DODWELL (HENRIQUE)

DODWELL (HENRIQUE)

DODWELL Henry (o velho), teólogo anglicano, nasceu em 1641 em Dublin, fez seus estudos primeiro em York, depois no Trinity College, Dublin. Em 1675, vê-se que acompanha à Holanda William Lloyd, mais tarde bispo de Saint-Asaph, junto à princesa de Orange; na mesma época, é amigo do célebre Pearson, bispo de Chester. Em 1688, obtém a cátedra de história de Camden em Oxford, mas a abandona em 1691, para não prestar juramento a Guilherme de Orange e a Maria. Vive desde então na retirada, todo ocupado com seus grandes trabalhos sobre a história e a geografia antigas, e as antiguidades cristãs. Brokesby, Life, p. 10 sq.; Overton, art. Dodwell. Dodwell abraçou o partido dos bispos «não jurantes», que recusavam o juramento a Guilherme de Orange e Maria, e viram-se, por esse fato, privados de suas sés. Protestou, por numerosos memoriais doutos e eloquentes, contra essa intrusão do poder civil nos negócios da Igreja. Todavia, a partir de 1710, voltou à Igreja estabelecida, e engajou aqueles sobre os quais tinha influência a seguir seu exemplo. Brokesby, Life, p. 224 sq.

Dodwell foi um escritor muito fecundo. Assinalaremos, entre suas obras, apenas as que se relacionam com a teologia. Foi sempre o tipo do teólogo da Alta Igreja, combatendo, ao mesmo tempo, os puritanos e os católicos. Todas as suas obras teológicas são dirigidas contra essas duas séries de adversários. Suas duas Cartas de conselhos sobre a recepção das santas ordens e os estudos teológicos, Letters of advice, são interessantes por causa de suas ideias sobre o estudo dos Padres dos três primeiros séculos, que recomenda aos estudantes ao lado do estudo da Sagrada Escritura. Em 1673, publica uma tradução da Introdução à vida devota, de são Francisco de Sales, com um prefácio anônimo. Em 1675, seus Considerations of present concernment, nos quais se esforça por demonstrar que a tolerância do catolicismo é incompatível com a paz do Estado. Em 1676, seus Discourses against the Papists, para lhes censurar a ruptura com a Igreja nacional, e responder a seus argumentos. Em 1681, aparece sua grande obra contra os não conformistas, na qual estabelece que a separação das igrejas da hierarquia episcopal, tal como a praticam os não conformistas atuais, é cismática; em resumo, Book of Schism. Isso lhe vale furiosos ataques de Baxter e outros dissidentes, que o acusam de papismo, por causa de seu episcopalismo e de seu respeito pelos Padres dos três primeiros séculos. Ele polemiza com eles em 1681 por meio de diversos pequenos tratados nos quais acentua ainda mais suas posições. Em 1688, volta ao mesmo assunto em seu Discourse of the one altar and the one priesthood, no qual descreve a atitude dos antigos Padres diante dos cismas. Em 1685, aparece seu De sacerdotio laicorum, dirigido contra Grócio, e no qual prova fortemente a necessidade da hierarquia. Nesse ínterim, dá um importante trabalho sobre a antiguidade cristã. A pedido de Fell, bispo de Oxford, editor de são Cipriano, publica em 1682 suas treze Dissertationes cyprianæ, sobre problemas relativos às obras do santo doutor. É na décima primeira que sustenta a tese «de que os mártires da Igreja primitiva foram muito menos numerosos do que pretendem os martirologistas romanos». Dom Ruinart respondeu com sua bela dissertação sobre o grande número dos mártires, impressa à frente das Acta martyrum. Brokesby, Life, p. 103 sq. Em 1686, Dodwell publica, em apêndice às obras de seu amigo falecido Pearson, o célebre bispo de Chester, sua Dissertatio de pontificum romanorum primæva successione. Em 1689, novamente a pedido de Fell, bispo de Oxford, publica Dissertationes in Irænæum. A partir de 1691, multiplica seus escritos em defesa dos bispos «não jurantes», e protesta contra a ingerência do poder civil nas causas puramente eclesiásticas. Brokesby, Life, p. 224 sq. Suas últimas obras são consagradas à antiguidade cristã. Em 1698, tratado sobre a legitimidade da música instrumental nas igrejas. Em 1702, discurso contra o casamento entre pessoas de diferentes comunhões. Em 1709, sobre o uso do incenso não ser uma tradição apostólica (publicado em 1711). Da mesma época são suas cartas sobre a imortalidade da alma, An epistolary discourse concerning the Soul's immortality. Para resolver o problema da sorte eterna dos não batizados, Dodwell admite este erro fundamental, de que a alma humana não é naturalmente imortal, mas adquire no batismo essa imortalidade. Naturalmente, vivos protestos se levantaram contra essa doutrina; Clarke, entre outros, refutou-a com ciência e lógica. Brokesby, Life, p. 563 sq. Ver CLARKE, t. II, col. 3. Dodwell deixou várias obras inacabadas concernentes à antiguidade profana e cristã, e à filosofia natural. Brokesby, Life, p. 499 sq. Não existe edição completa das obras de Dodwell. Brokesby, Life of Mr. H. Dodwell, with an account of his Works, Londres, 1745; Overton, art. Dodwell, no Dictionary of national biography, t. xv, p. 180 sq.

2. DODWELL Henry (o jovem), deísta inglês, morto em 1784, era o quarto filho do teólogo Henry Dodwell. Nasceu em Shottesbrooke, em Berkshire, provavelmente depois do início do século XVIII. Fez seus estudos literários em Magdalen Hall, Oxford, e depois se dedicou à carreira jurídica. Em 1742, tornou-se de repente célebre por um livro intitulado: Christianity not founded on argument; o livro era anônimo, mas o autor conhecido de todos. Dodwell aí desenvolve as três proposições seguintes: «A razão, ou qualquer outra faculdade intelectual, não pode, seja por causa de sua natureza, seja por causa da natureza da religião, ser o meio querido por Deus para nos conduzir à verdadeira fé. De fato, não é assim, se julgarmos pelos dados claros da Sagrada Escritura. Pode-se descrever claramente, apoiando-se na mesma autoridade indiscutível, o que é positivamente a fé, e estabelecer os meios próprios e queridos por Deus para se chegar ao conhecimento das verdades divinas.» Christianity, p. 7 sq. Prova as duas primeiras pela crítica da demonstração clássica do cristianismo, e por reflexões sobre a impotência da razão humana. E desenvolve assim a terceira: «O motivo que leva o homem a receber as misteriosas verdades do Evangelho é um dom particular, uma munificência especial do céu, fora e acima dos privilégios comuns de nossa natureza», p. 57. Tal é a fé que o Evangelho descreve, aquela que a observação das almas cristãs mostra, aquela que fez os mártires. O exame racional dessa fé só pode ser muito perigoso, e conduz quase infalivelmente ao ceticismo, p. 81 sq. E conclui: «Meu filho, confia no Senhor de todo o teu coração, e não em tua própria razão», p. 118. Naturalmente, uma viva polêmica se travou a propósito dessa profissão do fideísmo mais desenfreado. Doddridge, Leland, Benson, Randolph refutaram Dodwell, e seu próprio irmão, William Dodwell, cônego de Salisbury e arcediago de Berks, pronunciou, em 14 de março e 24 de junho de 1744, dois sermões contra suas doutrinas, diante da universidade de Oxford; foram publicados em Oxford em 1745. Dodwell sempre se defendeu de ter querido destruir a fé cristã na alma de seus leitores, e pretendeu ter-lhes dado apenas uma noção mais exata dessa fé. Os metodistas, a princípio, julgaram poder tirar proveito de sua tese, e empenharam-se em difundir seu livro. Mas o próprio Wesley compreendeu melhor o alcance da obra de Dodwell; escrevia com razão: «O desígnio perseguido nesta obra é tornar odiosa e ridícula a instituição do cristianismo... Ele se esforça por demonstrar que o cristianismo é contrário à razão, que o homem agindo conforme os princípios da razão não poderia ser cristão.» An earnest appeal to men of reason and religion, Dublin, 1750, p. 16. Abbey e Overton, The english Church in the 18th century, Londres, 1878; Hunt, Religious thought in England, Londres, 1870 sq.; Leland, A view of the principal deistical writers, Londres, 1807; Overton, art. H. Dodwell, no Dictionary of national biography, t. xv, p. 184 sq.; Stephen (Leslie), History of the english thought in the 18th century, Londres, 1881, t. II.

Autor original: J. de la Servière

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