DOGMÁTICA. — I. Definição. II. Método. III. Divisões principais. IV. A dogmática no Novo Testamento. V. A dogmática nos diversos períodos de sua história. VI. A dogmática e o magistério eclesiástico. I. DEFINIÇÃO. — Segundo a terminologia comumente recebida há vários séculos, a dogmática é essa parte da ciência teológica que trata dos dogmas ou verdades divinamente reveladas, contendo antes de tudo um ensinamento especulativo ao qual é devido em primeiro lugar o assentimento da fé sobrenatural. Devendo o termo dogma ser definido no artigo seguinte, bastará elucidar aqui as outras partes de nossa definição.
1° Como parte da ciência teológica, a dogmática participa de todos os caracteres gerais dessa ciência. — 1. Como toda ciência teológica, ela tem por princípio único de demonstração a autoridade divina, que somente pode manifestar as verdades sobrenaturais. S. Thomas, Sum. theol., Iª, q. 1, a. 8. Enquanto a ciência apologética se apoia exclusivamente na razão para demonstrar a autenticidade e a infalível verdade do testemunho divino, fonte de nossa fé, a dogmática, já de posse da fé nas verdades sobrenaturais, repousa unicamente sobre o testemunho divino, tal como nos é manifestado pela Escritura e pela tradição fielmente interpretadas segundo as infalíveis decisões do magistério eclesiástico. Se a simples razão é por vezes empregada em dogmática, é unicamente a título auxiliar, seja para mostrar a falta de valor demonstrativo das objeções adversas, no sentido indicado por santo Tomás, Contra gentes, l. I, c. vii; seja para fazer ressaltar as altas congruências intelectuais e morais de uma verdade já conhecida como certamente revelada, no sentido igualmente assinalado pelo doutor angélico. Op. cit., l. I, c. ix. 2. Porque a dogmática se apoia unicamente sobre o testemunho divino, ela estuda de Deus somente o que nos é conhecido dele pela fé, particularmente o que concerne à ordem sobrenatural livremente estabelecida por sua munificência e conhecida somente pela revelação. Todavia, ocupa-se frequentemente em dogmática, de maneira incidental ou secundária, das verdades racionais concernentes a Deus e suas relações com as criaturas. Essas verdades não são então tratadas como relevando diretamente da teologia dogmática, mas antes como verdades filosóficas, adjuntas à teologia para melhor manifestar o sólido fundamento apologético das verdades reveladas, ou para ajudar a uma melhor inteligência dos mistérios divinos pela analogia entre as verdades da ordem natural e as da ordem sobrenatural. Assim, o estudo da providência divina na ordem natural dá uma melhor inteligência do governo divino na ordem da graça, e o estudo da moção divina na ordem da natureza faz melhor apreender o modo de eficácia da graça sobrenatural.
2° Como ciência especial, a dogmática limita seu campo de estudo às verdades divinamente reveladas, contendo antes de tudo um ensinamento especulativo ao qual é devido em primeiro lugar o assentimento da fé sobrenatural. Certamente as verdades divinamente reveladas, que têm por fim imediato fazer conhecer os preceitos sobrenaturais impostos por Deus, poderiam ser, não menos que as verdades especulativas, objeto da dogmática, uma vez que nos são imediatamente conhecidas pela fé. Mas, há vários séculos, convencionou-se comumente reservar à teologia moral todas as verdades reveladas que podem ser principalmente consideradas como regras práticas que dirigem nossa vontade para o fim sobrenatural. Essa divisão tornada clássica tem a incontestável vantagem de alargar quadros que se haviam tornado demasiado estreitos, dado o considerável desenvolvimento das questões morais tanto especulativas quanto práticas e as proporções mais vastas justamente concedidas à dogmática positiva. Mas essa necessária divisão do trabalho nunca deve acarretar entre o dogma e a moral uma separação efetiva que seria soberanamente desastrosa. De fato, a experiência provou que a moral, estudada sem nenhuma relação com o dogma, correria o grave perigo de ser uma pura casuística, na qual as questões doutrinais seriam apenas mencionadas e que dificilmente mereceria o nome de ciência teológica. Bouquillon, Moral theology at the end of the nineteenth century, no Catholic University Bulletin de abril de 1899, Washington, 1899, p. 258; Kirchenlexikon, 2ª ed., t. II, col. 1892. Esse enfraquecimento doutrinal da teologia moral teria também uma funesta repercussão sobre o ensinamento ascético e místico, que deve apoiar-se nela. Por outro lado, não é menos necessário que a teologia dogmática seja estudada em suas relações com o fim sobrenatural para o qual a teologia moral deve imediatamente dirigir. É somente a esse preço que a soberana utilidade prática da dogmática aparece manifestamente, na direção efetiva que ela dá à vontade para orientá-la fortemente para a posse do fim sobrenatural. Seguindo um rumo diferente, expõe-se a dogmática, sobretudo quando presta pouca atenção às questões de teologia positiva e se dedica quase exclusivamente a questões especulativas, a ser considerada como uma ciência unicamente abstrata, sem alcance real sobre a vida cristã habitual. Sem examinar aqui se alguns teólogos escolásticos, sobretudo na época da decadência, evitaram suficientemente esse escolho, observaremos simplesmente que, em nossa época, diante dos erros modernistas sobre o dogma, simples regra de vida prática, e da acusação de intelectualismo exagerado, há lugar para insistir mais no verdadeiro papel prático do dogma, tal como o definiremos no artigo seguinte.
3° O que a dogmática busca principalmente é, portanto, um conhecimento sobretudo especulativo das verdades reveladas. Esse conhecimento deve ser: 1. Antes de tudo, um conhecimento positivo do dogma efetivamente contido na revelação. Esse conhecimento se adquire por um estudo regressivo das fontes da revelação, feito particularmente para cada ensinamento divino, não para chegar à produção do ato de fé já existente, mas para justificar essa fé contra os ataques dos hereges ou para consolidar a piedade dos fiéis. S. Thomas, Cont. gent., l. I, c. ix. Nesse estudo regressivo, no qual o exegeta e o crítico guardam toda liberdade quanto ao método científico a empregar, há sempre para eles a obrigação estrita de observar fielmente as regras traçadas por Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus, de 18 de novembro de 1893, e por Pio X na encíclica Pascendi, de 8 de setembro de 1907, e de se guardarem cuidadosamente de todos os excessos reprovados pelo decreto Lamentabili, de 4 de julho de 1907. Ao trabalho crítico deve-se juntar uma sólida exposição histórica da doutrina cuja justificação regressiva se persegue. Essa exposição histórica, cujo objetivo é determinar exatamente o objeto da controvérsia com os hereges, o sentido real dos argumentos apresentados contra eles pelos defensores da verdade católica, bem como o teor exato das definições eclesiásticas ao longo dos séculos, ajuda poderosamente a uma melhor inteligência da demonstração exegética ou tradicional ou da definição doutrinal da Igreja. Assim, uma história completa da doutrina teológica do caráter sacramental no período patrístico retira todo fundamento real a essa suposição de vários teólogos especulativos da Idade Média de que essa doutrina não tem nenhuma justificação sólida na tradição explícita anterior à Idade Média. Pourrat, La théologie sacramentaire, Paris, 1907, p. 221 e segs. Não seria menos fácil provar, por uma fiel exposição histórica do dogma da infalibilidade pontifícia, que as objeções habituais dos galicanos não tinham nenhum apoio na prática ou no testemunho dos séculos precedentes.
2. O conhecimento que a dogmática busca é sobretudo um conhecimento científico proveniente de deduções teológicas principalmente tomadas de empréstimo às analogias entre as verdades reveladas e os dados da razão, e à comparação dos mistérios entre si e com o seu fim. — a) Esse conhecimento é chamado científico, não em sentido absoluto, mas em sentido puramente relativo. Ele não pode ser científico em sentido absoluto, pois todo conhecimento das verdades reveladas deve apoiar-se fundamentalmente sobre o testemunho divino, que somente pode assegurá-lo autenticamente. S. Thomas, Sum. theol., Iª, q. 1, a. 8. Esse conhecimento é científico nesse sentido muito restrito, de que a razão, efetivamente dirigida pela fé, se serve, para aperfeiçoar seu conceito das verdades reveladas, de todos os dados fornecidos pelas analogias criadas, pela comparação com os demais ensinamentos revelados, particularmente com o fim sobrenatural para o qual deve convergir todo ensinamento divino. b) Conhecimento científico proveniente de deduções teológicas principalmente tomadas de empréstimo às analogias entre as verdades reveladas e os dados da razão. — a. Entre essas analogias, umas são explícita ou implicitamente reveladas juntamente com o mistério divino, as outras são simplesmente empregadas nos documentos eclesiásticos ou nos escritos dos Padres e dos teólogos, para melhor exprimir o ensinamento revelado. — α. As analogias mais importantes e mais fecundas são as que a revelação apoia com sua infalível autoridade. Tais são particularmente os conceitos de pessoa, de paternidade e de filiação, de geração e de , aplicados ao inefável mistério da santíssima Trindade, e os múltiplos nomes pelos quais a Escritura inspirada designa as perfeições divinas. A essa categoria pode-se ainda ligar, embora de maneira menos imediata, a analogia entre a fé humana e a fé divina, da qual os teólogos tiram deduções muito importantes no estudo do ato de fé, a analogia entre a esperança e o amor humanos e a esperança e a caridade consideradas como virtudes teologais, a analogia entre as conversões substanciais na natureza criada e a admirável conversão substancial toda especial do pão e do vinho eucarísticos no corpo e no sangue de Jesus Cristo. É fácil constatar nos teólogos escolásticos, particularmente em santo Tomás, todo o partido que tiraram dessas analogias explícita ou implicitamente reveladas. — β. As analogias que não são nem explícita nem implicitamente reveladas e que são simplesmente empregadas nos documentos eclesiásticos ou nos escritos dos Padres e dos teólogos para melhor exprimir o ensinamento revelado têm um valor teológico correspondente ao valor da autoridade sobre a qual se apoiam. Citaremos alguns exemplos: Analogia estabelecida pelo primeiro concílio de Niceia entre a processão da luz e a geração do Verbo, lumen de lumine. — Analogia mencionada no símbolo atribuído a santo Atanásio: sicut anima rationalis et caro unus est homo, ita Deus et homo unus est Christus. — Analogia estabelecida por santo Tomás entre o movimento local e o trabalho de reforma e de renovação íntima pelo qual o pecador se dispõe à justificação, separando-se efetivamente do pecado pela contrição e tendendo generosamente para Deus pela esperança e pelo amor. Sum. theol., Iª IIæ, q. cxiii, a. 5. — Analogia entre as disposições físicas à recepção de uma nova forma acidental e as disposições preparatórias à recepção da graça santificante, Iª IIæ, q. cxii, a. 2, analogia da qual a escola tomista deduz numerosas conclusões. — Analogia entre o princípio de vida na ordem natural e a graça santificante, princípio de nossa vida sobrenatural, analogia existente similarmente entre as faculdades ou potências da alma na ordem natural e as virtudes na ordem sobrenatural, Iª IIæ, q. cx, a. 4. — Analogia entre a matéria e a forma no composto físico e os dois elementos do sinal sensível que constituem o sinal sacramental, IIIª, q. lx, a. 6, analogia da qual a teologia escolástica deduziu numerosas conclusões ou aplicações. b. Para que todas essas analogias possam conduzir a um conhecimento científico ao menos imperfeito da verdade revelada, é necessário um duplo trabalho: a. Deve-se servir-se de todos os dados da razão para colocar em plena luz o termo humano de comparação, a fim de que possa fornecer uma base sólida a conclusões firmes e amplas. É assim que, no estudo do mistério da Trindade, santo Tomás começa cada questão teológica por uma profunda análise da analogia ou da noção humana que deve servir de intermediária na argumentação teológica.
Citaremos como exemplos: o estudo da geração nas criaturas, Sum. theol., Ia, q. XXVI, a. 2; a maneira como o verbo humano procede de nossa inteligência, loc. cit., ad 2um; Cont. gent., l. IV, c. XI, XII; a explicação racional da diferença entre a processão da inteligência e a da vontade, Ib., q. XXVII, a. 4; q. XXXVII, a. 1; Cont. gent., l. IV, c. XXII; a noção da pessoa nas criaturas, Ia, q. XXIX, a. 1 e segs. — 8. Aproximando do ensinamento revelado esses dados racionais, deve-se esforçar-se por estabelecer nitidamente as semelhanças e as dessemelhanças entre o termo de comparação e o ensinamento revelado, com a dupla intenção de atribuir efetivamente ao conceito revelado todas as semelhanças na medida estritamente permitida pela revelação, e de afastar positivamente do mesmo conceito todas as dessemelhanças evidentemente exigidas ou sugeridas pelo ensinamento divino, tal como é proposto à nossa crença pelo magistério eclesiástico. É ainda o procedimento seguido por santo Tomás, assinalando nos lugares anteriormente indicados as dessemelhanças e as semelhanças entre a geração humana e a geração divina, entre a processão do verbo humano e a do verbo divino, entre a pessoa humana e as pessoas divinas, entre a união hipostática e a união da alma humana com o corpo humano. — 9. Notemos enfim que as conclusões a que se chega aprovando as semelhanças e rejeitando as dessemelhanças conduzem elas mesmas a novas deduções. É assim que, depois de ter mostrado a semelhança entre o princípio de vida na ordem natural e a graça santificante, e atribuído às virtudes infusas o papel de faculdades na ordem sobrenatural, S. Thomas, Sum. theol., Ia IIae, q. CX, a. 2-4, estabelece-se a classificação de todas essas virtudes com o papel particular de cada uma, segundo a analogia com as virtudes naturais e segundo as exigências especiais da ordem sobrenatural, o que santo Tomás expõe em toda a Ia IIae, sem omitir o papel indispensável dos dons do Espírito Santo destinados a aperfeiçoar nossas virtudes sobrenaturais, Ia IIae, q. LXVIII, a. 1. c) Conhecimento científico proveniente das deduções teológicas ao comparar-se, entre si e com o fim sobrenatural, as verdades reveladas. — a. As deduções teológicas obtidas comparando entre si as verdades reveladas dizem respeito: α. Às noções comuns pertencentes ao conjunto das verdades reveladas ou a seus diversos grupos. É assim que, comparando entre si os diversos sacramentos da nova lei, tais como nos são manifestados pela revelação, colocou-se em plena luz sua característica comum, que é ser sinais eficazes da graça santificante. Dedução esboçada por Hugo de São Vítor, De sacramentis christianae fidei, l. I, part. IX, c. II, P.L., t. CLXXVI, col. 317, depois completada por Pedro Lombardo, Sent., IV, dist. I, c. 2, col. 839, e por santo Tomás, Sum. theol., IIIa, q. LXII, a. 1, e da qual muitas conclusões novas foram ulteriormente deduzidas. Do mesmo modo, comparando atentamente todos os ensinamentos divinos sobre a ordem sobrenatural, deduziu-se de maneira mais precisa a noção da graça estritamente sobrenatural, sob sua dupla forma de graça santificante e de graça atual, com as propriedades que lhes são inerentes: graça santificante, princípio de vida que contém em germe a luz de glória e capaz de produzir atos meritórios da vida eterna, e graça atual, que ajuda a inteligência e a vontade para cada um dos atos sobrenaturais que precedem a graça sobrenatural ou são produzidos por ela. — β. O estudo aprofundado dessas mesmas noções comuns conduziu logicamente a uma síntese dos diversos princípios necessários para sua completa inteligência. Assim, a natureza dos sacramentos não podia ser perfeitamente conhecida sem que se conhecesse ao mesmo tempo suas diversas causas, seu modo de produção, seus efeitos, as condições requeridas para sua validade ou para sua licitude. Foi dessa maneira que se constituiu enfim, pelos escolásticos, na esteira de Pedro Lombardo, o tratado geral dos sacramentos que, apesar de todas as suas imperfeições e lacunas, projeta contudo alguma luz sobre o estudo de cada um dos sacramentos. Do mesmo modo, as noções de graça santificante e de graça atual não podiam ser plenamente possuídas sem que se possuísse ao mesmo tempo suas diversas propriedades, seu modo de produção ou de ação: o que constitui toda a estrutura teológica do tratado da graça. Foi ainda com a mesma finalidade que se aplicou ao estudo da encarnação e da eucaristia as diversas questões dialéticas an sit, qualis sit, cur et unde sit, cuja solução fornece um conhecimento mais aprofundado dessas mesmas verdades. — γ. Dessas noções e desses princípios comuns pôde-se em seguida deduzir numerosas e sólidas conclusões que se cuidou de coordenar em uma forte síntese, resumindo e classificando todos os conhecimentos resultantes desse procedimento comparativo. Foi assim que, pela contribuição das gerações sucessivas de teólogos, particularmente no período escolástico, foram definitivamente constituídos nossos tratados atuais de teologia dogmática, ao menos em sua parte especulativa. d) Conhecimento científico proveniente das deduções teológicas obtidas comparando os dogmas cristãos com o fim sobrenatural do homem: a. Essa comparação é indicada pela ordem providencial como devendo servir ao conhecimento dos dogmas revelados. Pois é verdade certa que Deus, ao nos comunicar seu ensinamento para que a ele adiramos pela fé, quer antes de tudo fornecer-nos a luz necessária para que nos guiemos a nós mesmos rumo à salvação eterna. Marc., XVI, 15 e segs.; Joa., I, 16 e segs.; VI, 35, 40; XI, 25. É nesse sentido que santo Tomás atribui à revelação e à fé o papel capital de nos fazer conhecer o fim sobrenatural a atingir e os meios que devem assegurar-nos a sua posse. Sum. theol., IIa IIae, q. II, a. 3, 5; Cont. gent., l. I, cc. IV, V. Uma vez que, no plano providencial, deve sempre haver harmonia entre os meios e o fim, uma atenta comparação entre o ensinamento divino e a salvação eterna para a qual ele é dirigido projetará certamente alguma luz sobre esse mesmo ensinamento. — b. De fato, essa comparação projeta uma luz mais viva sobre cada uma das verdades reveladas, ao mesmo tempo que sobre a admirável coesão de todo o conjunto da revelação. Assim, em face desse fim sobrenatural da visão beatífica, que é uma participação no íntimo conhecimento que Deus tem de si mesmo, compreende-se melhor a natureza da graça santificante, que deve tornar o homem capaz de merecer essa visão intuitiva, dando-lhe já nesta vida uma participação inicial na natureza divina. Desde então se manifesta também com mais brilho toda a economia da revelação cristã, compreendendo estas três grandes divisões: verdades a crer sobre Deus uno e trino e sobre a criação, particularmente sobre o homem; leis morais naturais e sobrenaturais às quais nossos atos devem estar submetidos para obter a posse do fim designado por Deus; e os meios providenciais internos e externos que conduzem a esse fim, particularmente a graça, a encarnação, a Igreja e os sacramentos. Plano que, na realidade, sintetiza maravilhosamente toda a teologia, como veremos em breve. — c. Em face desse fim sobrenatural manifesta-se, com não menor evidência, uma lei providencial que presidiu a toda a revelação cristã. Em virtude dessa lei, as verdades sobrenaturais nos foram principalmente comunicadas não na medida necessária para satisfazer toda a legítima curiosidade de nossa inteligência ou para construir uma síntese científica inteiramente completa, mas antes na medida em que o conhecimento dessas verdades é particularmente útil para dirigir o conjunto da humanidade rumo à felicidade eterna. O que se deve, contudo, entender não do mínimo de conhecimento normalmente exigido de cada indivíduo para o cumprimento das obrigações impostas à nossa fé, mas ainda do que é necessário para que toda a sociedade dos fiéis possa ser eficazmente dirigida na prática de sua fé e suficientemente protegida contra os ataques do erro e da infidelidade. Pois o dever de satisfazer essa dupla necessidade para toda a sociedade cristã entra no plano providencial, como indica santo Tomás. Sum. theol., IIa IIae, q. II, a. 6. 3. Ao conhecimento positivo e científico das verdades reveladas a dogmática ainda ajunta, ao menos a título auxiliar, uma apologia particular de cada uma das verdades reveladas. — a) Bem distinta da apologética geral ou apologética propriamente dita, que se ocupa de maneira geral da credibilidade do dogma católico que quer provar de maneira verdadeiramente científica, essa apologia particular tem por objeto um mistério ou um dogma particular que se quer justificar contra ataques reais, empregando argumentos que nem sempre são necessariamente científicos. Esse trabalho de apologética se reduz a estes dois pontos: mostrar em detalhe a falta de valor demonstrativo das diversas objeções alegadas pelos incrédulos contra cada uma das verdades reveladas e, ao mesmo tempo, fazer ressaltar as harmonias intelectuais, morais e sociais de cada verdade com as diversas necessidades individuais e sociais da humanidade. Essa dupla apologia particular, já empregada pelos teólogos escolásticos, particularmente por santo Tomás, Sum. theol., Ia, q. I, a. 8; q. XXXII, a. 1; XLVI, a. 2; IIa IIae, q. II, a. 3-5; IIIa, q. I, a. 1, 2; Cont. gent., l. I, cc. VII, IX; l. IV, c. I e segs., recebeu, a partir do século XVI, desenvolvimentos consideráveis ocasionados sobretudo pelos erros protestantes e pelos ataques dos racionalistas. — b) Essa apologia particular, que é um complemento de toda ciência teológica, S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. I, a. 8, deve encontrar-se também em dogmática na medida exigida pelas necessidades da defesa católica. Mas deve-se observar cuidadosamente aí as recomendações traçadas por santo Tomás. Loc. cit. — a. Os argumentos racionais que servem à apologia de um dogma nunca devem ser considerados como argumentos demonstrativos. Eles apenas mostram a falta de valor demonstrativo das objeções, S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. I, a. 8; Cont. gent., l. I, c. VI, ou insinuam a conveniência dos dogmas já possuídos pela fé. Cont. gent., l. I, c. IX. — b. Deve-se ser particularmente prudente na exposição ou apresentação de um dogma àqueles que não compartilham nossa fé. Deve-se rigorosamente proibir-se aí dar como demonstrativas provas que não o são, por medo de que os incrédulos se sintam autorizados a concluir que nossa fé repousa sobre tais provas: cum enim aliquis ad probandam fidem inducit rationes quae non sunt cogentes, cedit in irrisionem infidelium. Credunt enim quod hujusmodi rationibus innitamur et propter eas credamus. Quae igitur fidei sunt, non sunt tentanda probare nisi per auctoritates his qui auctoritates suscipiunt. Apud alios vero sufficit defendere non esse impossibile quod praedicat fides. S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. XXXII, a. 1. Doutrina igualmente afirmada, Ia, q. LXVIII, a. 4, e Quest. disp., De potentia, q. IV, a. 4. 4° Das considerações precedentes podemos deduzir três importantes conclusões relativamente aos princípios imediatos sobre os quais repousa a dogmática: a) As verdades divinamente reveladas e suficientemente conhecidas como tais pela proposição da Igreja ou pela tradição católica unânime e constante são, na realidade, os únicos princípios imediatos sobre os quais se apoia a dogmática. Pois nessa ciência, como em toda ciência teológica, é unicamente sobre o testemunho divino que repousa toda verdadeira demonstração. S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. I, a. 8. — b) Os argumentos de simples razão, tanto negativos quanto positivos, nunca podem ser considerados em dogmática como princípios efetivos de uma verdadeira demonstração. Servem unicamente para manifestar a falta de valor demonstrativo das objeções adversas, S. Thomas, Cont. gent., l. I, c. VII, ou para fazer ressaltar a alta conveniência racional de verdades já conhecidas pela revelação. Op. cit., l. I, c. IX. — c) No caso de deduções teológicas tomadas simultaneamente da revelação e da razão, a verdade revelada é, na realidade, o princípio fundamental sobre o qual principalmente se apoia. Pois é a essa verdade, da qual originariamente procede, que a conclusão teológica deve sua certeza especial, certeza sem dúvida inferior à da fé unicamente apoiada sobre o testemunho divino, mas bem superior à de uma evidência puramente racional, que repousa unicamente sobre a plena visão da inteligência. Na ocorrência, recorre-se ao raciocínio humano, não para provar absolutamente a conclusão em si mesma, mas somente para mostrar sua estreita conexão com o ensinamento revelado, a tal ponto que rejeitar a conclusão seria rejeitar esse ensinamento, sobre o qual, todavia, a menor dúvida jamais é permitida por causa da infinita ciência e veracidade de Deus. 5° Completemos nossa exposição com outra conclusão muito importante, relativa às relações que devem existir entre a dogmática e as demais ciências teológicas, entre a dogmática e as ciências humanas, filosóficas ou outras. — 1. Uma vez que toda ciência teológica repousa principalmente sobre o testemunho divino, e que esse testemunho nos é sobretudo manifestado pela dogmática, ao menos em tudo o que concerne às verdades principalmente especulativas, deve-se necessariamente concluir que é primeiramente da dogmática que as demais ciências teológicas recebem os princípios sobrenaturais sobre os quais devem se apoiar. Essa conclusão é particularmente verdadeira quanto à moral e à ascética. A teologia moral sobrenatural, sobretudo em sua parte teórica ou especulativa, é devedora à dogmática de todas as suas conclusões sobre o fim último na ordem sobrenatural, sobre as virtudes infusas, sobre os sacramentos, sobre os mandamentos divinos, sobre a obediência devida à divina autoridade da Igreja. Sem o firme apoio dado pela dogmática, a teologia moral logo não seria mais que um conjunto de regras imediatamente práticas, desprovidas de todo fundamento sólido.
— Do mesmo modo, a teologia ascética é tributária da dogmática por quase todo o seu ensinamento especulativo sobre a natureza da perfeição e sobre os estados de perfeição, sobre os meios gerais e especiais que conduzem à perfeição, sobre os conselhos evangélicos, sobre a natureza da união com Deus pela caridade, sobre a natureza de nossa participação na vida de Jesus Cristo, sobre o papel dos dons do Espírito Santo nos estados superiores de oração. Assim que deixa de se apoiar sobre uma dogmática sólida, a teologia ascética ou mística fica exposta a muitas ilusões ou erros, como demonstra a história dos séculos cristãos, ao passo que, com esse firme apoio, ela pôde, sobretudo entre os melhores teólogos escolásticos, na maior parte das vezes muito notáveis em uma e outra ciência, edificar uma sólida síntese na qual os polemistas puderam colher sólidos argumentos para refutar os erros jansenistas ou quietistas, e os práticos, colher regras seguras para a condução das almas nos caminhos ordinários ou extraordinários da perfeição. — Por sua vez, a moral e a ascética completam e aperfeiçoam a dogmática, ajudando cada indivíduo e toda a sociedade cristã a melhor atingir, pela via dos mandamentos ou pela dos conselhos, o fim sobrenatural mostrado pela dogmática. 2. Quanto às relações entre a dogmática e as ciências humanas, filosóficas, críticas ou outras: a) Uma vez que o ensinamento divino, principalmente proposto pela dogmática, não pode ser contraditado por nenhuma legítima afirmação de qualquer ciência humana, não podendo o verdadeiro ser oposto ao verdadeiro e não podendo Deus contradizer-se nessa dupla ordem de verdades, deve-se necessariamente concluir que todas as ciências humanas, filosóficas, críticas ou outras, devem depender particularmente da dogmática, que nos manifesta esse ensinamento divino. Essa dependência deve existir, não no método dessas ciências humanas, que deve ser sempre o seu método próprio e científico, mas em suas conclusões, que nunca devem contradizer nem o ensinamento certo da revelação tal como é proposto e legitimamente interpretado pela Igreja, nem uma proposição cuja íntima conexão com a revelação é positivamente ensinada pelo magistério eclesiástico. É o ensinamento formal do concílio do Vaticano: Inanis autem hujus contradictionis species inde potissimum oritur quod vel fidei dogmata ad mentem Ecclesiae intellecta et exposita non fuerint, vel opinionum commenta pro rationis effatis habeantur. Omnem igitur assertionem veritati illuminatae fidei contrariam omnino falsam esse dicimus. Sess. III, c. IV. Ensinamento já inculcado por Pio IX na condenação desta proposição 10ª do Syllabus: Quum aliud sit philosophus, aliud philosophia, ille jus et officium habet se submittendi auctoritati quam veram ipse probaverit; at philosophia neque potest neque debet ulli sese submittere auctoritati, Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 1710, e na carta ao arcebispo de Munique de 21 de dezembro de 1863: Ejusdem vero conventus viro debitis prosequimur laudibus, propterea quod rejicientes uti existimamus falsam inter philosophum et philosophiam distinctionem, de qua in aliis nostris litteris ad te scriptis locuti sumus, noverunt et asseruerunt omnes catholicos in doctis suis commentationibus debere ex conscientia dogmaticis infallibilis catholicae Ecclesiae obedire decretis. Enchiridion, n. 1682. Nessa mesma carta, Pio IX ensina que o dever de submissão dos sábios católicos não deve de modo algum ser limitado às definições infalíveis do magistério eclesiástico, devendo estender-se também às decisões doutrinais das Congregações romanas e aos pontos de doutrina comum e constantemente considerados como conclusões teológicas tão certas que seus contraditórios, embora não sejam heréticos, merecem contudo uma outra censura teológica. Enchiridion, n. 1684. Uma vez que todo esse ensinamento doutrinal, ao qual as ciências humanas devem necessariamente estar subordinadas, é habitualmente proposto pela dogmática, o dever de dependência dessas ciências em relação à dogmática é uma consequência rigorosamente necessária. b) Tal dependência das ciências humanas em relação à dogmática, longe de lhes ser nociva, é ao contrário para elas um princípio de aperfeiçoamento e de progresso, como ensina expressamente o concílio do Vaticano: Quapropter tantum abest ut Ecclesia humanarum artium et disciplinarum culturae obsistat, ut hanc multis modis juvet atque promoveat. Sess. III, c. IV. Doutrina várias vezes repetida por Leão XIII em suas encíclicas: Quare non est causa cur germana libertas indignetur, aut veri nominis scientia moleste ferat leges justas ac debitas quibus hominum doctrinam contineri Ecclesia simul et ratio consentientes postulant. Encíclica Libertas de 20 de junho de 1888. Qua plena sapientiae lege nequaquam Ecclesia pervestigationem scientiae biblicae retardat aut coercet; sed eam potius ab errore integram praestat, plurimumque ad veram adjuvat progressionem. Encíclica Providentissimus Deus de 18 de novembro de 1893. Este ensinamento é aliás confirmado por fatos constantes. Baste-nos lembrar aqui, no que concerne às ciências filosóficas, os fatos indicados por Leão XIII em sua encíclica Aeterni Patris de 4 de agosto de 1879. Quando, sob o impulso dos inovadores do século XVI, começou-se a filosofar sem nenhum respeito pela fé e concedeu-se plena licença de deixar correr o pensamento segundo o próprio capricho e engenho, resultou disso naturalmente que os sistemas de filosofia se multiplicaram além da medida e que opiniões contraditórias vieram à luz, mesmo sobre os objetos mais importantes dos conhecimentos humanos. Donde se foi facilmente conduzido a muitas hesitações, dúvidas e erros soberanamente nocivos à própria filosofia. Por outro lado, é fato não menos certo que a filosofia, enquanto permaneceu submissa à autoridade tutelar da revelação cristã, tal como é proposta pela Igreja, atingiu uma perfeição maior e trouxe aos indivíduos e a toda a sociedade grandes vantagens: His rebus et causis, quoties respicimus ad bonitatem, vim, praeclarasque utilitates ejus disciplinae philosophicae quam majores nostri adamarant, judicamus tenere esse commissum ut eidem suus honor non semper nec ubique permanserit. Encíclica Aeterni Patris. Aliás, agora que o modernismo está manifestamente desvendado sob todos os seus aspectos, não é evidente que Pio X, condenando pela encíclica Pascendi todas as aplicações desse sistema em filosofia, em teologia, em exegese, em crítica e em história, defendeu vigorosamente o verdadeiro progresso e o verdadeiro aperfeiçoamento das ciências filosóficas, históricas e críticas, ao mesmo tempo em que protegia, contra todas as negações audaciosas dos incrédulos, o depósito íntegro da revelação confiado à guarda vigilante da Igreja? II. MÉTODO. — Examinaremos particularmente, quanto à dogmática: 1° o papel que deve ter nela o método positivo; 2° o papel que se deve atribuir ao método escolástico; 3° a qual desses dois métodos se deve dar a preferência. I. MÉTODO POSITIVO. — 1° Em que consiste. — 1. A expressão teologia positiva, empregada pela primeira vez no fim do século XVI, foi usada em sentidos bastante diversos durante os séculos XVII e XVIII. Enquanto significa, para Becanus († 1624), a theologia oratorio stylo habens, por oposição à escolástica com seus procedimentos dialéticos, seu estilo simples, preciso e didático, Summa theologiae scholasticae, disp. proem., q. I e II, Lyon, 1690, p. 4, 8, sentido ainda adotado por Gonet († 1681), Clypeus theologiae thomisticae, disp. proem., Antuérpia, 1744, t. 1, p. 1; ela é, para Sylvius († 1648), a teologia que se dedica à explicação da Escritura, para dela descobrir o sentido ex sermonis contextu, vocum proprietate, sanctorum Patrum aliorumque interpretum auctoritate e que, depois de ter encontrado esse sentido, põe e estabelece como princípios as verdades assim contidas na Escritura. Commentarius in Sum. theol., in Iam, q. 1, a. 1, quaer. III, Antuérpia, 1698, t. 1, p. 5. Filipe da Santíssima Trindade († 1671) restringe a teologia positiva a uma exposição da Escritura per homilias, sermones, etc., e faz derivar o nome de positiva do fato de que essa ciência ponit aliquid supra Scripturam. Disputationes theologicae, in 1a, disp. I, dub. 1, Lyon, 1653, t. 1, p. 5. Henno († 1713) reproduz simplesmente a noção de Becanus e de Gonet. Theologia dogmatica moralis et scholastica, disp. proem., q. 1, concl. II, Veneza, 1719, t. 1, p. 4. Frassen († 1711), reunindo numa mesma definição o conceito de Becanus e o de Sylvius, ensina que, na teologia positiva, as verdades de fé são postas como princípios dos quais a escolástica, com seus procedimentos filosóficos e silogísticos, deduz suas conclusões, e que aliás a positiva é inteiramente consagrada à exposição do direito divino positivo, compreendendo a lei divina, as sagradas Escrituras e as tradições divinas, assim como os decretos da Igreja. Scotus academicus, disp. proem., a. 4, q. 1, Roma, 1720, t. 1, p. 7. Os dois conceitos de Becanus e de Sylvius são igualmente unidos por Tournely († 1729), Praelectiones de Deo uno et trino, Paris, 1725, t. 1, p. 6, pelo cardeal Gotti († 1742), Theologia scholastico-dogmatica, tr. I, q. I, dub. 1, Veneza, 1750, t. 1, p. 2, e por Billuart († 1757), Summa sancti Thomae, disp. proem., a. 1, Paris, 1886, t. 7, p. 3. Enfim, no século XIX, afastando definitivamente a questão toda secundária do estilo e querendo marcar mais nitidamente o papel preponderante da tradição sempre viva na Igreja, define-se comumente o método positivo: aquele que, com o apoio da Escritura, da tradição e do ensino da Igreja, procura o que está contido na revelação divina e como aí está contido. Franzelin, De divina traditione, 4ª ed., Roma, 1896, p. 672; Hurter, Theologiae dogmaticae compendium, 4ª ed., Innsbruck, 1883, p. 2 e segs.; Pesch, Praelectiones dogmaticae, 4ª ed., Friburgo de Brisgóvia, 1909, t. 1, p. 9; Th. Coconnier, Revue thomiste, 1902, p. 630; M. Jacquin, Revue des sciences philosophiques et théologiques, janeiro de 1907, p. 99 e segs. É ainda o que se designou frequentemente sob o nome de teologia histórica, consistindo principalmente numa demonstração e numa exposição histórica dos dogmas revelados, apoiadas unicamente sobre o testemunho histórico da Escritura e da tradição. Th. Coconnier, Revue thomiste, 1902, p. 630. Na realidade, a teologia positiva ou histórica tem um duplo papel: estabelecer, pelas provas de autoridade, a existência de tal dogma e retraçar ao mesmo tempo o seu desenvolvimento histórico, tanto nos escritos inspirados de um e outro Testamento quanto em todo o conjunto da tradição dos Padres e dos teólogos. Restrita ao estudo da doutrina efetivamente contida nos escritos inspirados, ela toma o nome de teologia bíblica de um e outro Testamento. Aplicada à busca do testemunho da tradição ao longo dos séculos, sob todas as formas em que ela se manifesta — asserções dos Padres e dos teólogos, atestações documentais de toda espécie e definições da autoridade eclesiástica —, a teologia positiva ou histórica toma os diversos nomes particulares de teologia patrística, teologia litúrgica, simbólica ou conciliar. Mas, qualquer que seja o objeto de suas investigações, ela deve, no que lhe concerne estritamente, abster-se das deduções parcialmente apoiadas no raciocínio e recorrer unicamente à autoridade escriturística, patrística ou eclesiástica. 2° Necessidade do método positivo em dogmática. — 1. Essa necessidade resulta do próprio caráter da teologia dogmática. Desejosa de adquirir das verdades reveladas um conhecimento científico na medida atualmente possível, a teologia dogmática deve antes de mais nada assegurar-se da existência e da verdade dos princípios revelados sobre os quais todas as suas conclusões ulteriores devem apoiar-se. Não podendo essa justificação ser feita senão pela manifestação do testemunho divino, única fonte autêntica da revelação, é pois rigorosamente necessário demonstrar, em primeiro lugar, como e em que sentido essas verdades são afirmadas pelo ensino divino contido na Escritura e na tradição e proposto pela Igreja à nossa crença. É nesse sentido que santo Tomás e depois dele todos os teólogos escolásticos afirmaram que a teologia repousa principalmente sobre o argumento de autoridade: argumentari ex auctoritate est maxime proprium hujus doctrinae, eo quod principia hujus doctrinae per revelationem habentur. Sum. theol., I, q. 1, a. 8. É aliás evidente que essa demonstração não tem por finalidade conduzir à fé, que já se possui; é uma demonstração simplesmente regressiva, destinada a justificar, para cada verdade revelada, a fé já possuída, mostrando como essa verdade está contida na revelação e em que sentido se deve interpretá-la. 2. A necessidade de uma sólida demonstração positiva pela verificação regressiva das fontes autênticas da revelação é particularmente imperiosa na época atual, diante das negações radicais e das múltiplas exigências da crítica histórica ou bíblica. É o único meio de afastar eficazmente os ataques dos adversários e de preservar suficientemente a fé dos fiéis. É o que proclamam com veemência os partidários mais convictos do método escolástico. Th. Coconnier, Revue thomiste, 1902, p. 632. É sobretudo o que recomenda Pio X na encíclica Pascendi, exigindo que se dê hoje mais importância do que outrora à teologia positiva, com o encargo, contudo, de observar certas condições e restrições: Addimus hic eos etiam nobis laude dignos videri qui incolumi reverentia erga traditionem et Patres et ecclesiasticum magisterium, sapienti judicio catholicisque usi normis, quod non aeque omnibus accidit, theologiam positivam, mutuato a veri nominis historia lumine collustrare studeant. Major profecto quam antehac positivae theologiae ratio est habenda; id tamen sic fiat, ut nihil scholasticae detrimenti capiat, iique reprehendantur, utpote qui modernistarum rem gerunt, quicumque positivam sic extollunt ut scholasticam theologiam despicere videantur. 3° Condições a observar. — 1.
Trate-se do exame crítico da procedência dos documentos empregados, ou do estudo crítico do texto, ou de sua fiel interpretação, deve-se, em tudo o que é do domínio da teologia positiva, guardar-se cuidadosamente tanto de um recurso exclusivo ou excessivo às provas internas em detrimento das provas extrínsecas de autenticidade, quanto de uma liberdade repreensível em relação ao sobrenatural, particularmente em relação ao milagre e à revelação, e em geral em relação ao dogma católico: duplo excesso censurado por Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus de 18 de novembro de 1893 e por Pio X na encíclica Jucunda sane de 12 de março de 1904 e na encíclica Pascendi de 8 de setembro de 1907. Deve-se também acautelar-se contra as suposições ou interpretações frequentemente bem fantasiosas da hipercrítica. Ver CRITIQUE, t. III, col. 2331.
2. No que concerne particularmente à teologia bíblica: a) há para todo católico a obrigação estrita de submeter-se integralmente às definições da Igreja, que declara autenticamente a interpretação que se deve dar a tal texto escriturístico. É o ensino formal do concílio de Trento, sess. IV, e do concílio do Vaticano: Quoniam vero quæ sancta Tridentina synodus de interpretatione divinæ Scripturæ ad coercenda petulantia ingenia salubriter decrevit, a quibusdam hominibus prave exponuntur, nos idem decretum renovantes, hanc illius mentem esse declaramus, ut in rebus fidei et morum ad ædificationem doctrinæ christianæ pertinentium, is pro vero sensu sacræ Scripturæ habendus sit, quem tenuit ac tenet sancta mater Ecclesia, cujus est judicare de vero sensu et interpretatione Scripturarum sanctarum; atque ideo nemini licere contra hunc sensum aut etiam contra unanimem sensum Patrum ipsam Scripturam sacram interpretari, sess. III, c. II. Dentre os poucos textos cujo sentido é assim autenticamente definido, citaremos particularmente: a) Joa., xx, 23, que segundo o ensino do concílio de Trento, sess. XIV, c. 1 e can. 3, deve entender-se de potestate remittendi et retinendi peccata in sacramento pœnitentiæ; b) as palavras da instituição da santa eucaristia, significando certamente o dogma da presença real, segundo a declaração do concílio de Trento, sess. XIII, c. 1; c) Luc., xxii, 19, que, segundo a interpretação do concílio de Trento, sess. XXII, c. I e can. 2, manifesta a instituição do sacerdócio cristão; d) Matth., xvi, 18, e Joa., xxi, 15 e segs., exprimindo certamente o primado efetivo, concedido a Pedro e a seus sucessores até a consumação dos séculos, no juízo do concílio do Vaticano, sess. IV.
Ao pedir ao teólogo bíblico que se submeta a essas definições, a Igreja de modo algum quer contrariá-lo ou incomodá-lo em sua demonstração bíblica. Ao dar-lhe a segurança de que tal verdade é verdadeiramente ensinada pelo texto inspirado, ela em nada impede o exegeta católico de provar, de maneira regressiva e por argumentos estritamente bíblicos, o pertencimento efetivo de tal verdade ao ensino escriturístico. Pois é um princípio bem seguro que a Igreja deixa às diversas ciências a liberdade de seguir seu método particular, contanto que estas rejeitem os erros opostos ao ensino divino e não ultrapassem de modo algum suas próprias atribuições: Nec sane ipsa vetat ne hujusmodi disciplinæ in suo quæque ambitu propriis utantur principiis et propria methodo; sed justam hanc libertatem agnoscens, id sedulo cavet ne divinæ doctrinæ repugnando errores in se suscipiant, aut fines proprios transgressæ, ea quæ sunt fidei occupent et perturbent. Concílio do Vaticano, sess. III, c. IV. Ensino particularmente aplicado à teologia bíblica por Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus de 18 de novembro de 1893: Qua plena sapientiæ lege nequaquam Ecclesia pervestigationem scientiæ biblicæ retardat aut coercet: sed eam potius ab errore integram præstat, plurimumque ad veram adjuvat progressionem. Nam privato cuique doctori magnus patet campus, in quo, tutis vestigiis, sua interpretandi industria præclare certet Ecclesieque utiliter.
b) Quando a Igreja não definiu a interpretação que se deve dar a um texto particular, há sempre obrigação estrita para o teólogo bíblico de conformar-se à analogia da fé, jamais admitindo, como interpretação legítima do texto sagrado, um sentido que esteja em desacordo com o ensino católico tal como é proposto pela Igreja: In ceteris analogia fidei sequenda est, et doctrina catholica qualis ex auctoritate Ecclesiæ accepta, tanquam summa norma est adhibenda: nam cum et sacrorum librorum et doctrinæ apud Ecclesiam depositæ idem sit auctor Deus, profecto fieri nequit ut sensus ex illis qui ab hac quoquo modo discrepet, legitima interpretatione eruatur. Ex quo apparet eam interpretationem ut ineptam et falsam rejiciendam esse quæ vel inspiratos auctores in se quodammodo pugnantes faciat, vel doctrinæ Ecclesiæ adversetur. Encíclica Providentissimus Deus de 18 de novembro de 1893.
c) Sem ignorar nem, com mais forte razão, desaprovar as conclusões legitimamente deduzidas do texto escriturístico, conclusões cujo conhecimento e cuja compreensão lhe são aliás, na maioria das vezes, muito úteis, o teólogo bíblico, no que concerne à sua especialidade, deve limitar-se à busca do ensino real do escritor sagrado. Para atingir convenientemente essa finalidade, deve recorrer a uma fiel análise de todos os textos particulares e a uma completa síntese de todos esses mesmos textos aproximados, comparados e recolocados em seu quadro histórico integral, para que os desenvolvimentos ou complementos sucessivos do ensino sagrado possam ser mais facilmente apreendidos. F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1908, p. 1 e segs.; E. Tobac, Le problème de la justification dans saint Paul, Lovaina, 1909, prefácio, p. IX e segs. Sem esse trabalho de síntese corre-se frequentemente o risco de não apreender o exato teor do dogma escriturístico. Assim, o termo Filho de Deus, embora não tenha talvez necessariamente, em cada um dos textos evangélicos, o sentido bem determinado de Filho consubstancial de Deus Pai, possui-o muito certamente no conjunto dos textos, como resulta da condenação formal lançada pelo decreto Lamentabili contra esta proposição 30ª: In omnibus textibus evangelicis nomen Filius Dei æquivalet tantum nomini Messias, minime vero significat Christum esse verum et naturalem Dei Filium. Do mesmo modo, a expressão evangélica do dogma da redenção em Matth., xxvi, 28; xx, 28, e nos lugares paralelos dos outros evangelistas, deve ser tomada juntamente com as passagens em que são Paulo formula explicitamente esse ensino. Rom., iii, 24 e segs.; v, 8; viii, 32; Gal., iv, 4; Eph., i, 7; Col., i, 14 e segs.; Heb., ii, 1 e segs.; vii, 27; ix, 14 e segs.
d) Se não se pode exigir do teólogo bíblico que persiga habitualmente em suas investigações uma finalidade apologética ou dogmática, tampouco se lhe pode proibir. Pois tudo o que se tem o direito de exigir do ponto de vista científico é que o método próprio da ciência exegética e da ciência histórica seja rigorosamente observado, levando-se particularmente em conta o caráter dos livros sagrados. Aliás, segundo a encíclica Providentissimus Deus, a preocupação dogmática deve existir no exegeta católico, ao menos para os textos cujo sentido é definido pelos escritores sagrados ou pela autoridade da Igreja, e cuja interpretação autêntica ele deve, segundo suas forças, justificar cientificamente: Quapropter præcipuum sanctumque sit catholico interpreti, ut illa Scripturæ testimonia, quorum sensus authentice declaratus est, aut per sacros auctores, Spiritu Sancto afflante, uti multis in locis Novi Testamenti, aut per Ecclesiam, eodem sancto adsistente Spiritu, sive solenni judicio, sive ordinario et universali magisterio, eadem ipse ratione interpretetur: atque ex adjumentis disciplinæ suæ convincat, eam solam interpretationem, ad sanæ hermeneuticæ leges, posse recte probari.
e) Uma vez que, segundo a encíclica Providentissimus Deus, embora se deva ter em grande estima a interpretação dos Padres, considerados mesmo como doutores particulares, é permitido, ubi justa causa adfuerit, recorrer a uma explicação diversa da deles, nada impede que o teólogo bíblico prefira autores mais recentes, todas as vezes que a questão se ponha atualmente de maneira bem diferente, como sucede frequentemente nesses estudos ainda novos. E. Tobac, op. cit., prefácio, p. x.
II. MÉTODO ESCOLÁSTICO. — 1° Em que consiste esse método? — Importa soberanamente distinguir o que constitui essencialmente o método escolástico daquilo que é apenas seu acompanhamento habitual. — 1. O que constitui essencialmente o método escolástico, independentemente das circunstâncias acidentais de escolas e de sistemas, é o emprego habitual da razão subordinada à autoridade da revelação cristã, tal como é ensinada pelo magistério da Igreja; não para provar os dogmas, sempre inacessíveis a toda prova racional, mesmo depois da adesão da fé, mas para afastar as objeções da razão contra as verdades reveladas, para mostrar as harmonias íntimas dos dogmas com as verdades racionais ou com as outras verdades reveladas, e sobretudo para deduzir das verdades reveladas conclusões tão amplas quanto possível sobre a natureza dos ensinamentos divinos. É nesse sentido que Leão XIII declara em sua encíclica Æterni Patris que o que é próprio e particular aos teólogos escolásticos é unir por um vínculo bem estreito a ciência humana e a ciência divina. É aliás um fato evidente para quem quer que estude atentamente a história da escolástica.
2. O que constitui simplesmente o acompanhamento habitual do método escolástico é a forma didática, simples, breve, na maioria das vezes silogística, em que domina a constante preocupação da clareza e da precisão, em que tudo é cuidadosamente dirigido para o único fim imediato da instrução ou da educação da inteligência. É a forma adotada por são Tomás segundo a indicação que ele próprio dá no prólogo de sua Suma teológica: Propositum nostræ intentionis in hoc opere est, ea quæ ad christianam religionem pertinent, eo modo tradere secundum quod congruit ad eruditionem incipientium. Donde sua solicitude para que sua exposição fosse curta e lúcida, breviter ac dilucide. Esse método aliás não é senão uma aplicação do que ensina o santo doutor, explicando como o mestre deve ajudar o trabalho de seu discípulo, servindo-se do que já é conhecido para conduzir ao conhecimento do que ainda é ignorado e mostrando ao discípulo como deve guiar-se ele próprio em sua marcha progressiva dos princípios às conclusões. Sum. theol., I, q. cxvii, a. 1. Esse procedimento, que tem para a inteligência um alto valor educativo, produz excelentes resultados se se restringe o seu uso ao ensino técnico, que é toda a sua razão de ser e sua única finalidade. T. Richard, Étude critique sur le but et la nature de la scolastique, na Revue thomiste, 1904, p. 179 e segs. Universalizar esse procedimento, empregando-o para outros fins, servir-se dele por exemplo no púlpito ou em composições literárias ou litúrgicas, é uma aplicação defeituosa da escolástica; se, na época da decadência, tais abusos foram realmente cometidos, a própria escolástica não deve por isso ser tida como responsável.
3. Ao método escolástico está de fato intimamente associada a doutrina comumente chamada escolástica, porque foi habitualmente admitida pelos melhores autores escolásticos. Essa doutrina, especialmente louvada em são Tomás pela santa sé, notadamente por Pio IX, Leão XIII e Pio X, deve ser para todos os católicos objeto de uma profunda estima e de uma preferência bem particular. É o que resulta da condenação lançada por Pio IX contra esta proposição 15ª do Syllabus: Methodus et principia quibus antiqui doctores scolastici theologiam excoluerunt, temporum nostrorum necessitatibus scientiarumque progressui minime congruunt. É também o ensino frequentemente repetido por Leão XIII e por Pio X, insistindo na restauração da doutrina de são Tomás em tudo o que não é invalidado por documentos posteriores nem é de modo algum repreensível, sem contudo desaprovar os doutos trabalhadores que empregam seu talento, sua erudição, bem como todos os recursos das invenções novas para desenvolver o acervo filosófico já possuído. Essas recomendações pontifícias são tanto mais imperiosas quanto, segundo os documentos já citados, a defesa da fé católica contra os erros racionalistas ou modernistas está nisso gravemente interessada: Deinde plurimi ex iis hominibus qui abalienato a fide animo instituta catholica oderunt, solam sibi esse magistram ac ducem rationem profitentur. Ad hos autem sanandos et in gratiam cum fide catholica restituendos, præter supernaturale Dei auxilium nihil esse opportunius arbitramur quam solidam Patrum et scholasticorum doctrinam qui firmissima fidei fundamenta, divinam illius originem, certam veritatem argumenta quibus suadetur, beneficia in humanum genus collata, perfectamque cum ratione concordiam tanta evidentia et vi commonstrant quanta flectendis mentibus vel maxime invitis et repugnantibus abunde sufficiat. Encíclica Æterni Patris. No mesmo sentido, Pio X indica, como primeiro remédio contra a invasão e os funestos estragos do modernismo, o estudo e o ensino da filosofia escolástica, que ele diz formalmente ser a de são Tomás: Primo igitur ad studia quod attinet, volumus probeque mandamus ut philosophia scholastica studiorum sacrorum fundamentum ponatur. Quod rei caput est, philosophiam scholasticam quam sequendam præscribimus, eam præcipue intelligimus quæ a sancto Thoma Aquinate est tradita: de qua quidquid a decessore nostro sancitum est, id omne vigere volumus et qua sit opus instauramus et confirmamus, stricteque ab universis servari jubemus. Encíclica Pascendi.
2° Necessidade desse método em dogmática. — 1. Essa necessidade resulta do fato de que a dogmática seria de outro modo incapaz de cumprir duas funções que lhe pertencem essencialmente: realizar, na medida atualmente possível, o conhecimento científico das verdades reveladas, e defender eficazmente contra as objeções racionais cada um dos ensinamentos divinos.
Essas duas funções não podem ser cumpridas sem um frequente emprego da razão filosófica, tomando sobretudo das analogias criadas as luzes necessárias para estabelecer sólidas deduções teológicas ou para mostrar a falta de valor demonstrativo das objeções adversas. É o que ensina o concílio do Vaticano, quando define que a razão iluminada pela fé pode, com uma pesquisa atenta e piedosamente discreta, obter dos mistérios divinos uma inteligência muito frutuosa, pela analogia das coisas criadas e pela comparação dos mistérios entre si e com seu fim, sess. III, c. IV. É particularmente também o ensino de Leão XIII, na encíclica Æterni Patris de 4 de agosto de 1879, mencionando a filosofia cristã como sendo verdadeiramente o que constitui a teologia como ciência, pela ordem e coesão que estabelece em suas provas e em suas conclusões, pelo poder que lhe confere de responder às objeções adversas tomadas principalmente da filosofia anticristã, e pela frutuosa inteligência dos mistérios que ela extrai sobretudo do conhecimento das analogias criadas e da comparação dos mistérios entre si e com seu fim. É aliás o que já recomendava são Tomás, quando ensinava em seus Quodlibeta que as provas de autoridade bastam para estabelecer o fato da revelação de tal verdade divinamente ensinada, mas que o recurso à razão é necessário para dar a inteligência dessa verdade: « Quædam vero disputatio est magistralis in scholis non ad removendum errorem, sed ad instruendum auditores ut inducantur ad intellectum veritatis quam intendit; et tunc oportet rationibus inniti investigantibus veritatis radicem et facientibus scire quomodo sit verum quod dicitur; alioquin si nullis auctoritatibus magister quaestionem determinet, certificabitur quidem auditor quod ita est; sed nihil scientiae vel intellectus acquiret, sed vacuus abscedet. » Quodlibet., IX, q. IX, a. 18. Ora, segundo a definição anteriormente indicada, esse uso da razão filosófica a serviço da fé e sob a direção da Igreja é precisamente o que constitui essencialmente o método escolástico. Só ela, aliás, como ensinam Leão XIII na Æterni Patris e Pio X na encíclica Pascendi, possui a solidez e a coesão necessárias para realizar a grande obra desejada. É pois imperiosamente necessário associá-la à teologia positiva, cuja necessidade não menos rigorosa mostramos anteriormente.
2. O método escolástico é particularmente requerido em nossa época para lutar eficazmente contra os múltiplos e perigosos ataques da crítica contemporânea. Pois, se o método positivo pode dar à crítica uma resposta peremptória sobre tal dado científico, sobre tal texto ou tal documento, ele é por si mesmo incapaz de combater vitoriosamente os falsos princípios filosóficos que na maioria das vezes acompanham e dirigem os procedimentos da crítica atual. É a conclusão que todo leitor atento deverá retirar particularmente da encíclica Pascendi de Pio X. Uma vez que, segundo o ensino pontifício, a crítica em que se inspiram na maioria das vezes os inimigos de nossa fé em matéria histórica ou exegética se apoia geralmente em ideias filosóficas preconcebidas e muito nitidamente fixadas, é soberanamente necessário que se combatam eficazmente essas falsas concepções filosóficas, se se quer prover seriamente à defesa religiosa. Ora, só a filosofia escolástica pode opor uma resistência lógica e efetiva a esses falsos princípios filosóficos sobre os quais se apoia a crítica modernista: princípio do agnosticismo, princípio da transfiguração das coisas pela fé e princípio de desfiguração. Só a filosofia escolástica pode combater vitoriosamente todas as objeções adversas e estabelecer solidamente as verdades atacadas até em seus fundamentos racionais. Enfim, só o método escolástico pode ajudar a satisfazer plenamente as inteligências trabalhadas pelo racionalismo ou preocupadas em responder às suas perguntas ou às suas objeções. É sobretudo nesse sentido que Leão XIII, no texto já citado da encíclica Æterni Patris, aponta a filosofia escolástica como sendo, depois do socorro divino, o meio mais oportuno de combater o racionalismo contemporâneo.
3° Condições a observar. — Para que as vantagens que se esperam da escolástica possam ser plenamente realizadas, deve-se cuidadosamente evitar certos excessos ou abusos, dos quais muitos escolásticos nem sempre souberam preservar-se suficientemente.
1. A dedução escolástica jamais deve substituir a demonstração positiva, escriturística ou patrística, nas matérias que exigem essa demonstração, nem servir de ocasião ou de pretexto para diminuir o papel que pertence legitimamente ao método positivo. Ao fazer essa observação, não quereríamos que ela fosse considerada como aplicável ao conjunto da escolástica medieval. Se nela quase sempre se deu um lugar bastante restrito ao método positivo, isso não se deveu à falta de estima por ele, mas antes à pobreza dos recursos documentais, e às preocupações que dominaram toda essa época e dirigiram a atenção quase exclusivamente para a questão fundamental do acordo entre os dados da filosofia e os dogmas cristãos. Seja-nos ainda permitido observar que, se os escolásticos foram na maioria das vezes muito breves em suas demonstrações exegéticas, deve-se reconhecer que sua interpretação foi habitualmente correta. Em vez de insistir nas inevitáveis lacunas de sua documentação crítica, seria mais sábio dedicarmo-nos ao trabalho verdadeiramente fecundo de verificação regressiva do que eles próprios realizaram, servindo-nos de suas conclusões teológicas naquilo que têm de legítimo e acrescentando-lhes tudo o que a crítica atual pode fornecer.
2. Na demonstração das verdades reveladas e dos fatos sobrenaturais que dependem da livre vontade de Deus, não se deverá conceder nenhum valor probante aos argumentos de simples razão, que são, quando muito, simples convenientias contribuindo para fazer amar e apreciar o ensino já conhecido pela fé, como ensina são Tomás: « Sunt tamen ad hujusmodi veritatem manifestandam rationes aliquæ verisimiles inducendæ, ad fidelium quidem exercitium et solatium, non autem ad adversarios convincendos; quia ipsa rationum insufficientia eos magis in suo errore confirmaret, dum existimarent nos propter tam debiles rationes veritati fidei consentire. » Cont. gent., l. I, c. IX; Sum. theol., Ia, q. XXXII, a. 1. Ensinamento sempre fielmente aplicado pelo doutor angélico, por exemplo, Sum. theol., Ia, q. XXXII, a. 2, ad 1um, mas ao qual muitos escolásticos nem sempre se conformaram suficientemente. Assim, ao discutir a realização eventual da encarnação do Verbo caso a humanidade tivesse perseverado na justiça original, não foi raro apoiar afirmações absolutas em provas a priori, que não podiam por si mesmas determinar um fato dependente unicamente da livre vontade de Deus, insuficientemente manifestada na ocasião. O abuso, tornado mais acentuado e mais geral no século XVI, é vigorosamente flagelado no século seguinte por Melchior Cano, que recusa a tais autores o nome de teólogos escolásticos. De locis theologicis, l. VII, c. I, Veneza, 1759, p. 188. Mas, quaisquer que tenham sido esses abusos na época da decadência, eles não passam de excessos individuais dos quais o próprio método escolástico não pode ser responsabilizado.
3. Na refutação das objeções racionais, não se deve exagerar o valor demonstrativo das razões empregadas para combatê-las. Seria soberanamente imprudente, em matéria tão grave, expor as verdades de fé aos riscos de uma opinião filosófica em si mesma discutível. Aliás, basta que se prove a falta de prova sólida da parte dos adversários de nossa fé, segundo esta conclusão claramente formulada por são Tomás: « Ex quo evidenter colligitur quæcumque argumenta contra fidei documenta ponantur, hæc ex principiis primis naturæ inditis per se notis non recte procedere. Unde nec demonstrationis vim habent, sed vel sunt rationes probabiles, vel sophisticæ; et sic ad ea solvenda locus relinquitur. » Prudente reserva à qual vários escolásticos não se sujeitaram suficientemente, como também lamenta Cano na passagem anteriormente indicada.
4. Deve-se sempre evitar identificar com o ensino da fé ou com a doutrina definida pela Igreja simples opiniões filosóficas ou conclusões teológicas que não são estritamente demonstradas. A inobservância dessa sábia precaução poderia facilmente conduzir às mais funestas consequências, seja aumentando os preconceitos contra a fé católica ou contra a doutrina da Igreja, seja expondo uma verdade de fé à sorte caduca de uma opinião filosófica ou teológica. Graves escolhos que nem sempre se soube evitar; testemunho disso são essas censuras teológicas às vezes prodigalizadas por teólogos que desenvolveram demasiado ardor contra opiniões unanimemente reconhecidas como isentas de toda heterodoxia numa época posterior; testemunho também essas qualificações de certa in fide imprudentemente dadas algumas vezes a proposições que não merecem essa qualificação teológica. Todavia, não esqueçamos que há, de fato, conclusões filosóficas certamente impostas ao nosso assentimento por causa de uma íntima e evidente conexão com um ensino revelado. Queremos apenas afirmar aqui que essa conexão não deve ser proclamada certa sem motivo suficiente, e que a obrigação de admiti-la não deve ser imposta sem razão legítima.
III. CONCLUSÕES RELATIVAS AO EMPREGO DESSES DOIS MÉTODOS. — 1° As considerações precedentes mostram que os dois métodos devem ser necessariamente unidos no ensino teológico elementar ou superior. Mas a proporção com que essa união deve se realizar não é de modo algum necessariamente determinada; ela pode variar segundo as necessidades prementes do momento e segundo o grau de ensino. Assim, em nossa época, diante dos múltiplos ataques da crítica histórica e exegética, é necessário conceder um lugar mais amplo do que outrora aos argumentos críticos ou à exposição histórica. É isso que recomenda fortemente Pio X na encíclica Pascendi: « Major profecto quam antehac positivæ theologiæ ratio est habenda; id tamen sic fiat ut nihil scholastica detrimenti capiat, iique reprehendantur, utpote qui modernistarum rem gerunt, quicumque positivam sic extollunt ut scholasticam theologiam despicere videantur. » Essa justa proporção pode ainda variar segundo o grau de ensino. No ensino teológico elementar, onde o juízo teológico dos estudantes ainda não está suficientemente formado, pode ser bastante frequentemente preferível insistir antes no método escolástico, que é mais apto a dar uma formação sólida e que é particularmente necessário para combater eficazmente, em si mesmo e nos outros, os excessos e os abusos da crítica positiva. Mas é sempre desejável que se forneçam, ao menos para as teses mais importantes ou mais combatidas, amplas indicações históricas ou críticas, fazendo bem conhecer o método e premunindo suficientemente contra as objeções da crítica. No ensino superior, onde o juízo teológico dos alunos é mais amadurecido, onde aliás se deve preparar imediatamente os especialistas, uma cultura positiva mais ampla deverá ser dada observando as precauções e condições anteriormente indicadas. Mas mesmo nesse ensino, o método positivo não deve, de modo geral, ser preponderante; pois não poderia sê-lo sem causar algum prejuízo à escolástica; o que ele não deve, contudo, jamais fazer, segundo a instante recomendação de Pio X.
2° Fora do ensino teológico elementar ou superior e das obras que lhe são imediatamente destinadas, é muito oportuno que se liberte do rigor do método escolástico e que se adote uma exposição mais ampla e mais moderna, apta a tornar o ensino escolástico mais atraente e a fazê-lo penetrar em meios que lhe permanecem ainda desfavoráveis. É sobretudo por essa irradiação para o exterior, mais necessária hoje do que nunca, que se ajudará o movimento de restauração escolástica cujo êxito tanto importa ao bem da sociedade cristã. Th. Richard, Étude critique sur le but et la nature de la scolastique, dans la Revue thomiste, 1904, p. 431 sq.
III. DIVISÕES PRINCIPAIS. — 1° Entre os Padres da Igreja, desde o fim da escola apostólica até o século V, como logo mostraremos, não se encontra nenhuma síntese dogmática. Os escritos dogmáticos de todo esse período são habitualmente escritos de ocasião, tendo por objetivo particular expor ou defender um dogma especialmente atacado por uma heresia ou um erro contemporâneo. Por vezes, a exposição ou a defesa da verdade católica pode exigir ou ocasionar vislumbres ou visões mais amplas sobre dogmas conexos, sobretudo quando se trata de verdades muito importantes como a encarnação ou a graça, que estendem suas numerosas ramificações por todo o domínio teológico. É o que se encontra particularmente em santo Agostinho, defendendo contra os pelagianos os dogmas tão importantes do pecado original e da graça. Mas, por mais abrangentes que sejam esses estudos de dogmas particulares, eles não contêm nenhuma síntese dogmática integral.
2° Do século VII ao XII, no Ocidente, o mesmo caráter fragmentário se encontra nos escritos dirigidos contra os diversos erros ou heresias desse período, tais como o adopcianismo, o erro sobre a procissão do Espírito Santo, o predestinacianismo ou alguns erros secundários sobre o modo de presença eucarística. No Oriente, na mesma época, os escritos ortodoxos contra os nestorianos, os monofisitas, os iconoclastas ou outros hereges apresentam o mesmo caráter, com exceção do De fide orthodoxa de são João Damasceno, que tem uma tendência bastante pronunciada para um ensaio de síntese dogmática.
Embora a divisão em quatro livros seja obra dos tradutores latinos que adaptaram o De fide orthodoxa ao plano das Sentenças de Pedro Lombardo, o quadro geral dos cem capítulos entre os quais se reparte a obra tem alguma analogia com o que foi mais tarde a síntese do século XIII, como é fácil constatar pelas indicações seguintes: C. I-V, incompreensibilidade de Deus explicada e provada contra os anomeus; provas racionais de sua existência; o que conhecemos de sua natureza e de sua unidade pela razão e pela doutrina revelada. C. VI-VIII, o que a fé nos ensina sobre a trindade, sobre a pessoa do Verbo e sobre o Espírito Santo, e como esse ensino é mostrado conforme à razão. C. IX-XIV, estudo dos atributos divinos. C. XV-XL, estudo da criação, dos anjos, dos demônios, do mundo visível, particularmente do homem com suas faculdades, sobretudo seu livre-arbítrio. C. XLI-XLVI, da providência, da predestinação e da economia divina relativamente à nossa salvação. C. XLVII-LXXXI e LXXXIII, XCI, doutrina sobre o Verbo encarnado. C. LXXXII, LXXXIV, sobre a fé e o batismo. C. LXXXVI, doutrina sobre a eucaristia. C. LXXXIV, da adoração devida à cruz. C. LXXXVII, LXXXIX, do culto dos santos, das relíquias e das santas imagens. C. XC, inspiração das Escrituras e cânone dos livros inspirados. C. XCI-XCV, conclusões contra os erros dos maniqueus sobre a origem do mal, sobre a existência dos dois princípios, sobre a lei divina e sobre a lei do pecado. C. XCVI, conclusão contra os erros dos judaizantes. C. XCVII, da virgindade e do matrimônio. C. XCVIII, da circuncisão. C. XCIX, do Anticristo. C. C, da ressurreição geral dos corpos.
3° Entre os escolásticos da Idade Média, antes de tudo preocupados em construir uma poderosa síntese teológica, a dogmática toma lugar nessa harmonia universal. Todas as suas ramificações, mesmo as mais longínquas, estão agrupadas sob algumas divisões principais, bastante idênticas entre os principais representantes do método escolástico, ao menos desde o fim do século XII. Nós nos limitaremos a indicar as principais classificações, omitindo, todavia, o que, nesse plano de conjunto, é hoje concedido à teologia moral. Pedro Lombardo (†1160) estabelece assim sua classificação. Livro I das Sentenças, do mistério da santa Trindade e dos atributos divinos atribuídos por apropriação às três pessoas divinas, isto é, da ciência, do poder e da vontade de Deus no governo do mundo. Livro II, da criação e dos seres criados, particularmente dos anjos, do mundo corpóreo e do homem, e incidentalmente da queda do homem ornado dos dons da graça, enfim da natureza do pecado pelo qual ele se afastou de Deus. Livro III, da restauração do homem por Cristo; donde a doutrina teológica sobre a encarnação e sobre as condições necessárias para que seus frutos nos sejam aplicados, isto é, a prática das virtudes sobrenaturais e a observância dos mandamentos divinos. Livro IV, dos meios pelos quais a vida sobrenatural, merecida pela encarnação, nos é aplicada, isto é, dos sacramentos, dist. I-XLII; depois a consumação final na outra vida, ou seja, a ressurreição, o juízo, o inferno, o purgatório e o céu, dist. XLIII sq. Alexandre de Hales († 1245), em sua Universae theologiae summa, dá uma síntese um pouco diferente, excelente em seu conjunto, mas interrompida por digressões demasiado frequentes: 1. Deus considerado na unidade de sua essência, part. I, q. I-XLII, e na trindade das pessoas, q. XLIII-LXXIV. 2. Da criação em geral, dos anjos, do mundo corpóreo, do homem em sua natureza e nos dons sobrenaturais e preternaturais dos quais foi primitivamente ornado; do mal em geral e do pecado, primeiro nos demônios, depois em nossos primeiros pais e nos demais homens, falta original e falta pessoal, part. II. 3. Da encarnação pela qual o homem é restaurado, part. III, q. I-XXV, dos preceitos que ele é obrigado a observar, q. XXVI-LXI, e da graça que deve ajudá-lo a participar dos frutos da encarnação e a observar os preceitos, q. LXII sq. 4. Dos sacramentos, seja em geral, seja particularmente sob a nova lei; parte que permaneceu incompleta, tendo o autor parado no fim da questão da penitência sacramental. São Boaventura († 1274) segue a classificação de Pedro Lombardo, tanto em seu comentário sobre as Sentenças quanto em seu Breviloquium, obra mais pessoal em que resume toda a doutrina contida em seu comentário a Pedro Lombardo. A forma sintética do Breviloquium, sua divisão em oito partes e uma melhor coordenação dos capítulos fazem ressaltar melhor todo o mérito das divisões de Pedro Lombardo, fielmente guardadas em sua substancial integridade. São Tomás († 1274), ao fundir em sua Somme théologique as duas classificações levemente modificadas de Pedro Lombardo e de Alexandre de Hales, dá uma síntese mais perfeita, na qual assinalamos principalmente o que pertence à dogmática atual. 1. Deus uno em sua essência, I, q. II-XXVI, e trino nas pessoas, q. XXVII-XLIII. 2. Da criação em geral, particularmente dos anjos, do mundo corpóreo, do homem e do governo divino de todos os seres criados, q. XLIV-CXIX. 3. Do fim sobrenatural ao qual o próprio homem deve dirigir-se sob a condução de Deus e com o socorro de sua graça, Ia IIae, q. I-VI; dos atos pelos quais ele deve dirigir-se para esse fim, particularmente das virtudes que deve praticar, dos pecados que deve evitar, incidentalmente do pecado original enquanto causa das outras faltas, Ia IIae, q. LXXXI-LXXXIX; enfim dos preceitos que se deve observar para dirigir-se para o seu fim sobrenatural, e do socorro da graça pelo qual o homem deve ser ajudado em sua marcha rumo ao seu fim sobrenatural, Ia IIae, q. CIX-CXIV. 4. Do estudo particular das virtudes teologais e morais que se é obrigado a praticar e dos deveres especiais que se é obrigado a praticar nos diversos estados de vida, IIa IIae. 5. De Jesus Cristo redentor de todos os homens, IIIa, q. I-LIX, e dos benefícios que ele procura à humanidade, especialmente de todos os sacramentos em geral, q. LX-LXV, e em particular, q. LXVI-XC. O autor da Somme théologique não terminou seu estudo sobre o sacramento da penitência. É lícito presumir que ele teria seguido a ordem que adotou ao fim da Summa contra gentiles e que é, aliás, a mesma de seu comentário sobre as Sentenças de Pedro Lombardo. A principal particularidade da síntese de são Tomás é colocar o estudo das virtudes, dos mandamentos e da graça depois do estudo do fim do homem e antes da encarnação, numa parte especial que trata do conjunto dos meios que devem dirigir o homem para o fim último, Ia IIae, parte que é em seguida completada na IIa IIae pelo estudo detalhado de cada uma das virtudes e pelo das obrigações especiais a certos estados de vida. Aliás, são Tomás supera seus predecessores por divisões mais metódicas, melhor acentuadas e mais fielmente seguidas. Sabe-se que, de fato, em todo o período medieval, a síntese de Pedro Lombardo foi habitualmente seguida em suas divisões principais por quase todas as obras de teologia habitualmente publicadas sob a forma de comentários às Sentenças do Mestre da escolástica. No século XVI e na primeira metade do XVII, a maioria dos teólogos que permaneceram fiéis ao método escolástico toma como texto de seus comentários a Somme théologique de são Tomás em vez das Sentenças de Pedro Lombardo, e seguem, por isso mesmo, a síntese do doutor angélico, quer se limitem, como Caetano, a um comentário ao Mestre, quer tenham eles próprios, como Vasquez e Suarez, suas divisões particulares ou seus tratados, harmonizados ao menos substancialmente com a ordem geral da Suma. Desde meados do século XVII até a segunda metade do XIX, a síntese de são Tomás é substituída, em muitos autores, por um grande número de tratados distintos, com os quais se preocupam bem pouco em marcar a ordenação metódica ou a conexão íntima com a síntese geral da dogmática. Daí uma diminuição sensível da ciência dogmática, para a qual amplas visões sintéticas são tão necessárias. Daí também muitas questões omitidas ou insuficientemente tratadas em consequência do fracionamento demasiado considerável das matérias ou da falta de um plano de conjunto. Inconvenientes ainda agravados pela separação da teologia moral, definitivamente constituída em ciência particular e da qual, aliás, as questões especulativas tendem cada vez mais a desaparecer para dar lugar quase exclusivamente a uma casuística toda prática. Th. Bouquillon, Catholic University Bulletin, Washington, 1899, p. 258 sq. Acrescentemos ainda que, no século XVIII e no XIX, a apologética fundamental, cuja importância se tornava tão considerável, foi frequentemente e muito indevidamente adjunta à dogmática, sob o nome de dogmática fundamental ou de introdução à dogmática, como atestam os manuais clássicos da época. O que não podia deixar de prejudicar gravemente os diversos métodos que uma e outra ciência devem seguir.
5° Desde a restauração da escolástica no último período do século XIX, louváveis esforços foram feitos para adaptar as grandes divisões dogmáticas da Somme théologique de são Tomás às condições atuais da ciência teológica. Bastar-nos-á resumir aqui, num quadro geral, as indicações fornecidas pelos principais autores. — 1. Estudo preliminar sobre a natureza da teologia dogmática e sobre seus princípios fundamentais, onde se indica particularmente em que medida a Sagrada Escritura e a tradição devem ser consideradas como fontes dos dogmas. 2. Deus considerado em si mesmo, em sua natureza e em seus atributos. 3. Deus estudado na trindade das pessoas. 4. Deus operando nas criaturas; da criação em geral; e da ação divina na conservação e no governo dos seres criados; das criaturas em particular, principalmente dos anjos e do homem, com os dons da natureza e da graça conferidos por Deus tendo em vista seu fim sobrenatural; a queda dos anjos e suas consequências; a queda do homem e suas consequências. 5. Do fim sobrenatural ao qual o homem está destinado, da graça e das virtudes sobrenaturais necessárias ao homem para dirigir-se ao seu fim sobrenatural. 6. Da restauração do homem pela encarnação e pela redenção. 7. Da Igreja, depositária imediata de todos os meios de salvação dados por Jesus Cristo à humanidade resgatada; donde a autoridade da Igreja e os deveres para com ela. 8. Dos sacramentos estabelecidos por Jesus Cristo e confiados à sua Igreja para a santificação e a salvação eterna dos fiéis; estudo desses sacramentos considerados de modo geral e estudo de cada um deles em particular. 9. Da sanção divina estabelecida por Deus na outra vida pelo bom ou mau uso de sua graça nesta vida e pela observância ou o desprezo de seus mandamentos durante o tempo da provação, isto é, do céu, do inferno e do purgatório. 10. Da comunhão espiritual entre os fiéis da tríplice Igreja militante, padecente e triunfante. Algumas palavras de explicação ajudarão a compreender melhor a razão de ser de várias divisões desse quadro geral, ou o lugar particular atribuído a algumas delas, bem como a omissão de tratados outrora ligados sem razão à dogmática: a) A apologética inteira é omitida, porque é uma ciência distinta da dogmática, tendo objeto próprio e método especial. Ver APOLOGÉTICA. b) O estudo das questões dogmáticas sobre a Escritura e sobre a tradição deve ser colocado à entrada da dogmática, para fornecer uma orientação segura no emprego teológico das provas escriturísticas. Essa forte orientação é particularmente necessária na época atual, diante do considerável desenvolvimento dos estudos escriturísticos e, por vezes, de uma falta de formação teológica nessas matérias tão delicadas. — c) O estudo racional da existência de Deus e dos atributos divinos pertence principalmente à filosofia. Esses dados de filosofia racional são mencionados em dogmática apenas a título secundário, para facilitar a resposta às objeções contra as verdades da fé ou para mostrar a conveniência do ensino revelado com as conclusões racionais. Se, com bastante frequência, se dá a essas provas um desenvolvimento considerável em dogmática, por causa de sua importância apologética diante dos erros atuais, sua natureza íntima não é, contudo, de modo algum alterada: elas permanecem verdades racionais em si mesmas, não dependendo, por conseguinte, dos princípios sobrenaturais sobre os quais se apoia a dogmática. — d) A doutrina revelada sobre a criação em geral e sobre a criação do homem em particular, apesar das numerosas questões escriturísticas ou críticas que suscita, pertence em seu conjunto à dogmática, e deve aí ser tratada, com o auxílio fornecido pela exegese e pelas ciências críticas ou pelas ciências naturais. — e) O tratado da graça pode ser colocado, como está na Somme théologique de são Tomás, antes do estudo da encarnação, porque nem toda graça, mesmo concedida à humanidade, depende necessariamente da encarnação; tal foi particularmente, segundo são Tomás, a graça conferida a nossos primeiros pais. Aliás, o estudo do nosso fim sobrenatural, com toda a maravilhosa economia de nosso princípio de vida, de nossas faculdades e de nossas ações meritórias na ordem sobrenatural, prepara efetivamente o tratado da encarnação e da redenção, fazendo-nos compreender melhor, pela noção dessa graça sublime pela qual participamos realmente da vida divina e que havíamos perdido pelo pecado, a razão de ser, o modo de realização e os frutos desses inefáveis mistérios. — f) O tratado dogmático da Igreja, distinto do tratado apologético em que a razão prova simplesmente a divindade da Igreja católica, tem seu lugar marcado depois do estudo da encarnação e da redenção, uma vez que, em virtude da instituição divina, a Igreja continua na terra, até a consumação dos séculos, a obra de Jesus Cristo, ensinando sua doutrina, administrando seus sacramentos e governando os fiéis com sua autoridade. A divina constituição da Igreja é aqui estudada em detalhe, à luz dos ensinamentos fornecidos pela revelação.
— g) A dogmática deve possuir seus tratados especiais sobre os sacramentos em geral e sobre cada um dos sacramentos em particular, quer essas matérias dogmáticas sejam expostas à parte, quer sejam fundidas com as questões de teologia moral, de casuística ou de liturgia. Importa soberanamente que, nessas matérias, o dogma tenha uma exposição bem completa, pois é dele que todo o resto depende. — h) Os novíssimos e a comunhão espiritual de orações ou de satisfações entre as três partes da Igreja de Jesus Cristo coroam logicamente toda a dogmática.
IV. A DOGMÁTICA NO NOVO TESTAMENTO. — 1° Deve-se admitir, contra todos os partidários do subjetivismo e do modernismo que refutaremos no artigo seguinte, que há, nos escritos inspirados do Novo Testamento, um ensino dogmático dado por Jesus Cristo ou em seu nome, e que nos fornece um conhecimento objetivo, por mais imperfeito que seja, das realidades divinas. Se, por causa dos estreitos limites de nossa inteligência, sempre incapaz de apreender o infinito, ou por causa do emprego habitual de analogias criadas que representam incompletamente a verdade divina e da inevitável imperfeição de todas as fórmulas humanas, não nos é possível apreender adequadamente o conceito divino, permanece contudo verdadeiro que o dogma revelado nos dá dele um conhecimento que, por mais imperfeito que seja, é em nós como um derramamento da perfeita ciência que Deus tem de si mesmo, S. Thomas, Cont. gent., l. IV, c. 1; o que supõe manifestamente uma participação na realidade objetiva dessa divina Ciência. Ver DOGMA.
2° O catálogo dos dogmas certamente ensinados nos escritos neotestamentários pode ser praticamente limitado aos textos cujo sentido é autenticamente definido, seja pelos próprios escritores sagrados, como isso se apresenta frequentemente nos escritos do Novo Testamento segundo a observação da encíclica Providentissimus Deus, seja pela autoridade do magistério eclesiástico, seja ainda pelo consentimento unânime dos Padres, pois, segundo a mesma encíclica: summa auctoritas est quotiescumque testimonium aliquod biblicum ut ad fidei pertinens morumve doctrinam, uno eodenique modo explicant omnes, nam ex ipsa eorum consensione, ita ab apostolis secundum catholicam fidem traditum esse nitide evincit. Não é necessário que demos aqui um levantamento exato dos textos assim definidos: as indicações anteriormente dadas na explicação do conceito de teologia bíblica podem bastar. Sabe-se, aliás, que o número dos textos assim definidos é muito restrito: At paucorum admodum textuum sensum ab Ecclesia definitum esse diximus et pauciorum, ni fallimur, explicatio habetur ex unanimi Patrum consensu, R. Cornely, Historica et critica introductio in utriusque Testamenti libros sacros, 2e édit., Paris, 1894, p. 615; e que, por vezes, sua interpretação não teve, antes de sua definição, a mesma clareza entre todos os autores católicos, particularmente nos primeiros séculos. Notemos ainda que o que ocorreu nos séculos passados pode reproduzir-se no futuro, e que a Igreja pode, numa época mais ou menos distante, explicar e precisar o sentido de textos ainda não definidos até agora, e impô-lo obrigatoriamente à aceitação dos fiéis. Não se estranhará que limitemos praticamente o catálogo dos dogmas neotestamentários aos textos cujo sentido é fixado pelas autoridades anteriormente indicadas, se se levar em conta o ensino comum dos teólogos e dos exegetas, segundo o qual, fora de tal determinação, é difícil ter uma certeza absoluta do fato da revelação divina. Christian Pesch, De inspiratione sacræ Scripturæ, Fribourg-en-Brisgau, 1906, p. 419. Não é, contudo, de modo algum duvidoso que, se, na realidade, alguém possui desse fato uma inteira certeza, ele é obrigado a aderir, por um ato de fé divina, ao ensino divino assim conhecido. Ver DOGMA.
3° A dogmática neotestamentária, quaisquer que sejam os limites que se lhe atribuam, não deve jamais ser dada como sendo toda a dogmática cristã. A própria natureza dos escritos do Novo Testamento a isso se opõe absolutamente. Uma vez que são todos escritos de ocasião, compostos com um objetivo particular e de modo algum destinados a fornecer uma coletânea autêntica e completa de todo o ensino cristão, não é possível encontrar neles toda a dogmática católica. É, aliás, muito certo que, segundo a instituição divina, o principal órgão do ensino cristão é a pregação viva dos apóstolos, perpetuamente continuada pelo infalível magistério da Igreja, como o testemunha a declaração formal do divino Mestre, Matth., XXVIII, 20. É isso que define claramente o concílio de Trento, declarando que a verdade ensinada por Jesus Cristo e por ele confiada a seus apóstolos e a seus sucessores está contida in libris scriptis et sine scripto traditionibus quæ ipsius Christi ore ab apostolis acceptæ aut ab ipsis apostolis, Spiritu Sancto dictante, quasi per manus traditæ ad nos usque pervenerunt. Sess. IV, Decretum de canonicis Scripturis.
4° A expressão dos dogmas neotestamentários, tais como foram ensinados por Jesus Cristo, é realmente distinta dos desenvolvimentos dogmáticos que puderam realizar-se na época dos apóstolos, bem como nas épocas subsequentes da história da Igreja, e que puderam ser utilizados pelos escritores sagrados. J. Tixeront, La théologie anténicéenne, 3e édit., Paris, 1906, p. 62 sq. Mas, como não é fácil discernir praticamente esses desenvolvimentos dogmáticos, seja do ensino que pôde ser dado oralmente por Jesus Cristo, seja daquele que pôde ser comunicado aos apóstolos pelo Espírito Santo, segundo a promessa do divino Mestre, Joa., XIV, 26; XVI, 13, e a declaração do concílio de Trento, sess. IV, Decret. de canonicis Scripturis, não tentaremos indagar quais puderam ser esses presumidos desenvolvimentos dogmáticos.
5° Se se comparam os dogmas neotestamentários com os desenvolvimentos dogmáticos a que deram lugar ao longo dos séculos, por ocasião de heresias ou de controvérsias teológicas e sob a ação combinada do trabalho dos Padres e dos teólogos e do ensino do magistério eclesiástico, constatar-se-á facilmente que nenhum desses desenvolvimentos supõe uma evolução dogmática substancial e que cada um deles se explica sem dificuldade pela manifestação mais completa do conteúdo dogmático neotestamentário, como mostraremos no artigo seguinte, ao tratarmos do progresso acidental no conhecimento e na proposição dos dogmas. O fato muito certo de uma continuidade substancial entre os dogmas neotestamentários e seus desenvolvimentos dogmáticos posteriores é, por si só, uma vitoriosa refutação da teoria da evolução substancial dos dogmas neotestamentários, tal como é sustentada hoje por muitos protestantes e pela escola modernista. Ver DOGMA.
6° Quanto às conclusões dogmáticas legitimamente deduzidas dos textos neotestamentários por meio de um raciocínio formal: 1. É certo que, não pertencendo à dogmática neotestamentária, evidentemente restrita ao estudo do ensino revelado, elas dependem unicamente da teologia escolástica, com a condição, todavia, de se apoiarem em razões suficientemente sólidas para poderem reivindicar, ao menos parcialmente, a autoridade do testemunho divino, a única autoridade realmente decisiva em todas as ciências teológicas. S. Thomas, Sum. theol., Iª, q. 1, a. 8, ad 2um; além disso, o teólogo escolástico deve sempre abster-se cuidadosamente de identificar essas deduções, por mais sólidas que sejam, com o próprio ensino escriturístico, uma vez que, na realidade, elas são, ao menos parcialmente, fruto de um raciocínio humano. Na prática, essa sábia reserva foi sempre observada pelos teólogos? Não nos cabe examiná-lo aqui minuciosamente; baste-nos observar que faltas individuais nessa matéria não podem ser razão para negar à teologia escolástica o direito de extrair, do ensino escriturístico, deduções propostas como tais e que tenham um fundamento legítimo e suficiente. 2. Não é menos certo que as deduções dogmáticas que têm um sólido apoio escriturístico não devem ser negligenciadas pelo teólogo bíblico, embora não devam entrar na trama de seu trabalho de especialista. Seu conhecimento lhe é útil, seja para delimitar mais exatamente o ensino revelado contido no texto sagrado, seja porque não é de modo algum impossível que aquilo que, numa época, é considerado como simples dedução escriturística, se manifeste mais tarde como uma verdade realmente revelada em tal texto escriturístico, onde está implicitamente contida, assim como isso já se realizou anteriormente para alguns textos, cujo sentido, agora definido como verdade revelada, nem sempre havia sido anteriormente interpretado como tal.
V. A DOGMÁTICA NAS DIVERSAS ÉPOCAS DE SUA HISTÓRIA. — Neste artigo, necessariamente sintético, limitar-nos-emos a assinalar as características principais da dogmática nas fases principais de sua história.
1. PRIMEIRO PERÍODO, estendendo-se até santo Agostinho, no fim do século IV, e caracterizado sobretudo por escritos dogmáticos fragmentários, compostos por ocasião das heresias do tempo e trazendo quase exclusivamente a marca do método positivo ou do ensino positivo. É um caráter comum a todo esse período não apresentar em parte alguma uma síntese dogmática completa. Os escritos desse tempo são habitualmente escritos de ocasião, em que se propõe um objetivo particular, tal como o de expor ou defender um dogma especialmente atacado por um erro ou por uma heresia contemporânea. A natureza desses escritos varia, aliás, segundo as diversas épocas desse primeiro período. Entre os Padres apostólicos, até por volta de meados do século II, entre os raros escritos que atualmente possuímos, não se encontra nenhum que seja exclusivamente dogmático. As afirmações dogmáticas, habitualmente dirigidas contra os docetas ou contra os cristãos judaizantes, são feitas incidentalmente, conforme a ocasião que se apresenta. A época dos Padres apologistas, desde meados do século II até o começo do IV, conta apenas com alguns escritos exclusiva ou principalmente dogmáticos, tais como o Diálogo de são Justino com Trifão, o Contra hæreses de santo Ireneu, vários opúsculos breves de Tertuliano e de são Cipriano dirigidos contra os judeus ou contra os hereges, e o Περὶ ἀρχῶν de Orígenes. Ao mesmo tempo, fora dessas obras, as afirmações ou exposições dogmáticas são muito mais frequentes e mais completas do que na época precedente, seja porque a melhor refutação das objeções pagãs contra os dogmas cristãos era com frequência uma exposição leal dessas mesmas doutrinas, seja porque foi frequentemente necessário combater os ataques dos hereges, ao mesmo tempo em que se fazia a apologia do cristianismo contra os inimigos de fora. Ver APOLOGISTAS. O século IV possui um número bastante grande de escritos exclusivamente dogmáticos, dirigidos contra os partidários de Ário, de Macedônio e de Apolinário. Tais são particularmente os escritos de santo Atanásio, de são Basílio, de são Gregório de Nissa, de são Gregório de Nazianzo e de santo Epifânio. Mas nenhuma dessas obras, por mais completa que seja para o objetivo particular que seus autores se propunham, trai a preocupação de uma síntese dogmática completa, embora os assuntos tratados forneçam frequentemente, por causa de sua importância capital, ocasião para dar muitas vistas gerais sobre dogmas conexos; o que é sobretudo verdadeiro quanto ao dogma da encarnação, verdadeiro centro em torno do qual gravitam todas as demais verdades cristãs. Na realidade, todo esse primeiro período da história da dogmática não oferece senão um único ensaio de síntese dogmática, aquele que a escola cristã de Alexandria tentou e do qual Orígenes nos traçou o esboço ainda bastante imperfeito em seu Περὶ ἀρχῶν. Infelizmente, essa obra não nos é conhecida senão pela tradução defeituosa de Rufino, e sua autoridade foi aliás bastante enfraquecida por todas as discussões sobre o origenismo e pela condenação desse erro. 2° O método quase exclusivamente empregado durante esse período é o método positivo. As demonstrações dogmáticas são na maioria das vezes tomadas ao testemunho da Escritura divinamente inspirada e ao ensinamento da tradição manifestado pela prática da Igreja ou formulado nas declarações formais dos Padres que a precederam. Aqui ainda há diversidade segundo as três épocas entre as quais se reparte esse período. Entre os Padres apostólicos, a demonstração ocupa um lugar muito restrito. É o ensinamento positivo que domina; ele é bastante frequentemente apoiado por textos escriturísticos, mas esses textos são simplesmente indicados. É particularmente o que se encontra nas cartas de santo Inácio de Antioquia. Desde meados do século II até o começo do IV, a demonstração escriturística ocupa um lugar mais considerável. Nos escritos apologéticos que provam contra os pagãos as justas reivindicações do cristianismo, o texto escriturístico é citado não como órgão do ensinamento divino, mas como escrito particularmente digno de fé e que indica autenticamente o que é o cristianismo; é o que faz notadamente são Justino em sua Iª Apologia, n. 30 e segs. Nas obras dogmáticas dirigidas contra o judaísmo ou contra a heresia, o testemunho escriturístico manifesta o ensinamento formal da revelação, ao qual o assentimento absoluto da fé é sempre devido. É assim que os textos escriturísticos são citados por são Justino em seu Diálogo com Trifão, P. G., t. VI, col. 471 e segs., onde o argumento tirado das profecias do Antigo Testamento é longamente desenvolvido; por santo Ireneu em seu Contra hæreses, P. G., t. VII, col. 437 e segs.; por Tertuliano em seu De præscriptionibus contra hæreticos, P. L., t. II, col. 9 e segs., em seus livros contra Praxeas, col. 153 e segs., contra Hermógenes, col. 197 e segs., contra Marcião, col. 246 e segs., contra os judeus, col. 597 e segs., em seu De carne Christi, col. 753 e segs., e em seu De resurrectione carnis, col. 795 e segs.; por são Cipriano em seu De unitate Ecclesiæ, P. L., t. IV, col. 495 e segs., e em seus Testimoniorum libri tres contra judæos, col. 679 e segs., por Clemente de Alexandria em várias passagens de seus Stromates, segundo a noção que ele mesmo nos dá, Strom., II, c. IV; VII; c. XVI, P.
G., t. I, col. 914; t. IX, col. 538; e por Orígenes em seu Περὶ ἀρχῶν, P. G., t. XI, col. 115 e segs. Embora vários desses Padres ou escritores eclesiásticos, notadamente Clemente de Alexandria e Orígenes, tenham frequentemente recorrido a uma exegese alegórica que não respeita suficientemente o verdadeiro sentido escriturístico, o princípio da autoridade divina da Escritura inspirada permanece ao abrigo de qualquer ataque. Ao mesmo tempo, esses autores, em sua luta doutrinal contra os hereges de seu tempo, insistiam com não menos força na autoridade da tradição anterior, que apresentavam de preferência sob a forma do argumento de prescrição. Já utilizado por santo Ireneu, Contra haeres., lib. III, c. II, 2; c. III, 1, P. G., t. VII, col. 844 e segs., 848, e por Tertuliano, De praescript., c. XXI, XXIX, XXX, XXXVI, XXXVIII, P. L., t. II, col. 33, 34, 40, 49, esse argumento é utilizado também por Orígenes, Περὶ ἀρχῶν, préf., n. 2, P. G., t. XI, col. 115. No século IV, os defensores da fé católica contra os partidários de Ário, de Macedônio e de Apolinário insistem, mais do que se fizera no século III, na prova escriturística, porque o ataque se dava sobretudo nesse terreno. A exegese, mais desenvolvida do que na época precedente e apertando mais de perto o sentido literal, é habitualmente acompanhada da resposta às objeções dos hereges e da interpretação verdadeira dos textos de que estes se valiam. É o método particularmente seguido por santo Atanásio, que, em seus diversos escritos contra os arianos, demonstra a consubstancialidade do Verbo por cinco ou seis textos muito claros aos quais volta frequentemente, e afasta habitualmente os textos invocados pelos arianos, interpretando-os como referentes à inferioridade ou à subordinação ou à criação da natureza humana assumida pelo Verbo. O mesmo caminho é adotado, pelo menos em parte, por santo Hilário em sua obra sobre a Trindade e por são Basílio em seus livros contra Eunômio e em seu livro sobre o Espírito Santo. A prova de tradição também é invocada algumas vezes contra os hereges, particularmente por são Basílio. De Spiritu Sancto, c. XXIX, n. 71, P. G., t. XXXII, col. 201; Contra Eunomium, lib. I, II, n. 8, P. G., t. XXIX, col. 585. 3° À demonstração escriturística e à autoridade da tradição juntaram-se também os argumentos racionais, não para provar a verdade em si mesma já garantida pelo testemunho divino, mas para defendê-la contra as objeções adversas e mostrar sua perfeita conveniência com a razão. São Justino, por volta de meados do século II, foi o primeiro a se servir dos dados da razão para essa defesa do ensinamento revelado. Se, nessa obra tão difícil de conciliação entre a filosofia e os dogmas mais elevados, tais como o dogma da santíssima Trindade e o da divindade do Verbo, o apologista do século II não soube evitar expressões em desacordo com a estrita ortodoxia, não se pode daí concluir nem que ele tenha desconhecido esses dogmas sublimes, nem que tenha estabelecido a razão como critério principal nessa matéria. Pois é certo, segundo o conjunto de sua doutrina, que a fonte primeira onde Justino colhe sua crença é o ensinamento da revelação cristã, e que as ideias ou expressões filosóficas são para ele um simples meio de exprimir mais ou menos perfeitamente o ensinamento divino. De onde se pode prudentemente deduzir que o platônico cristão rejeita certamente as conclusões de sua doutrina filosófica desde que contradigam o ensinamento revelado; mas deve-se ao mesmo tempo reconhecer que essa contradição, por causa da imperfeição de seus conhecimentos teológicos, não lhe pareceu suficientemente manifesta.
Um pouco mais tarde, Tertuliano, embora proscrevendo em matéria de fé o uso de uma falsa filosofia, fonte habitual dos erros contrários ao ensinamento divino, Apolog., c. XLVI, P. L., t. I, col. 501 e segs.; De praescript., c. VII, P. L., t. II, col. 19; De anima, c. I, III, XXII, col. 651 e segs., 686, não nega absolutamente os serviços que a filosofia pode prestar na medida em que ela concorda com o cristianismo quanto às verdades fundamentais do dogma e da moral revelados. Apolog., c. XXI, XXII, XLVI, P. L., t. I, col. 398 e segs., 405 e segs., 527 e segs.; De anima, c. XX, P. L., t. II, col. 682 e segs. Mais ainda do que Justino, Clemente de Alexandria e Orígenes fazem frequente apelo aos argumentos de razão, não somente para apoiar sua apologia geral do cristianismo, mas ainda para expor e defender os dogmas revelados, não como filósofos que colocam na razão a fonte primeira de suas doutrinas, mas como crentes sinceros que utilizam, para exprimir o objeto de sua fé, os conceitos e os termos de uma filosofia que proclamam eclética. Clemente de Alexandria, Strom., I, c. VII, P. G., t. VIII, col. 732; S. Gregório Taumaturgo, In Origen. oratio panegyrica, XII e segs., P. G., t. X, col. 1088 e segs., sem que se tenha o direito de considerá-los como submetidos a qualquer escola particular, estoica ou neoplatônica. Ver t. I, col. 818 e segs. No século IV, as objeções filosóficas sobre as quais se apoiam frequentemente os hereges obrigam os defensores da fé católica a se colocarem também no terreno filosófico para repelir todos esses ataques, particularmente no que diz respeito ao conhecimento que temos de Deus pela razão, à maneira como concebemos suas perfeições, à noção de substância e de hipóstase, à geração do Verbo e às relações entre as três pessoas divinas. Essas soluções filosóficas encontram-se principalmente em são Basílio e em são Gregório de Nissa, que, embora não se prendendo exclusivamente a nenhuma escola filosófica, se exprimem de preferência em linguagem aristotélica. É sem dúvida esse emprego dos dados racionais da filosofia que levou são Basílio, como indicaremos no artigo seguinte, a precisar melhor o sentido até então bastante indeterminado das palavras οὐσία e ὑπόστασις, que ele emprega a partir de então no sentido que hoje damos às palavras substantia e persona.
4° Como complemento a essas breves indicações sobre a história da dogmática nesse período, assinalamos as principais obras dogmáticas que a ele pertencem, fora dos escritos simplesmente apologéticos ou dos escritos que tratam igualmente de dogma e de moral. No século II ou no começo do III, S. Justino, Dialogus cum Tryphone, P. G., t. VI, col. 471 e segs.; S. Ireneu, Contra haereses, P. G., t. VII, col. 437 e segs.; Tertuliano, De prescriptionibus contra haereticos, P. L., t. II, col. 9 e segs.; Liber adversus Praxeam, col. 153 e segs.; Liber adversus Hermogenem, col. 197 e segs.; Libri quinque adversus Marcionem, col. 246 e segs.; Liber adversus Judaeos, col. 597 e segs.; De carne Christi, col. 753 e segs.; De resurrect. carnis, col. 793 e segs. No século III, S. Cipriano (+ 258), De unitate Ecclesiae, P. L., t. IV, col. 499 e segs.; Testimoniorum libri tres contra Judaeos, col. 679 e segs.; Orígenes (+ 254), Periarchon, P. G., t. XI, col. 115 e segs. No século IV, S. Atanásio (+ 373), Orationes IV adversus arianos, P. G., t. XXVI, col. 10 e segs.; Epistola de nicenis decretis, P. G., t. XXV, col. 411 e segs.; Epistola ad Serapionem, P. G., t. XXVI, col. 525 e segs.; Epistola de synodis, col. 677 e segs.; Epistola ad Epictetum, col. 1048 e segs.; Epistola ad Adelphium, col. 1070 e segs.; Ad Maximum philosophum, col. 1083 e segs.; S. Cirilo de Jerusalém (+ 386), Catecheses, P. G., t. XXXIII, col. 331 e segs.; S. Hilário de Poitiers (+ 366), Libri XII, De trinitate, P. L., t. X, col. 9-471; Liber de synodis seu de fide orientalium, col. 471-546, e vários outros opúsculos; S. Basílio (+ 379), Libri adversus Eunomium, dos quais somente os três primeiros são certamente de são Basílio, P. G., t. XXIX, col. 497 e segs.; Liber de Spiritu Sancto, P. G., t. XXXII, col. 68 e segs.; S. Efrém (+ 373 ou 379), Sermones polemici LVI adversus haereses, em Opera omnia, Roma, 1740, t. II, p. 486-560; Sermones polemici LXXX adversus scrutatores, t. II, p. 1-150, e vários outros opúsculos; S. Gregório de Nazianzo (+ 390), Orationes quinque de theologia, orat. XXVII-XXXI, P. G., t. XXXVI, col. 41 e segs.; Epistolae dogmaticae tres, das quais duas ao presbítero Cledônio, Epist., CI, CII, P. G., t. XXXVII, col. 174 e segs.; e uma a Nectário de Constantinopla, Epist., CIII, col. 329 e segs.; S. Gregório de Nissa (+ 394), Oratio catechetica magna, P. G., t. XLV, col. 9 e segs.; Libri seu orationes XII contra Eunomium, col. 244 e segs.; Antirrheticus adversus Apollinarium, col. 1123 e segs.; Tractatus de anima et resurrectione, P. G., t. XLVI, col. 14 e segs.; S. Optato de Milevo (+ 385), De schismate donatistarum libri sex, P. L., t. XI, col. 883 e segs.; S. Paciano de Barcelona (+ 390), Opus contra novatianos, ou Epistolae tres ad Sympronianum novatianum, P. L., t. XIII, col. 1051 e segs.; Sermo de baptismo, col. 1089 e segs.; S. Ambrósio (+ 397), Libri V de fide, P. L., t. XVI, col. 527-698; Libri III de Spiritu Sancto, col. 703 e segs.; Liber de incarnationis dominicae sacramento, col. 817 e segs.; Liber de mysteriis, col. 389 e segs.; Libri duo de poenitentia, col. 465 e segs.; S. Epifânio (+ 403), Ancoratus, P. G., t. XLIII, col. 9 e segs.; Panarium adversus LXXX haereses, t. XLI, col. 173 e segs.; t. XLII, col. 12 e segs.; S. João Crisóstomo (+ 407), Homiliae X contra anomoeos, P. G., t. XLVIII, col. 701-812; Homilia de resurrectione mortuorum, col. 417 e segs.; Homiliae VIII adversus Judaeos, col. 843 e segs.; S. Jerônimo (+ 420), Dialogus adversus luciferianos seu altercatio luciferiani et orthodoxi, escrito em Antioquia em 379, P. L., t. XXIII, col. 155 e segs.; Liber adversus Helvidium de perpetua virginitate Mariae, composto em Roma, em 383, col. 183 e segs.; Libri duo adversus Jovinianum, escritos por volta do ano 392 no mosteiro de Belém, col. 211 e segs.; Contra Vigilantium liber unus, composto em 406, col. 339 e segs.; Dialogus contra pelagianos, escrito em 415, col. 495 e segs.; e algumas cartas dogmáticas, notadamente Epist., XV, XVI, sobre a questão das três hipóstases em Deus; XII, contra o erro de Montano; XLI, contra os novacianos; XLVIII-LI, contra Joviniano; IX, contra Vigilâncio; CXXVI, sobre a origem da alma; CXXXIII, contra Pelágio; CXLVI, sobre o episcopado, o presbiterato e o diaconato, P. L., t. XXII, col. 355 e segs., 474 e segs., 493 e segs., 906 e segs., 1085 e segs., 1147 e segs., 1192 e segs.
II. SEGUNDO PERÍODO, desde santo Agostinho no fim do século IV até santo Anselmo no fim do XI, período caracterizado por uma exposição dogmática mais completa das verdades atacadas pelas novas heresias. Nessa exposição domina habitualmente o método positivo, com um emprego muito considerável da razão filosófica, pelo menos em santo Agostinho.
1° A obra dogmática de santo Agostinho. — Tendo essa obra sido longamente apreciada no estudo completo sobre esse santo doutor, t. I, col. 2317 e segs., nos limitaremos a recordar sumariamente aqui os traços principais, na medida estritamente necessária para a história geral da dogmática. — 1. O mérito principal do grande doutor africano é ter resumido maravilhosamente toda a dogmática anterior, particularmente a do século IV, acrescentando-lhe muitas explicações e deduções novas, nas quais se alimentaram incessantemente a dogmática dos séculos seguintes e mesmo a da Idade Média. — 2. O método principalmente empregado por santo Agostinho é a demonstração escriturística ou patrística, sobretudo na controvérsia com os donatistas e com os pelagianos. Se a exegese agostiniana mostra na maioria das vezes, em matéria de pregação, uma preferência marcada pela interpretação mística e alegórica, ela é habitualmente muito prudente e muito sólida no que diz respeito às demonstrações dogmáticas, segundo o que ele mesmo indica. De Genesi ad litteram, lib. I, c. XIX-XXI, P. L., t. XXXIV, col. 261 e segs. Ao mesmo tempo em que insiste mais do que qualquer de seus predecessores na prova bíblica, Agostinho utiliza frequentemente a tradição sempre viva na Igreja e nela manifestando o ensinamento revelado na origem por Jesus Cristo e promulgado pelos apóstolos em seu nome. De baptismo contra donatistas, lib. II, c. VII; lib. IV, c. VI, XXIV; lib. V, c. XX; lib. VI, c. V, P. L., t. XLIII, col. 133 e segs., 159 e segs., 174 e segs., 192 e segs., 200 e segs.; Contra Julianum, lib. VI, c. V, P. L., t. XLIV, col. 830; tradição que ele busca igualmente nos símbolos de fé, De doctrina christiana, lib. II, c. II, P. L., t. XXXIV, col. 651; e nas decisões doutrinais do magistério eclesiástico. De bapt. contra donat., lib. II, c. IV, P. L., t. XLIII, col. 129.
3. O emprego da razão com o objetivo de obter uma inteligência mais completa das verdades que já se possuem pela fé é admitido por santo Agostinho, se não com a nitidez das fórmulas escolásticas do século XII ou do XIII, ao menos em um sentido que não é notavelmente diferente. É assim que santo Agostinho afirma a distinção entre crer e compreender, apoiando-se na tradução que os Setenta davam a Isaías, VII, 9: Nisi credideritis, non intelligetis; inteligência que, segundo a palavra de Jesus: Quaerite et invenietis, Mateus, VII, 7, é dada nesta vida e na medida do possível àqueles que a buscam com cuidado. De libero arbitrio, lib. II, c. II, n. 6, P. L., t. XXXII, col. 1243. Ao mesmo tempo em que a autoridade divina exige o assentimento da fé, ela prepara o homem a exercer sua razão para obter a inteligência do ensinamento revelado. De vera relig., c. XXIV, P. L., t. XXXIV, col. 141 e segs. É nesse mesmo sentido que o santo doutor afirma: credimus enim ut cognoscamus, non cognoscimus ut credamus. In Joa., tr. XL, c. VII, n. 9, P. L., t. XXXV, col. 1690. Pensamento mais longamente desenvolvido na epístola CXX, P. L., t. XXXIII, col. 453 e segs., em Enarr. in Ps. CXVIII, CXIX, P. L., t. XXXVII, col. 1552 e segs., e no serm., XLIII, c. VII, P. L., t. XXXVIII, col. 258. Esse estudo racional dos mistérios, tão nitidamente entrevisto por Agostinho, não pôde ser realizado por ele para cada um deles, por causa da luta constante que teve de sustentar contra os donatistas, os maniqueístas e os pelagianos, luta que reclamou quase todos os seus esforços de maneira contínua. Foi somente por ocasião, segundo as questões que lhe foram postas ou segundo o curso da discussão, que santo Agostinho se colocou no terreno da inteligência racional dos mistérios. De fato, sua atenção se voltou principalmente para o mistério da santíssima Trindade. Em seus quinze livros De Trinitate, ele se empenhou particularmente em mostrar, por meio de analogias criadas, existentes no homem ou nas outras criaturas, a natureza das processões divinas, ao mesmo tempo em que fez ressaltar melhor o conceito da unidade da natureza divina e o caráter comum de todas as operações divinas ad extra. Ver t. I, col. 2347 e segs.
20 Desde santo Agostinho até santo Anselmo, a dogmática se manteve no Ocidente na via traçada pelo grande doutor africano. — 1. Do século V ao VII, na luta contra as heresias ou na exposição da fé aos fiéis, a demonstração escriturística ou patrística continuou a ocupar o lugar principal. Entre os escritos dogmáticos dessa época citaremos particularmente: João Cassiano (+ 433), De incarnatione Domini libri VII, P. L., t. L, p. 9 e segs.; S. Vicente de Lérins (+ 450), Commonitorium primum seu Tractatus peregrini pro catholicae fidei antiquitate et universitate adversus profanas omnium hereticorum novitates, col. 657 e segs.; S. Pedro Crisólogo (+ 450), Epistola ad Eutychen, P. L., t. LIV, col. 739 e segs., e vários sermões dogmáticos, notadamente os sermões XXX, XXXII, XXXIV, LVI-LXII, LXXX, LXXXIX, CLI, CXL, CXVIII, CXLI, CXLVI, CLXVII, P. L., t. LII, col. 284 e segs.; S. Leão Magno (+ 461), de quem possuímos várias cartas dogmáticas que expõem de maneira muito perfeita o mistério da encarnação, notadamente a carta XXVIII a Flaviano, universalmente reconhecida na Igreja como regra de fé nessa matéria, as cartas LIX, XXIV, CXXIX, CXXXIX, CLXV, P. L., t. LIV, col. 755 e segs., 865 e segs., 1062 e segs., 1075 e segs., 1103 e segs., 1155 e segs., e o sermão XCVI contra a heresia de Êutiques, col. 466 e segs.; S. Próspero de Aquitânia (+ por volta de 463), Responsiones pro Augustino ad capitula gallorum calumniantium, ad capitula objectionum vincentianarum, ad excerpta genuensium, P. L., t. LI, col. 155 e segs., 177 e segs., 187 e segs.; Liber de gratia et libero arbitrio contra collatorem, isto é, contra os erros de Cassiano sobre a graça e o livre-arbítrio em sua XIIIª conferência, P. L., t. LI, col. 179 e segs.; Carmen de ingratis, dirigido sobretudo contra os semipelagianos, P. L., t. LI, col. 91 e segs.; enfim uma carta a Agostinho e uma a Rufino sobre o erro dos semipelagianos, col. 67 e segs.; Fausto de Riez (+ 490), De Spiritu Sancto libri duo, P. L., t. LVIII, col. 9 e segs.; Libri duo de gratia et libero arbitrio, P. L., t. LVIII, col. 783 e segs., nos quais ele não se afasta suficientemente do erro semipelagiano; Genádio de Marselha (+ 493), cuja principal obra ainda existente é o Liber de ecclesiasticis dogmatibus, P. L., t. LVIII, col. 979 e segs.; S. Avito de Viena (+ 525), de quem possuímos algumas cartas dogmáticas, nas quais defende a divindade do Espírito Santo e a doutrina católica sobre a encarnação, Epist., I-III, XXVIII, P. L., t. LIX, col. 199 e segs., 244 e segs.; Vigílio de Tapso (+ por volta de 520), Dialogus contra arianos, P. L., t. LXII, col. 155 e segs.; Libri quinque contra Eutychen, col. 95 e segs.; S. Fulgêncio (+ 533), Libri tres ad Monimum, P. L., t. LXV, col. 151 e segs.; Liber contra arianos, col. 205 e segs.; Libri tres ad Trasimundum regem Vandalorum, col. 223 e segs.; Liber de sancta Trinitate ad Felicem notarium, col. 497 e segs.; Liber ad Victorem contra sermonem fastidiosi ariani, col. 507 e segs.; Libri duo de remissione peccatorum ad Euthymium, col. 527 e segs.; Liber ad Scarilam de incarnatione Filii Dei et vilium animalium auctore, col. 573 e segs.; Libri tres de veritate predestinationis et gratia Dei ad Joannem et Venerium, col. 603 e segs.; Liber de fide ad Petrum seu de regula vere fidei, col. 671 e segs.; S. Gregório Magno (+ 604), que trata, em muitas cartas, de assuntos dogmáticos que não podemos indicar aqui em detalhe, P. L., t. LXXVII; S. Isidoro de Sevilha (+ 636), De ordine creaturarum, P. L., t. LXXXIII, col. 913 e segs.; De fide catholica libri duo, col. 449 e segs., e várias passagens das Etymologiarum libri viginti, P. L., t. LXXXII, col. 73 e segs., e das Sententiarum libri tres, P. L., t. LXXXIII, col. 537 e segs.; S. Ildefonso de Toledo (+ 667), de quem possuímos apenas De virginitate sanctae Mariae, P. L., t. XCVI, col. 53 e segs.; De cognitione baptismi, col. 111 e segs.; De progressu spiritualis deserti seu liber de itinere deserti quo pergitur post baptismum, col. 171 e segs.
2. Do século VII ao X, o mesmo caminho foi habitualmente seguido na luta contra as heresias dessa época, notadamente contra o adopcionismo de Elipando e de Félix de Urgel, contra o erro dos gregos sobre a processão do Espírito Santo, contra o predestinacionismo de Gotescalco, e nas controvérsias sobre certos pontos secundários do modo de presença eucarística. As obras dogmáticas desse período oferecem geralmente uma rica documentação escriturística ou patrística, pelo menos segundo os recursos documentais da época e a maneira como aí se compreendia a crítica. Citaremos particularmente: Alcuíno (+ 804), Libellus adversus heresim Felicis, P. L., t. CI, col. 87 e segs.; Adversus Felicem libri septem, col. 127 e segs.; Adversus Elipandum libri quatuor, col. 243 e segs., e várias cartas ou passagens de cartas, ver t. CI, col. 689 e segs.; Paulino de Aquileia (+ 804), Sacrosyllabus contra Elipandum, P. L., t. XCIX, col. 151 e segs.; Libri tres contra Felicem, col. 343 e segs.; Agobardo de Lyon (+ 840), Liber adversus dogma Felicis Urgellensis, P. L., t. CIV, col. 29 e segs.; Liber de imaginibus sanctorum, col. 199 e segs.; Rábano Mauro (+ 858), sem ter nenhuma obra estritamente dogmática, trata incidentalmente de várias questões dogmáticas em seus De universo libri XXII, P. L., t. CXI, col. 9 e segs., e em seus De clericorum institutione libri tres, P. L., t. CV, col. 293 e segs.; Pascásio Radberto (+ 860), De corpore et sanguine Domini, P. L., t. CXX, col. 1267 e segs.; Liber de partu virginis, col. 1367 e segs.; De fide, spe et caritate, col. 1389 e segs.; Floro, diácono de Lyon (+ 860), Tria opuscula adversus Amalarium, col. 71 e segs.; Liber adversus Joannis Scoti Erigenae erroneas definitiones sobre a predestinação, a presciência divina e o livre-arbítrio, col. 101 e segs.; Prudêncio de Troyes (+ 861), Epistola ad Hincmarum et Pardulum, P. L., t. CXV, col. 971 e segs., sobre as três questões da predestinação dos réprobos, da morte de Jesus Cristo somente pelos eleitos, e da vontade de Deus de não chamar e não salvar todos os homens; Liber de praedestinatione, contra João Escoto Erígena, col. 1009 e segs.; e uma breve carta a Venilão, col. 1365 e segs.; Lupo de Ferrières (+ 862), Liber de tribus questionibus, P. L., t. CXIX, col. 621 e segs.; Collectionem de tribus questionibus, col. 467 e segs.; Ratramno de Corbie (+ 868), De praedestinatione libri duo, P. L., t. CXXI, col. 13 e segs.; Liber de nativitate Christi, col. 81 e segs.; De corpore et sanguine Domini, col. 103 e segs.; Contra grecorum opposita libri quatuor, col. 225 e segs.; S. Remígio de Lyon (+ 875), Liber de tribus epistolis, col. 985 e segs.; De generali per Adam damnatione omnium et speciali per Christum ex eadem ereptione electorum, col. 1067 e segs.; De tenenda immobiliter Scripture veritate et sanctorum orthodoxorum Patrum auctoritate fideliter sectanda, col. 1083 e segs.; no século X, Ratério de Verona (+ 974), Epist., I, De corpore et sanguine Domini, P. L., t. CXXXVI, col. 643; Gerbert ou Silvestre II (+ 1003), Libellus de corpore et sanguine Domini, P. L., t. CXXXIX, col. 277 e segs.
3. Durante todo esse período no Ocidente, os argumentos racionais ocupam apenas um lugar muito restrito nos trabalhos ou nas discussões teológicas. Do século V ao IX, os únicos autores que seguem santo Agostinho nessa aplicação do método racional são Boécio (+ 524), De sancta Trinitate, P. L., t. LXIV, col. 1247 e segs.; Liber contra Eutychen et Nestorium, col. 1337 e segs.; e Alcuíno (+ 804), De fide sanctae et individuae Trinitatis, P. L., t. CI, col. 11 e segs.; De Trinitate ad Fredegisum questiones, col. 57 e segs. Pode-se ainda citar na mesma ordem de ideias a insistência com que Rábano Mauro recomenda aos clérigos de seu tempo estudar a dialética e fazer dela objeto de meditações assíduas: « quapropter oportet clericos hanc artem nobilissimam scire ejusque jura in assiduis meditationibus habere, ut subtiliter hereticorum versutiam hac possint dignoscere » (De clericorum institutione, l. III, c. XX, P. L., t. CV, col. 397). Mas no século IX o abuso que Escoto Erígena (+ 870) fez da metafísica para provar em seu De divisione naturae, P. L., t. CXXII, col. 441 e segs., que todos os seres criados retornam à natureza incriada e que, após o fim do universo, não haverá mais senão Deus e as causas de todas as coisas nele, e a deplorável intervenção do filósofo irlandês na controvérsia predestinacionista por meio de seu De praedestinatione, col. 355 e segs., e na controvérsia eucarística por meio de seu De corpore et sanguine Domini, desviaram, por algum tempo, muitos espíritos da aplicação da filosofia às questões teológicas e mesmo do cultivo da metafísica, a tal ponto que um teólogo como Pascásio Radberto zomba daqueles que quisessem perder seu tempo no estudo da filosofia secular, e que todos os escritores eclesiásticos, até santo Anselmo, abandonam as questões metafísicas. Essa situação de espírito continuou até as heresias de Roscelino e de Berengário que, apoiando-se apenas na razão, forçaram santo Anselmo, no fim do século XI, a introduzir novamente os argumentos de razão na discussão das matérias de fé.
3° No Oriente, do século V ao VII, a dogmática grega conserva, nas controvérsias nestorianas ou monofisitas, praticamente o mesmo andamento e o mesmo método da dogmática do século IV. Todavia, vários autores, como santo Cirilo de Alexandria e sobretudo Leôncio de Bizâncio, ao mesmo tempo que se apoiam principalmente nas provas escriturísticas e patrísticas, dão, ao menos em alguns de seus escritos dogmáticos, um lugar bastante amplo aos argumentos racionais. Os principais teólogos dogmáticos desse período no Oriente são: S. Cirilo de Alexandria († 444), Thesaurus de sancta et consubstantiali Trinitate, P. G., t. LXXV, col. 9 sq.; Quod consubstantialis et coaeternus Deo et Patri sit Filius, col. 657 sq.; Scholia de incarnatione Unigeniti, col. 1369 sq.; Adversus Nestorii blasphemias contradictionum libri V, P. G., t. LXXVI, col. 9 sq.; Explanatio duodecim capitum sive anathematismorum, col. 293 sq.; Apologeticus pro duodecim capitibus adversus orientales episcopos, col. 315 sq.; Liber contra Theodoretum pro duodecim capitulis, col. 386 sq.; Apologeticus ad imperatorem Theodosium, col. 453 sq.; Liber de recta in Dominum nostrum Jesum Christum fide ad Theodosium imperatorem, col. 1133 sq.; Libri duo de recta fide ad reginas seu imperatrices, col. 1202 sq.; Dialogus quod unus sit Christus, col. 1253 sq. S. Nilo († por volta de 430) deixou numerosas cartas dogmáticas em que trata da maior parte das verdades cristãs e combate as heresias de seu tempo. De santo Isidoro de Pelúsio († 434), temos grande número de cartas dogmáticas dirigidas contra os hereges dessa época, P. G., t. LXXVIII. Teodoreto, bispo de Ciro († 458), a quem é difícil isentar de todo erro sobre a natureza da união hipostática, mesmo depois da definição do concílio de Calcedônia, deixou-nos vários livros dogmáticos: Eranistes seu Polymorphus, P. G., t. LXXXIII, col. 27 sq.; De providentia orationes decem, col. 555 sq.; Tractatus de sancta et vivifica Trinitate, t. LXXV, col. 1147 sq.; Tractatus de incarnatione Domini, col. 1419 sq.; e um grande número de cartas dogmáticas. Leôncio de Bizâncio († 543), Scholia, P. G., t. LXXXVI, col. 1193 sq.; Libri tres adversus nestorianos et eutychianos, col. 1268 sq.; Libri septem contra nestorianos seu adversus eos qui duas affirmabant Christi personas nullamque in ipso conjunctionem confitentur, col. 1400 sq.; Liber contra monophysitas seu quaestiones adversus eos qui unam dicunt naturam compositam Domini nostri Jesu Christi, col. 1769 sq.; Capitula triginta contra Severum, col. 1901 sq.; Solutio argumentorum Severi, col. 1915 sq.; Liber contra fraudes apollinaristarum, col. 1947 sq.; S. Sofrônio de Jerusalém († 638), Epistola synodica ad Sergium Constantinopolitanum, P. G., t. LXXXVII, col. 3148 sq.; Orationes in Christi servatoris natalitia et in sanctissimae Dei genitricis annuntiationem, col. 3201 sq., 3217; S. Máximo, abade († 666), Opuscula theologica et polemica ad presbyterum Maximum, dirigidos sobretudo contra os erros dos monofisitas e dos monotelitas, P. G., t. XCI, col. 9 sq.; Disputatio cum Pyrrho, col. 288 sq.; e várias cartas dogmáticas, particularmente Epist., XII-XVIII, col. 460 sq. No fim do século VII e no século VIII, santo Atanásio, o Sinaíta († 700), em seu Viae dux adversus acephalos, P. G., t. LXXXIX, col. 36 sq., e sobretudo são João Damasceno († 750), em seu De fide orthodoxa, P. G., t. XCIV, col. 789 sq., insistem, mais que seus predecessores, nos argumentos racionais tomados de empréstimo à filosofia, de um modo que se assemelha bastante ao método escolástico da Idade Média. As outras principais obras dogmáticas de são João Damasceno são: De heresibus, col. 677 sq.; Tres orationes pro sacris imaginibus, col. 1231 sq.; Contra jacobitas, col. 1436 sq.; Dialogus contra manicheos, col. 1505 sq.; Disceptatio christiani et saraceni, col. 1585 sq. No século IX, S. Teodoro Estudita († 826), Antirrhetici tres adversus iconomachos, P. G., t. XCIX, col. 328 sq.; Refutatio et subversio impiorum poematum Joannis, Ignatii, Sergii et Stephani recentium Christomachorum, col. 436 sq.; Quaestiones aliquae propositae iconomachis, col. 417 sq., e várias cartas dogmáticas sobre o culto das imagens, notadamente Epist., l. II, epist. I, IV, VIII, XXI, XXVI, XXXII, P. G., t. XCIX, col. 1110 sq.
III. TERCEIRO PERÍODO, desde santo Anselmo, no fim do século XI, até o começo do século XVI, período caracterizado, em seu conjunto, pela aplicação metódica dos dados da filosofia ao estudo sintético dos dogmas revelados. Compreende duas épocas: uma de desenvolvimento e progresso, a outra de enfraquecimento e decadência. 1. Primeira Época, desde santo Anselmo até quase o fim do século XIII, época marcada sobretudo, no século XIII, por um maravilhoso desenvolvimento da teologia escolástica. —
1. Por causa da influência preponderante exercida por santo Anselmo sobre todo o movimento escolástico da Idade Média, devemos lembrar aqui a característica de sua obra, indicando nitidamente o papel que atribuiu à razão nas matérias de fé. Santo Anselmo fora levado, pelos erros racionalistas de Roscelino e de Abelardo, a servir-se de argumentos de razão, não apenas para a demonstração filosófica dos atributos divinos, mas ainda para o estudo das verdades ensinadas pela revelação, não certamente para provar sua existência já crida pela fé, mas para justificá-las aos olhos da razão e adquirir delas uma inteligência mais completa. Que tal foi o verdadeiro pensamento de santo Anselmo, é o que atestam evidentemente vários de seus escritos, Monolog., pref., P. L., t. CLVIII, col. 143; Proslog., pref. et c. 1, col.
225, 227; De fide Trinitatis et de incarnatione Verbi, c. 1, col. 263; Cur Deus homo, l. I, c. 1, col. 386f. Se o santo doutor parece por vezes atribuir a tais argumentos de razão um valor necessariamente convincente independentemente da autoridade da Escritura, loc. cit., col. 148, 272, ele mesmo explica, no Cur Deus homo, em que sentido entende essa razão necessária. Não se trata de uma razão que produz uma necessidade antecedente que ligue a vontade divina, mas de um argumento que mostra a altíssima conveniência de tal ato divino já conhecido pela fé: Nonne satis necessaria ratio videtur cur Deus ea quæ dicimus facere debuerit; quia genus humanum, tam scilicet pretiosum opus ejus, omnino perierat: nec decebat ut quod Deus de homine proposuerat, penitus annihilaretur; nec idem ejus propositum ad effectum duci poterat, nisi genus humanum ab ipso creatore suo liberaretur? Cur Deus homo, l. I, c. iv, col. 365. Conveniência que, longe de acorrentar a vontade divina de maneira antecedente, op. cit., l. I, c. xvi, col. 421 sq., já a supõe conhecida pela fé e a torna manifesta à razão. Aliás, como atribuir um valor necessário a provas racionais assim qualificadas pelo próprio autor: videlicet ut si quid dixero quod major non confirmet auctoritas, quamvis illud ratione probare videar, non alia certitudine accipiatur nisi quia interim mihi ita videtur, donec mihi Deus melius aliquo modo revelet. Quod si aliquatenus quæstioni lux satisfacere potero, certum esse debebit quia et sapientior me plenius hoc facere poterit: imo sciendum est quidquid homo inde dicere vel scire possit, altiores tantæ rei adhuc latere fines. Op. cit., l. I, c. 1, col. 863 sq. Reconheçamos, todavia, que as expressões do santo doutor nessa matéria não têm a lúcida exatidão do ensinamento tão nitidamente formulado por são Tomás um século e meio mais tarde, Cont. gent., l. I, c. vi, ix, e que já relatamos anteriormente ao expor o papel da razão em matéria dogmática. Ao mesmo tempo, são Tomás exprime também, com mais nitidez que o doutor beneditino, este princípio sempre proclamado e aplicado pelos teólogos escolásticos, de que a autoridade da revelação é o fundamento necessário de toda verdadeira demonstração teológica. Sum. theol., Ia, q. 1, a. 8.
2. É bem verdade que, nessa época, afora tratados especiais contra o cisma grego, como o Contra errores Grecorum de são Tomás, citam-se pouco os documentos positivos, escriturísticos ou patrísticos, e que, quando são citados, o são de maneira breve, muito aquém de satisfazer as exigências atuais da crítica. Mas essa pobreza na documentação explica-se bastante facilmente pelo estado ainda bastante rudimentar das ciências críticas durante todo esse período, pela ausência quase completa de hereges que fosse necessário combater com argumentos positivos, enfim pela preocupação então dominante em todos os espíritos de lutar energicamente contra os falsos sistemas filosóficos que, como o averroísmo, atacavam então as verdades da fé sobretudo pelo lado racional ou procuravam fazer admitir que as verdades racionais eram inteiramente independentes da revelação.
3. Quanto à acusação de aristotelismo exagerado, frequentemente lançada contra os teólogos escolásticos, não julgamos necessário refutá-la aqui. Essa refutação decorre suficientemente da luta prolongada que a escola albertino-tomista teve de sustentar contra o aristotelismo extremado dos averroístas latinos. Ao separar-se abertamente dos averroístas e ao apontar em Aristóteles certo número de erros positivos, o conjunto dos escolásticos mostrava claramente que não estava subserviente ao Mestre. Ver ARISTOTELISMO, t. I, col. 1629.
4. Deve-se observar que santo Anselmo, ao dar o impulso ao movimento escolástico da Idade Média, não realizou ele mesmo a síntese teológica integral a que esse movimento devia conduzir. De fato, contentou-se em mostrar o acordo da razão com a fé sobre os pontos mais particularmente ameaçados em sua época e sobretudo sobre os que haviam sido atacados por racionalistas como Abelardo e Roscelino. Daí o grande número de opúsculos avulsos que, apesar da importância dos assuntos tratados e das amplas vistas do autor, não podiam por si mesmos constituir a síntese desejada. O que santo Anselmo não realizara foi tentado pelos continuadores de sua obra. Já indicamos anteriormente o que fizeram nesse sentido Pedro Lombardo, Alexandre de Hales e são Tomás, e como a classificação do Mestre das Sentenças prevaleceu nas escolas da Idade Média até o século XVI, pelo fato de sua obra ser o texto habitualmente seguido e comentado. Ver col. 1541-1543.
5. Entre as obras dessa época em que o dogma ocupa lugar preponderante, limitar-nos-emos a mencionar, nesta visão de conjunto, as que gozam de alguma notoriedade: S. Anselmo, Monologion, P. L., t. CLVIII, col. 141 sq.; Proslogion, col. 223 sq.; De fide Trinitatis et de incarnatione Verbi, col. 259 sq.; De processione Spiritus Sancti contra Grecos, col. 280 sq.; De veritate, col. 467 sq.; De libero arbitrio, col. 489 sq.; De casu diaboli, col. 325 sq.; Cur Deus homo, col. 359 sq.; De conceptu virginali et de originali peccato, col. 431 sq.; De concordia præscientiæ et prædestinationis necnon gratiæ Dei cum libero arbitrio, col. 507 sq.; Alger († por volta de 1131), cônego de Liège, depois monge de Cluny, De sacramentis corporis et sanguinis Domini libri III, P. L., t. CLXXX, col. 439 sq.; Tractatus de gratia et libero arbitrio, col. 969 sq.; Guiberto de Nogent (†1124), Tractatus de incarnatione contra os judeus, P. L., t. CLVI, col. 489 sq.; De pignoribus sanctorum, col. 607 sq., em que o autor trata especialmente da presença real de Jesus Cristo na santa eucaristia. Abelardo (†1142) contribuiu poderosamente para o desenvolvimento do método escolástico, particularmente por sua Introductio ad theologiam, que foi a primeira suma empreendida com o objetivo de coordenar numa só obra todo o ensino da fé. P. L., t. CLXXVIII, col. 979 sq. As demais obras dogmáticas de Abelardo são: Tractatus de unitate et trinitate divina, condenado pelo concílio de Soissons em 1121, descoberto e publicado em 1891, Friburgo-em-Brisgóvia; Theologia christiana, que não é senão uma segunda edição um pouco modificada do Tractatus de unitate et trinitate, col. 1123 sq.; Epitome theologiæ christianæ, col. 1695 sq. Hugo de São Vítor († 1142), De sacramentis legis naturalis et scriptæ, P. L., t. CLXXVI, col. 17 sq.; De sacramentis christianæ fidei, col. 173 sq., e vários opúsculos curtos, De potestate et voluntate Dei utra major sit, col. 889 sq.; De quatuor voluntatibus in Christo, col. 841 sq.; De sapientia animæ Christi an æqualis cum divina fuerit, col. 845 sq.; De beatæ Mariæ virginitate libellus epistolaris, col. 857 sq.; Roberto Pulena († 1146), Sententiarum libri VIII, P. L., t. CLXXXVI, col. 639 sq.; Rolando Bandinelli, que se tornou papa sob o nome de Alexandre III († 1181), Sententiæ Rodlandi Bononiensis magistri auctoritatibus rationibusque fortes, obra provavelmente composta entre 1142 e 1150, editada pelo P. Gietl em 1891 sob o título Die Sentenzen Rolands nachmals Papstes Alexander III, in-8°, Friburgo-em-Brisgóvia; S. Bernardo († 1153), De gratia et libero arbitrio, P. L., t. CLXXXII, col. 1001 sq.; Tractatus de baptismo seu epistola ad Hugonem de Sancto Victore de baptismo aliisque questionibus ab ipso propositis, col. 1031 sq.; Capitula heresum Petri Abelardi, col. 1049 sq.; Guilherme de Saint-Thierry († 1150), Disputatio adversus Petrum Abælardum, P. L., t. CLXXX, col. 249 sq.; Disputatio catholicorum Patrum adversus dogmata Petri Abelardi, col. 283 sq.; De sacramento altaris liber seu epistola ad quendam monachum qui de corpore et sanguine Domini scripserat, col. 341 sq.; Speculum fidei, col. 365 sq.; Ænigma fidei, col. 397 sq.; Gilberto de la Porrée († 1154), Commentaria in opera theologica Boetii, P. L., t. LXIV, col. 1255 sq., 1301 sq., 1355 sq.; Pedro, o Venerável, abade de Cluny († 1156), Tractatus adversus judeorum inveteratam duritiem, col. 507 sq.; Adversus nefandam sectam saracenorum, col. 661 sq.; Tractatus adversus petrobusianos hereticos, col. 719 sq.; Pedro Lombardo († 1164), Sententiarum libri IV, P. L., t. CXCII, col. 519 sq.; Hugo, arcebispo de Rouen († 1164), Dialogorum seu quæstionum theologicarum libri VII, col. 1141 sq.; Contra hæreticos sui temporis sive de Ecclesia et ejus ministris libri III, col. 1255 sq. Ricardo de São Vítor († 1173), De Trinitate libri VI, P. L., t. CXCVI, col. 887 sq., com uma breve carta a são Bernardo, De tribus appropriatis personis in Trinitate, col. 991 sq.; Liber de Verbo incarnato, col. 995 sq.; De missione Spiritus Sancti, col. 1017 sq.; João de Salisbury († por volta de 1180), Metalogicus, que é sobretudo uma condenação dos abusos da escolástica em matéria de fé; Alano de Lille († 1202), De fide catholica contra hereticos sui temporis præsertim albigenses, P. L., t. CCX, col. 305 sq.; De arte seu articulis catholicæ fidei libri V, col. 595 sq.; Regulæ de sacra theologia, col. 621 sq.; Pedro de Poitiers († 1205), discípulo de Pedro Lombardo, Sententiarum libri V, P. L., t. CCXI, col. 789 sq.; Guilherme de Auxerre († 1232), Summa aurea, sobre os quatro livros das Sentenças, Veneza, 1591; Moneta de Cremona, O. P. († 1235), Summa contra catharos et waldenses, editada em Roma em 1743; Alexandre de Hales († 1245), Universæ theologiæ summa, de que já demos anteriormente a análise sumária; Guilherme de Auvergne ou de Paris († 1249), De sacramentis in generali, Opera omnia, Veneza, 1591, p. 389 sq.; De sacramento baptismi, p. 397 sq.; De sacramento confirmationis, p. 407 sq.; De sacramento eucharistiæ, p. 440 sq.; De sacramento pœnitentiæ, p. 481 sq.; De sacramento matrimonii, p. 485 sq.; De sacramento ordinis, p. 500 sq.; De sacramento extremæ unctionis et de sacramentalibus, p. 523 sq.; De causis cur Deus homo, p. 525 sq.; De pœnitentia novus tractatus liber unus, p. 539 sq.; enfim sua principal obra De universo, p. 561 sq.; Lucas de Leão († 1249), De altera vita fideique controversiis libri III, contra os erros dos albigenses, editada em Ingolstadt em 1613; Rainério Sacconi, O. P. († 1259), Summa de catharis et leonistis sive pauperibus de Lugduno, Paris, 1548; S. Tomás de Aquino († 1274), Commentarius in IV Sententiarum libros; Summa contra gentiles; Quodlibeta seu quæstiones quodlibetales; Quæstiones disputatæ; Summa theologica; e numerosos opúsculos teológicos, dos quais os principais são: Contra errores grecorum; Compendium theologiæ, que começa pelas palavras Aeterni Patris Verbum; Contra grecos, armenos et saracenos, ou De rationibus fidei ad cantorem antiochenum; De articulis fidei et Ecclesie sacramentis; Expositio symboli fidei; Responsio de articulis XII ad Joannem Vercellensem; Responsio ad lectorem venetum de articulis XXXVI; Responsio ad lectorem bisuntinum de sex articulis; De differentia divini Verbi et humani; Expositio in librum B. Dionysii de divinis nominibus; Expositio in Boethii librum de Trinitate, obras e opúsculos cuja referência é fácil encontrar nas diversas edições das obras do doutor angélico; S. Boaventura († 1274), Commentarii in IV libros Sententiarum, Quaracchi, 1882 sq., t. I-IV; Quæstiones disputatæ de scientia Christi, de mysterio sanctissimæ trinitatis et de perfectione evangelica, t. V, p. 1 sq.; Breviloquium, suma condensada de seu comentário sobre o livro das Sentenças, p. 199 sq.; De reductione artium ad theologiam, p. 319 sq.; Collationes de septem donis Spiritus Sancti, p. 455 sq.; o B. Alberto Magno († 1280), Commentarii in Dionysium Areopagitam, Paris, 1890 sq., t. XIV; Commentarius in IV libros Sententiarum, t. XXV-XXX; Summa theologiæ, t. XXXI-XXXIII; Summa de creaturis, t. XXXIV, XXXV; De sacrificio eucharistiæ, t. XXXVIII; Pedro de Tarentaise, O. P., papa sob o nome de Inocêncio V († 1277), Commentarius in IV libros Sententiarum, Toulouse, 1652; Henrique de Gand (Goethals) († 1293), Quodlibeta seu quæstiones disputatæ in IV libros Sententiarum, Veneza, 1613; Summa theologiæ, Ferrara, 1646; Raimundo Martini, O. P. († 1286), Pugio fidei, obra dirigida contra os judeus e contra os mouros, Paris, 1642 e 1651; Ricardo de Middletown, O. M. († 1307), Commentaria in IV libros Sententiarum, Bréscia, 1591; Duns Scot, O. M. († 1308), de quem possuímos dois comentários in IV libros Sententiarum, um mais extenso e mais filosófico conhecido pelo nome de scriptum oxoniense, o outro mais conciso, mais limitado às questões teológicas e chamado scriptum parisiense; e as Quæstiones quodlibetales, em número de XXI; Guilherme de Paris, O. P. († por volta de 1312), De septem Ecclesia sacramentis, obra frequentemente editada; o B. Egídio Romano, O. S. A. († 1316), Commentarius in libros Sententiarum, que não vai além da dist. XI do l. III; Quodlibeta VI, Lovaina, 1646; Quæstiones VII de resurrectione mortuorum, de prædestinatione, præscientia, paradiso, purgatorio et inferno, peccato originali, de articulis fidei pro missionariis ad tartaros missis, Viena, 1641; De corpore Christi, Bolonha, 1481.
2° Segunda época, desde o fim do século XIII até o começo do século XVI, caracterizada, sobretudo desde meados do século XIV, por um enfraquecimento muito acentuado da teologia escolástica, ao menos entre muitos autores. — 1. As causas principais desse enfraquecimento da teologia escolástica foram, além das graves perturbações da sociedade civil e da sociedade religiosa, a propagação e a funesta influência de falsos sistemas filosóficos, tais como o averroísmo, sistema surgido no século XII mas que conservou ainda muitos adeptos nos séculos seguintes, e o nominalismo renovado por Occam († 1349) e bastante difundido na segunda metade do século XIV e sobretudo no século XV. Esses sistemas, aplicados à teologia, nela lançaram a perturbação. Os teólogos fiéis ao método e à doutrina do século XIII tornaram-se mais raros, sobretudo no século XV. Ao mesmo tempo desapareceram também, em muitos autores, as amplas sínteses teológicas, para dar lugar a tratados fragmentários em que o ardor da polêmica e as sutilezas da dialética desempenharam, na maioria das vezes, um papel excessivo. Tais escritores mereceram sobejamente as censuras que lhes dirigia Melchior Cano, De locis theologicis.
Os principais ouvrages dessa época, que atribuem papel exclusivo ou preponderante às questões dogmáticas, são: Raimundo Lúlio († 1315), De fine omnium disputationum contra hereticos, Maiorca, 1665; Liber quæstionum super IV libros Sententiarum, Lião, 1491; Liber de conceptu virginis Mariæ, Sevilha, 1491; Gerardo de Bolonha, O. C. (†1317), Commentaria in libros Sententiarum, Veneza, 1622; Pedro Aureolo, O. M. (†1322), Commentarii in IV libros Sententiarum, aos quais se acrescentam Quodlibeta XVI, Roma, 1596; Antônio André, O. M. (†1320), Commentaria in IV libros Sententiarum, Veneza, 1572, 1578, 1584; Hervé de Nédellec, O. P. (†1323), Commentarii in IV libros Sententiarum, Veneza, 1513; Paris, 1647; Francisco de Mayronis, O. M. (†1327), Commentaria in IV libros Sententiarum, obra editada junto com XVI Quodlibeta, Veneza, 1520; Durando de Saint-Pourçain, O. P. (†1334), Commentaria in IV libros Sententiarum, Veneza, 1586; João de Nápoles, O. P. (†1330), de quem foram editadas apenas as Questiones disputate, Paris, 1618; Pedro de la Palu, O. P. (†1342), Commentaria in IIIm et in IV librum Sententiarum, Paris, 1530, nos quais o autor se ocupa muito da solução de casos práticos, sobretudo no comentário do IV livro; João de Bacon, O. C. (†1346), Commentaria super IV libros Sententiarum, aos quais foram anexados seus Quodlibeta, Cremona, 1618; Guilherme de Occam, O. M. (†1349), Super Sententiarum libros IV subtilissime questiones eorumque decisiones, Lião, 1495; Tractatus de sacramento altaris et septem questiones quodlibetales, Paris, 1513; Tractatus de jurisdictione imperatoris in causis matrimonialibus; Dialogorum libri VII, Paris, 1476, obra várias vezes editada e que contém numerosos erros relativos à natureza e à extensão da autoridade pontifícia; Disputatio super potestate prelatis Ecclesie atque principibus commissa, Paris, 1598; Roberto Holcot, O. P. (†1349), Questiones super IV libros Sententiarum, às quais se juntaram Conferentie sobre várias questões avulsas, Lião, 1518; Tomás de Estrasburgo, O. S. A. (†1357), Scripta super IV libros Sententiarum, Veneza, 1564; Gregório de Rimini, O. S. A. (†1358), Lectura in IIm et IIe librum Sententiarum, Veneza, 1518; Afonso de Vargas y Toledo, arcebispo de Sevilha (†1366), Lectura supra Ie librum Sententiarum, Veneza, 1490; Pedro de Aquila ou Scotellus, O. M. (†1370), Questiones in IV libros Sententiarum, Veneza, 1584; Pedro de Ailly, arcebispo de Cambrai e cardeal (†1420), Questiones super Im, IIIm et IVm Sententiarum, Veneza, 1500; Tractatus theologicus de sacramentis, Paris, 1488; e vários opúsculos sobre o poder eclesiástico e sobre as atribuições dos concílios gerais, por ocasião do cisma do Ocidente; João Gerson (†1429), que publicou por ocasião do grande cisma vários opúsculos sobre o poder eclesiástico, sobre as prerrogativas do papa e sobre a superioridade dos concílios gerais: esses escritos foram reunidos no t. II de suas Obras completas, Antuérpia, 1706; João Capreolo, O. P. (†1482), Defensiones theologie divi Thome Aquinatis, sob a forma de comentários dos quatro livros das Sentenças, Veneza, 1589, obra recentemente reeditada pelos PP. Paban e Pègues, Tours, 1900 sq.; Tomás Netter ou de Walden, Waldensis, O. C. (†1480), Doctrinale antiquitatum fidei, contra os wiclefitas e os hussitas, Veneza, 1757; Nicolau de Cusa (†1464), De concordantia catholica libri III, e De auctoritate presidendi in concilio generali, em que o autor sustenta a superioridade do concílio sobre o papa, obras editadas em suas Obras completas, Ratisbona, 1847; João de Turrecremata ou Torquemada, O. P. e cardeal (†1468), Summa de Ecclesia, Roma, 1489; Veneza, 1561; Quod non liceat appellare a concilio ad papam, Mansi, Concil., t. xxx, col. 1072 sq.; Contra decreta concilii Constantiensis in quo depositus fuit Joannes XXIII, e Contra gesta in concilio Basileensi adversus Eugenium, col. 550 sq.; o cardeal Bessarion (†1472), que publicou vários escritos ou opúsculos teológicos contra os gregos cismáticos; Gabriel Biel (†1495), Epithoma pariter et collectorium circa IV Sententiarum libros, Tübingen, 1501; Lião, 1514, obra que ficou inacabada, tendo o autor se detido no fim da dist. XXII do l. IV; embora comentando as Sentenças, Biel toma na maioria das vezes Occam como guia; Pedro Tartaret, O. M. (†1494), Commentarii in IV libros Sententiarum ad mentem Scoti, Veneza, 1583; Nápoles, 1607; Commentaria in quodlibeta Scoti, Paris, 1519.
IV. QUARTO PERÍODO, desde o século XVI até a época atual, dividido em três épocas caracterizadas por atitudes diversas em relação à teologia positiva ou à teologia escolástica. 1° Primeira época, desde o começo do século XVI até quase meados do XVII, caracterizada sobretudo por um desenvolvimento considerável da teologia positiva, por uma renovação bastante acentuada da teologia escolástica e por algumas modificações na repartição das matérias dogmáticas. — 1. O desenvolvimento considerável da teologia positiva foi ocasionado sobretudo pelos ataques multiplicados dos protestantes no terreno da demonstração positiva. Os teólogos católicos sustentaram vigorosamente a luta, seja em escritos puramente polêmicos, como as Controvérsias de Belarmino, em que todas as objeções críticas dos protestantes são fielmente expostas e sabiamente resolvidas com o auxílio de todos os recursos documentais possuídos nessa época, seja em escritos ao mesmo tempo dogmáticos e polêmicos, unindo a uma exposição metódica do dogma uma resposta mais ou menos detalhada às principais objeções críticas. É isso que explica por que, na maioria dos autores, a demonstração escriturística ou patrística supera em muito a da época precedente em solidez e em extensão, sem contudo responder completamente a todas as exigências da crítica atual.
2. Ao mesmo tempo, produzia-se uma feliz renovação da teologia escolástica. Caetano foi seu iniciador, retomando fortemente contato com a melhor escolástica do século XIII. Depois, os dominicanos Francisco de Vitória, Domingos Soto e Melchior Cano dirigiram esse movimento no sentido de uma sábia reforma, com a constante preocupação de afastar impiedosamente os graves defeitos em que se havia caído nos dois séculos precedentes, de conservar tudo o que o passado continha de bom e de buscar os progressos imperiosamente exigidos pelas necessidades da época. Esse movimento sabiamente reformador foi seguido pela grande maioria durante esse período feliz, até quase meados do século XVII. Contudo, essa mesma época conta ainda com um número bastante grande de autores que, com nuances bastante diversas, permaneceram um tanto presos demais aos quadros teológicos do século XIV ou do XV ou que, ao contrário, abandonaram demais as doutrinas e o método da escolástica.
3. Esse período foi enfim marcado por algumas modificações na repartição das matérias teológicas. Os comentários sobre as Sentenças tornaram-se bastante raros. A maioria das grandes obras teológicas dessa época, sobretudo desde o fim do século XVI, foram habitualmente modeladas sobre o plano da Suma teológica de são Tomás, seja sob a forma de simples comentários, como os de Caetano, seja sob a forma mais pessoal de questões ou disputas dispostas conforme a escolha do autor, mas tomando como base o texto de são Tomás, como se encontra na maioria dos grandes teólogos dessa época. Bastante frequentemente, grandes obras teológicas, como as de Suárez e de Sylvius, tratam ainda conjuntamente das matérias teológicas e morais, sem negligenciar mesmo as questões casuísticas; mas a separação da teologia moral começa a efetuar-se em muitos autores, e torna-se definitiva perto do fim desse período.
4. Entre as obras exclusiva ou parcialmente dogmáticas pertencentes a esse período, citaremos particularmente as seguintes, observando que várias delas relevam em parte da moral e da apologética. Caetano, O. P. (†1534), Commentaria in Summam theologie S. Thome, publicados integralmente na edição completa das Obras de são Tomás, dita edição de são Pio V, Roma, 1588, e na edição leonina de 1888; e vários opúsculos dogmáticos dirigidos contra os luteranos; Silvestre de Ferrara, O. P. (†1528), Commentaria in Summam S. Thome contra gentiles, frequentemente reeditados e publicados com o texto do santo doutor na edição oficial de Leão XIII; Javelli, O. P. (†1538), Expositio preclarissima in I partem Summe S. Thome, q. 1-cxiii, Lião, 1580; Driedo (João Neys), doutor de Louvain (†1535), De gratia et libero arbitrio libri duo, Louvain, 1537; De concordia liberi arbitrii et predestinationis, Louvain, 1538; De captivitate et redemptione generis humani, Louvain, 1548; De libertate christiana, Louvain, 1546; De locis theologicis, 1543; Faber ou Fabri de Leutkirch, O. P. (†1541), Adversus nova quedam dogmata Martini Luther, Roma, 1522; Malleus in heresim lutheranam, Colônia, 1524; Antilogiarum Martini Lutheri liber unus, 1530; De fide et bonis operibus libri III, Colônia, 1539; João Eck (Maier) (†1543) publicou sobretudo obras de controvérsia contra Lutero, entre as quais mencionaremos: De primatu Petri, Ingolstadt, 1520; De penitentia et confessione secreta semper in Ecclesia Dei observata libri II, Roma, 1524; De purgatorio libri II, Roma, 1523; De satisfactione et aliis penitentiis, Roma, 1523; De initio penitentie seu contritione, Roma, 1523, e sobretudo Enchiridion locorum communium, Landshut, 1525, dirigido contra o tratado de Melâncton e reeditado com muita frequência; Clichtove (†1543), doutor da Sorbonne, do qual citaremos sobretudo as obras de polêmica dirigidas contra Lutero: Determinatio facultatis theologice Parisiensis super doctrina Lutheri hactenus per eam visa, Paris, 1521; De veneratione sanctorum, Paris, 1523; Antilutherus, Paris, 1524; Propugnaculum Ecclesie, 1526; De sacramento eucharistie contra Oecolampadium, Paris, 1527; Compendium veritatum ad fidem pertinentium, ex dictis et actis in concilio Senonensi, Paris, 1528; Improbatio quorundam articulorum Martini Lutheri a veritate catholica dissidentium et in quodam libro catholico non satis exacte et recte impugnatorum, 1533; Jacques Latomus (†1544), doutor de Louvain, cujas principais obras de controvérsia são De primatu romani pontificis; De confessione secreta, Antuérpia, 1523; De fide et operibus, Antuérpia, 1519; Francisco de Vitória, O. P. (†1546), Relectiones XII theologice, Ingolstadt, 1580; Lião, 1586, 1587; Summa sacramentorum Ecclesie, opus reportatum et ab auctore approbatum, Roma, 1567; Hoffmeister (†1547), O. S. A., um dos principais controversistas dessa época na Alemanha, Dialogorum libri duo, Friburgo-em-Brisgóvia, 1538; Judicium de articulis confessionis fidei lutheranorum, Mainz, 1559; Articuli conciliati, Ingolstadt, 1546; Loci communes rerum theologicarum, Ingolstadt, 1546; Van den Bundere (†1557), O. P., Compendium dissidii quorumdam hereticorum atque theologorum, Paris, 1540, obra reeditada depois sob títulos um pouco diferentes; Detectio nugarum Lutheri cum declaratione veritatis catholice et confutatione dogmatum lutheranorum, Lovaina, 1551; De vero Christi baptismo contra Mennonem anabaptistarum principem, succincta quoque errorum ejusdem elisio, Lovaina, 1553; Scutum fidei orthodoxe adversus venenosa tela Joannis Anastasii Velvani fidem, sacramenta ritumque ecclesiasticum explodere contendentis, Gante, 1556; Reginald Pole (+1558), Pro ecclesiastice unitatis defensione libri IV, Roma, 1538; De summo pontifice Christi in terris vicario ejusque officio et potestate, Lovaina, 1569; Pro primatu romane Ecclesie, Estrasburgo, 1555; A treatise of justification, Lovaina, 1569; Melchior Cano, O. P. (+1560), De locis theologicis libri XII, frequentemente reeditado com uma Relectio de sacramentis in genere et de penitentia; Domingos Soto, O. P. (+1560), De natura et gratia, Paris e Salamanca, 1561; In IVe librum Sententiarum commentarii, Douai, 1613; Ruard Tapper (+1559), doutor de Lovaina, Explicationes in articulos circa ecclesiastica dogmata hoc seculo controversa, Lovaina, 1555; João Slotanus, O. P. (+1560), Disputationum adversus hereticos liber unus, Colônia, 1558; De retinenda fide orthodoxa et catholica adversus hereses et sectas et precipue lutheranam libri IX; De verbi Dei virtute et Ecclesie insuperabili potentia libri IV; todas as suas obras foram editadas em Colônia em 1555; Pedro Soto, O. P. (+1563), Institutiones christiane, Augsburgo, 1548; Assertio catholice fidei circa articulos confessionis nomine ducis Wurtembergensis per legatos concilio Tridentino oblatos, Antuérpia, 1552; Tilmann Smeling, O. P. (+1561), De septem sacramentis, Colônia, 1538; Henrique Helm, O. M. (+1560), De verbo Dei libri III, Colônia, 1560; Adversus captivitatem Babylonicam Lutheri, Paris, 1553; Enchiridion de vera et perfecta impii justificatione, Colônia, 1554; Ricardo Smith (+1563), doutor de Oxford, De hominis justificatione, Oxford, 1550; Refutatio locorum communium Melanchthonis, Douai, 1563; De libero hominis arbitrio, contra Calvino, Lovaina, 1563; Jaime Lainez, S. J. (+1565), Disputationes Tridentine, Innsbruck, 1886; Jaime Bologni de Palermo (+1564), De eterna Dei predestinatione et reprobatione, Pavia, 1554; João Hessel (+1566), doutor de Lovaina, Probatio corporalis presentie corporis et sanguinis dominici in eucharistia, Colônia, 1563; Confutatio novelle fidei et tractatus de cathedre Petri perpetua protectione et firmitate, Lovaina, 1562; Declaratio quod eucharistia sub unica panis specie neque precepto Christi adverselur neque minus fructuosa sit quam sub panis et vini specie, Lovaina, 1566; Bartolomeu Camerari de Benevento (+1564), De predestinatione, libero arbitrio et gratia, contra Calvino, Paris, 1556; Miguel de Medina, O. M. (+1571), Christiana parenesis sive de recta in Deum fide libri VI, Veneza, 1564; Disputationes de indulgentiis adversus nostri temporis hereticos, Veneza, 1564; Martinho de Ledesma, O. P. (+1574), Commentaria in IVm librum Sententiarum, Coimbra, 1555; Antônio de Córdova, O. M. (+1578), Commentaria in IV libros Sententiarum, Alcalá, 1569; Arca fidei sive loca communia et fundamenta generalia ad omnes hereticos convincendos de suis erroribus, Alcalá, 1562; José Angles, de Valência, na Espanha, O. M. (+1587), Flores theologicarum questionum in Im et IIe librum Sententiarum, Lyon, 1584; Madrid, 1586; Opiniones super IVe librum Sententiarum, Burgos, 1585; Miguel de Palacios, doutor de Salamanca (+1593), Disputationes theologice in IV libros Sententiarum, Salamanca, 1574; Bartolomeu de Medina, O. P. (+1581), Commentaria in Iam IIe, Salamanca, 1577; Commentaria in IIIm partem, q. 1-lx, Salamanca, 1578; Observationes nove et additiones ad III partem S.
Thome, Salamanca, 1597 ; Nicolau Saunders († 1583), De visibili monarchia Ecclesiae libri VIII, Lovaina, 1571 ; De clave David seu regno Christi libri sex contra calumnias Acleri pro visibili Ecclesiae monarchia, Roma, 1588 ; De explicatione missae ac partibus ejus, Lovaina, 1569 ; Sedes apostolica seu de militantis Ecclesiae romanae potestate romanorumque pontificum primatu et auctoritate, Veneza, 1603 ; Tractatus quod Dominus in sexto capite S. Joannis de sacramento eucharistiae proprie sit locutus, Antuérpia, 1570 ; De typica et honoraria sacrarum imaginum adoratione libri II, Lovaina, 1569 ; De justificatione libri VI, Tréveris, 1585 ; Antônio Pelten, S. J. († 1584), Doctrina catholica de purgatorio, Ingolstadt, 1568 ; De librorum canonicorum numero, auctoritate et legitima interpretatione, Ingolstadt, 1572 ; De nostra satisfactione et purgatorio libri II, Colônia, 1576 ; De originis peccato disceptatio in tractatus XVIII distributa, item de Christi satisfactione et majestate, Ingolstadt, 1576 ; De tribus bonorum operum generibus, eleemosyna, jejunio et oratione libri III, 1580 ; Francisco Orantes, O. M. († 1584), Locorum catholicorum pro romana fide adversus Calvini institutiones, Veneza, 1564 ; Gaspar Casal, O. S. A., bispo de Coimbra († 1585), De quadripartita justitia libri XI, Veneza, 1563 ; De sacrificio missae et de sacrosanctae eucharistiae celebratione per Christum in cena novissima libri III, Veneza, 1563 ; De cena et calice Domini quoad laicos et clericos non celebrantes libri III, 1563 ; Axiomatum christianorum libri III ex diversis Scripturis et sanctis Patribus adversus haereticos antiquos et modernos, Coimbra, 1550 ; Van der Linden, Lindanus († 1585), Panoplia evangelica sive de verbo Dei evangelico libri V, Colônia, 1559 ; Tomás Stapleton († 1598), Principiorum fidei doctrinalium demonstratio methodica per controversias VII, XII libris tradita, Paris, 1582 ; Principiorum fidei doctrinalium relectio scholastica et compendiaria, Antuérpia, 1596 ; Universa justificationis doctrina hodie controversa libris XII tradita, Paris, 1582 ; De magnitudine Ecclesiae romanae, Antuérpia, 1599 ; De auctoritate Ecclesiae circa sacram Scripturam, 1591 ; Cláudio de Sainctes, O. S. A., bispo de Évreux († 1591), Examen doctrinae calvinianae et bezanae de cena Domini, 1566 ; De rebus eucharisticis controversis repetitiones seu libri X, Paris, 1575 ; Faunt de Leicester († 1591), De Christi in terris Ecclesia, quenam et penes quos exsistat libri III, Posen, 1588 ; Cen lutheranorum et calvinistarum oppugnatio, 1586 ; Apologia de invocatione ac veneratione sanctorum, Colônia, 1589 ; Guilherme Allen de Lancastre († 1594), que publicou, além de várias obras inglesas de controvérsia : De sacramentis in genere, Antuérpia, 1576 ; o Beato Pedro Canísio, S. J. († 1597), Commentariorum de Verbi Dei corruptelis liber I, Dillingen, 1571 ; De Maria virgine incomparabili et Dei genitrice sacrosancta libri V, Ingolstadt, 1577 ; obras reunidas depois em um único volume, Ingolstadt, 1583 ; Paris e Lyon, 1584 ; Luís Molina, S. J. († 1600), Commentaria in Iam partem S. Thome, Veneza, 1594 ; Concordia liberi arbitrii cum gratiae donis, divina praescientia, providentia, praedestinatione et reprobatione, Lisboa, 1588 ; Gregório de Valência, S. J. († 1603), Commentariorum theologicorum tomi IV, Ingolstadt, 1591 ; Analysis fidei catholicae, 1585 ; De sanctissima Trinitate libri V, 1586 ; De vera Christi majestate et presentia contra lutheranos ubiquistas libri IV, 1582 ; De numero sacramentorum novae legis, de reali Christi presentia in eucharistia et de praedestinatione libri III, 1587 ; De sacrosanctae missae sacrificio libri duo, 1580 ; De idololatria libri V, 1580 ; De praedestinatione et reprobatione, 1574 ; Examen et refutatio precipui mysterii doctrinae calvinistarum de re eucharistica, 1589 ; Domingos Bannez, O. P. († 1604), Commentaria in IaM partem S. Thome et in IIa IIae, q. I-XLVI, Salamanca, 1584 ; Relectio de merito et augmento caritatis, Salamanca, 1590 ; João de Ávila, O. P. († 1604), De gratia et libero arbitrio sive de auxiliis divinae gratiae, Roma, 1599 ; De confessione per litteras sive per internuncium, 1599 ; João Domingos Montagniuoli, O. P. († 1610), Defensiones theologicae ac thomisticae, Nápoles, 1610 ; João de Rada, O. M. († 1608), Controversiae theologicae inter S. Thomam et Scottum super IV libros Sententiarum, Veneza, 1599, 1618 ; Pedro de Lorca, cisterciense († 1606), Commentaria et disputationes in universam Iam IIae et in IIam IIae, Alcalá, 1609 ; Madrid, 1614 ; Francisco Zumel, da ordem da Merced, Commentaria in Iam S. Thome et in Iam IIae, Veneza, 1597 ; Salamanca, 1594 ; Variarum disputationum tomi tres, 1608 ; Pedro Arrubal, S. J. († 1608), Commentaria ac disputationes in Iam partem S. Thome, Madrid, 1619 ; Gabriel Vasquez, S. J. († 1604), Commentaria et disputationes in Iam partem S. Thome, in Ia IIae et in IIIam partem, Lyon, 1631 ; Francisco Feuardent, O. M. († 1612), Theomachia calvinistica sexdecim libris profligata, Paris, 1604 ; Pedro de Ledesma, O. P. († 1616), Tractatus de divina perfectione, infinitate et magnitudine, ao qual foi acrescentado o tratado De perfectione actus essendi creati, Salamanca, 1596 ; De divinae gratiae auxiliis, 1611 ; De magno matrimonii sacramento, 1592 ; Diego Nunno Cabezudo, O. P. († 1614), Commentaria et disputationes in IIIam partem S. Thome, Veneza, 1612 ; Serafim Razzi († 1613), De locis theologicis praelectiones, Perúgia, 1603 ; Francisco Suárez, S. J. († 1617), que trata, em seus comentários sobre a Suma de são Tomás, de todas as matérias dogmáticas tanto quanto das questões morais, sem falar de opúsculos teológicos especiais como a Defensio fidei catholicae et apostolicae contra os erros anglicanos ; João de Cartagena, O. M. († 1617), De sacramentis in genere, Roma, 1609 ; De praedestinatione et reprobatione angelorum et hominum, 1581 ; Disputationes in universa religionis christianae arcana, 1609 ; Jacques Davy du Perron, cardeal († 1618), Traité du sacrement de l'eucharistie, Paris, 1620 ; Réplique au roi de la Grande-Bretagne, 1620 ; Francisco Coster, S. J. († 1619), Enchiridion controversiarum praecipuarum nostri temporis, Colônia, 1585 ; De ecclesia, Colônia, 1604 ; Gregório Nunez Coronel, O. S. A. († 1620), De vera Christi Ecclesia libri decem, Roma, 1594 ; De sacris apostolicis traditionibus, 1597 ; Jacques Gordon, S. J. († 1620), Controversiarum christianae fidei adversus hujus temporis haereticos epitome, Colônia, 1620 ; Roberto Francisco Belarmino, S. J. († 1621), cardeal, Disputationes de controversiis fidei, Paris, 1608 ; Nicolau Coeffeteau, O. P. († 1623), Les merveilles de la sainte eucharistie, Paris, 1605 ; La défense de la sainte eucharistie et présence réelle du corps de Jésus-Christ, Paris, 1607 ; Traité des noms de l'eucharistie, 1622 ; Pro sacromonarchia Ecclesiae catholicae, apostolicae et romanae, Paris, 1623 ; Jerônimo Medices, O. P. († 1622), Summae theologiae S. Thome formalis explicatio, Paris, 1657 ; João Gonzales de Albelda, O. P. († 1625), Commentaria et disputationes in Iam partem Summae S. Thome, Alcalá, 1621 ; Leonardo Lessius, S. J. († 1623), De perfectionibus moribusque divinis, Antuérpia, 1620 ; De gratia efficaci, decretis divinis, libertate arbitrii et praescientia Dei conditionata ; de praedestinatione et reprobatione angelorum et hominum, Paris, 1878 ; De praedestinatione Christi, Antuérpia, 1610 ; De summo bono et aeterna beatitudine hominis, Antuérpia, 1616 ; Defensio potestatis summi pontificis, Zaragoza, 1611 ; Martinho Becanus, S. J. († 1624), Manuale controversiarum hujus temporis, Maguncia, 1623 ; Summa theologiae scholasticae, Maguncia, 1623, e vários opúsculos teológicos dirigidos sobretudo contra os calvinistas ; Tomás de Lemos, O. P. († 1629), Panoplia gratiae, Liège, 1676 ; Egídio da Apresentação, O. S. A. († 1626), Disputationes de animae et corporis beatitudine, Coimbra, 1609 ; De immaculata beate Virginis conceptione, 1617 ; Adão Tanner, S. J. († 1632), Universa theologia scholastica, speculativa, practica ad methodum S. Thome, Ingolstadt, 1626 ; Disputationum theologicarum in omnes partes Summae theologicae S. Thome, 1618 ; De verbo Dei scripto et non scripto et de judice controversiarum, Munique, 1599 ; Defensionis Ecclesiae libertatis libri II, Ingolstadt, 1604 ; Wiggers († 1639), doutor de Lovaina, Commentaria in Iam partem S. Thome, de Deo uno et trino, de angelis et operibus sex dierum ; in IIam IIae, q. I-XLVI, de virtutibus theologicis, fide, spe et caritate ; in IIIam partem de Verbo incarnato, de sacramentis, Lovaina, 1651-1657 ; Diego Álvares, O. P. († 1635), Disputationes theologicae in Iam IIae S. Thome, Colônia, 1621 ; De incarnatione divini Verbi disputationes octoginta in quibus explicantur et defenduntur quae in IIIa parte Summae theologicae docet S. Thomas, I-XLV, Lyon, 1614 ; De auxiliis divinae gratiae et humani arbitrii viribus et libertate, Roma, 1610 ; André Duval († 1638), doutor da Sorbonne, Elenchus libelli de ecclesiastica et politica potestate pro suprema romanorum pontificum in Ecclesiam auctoritate, Paris, 1612 ; Commentarium in Summam S. Thome, 1636 ; De suprema romani pontificis in Ecclesiam potestate, 1614 ; De summi pontificis auctoritate, 1622 ; Tomás Ramon, O. P. († 1631), De primatu S. Petri apostoli et summorum pontificum ejus successorum, Toulouse, 1617 ; Cláudio Tiphaine, S. J. († 1641), De hypostasi et persona ad augustissimae sanctissimae Trinitatis et stupendae incarnationis mysteria illustranda, Pont-à-Mousson, 1634 ; Paris, 1881 ; Nicolau Ysambert († 1642), doutor da Sorbonne, Commentarium in S. Thome Summam, Paris, 1639 ; Domingos Gravina, O. P. († 1653), Catholicae praescriptiones adversus omnes veteres et nostri temporis haereticos, Nápoles, 1619 ; Pro sacro fidei catholicae et apostolicae deposito fideliter a romanis pontificibus custodito apologeticus, Nápoles, 1629 ; Pro sacrosancto ordinis sacramento vindiciae orthodoxae, Nápoles, 1634 ; Hurtado, S. J. († 1647), De Deo, Madrid, 1643 ; De fide, spe et charitate, 1632 ; De incarnatione Verbi, Alcalá, 1628 ; De sacramentis in genere et in specie, 1628 ; De eucharistia, sacrificio missae et ordine, 1620 ; De matrimonio, 1627 ; João Batista de Lezana, O. C. († 1659), Summa theologiae sacrae, Roma, 1651 ; Liber apologeticus pro immaculata Deiparae Virginis Mariae conceptione, Madrid, 1616 ; João de São Tomás, O. P. († 1644), Cursus theologicus, abrangendo quase toda a Suma teológica de são Tomás, Lyon, 1643 ; João de Lugo, S. J. († 1660), cardeal, cujas principais obras dogmáticas são : De virtute fidei divinae ; De incarnatione ; De sacramentis in genere ; De venerabili eucharistiae sacramento et de sacrosanctae missae sacrificio ; De sacramento poenitentiae, em suas Obras completas, Lyon, 1652 ; Veneza, 1717, 1751 ; Martinez de Ripalda, S. J. († 1648), De ente supernaturali disputationes in theologiam universam, Paris, 1870 ; De virtutibus fidei, spei et caritatis, 1632 ; Francisco Sylvius († 1649), Commentarii in Summam S. Thome, sobre toda a Suma, Antuérpia, 1684, edição que compreende também diversos opúsculos teológicos ; Dionísio Petau, S. J. († 1652), Theologicorum dogmatum tomi VI, compreendendo também vários opúsculos teológicos, Veneza, 1721, 1745 ; Mariales, O. P. († 1660), Controversiae ad universam Summam theologiae S. Thome, necnon ad IV libros magistri Sententiarum, Veneza, 1624. 2° Segunda época, desde meados do século XVII até o concílio do Vaticano, caracterizada por um empobrecimento considerável da teologia escolástica e por um enfraquecimento bastante marcado da própria teologia positiva. — 1. Esse empobrecimento da teologia escolástica foi ocasionado particularmente pela funesta invasão dos novos sistemas filosóficos, desde o cartesianismo até o kantismo, invasão contra a qual muitos católicos não souberam se defender suficientemente, como Leão XIII constata com dor em sua encíclica Aeterni Patris, de 4 de agosto de 1879. Depois de mostrar como, sob a influência da reforma protestante do século XVI, aprouve filosofar citra quempiam ad fidem respectum, ele constata que essa paixão pela novidade pareceu ter invadido o espírito de muitos filósofos católicos que, abandonando o patrimônio da sabedoria antiga, preferiram buscar coisas novas a aumentar e aperfeiçoar as antigas com um trabalho novo. Atitude que não esteve isenta de imprudência nem de grave detrimento para as ciências : certe minus sapienti consilio et non sine scientiarum detrimento. Em consequência da íntima união entre a filosofia e a teologia escolástica, o abandono ou o empobrecimento da primeira em grande número de católicos ocasionou também em muitos uma grave diminuição da segunda ; daí resultou frequentemente a impotência de responder, com suficiente solidez, aos ataques dos inimigos da fé, como constata ainda Leão XIII no mesmo documento. 2. A própria teologia positiva sofreu uma diminuição bastante acentuada, seja porque os sólidos princípios de filosofia necessários para sustentar e dirigir com segurança o método positivo frequentemente faltaram ; seja porque um número bastante grande de autores sofreu alguma influência dos erros jansenistas, galicanos, josefinistas, às vezes até racionalistas. É preciso notar, aliás, que muitos dos melhores espíritos dessa época abandonaram a teologia para se dedicarem exclusivamente aos trabalhos de erudição histórica ; o que não deixou de ocasionar indiretamente algum empobrecimento da teologia positiva. Não se deve, portanto, admirar constatar que, no conjunto desse período, a teologia positiva foi frequentemente inferior à pesada tarefa que lhe cabia então de refutar eficazmente as objeções multiplicadas dos críticos protestantes ou racionalistas. 3. Entre as obras exclusiva ou parcialmente dogmáticas, mencionaremos particularmente as seguintes, observando que algumas dizem respeito também à apologética e que doravante pouquíssimos escritos tratam conjuntamente a moral e a dogmática. Pedro Jammy, O. P. († 1665), Veritates de auxilio gratiae ab erroribus et falsis opinionibus vindicatae, Grenoble, 1658 ; Francisco de Arauxo, O. P. († 1664), Commentaria in Summam S. Thome, Salamanca, 1635, 1636, 1638 ; Domingos de Marinis, O. P. († 1669), Expositio commentaria, sobre toda a Suma teológica de são Tomás, Lyon, 1663, 1666, 1668 ; Rodrigo de Arriaga, S. J. († 1667), Disputationes theologicae in Summam S. Thome, Antuérpia, 1643-1655 ; Lyon, 1644-1669 ; Isaac Habert, bispo de Vabres († 1668), De la chaire et de la primauté unique de saint Pierre, Paris, 1645 ; Theologiae graecorum Patrum vindicatae circa universam materiam gratiae, Paris, 1647 ; Wurzburgo, 1863 ; Francisco Annat, S. J.
(† 1670), Opuscula theologica ad gratiam spectantia, Paris, 1666 ; Boaventura de Santa Ana, carmelita († 1667), Propugnata auctoritas summi pontificis, Metz, 1658 ; Domingos de São Tomás, O. P. († 1671), Summa theologiae seu tirocinium theologiae, compreendendo toda a teologia especulativa e a teologia moral, Lisboa, 1670 ; Maurício de Lezana, O. P. († 1668), Commentaria in Iam partem S. Thomae, Madrid, 1668 ; Pedro de Godoy, O. P. († 1677), Disputationes theologicae, sobre toda a Suma teológica de são Tomás, Veneza, 1686 ; João Ferrier, S. J. († 1674), publicou em francês várias obras de polêmica contra os jansenistas ; Cristóvão Vega, S. J. († 1672), Theologia mariana, Lyon, 1653 ; Nápoles, 1866 ; Gabriel de São Vicente, O. C. († 1671), Commentaria in universam Summam S. Thomae, Roma, 1656-1666 ; Mastrio de Meldola, O. M. († 1673), Disputationes theologicae in IV libros Sententiarum ad mentem Duns Scoti, Veneza, 1655-1664 ; Hipólito Maracci († 1675), da congregação dos clérigos regulares da Mãe de Deus, Bibliotheca mariana alphabetico ordine digesta, Roma, 1648 ; Agostinho Gibbon, O. S. A. († 1676), Speculum theologicum seu theologia scholastica ad mentem S. Thomae, com vários opúsculos contra Lutero, Coimbra, 1740-1745 ; Vicente Contenson, O. P. († 1674), Theologia mentis et cordis, Lyon, 1673-1676 ; Paris, 1875 ; Pedro Labat, O. P. († 1670), Theologia scholastica secundum illibatam S. Thomae doctrinam, Toulouse, 1658-1661 ; Leão Allatius († 1669), De Ecclesiae occidentalis atque orientalis perpetua consensione libri III, Colônia, 1648 ; De utriusque Ecclesiae occidentalis atque orientalis perpetua in dogmate de purgatorio consensione, Roma, 1655, e vários outros opúsculos de polêmica com os gregos cismáticos ; Filipe da Santíssima Trindade, O. C. († 1671), Summa theologiae thomisticae seu disputationes in omnes partes Summae S. Thomae, Lyon, 1653 ; João Nicolai, O. P. († 1673), Judicium seu censorium suffragium de propositione Antonii Arnaldi com Theses theologicae de gratia, Paris, 1656 ; Apologia naturae et gratiae seu de concordia utriusque juxta mentem Augustini et Thomae, Bordeaux, 1665 ; Bernardo Guyard, O. P. († 1674), Discrimina inter doctrinam thomisticam et jansenianam, Paris, 1655 ; Francisco de Bonne-Espérance, O. C. († 1677), Commentarii tres in universam theologiam scholasticam, Antuérpia, 1662 ; Guilherme Herinckx, O. M. († 1678), Universa theologia ad mentem sanctorum Augustini et Thomae, Lille, 1678 ; Adriano († 1699) e Pedro († 1675) van Walenburch, Tractatus generales de controversiis fidei, Colônia, 1670 ; Vicente Ferre, O. P. († 1682), Tractatus theologici, sobre a IIIe da Suma de são Tomás ; Jaime Platel, S. J. († 1681), Synopsis cursus theologici, Douai, 1661 ; João Batista Gonet, O. P. († 1681), Clypeus theologiae thomisticae, Antuérpia, 1744 ; Manuale thomistarum, Antuérpia, 1736 ; Antônio Goudin, O. P. († 1695), Tractatus theologici juxta inconcussa tutissimaque dogmata divi Thomae, Colônia, 1723 ; Lovaina, 1874 ; Nicolau Arnu, O. P. († 1699), Divi Thomae Aquinatis divinae voluntatis et sui ipsius in Summa theologiae fidissimus interpres, Pavia, 1691 ; Domingos da Santíssima Trindade, O. C. († 1687), Bibliotheca theologica, Roma, 1665-1676 ; Celestino Sfondrati, O. S. B. († 1696), cardeal, Regale sacerdotium romano pontifici assertum, contra os quatro artigos da declaração do clero galicano de 1682, Salzburgo, 1684 ; Nodus praedestinationis ex sacris litteris doctrinaque sanctorum Augustini et Thomae, quantum homini licet, dissolutus, Roma, 1697 ; Bonifácio Maria Grandi, O. P. († 1692), Cursus theologicus, compreendendo os principais tratados teológicos na ordem da Suma de são Tomás, Ferrara, 1692 ; Veneza, 1697 ; Silvestre Mauri, S. J. († 1687), publicou, além de suas obras filosóficas, Opus theologicum, tratando das principais questões da teologia, Roma, 1687 ; Quaestionum theologicarum libri VI, Roma, 1676-1679 ; Martinho de Esparsa, S. J. († 1689), Cursus theologicus, segundo a ordem da Suma de são Tomás, Lyon, 1666 ; De virtutibus theologicis, Roma, 1673. Mencionaremos aqui o Cursus theologicus, publicado por carmelitas de Salamanca de 1630 a 1701, reeditado em Paris, 1870-1883. Antônio da Mãe de Deus († 1641) compôs os tratados De Deo ; De Trinitate ; De angelis ; Domingos de Santa Teresa († 1654), De ultimo fine ; De virtutibus et peccatis ; João da Anunciação († 1701), De gratia ; De virtutibus theologicis ; De incarnatione ; De sacramentis ; De eucharistia ; o De poenitentia foi sucessivamente obra de Antônio de São João Batista († 1699), de Afonso dos Anjos († 1724) e de Francisco de Santa Ana († 1707). João Tomás de Rocaberti († 1699), O. P., De romani pontificis auctoritate, Valência, 1691 ; Agostinho Reding, O. S. B. († 1692), Theologia scholastica universa, Einsiedeln, 1687, e várias dissertações polêmicas dirigidas contra os galicanos ou contra os jansenistas ; Lourenço Brancati de Lauria, O. M. († 1693), cardeal, Commentaria in IIIum et IVum librum Sententiarum doctoris subtilis, Roma, 1653 ; Opuscula tria de Deo quoad opera praedestinationis, reprobationis et gratiae actualis, Roma, 1687 ; Luís Thomassin, do Oratório († 1695), Dogmata theologica, Paris, 1680 ; João Batista Duhamel († 1706), Theologia speculatrix et practica juxta sanctorum Patrum dogmata pertractata, Paris, 1689 ; Antonino Massoulié, O. P. († 1706), Divus Thomas sui interpres de divina motione et libertate creata, de divina notione in ordine supernaturali seu de divinis auxiliis, Roma, 1692 ; Juénin, do Oratório († 1707), Commentarius historicus et dogmaticus de sacramentis in genere et in specie, Lyon, 1696 ; Institutiones theologicae ad usum seminariorum, Lyon, 1694 ; notemos que esta última obra foi posta no índice donec corrigatur por decreto do Santo Ofício de 22 de maio e de 17 de julho de 1708 ; Cláudio Frassen, O. M. († 1711), DICT. DE THEOL. CATHOL. Scotus academicus seu universa doctoris subtilis dogmata, Paris, 1672 ; Roma, 1721 ; Francisco Henno, O. M. († 1713), Theologia dogmatica, moralis et scholastica, Veneza, 1719 ; Gaetano Félix Verano, da ordem dos teatinos († 1713), Theologia polemica seu vindiciae Ecclesiae catholico-romanae, cujus prerogativae, numina, leges, dogmata, ritus asseruntur et propugnantur contra judeos, schismaticos, hereticos, atheos, Augsburgo, 1719 ; Carlos Witasse, doutor da Sorbonne († 1716), De Deo uno et trino ; De incarnatione, Paris, 1722 ; De augustissimo altaris sacramento, 1720 ; De sacramento poenitentiae, 1717 ; De sacramento ordinis, 1717. Deve-se observar que Witasse é um adversário da bula Unigenitus e que suas obras publicadas depois de sua morte tiveram, por essa razão, de sofrer modificações ; Antônio Boucat, da ordem dos mínimos († 1718), Theologia Patrum dogmatico-scholastico-positiva ; Libério de Jesus, O. C. († 1719), Controversiae dogmaticae adversus hereses utriusque orbis occidentalis et orientalis, obra completada após a morte de Libério por seu confrade João Francisco de Santa Maria Madalena, 8 in-fol., Milão, 1743-1754 ; Francisco Palanco, mínimo († 1720), Opera theologica ad mentem S. Thomae, Madrid, 1706-1731 ; Pedro Annat, da congregação dos clérigos da doutrina cristã († 1715), Apparatus ad positivam theologiam methodicus, Wurzburgo, 1726, edição corrigida ; esta obra foi posta no índice por decreto de 12 de setembro de 1724, donec corrigatur ; Noel Alexandre, O. P. († 1724), Theologia dogmatica et moralis secundum ordinem Catechismi concilii tridentini, Paris, 1703, edição revista e completada ; Jerônimo de Montefortino, O. M. († 1728), publicou, sobre o plano da Suma teológica de são Tomás, uma Suma na qual condensou toda a doutrina de seu mestre Duns Escoto, Roma, 1728-1738 ; João Jacques Scheffmacher († 1733), Lettres d'un docteur allemand de l'université catholique de Strasbourg à un gentilhomme et à un magistrat protestants, Estrasburgo, 1733 ; o cardeal Cienfuegos († 1739), Aenigma theologicum seu potius aenigmatum et obscurissimarum quaestionum compendium, Viena, 1717 ; Vita abscondita sub speciebus eucharisticis velata, Roma, 1728 ; Carlos du Plessis d'Argentré, bispo de Tulle († 1740), Elementa theologica in quibus de auctoritate et pondere cujuslibet argumenti theologici disputatur, Paris, 1702 ; Appendix posterior ad elementa in quaestionem de auctoritate Ecclesiae, Paris, 1705 ; Collectio judiciorum de novis erroribus, Paris, 1733-1736 ; Analyse de la foi, et Traité de l'Eglise, contra Jurieu, Lyon, 1699 ; Luís Maria Lucini, O. P. († 1745), Romani pontificis privilegia, adversus novissimos errores vindicata, Veneza, 1734 ; Henrique de Thyard de Bissy, bispo de Meaux e cardeal († 1737), Traité théologique sur la bulle Unigenitus, Paris, 1722 ; Mateus Petitdidier, O. S. B. († 1727), Traité de l'infaillibilité du pape, Luxemburgo, 1724 ; Dissertation historique et théologique dans laquelle on examine quel a été le sentiment du concile de Constance et des principaux théologiens qui y ont assisté, sur l'autorité du pape et sur son infaillibilité, Luxemburgo, 1724 ; Honoré Tournely, doutor da Sorbonne († 1729), adversário declarado do jansenismo, Praelectiones theologicae, Paris, 1725 ; Paulo Gabriel Antoine, S. J. († 1743), Theologia universa speculativa et dogmatica, Pont-à-Mousson, 1723 ; Paris, 1742 ; Maguncia, 1765-1769 ; João Preigné, O. P. († 1752), Theologia speculativa et moralis, Gante, 1745-1747 ; Carlos René Billuart, O. P. († 1757), Summa S. Thomae hodiernis academiarum moribus accommodata sive cursus theologiae universalis, Liège, 1746-1751, frequentemente reeditado ; Vicente Gotti, O. P. († 1750), cardeal, Theologia scholastico-dogmatica juxta mentem D. Thomae, compreendendo toda a Suma de são Tomás, Bolonha, 1727-1735 ; Veneza, 1750 ; Carlos Merlin, S. J. († 1747), Traité historique et dogmatique sur les paroles ou les formes des sacrements de l'Eglise, Paris, 1745 ; René Hyacinthe Drouin, doutor da Sorbonne († 1742), De re sacramentaria contra perduelles hereticos, Veneza, 1737 ; Paris, 1773 ; Tomás de Charmes, capuchinho († 1765), Theologia universa, frequentemente reeditada ; João Lourenço Berti, O. S. A. († 1766), De theologicis disciplinis, Roma, 1739-1745 ; Veneza, 1750, e várias dissertações teológicas ; Carlos Chardon, O. S. B. († 1771), Histoire des sacrements, ou de la manière dont ils ont été célébrés et administrés dans l'Eglise et de l'usage qu'on en a fait depuis le temps des apôtres jusqu'à présent, Paris, 1745 ; Bernardo Maria de Rubeis, O. P. († 1775), De peccato originali, Veneza, 1757 ; Wurzburgo, 1857 ; De caritate virtute theologica, Veneza, 1757 ; os três jesuítas Henrique Kilber († 1783), Tomás Holtzclau († 1783) e Inácio Neubauer († 1795) compuseram a obra teológica intitulada : Theologia dogmatica, polemica, scholastica et moralis, Wurzburgo, 1766-1771 ; Paris, 1852-1854 ; João Crisóstomo Trombelli († 1784), De cultu sanctorum dissertationes X, Bolonha, 1751 ; Tractatus de sacramentis per polemicas et liturgicas dissertationes distributi, Bolonha, 1768-1783 ; Herman Scholliner, O. S. B. († 1795), Ecclesiae orientalis et occidentalis concordia in transubstantiatione, Ratisbona, 1756 ; Praelectiones theologicae, Augsburgo, 1769 ; De hierarchia Ecclesiae catholicae dissertationes II, Ratisbona, 1757 ; José Kleiner, S. J. († 1786), Opuscula critica contra Febronii librum singularem, Heidelberg, 1765 ; Orthodoxa de necessitate baptismi parvulorum doctrina, Heidelberg, 1765 ; Silvestre Bergier († 1790), Dictionnaire théologique, Paris, 1788, frequentemente reeditado ; João Batista Molinelli, da congregação das escolas pias († 1799), Del primato del Apostolo S. Pietro e dei romani pontefici suoi successori, Roma, 1784 ; Pedro Maria Gazzaniga, O. P. († 1799), Praelectiones theologicae, Viena, 1775-1779 ; Segismundo Gerdil, barnabita († 1802), cardeal, De pontificii primatus auctoritate in Petri cathedra, Roma, 1803 ; De sacri regiminis ac praesertim pontificii primatus proprio ac singulari jure, Roma, 1808 ; De Ecclesia ejusque notis, e vários opúsculos sobre o breve apostólico que condena Febrônio e sobre a bula Auctorem fidei que reprova os jansenistas de Pistoia ; João Vicente Bolgeni, S. J. († 1811), Esame della Vera idea della santa sede, Macerata, 1785, obra seguida de algumas respostas complementares ; Della carita o amor di Dio, Roma, 1788, e dois opúsculos destinados a explicar sua opinião particular sobre o motivo da caridade ; Afonso Muzzarelli, S. J. († 1813), Infaillibilité du pape prouvée par les principes mêmes et le sentiment universel de l'Eglise gallicane, Avignon, 1826 ; De auctoritate romani pontificis in conciliis generalibus, Gante, 1815 ; Muzzani, S. J. († 1813), Il dogma catholico della spirituale autorità della Chiesa, Veneza, 1800 ; Della assoluzione sacramentale, 1801 ; Del motivo formale e adeguato del dolor di attrizione, 1802 ; Dissertazioni teologiche sopra le più gravi e importanti controversie a giorni nostri suscitate, 1803, e alguns outros opúsculos teológicos ; João Adão Moehler († 1838), Die Einheit der Kirche oder das Princip des Katholicismus, Tubinga, 1825 ; Symbolik oder Darstellung der dogmatischen Gegensätze der Katolischen und Protestanten nach ihren öffentlichen Bekenntnisschriften, 1832, sucessivamente aperfeiçoado nas edições seguintes, traduzido em várias línguas e completado por Neue Untersuchungen der Lehrgegensätze zwischen den Katholiken und Protestanten, Maguncia, 1834, e várias dissertações teológicas ; Henrique Klee († 1840), Lehrbuch der Dogmengeschichte, Maguncia, 1832 ; System der katholischen Dogmatik, Bonn, 1837 ; Encyclopädie der Theologie, Maguncia, 1832 ; Katholische Dogmatik, 1834, 1861 ; Bruno François Léopold Liebermann, Institutiones theologicae, Maguncia, 1819-1827, frequentemente reeditado ; Francisco Patrício Kenrick, arcebispo de Baltimore († 1863), Theologia dogmatica, Malinas, 1858 ; Primacy of the apostolic See vindicated, Filadélfia, 1845 ; Alberto de Bulsano (Knoll), capuchinho († 1863), Institutiones theologiae theoreticae seu dogmatico-polemicae, Turim, 1853 ; Innsbruck, 1898 ; Nicolau Wiseman, arcebispo de Westminster e cardeal († 1865), Twelve lectures on the connection between science and religion, Londres, 1861 ; Lectures on the catholic doctrine, 1836 ; Strictures on the High Church movement in Oxford, 1838 ; Lectures on the real presence of Jesus Christ in the Blessed Eucharist, 1842 ; Lectures on the catholic Church, 1844 ; Clemente Schrader, S. J. († 1875), além de vários opúsculos teológicos, publicou De unitate romana, Friburgo, 1862 ; Viena, 1866 ; João Batista Malou, arcebispo de Malinas († 1864), L'immaculée conception de la bienheureuse vierge Marie considérée comme dogme de foi, Bruxelas, 1857 ; Maria Aquiles Ginoulhiac, arcebispo de Lyon († 1875), Histoire du dogme catholique pendant les trois premiers siècles de l'Eglise et jusqu'au concile de Nicée, Paris, 1852 ; João Perrone, S. J.
(+ 1876), Prelectiones theologicæ, Roma, 1835-1842, muitas vezes reeditado; De virtutibus fidei, spei et caritatis, Ratisbona, 1865, e vários opúsculos ou dissertações teológicas notadamente sobre a imaculada conceição e sobre a infalibilidade do papa; De matrimonio christiano, Roma, 1858; Edgard Edmond Estcourt († 1848), The question of anglican Ordinations discussed, Londres, 1873; Raphael Cercia, S. J. († 1886), De Ecclesia, Nápoles, 1849; De romano pontifice, 1850; De gratia Christi, Nápoles, 1853; De sanctissimo Trinitatis mysterio, Nápoles, 1880; Charles Passaglia († 1887), De prerogativis B. Petri, Ratisbona, 1850; Commentariorum theologicorum partes tres, Roma, 1850; De Ecclesia Christi, Ratisbona, 1853; De æternitate pœnarum deque igne inferno, 1854; De immaculato Deiparæ semper virginis conceptu, Roma, 1854; Mathias Joseph Scheeben († 1888), Handbuch der katholischen Dogmatik, Friburgo em Brisgóvia, 1873-1887, obra que deixou inacabada; Joseph Antoine Schwane († 1891), além de vários opúsculos de polêmica teológica, publicou Dogmengeschichte, Munster, 1862-1869; Friburgo, 1880-1891; a 2ª edição foi traduzida para o francês pelo abade Dégert; Jean-Baptiste Vincent Heinrich († 1891), Dogmatische Theologie, Mogúncia, 1873; obra continuada, após a morte do autor, por Gutberlet; Joseph Kleutgen, S.J. († 1883), Die Theologie der Vorzeit vertheidigt, Munster, 1853; De romani pontificis suprema potestate docendi disputatio theologica, Nápoles, 1870; Théodore de Régnon, S. J. († 1893), Études de théologie positive sur la sainte Trinité, Paris, 1892; Jean Franzelin, S.J. († 1886), cardeal, De divina traditione et Scriptura, Roma, 1870, reeditado várias vezes; De Deo uno secundum naturam, 1870; De Verbo incarnato, 1870, 1881; De sacramentis in genere, 1868, 1878; De sanctissimo eucharistiæ sacramento et sacrificio, 1868, 1878; De Ecclesia Christi, obra póstuma, 1887.
Notemos, ao terminar esta lista necessariamente sumária, que todos os detalhes referentes às obras dos teólogos que mencionamos foram ou serão expostos em cada um dos artigos especiais sobre esses diversos autores. Quisemos dar aqui apenas um golpe de vista de conjunto, permitindo ao leitor fazer ele mesmo, com o auxílio das monografias particulares, uma síntese interessante e útil. Desejamos também observar que muitos autores ou escritores, que não podem tomar lugar numa classificação necessariamente restrita aos autores exclusiva ou principalmente dogmáticos, não devem, contudo, ser negligenciados, se se quer ter uma ideia bem exata do movimento teológico numa época dada; tais foram, por exemplo, Bossuet e Fénelon no século XVII particularmente do ponto de vista da teologia polêmica, e o cardeal Pie no século XIX, pela exposição do dogma católico em face dos grandes erros contemporâneos.
3° Período posterior ao concílio do Vaticano. — Não tentaremos dar aqui um esboço, ainda demasiado prematuro, desse período que se anuncia como uma época de sábia e fecunda renovação escolástica, ao mesmo tempo que de intenso desenvolvimento da teologia positiva. Esse movimento, fortemente encorajado e sabiamente dirigido pela Igreja, promete resultados muito felizes para a defesa da verdade católica e para o verdadeiro progresso da ciência teológica. Ao mesmo tempo que se aperfeiçoam os instrumentos de trabalho por meio de edições mais críticas de obras antigas e de vastos e completos repertórios das ciências teológicas, mostra-se maior atenção em resolver as dificuldades bíblicas, históricas ou filosóficas levantadas contra os dogmas católicos. Resultados notáveis já foram obtidos por esse trabalho constantemente sustentado em numerosas obras ou opúsculos teológicos e em numerosas revistas teológicas recentemente criadas em quase todos os países. Os artigos especiais sobre a Alemanha católica e sobre a Bélgica já deram a conhecer os principais trabalhos dogmáticos recentemente realizados nesses países. Informações complementares serão fornecidas por artigos semelhantes sobre os outros países. Aliás, o conjunto das monografias dogmáticas já publicadas neste dicionário tornou bem familiares a todos os leitores os nomes dos principais representantes da teologia dogmática no período contemporâneo.
VI. A DOGMÁTICA E O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO. — Os princípios expostos no artigo DEPÓSITO DA FÉ e os que desenvolveremos no artigo DOGMA autorizam-nos a formular aqui as duas conclusões seguintes: 1° Em virtude de seu tríplice direito exclusivo de guardar integralmente o depósito da fé, de defendê-lo eficazmente contra os erros novos e de declarar autenticamente o seu conteúdo integral na medida necessária ou útil para o bem espiritual dos fiéis, a Igreja possui igualmente o direito exclusivo de vigiar e dirigir o ensino dogmático dos teólogos, para afastar dele o que está em desacordo com a verdade revelada, ou para declarar e interpretar o que exige imperiosamente essa mesma verdade ou pelo menos o que é melhor para a sua defesa. Esse direito estrito da Igreja impõe aos teólogos dogmáticos o dever rigoroso de se submeterem a todas as decisões doutrinais da Igreja, não somente àquelas que se referem diretamente ao depósito da fé e que definem infalivelmente o que se deve ter por revelado, mas ainda àquelas que, dizendo respeito ao depósito da fé de maneira apenas indireta, definem o que se deve necessariamente admitir sobre esse ponto, ou pelo menos indicam o que se deve rigorosamente preferir como se harmonizando melhor com o ensino revelado ou como mais útil para a sua defesa. Essa estrita obrigação é claramente formulada em toda a sua amplitude por Pio IX, no breve ao arcebispo de Munique de 21 de dezembro de 1863. Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 1683 sq.
2° De fato, é fácil constatar historicamente que as intervenções doutrinais do magistério eclesiástico foram eminentemente úteis à teologia dogmática, para premuni-la contra as seduções do erro, por vezes até mesmo para livrá-la de algum arrastamento perigoso, e sobretudo para ajudar eficazmente o seu progresso constante no conhecimento ou na enunciação dos dogmas e nas conclusões que se pode legitimamente deles deduzir. É isso que mostraremos particularmente no artigo seguinte, analisando o progresso dogmático realizado no decorrer dos séculos cristãos. Os eminentes serviços assim prestados à teologia dogmática pelo magistério eclesiástico aparecem ainda muito mais manifestos quando se compara a história da dogmática católica com a das seitas heréticas ou cismáticas, incapazes de se defenderem contra os múltiplos ataques do racionalismo, por estarem privadas da salutar e eficaz direção que somente a autoridade doutrinal da Igreja pode dar. Quanto à bibliografia, pode-se consultar as numerosas obras indicadas no decorrer deste artigo.
Autor original: E. Dublanchy
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