DIONÍSIO, O AREOPAGITA (O PSEUDO-)

DIONÍSIO, O AREOPAGITA (O PSEUDO-)

DIONÍSIO, O AREOPAGITA (O PSEUDO-). — I. Escritos areopagíticos ou Corpus dionysiacum. II. Autor. III. Síntese teológica. IV. Influência. I, ESCRITOS AREOPAGÍTICOS, OU Corpus Dionysiacum. — Denys, o Areopagita, é aquele membro do Areópago que são Paulo converteu, Act., xvii, 34, e escolheu para primeiro bispo de Atenas. Eusébio, H. E., iv, 28, 4, P. G., t. xx, col. 568. Fora isso, só há a respeito dele erros ou simples conjecturas. — Chegou até nós, sob o nome de são Denys, o Areopagita, um conjunto de livros e de cartas, no qual o caráter absolutamente à parte do estilo e do tom, bem como a harmonia constante das grandes concepções filosóficas e teológicas, denotam, ao menos em conjunto, a unidade da composição com o gênio do autor. Conjunto original, espécie de esfinge de enigmas incessantes ainda não totalmente decifrados, e que não deixa de estar no centro da mística cristã, ou antes, de ser o seu centro incontestado. Vê-se em primeiro lugar quatro livros bastante extensos, todos dedicados pelo autor, sem que a dedicatória atual seja de sua mão, a Timóteo, «seu colega no sacerdócio, συμπρεσβυτέρῳ.» Intitulam-se: 1° Da hierarquia celeste, P. G., t. iii, col. 119-369; 2° Da hierarquia eclesiástica, ibid., col. 370-584; 3° Dos nomes divinos, ibid., col. 585-996; 4° Teologia mística, ibid., col. 997-1048. Independentemente desses quatro livros, nosso autor, tomando suas afirmações ao pé da letra, teria escrito ou projetado escrever outras sete obras: os Esboços teológicos, θεολογικαὶ ὑποτυπώσεις, os Hinos divinos, a Teologia simbólica, o tratado Da alma humana, περὶ ψυχῆς, o das Coisas inteligíveis e das coisas sensíveis, περὶ νοητῶν καὶ αἰσθητῶν, o Da hierarquia do Antigo Testamento, e enfim o Do justo juízo de Deus, Περὶ δικαίου καὶ θείου δικαιωτηρίου. De modo que, em suma, o escritor teria concebido, senão talvez inteiramente executado, o plano de uma vasta e vivaz síntese teológica. Hipler, Dionysius der Areopagite, Ratisbona, 1861, p. 75 sq.; Kirchenlexikon, 2ª ed., t. iii, col. 1793. Mas, além de os dados de nosso autor sobre suas produções literárias serem em geral obscuros, contraditórios, fora de seus lugares naturais, sua própria sinceridade não poderia inspirar confiança absoluta; ele não é, na história da literatura grega, nem o primeiro nem o único a ter-se permitido vanglórias e embustes. Em todo caso, dessas sete últimas obras não se descobriu ainda o menor vestígio. Não se encontra na versão siríaca de Sérgio de Resaina (+ 536) senão os livros e as cartas que nos chegaram em grego. É isso tudo o que igualmente conheceram o admirador entusiasta dos escritos areopagíticos, são Máximo, o Confessor (+ 662), e o bibliotecário Anastácio, no século ix. Verifica-se, pois, hoje, que os títulos dessas sete últimas obras são puras ficções, e que essas obras jamais existiram. Com o Corpus dionysiacum que possuímos, temos o autor por inteiro. Stiglmayr, S. J., Zeitschrift für katholische Theologie, 1891, p. 257 sq.; H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1895, t. lxxvii, p. 362-371; Römische Quartalschrift, 1898, t. xii, p. 364-367. O Corpus dionysiacum compreende também dez cartas, a maioria muito breves, P. G., t. iii, col. 1065-1120; outros tantos opúsculos místicos, que se ligam estreitamente, tanto em ideias quanto em estilo, aos quatro livros acima, e cujos destinatários pertencem ou supostamente pertencem aos diversos graus da hierarquia sagrada. Essas dez cartas são escritas, as quatro primeiras ao «terapeuta» ou monge Caio, a quinta ao «liturgo» ou diácono Doroteu, a sexta ao sacerdote Sosípatro, a sétima ao bispo ou «hierarca» Policarpo, a oitava ao monge Demófilo, a nona ao «hierarca» Tito, a décima a «João, o teólogo, durante seu exílio em Patmos.» Três outras cartas, cujo texto original grego está perdido, são apócrifas, isto é, de proveniência estranha: a carta ao filósofo Apolófanes, da qual só nos restou o texto latino, P. G., t. iii, col. 1119-1122; Harnack, Geschichte der altchristl. Litteratur, t. i 6, p. 781; carta a Timóteo, sobre a morte de são Pedro e de são Paulo, publicada pelo abade Martin nas versões siríaca, armênia e latina, Analecta sacra do cardeal Pitra, t. iv, p. 241-254, 261-276; a carta em armênio a Tito, sobre a assunção da santíssima Virgem. Vetter, Theol. Quartalschrift, 1887, t. lxix, p. 133-138. O sr. Kugener editou, traduziu e anotou Um tratado astronômico e meteorológico siríaco atribuído a Denys, o Areopagita, nas Atas do xvi congresso dos orientalistas, Paris, 1907, t. ii. Esse tratado, conservado no manuscrito de Londres, adicional 7192, que é provavelmente do século vi, contém uma parte de uma mescla de filosofia e de cosmologia, constituída por Aristóteles. A tradução siríaca foi verossimilmente feita em Edessa no século vi. II. AUTOR. — Quando, pela primeira vez, o Corpus dionysiacum foi apresentado, por volta de 532, na própria Constantinopla, num colóquio de católicos e de severianos ou monofisitas moderados, Hipácio de Éfeso, o porta-voz dos católicos, recusou como apócrifas as pretensas obras do senador ateniense. Mansi, Concil., t. viii, col. 821. Mas essas obras respondiam às necessidades e às preocupações dos espíritos; difundiram-se sem dificuldade, obtiveram rapidamente uma popularidade prodigiosa, e conservaram o nome do ilustre cristão a quem tinham sido de início atribuídas. Ninguém antes do século xvi, salvo talvez Fócio, Stiglmayr, S. J., Hist. Jahrbuch, 1898, t. xix, p. 91-94, se atreveu a negar-lhes a paternidade de são Denys, o Areopagita. O autor, ao tomar esse nome, Epist., vii, 3, P. G., t. iii, col. 1081, não se havia ele mesmo dado a passar pelo célebre discípulo de são Paulo, De nominibus div., ii, 11; iii, 2, P. G., t. iii, col. 681-682; pela testemunha ocular tanto do eclipse ocorrido na morte do Salvador, Epist., vii, 2, P. G., t. iii, col. 1081, quanto da morte da santíssima Virgem, τοῦ ζωαρχίκου καὶ θεοδόχου σώματος, De nominibus div., iii, 2, P. G., t. iii, col. 682; por um companheiro e amigo dos apóstolos e de seus discípulos imediatos? Epist., i-v, x. Em toda parte, sem hesitar, reconheceu-se no Areopagita o autor do Corpus dionysiacum, e nesse Corpus dionysiacum uma das mais antigas produções da era apostólica. Mas, no século xvi e no xvii, a crítica de um Laurent Valla, de um Erasmo, de um Sirmond, de um Tillemont, de um Le Nourry e de muitos outros dissiparia essa longa ilusão, fazendo reviver o protesto de Hipácio. Não que não tenha havido, até o fim do século xix, na França e alhures, tentativas, nem todas inspiradas pelo verdadeiro interesse da ciência, para sustentar a opinião tradicional e devolver ao Areopagita seus pretensos direitos. O abade Darboy, à frente de sua tradução das Obras de são Denys, o Areopagita, Paris, 1845; o abade Freppel, Cours d'éloquence sacrée, 1860-1861, 5ª lição; Kanakis, Dionysius der Areopagite, Leipzig, 1881; Baltenweck, Revue catholique d'Alsace, nova série, 1883, t. ii, p. 487-501, 593-604, 658-667, 705-726; Moriceau, Vie de saint Denys l'Aréopagite, Laval, 1883; Schneider, Areopagitica, Ratisbona, 1884; Vidieu, Saint Denys l'Aréopagite, Paris, 1889; John Parker, Are the writings of Dionysius the Areopagite genuine? 1897, empenharam-se sucessivamente com talentos desiguais e igual insucesso. A suposição é evidente; livros e cartas não podem datar do primeiro século da era cristã; neles se mencionam fatos, usos posteriores a essa época; encontram-se a cada passo ideias e formas de linguagem das quais o Areopagita não poderia ter a menor suspeita. A questão da autenticidade do Corpus dionysiacum está hoje definitivamente resolvida no sentido negativo. De Smedt, S. J., Revue des questions historiques, abril de 1896, p. 610; H. Koch, Hist. Jahrb., 1898, t. xix, p. 361 sq. Será que isso significa que nosso autor quis assumir uma máscara e abusar da credulidade pública? O sr. Hipler, op. cit., não o pensou; e, zeloso em salvaguardar a inteira sinceridade de um doutor com justiça célebre, sem notar suficientemente talvez a diferença dos tempos em matéria de propriedade literária, nem a equivalência de fundo entre o pseudônimo de outrora e o anônimo de agora, angariou numerosos partidários para sua opinião. Entre outros, Ed. Behmer, Damaris, 1864, p. 99 sq.; Nirschl, Patrologie, t. i, p. 134 sq.; Alzog, Patrologie, trad. franc., 1877, p. 595; Draeseke, Gesch. patristische Untersuchungen, 1889, p. 25 sq.; Jahn, Dionysiaca, 1889; Asmus, Zeitschrift für wissenschaftl. Theologie, 1890, p. 361 sq., etc. Todos concordam, à parte nuances de detalhe, que nosso autor, que viveu, segundo eles, por volta do fim do século iv, não procurava fazer-se passar por contemporâneo dos homens e dos fatos apostólicos; que se chamava verdadeiramente Denys, e que a denominação de Areopagita era para ele um apelido, análogo aos que os membros da Escola do palácio e o próprio Carlos Magno haveriam de buscar na literatura sagrada ou profana; que se pode identificar esse Denys, quer com o abade Denys de Rinocorura, no Egito, Sozômeno, H. E., vi, 31, P. G., t. lxvii, col. 1389) (cf. Beehmer, loc. cit.; Nolte, Theol. Quartalschrift, 1868, p. 449 sq.), quer com o bispo de Alexandria, Denys, o Grande, Skworzow, Patrologische Untersuch., 1875, p. 98 sq.; que, em todo caso, os nomes próprios do Corpus dionysiacum designam, sob nomes de guerra ou de claustro, personagens da Igreja do Egito, durante a segunda metade do século iv, por exemplo, santo Atanásio no exílio, Pedro, patriarca de Alexandria, Timóteo, seu irmão e futuro sucessor, etc.; que enfim, se a opinião se extraviou, a culpa é inteiramente das interpolações, alterações, mutilações que, no século v ou vi, desfiguraram o texto primitivo. Essa tese engenhosa não prevaleceu, contudo. Funk, Lit. Rundschau, 1883, col. 711 sq.; Theol. Quartalschrift, 1890, t. lxxii, p. 310 sq.; 1891, t. lxxiii, p. 495; 1894, t. lxxvi, p. 172 sq., combateu-a com grande vigor, enquanto o sr. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, 3ª ed., t. ii, p. 423, nota 3, meio convencido, mas não plenamente, pedia, para se pronunciar, um suplemento de informações. A tese do sr. Hipler recebeu enfim o golpe de misericórdia dos trabalhos paralelos do P. Stiglmayr, Das Aufkommen der Pseudo-Dionysischen Schriften..., Feldkirch, 1895, em Byzantinische Zeitschrift, 1898, t. vii, p. 91-110; 1899, t. viii, p. 263-301, e do sr. Koch, Theol. Quartalschrift, 1895, t. lxxvii, p. 371-420; 1896, t. lxxviii, p. 676-679; Römische Quartalschrift, 1898, t. xii, p. 361 sq.; Theol. Quartalschrift, 1904, t. lxxxvi, p. 378-379. Os dois sábios críticos assinalaram passo a passo tudo o que há, na exegese e na argumentação do sr. Hipler, de arbitrário, de conjectural, de paradoxal, e puseram assim em plena luz o caráter pseudepigráfico do Corpus dionysiacum. O R. P. de Smedt, loc. cit., 1º de abril de 1896, p. 612, admite sem reservas sua conclusão comum. O sr. Hipler e o sr. Draeseke depuseram eles próprios as armas. Segundo o exemplo dos neoplatônicos, que, para seus hinos teúrgicos, tomavam emprestado o nome de Orfeu, o autor dos escritos areopagíticos tentou dar-se por contemporâneo dos apóstolos e abrigar-se sob o nome de uma das mais gloriosas conquistas do cristianismo nascente. Tem-se bem o direito de chamá-lo o pseudo-Denys, o pseudo-Areopagita. O sr. Hipler, para as necessidades de sua causa, tinha recuado até perto do fim do século v a data do Corpus dionysiacum. Mas os critérios tanto externos quanto internos a situam entre os últimos anos do século v e o começo do vi. As primeiras citações que dele se encontram são feitas pelo monofisita Severo, patriarca de Antioquia, num concílio de Tiro que não pode ser posterior ao ano 518, e por André, arcebispo de Cesareia da Capadócia, em seu Comentário sobre o Apocalipse, P. G., t. cvi, col. 215-458, escrito provavelmente entre 515 e 520. Diekamp, Histor. Jahrbuch, 1897, t. xviii, p. 1-386, 602 sq. Severo de Antioquia cita, alhures, os Nomes divinos em seu tratado contra Juliano de Halicarnasso, assim como Pedro de Calínico (+ 591) em seu tratado contra Damião. P. Martin, Les Aréopagitiques, em De l'origine du Pentateuque (litog.), Paris, 1886-1887, t. i, p. 631-633. Por outro lado, é agora incontestável que o pseudo-Denys se liga estreitamente a Proclo, o último chefe da escola neoplatônica, 411-485; que, entre todos os neoplatônicos, Proclo é seu mestre e seu guia; que ele muitas vezes o copia palavra por palavra, e que nos conservou notadamente, De nominibus div., iv, 18-34, um extrato do livro de Proclo Sobre a existência do mal, do qual só nos resta uma tradução latina de época tardia. Stiglmayr, S. J., Hist. Jahrb., 1895, p. 253 sq.; H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1895, t. lxxvii, p. 414; Römische Quartalschrift, 1898, t. xii, p. 368 sq.; Pseudo-Dionysius Areopagita in seinen Beziehungen zum Neuplatonismus und Mysterienwesen, Mogúncia, 1900. O pseudo-Denys conhece além disso o costume, introduzido por volta de 476 em Antioquia pelo patriarca monofisita Pedro, o Batanador, de cantar o Credo na missa, e o Henótico do imperador Zenão em 482. O desejo de paz e de concórdia que anima o Corpus dionysiacum e que parece trair um partidário moderado do formulário imperial, o cuidado de nosso autor em não se servir de termos que possam chocar quer os monofisitas quer os católicos, e em conservar ao contrário a neutralidade em sua cristologia, tudo parece aproximar sua obra do fim do século v. É muito provável que ela tenha surgido na Síria, e não no Egito; a Síria era então a Terra prometida das falsificações literárias. Apesar de todas as pesquisas e de todas as tentativas de identificação, o verdadeiro nome do pseudo-Denys ainda é desconhecido; talvez um manuscrito siríaco no-lo revele um dia. É de crer que nosso autor, nascido no paganismo, De hier. eccl., ix, 3, e educado na escola neoplatônica, entrou no claustro, e de monge se tornou bispo. Pode-se concluir isso da altíssima ideia que ele faz das prerrogativas do episcopado e da firmeza que emprega, todo enamorado que é da santidade da vida monástica, para reprimir as pretensões dos monges contra o clero secular. III. SÍNTESE TEOLÓGICA. — Os escritos do Corpus dionysiacum correspondiam a uma tentativa muito ativa e muito importante, no século v e no vi, no estado da sociedade; tinham por objeto essa conciliação, essa amálgama dos dogmas cristãos e das ideias neoplatônicas que constituíam o problema intelectual da época.

Não que a síntese teológica do pseudo-Denys tendesse a reproduzir as doutrinas neoplatônicas e a infundi-las no cristianismo; ela tendia a cristianizar, a batizar, tanto quanto possível, o idealismo e o misticismo neoplatônicos. O autor, Epist., VI, 2, explica-nos seu desígnio, que é o de arruinar as empresas do neoplatonismo alexandrino contra a fé cristã, colocando-as face a face e esforçando-se por fazer ressaltar, com seus pontos de contato, a superioridade do cristianismo. — O estilo do pseudo-Denys — estilo extraordinário, no julgamento de Bossuet, Instruction sur les états d'oraison, l. Iº, a. 2 — não é nem simples nem claro; a prolixidade, a inchação, a afetação o desfiguram, e de propósito deliberado ele vela o pensamento mais do que o ilumina. Aos antigos termos usuais de bispo, de sacerdote, de diácono, de monge, o escritor substitui as denominações de hierarca, de ἱερεῦς, de liturgo e de terapeuta; dir-se-ia que tem o furor dos neologismos, o furor também das frases longas, densas e ambiciosas. Sem dúvida, a culpa disso cabe em parte ao caráter das questões abstrusas que o autor estuda, em parte à sua têmpera de espírito pessoal. Mas a culpa cabe ainda mais à influência da escola neoplatônica, e muito especialmente à influência de Proclo, cujas expressões e giros particulares o pseudo-Denys gosta de reproduzir, nem sempre com arte nem de modo feliz. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1898, t. LXXX, p. 367-378; Theol. Quartalschrift, 1904, t. LXXXVI, p. 379 sq. Embora no fundo nosso autor não ensine o panteísmo, e antes solape sua base pela afirmação muito clara do dogma da criação, sua linguagem não deixa de ter, como a de muitos místicos da Idade Média, um travo emanatista, que, na boca de um teólogo de nossos dias, não seria tolerado. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1904, p. 399. Nosso autor fala mesmo mais de uma vez a linguagem dos mistérios, que aliás se tornou no neoplatonismo a linguagem da filosofia. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1895, t. LXXVII, p. 418 sq. Com a terminologia neoplatônica, o pseudo-Denys toma emprestado do neoplatonismo todas as ideias que podem acomodar-se, segundo ele, à fé da Igreja. O alegorismo levado ao extremo dos comentários de Porfírio e de Proclo sobre Homero e sobre Platão revive na exegese do pseudo-Denys. É sobre os passos de Proclo que ele caminha no estudo da questão do mal. No que diz respeito à atividade, à providência, à justiça divina, ele também se faz eco do neoplatonismo, sem nenhuma nota propriamente, especificamente cristã. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1904, t. LXXXVI, p. 394. Do mesmo modo, a teoria dos três graus, das três etapas da oração é na realidade de proveniência neoplatônica e deriva bem menos de Orígenes ou de são Cipriano do que de Proclo. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1905, t. LXXXVI, p. 592-596. A angelologia do pseudo-Denys tem igualmente um matiz neoplatônico, com esta ideia entre outras de que a palavra de Deus só chega aos homens por intermédio dos anjos e depois de haver atravessado sucessivamente todos os coros angélicos, do primeiro ao último. A mística dionisiana, enfim, embora assentada sobre a Sagrada Escritura, não deixa de sentir a influência do neoplatonismo. A ideia sempre presente da unidade absoluta, princípio e fim das coisas, do múltiplo que dela sai e a ela retorna; a teoria das três vias, purgativa, iluminativa, unitiva, já em germe em Platão, e retrabalhada sucessivamente por Fílon, Plotino, Jâmblico e Proclo; a doutrina do êxtase que procura para as almas perfeitas já neste mundo a visão intuitiva, mas não compreensiva, da divindade; a elaboração particular da teoria da deificação humana; todos esses traços atestam um retorno complacente do pseudo-Denys sobre sua educação primeira e espalham sobre sua teologia mística um matiz de neoplatonismo depurado. H. Koch, Theol. Quartalschrift, 1898, t. LXXX, p. 397-420; 1904, t. LXXXVI, p. 395 sq. O pseudo-Denys não sacrifica, contudo, às teorias transcendentais do neoplatonismo alexandrino os artigos precisos da fé cristã; não se aventura fora do terreno da tradição que sua vasta leitura lhe tornou familiar; e, quer em teodiceia quer em cristologia, sua ortodoxia no fundo não sofreu abalo. Os traços de panteísmo que se notaram em suas obras não passam de ilusões de ótica, e os próprios textos protestam contra as injustas acusações de apolinarismo, de monofisismo, de monotelismo. Bern. de Rubeis, Diss. de fide auctoris operum quæ vulgo Areopagitica dicuntur, P. G., t. IV, col. 1025-1079.

Mas é de lamentar que o pseudo-Dionísio, sob a influência de uma opinião de Orígenes que ainda não estava definitivamente classificada entre as heresias, tenha mantido a noção subjetiva e donatista da Igreja e dos sacramentos; que, por conseguinte, faça depender a validade e a eficácia, seja da absolvição, Epist., VII, P. G., t. III, col. 1092, seja da excomunhão, De hier. eccl., VII, P. G., t. III, col. 564, das disposições íntimas do padre ou do bispo que as pronunciam. Stiglmayr, S. J., Zeitschrift für kath. Theologie, 1898, t. XXII, p. 246-803; H. Koch, Histor. Jahrb., 1900, t. XXI, p. 74-77.

A estreita união do homem com Deus, a divinização do homem, é o eixo da teologia do pseudo-Dionísio. Dessa ideia-mãe, com efeito, decorre naturalmente sua concepção das duas hierarquias, que lhe valerão na Idade Média o cognome de doctor hierarchicus, a hierarquia celeste e a hierarquia eclesiástica, esta modelada sobre aquela, e destinadas ambas a nos encaminhar à θείωσις, à ἕνωσις. A lei da gradação reina em toda parte, no mundo dos espíritos como no dos corpos, no céu como na Igreja. No primeiro, nosso autor distribuiu os anjos em 9 coros, 3 X 3, subordinados entre si e que se transmitem uns aos outros, por uma gradação descendente, os fluxos da luz divina, com que o coro mais elevado foi primeiramente inundado. Classificação que, sem ser objeto de fé, não deixa de fazer autoridade em teologia. Stiglmayr, S. J., Zeitschrift für kath. Theologie, 1898, p. 180-187; Compte-rendu du Congrès scientifique des cath. à Fribourg, Suisse, 1898, sect. I, p. 403-414. Ver t. I, col. 1209-1210; J. Turmel, Histoire de l'angélologie, dans la Revue d'histoire et de littérature religieuses, 1899, t. IV, p. 218-222.

Assim como os nove coros dos anjos se dividem em três hierarquias de três ordens cada uma, assim há, na hierarquia humana da Igreja, três graus sucessivos: os diáconos, os padres e os bispos; o pseudo-Dionísio a eles vincula ainda os monges, Epist., VII, 4, P. G., t. III, col. 1098, embora a estes caiba obedecer, e não comandar, e não tirem de sua profissão senão um caráter puramente hierúrgico. De hier. eccl., VI, P. G., t. III, col. 533.

Aos diáconos, a missão de zelar para que as coisas sagradas não sejam profanadas; aos padres, o direito de absolver os pecadores e o cuidado de admitir os fiéis à recepção dos diversos sacramentos; a confirmação dos cristãos e a ordenação dos padres, a consagração do óleo empregado em vários sacramentos ou cerimônias, e a celebração da eucaristia são reservadas ao bispo.

É pelos sacramentos que nossa divinização começa e se consuma; o batismo é o penhor e o prelúdio dela, a eucaristia a completa. Nosso autor descreve em detalhe os ritos da missa. De hier. eccl., III, P. G., t. III, col. 394 sq.

Além dos catecúmenos e dos energúmenos, os penitentes, durante todo o tempo de sua penitência, não poderiam assistir ao sacrifício, De hier. eccl., III, P. G., t. III, col. 452, e nosso autor formula o voto de «que os pecadores notórios sejam igualmente excluídos dele.» P. G., t. III, col. 432. A penitência pública, para o fim do século V, continuava em vigor na Síria; mas o pseudo-Dionísio, que disso nos dá testemunho, só nos fala de uma única categoria de penitentes. H. Koch, Hist. Jahrb., 1900, t. XXI, p. 58-78.

Da extrema-unção o pseudo-Dionísio nada nos diz e menciona apenas a cerimônia religiosa da unção do corpo dos defuntos. De hier. eccl., VII, P. G., t. III, col. 556-565.

IV. Influência. — O elevado valor doutrinal do Corpus dionysiacum e a auréola apostólica com que se cingiu a fronte do autor explicam a fortuna da obra; sua difusão foi rápida, sua fama universal, sua ação sobre a teologia especulativa e mística, tanto no Oriente quanto no Ocidente, considerável e duradoura. A Igreja do Oriente vê nela uma espécie de suma teológica que seus melhores escritores interpretam sucessivamente.

Entre os gregos, depois das glosas hoje perdidas de João de Escitópolis, no século VI, e das de são Máximo Confessor, no século VII, P. G., t. XCI, col. 1031-1060, encontram-se, imbuídos do mesmo respeito e do mesmo entusiasmo, os comentários de Jorge Hieromnemon, de André de Creta, do erudito Miguel Psello, de Jorge Pachimeres. No século VIII, são Teodoro Estudita celebrará em seus versos, P. G., t. XCIX, col. 1797, a profunda teologia do Corpus dionysiacum; e a Igreja grega, no século XI, terá feito suas numerosas ideias do pseudo-Dionísio. H. Koch, Hist. Jahrb., 1900, t. XXI, p. 58 sq.

Na Igreja siríaca, Isaac de Nínive, já no início do século VII, havia traduzido o Corpus dionysiacum; e numerosos teólogos do mesmo século ou do século seguinte, Focas de Edessa entre outros e João de Dara, dele se fizeram intérpretes. Foi a versão siríaca oficial que, ao que tudo indica, serviu de base a uma versão árabe, munida da aprovação eclesiástica, como também a duas versões armênias, uma do século VII, outra do século XVII.

No Ocidente, desde que o papa são Gregório Magno citou com honra o Corpus dionysiacum e o papa Martinho I o alegou no sínodo do Latrão de 649, a reputação e a autoridade do pseudo-Dionísio foram crescendo. Os Areopagitica foram enviados primeiramente a Pepino, o Breve, pelo papa são Paulo I; e quando, em 827, o imperador do Oriente, Miguel, o Gago, enviou um segundo exemplar a Luís, o Piedoso, o precioso manuscrito foi depositado e guardado na abadia de Saint-Denis. Estava em grego e, como muito poucas pessoas podiam compreendê-lo, o abade Hilduíno, o mesmo que sustentou a identidade entre o discípulo de são Paulo, o primeiro bispo de Paris e o pai da mística cristã, apressou-se em fornecer dele uma versão latina. Mas, parecendo essa versão defeituosa, Carlos, o Calvo, incumbiu João Escoto Erígena de retraduzir o texto original, e essa foi provavelmente a obra que mais popularizou na Gália a fama do saber de João Escoto. Com efeito, as dificuldades da língua e da metafísica do pseudo-Dionísio provocarão sucessivamente no Ocidente novas traduções latinas, que não eclipsarão, contudo, o prestígio e o crédito da versão do douto irlandês. João Sarraceno no século XII, Tomás de Vercelli no século XIII, Ambrósio Traversari e Marsílio Ficino no século XV, Lefèvre d'Étaples, Clauserus e Perionius no século XVI, Lansselius e Corderius no século XVII, rivalizarão entre si em esforços para facilitar a leitura e a inteligência dos Areopagitica.

A Idade Média faz da obra do pseudo-Dionísio uma das bases de sua teologia escolástica e mística; os teólogos de então elevam o pseudo-Dionísio acima de todos os santos Padres e só reconhecem acima dele os escritores canônicos. Alberto Magno, o doutor universal, e são Tomás de Aquino depois dele, escreverão comentários, aquele sobre a Hierarquia celeste, este sobre os Nomes divinos, e não se cansarão de invocar a autoridade do pseudo-Dionísio, que consideram irrefragável; contou-se que a Hierarquia celeste é alegada cento e quarenta e três vezes por são Tomás de Aquino, e os demais escritos areopagíticos à proporção. P. G., t. III, col. 90-95.

Enquanto Hugo de São Vítor explicará o livro da Hierarquia celeste, são Boaventura imitará o da Hierarquia eclesiástica. O pseudo-Dionísio servirá de guia aos metafísicos em suas especulações sobre o ser e os atributos de Deus, sobre as causas exemplares da criação, sobre as hierarquias angélicas, e de luz aos místicos nas obscuras questões da contemplação e do êxtase. Aos ascetas indicará como a alma pode unir-se a Deus pela via purgativa e iluminativa; os exegetas e os liturgistas aprenderão com ele a buscar, sob a casca dos textos escriturísticos e dos ritos sagrados, um sentido mais profundo; a arte cristã da Idade Média, enfim, trará sua marca.

Ainda não temos da propagação e da ação do areopagitismo na Igreja uma história definitiva. Com a Renascença e a Reforma, a voga do Corpus dionysiacum enfraquece ou mesmo se extingue.

I. Edições. — A edição princeps das obras completas, Florença, 1516, e as edições posteriores de Basileia, 1539, de Paris, 1562 e 1644, de B. Cordier, S. J., Antuérpia, 1634, de Veneza, 1755-1756, de Migne, Paris, 1857, P. G., t. III-IV, quase nada fizeram pela crítica textual. Consultou-se apenas um pequeno número de manuscritos gregos, e não se levou em conta as antigas versões orientais, permanecidas inéditas.

As obras completas foram traduzidas para o francês pelo abade Darboy, Paris, 1845, e pelo abade Dulac, Paris, 1865. Foram-no também para o alemão por Engelhardt, 2 in-8°, Soulzbach, 1823, e para o inglês por Parker, Oxford, 1897. O tratado De hierarchia ecclesiastica foi traduzido para o alemão por Storf, na Bibliothek der Kirchenväter, Kempten, 1877.

II. Trabalhos. — Hipler, Dionysius der Areopagita, Ratisbona, 1861; Id., De theologia librorum qui sub Dionysii Areopagitæ nomine feruntur, 4 progr. do Lyceum Hosianum, Braunsberg, 1871, 1874, 1878, 1885; Stiglmayr, S. J., Das Aufkommen der Pseudo-Dionysischen Schriften und ihr Eindringen in die christl. Litt. bis zum Lateran Konzil 649, in-8°, Feldkirch, 1895; Id., Die Eschatologie des Pseudo-Dionysius, na Zeitschrift für die katholische Theologie, 1899, t. XXIII, p. 4-21; R. Foss, Uber den Abt Hilduin von St. Denis und Dionysius Areop. (Progr.), in-fol., Berlim, 1886; Alzog, Patrologie, trad. franç., Paris, 1877, p. 598-606; Fessler-Jungmann, Institutiones patrologiæ, Innsbruck, 1890, t. I, p. 635-654; O. Siebert, Die Metaphysik und Ethik des Pseudo-Dionysius Areopagita, in-8°, Jena, 1894; H. Koch, Pseudo-Dionysius Areopagita in seinen Beziehungen zum Neuplatonismus und Mysterienwesen, Mogúncia, 1900; Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, nouv. trad. franç., Paris, 1905, t. III, p. 14-20; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., Innsbruck, 1908, t. I, col. 455-459; cf. U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2ª ed., t. I, col. 4169-4172.

Autor original: P. Godet

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