DIONÍSIO, O CARTUXO

DIONÍSIO, O CARTUXO

DIONÍSIO O CARTUXO. — I. Vida. II. Obras. III. Apreciação. IV. Nova edição de suas obras.

I. Vida. — Dionísio, chamado o doutor extático, nasceu em 1402, em Ryckel, no Limburgo belga, de honrada família de Leeuvis ou Van Leeuven. Fez seus primeiros estudos na escola de Saint-Trond e, aos treze anos, passou, como ele mesmo nos informa, para a de Zwolle, que era então, sob a direção de João Cele, a mais célebre e a mais frequentada dos Países Baixos. Dionísio teria desejado deixar o mundo sem tomar seus graus em uma universidade. Apresentou-se primeiramente à cartuxa de Zelhem, perto de Diest, no Brabante, mas não foi aceito, por ainda não ter atingido a idade de 20 anos exigida pela regra. Dirigiu-se em seguida ao prior da cartuxa de Ruremonde, que lhe aconselhou ir aperfeiçoar-se em filosofia e teologia na universidade de Colônia e depois voltar para abraçar a vida do claustro. O jovem postulante aquiesceu e, depois de ter sido aprovado mestre em artes, voltou a Ruremonde e ali foi admitido entre os filhos de são Bruno. Tinha vinte e um anos.

— Sua vida monástica resume-se nestas três ocupações: oração, leitura, composição de livros ou tratados. Passava quase a metade de cada dia orando, meditando e contemplando. O resto de seu tempo era empregado quase inteiramente no estudo. Dormia pouco, jejuava muito e raramente saía de sua cela, abstendo-se até de tomar parte nas recreações de seus confrades. Em 1434, compôs sua primeira obra, o comentário sobre os Salmos; seu último livro data de 1469: é uma coletânea de meditações que dedicou a seus confrades como seu testamento e sua recomendação suprema. Assim, Dionísio viveu quase sempre encerrado em sua cela. Exerceu por algum tempo o ofício de procurador de seu convento e o de reitor da nova cartuxa de Bois-le-Duc.

O cardeal Nicolau de Cusa, grande admirador de seus talentos, quis tê-lo perto de si em sua legação na Alemanha (1451-1452) para trabalhar na reforma do clero e dos mosteiros. Grande número de prelados eclesiásticos o consultavam em suas dúvidas. Os príncipes e as princesas, o clero secular, os religiosos e muitos cristãos de todas as condições lhe pediam conselhos e regras de conduta. Era também tido em grande estima na corte romana.

Conta-se que Eugênio IV, depois de ler uma de suas obras, exclamou: Laetetur mater Ecclesia, quae talem habet filium! O sucessor de Eugênio, Nicolau V, aceitou de bom grado a homenagem do tratado Contra Alcoranum, que Dionísio compusera a pedido do cardeal Nicolau de Cusa. Depois de ter recebido uma revelação celeste, o venerável solitário dirigiu uma carta a todos os príncipes da cristandade para os exortar a reformar os costumes de seus povos e a se unirem em uma nova cruzada contra os sarracenos, que ameaçavam toda a Europa.

Dionísio morreu em 12 de março de 1471, aos 69 anos de idade.

Depois de sua morte, seu rosto adquiriu uma beleza notável, e um perfume celeste se espalhou por sua cela. A voz do povo não tardou em proclamar sua santidade. Seu túmulo tornou-se logo o centro de uma pequena peregrinação. Na região, muitos fiéis asseguravam ter recebido de Deus, por sua intercessão, graças milagrosas. Essa espécie de culto persistiu nos Países Baixos, apesar das turbulências e transtornos dos Gueux.

Em 12 de março de 1608, 137º aniversário da morte de Dionísio, encontraram-se no cemitério da cartuxa seus ossos muito bem conservados. O crânio exalava um odor suave, e os dois dedos da mão direita, que, durante 35 anos, haviam segurado a pena tão piedosa e tão fecunda do escritor, ainda conservavam suas carnes e seus tegumentos.

Dom Henrique Cuijck, bispo de Ruremonde, fez nessa ocasião o reconhecimento oficial dos restos do servo de Deus, e ordenou que fossem colocados na igreja do mosteiro, atrás do altar-mor.

Um ano antes, o mesmo prelado, para testemunhar sua devoção a Dionísio o Cartuxo, mandara restaurar às suas custas e consagrar, sob a invocação de são Dionísio Areopagita, a pequena capela da santíssima Virgem, onde o venerável religioso costumava celebrar os divinos mistérios.

Cheio de zelo pela glorificação de seu ilustre diocesano, iniciou o processo canônico dos milagres que lhe eram atribuídos; mas sua morte e a publicação dos decretos de Urbano VIII interromperam o curso desse processo. Não obstante, a reputação de santidade de que gozava Dionísio o Cartuxo não cessou com essa suspensão. Seja na Bélgica, seja em outros lugares, dentro da ordem dos cartuxos e fora dela, continuou a ser objeto de uma religiosa veneração.

Personagens muito respeitáveis, entre os quais se contam são Francisco de Sales, santo Afonso de Ligório, Bento XIII, o jesuíta João Bolland, o bispo Du Saussay e Arnold Raissius, não hesitaram em conferir-lhe o título de santo ou de beato ou simplesmente de venerável. Há motivos para crer que em breve a Santa Sé permitirá o culto público deste grande teólogo, admirável por sua vasta erudição e pela heroicidade de suas virtudes.

II. Obras. — As obras de Dionísio formam uma verdadeira enciclopédia eclesiástica.

1° Exegéticas. — Escreveu comentários sobre todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, segundo o sentido literal e espiritual, seja alegórico seja tropológico. Os sete Salmos ditos penitenciais foram objeto de uma explicação particular.

Em um resumo de toda a Bíblia, Dionísio reuniu os fatos e as sentenças mais notáveis de nossos Livros sagrados.

No juízo de dom Calmet, o opúsculo intitulado: Monopanton, id est unum ex omnibus Epistolis B. Pauli ad materias certas contractum opusculum, «por mais pequeno que seja, leva grande vantagem sobre tudo o que fez Rikel (sic), tanto por causa de sua utilidade quanto porque é de uma composição toda singular. É uma coletânea das mais belas passagens do apóstolo são Paulo, dispostas sob certos títulos que ele escolheu para seu propósito; de sorte que, assim como as Epístolas do doutor das nações são um dos mais preciosos monumentos dos Livros sagrados, pode-se dizer também que esta coleção é de um valor infinito.» Dictionnaire de la Bible, 1788, t. IV, p. 356.

Este Monopanton é, em substância, o Codex Paulinus ou o sistema teológico de são Paulo. Foi publicado separadamente várias vezes, Antuérpia, s. d. e 1591; Colônia, 1531, etc. A parte exegética das obras de Dionísio se completa com estas três outras obras: o relato da paixão segundo os quatro evangelistas, o Sonus epulantis ou método para salmodiar devotamente, e uma explicação de certas passagens difíceis do livro de Jó intitulada: De causa diversitatis eventuum humanorum. Ver Denys le Chartreux no Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, no que diz respeito ao restante dos trabalhos escriturísticos deste escritor.

2° Filosóficas. — Dionísio compôs um resumo de filosofia, in-fol., Colônia, 1532, em Opera minora, t. I. Fez uma explicação literal e um comentário místico da obra de Boécio intitulada: De consolatione philosophiæ, Colônia, 1540, em Opera minora, t. II.

O opúsculo De venustate mundi et pulchritudine Dei, em Opera minora, t. II, é um verdadeiro e belo tratado de estética. O Dr. Zöckler, de Greifswald, em 1881, publicou em Gotha, na revista Studien und Kritiken, um estudo sobre este opúsculo e sobre todas as obras de Dionísio. Vários outros escritos filosóficos de Dionísio se perderam.

3° Teológicas. — Como teólogo, fez um grande e erudito comentário dos quatro livros das Sentenças, 4 in-fol., Colônia, 1535; Veneza, 1584. Por esta obra, tomou lugar entre os maiores escolásticos da Idade Média e os melhores intérpretes de Pedro Lombardo.

«Nada mais simples e ao mesmo tempo mais erudito. Sobre cada questão, Dionísio reproduz o texto do Mestre e dá alguns esclarecimentos. Em seguida, indica os diversos problemas que suscitou, e então começa a exposição concisa do que se disse antes dele sobre esse assunto; tudo termina com sua própria decisão, que ele justifica com tanta solidez quanto modéstia. É maravilha, diz o P. Cassani, de quem tomamos emprestado este juízo, vê-lo reproduzir fielmente em poucas linhas, como em uma bela miniatura, as opiniões de tantos doutores, sem nunca desnaturá-las nem omitir nada de essencial; e seu trabalho é uma verdadeira biblioteca teológica duplamente útil, porque põe diante dos olhos do leitor, em poucas páginas, sem fadiga e sem pesquisas, tudo o que lhe interessa encontrar sobre um dado assunto, e porque pode suprir a ausência de certo número de autores hoje raros e difíceis de encontrar.» Mougel, Denys le Chartreux, Montreuil-sur-Mer, 1896, p. 30-31.

«Não hesitamos, diz Werner, em colocar o comentário de Dionísio sobre as Sentenças, ao lado da obra de Capreolo, como o mais importante trabalho desta metade do século XV, e como o complemento essencial do de Capreolo. Enquanto este último nos oferece uma visão crítica de todas as doutrinas escolásticas posteriores a são Tomás, Dionísio nos mostra a escolástica especulativa do século XV em seus representantes mais consideráveis. Não conhecemos outra obra que dê, para todas as questões teológicas, informações tão aprofundadas sobre as ideias e as opiniões dos doutores dessa época. As citações numerosas e fiéis que ali se encontram permitiriam, por si sós, reconstituir, em suas linhas gerais, a doutrina teológica de cada um deles. Vê-se por aí qual é o valor desta obra para a história do dogma no século XIII; valor tanto mais apreciável quanto as obras de vários desses autores se encontram mais dificilmente. Ao aproximar, sobre cada questão particular, os modos de ver tão variados dos mais ilustres mestres desse período, ele nos dá, sobre a vida intelectual da época, luzes como não se encontram em nenhum outro lugar nos trabalhos modernos sobre a escolástica medieval. Resulta daí para este comentário um valor próprio, independente do juízo que se possa formar sobre as ideias pessoais de Dionísio.» Die Scholastik des späteren Mittelalters, Viena, 1887, t. IV, p. 261.

Depois de ter assim condensado em seu comentário sobre as Sentenças a doutrina dos intérpretes mais autorizados, Dionísio quis pôr ao alcance do maior número possível de estudantes uma outra obra clássica, cujo valor é inestimável. Compôs, pois, um resumo da Suma de são Tomás, reunindo todas as conclusões do doutor angélico, relatadas quase integralmente e classificadas segundo a ordem do texto original. É a medula, diz ele, das obras de são Tomás. Este compêndio apareceu sob o título: Summa fidei orthodoxæ, 2 in-4°, Colônia, 1535-1536; 2 in-8°, Paris, 1548; Antuérpia, 1569; Veneza, 1572 e 1585.

A propósito desta obra, dom Roberto Montagnani, cartuxo italiano, publicou no Divus Thomas, Piacenza (Itália), 1899, t. VI, p. 542-549, um estudo intitulado: Doctor angelicus et doctor ecstaticus seu Manuale thomistarum.

Nas Opera minora, Colônia, 1532, t. I, encontra-se Elementatio theologica, que é também um resumo de teologia, dividido em 159 artigos. Ainda não se reencontrou um resumo da Suma de Guilherme de Auxerre, que tem por título: Exhelcosis ex Summa G. Antisiodorensis. Em 1532, os cartuxos de Colônia reuniram num só volume, que apareceu no ano seguinte, in-8, os dois livros da Suma de Denys sobre os vícios e as virtudes, o tratado das paixões da alma e o livro da felicidade da alma. Vários outros tratados teológicos notáveis foram inseridos nos dois primeiros tomos das Opera minora, Colônia, 1532. Pode-se assinalar no I os que tratam da natureza de Deus, dos dons do Espírito Santo, da munificência divina e de seus benefícios, da distância entre a perfeição divina e a perfeição humana, do conhecimento mútuo dos santos no céu e um livro dos louvores de Deus em estrofes. Cf. Mougel, op. cit., p. 32, nota 3. No t. II, encontra-se o opúsculo De lumine christianæ theoriæ, que Zöckler, crítico protestante, considerava como «o mais importante e o mais sistemático dos escritos dogmáticos do sábio cartuxo.» O mesmo tomo compreende também o estudo teológico da dependência das criaturas em relação a Deus, e um outro livro dos louvores de Deus, escrito nessa prosa homofônica comum a vários outros escritos da Idade Média, notadamente à Imitação. Cf. Mougel, ibid. Mas o valor desses dois tomos é realçado pelos dois grandes tratados que Denys escreveu sobre a Santíssima Virgem, e que intitulou: De laudibus gloriosæ Virginis Mariæ e De præconio et dignitate beatissimæ Virginis Mariæ. Cada tratado é dividido em quatro livros. O piedoso escritor condensou aí tudo o que há de mais científico na teologia mariana e, ao mesmo tempo, derramou toda a afeição de seu coração inflamado de amor pela mais nobre das puras criaturas. Nele sustenta a imaculada conceição, l. I, a. 13. O primeiro tratado, De laudibus, foi traduzido para o flamengo pelo abade Leijnen, Hasselt, 1852; Bois-le-Duc, 1867. Quanto à imaculada conceição, cumpre notar este texto do diálogo De perfectione caritatis, a. 49: Ave Maria... originale peccatum nunquam contraxisti, quemadmodum et peccatum actuale nullum commisisti. Outro assunto em que Denys se destacou foi o estudo da divina pessoa de Jesus Cristo e de seus adoráveis mistérios. Tinha por princípio que «a glória e a sabedoria do cristão consistem na lembrança permanente de Jesus Cristo e de seus mistérios.» De meditatione, a. 10. Ora, todas as suas obras estão repletas de meditações, de afeições, de ensinamentos e de comentários sobre esse sublime assunto. A explicação dos quatro Evangelhos e de todos os livros do Novo Testamento, tantas vezes reimpressa no século XVI, não bastava ao piedoso intérprete. Comentou de novo a paixão, e seu trabalho foi inserido no t. I de seus Sermões. Escreveu também um livro intitulado: Laudes sive Horæ passionis amarissimæ Jesu Christi e o Inflammatorium divini amoris, que se encontram nas Opera minora, t. I. O Inflammatorium foi impresso separadamente, in-16, Colônia, 1605, e faz também parte de uma coletânea de opúsculos de Denys traduzidos para o italiano pelo abade Jean-Antoine Cazzulo, in-8°, Milão, 1563. O santo sacrifício do altar completa a obra de Nosso Senhor: Denys não deixou de se ocupar dele particularmente em várias de suas obras.

O Dialogus de celebratione et sacramento altaris é um livro solidamente piedoso que, segundo dom Thierry Loher, primeiro editor das obras completas de Denys, todo sacerdote desejoso de celebrar com fervor deveria conhecer, aprofundar e ter frequentemente nas mãos. Encontra-se no t. 1 das Opera minora, que contém também a Explicação da missa, o tratado De sacra communione frequentanda e seis sermões sobre a eucaristia. A teologia polêmica foi também objeto de vários estudos de Denys. Assim, o De fide catholica dialogion, in-8°, Colônia, 1534; Veneza, 1568, trata em oito livros das principais questões sobre a revelação, Deus, Jesus Cristo, a Santíssima Virgem, os anjos bons e maus, o juízo geral, o Anticristo, etc. Compôs também cinco livros Contra Alcoranum et sectam Mahometicam, in-8°, Colônia, 1533, e lamenta-se a perda de seu tratado Contra artes magicas et errores Waldensium. Nas Opera minora, Colônia, 1582, e nos Opuscula insigniora, Colônia, 1559, foram inseridos os dois livros contra a simonia, sobretudo na recepção dos noviços, os tratados Contra ambitionis pestem e Contra vitia superstitionum, e a carta endereçada a uma viúva Adversus avaritian. As circunstâncias particulares em que se encontrou Denys, sobretudo como conselheiro do cardeal-legado, e a confiança que se tinha em sua sabedoria e em sua piedade lhe deram ocasião de escrever tratados sobre quase todos os estados que compõem a sociedade tanto eclesiástica quanto secular. Sua obra sobre a reforma da Igreja está perdida, mas seu zelo pela salvação das almas se manifesta em todas as ocasiões em que ele pode engajar seus leitores a orar e a fazer penitência pelo bem da santa Igreja. Cf. De meditatione, a. 14; suas Revelações e sua Epistola ad principes catholicos para exortá-los a uma cruzada contra os muçulmanos. Escreveu dois livros, que tratam da autoridade, do ofício, do poder e da jurisdição do sumo pontífice; em outro livro, ocupa-se especialmente da questão que, em sua época, isto é, pouco tempo depois dos concílios de Constança e de Basileia, apaixonava todos os espíritos. É o tratado De auctoritate generalium conciliorum, que se encontra com os dois livros acima mencionados no t. 1 das Opera minora. A doutrina que Denys expõe nesse tratado foi diversamente julgada. Os gersonianos pretendem que ele foi partidário da opinião oposta ao privilégio da infalibilidade. Santo Afonso ensina que Denys não se exprimiu de maneira bem definida, pois no art. 48 diz que um papa, intolerabiliter vitiosus, está submetido à autoridade do concílio, e em seguida se contradiz afirmando que o papa, enquanto supremo pastor da Igreja, não pode ser julgado nem deposto por um concílio geral, porque, ut talis, é o superior, o prelado e o juiz da Igreja. Cf. Dissertat. de infallib. papæ et de auctorit. pontificis, na Theologia moralis, in-fol., Bolonia, 1763, t. 1, p. 37, 2ª col., n. 135. Segundo Zoeckler, Denys «entre os dois poderes em litígio busca uma espécie de acomodamento, e salvaguarda tanto quanto possível as prerrogativas do papa.» Cf. Mougel, op. cit., p. 33, nota 2. Pode-se notar o sermão de Denys sobre São Hilário de Poitiers, no qual, por falta de crítica histórica e sem distinguir entre o papa agindo como pessoa privada e o papa definindo uma doutrina ex cathedra, ele admite a queda do papa Libério e cita sem a contradizer a opinião de Gerson. Cf. Sermones de sanctis, in-fol., Colônia, 1542, fol. 87. Denys escreveu também um livro De officio legati, que não foi reencontrado, nem na coleção de manuscritos do cardeal Nicolau de Cusa conservada em Cues perto de Tréveris, nem em outro lugar. O tratado De vita et regimine præsulum apareceu em Colônia, em 1532 e 1559, nas Opera minora, t. 1, e nos Opuscula insigniora. Um outro tratado, De regimine prælatorum, foi publicado, in-16, em 1620, em Aschaffenbourg. O De officio, vita et regimine archidiaconorum, com o De statu et vita sacerdotum, canonicorum, clericorum aliorumque Ecclesiæ ministrorum fazem parte das coletâneas já citadas, Opera minora e Opuscula insigniora. Mais ainda, a doutrina exposta no livro De statu et vita sacerdotum, etc., foi julgada tão oportuna e útil que não se hesitou em imprimi-la já desde o início do século XVI. Cf. Panzer, Annales typog., t. VI, p. 439; t. VII, p. 212. Conhecem-se dela quatro edições sem data, uma dezena com datas certas e três traduções, uma inglesa, uma francesa e uma italiana. No art. 22 dessa obra, Denys declara que já havia escrito um tratado contra a pluralidade dos benefícios, qui modo a multis habetur, e sobre essa mesma matéria compôs um Diálogo entre o patrono e o cônego, que teve várias edições no texto original e uma tradução francesa pelo cartuxo dom Jean de Billy. Os diferentes tratados de Denys sobre o estado religioso, sobre a ordem dos cartuxos, sobre o governo civil, sobre o estado dos príncipes, sobre a vida militar, sobre a condição dos casados, das virgens, das viúvas, dos mercadores e dos escolares foram igualmente impressos várias vezes e traduzidos em diversas línguas. Cf. Mougel, op. cit., p. 79-84. Seu comentário sobre a regra da terceira ordem de São Francisco apareceu em Colônia, em 1537, em Nápoles, em 1619, e teve duas traduções francesas, in-18, Paris, 1620, 1868.

4° Sermões. — Os sermões de Denys são um verdadeiro tesouro de ciência eclesiástica. O sacerdote encontrará neles sempre instruções sólidas e piedosas, que pode adaptar seja ao ministério paroquial, seja às pregações nas casas religiosas. Contêm temas a desenvolver conforme as circunstâncias e sermões quase inteiramente prontos. A parte De tempore é mais extensa que a parte De sanctis, e o próprio Denys reconhece que ela é superabundante, in magnam, diz ele, nimis molem excrevit! Serm. de sanctis, pref. Ele dá primeiro a exposição da Epístola do domingo, seguida de um sermão sobre a Epístola, depois a do Evangelho, dois ou três sermões sobre o Evangelho ad plebem, e três ou quatro outros ad religiosos. Este grande repertório de materiais para o púlpito foi impresso três vezes em Colônia, 1533, 1537 e 1542, em 2 in-fol., e várias vezes em Paris. Uma seleção desses sermões traduzidos para o italiano encontra-se numa coletânea de sermões dos Padres da Igreja publicada em Florença nos últimos anos do século XVI.

5° Obras ascéticas. — Mas Denys, o Cartuxo, é sobretudo estimado como escritor ascético e doutor de teologia mística. A vida interior, mesmo em seus estados extraordinários, não tem segredos para ele. Seu vasto e profundo conhecimento da escolástica e de seus melhores intérpretes lhe forneceu o meio de abordar as questões mais difíceis, e de resolvê-las com autoridade. Sua alta virtude e sua experiência lhe permitiram aplanar os caminhos da santidade, e manifestar em linguagem exata como o homem deve se dispor à união eterna com Deus. Seu ensinamento encerra o período do ascetismo escolástico enxertado sobre o ascetismo dos santos Padres. Os grandes mestres que vieram depois dele não hesitaram em louvar suas obras e propô-las a seus discípulos como fontes puras e límpidas da piedade cristã. São Inácio, São Francisco de Sales, Santo Afonso de Ligório, Luís de Granada, Álvarez de Paz, o cardeal Brancati de Laurea, o cardeal Manning e muitos outros autores testemunham grandemente sua estima pelo piedoso solitário. Seus escritos espirituais mais importantes e mais conhecidos são os seguintes. Um comentário sobre todos os livros e cartas que os antigos atribuíam a São Dionísio Areopagita teve duas edições, in-fol., Colônia, 1536, 1556. Segundo o P. Cordier, jesuíta, essa interpretação é ao mesmo tempo muito erudita e muito piedosa. Cf. Migne, P. G., trad. latina apenas, t. III, col. 87-95. Denys simplificou o estilo dos doze livros e das vinte e quatro conferências de Cassiano: Translatio, diz ele no catálogo de seus escritos redigido em 1466, librorum Cassiani ad stilum facillimum. Ele não traduziu, portanto, essas obras, como se disse por engano, mas as tornou mais acessíveis à maioria dos leitores. Seu trabalho é notável pelas correções necessárias que fez ao que se diz sobre a mentira, na conferência XVII, c. VIII sq., e sobretudo ao que se afirma sobre o livre-arbítrio do homem, a necessidade da graça e sua concessão gratuita, na XIII conferência. Denys teve a habilidade de corrigir o texto dessas conferências modificando suas expressões, de sorte que elas contêm uma doutrina irrepreensível. Esse feliz arranjo foi adotado por todos os editores e tradutores das obras de Cassiano. P. L., t. XLIX. Os cartuxos de Colônia, em 1540, reuniram num só volume, que intitularam: Operum minorum tomus tertius, in-fol., o comentário de Denys sobre os livros de Boécio, a edição simplificada das obras de Cassiano e a explicação da Escada do paraíso de São João Clímaco. Dom Ceillier diz que o impressor basileense, Henri Petri, em 1559, reimprimiu in-fol. o trabalho de Denys sobre Cassiano. No catálogo das obras de Denys, redigido em 1466 por ele mesmo e conservado na biblioteca Bodleiana de Oxford, C. 564, encontra-se a menção impressus est após seu Speculum conversionis peccatorum, dyalogus. Seja qual for o valor dessa menção, é certo que esse opúsculo de Denys esteve em voga no século XV e depois. A edição de Alost remonta a 1473. É a mais antiga produção tipográfica belga conhecida. Cf. Grasse, Trésor de livres rares, t. II, p. 399. Outro opúsculo, intitulado: Speculum amatorum mundi, apareceu sem menção de data, de lugar nem de impressor, e foi frequentemente reimpresso. Esses dois tratados intitulados Espelhos, reunidos a vários outros opúsculos de Denys referentes à vida interior, tiveram grande sucesso durante o século XVI e a primeira metade do século seguinte. Várias vezes, foram unidos aos quatro livros da Imitação e a alguma outra obra espiritual com a menção ad christiani hominis vitam perfecte absoluteque formandam. Os opúsculos de Denys abrangem as três vias da perfeição, como se pode compreender por seus títulos: 1° De arcta via salutis et contemptu mundi; 2° Speculum amatorum mundi; 3° Liber de gravitate et enormitate peccati; 4° Liber de conversione peccatoris; 5° Liber de fonte lucis et semitis vitæ; 6° Liber devotum præcordiale prenotatus; 7° Dialogus patroni ad canonicum; 8° Ad mundi contemptum exhortatio elegiaca. O mais completo e mais sólido desses tratados é o livro De fonte lucis et semitis vitæ. É um verdadeiro manual de vida interior, do qual cada artigo contém a substância de um tratado. A primeira edição traz este título: Dionysii a Rykel Carthusiani de perfecto mundi contemptu ut pius ita utilissimus heptalogus, in-8°, Colônia, 1530; foi frequentemente reproduzida. Uma edição de Colônia, in-12, 1577, compreende os opúsculos assinalados acima pelos n. 1, 2, 6 e os dois livros intitulados De doctrina et regulis vitæ christianæ. A coletânea dos sete opúsculos foi traduzida para o francês, para o flamengo e três vezes para o italiano. Em 1534, os cartuxos de Colônia publicaram uma coletânea de opúsculos de Denys tratando da teologia afetiva e mística, sob este título: Opuscula aliquot quæ ad theoriam mysticam egregie instituunt, in-8°, Colônia, reimpresso em Montreuil-sur-Mer, in-12, 1898. Entre esses opúsculos há o tratado magistral, De contemplatione, dividido em três livros, nos quais o autor examina todas as questões filosóficas e teológicas cujo conhecimento é necessário para a teoria e a prática da contemplação. O l. II desse tratado relata, em onze artigos, a doutrina dos maiores doutores místicos sobre a contemplação e suas espécies. O l. III se ocupa especialmente da contemplação per abnegationem, isto é, a mais elevada e a mais perfeita, que é, segundo Denys, «o ato» do dom de sabedoria concedido no mais alto grau. Um bom juiz, o R. P. Meynard, dos frades-pregadores, tratando dos «princípios formais elicitivos da contemplação extraordinária», diz que «Denys, o Cartuxo, afirma essa doutrina em todos os seus escritos com uma lucidez, uma precisão e uma persistência que esclarecem e edificam ao mesmo tempo. Pode-se, com efeito, considerar esse grande doutor místico como o apóstolo do dom de sabedoria.» Traité de la vie intérieure, Paris, 1885, t. 1, p. 76-77. Essa mesma coletânea de opúsculos contém sábias e muito piedosas meditações sobre Deus, Jesus Cristo, a Santíssima Virgem, os anjos e os santos, que podem também servir de temas aos pregadores. Denys compôs um outro grande tratado, De oratione, no qual expõe a doutrina e a prática da oração enquanto pedido, louvor, ação de graças e meditação. Esta obra se encontra nas Opera minora, Colônia, 1532, t. 1, juntamente com os tratados: De remediis tentationum; De gaudio spirituali et de pace interna. Os editores desta grande coletânea de livros espirituais de Denys lhe atribuíram o tratado De via purgativa liber unus, que inseriram como complemento da doutrina do autor. Foi um engano. Esse opúsculo, que começa por estas palavras: Volens purgari de peccatis, etc., é do cartuxo dom Henri Eger, de Kalkar (+ 1408), e Denys, o Cartuxo, o cita no art. 33 de seu livro De laude vitæ solitariæ, onde o chama: Exercitium carthusianum. Em outros lugares, esse opúsculo traz títulos diferentes. Ver EGER. Mas Denys compôs um Exercitium de via purgativa, que foi impresso em Antuérpia por Gérard Leen, in-16, dezembro de 1492. Cf. Lambinet, Origine de l'imprimerie, t. I, p. 285. Um exemplar dessa edição é conservado na biblioteca da universidade de Cambridge, e o texto foi publicado novamente, in-18, Colônia, 1532. Em 1620, o cartuxo dom Théodore Petreius publicou em Aschaffenbourg um tratado de Denys intitulado: De discretione spirituum, que havia escapado aos editores de Colônia. Assim, a coleção das obras ascéticas e místicas de Denys foi oportunamente completada, e ela forma uma verdadeira biblioteca espiritual capaz de satisfazer a todas as exigências da direção de todos os estados da vida cristã. O R. P. Meynard, op. cit., t. 1, p. 411, faz este elogio da doutrina de Denys: «Citaremos também, diz ele, o mais frequentemente possível Denys, o Cartuxo, considerado com razão como um dos melhores intérpretes da doutrina de São Tomás em quase todas as questões da vida interior; a cada instante, este grande contemplativo faz empréstimos ao doutor angélico, e nunca avança pela via suave da teologia mística sem se ter apoiado no fundamento sólido da escolástica.»

Mencionaremos, para terminar, o tratado De quatuor hominis novissimis, com o apêndice De particulari judicio, que se encontra a ele anexado num número bastante grande de edições. Esse tratado, qualificado de excelente (optimus), de muito útil para bem se preparar para a morte, pelo P. Possevin, S. J., Apparatus sacer, Colônia, 1608, t. 1, p. 476-479, e alhures, De Mors, é também citado pelos redatores do Diretório dos exercícios de Santo Inácio (o qual foi aprovado em 1549 pela congregação geral da Companhia de Jesus), como podendo ser lido com proveito no decorrer da primeira semana. Reimpresso quase 40 vezes, traduzido várias vezes em diversas línguas: italiano, francês, espanhol, alemão, flamengo, não deixou de estar em uso, mesmo depois do grande número de tratados semelhantes publicados desde a morte de Denys. O cardeal Pecci, arcebispo de Perúgia, que mais tarde se tornou Leão XIII, lia dele algumas páginas todos os dias; sabia de cor as sentenças mais piedosas e mais eficazes, que gostava de citar quando a ocasião se apresentava; aconselhava sua leitura e fez seu elogio numa de suas poesias latinas. Seu secretário de então, Mons. Foschi, relevou esses detalhes no prefácio de uma reimpressão da antiga tradução italiana do P. Plantedio, S.J., e acrescenta que o Santo Padre incentivou e abençoou essa nova edição, assegurando que a leitura desse tratado de Denys, o Cartuxo, produziria um grande bem nas almas. A Civiltà cattolica, ao anunciar essa nova edição, Perúgia, 1886, não hesitou em dizer que aquilo era «um livro de ouro». Contudo, é justo acrescentar que esse tratado De quatuor novissimis não deixou de suscitar algumas críticas, cujo eco mais ou menos infiel se encontra em algumas bibliografias. No J. IV, com efeito, a. 47, o autor relata, resumindo-a, a visão do monge cisterciense de Eynsham, escrita por Adam, subprior desse mosteiro e capelão de São Hugo, o célebre bispo cartuxo de Lincoln. Cf. Analecta bollandiana, t. XXII, p. 225, Visio monachi de Eynsham. Ora, segundo essa visão, haveria no purgatório almas incertas de sua salvação final, torturadas de maneira especial por esta dúvida cruel sobre seu destino definitivo, sem saber positivamente se estão salvas ou condenadas. Possevin, cujas palavras elogiosas relatamos acima, pensa que esta passagem teria sido interpolada no tratado de Denys; Feller, em seu Dictionnaire historique, é da mesma opinião; Belarmino, De scriptoribus ecclesiasticis, diz deste tratado: Caute legendus circa statum animarum in purgatorio degentium; outros, enfim, o combatem abertamente. Duas traduções espanholas foram proibidas aos súditos de Sua Majestade Católica, o que não impediu o inquisidor, dom Antoine de Sotomayor (1647), apesar de sua severidade habitual na censura das obras, de declarar que o texto original de Denys é solide pius et catholicus. O P. Thomas Sani, dominicano, na tradução italiana do mesmo tratado, Perúgia, 1579, suprimiu todas as revelações privadas, «não porque, diz ele no prefácio, sejam errôneas ou estejam em oposição com a sã doutrina, nem para censurar Denys, tão sábio e tão piedoso, mas porque não julguei que pudessem servir para a edificação dos leitores comuns, para os quais empreendi esta tradução.» Sem ser tão radical em suas eliminações, o P. François Plantedio, S. J., havia, no entanto, eliminado de sua tradução italiana, Veneza, 1578, aquelas dessas revelações que pudessem suscitar dificuldades. Alguns autores declaram que o tratado De quatuor novissimis de Denys foi colocado no Index, nisi repurgetur (a. 47). H. Reusch, Der Index der verbotenen Bücher, Bonn, 1883, t. 1, p. 523. Figura, com efeito, no Index de Sisto V; mas esse Index nunca foi promulgado, e muitas obras nele inscritas não foram mantidas nos Index seguintes. É o caso deste opúsculo. Em suma, pode-se reconhecer que, com base na fé de um religioso «eminente» (provavelmente Adão, mencionado acima), e de «Pedro, abade de Cluny» (personagem difícil de identificar, pois Pedro o Venerável já havia morrido na data do milagre de Eynsham), Dionísio se fez, talvez com demasiada facilidade, o narrador confiante de uma visão que desempenhou grande papel na Idade Média, e que tendia a estabelecer e a acreditar, nos meios onde encontrava crédito, não decerto que em geral as almas do purgatório estejam incertas de sua salvação, mas que, por uma permissão excepcional de Deus, por um modo de pena extraordinário, algumas almas sofredoras se encontrariam impossibilitadas de discernir se estão salvas ou condenadas. Em seu comentário sobre Jó, x, 2: Dicam Deo, noli me condemnare, Dionísio exprime aliás a mesma ideia em termos que não poderiam ser mais corretos. Estabelece primeiro a doutrina geral da Igreja: Hoc videtur animabus in purgatorio non convenire, CUM SINT CERTÆ DE GLORIA; depois, sob forma de opinião, relata o sentimento dos autores que creem poder admitir exceções a essa regra: quædam tamen (UT DICITUR) sunt incertæ de hoc, quia sic pœnâ addictæ sunt, ut nesciant an finaliter sint salvandæ an condemnandæ, quæ utique optant non condemnari, idque precantur secundum quod oratio est interpres desiderii. Cf. Opera, Montreuil-sur-Mer, 1897, t. IV, p. 460. Reduzida a essa proporção, a visão do monge de Eynsham relatada por Dionísio não cai realmente sob a condenação da Igreja; e ela difere totalmente da 38ª proposição condenada de Lutero. Por isso não se explica como certos autores, como Jurant, puderam atribuir a nosso doutor o mesmo ensinamento que ao heresiarca de Wittemberg. Vemos uma revelação análoga de santa Brígida defendida pelo cardeal de Torquemada em pleno concílio de Basileia; ela não foi de modo algum um obstáculo à aprovação das obras da santa. Labbe e Cossart, Concil. collect. suppl., Lucques, 1750, col. 948. Pode-se ver igualmente revelações do mesmo gênero na Vida de santa Lidvina e na da irmã Margarida do Santíssimo Sacramento, desculpadas e justificadas, a primeira por uma nota explicativa do P. Papebrock, Acta sanct., t. XI aprilis, p. 267, e a segunda pelo P. Amelotte, doutor em Sorbonne, que se fez o historiador da piedosa carmelita. Vie de Sœur Marguerite du Saint-Sacrement, t. VII, c. IV, n. 10. O próprio teólogo Sylvius, Suppl., q. c, a. 4, ad 8m, ao examinar tecnicamente a questão e fazendo alusão à revelação de santa Brígida, não parece rejeitar toda possibilidade de uma permissão extraordinária de Deus, e de uma derrogação excepcional à lei comum tal como a indicamos acima. A célebre visão, da qual Dionísio se fez eco, deve, pois, ser expressamente distinguida, como o é em Suárez, das proposições heréticas e ímpias de Lutero e de Baio, In III part. S. Thomæ, disp. XLVII, sect. II; ela não tem nada que contradiga a doutrina ortodoxa, non recedit a sensu orthodoxo, segundo a expressão empregada em plena Congregação dos Ritos, onde nosso escritor teve ocasião de ser nomeadamente defendido e como que justificado, na causa da B. Margarida-Maria. Os postuladores, expressamente intimados a esclarecer uma dificuldade suscitada no curso do processo sobre essa questão especial, formularam claramente, em sua resposta, este importante princípio: Non est articulus fidei, animas, quotquot purgatorio igne expiantur, certas esse de propria beatitudine aliquando adipiscenda; depois, após haver citado Dionísio o Cartuxo e as palavras de seu tratado De quatuor novissimis: Qui taliter torquebantur, communiter erant incerti an finaliter salvarentur, concluem nestes termos sua discussão: Igitur, theologicis rationibus atque revelationibus probatur animas purgatas, generaliter loquendo, de futura nanciscenda æterna salute esse certas, sed tamen in nonnullis purgatorii animabus possibilem esse, atque adeo dari hanc pœnam, ut de propria beatitudine existant incertæ. Qui igitur hæc docet non recedit a sensu orthodoxo. Analecta juris pontificii, t. IX, p. 158-159.

II. Apreciação. — A obra teológica de Dionísio o Cartuxo é, como se vê, muito considerável. É um dos últimos e não dos menores representantes do período propriamente escolástico. Duas qualidades nunca lhe foram contestadas: um conhecimento perfeito de todos os sistemas e de todas as questões agitadas nas escolas até ele, e uma piedade profunda, preocupada em transformar a especulação árida em ciência afetiva, e em fazer da teologia uma preparação para a contemplação. Por esse lado, ele se vincula à escola mística dos vitorinos Hugo e Ricardo, de são Boaventura e de Gerson. Em seu ensino, mostra um espírito muito aberto e resolutamente independente: Frequenter, pro serenatione conscientiæ, est salubre diversorum doctorum doctrinas agnoscere, nec opinioni unius incaute aut pertinaciter inhærere, sicut interdum his accidit qui pauca aut unum dumtaxat doctorem legerunt. In IV Sent., proem., t. XIX, p. 37. Em metafísica, segue geralmente são Tomás, que é sem contestação seu doutor preferido. Todavia, em certo número de pontos, não hesita em se separar dele com uma liberdade que surpreenderá mais de um leitor. Ao Areopagita toma emprestadas suas ideias místicas e sua linguagem hiperbólica. Não se pode negar que ele seja, por sua tendência de espírito nativa, um intuitivo antes que um dialético, embora sua educação intelectual tenha sido quase exclusivamente escolástica. Em moral, seu ensino participa mais da tendência ascética que visa à perfeição, do que da tendência casuística que busca determinar os limites aquém dos quais a salvação já não é possível. Daí uma propensão geral à severidade: severidade de princípios, In IV Sent., t. III, dist. XXXVI, q. 1, severidade também em muitas aplicações, notadamente nos Sermões. Enfim, para formar sobre sua obra um julgamento equitativo, não se deve esquecer que certas teorias lhe foram de certo modo impostas, tanto pelas ideias correntes de seu tempo (autoridade exagerada atribuída aos concílios), quanto pela imperfeição de seus conhecimentos históricos. Aceitava de boa fé, e sem verificá-las, as afirmações de autores que estão longe de merecer todo crédito, Pedro Comestor, Jacques de Voragine e os legendários da Idade Média; e esses erros históricos não deixaram de exercer alguma influência sobre seu ensino teológico.

IV. NOVA EDIÇÃO DE SUAS OBRAS. — Havia dois séculos os homens de estudo desejavam ver uma nova edição das obras completas de Dionísio o Cartuxo que fosse uniforme em sua execução e correspondesse ao gosto moderno. Houve um momento em que os cartuxos dos Países Baixos estiveram a ponto de satisfazer esse desejo, confiando ao célebre Foppens, impressor em Bruxelas, o empreendimento, que devia superar todas as publicações feitas anteriormente. Então, a cartuxa de Ruremonde possuía ainda algumas das obras de Dionísio que haviam permanecido desconhecidas aos cartuxos de Colônia e aos editores seguintes. Circunstâncias particulares não permitiram realizar o projeto, e os acontecimentos políticos do final do século XVIII obrigaram a ordem dos cartuxos a renunciar completamente a ele. O retorno à teologia escolástica que, em nossos dias, felizmente devolveu à honra as doutrinas de são Tomás e de sua escola, fez renascer o desejo de uma reimpressão das obras de Dionísio, que é o último, mas não o menos célebre dos representantes do ensino escolástico. O R. P. dom Miguel Baglin, geral dos cartuxos, deu-se perfeitamente conta dos grandes serviços que uma nova edição poderia prestar a esse movimento intelectual, e, sem se preocupar com a dificuldade dos tempos, submeteu o projeto à Santa Sé a fim de atrair a bênção do papa sobre o empreendimento. Leão XIII, por um breve de 1º de abril de 1896, aprovou a ideia e aceitou a dedicatória da nova edição. O mundo estudioso aplaudiu calorosamente, e as revistas mais autorizadas fizeram o elogio de Dionísio e de sua ordem, que, de certo modo, o recolocava no lugar de honra e de glória a que tinha tanto direito. Hoje (1908) já apareceram 35 vol. in-4, a 2 colunas, pelos cuidados da tipografia da Cartuxa de Notre-Dame-des-Prés, em Montreuil-sur-Mer, atualmente transferida para Tournai, na Bélgica. Os t. I-XIV contêm os comentários sobre toda a Escritura. Os t. XV e XVI compreendem a explicação das obras atribuídas a são Dionísio Areopagita. A Summa fidei orthodoxæ, isto é, o resumo da Suma de são Tomás, e o Dialogion de fide preenchem os t. XVII e XVIII. Os t. XIX-XXV encerram o comentário sobre as Sentenças; os t. XXVI-XXVIII, os trabalhos de Dionísio sobre Boécio, Cassiano e são João Clímaco; os t. XXIX-XXXII, seus Sermões; os t. XXXIII-XXXV, as Opera minora. A publicação inteira formará cerca de 45 volumes e será, segundo o desejo de Leão XIII, uma obra digna do autor e das matérias de que trata: ut auctoris rerumque dignitati respondeat! Breve ao geral dos cartuxos de 4 de abril de 1896. D. Dionysii Carthusiani, doctoris ecstatici, vita simul et operum ejus fidissimus catalogus, in-8°, Colônia, 1532. Essa vida, composta pelo cartuxo dom Thierry Loher, vigário da casa de Colônia e principal promotor da publicação das obras de Dionísio, já havia aparecido, Colônia, 1530; Paris, 1531, junto aos comentários de Dionísio sobre as Epístolas de são Paulo. Foi reimpressa várias vezes com algumas das obras de Dionísio. Encontra-se também nos bolandistas, em 12 de março, e nas Ephemerides ordinis cartusiensis de dom Leão Le Vasseur, no mesmo dia. Os novos editores a publicaram à frente do t. I; uma edição, in-18, apareceu em 1904, em Tournai (tipografia de Notre-Dame-des-Prés). Fisen, Flores Ecclesiæ Leodiensis; Il Dottor estatico, ovvero la Vita del venerabile Dionigio Richel, monaco cartusiano (obra póstuma do cartuxo dom Daniel Campanini, † 1727), in-4°, Veneza, 1736; Admirable Vida, singulares virtudes, y prodigiosa sabiduria del extatico varon Padre B. Dionysio Rickel, llamado vulgarmente el cartusiano... por el Padre Joseph Cassani, in-8°, Madrid, 1788.

O cartuxo italiano, dom Pedro Bandini (+ 1797), sob o pseudônimo de P. Dinbani, publicou uma Vita del Beato Dionisio da Richel, monaco cartusiano, in-4°, Siena, 1782; H. Welters, Denys le Chartreux, sa vie et ses œuvres, in-8°, Ruremonde, 1882; Kirchenlexikon, Friburgo em Brisgóvia, 1884, v° Dionysius; dom A. Mougel, Denys le Chartreux, 1402-1471. Sa vie, son rôle. Une nouvelle édition de ses ouvrages, in-8°, Montreuil-sur-Mer, 1896; surgiu também dele uma edição alemã aumentada, Mülheim-sur-la-Ruhr, 1898; Albers, S. J., Dionysius de Kartuizer en zijne werken, Utrecht, 1897; Un eminente scolastico troppo dimenticato. Nell'occasione d'una ristampa delle opere complete di Dionisio Certosino, riflessioni di D. Roberto Montagnani, dello stesso ordine, in-8°, Montreuil-sur-Mer, 1898; Dr Krogh Tonning, Der letzte Scholastiker, Friburgo em Brisgóvia, 1904. Pode-se também consultar: dom Pedro Dorland, Chronicon cartusiense, in-8°, Colônia, 1608, l. VII, c. VI-XXXIV, p. 392-435, bem como as notas do editor, dom Teodoro Petreius, in-8°, Colônia, 1608, p. 150-160; Bibliotheca cartusiana, do mesmo dom Teodoro Petreius, in-8°, Colônia, 1609, p. 49-85; Trithème, De scriptoribus ecclesiasticis; Thomas Bzovius, De signis Ecclesie, l. XXII, c. XXIV, signo 51; Aubert Le Mire, André Sweert, Foppens e todos os grandes bibliógrafos dos escritores belgas; o P. Teófilo Raynaud, Stylita mysticus; Morozzo, Theatrum chronologicum S. ord. cartusien., Turim, 1681; Dupin, Lelong, o P. de Tracy na Vie de saint Bruno; Hurter, Nomenclator, 1899, t. IV, col. 755, 1356; M. de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Lovaina, 1900, p. 370; Keiser, Dionys des Karthäusers Leben und pädagogische Schriften, na Bibliothek der katholischen Pädagogik, Friburgo em Brisgóvia, 1904, t. XV; os cartuxos Nicolau Molin, Carlos le Couteulx e Bento Tromby, em seus trabalhos sobre a história geral da ordem; as grandes coletâneas de Vidas dos santos de Baillet, Petits Bollandistes, etc., bem como as obras específicas sobre os santos da diocese de Liège, por Daris, Mons. de Ram, o P. Nimal, etc.

Autor original: S. Autore

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