DOUKHOBORS

DOUKHOBORS

DOUKHOBORS. — I. História. II. Doutrinas. I. História. — Os Doukhobors formam talvez a menos numerosa das seitas russas; não obstante, as peripécias de sua história valeram-lhe outrora grande celebridade, mesmo no Ocidente. Tira o seu nome de duas palavras russas: duch (espírito), boretz (lutador). Os Doukhobors seriam, portanto, os lutadores do espírito. Mas a esse nome atribui-se um duplo sentido. Os Doukhobors dão-lhe um sentido positivo, em razão do qual se consideram como os defensores do Espírito. Lutam por sua glória, para espiritualizar a religião cristã, livrando-a de seu formalismo exterior, do culto, no qual veem um esquecimento dos princípios do cristianismo primitivo. Mas os seus adversários tomam o nome num sentido negativo. Os Doukhobors seriam os inimigos do espírito, visto que rejeitam a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre as almas. Ao rejeitarem os sacramentos e a visibilidade da Igreja, reduzem o cristianismo a um código rudimentar de moral, fundado no adogmatismo religioso. O povo baixo ainda chama os Doukhobors de molokans (de moloko, leite), porque não guardam a abstinência de leite e de carne nos dias de jejum, e de franc-maçons (alteração da palavra franc-maçon), porque não levam em conta as leis e os preceitos da Igreja. Os Doukhobors, por seu lado, chamam-se a si mesmos filhos de Deus, homens de Deus, cristãos espirituais, para indicar que Deus derrama sobre eles, com maior abundância, as efusões interiores de sua graça. O nome de Doukhobor foi empregado pela primeira vez em 1792 por Ambrósio Serebrênnikov, arcebispo de Ecaterinoslau (1786-1789). Novitzky, p. 2; Birioukov, p. 6-7. As origens dos Doukhobors são muito obscuras. Não temos, para esclarecê-las, nem documentos, nem sequer uma tradição oral. Os Doukhobors afirmam que receberam suas teorias religiosas e sociais dos três jovens hebreus, lançados numa fornalha ardente, por terem recusado adorar a estátua de Nabucodonosor. Novitzky supõe que esse dado é uma simples alegoria, que designa talvez os chefes da seita condenados à morte nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, Kuhlman e Nordmann, queimados vivos em 1689, por terem pregado a segunda vinda de Cristo, e Dimitri Tvéritínov, que, com seus adeptos, subiu à fogueira, em Moscou, em 1713, p. 18-16. Essa suposição não se apoia em nada, e o elemento lendário encontra-se no berço de todas as seitas russas. A primeira informação positiva sobre os Doukhobors remonta ao ano de 1791. O conde Kakhovsky, governador de Ecaterinoslau, convidou os numerosos Doukhobors de sua província a lhe expor os pontos principais de suas crenças. Estes lhe entregaram uma Confissão de fé ou Memorandum, que é uma peça de primeira ordem para a história doutrinal da seita. Foi publicada por N. Tikhonravov, nas Leituras da sociedade de história e de antiguidades russas, da universidade de Moscou: Zapiska podannaia Dukhoborizani Ekaterinoslavskoi gubernti v 1791 godu gubernatoru Kakhovskomu, 1874, t. II, p. 26-79. Declaravam aí ter recebido suas crenças de um camponês da aldeia de Nikolskoe ou Nikolaévka, distrito de Pavlograd, governo de Ecaterinoslau. Esse camponês, chamado Silvano Kolesnikov (1750-1775), adquirira grande renome de virtude e de retidão, graças ao qual pudera difundir suas doutrinas. Não se poderia, no entanto, considerar Kolesnikov como o fundador e o primeiro apóstolo da seita. Do ponto de vista doutrinal, esta tem muita afinidade com a seita dos quakers, importada para a Rússia em 1740 por um suboficial prussiano, que fixara sua sede na aldeia de Okhotchee, distrito de Zmiev, governo de Kharkov. Do mesmo modo, em Moscou, em 1737, descobria-se outra seita russa, que se aproximava muito dos Doukhobors atuais. Em 1717, em Kharitonovka, distrito de Ouglitch, um soldado do corpo dos Strélitz fazia-se passar por um novo Cristo, e negava a visibilidade da Igreja e a eficácia dos sacramentos para a salvação. Novitzky crê descobrir laços de parentesco entre os Doukhobors e os falsos Cristos, que, já desde o século XII, aparecem na Rússia por diversas vezes. A seu ver, por meio desses falsos Cristos, os Doukhobors ligam-se aos bogomilos, emigrados para a Rússia desde a própria aurora do cristianismo russo, e, pelos bogomilos, aos montanistas e aos maniqueístas. No fim do século XVIII, os Doukhobors espalham-se por muitas províncias russas. Encontram-se, em grupos numerosos, nos governos de Kharkov, Tambov e Ecaterinoslau. Algumas centenas de cossacos do Don entregam-se, de corpo e alma, à seita. O governo russo não tarda a preocupar-se com a propaganda dos Doukhobors; exila para a Sibéria os cossacos que dela faziam parte, e comina contra a seita penas severas. Os Doukhobors da província de Tambov foram exilados para a Sibéria: tentou-se em vão, pelo knute e pelo açoite, levar à resipiscência os Doukhobors de Perekop, na Tauride. O governo russo levou o rigor ao ponto de cortar o nariz a vários camponeses da aldeia de Tebnéchev, distrito de Berjetzk, governo de Tver. Sob o reinado de Alexandre I (1801-1825), os Doukhobors respiraram mais à vontade. Dois senadores, Lopoukhine e Nélédinsky Méletzky, receberam a missão de visitar os centros da seita e de fazer um relatório ao governo. Dirigiram-se à província de Kharkov, e entraram em contato com os chefes da seita. Os Doukhobors protestaram sua submissão ao poder civil e pediram para deixar suas aldeias, e se estabelecer onde lhes fosse permitido viver conforme suas teorias. Sobre um relatório favorável dos dois senadores, Alexandre I, por um ucasse de 25 de janeiro de 1802, deferiu o seu pedido, e autorizou-os a se estabelecer às margens do Molotchnaia, num lugar chamado Molotchnyiia vody (as águas do Molotchnaia), que abrangia uma imensa extensão de terras, regadas por numerosos rios e regatos. Após a promulgação desse ucasse, 300 Doukhobors voltaram da Sibéria, e se estabeleceram em sua nova residência. Tinham à sua frente Cirilo, filho de Silvano Kolesnikov. Outro ucasse, de 16 de dezembro de 1804, concedeu a mesma concessão aos Doukhobors de Tambov e de Voronej, que, no número de 500, em 1805, emigraram para a mesma localidade. Ali foram conduzidos por Savélio Kapoustine, que era venerado como uma reencarnação de Cristo. Os Doukhobors continuaram a se agrupar às margens do Molotchnaia até 1821. Em 1808, já haviam construído nove aldeias: Bogdanovka, Spasskoe, Troitzkoe, Terpiénie, Tambovka, Rodionovka, Ephrémoyka, Goriéloe, Kirillovka. Terpiénie fora escolhida como a sede do cantonamento da seita. Ali se erguera uma casa, chamada Sião, para abrigar os órfãos e os inválidos. Kapoustine era como que um pequeno soberano para essas colônias nascentes. Entregavam-lhe todas as rendas do solo e do trabalho, e ele delas dispunha a seu bel-prazer. Por sua morte, deixou bens consideráveis à sua família. Os Doukhobors conheciam esses abusos, contra os quais não protestavam. A situação dos Doukhobors mudou bruscamente sob o reinado de Nicolau I (1825-1835). A política da intolerância e do fanatismo religioso retomou a dianteira. Já sob Alexandre I, o clero ortodoxo se queixara do rápido desenvolvimento da seita. Job Potemkine, arcebispo de Ecaterinoslau (1812-1823), instara o governo a adotar medidas severas para deter esse crescimento. Nicolau I julgou que era tempo de levar em consideração os gritos de alarme do clero, e ditou leis excepcionais contra a seita. Os Doukhobors retomaram o caminho da Sibéria. Proibiu-se-lhes, sob pena de exílio ou de prisão, a propaganda religiosa, e limitaram-se seus direitos civis. Os Doukhobors do Molotchnaia não tardaram também a sentir as consequências da mudança de regime. Suas colônias eram prósperas. A riqueza gerara o relaxamento dos costumes. Aqueles que os antigos relatórios dos governadores russos descreviam como homens muito virtuosos e muito abstêmios entregavam-se à bebida. Seu chefe, Hilarion Kalmikov, dava o exemplo desse desregramento. A isso se acrescentavam as dissensões internas da comunidade, que forneceram a Nicolau I o pretexto para transplantar as colônias do Molotchnaia para a Transcaucásia, em meio aos tártaros. Em 1841, 4000 Doukhobors receberam ordem de deixar sua residência, e de emigrar para o distrito de Akhaltzykh, a oeste de Tiflis, perto dos montes Mokry (úmidos). Foram seguidos por 800 de seus correligionários em 1842, e por 900 em 1843, 1844 e 1845. Construíram logo novas aldeias, às quais deram o nome das antigas. A casa dos órfãos foi erguida na aldeia de Goriéloe. Nicolau I logo percebeu que se enganara em seu plano de extermínio dos Doukhobors. Os tártaros, com os quais se contava para lhes tornar a vida insuportável, deixaram-nos em paz. Sob a hábil direção de uma mulher enérgica, Lucéria Kamylkova, esposa do falecido Hilarion, as colônias se reorganizaram, as tradições de trabalho e de austeridade foram restauradas em honra, e a antiga prosperidade voltou a florescer na nova residência. Em 1886, Lucéria morreu; antes de morrer, confiara a direção de seu pequeno reino a um camponês chamado Piotr Vassílievitch Vérighine. Mas, por intrigas do irmão de Lucéria, a casa dos órfãos foi despojada de seus bens e de suas rendas. Seguiu-se um processo, que terminou com o exílio de Vérighine para Chenboursk, na província de Arkhangelsk. A comunidade, no entanto, não ficou privada de seu chefe. De seu exílio, Vérighine continuou a lhe enviar suas instruções, e sua autoridade não fez senão aumentar. O governo russo teve conhecimento dessas relações clandestinas, e relegou Vérighine a Odborsk, uma das cidades mais isoladas da Sibéria. Vérighine ali se dirigiu. Enquanto morava em Chenboursk, percorrera algumas obras de Tolstói, e sofrera a sua influência. De passagem por Moscou para ir à Sibéria, recebeu a visita de seu irmão Basílio Vérighine, e de seu primo Basílio Véréchtchaghine. Por intermédio deles, instou seus correligionários a recusar prestar juramento e a servir no exército, e a renunciar à propriedade individual. Os Doukhobors obedeceram, sem se preocupar em nada com as consequências desagradáveis de sua submissão às ordens de seu chefe. Em 1895, aqueles dentre eles que serviam nos regimentos de Elisabetpol depuseram as armas, e declararam que não pretendiam mais submeter-se à disciplina militar. Foram condenados a vários anos de prisão. Seu exemplo foi logo seguido pelos Doukhobors aquartelados em Kars, Akhalkalaki, Tiflis, Manglis. Não se hesitou em submeter alguns deles à tortura. Permaneceram inabaláveis. Ao mesmo tempo, os chefes das aldeias habitadas pelos membros da seita resolveram queimar todas as armas que estavam em sua posse: o que fizeram na noite de 28 para 29 de junho de 1895. Para puni-los, o príncipe Cherwachidzé submeteu as aldeias à lei marcial, e as deixou à mercê de algumas centenas de cossacos, que saquearam as casas, e violentaram algumas mulheres em Bogdanovka. Mas logo essas medidas foram julgadas insuficientes. Em consequência das ações de Pobiedonostzev, que trabalhava com afinco para extirpar na Rússia as confissões heterodoxas, o governo expulsou novamente os Doukhobors de suas residências e os dispersou, em grupos de 2 ou 5 famílias, pelas aldeias georgianas dos distritos de Douchet, Gori, Tiounety e Signakh. Os infelizes não tiveram sequer tempo de vender seus bens e seus rebanhos, e de levar seus móveis. Não tardaram a ser reduzidos à fome, enquanto as autoridades civis os importunavam com vexames, e as doenças, devidas ao rigor do clima, os dizimavam. No espaço de três anos morreram 450 deles. Crendo-se votados a um próximo desaparecimento, os Doukhobors abstiveram-se até de procriar filhos. Muitos dentre eles ficaram cegos. Mas não se deixaram abater pela adversidade, e declararam que estavam prontos a morrer antes de renunciar às suas convicções. O conde Tolstói e os quakers ingleses interessaram-se então pela sorte da seita tão cruelmente provada. Numa carta de 19 de março de 1898, o primeiro chamava sobre ela a atenção do mundo civilizado, e implorava socorros para aliviar seus sofrimentos. Os chefes da seita pediram que se lhes permitisse ao menos emigrar para uma colônia inglesa. O governo russo cedeu, sob condição de que não mais voltariam à Rússia, e de que emigrariam às suas próprias custas. Essas condições foram aceitas. Os Doukhobors decidiram-se a deixar sua terra natal. Enviaram a Londres dois delegados, Ivan Ivine e Piotr Makhortov, incumbindo-os de pedir ao governo inglês a autorização de se fixarem na ilha de Chipre ou no Canadá. No mês de agosto de 1898, uma primeira expedição de Doukhobors aportou em Chipre e foi dirigida para as aldeias de Pergamos, Kouklia, Atalassa. Ali sentiram logo os efeitos do ar insalubre. Grande número adoeceu e, em poucos meses, morreram 81. Os demais Doukhobors deixaram a Rússia para se estabelecer no Canadá. No mês de janeiro de 1899, chegaram 2000, que foram dirigidos para a província de Manitoba. Foram seguidos, em breve prazo, por 4000 de seus correligionários das províncias de Kars e de Elisabetpol, e pelos 1000 emigrantes de Chipre. Houve assim, em Manitoba, um núcleo importante de 7000 Doukhobors. O governo lhes fez um acolhimento muito hospitaleiro. Em 1902, foram alcançados por Vérighine e pelos demais exilados da Sibéria. Começaram a se organizar de novo, mas desagradáveis decepções os esperavam. Manifestaram ao governo o desejo de possuir suas terras apenas em comum, e de não declarar seus casamentos, nascimentos e óbitos. As autoridades responderam que não havia, no Canadá, senão um único código de leis, e que não se podia revogá-lo para eles. Os Doukhobors persistiram teimosamente em sua utopia. Chegaram até a soltar seus rebanhos, não se reconhecendo o direito de comandar os animais, como a escravos, e a não usar mais sapatos, considerando-os como produto da violência e do assassínio. As autoridades canadenses renunciaram então a tratar com benevolência os Doukhobors, e, em 1907, as terras aráveis que lhes haviam sido atribuídas lhes foram retomadas. Os Doukhobors não se comoveram com isso.

Continuaram a viver pobremente, esperando que Deus lhes abrisse as fronteiras de outras regiões, onde poderiam se estabelecer segundo seu ideal.

II. Doutrinas. — Para os Doukhobors, a religião revelada não é senão o conhecimento interior de Deus, a iluminação da alma por Deus, uma inspiração sobrenatural que lhe explica as verdades que recebeu imediatamente do Verbo divino ou da Sagrada Escritura. Livanov, t. I, p. 93. A Escritura foi sem dúvida dada por Deus aos homens; mas não é o fundamento de suas crenças. Deve-se dela extrair o que é útil para a salvação, e afastar tudo o que não corresponde a esse fim. Os Doukhobors abusam do sentido místico na interpretação dos Livros Santos. Os relatos da Bíblia são para eles simples alegorias, desprovidas de toda base histórica. Caim, por exemplo, é um ser imaginário que simboliza o mau filho e seu castigo; o milagre de Caná significa o casamento espiritual de Jesus Cristo com a alma fiel, «esse casamento que, nas lágrimas do arrependimento sincero, derrama o néctar dos anjos.» Os livros inspirados não estão isentos de erros. Um dos chefes da seita, Hilarion Pobirokhine, aconselhava até a não os ler, para se poupar da ocasião de cair em erro. Novitzky, p. 242-243. À Sagrada Escritura deve-se preferir a tradição, o livro vivo, assim chamada porque está gravada na memória e no coração dos eleitos (os Doukhobors) e porque se opõe à Bíblia, que é letra morta. Mas essa tradição não é de modo algum a voz da Igreja viva, que se perpetua através dos séculos. Consiste simplesmente numa coletânea de salmos, na qual entram, como elementos essenciais, trechos do Saltério e da Bíblia, e os preceitos religiosos dos chefes da seita. Segundo os Doukhobors, esses salmos seriam tão numerosos que um único homem, estudando-os a vida inteira, não poderia aprendê-los de cor. Formam, pois, um tesouro doutrinal que pertence a toda a comunidade. Transmitem-se de pai para filho. É assim que não perecem, e que jamais perecerão, tanto mais que Jesus Cristo, o mestre que os ensina, é imortal. A Bíblia está destinada a desaparecer, porque está misturada de erros; mas os salmos, que os Doukhobors recitam, jamais se apagarão da memória dos eleitos. Remontam às próprias origens do cristianismo: são Mateus, são Marcos e são Lucas consignaram por escrito o relato da vida e das obras de Cristo. Mas não tiveram essa iluminação interior, que os teria preservado do erro. Outros recolheram fielmente as doutrinas do Verbo de Deus e as transmitiram a seus descendentes sem qualquer alteração. Na Bíblia e na tradição, os Doukhobors escolheram, como num monte de trigo, os grãos mais puros, e com eles compuseram o livro vivo, que as brumas da razão humana jamais obscurecerão. Novitzky, p. 243-248. Vários desses salmos foram publicados por Novitzky e Birioukov. Seria demasiado longo analisá-los aqui. Ao lado de pensamentos tomados à Sagrada Escritura, encontram-se sentenças que não se harmonizam com a doutrina cristã. Encontram-se aí também alusões malévolas à Igreja ortodoxa e ao formalismo exterior de seu culto. No que diz respeito à Igreja, os Doukhobors sustentam que ela não é necessária. O homem precisa de uma Igreja eterna, de uma Igreja que não é construída em pedra ou em madeira, mas na parte mais íntima da alma. Essa Igreja não tem fronteiras aqui embaixo. Existe entre todos os povos e em todas as religiões: os judeus, os maometanos, os próprios pagãos dela fazem parte, contanto que Deus os ilumine interiormente. O número dos Doukhobors é, pois, considerável. Há muitos que professam sua doutrina, mas temem manifestá-la. A Igreja é assim a assembleia daqueles que caminham na luz e na vida. Não tem símbolo. Sua liturgia não é a mesma em toda parte; seus adeptos não formam uma única sociedade: ela se oculta sob nomes diversos, mas está espalhada por todo o universo. Livanov, p. 82-83. A hierarquia é ainda menos necessária do que a Igreja. Jesus Cristo é o único sacerdote que salva as almas. Todos os que sofrem interiormente a influência do Verbo de Deus têm o direito de se chamar continuadores de seu sacerdócio. O verdadeiro sacerdote de Cristo é aquele que é doce nos modos, e puro nos costumes. Para exercer seu ministério, ele não tem necessidade alguma de uma vocação de Deus, nem de admissão em uma casta especial. O próprio Cristo o escolhe nas fileiras do povo, da nobreza ou do clero exterior. Inunda sua alma com sua luz divina e o torna apto a cumprir sua missão. A preparação para o sacerdócio deve ser, portanto, mais interior do que exterior. O clero exterior e visível não é santificado pela cerimônia da consagração. Não merece nenhuma veneração. Prega, mas sua pregação é estéril, porque Deus não o ilumina interiormente. Só pensa no formalismo exterior do rito. Sua palavra não conduz pelos caminhos da salvação. Somente os sacerdotes interiores, os sacerdotes escolhidos por Deus segundo sua vontade, dão a seus ouvintes o conhecimento das verdades divinas, o arrependimento de suas faltas. Em suma, o sacerdócio visível é um rebanho de mestres sem doutrina e de médicos espirituais incapazes de curar as almas: há apenas um único sacerdócio invisível, que se revela em alguns eleitos por grandes clarezas interiores. Livanov, p. 84-85; Novitzky, p. 248-249.

Os Doukhobors admitem a existência de uma Trindade nominal. O Pai é a memória, o Filho a razão, e o Espírito Santo a vontade. A Trindade é o próprio Deus, que está na alma como memória, razão e vontade. Pobirokhine levava essa teoria até suas últimas consequências e ensinava que a Trindade não é independente em seu ser. Ela se encarna no gênero humano, e em particular nos eleitos, nos filhos de Deus. As três hipóstases divinas são como a luz, a vida, o repouso, como as três dimensões dos corpos. Não são realmente distintas, mas representam três forças de Deus, ou três manifestações. Nesse ponto, a doutrina trinitária dos Doukhobors, como observa Novitzky, aproxima-se da Trimurti dos hindus, Chantepie de la Saussaye, Manuel d'histoire des religions, Paris, 1904, p. 418, e do sabelianismo. Hergenröther, Handbuch der allgemeinen Kirchengeschichte, Friburgo, 1902, t. I, p. 247.

Deus criou as almas humanas antes do mundo. Elas partilhavam com os espíritos celestes a felicidade de viver em Deus. Em consequência das instigações de Satanás, caíram no pecado e foram condenadas a revestir nossa carne. Os eleitos só recebem sua alma entre os 6 e os 15 anos de idade, quando estão em condições de assimilar a doutrina do Verbo. As almas caíram antes da criação do mundo, ao quererem satisfazer sua sede de grandeza e de poder. Essa queda se repetiu na alma de Adão, que cedeu aos desejos da carne corrompida, simbolizada na serpente do Éden; ela se repete todos os dias nas almas pecadoras. A falta de Adão não se transmite à sua posteridade, mas sua influência subsiste no mundo. Ao nascer, o homem traz consigo a inclinação para o mal. Sua alma está encerrada no corpo como numa prisão, mergulhada como numa caldeira onde fervilham os elementos mais malfazejos. Ao nele penetrar, ela perde a lembrança do que viu, aprendeu e fez antes da criação do mundo. Os Doukhobors nada dizem sobre a origem do mal. A seu ver, a bondade ou a malícia dos filhos se prende à bondade ou à malícia dos pais. Esse vínculo, porém, não é de tal natureza que impeça os filhos, nascidos de maus pais, de trabalhar por sua salvação. Todo homem, diante de Deus, só é responsável por suas próprias faltas, e seria injusto fazê-lo sofrer a vergonha e o castigo de seu primeiro pai. O pecado não tem posteridade. O homem cai por si mesmo, e ressuscita graças a seus esforços pessoais. As almas sofrem as vicissitudes da metempsicose. As que nada têm a se reprovar emigram para os homens virtuosos, e as que merecem os castigos de Deus passam para os corpos dos brutos. Birioukov, p. 15-16; Novitzky, p. 225-226; Prav. Sobes., p. 307-308.

Os Doukhobors negam a ressurreição dos corpos. No fim do mundo, Deus virá julgar as almas. Mas esse fim do mundo consiste apenas na extinção do pecado. O que é material e impuro tornar-se-á eterno e luminoso. Os homens não deixarão de nascer, de trabalhar e de morrer. Não há, portanto, propriamente falando, vida presente e vida futura, céu e inferno. O céu é o bem, e o inferno é o mal. Se o bem germinou na alma durante a vida daqui de baixo, florescerá no céu e será a fonte da felicidade, que consiste no afastamento do diabo e de sua influência. Livanov, p. 81-82; Novitzky, p. 226-227.

Jesus Cristo não é Deus. É um homem que possui em grau supremo a propriedade da razão divina. Nesse sentido, é chamado filho de Deus. Nasceu de Maria de maneira natural. Sua morte não é um sacrifício que resgata o gênero humano. É apenas uma imagem, um símbolo do que se passa a respeito dos Doukhobors. Seus sofrimentos não tiveram outro fim senão o de dar o exemplo da paciência e da resignação. O corpo de Jesus Cristo não foi isento da corrupção da carne. Mas sua alma continua a exercer sua influência sobre os eleitos, despertando neles a razão divina. Essa razão, após a morte de Cristo, fixou sua sede nos apóstolos, em seus sucessores e, enfim, nos Doukhobors. Ela se revelou de maneira toda especial nos chefes da seita, Kolesnikov, Pobirokhine e Kapoustine. A alma de Cristo não difere em nada de nossas almas, e está submetida como elas à metempsicose. O objetivo principal de sua missão foi nascer, viver e morrer nos homens de modo espiritual. Cristo é o evangelho vivendo eternamente em nós. Seu nascimento, sua vida, sua paixão, tudo deve ser entendido em sentido místico. Tudo o que é narrado de Cristo no Evangelho deve se repetir a nosso respeito. Ele é a vida, e essa vida é em nós o princípio de um novo nascimento. Sem Cristo, não há salvação. A fé nele é necessária, mas a pureza do coração é requerida para merecê-la. Alguns Doukhobors, entre outros Pobirokhine, negam a existência do Espírito Santo. Em geral, não lhe reconhecem nenhuma influência sobrenatural. Cristo basta à vida da alma. Os Doukhobors rejeitam os sacramentos como inúteis. O batismo apenas umedece o corpo. O verdadeiro batismo é o sofrimento. Jesus Cristo não foi batizado na água, mas no sangue. Se não houver meio de receber o batismo da paixão, deve-se receber o batismo do Verbo de Deus. As crianças mortas sem batismo não são admitidas nem no céu nem no inferno. Alguns Doukhobors creem, porém, que sua salvação depende da de seus pais. Não há senão um único homem em mil e uma única mulher em um milhão que se salvam. Novitzky, p. 249; Livanov, p. 86; Birioukov, p. 14-15.

A confirmação é tão inútil quanto o batismo. O próprio Deus revela esse dom a quem lhe apraz, sem que seja necessária para isso uma cerimônia exterior. Quanto à confissão, a Igreja não tem nem o poder de ligar, nem o poder de absolver. A verdadeira confissão é o arrependimento sincero do coração. Deve-se acusar-se diante de Deus dos pecados secretos e diante dos homens dos pecados públicos. É um pecado muito grave negar sua falta, quando ela é conhecida. Os Doukhobors convidam os pecadores públicos a se acusarem de suas faltas em suas assembleias, e, em caso de recusa, os expulsam de sua sociedade. Novitzky, p. 249-250; Birioukov, p. 15-16.

A comunhão nada dá à alma. O pão e o vinho nutrem o corpo, mas não exercem influência espiritual alguma. Comunga-se recebendo o Verbo de Deus. O matrimônio não é um sacramento. O consentimento mútuo dos dois cônjuges e um juramento interior bastam. A infidelidade ou a incompatibilidade de caráter são duas causas que justificam o divórcio. Novitzky, p. 250-251.

A oração é útil, mas deve consistir na recitação dos salmos. Pode-se venerar a mãe de Deus e os santos, mas é inútil dirigir-lhes orações, porque eles só ganharam méritos para si mesmos. É inútil orar pelas almas alheias ou pelos defuntos. Os Doukhobors não fazem o sinal da cruz. Recitam salmos em comum, ora num quarto, ora ao ar livre. Antigamente, oravam em silêncio nas igrejas ortodoxas. Kolesnikov chegava mesmo a autorizar seus aderentes a orar nas igrejas católicas, luteranas, etc. Em suas reuniões, os homens se colocam à direita, as mulheres à esquerda, e leem, cada um por sua vez, os salmos que preferem. Terminada a leitura, cantam vários salmos em comum. Prav. Sob., p. 313-315.

Os Doukhobors rejeitam os ícones, como proibidos pela lei de Moisés, e não observam o jejum. O verdadeiro jejum é espiritual e consiste na renúncia aos desejos e às paixões más. Não têm festas especiais. Mas não trabalham nos dias das festas ordinárias, para não atrair sobre si perseguições. Escolhem esses mesmos dias para se dedicar à oração e ao canto dos salmos. Strahl, Beiträge zur russischen Kirchengeschichte, Halle, 1827; O raskolnikakh, poselennykh tavritcheskoi gubernii v melitopolskom wiezdie (Os raskólnikes, transferidos para o governo da Tauria, distrito de Melitopol), São Petersburgo, 1828; Lenz, Commentationes de Duchoborcis, Dorpat, 1829; Novitzky, Dukhobortzy, ikh istoriia i vieroutchenie (Os Doukhobors, sua história e suas doutrinas religiosas), Kiev, 1832; 2ª ed., 1882; é a obra mais completa sobre os Doukhobors; Haxthausen, Studien über die innern Zustände Russlands, Hanôver, 1847; Raskolniki na Kavkazom : dukhobortzy (Os raskólnikes na Transcaucásia: os Doukhobors), Pravoslavny Sobesiednik, 1859, t. I, p. 298-323; Zapiski niekotorykh obstoiatelstv jizni i slujby senatora J. B. Lopukhina (Memórias sobre alguns episódios da vida do senador J. Lopoukhine, e das missões que lhe foram confiadas), Lectures de la Société d'histoire et d'antiquités russes, 1860, t. III, p. 83-172; Niekotoryia certy o obchtchestvie dukhobortzev (Alguns traços característicos da sociedade dos Doukhobors), Lietopis rousskoi litteratury i drevnostei, Moscou, 1851, t. IV, p.

3-16; Melnikov, Pisma o raskol-lie (Cartas sobre o raskol), São Petersburgo, 1862; Lopoukhine, Vypiska o dukhoborizakh (Notícia sobre os Doukhobors), Lectures de la Société d'histoire et d'antiquités russes, Moscou, 1864, t. IV, p. 46-48; Livanov, Tambovskie molokane i doukhobortzy v xvii viekie : istoritcheskii otcherk (Os molokans e os doukhobors de Tambov no século XVII), Vsemirnyi Trud, 1867, t. II, p. 245-297 (importante); Raskol v tavritcheskoi gubernii (O raskol no governo da Tauria), Pravoslavnoë Obozrienie, 1867, t. I, p. 338-341; Livanov, Molokane i dukhobortzy v Ukrainie i Novorossii (Os molokans e os doukhobors na Ucrânia e na Nova Rússia (Novorossiiskii krai)), Viestnik Evropy, 1868, n. 40, p. 673-701; n. 42, p. 809-836; Dobrotvorsky, Liudi boji, Kazan, 1869; Tikhonravov, Zapiska podannaia dukhobortzami ekaterinoslavskoi gubernii v 1791 godu gub. kakhovskomu (Memorando apresentado pelos Doukhobors do governo de Ecaterinoslav ao governador Kakhovsky), Lectures, etc., 1871, t. I, p. 26-79; Livanov, Raskolniki i ostrojniki: otcherki i razskazy (Os raskólnikes: ensaios e narrativas), Moscou, 1872, t. I, p. 57-94, 255-272, 366-394, 452-473, 482-500, 511-526, 543-586, 594-618, 627-648 (muito importante: o autor publica aí o catecismo dos Doukhobors); Tikhonravov, Zapiska o razgovorie s dvumia dukhobortzami arkhimandrita Evgeniia, v posliedstvii mitropolita Kievskago (Memória sobre o colóquio entre dois Doukhobors e o arquimandrita Eugênio, depois metropolita de Kiev), Lectures, etc., 1874, t. V, p. 137-145; Arséne, metropolita de Kiev, Zapiska o molokanskoi i drugikh sektakh v tambovskoi eparkhii (Memória sobre os molokans e as outras seitas da eparquia de Tambov), Troudy de l'Académie ecclésiastique de Kiev, 1875, t. I, p. 149-166; Dukhovnije khristiani : otcherk (Os cristãos espirituais: ensaios), Viestnik Evropy, 1880, n. 44, p. 7-17; Abramov, Dukhobortzy, Otetchestv. Zapiski, 1883, t. 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Iverskoi, Dukhobortcheskaia epopeia, São Petersburgo, 1900; Id., Novyia glavy dukhobortcheskoi epopei (Novos capítulos da epopeia dos Doukhobors), São Petersburgo, 1901; Strannik, Les Doukhobors, em Revue de Paris, 1901, t. V, p. 865-898; Skvortzov, Missionerskui Sputnik (O guia dos missionários), São Petersburgo, 1902, p. 447-461; Obolensky, Krititcheskii razbor vieroispoviedaniia russkikh sektantov ratzionalistov : dukhobortzev, molokan, i stundistov (Exame crítico das confissões de fé dos sectários russos racionalistas: doukhobors, molokans e stundistas), Kazan, 1903; Elkinton, The Doukhobors, their history in Russia, their migration to Canada, Filadélfia, 1903; Maude, A peculiar people : the Doukhobors, Londres, 1904; Pravoslavnaia bogoslovskaia Entziklopediia, São Petersburgo, 1904, t. 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O livro vivo ou jivotnaia kniga dos Doukhobors foi publicado integralmente por Bontch-Bronévitch, São Petersburgo, 1909.

Autor original: A. Palmieri

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