmitir a outros os conhecimentos filosóficos que ali havia adquirido. Teve também de dirigir, na qualidade de preceptor, a educação do jovem príncipe de Croy, mais tarde bispo de Tournai, e irmão do célebre Guillaume de Croy, cardeal arcebispo de Toledo. É dessa época que datam provavelmente suas relações particulares com Adrien-Florent Boyens, de Utrecht. Aquele que devia mais tarde tornar-se papa sob o nome de Adriano VI era então professor de teologia em Lovaina e governador dos estudos de Carlos V, com quem habitava, às portas da cidade universitária, o castelo do Mont-César, antiga residência dos condes de Lovaina e dos duques de Brabante. Driedo havia abraçado o estado eclesiástico. Foi por conselho de Adrien Boyens, como ele mesmo conta no prefácio de seu tratado De captivitate et redemptione generis humani, que abandonou em parte as especulações filosóficas e científicas, para voltar-se mais para os estudos teológicos. Também aqui seus progressos foram rápidos e notáveis, e em 17 de agosto de 1512 foi promovido ao doutorado em teologia, depois de uma brilhante defesa presidida por Adrien Boyens, seu mestre e guia predileto. Aliás, seus méritos não haviam esperado até então para se revelar e ser reconhecidos no mundo universitário e fora dele. Já em 1509 entrava no conselho da universidade, como delegado da faculdade de artes; no ano seguinte (1510), tornava-se cônego do cabido de São Pedro de Turnhout, e, em junho de 1512, cura da paróquia de São Tiago, em Lovaina. Havia ainda sido encarregado, alguns meses antes, da direção do novo colégio de Houterlé, que o fundador Jean de Houterlé lhe confiou ao morrer, e conservou essa função até 1521. Entretanto, em 1520, foi provido, na igreja colegiada de São Pedro de Lovaina, de um canonicato ao qual estava vinculada uma das cátedras da faculdade de teologia da universidade. Tornou-se, portanto, a partir desse momento, professor de teologia, sem contudo abandonar seu ministério de cura; e seus próprios escritos, assim como outros documentos contemporâneos, mostram-no muito aplicado a cumprir um e outro desses deveres. Le Mire, Biblioth. eccles., part. II, c. xxii, e Foppens, loc. cit., atestam seu ardor e sua habilidade em expor e defender, tanto de viva voz quanto por escrito, a doutrina cristã, e Nic. Vernulus acrescenta que essas qualidades lhe valeram o apelido de arca da divina palavra, divini verbi arca. Durante quinze anos, isto é, até seu último dia, sustentou valorosamente o peso de sua dupla tarefa. Morreu em 4 de agosto de 1535, « vivamente lamentado, diz Le Mire, por todas as pessoas piedosas e instruídas, embora os livros por ele publicados fossem de natureza a suavizar esses pesares. » Seu corpo foi sepultado em sua igreja paroquial de São Tiago, ao pé do altar do Santíssimo Sacramento. Driedo deixou, como monumentos de seu saber e de seu zelo religioso, cinco obras principais. Apareceram com a aprovação de Ruard Tapper, que fora aluno do autor e que se gloriava disso. Nós as indicaremos segundo a ordem cronológica de sua publicação original.
1° De ecclesiasticis Scripturis et dogmatibus libri IV, in-fol., Lovaina, 1533; reimpresso na mesma cidade em 1543 e 1550. O primeiro livro trata das diversas partes que compõem a Sagrada Escritura e de sua autenticidade; o segundo, das traduções em diferentes línguas; o terceiro, da cronologia dos fatos bíblicos; o quarto, das partes apócrifas, bem como da existência de certos dogmas transmitidos apenas pela tradição. Com exceção das visões cronológicas, que necessariamente trazem a marca da época, toda a doutrina coincide perfeitamente com aquela que o concílio de Trento havia de fixar alguns anos depois. Pôde-se dizer que as regras de hermenêutica aqui formuladas « tiveram a insigne honra de ser adotadas pelo concílio. » De fato, eis, a respeito da Vulgata, uma passagem em que a concordância parece por vezes estender-se até às próprias palavras, e que deu origem a um singular equívoco literário: Apostolica sedes editionem Hieronymi vel approbavit vel acceptavit non tanquam penitus sic consonans Scripturis in suo fonte et in omnibus sic integram, puram ac restitutam, ut non liceat ulli examinare illam collatione facta ad suum fontem, vel in locis quibusdam dubitare si forsan Hieronymius sit assecutus verum Scripturae sensum, sed tanquam omnibus tunc factis preferendam, et in regulis fidei ac morum nusquam deviam, et tanquam quae publice legatur et recipiatur in usum. Essas palavras representam tão bem o pensamento teológico sancionado em Trento, que Serário e outros depois dele as citaram como interpretando, e interpretando fielmente, a decisão do concílio. O erro vem do fato de se ter tomado o texto de Driedo de uma edição relativamente recente, sem notar que a primeira é de 1533, ao passo que a IV sessão conciliar, na qual foram proferidos os dois decretos De canonicis Scripturis e De editione et usu sacrorum librorum, realizou-se em 8 de abril de 1546,
— 2. De captivitate et redemptione generis humani liber unus, in-4°, Lovaina, 1534; reimpresso em 1548. É no prefácio desse livro que Driedo relata como, advertido por Adrien Boyens contra uma dedicação demasiado exclusiva às ciências profanas, ut in hisce rebus ne quid nimis, tomou pouco a pouco uma orientação mais conforme a seus sentimentos religiosos: Paululum hunc retraxi animum, quod intellexerim, tales quidem has esse artes quas usque ad tempus discere oporteat, sed ridiculum penitus velle immorari illis, quibus uti oportet tanquam S. theologiæ ancillis.
— 3° De concordia liberi arbitrii et prædestinationis divinæ liber unus, in-4°, Lovaina, 1537. O objetivo do autor é defender a liberdade humana contra aqueles cujo erro assim define: Propter divinam prædestinationem, reprobationem, indurationem, excæcationem et id genus alia, quæ in Scripturis legimus, arbitrantur nullum esse hominis arbitrium, et sublatam esse voluntatem, et hominum opera non prodesse ad salutem, sed omnia pendere ex sola voluntate Dei aut prædestinantis aut reprobantis.
— 4° Dando naturalmente continuidade à terceira obra, a quarta intitula-se: De gratia et libero arbitrio libri duo, in-4°, Lovaina, 1537. Também nessa questão, o ensinamento de Driedo é tal que pareceria ter inspirado o do concílio de Trento. Julgue-se por este resumo: Illa Dei gratia est defendenda, ut non negetur hominis arbitrium; ita rursus liberum arbitrium statuendum est, ut non tollatur Dei gratia. Quisquis igitur Dei gratiam et liberum arbitrium recte intelligit, is in opere bono neutrum ab altero separat. Depois de ler os dois tratados precedentes, ninguém se admirará da observação de R. Tapper, afirmando que Driedo já havia ensinado, sobre a conciliação do livre-arbítrio e da graça, a teoria que se tornou depois tão célebre sob o nome de molinismo.
— 5° De libertate christiana, Lovaina, 1546. Como as duas anteriores, esta última obra só apareceu depois da morte do autor, mas parece, além disso, que nunca foi impressa separadamente. Aliás, ficou inacabada, e notam-se lacunas tanto no começo quanto no corpo do livro. Tal como está, encontrou lugar nas Driedonis opera omnia, das quais três edições foram publicadas pelos cuidados de Ruard Tapper. Essas edições compreendem cada uma 4 in-fol., e trazem as datas de 1546, 1552 e 1556. Todos os escritos de Driedo têm caráter polêmico; todos tendiam, mais ou menos diretamente, a combater os erros nascentes do protestantismo. Mas esse objetivo não os impede de modo algum de apresentar, sobre cada questão, uma exposição teológica objetiva e completa. O tom da controvérsia permanece sempre calmo e sereno; o estilo é simples e fluente, a igual distância da trivialidade e de uma afetação excessiva de elegância. Erasmo, tão pouco suspeito de ternura pelos escolásticos, afirma que, entre os teólogos de Lovaina, suas preferências vão para Driedo, em quem louva especialmente a ciência aliada a uma discussão de modo algum apaixonada, docte et sine affectu disputare. Aubert Le Mire, Bibliotheca ecclesiastica, 2 in-fol., Antuérpia, 1639 e 1649; Nic. Vernulæus, Academia Lovaniensis, Lovaina, 1667; Foppens, Bibliotheca Belgica, Bruxelas, 1739, t. I; Van den Broeck, De Joannis Driedonis vita meritisque, em l'Annuaire de l'université catholique de Louvain, de 1859, Lovaina, 1859, p. 241 sq.; Reusens, art. Driedo, em la Bibliographie nationale de Belgique, Bruxelas, 1878, t. VI.
Autor original: J. Forget
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