DÖLLINGER (INÁCIO)

DÖLLINGER (INÁCIO)

DÖLLINGER (I. E.). — I. Vida. II. Obras.

I. Vida. — Podem-se distinguir aí três períodos: o primeiro, que se estende de 1799 a 1861 e se encerra com as Conferências do Odeon; o segundo, que vai de 1861 a 17 de abril de 1871; o terceiro, que compreende os últimos anos de Döllinger, a partir de sua excomunhão até sua morte.

1º Primeiro período, 1799-5 e 9 de abril de 1861. — João José Inácio de Döllinger, o príncipe dos sábios católicos da Alemanha no século XIX, e o chefe, com Möhler, da escola histórica alemã, nasceu em Bamberg, em 28 de fevereiro de 1799, numa velha e honrada família de médicos, na qual o zelo pela ciência era, ao que parece, hereditário. Inácio de Döllinger, seu pai, morreu em 1841, membro da Academia de Ciências da Baviera e professor na universidade de Munique; fisiologista eminente, seu nome e sua memória não pereceram. A criança, no lar paterno, sentirá despertar em si desde cedo uma curiosidade universal e insaciável; nele será já possuído pela paixão pelos livros, que se confundia com o desejo de saber e de aprender, como também pela religião, digamos antes, pela superstição da ciência; nele desdobrará uma rara variedade de aptidões, e permanecerá até o fim de sua longa carreira, animado dos mesmos gostos, aplicado aos mesmos trabalhos. A literatura, a filosofia, a história, a teologia, as matemáticas, as ciências naturais e, em particular, a entomologia, o ocuparão simultânea ou sucessivamente. Mas é um dos traços dessa curiosa fisionomia que Döllinger, satisfeito com seu campo primitivo de estudos, guardará sempre o cuidado de aprofundá-lo e de nele se fortalecer, não de estendê-lo e de nele anexar novas províncias. Os progressos da arqueologia sagrada, da epigrafia, da história da arte, há mais de meio século, serão quase para ele coisa não acontecida; nele não tomará nenhuma parte nem nenhum interesse. Em suma, Döllinger será homem do passado bem mais do que homem do presente. Na ordem política, os remanejamentos contemporâneos do mapa da Europa não abalarão suas ideias conservadoras, aliás particularistas, de 1848; e, na ordem religiosa, as impressões da legenda de um retrato de são Bernardo, que lhe cairá sob os olhos aos dez anos de idade: Utinam mihi liceret videre Ecclesiam sicut in diebus antiquis, jamais se apagarão. A erudição clássica de Döllinger será, portanto, imensa; pode-se dizer, com a ressalva indicada, que Döllinger lerá tudo e conhecerá tudo. Por infelicidade, não conhecerá os homens. Por não os conhecer, deixar-se-á governar e demasiadas vezes explorar por eles. Em todas as fases de sua vida, a influência feliz ou funesta de seu círculo sobre suas produções literárias, como sobre suas opiniões e suas resoluções, salta aos olhos. A firmeza de caráter não era o forte do grande sábio e contrastava estranhamente com a elevação e a envergadura de seu espírito; dir-se-ia dele uma cana pintada de ferro. Simples, alegre, benevolente, afável mesmo em sua intimidade, amigo fiel, conversador encantador e quase sem rival, Döllinger será sobretudo um cérebro. O culto da ciência preencherá sozinho e dirigirá sua vida. Assim, suas preocupações intelectuais decidirão em boa parte sua vocação sacerdotal. Nenhum traço nele, em momento algum, nem de aspirações místicas nem de fervor ascético. Já em 1818, com menos de vinte anos, a ciência lhe basta para tudo; tinha a faculdade indefinida de se absorver no estudo; é com as armas da ciência que sonhava servir a Igreja, defender-lhe a liberdade contra as ingerências de fora e trazer de volta ao seu seio as Igrejas separadas. Quando, terminados com brilho seus estudos secundários, Döllinger fizer sua teologia, primeiro na universidade de Würzburg durante três anos, depois no seminário de Bamberg, não escapará ali ao contágio do ambiente. O sopro da reação dos primeiros anos do século XIX contra a filosofia e a incredulidade do século precedente não tinha desarraigado as velhas desconfianças da Alemanha contra Roma; e a predominância das teses febronianas, como das práticas josefinistas, além do Reno, não deixava de enfraquecer singularmente ali a ideia da catolicidade; a ideia de uma Igreja nacional flutuava no ar, sem quase assustar ninguém; e, para preparar o retorno dos protestantes ao redil, falava-se muito mais de união do que de unidade. Os estudos teológicos do jovem Döllinger não o defenderão o bastante dos preconceitos e dos erros de seu tempo. Em Würzburg, o ensino de seus professores, sem brilho, pouco seguro, sem vida, o desanimará de saída, e ele deixará os bancos da universidade, para frequentar as bibliotecas ou fechar-se em seu quarto com seus livros. Ali mergulhará na leitura dos Annales de Baronio e na dos Dogmes do P. Petau, a quem são Tomás deverá ceder o passo; ali se familiarizará com são Vicente de Lérins, não sem forçar o sentido da célebre regra do Commonitorium até paralisar a evolução e a vida do dogma católico. No seminário de Bamberg, sem nada perder de seus hábitos estudiosos, não se absterá de reduzir a parte da teologia em proveito do estudo das línguas orientais. Döllinger é um autodidata. E daí as fissuras inevitáveis de sua teologia; daí seus equívocos graves, surpreendentes, sobre a natureza da tradição, sobre o magistério da Igreja, sobre a liberdade da ciência, sobre o papel providencial e a autoridade em última instância dos teólogos, dos teólogos alemães em primeiro lugar; daí todas as ideias em curso e em voga na Alemanha católica de 1820 a 1840, e que, obstinadamente incubadas no espírito de Döllinger, longamente contidas e reprimidas por seus melhores amigos, despertadas por fim e desencadeadas, determinarão sua triste queda. Teólogo, no grande sentido da palavra, Döllinger não o será, embora seus aduladores não se tenham privado de saudar nele o primeiro teólogo da Alemanha e esse título tenha lisonjeado a orgulhosa fraqueza de seu coração. Será um erudito, um escritor, um historiador sem igual. Mas, tudo considerado, terá apenas um brilhante verniz de teologia, e não há dúvida de que essa falta de formação teológica foi, entre as causas intelectuais de sua queda, a mais ativa e a mais eficaz. Ordenado padre em Wurzburgo a 23 de abril de 1822, um pouco contra a vontade de seu pai, e vigário durante quase um ano da paróquia de Scheinfeld, Döllinger foi nomeado, a 21 de novembro de 1823, professor de direito canônico e de história eclesiástica no liceu de Aschaffenburg; havia encontrado seu caminho. Começam então, sob os auspícios e para a honra da ciência católica, as relações de Döllinger — relações afetuosas e confiantes, sem grandes efusões de ternura — com os corifeus da escola de Mogúncia, os Henri Klée, os Nicolas Weiss, os André Ress, que conseguirão por muito tempo mantê-lo nas veredas da ortodoxia e serão verdadeiramente seus anjos da guarda. Sorte semelhante lhe coube quando se viu chamado, em 1826, à universidade de Landshut, que o rei Luís I acabara de transferir para sua capital, para fazer de Munique o centro e o baluarte do catolicismo na Alemanha. As amizades doces e fortes que Döllinger ali travou, notadamente as de Joseph Görres e dos membros de seu grupo, alimentarão e avivarão nele o amor da Igreja, o ódio ao protestantismo e às empresas da burocracia bávara, a compreensão do papel e das condições da imprensa religiosa no século XIX. Em definitivo, é a seus amigos de Munique e aos de Mogúncia que Döllinger deverá, em larga medida, os belos dias e a glória de sua idade madura. Feliz e orgulhoso de sua incorporação à universidade de Munique, o jovem professor a ela se consagrará e dedicará sem descanso; e, antes de dela se separar, recusará as ofertas mais lisonjeiras, de onde quer que viessem, de Friburgo-em-Brisgóvia, de Breslau, da Inglaterra. Não servirá apenas sua querida faculdade de teologia com seu nome e seus talentos; esforçar-se-á também por lhe recrutar um corpo de professores muito distintos. Em 1835, a fim de lhe assegurar o concurso de Möhler, sacrificará momentaneamente até mesmo sua cátedra de história eclesiástica, e, morto Möhler, obterá para Henri Klée, depois de dez anos de espera e de vivas instâncias, uma cátedra de dogma e de exegese sagrada. Ele próprio, contribuindo para a reorganização da faculdade de teologia, e continuando a tomar parte em seu ensino, aumentará seu lustre. Identificar-se-á, por assim dizer, com essa nova instituição, e tornar-se-á pouco a pouco uma espécie de personagem europeu, uma eminência europeia. Em Munique, tornada como que o foco de uma grande renovação religiosa e artística, Döllinger permanecerá uma potência; mas em toda parte, na Itália todavia bem menos do que alhures por causa das divergências de sentimentos e de pontos de vista, contará com admiradores e amigos. Os Wiseman, os Newman, os Manning, os Gladstone, lhe prestarão, à porfia, respeito e confiança. Em 1832, Lamennais e Montalembert, voltando de Roma pelo Tirol, irão lhe pedir conselho; Montalembert deixar-se-á até mesmo fascinar pelo talento e pela afabilidade de Döllinger, e seu comércio epistolar, permanecido inédito, só cessará em 1870, com a morte de Montalembert. Enquanto Döllinger, por suas exposições lúcidas, pacientes e quase afetuosas, atraía os alunos em massa ao pé de sua cátedra, e enquanto seus livros, monumentos de ciência, modelos de estilo, estendiam ao longe sua fama, desde 1828 ele também guerreava no jornal l'Eos, o órgão oficial do grupo de Görres, pela liberdade e pela honra da Igreja. Döllinger tinha do jornalista as qualidades principais, a presteza, o traço, a clareza, sem aparato, mas não, quando fosse o caso, sem explosões de indignação e sem arroubos de eloquência. Com sua imensa leitura, está sempre pronto para tudo; com sua dialética vigorosa e sem desvio, como a flecha, sua ironia altaneira e mordaz, sua língua nervosa, límpida e correta, é um terrível justador, e seus adversários, protestantes, maçons ou burocratas, saem de suas mãos todos machucados. Talvez os hábitos do polemista tenham influído demais sobre o historiador, provocando a atitude e o tom agressivo de Döllinger para com os protestantes durante a primeira fase de sua carreira. O que é certo é que Döllinger era então a bête noire e o alvo predileto da imprensa protestante ou livre-pensadora; poucos publicistas católicos foram mais odiados e mais insultados do que ele; só ao nome de Döllinger, Henri Heine, desmascarado, bem e devidamente convencido de não ter nem fé cristã nem patriotismo, espumava de raiva. Professor, escritor e polemista de primeira ordem, Döllinger enfim descerá à arena política. A universidade, da qual era o bibliotecário-chefe desde 1837, enviou-o para sentar-se em 1845, um pouco contra a sua vontade, ao que parece, na Câmara dos Deputados. Nos bancos da segunda câmara bávara, como em sua cátedra de história e nas colunas do Eos, em toda parte Döllinger foi o hábil e ardente campeão da causa da Igreja. Em 1º de janeiro de 1847, foi nomeado deão da colegiada real de São Caetano, e, no decorrer do ano, forçou, se assim posso dizer, as portas, demasiado lentas a se abrir, da Academia de Ciências de Munique. A universidade o havia elevado, nesse mesmo ano, à dignidade de reitor magnífico. Döllinger perderá seu assento de deputado em 27 de agosto de 1847, quando, após o escândalo de Lola Montez, o rei Luís I o colocará em licença temporária e dispersará ao mesmo tempo o corpo docente. Mas, no ano seguinte, para grande surpresa e vivo desagrado da imprensa dita liberal, entrará, cheio de esperanças, no parlamento de Frankfurt e irá sentar-se ao lado direito; o motim demagógico de 18 de setembro de 1848 quase lhe custou a vida. Ao mesmo tempo que combate no seio do parlamento pela independência da Igreja na Alemanha, que ali sonha com a constituição de uma Igreja nacional e que ali protesta com a mais viva energia contra a abolição do celibato eclesiástico, vê-se que ele toma parte importante na famosa conferência episcopal de Wurzburgo, novembro de 1848, promove infatigavelmente esses congressos gerais que, em nossos dias, exercem até sobre o episcopado alemão sua poderosa influência, trabalha na organização e na difusão da imprensa católica, cuja necessidade proclama mais do que ninguém. Em todos os negócios da Igreja, no terreno político como no terreno religioso, reconhece-se a mão de Döllinger. É um dos chefes venerados dos católicos da Alemanha; com a fama, tem a autoridade. Não obstante, olhando-se de perto, um surdo trabalho se faz no pensamento de Döllinger, e suas convicções primitivas já sofreram alguns abalos; assim, suas antigas simpatias pelos jesuítas transformaram-se desde 1842 em frieza, antes de se transformarem em ódio. Um incidente de aparência muito ordinária terá para ele as consequências mais graves. Já em 1849, Döllinger admitiu em pensão, sob seu teto, o jovem Acton, vindo da Inglaterra a Munique para concluir seus estudos; e o discípulo depressa cuidará, com suas raras qualidades de espírito e seu conhecimento dos homens, de conquistar o afeto e a confiança do mestre. Afeto sem eclipse, influência surpreendente, que lorde Acton conservará até o fim, e que conduzirá o velho sábio à sua queda; como o professor Huber, um amigo de infância de Döllinger, lorde Acton será seu mau gênio. Em 1850, sente-se despontar o humor de Döllinger contra a Santa Sé; enquanto o mundo católico se aperta com redobrada veneração e devotamento em torno da cátedra de Pedro, Döllinger, por chauvinismo e preconceito teológico, dela se afasta, magoado, à espera de se voltar odiosamente contra ela. Em 1854, censura, sem ousar declarar-se, a promulgação do dogma da Imaculada Conceição, que considera desconhecido da antiguidade cristã; e correrá, durante o concílio de 1870 em Roma, a frase com que Marie Görres, nessa ocasião, o teria fustigado: «Você morrerá com a pele de um herege.» Em 1857, Döllinger volta de sua viagem à Itália, com a vaidade ferida, o espírito e o coração azedados, e a clara previsão que traz de volta da ruína próxima do poder temporal dos papas não é para perturbá-lo nem afligi-lo. A 5 e a 9 de abril de 1861, as duas célebres Conferências do Odeon, ao pintar o governo pontifício com as cores mais negras e ao legitimar dessa forma a usurpação piemontesa das Romanhas, provocarão em toda a catolicidade um longo grito de surpresa e de cólera; era, no fundo, o ato de um mau filho, era o crime de Cam.

2° Segundo período, 5 de abril de 1861-17 de abril de 1871. — Com as Conferências do Odeon, ou quase logo depois delas, abre-se a segunda etapa da vida e do pensamento de Döllinger. A guerra ao papado, uma guerra sorrateira e geralmente anônima, caracteriza e preenche o período que abordamos. Não houve para o velho sábio um dia, uma hora, um momento solene em que seus olhos se abrissem, e em que, desiludido, se visse transformado. Nem tempestade, nem ruptura, nem raio, como talvez tenha acontecido com Lamennais e com Jouffroy; Döllinger teve sua evolução, não sua revolução. «Não lhe falta nada para ser um herege, dizia dele já em 1858 seu antigo secretário Jörg, senão ter garantidas suas costas.» Quer estimasse ou não tê-las suficientemente garantidas em 1861, Döllinger não fez de início à Santa Sé uma guerra aberta e sem contemplações. Mas, afastado pelas circunstâncias ou privado pela morte dos anjos da guarda de sua idade madura; cercado e dominado por um grupo de admiradores de toda procedência e de toda crença que nada tinham em comum senão a aversão a Roma; arrastado sem contrapeso suficiente pelos preconceitos de sua educação e de sua juventude, mais ou menos longamente adormecidos, nunca sufocados; vítima sobretudo de uma infatuação científica que cresce com os anos, Döllinger descerá pouco a pouco e prudentemente a ladeira ao fim da qual encontrará a apostasia. Diríamos uma dessas aldeias, na encosta das montanhas, que deslizam insensivelmente da rocha sem solavanco com todo o seu fundo de terreno e se acham, um belo dia, na planície. Nesse ínterim, a evolução mental de Döllinger prossegue sem estrondo e sua alma se vai ulcerando. Pois, à medida que o rei Maximiliano II, que já lhe devolvera sua cátedra em novembro de 1849, se aproxima dele, e que a ciência oficial, toda impregnada do espírito protestante e racionalista, satisfaz seus desejos, chamando-o, em outubro de 1863, ao seio da Comissão histórica, Roma deixa transparecer cada vez mais suas desconfianças e seus receios. Quando Döllinger, de concerto com o orientalista Haneberg e o historiador Alzog, projetará convocar em Munique, no mês de setembro de 1863, um congresso de teólogos e sábios católicos da Alemanha, Roma se ressentirá naturalmente disso; mas se inquietará menos com o caráter geral do empreendimento do que com o nome e as ideias do deão de São Caetano, e a prova disso é que as medidas editadas, julho de 1864, contra os futuros congressos científicos tornaram-se letra morta assim que Döllinger desapareceu. Pio IX, aliás, mostrou-se satisfeito com o endereço dos congressistas de Munique à Santa Sé. Carta apostólica de 21 de dezembro de 1863 ao arcebispo de Munique. O Syllabus de 8 de dezembro de 1864, por seu próprio texto e pelas previsões a que esse texto dará ensejo, exasperará o velho sábio bávaro; ele se sentirá diretamente atingido em suas teorias ultraliberais assim como em seu chauvinismo cego, e verá despontar no horizonte, como um fantasma odioso, o dogma abominado da infalibilidade pontifícia. No panfleto em que exalará suas cóleras, e que permanecerá inédito em vida, mas que um imprudente amigo, H. Reusch, publicará mais tarde, *Kleinere Schriften gedruckte u. ungedruckte von J.-J. Ign. von Döllinger*, Stuttgart, 1892, p. 197-227, o autor contestará a força obrigatória do Syllabus ao mesmo tempo que seu valor histórico e teológico. Diante das suspeitas que aumentam e logo se transformarão em certezas, a popularidade europeia de Döllinger baixa; o isolamento moral — um isolamento doloroso e inesperado — começa para ele. Contudo, sem se dar conta ainda claramente dos temores e das queixas que sua atitude suscita por toda parte, ele lançará, sob o véu do anonimato, em 1867 e em 1868, na *Allgemeine Zeitung* e na *Neue freie Presse*, uma série de quinze artigos odiosos contra a Inquisição. De fato, sua fé já está manchada pelos mais graves erros, tanto quanto à constituição da Igreja quanto ao papel da opinião pública na elaboração dos dogmas; bem antes do concílio, Döllinger, católico de nome, não era, afinal de contas, senão um racionalista. Pio IX, a 26 de junho de 1867, havia anunciado a convocação do concílio do Vaticano, e havia-se instituído em Roma, para o fim do mesmo ano, comissões de teólogos tanto romanos quanto estrangeiros, para preparar os trabalhos do futuro concílio. Apesar da intervenção decidida do cardeal de Schwarzenberg, e embora um infalibilista ardoroso, Mons. Dechamps, arcebispo de Malinas, tivesse declarado categoricamente em Roma que «não se podia deixar de ouvir Döllinger», as paixões partidárias levaram a melhor e o professor de Munique foi definitivamente deixado de lado. Falta de conduta lamentável, que se procurou em vão desde então atenuar, e cuja responsabilidade ninguém tampouco quis assumir. Ao mesmo tempo que fingia parecer insensível a essa exclusão, Döllinger ficará ferido no coração por ela. O rei Luís II, ao nomeá-lo, no mês de novembro de 1868, conselheiro de Estado vitalício e par da Baviera, precipitará a explosão de sua ruptura com a Igreja. Döllinger, «com as costas garantidas», fará contra a Santa Sé e o concílio do Vaticano o juramento de Aníbal; a ele será, infelizmente!, fiel até seu último suspiro. Durante os preliminares do concílio, vê-se que ele apela sem cessar à opinião pública como ao poder supremo deste mundo, e consegue criar em toda parte, nos diversos gabinetes europeus, nas universidades, no clero da Alemanha, uma corrente de opinião contra o dogma da infalibilidade, que ele não deixa de desfigurar, seja por artifício de polêmica, seja talvez por ignorância. Sob sua pena, com efeito, a infalibilidade do papa e sua dominação de direito divino sobre toda ordem temporal ficam ligadas entre si indissoluvelmente e, no final das contas, não formam senão uma só coisa. Não é, portanto, atrás da inoportunidade da definição que ele se entrincheira. A inoportunidade, esse único argumento da oposição conciliar, salvo poucas vozes, ele a afasta e a condena com uma palavra desdenhosa. «Pode ser jamais inoportuno, diz ele, dar aos crentes a chave de todo o edifício da fé, promulgar o artigo fundamental de que todos os outros dependem?» É o próprio dogma que Döllinger toma de assalto e repele. Ém. Ollivier, *L'Église et l'État au concile du Vatican*, t. II, p. 386. Dessa época datam os cinco artigos da *Allgemeine Zeitung*, 10-15 de março de 1869, onde Döllinger traçou o esboço de suas publicações posteriores, ameaçando a Europa cristã com as piores catástrofes, se a grande adulação do concílio do Vaticano fizesse na história o contraponto do Latrocínio de Éfeso; o célebre *Janus* ou, segundo o título completo, o livro *Do papa e do concílio por Janus*, panfleto áspero e de insigne má-fé, combinado entre Döllinger e o professor Huber, seu funesto conselheiro, mas de que Döllinger deve carregar sozinho toda a responsabilidade; as *Reflexões*, outubro de 1869, destinadas aos Padres do concílio, e que não diferem do *Janus* senão pelo tom e pela forma suavizada da linguagem. O endereço dos leigos de Coblença ao bispo de Trier, obra no fundo de dois padres desta mesma diocese, meados de maio de 1869; o endereço dos leigos de Bonn ao arcebispo de Colônia, 14 de agosto; a instrução coletiva dos bispos alemães reunidos em Fulda, 6 de setembro; a carta pastoral de Mons. Ketteler, bispo de Mogúncia, abril de 1870, fazem também ressaltar, em suas dessemelhanças de ideias e de estilo, a potência da ação do grande historiador alemão. O concílio aberto, 8 de dezembro de 1869, por mais visíveis que fossem já desde o primeiro dia os desejos pessoais de Pio IX e as disposições da maioria dos Padres do concílio, Döllinger, longe de se desencorajar, redobrou de ódio e de esforços contra a infalibilidade pontifícia. O que ele inspira ou escreve ele mesmo, nomeando-se ou sem se nomear, em artigos de jornais, cartas, brochuras, ultrapassa toda ideia. Dessa pena surpreendentemente ágil, citarei apenas as *Cartas romanas*, publicadas na *Allgemeine Zeitung*, sob o pseudônimo de Quirinus, de 17 a 27 de dezembro de 1869, e dois artigos virulentos publicados no mesmo jornal, um, *Algumas palavras sobre o endereço da infalibilidade*, a 19 de janeiro de 1870, o outro, *Sobre o novo regulamento do concílio e seu valor*, a 11 de março seguinte. Enquanto na Alemanha se votavam ruidosamente endereços de felicitações a Döllinger, a indignação em Roma foi extrema; ali se rompeu em ameaças contra o polemista escandaloso que fazia malabarismos com a história e traía a Igreja. Hefele, para prevenir os efeitos dessa indignação, conjurou ternamente, a 2 de abril de 1870, o obstinado lutador a deixar provisoriamente o campo de batalha e a calar-se. Döllinger a isso se resignou e calou-se. Mas, intimado, a 15 de fevereiro de 1871, a aderir à definição conciliar de 18 de julho precedente, começou por instinto a esquivar-se; enfim, depois de muitos expedientes dilatórios que fizeram mais honra a seu espírito e a sua ciência do que a sua candura e a sua lealdade, forte do concurso da opinião em Munique e do favor do rei Luís II, que se comprazia em chamá-lo seu Bossuet, o astuto velho lançará a máscara e recusará, a 29 de março, «como cristão, como teólogo, como cidadão», reconhecer o dogma da infalibilidade do papa. A 17 de abril de 1871, o arcebispo de Munique ver-se-á obrigado a fulminar contra ele a excomunhão. A universidade de Munique não deixará de lhe confiar mais uma vez o reitorado para o ano letivo de 1871-1872; depois do quê, o velho professor descerá definitivamente de sua cátedra de história.

3° Terceiro e último período, 1871-1890. — Döllinger, nomeadamente excomungado, abstém-se imediatamente e para sempre de toda função eclesiástica. Comprazer-se-á doravante, com uma sinceridade mais do que suspeita, em contestar a legitimidade do anátema que sobre ele pesa; mas não se aventurará a infringi-lo. Não se aventurará tampouco a erguer altar contra altar; o papel de um Lutero não o tentava. Na véspera de sua excomunhão, numa casa de terceiros, havia certificado ao conde Bray que, em caso algum, tomaria a iniciativa de um «cisma». No primeiro congresso velho-católico de Munique, 22-24 de setembro de 1871, reprovará a moção de estabelecer uma Igreja autônoma, em oposição direta à Igreja romana; e quando os sectários, passando por cima disso a 4 de julho de 1873, escolherão como bispo o professor Reinkens, é Döllinger quem decidirá o ministro bávaro Lutz a não reconhecer oficialmente o novo eleito. A atitude dos velhos-católicos inquietará, descontentará, irritará cada vez mais Döllinger. Já em 1878, enojado com a abolição do celibato eclesiástico, desesperará do futuro do velho-catolicismo. A seita continuará a adornar-se com seu nome. Mas, embora em 1873 e em 1874 os sectários tivessem celebrado com um entusiasmo de encomenda duas datas da vida de seu mestre, o cinquentenário de sua entrada no professorado e o cinquentenário de seu doutorado em teologia, Döllinger, em suma, retirar-se-á do velho-catolicismo, e, renegando baixinho sua própria obra, viverá no isolamento. «Não quero ser membro de uma Igreja cismática, escreverá ao núncio de Munique, a 12 de outubro de 1887; estou sozinho.» Inclina-se a repetir de Döllinger o que se disse de Jansênio: «que havia fundado uma seita da qual talvez não fazia parte.» Nem o peso da idade, nem as tristezas dos desenganos abrandavam seu ardor pelo trabalho; e, em seu retiro, dedicava a todos os ramos do saber humano um vivo e sério interesse; publicava ainda, na véspera de sua morte, sua história das heresias da Idade Média, *Geschichte der gnostisch-manichäischen Sekten im früheren Mittelalter*, Munique, 1890, com um segundo volume de documentos; nunca amou, nunca compreendeu, nunca conheceu o repouso. O que, no entanto, caracteriza a terceira fase da carreira de Döllinger é seu ódio ao papado. Ele será cada vez mais a alma de sua vida; reencontra-se nele a *monomania sine delirio* que ele próprio outrora havia assinalado e estigmatizado em Lutero. Esse ódio ao papado o enraizará num projeto acalentado por muito tempo, ou melhor, desde sempre, o de perseguir a reunião das Igrejas separadas. Reunião sem fusão verdadeira, e que não exigia de nenhuma família religiosa o sacrifício de suas crenças particulares, contanto que a substância do símbolo primitivo fosse salvaguardada. Döllinger, para lhe preparar os caminhos, pronunciará a esse respeito em Munique sete discursos, no começo de 1872. As duas conferências de Bonn, realizadas para esse fim em 1874 e em 1875, puseram em plena luz a ciência, a eloquência, a prodigiosa atividade e os recursos de espírito de Döllinger, mas também sua falta de espírito prático e, mais ainda, os desgastes sucessivos de sua fé. Ambas permaneceram estéreis. Uma terceira conferência, ardentemente desejada por Döllinger, não se realizou, no entanto, por causa da oposição dos russos e dos ingleses; o famoso projeto de reunião não se recuperou de sua queda. Döllinger, no dia seguinte ao concílio, havia sentido a necessidade, ao que parece, e em todo caso manifestado a intenção «de submeter seu saber histórico e patrístico a uma revisão atenta, minuciosa, e de passar pelo crivo, com os olhos fixos nas fontes, as principais conclusões de seus estudos anteriores.» De fato, ele irá sempre perdendo o senso católico e se deixará cada vez mais ganhar pelo espírito racionalista e protestante. A idolatria da ciência e da opinião obliterará sua fé; o ódio e o desprezo pela Santa Sé inspirarão todos os seus escritos. Nomeado pelo rei Luís II, em 1878, presidente da Academia de Ciências de Munique, Döllinger aproveitará seu discurso anual para tentar espalhar suas ideias e satisfazer seus rancores. De uma rara perfeição de forma e de estilo, os *Discursos acadêmicos* de Döllinger, 3 vol., Munique, 1889-1891, traem, até mesmo na escolha dos temas, as preocupações religiosas e as prevenções nacionais do autor; Döllinger, preocupado antes de mais nada em lisonjear os preconceitos e obter os aplausos da classe letrada que lhe fornecia sua audiência, fez ali obra de paixão e de partido. O tato do historiador e a probidade do erudito sofreram grandemente com isso. Não se pode deixar de sentir espanto e tristeza ao espetáculo da tranquilidade de espírito e da segurança do infeliz velho durante seus últimos anos. Essa firmeza e essa calma, o que eram? pura aparência? ou realidade? Mistério que não se poderia esclarecer. Não nos ficou de Döllinger nenhuma dessas palavras à Lutero que, bruscamente, rasgam os véus e põem a nu o fundo da alma; ele sepultou com um cuidado ciumento os segredos de sua alma e sempre se guardou de toda expansão.

Os esforços tentados por Pio IX e por Leão XIII, direta ou indiretamente, para reconduzir Döllinger ao seio da Igreja, fracassaram diante da orgulhosa obstinação do sábio, não sem provocar por vezes seus sarcasmos; as tocantes instâncias de seus antigos amigos, cujo afeto por ele havia sobrevivido às dissidências religiosas e de que ele próprio guardara fielmente a lembrança, não tiveram melhor sucesso. O adversário irreconciliável da infalibilidade pontifícia jamais duvidou de sua infalibilidade pessoal. Como esperar, aliás, que tal homem se retratasse publicamente, correndo o risco de perder-se de reputação no mundo da corte e da ciência oficial, e renunciasse desde então a viver, como se acostumara a fazer, em meio a uma nuvem de incenso? Falou-se em sentidos muito diversos de uma última tentativa de conversão, feita em 1889, e da qual os verdadeiros amigos de Döllinger haviam, disseram eles, muito esperado. A esfinge levou seu segredo para o túmulo. A velhice, durante tanto tempo, não ousara tocá-lo; a morte o feriu de súbito, em plena posse de seu espírito e de suas forças. Uma crise de gripe o surpreendeu a 1º de janeiro de 1890 e complicou-se a 9 com um ataque de apoplexia que o fulminou. Döllinger, cuja vigorosa inteligência logo e completamente sucumbira, expirou na noite seguinte, sem inquietação como sem dor, no 91º ano de sua idade. Padre rebelde e infiel, sábio desviado e diminuído.

II. Obras. — Publicista, homem político, teólogo, e sobretudo historiador, Döllinger espanta pelo número, pela variedade, pela importância de suas produções. Artigos de jornais e de revistas, brochuras, livros de fôlego, sua pena tudo abordou, e pode-se dizer que se destacou em todos os gêneros. Sem me deter aqui nas publicações do jornalista e do polemista, citarei apenas as obras do historiador, e apenas aquelas que ilustraram o período católico de sua vida. Mas recordarei primeiro a descrição dos retratos esboçados em Roma pelo pintor Cornélius segundo a Divina Comédia, e por ele dados, abril de 1829, à redação do Kos. Esse texto explicativo, Leipzig, 1830, que honrou os primeiros passos da literatura dantesca da Alemanha e que conserva seu valor primitivo, não foi reimpresso, tampouco a tradução francesa que dele havia aparecido.

1° Já em 1826, ao mesmo tempo que Möhler publica seu ensaio sobre a unidade da Igreja, Döllinger publica em Ratisbona seu livro sobre a Eucaristia nos três primeiros séculos: dissertação histórico-teológica, de estilo fácil e luminoso, de lógica penetrante e premente, de ciência ampla e sólida, mas na qual o autor, às voltas com as teorias de Lutero e de Calvino, toma frequentemente o tom agressivo da polêmica, em vez de guardar a gravidade do tom da história.

2° Em 1827, Hortig confiava a seu jovem sucessor o cuidado de continuar sua História da Igreja. Um ano depois, Döllinger havia refundido o trabalho de Hortig, prosseguindo-o até o ano de 1789. A obra foi publicada em dois volumes que contêm, o primeiro e a primeira parte do segundo a obra de Hortig, a segunda parte do segundo a obra de Döllinger. O sucesso foi grande. Mas uma desconfiança bem alemã em relação à Santa Sé, o medo do progresso e do excesso de centralização na Igreja, uma simpatia no mínimo imprudente pelos primórdios de Lutero, e o fascínio da antiguidade cristã se refletem na obra e a desfiguram.

3° O mesmo talento de escritor e a mesma arte de composição se reencontram, com o mesmo espírito, em dois compêndios de história eclesiástica, que se ligam, ultrapassando-lhe o valor, ao livro de Hortig, e que Döllinger publicou sucessivamente sob os títulos modestos de Handbuch e de Lehrbuch, o primeiro em Landshut, 1833-1835, 3 vol., o segundo em Ratisbona, 1836, 2 vol.; infelizmente ambos permaneceram inacabados. Aquele para no ano 680; este não vai além de 1517. O Handbuch e o Lehrbuch foram traduzidos para o francês, um por M. Léon Boré sob o título de Origines du christianisme, Paris, 1843, 2 vol.; o outro por M. Bernard, Bruxelas, 2 vol.

4° A obra sobre a Reforma, vasta coletânea de documentos onde os corifeus do protestantismo são retratados, ora por suas próprias mãos, ora pela mão de seus contemporâneos, e da qual ressalta um quadro fiel dos estragos da heresia nas inteligências, nos costumes, no estado social, é uma réplica decisiva à apologia que L. de Ranke, Deutsche Geschichte im Zeitalter der Reformation, 1839, havia apresentado das ideias e da obra de Lutero. La Réforme compreende 3 vol., que apareceram, o t. I, em 1846, o t. II, em 1847, o t. III, em pleno furor das tempestades de 1848; há uma tradução francesa de Perrot, Paris, 1847 e segs. Os protestantes, desesperando de responder, adotaram a tática de não falar. Döllinger, despeitado com o silêncio deles e inquieto com o futuro, interrompeu sua obra e nunca mais a retomou.

5° O livro Hippolyte et Calliste ou l'Église romaine dans la seconde moitié du IIIe siècle, Ratisbona, 1853, resolveu, aos olhos ao menos da ciência alemã, o problema da origem dos Philosophumena, reconhecendo neles a mão do célebre doutor e mártir, santo Hipólito, e vingou, com a ortodoxia do papa são Calisto, os direitos e a autoridade do pontífice romano. DeSmedt, Dissertationes selectæ, diss. II, p. 89 e segs.

6° Em 1857, uma nova obra-prima selou a reputação de Döllinger. Em Paganisme et Judaïsme, esse «vestíbulo da história da Igreja», esse incomparável resumo da vida e do pensamento do mundo antes da era cristã, não se pode senão admirar a erudição, a sagacidade, o estilo e a arte do autor. Há uma tradução francesa pouco correta, 4 vol., Bruxelas, 1858. A ciência das religiões comparadas ainda não havia tomado seu impulso. Döllinger, em Paganisme et Judaïsme, não estudou os velhos cultos da Índia e do Extremo Oriente; relegou até mesmo a um segundo plano as religiões da Ásia central e do Egito, para considerar antes de tudo o politeísmo greco-romano. Contudo, quaisquer que sejam os progressos que a ciência da história das religiões tenha feito desde então, as conclusões gerais de Döllinger permanecem inatingidas e a origem divina do cristianismo fora de contestação.

7° Em 1860, Le christianisme et l'Église à l'époque de sa fondation encerra a maturidade de Döllinger, a grande fase católica de sua carreira, e, com ela, a série de seus livros de caráter eminentemente positivo e objetivo, escritos para a defesa e a honra da Igreja; tradução do abade Bayle, Paris, 1863. Döllinger ali estabelece o fato da dupla primazia da Santa Sé, primazia de honra, primazia de jurisdição, e ali coloca com esplendor as premissas de que a infalibilidade pontifícia decorre, senão necessariamente, ao menos naturalmente. Mais tarde, em 1868, na segunda edição da obra, mutilará ou suprimirá sorrateiramente, sem dar aviso, as passagens que militam a favor do dogma da infalibilidade.

8° Fora da primeira e gloriosa fase da vida de Döllinger, duas outras de suas obras merecem ser aqui lembradas: uma, L'Église et les Églises, la papauté et le pouvoir temporel, Munique, 1861, obra-prima traduzida para o francês pelo abade Bayle, Paris, 1862; a outra, Les fables papales du moyen âge, Munique, 1868, traduzida, sob o título: Études critiques sur quelques papes du moyen âge, por Ch. Reinhard, Nancy e Paris, 1865. Na primeira dessas obras, que contém duas partes de valor muito desigual, Döllinger realça primeiro a autoridade soberana da Santa Sé e pinta com mão de mestre a irremediável decadência das Igrejas separadas; mas depois compraz-se em beber em fontes suspeitas a história do Estado pontifício desde 1814 e parece querer desculpar a invasão piemontesa em 1860 das Marcas e da Úmbria. Em Les fables papales du moyen âge, prelúdio de uma história dos papas que Döllinger projetara, mas nunca escreveu, o autor passa pelo crivo de uma crítica penetrante e poderosa, não obstante sem deixar transparecer aqui e ali suas preocupações religiosas do momento, alguns detalhes particularmente importantes dessa história dos papas, o fato, por exemplo, da papisa Joana, a doação de Constantino, o caso de Libério e de Honório I. As publicações posteriores de Döllinger não serão geralmente, afinal de contas, senão panfletos, obras de paixão e não de ciência. Ad. Huhn, Doellinger's alte und neue Hoffnungen, discurso, Munique, 1874; Egelhaaf, Deutsche Rundschau, 5 de fevereiro de 1890, p. 287-291; Reusch, Briefe und Erklärungen von J. von Doellinger über die Vatikanischen Dekrete, 1869-1887, Munique, 1888; L. von Kobell, Erinnerungen, Munique, 1894; Michael, S. J., Ignaz von Doellinger, eine Charakteristik, Innsbruck, 1892; 3ª ed., ibid., 1894; H. Hurter, S.J., Nomenclator, 2ª ed., Innsbruck, 1895, t. III, col. 1812-1843; Friedrich, Ignaz von Doellinger, 3 vol., Munique, 1899-1900; Fr. X. Kraus, Deutsche Litteraturzeitung, 1899, n. 4, col. 25-30; 1904, n. 34, col. 1950-1958; Mons. Cecconi, Histoire du concile du Vatican, ed. franc., 4 vol., Paris, 1887; E. Ollivier, L'Église et l'État au concile du Vatican, 2 vol., Paris, 1879.

Autor original: P. Godet

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